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A mostrar mensagens de março, 2024

25 de Abril para todos

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Na semana passada, uma das minhas sobrinhas mais novas, que anda (creio) no décimo ano, foi entrevistar o tio lá a casa sobre o 25 de Abril. Por muito que tivesse ouvido falar da Revolução, não a viveu na pele e não tinha noção de muitas coisas que se passaram antes desse dia. E, como precisava de fazer investigação para um trabalho escolar e os pais eram ainda demasiado novos em 1974, optou pelo tio, que assistiu em directo a esse «dia inaugural» e que, antes disso, tinha estado envolvido em lutas académicas e acções clandestinas. Ficámos contentes por saber que teve 18 valores no trabalho! Mas, para que os mais pequeninos possam saber o que foi realmente o 25 de Abril, há um livrinho ilustrado publicado na Dom Quixote muito útil e elucidativo chamado O Meu Primeiro 25 de Abril, da autoria de José Jorge Letria e com ilustrações de Helder Teixeira Peleja. O ilustrador já nasceu em Democracia (em 1978), mas o autor do texto era em 1974 jornalista e cantautor e viveu com grande emoção esses dias de alegria na cidade de Lisboa ao lado de pessoas como Zeca Afonso e conta neste livro aos meninos e meninas como tudo aconteceu. É uma boa introdução ao assunto para os piolhos. E aconselho-o porque estou farta de encontrar adolescentes que não fazem já a mínima ideia do que foi este dia tão importante para Portugal.


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Língua rica

O português é um idioma extremamente rico; quando vemos, lado a lado, um dicionário de Português-Inglês e outro de Inglês-Português, imediatamente nos apercebemos de que temos muitíssimos mais vocábulos do que os nossos velhos aliados. E isto passa-se realmente em todos os contextos. Um dia destes, fui jantar fora a um restaurante de bairro e aí encontrei na ementa uns «grenadinos», palavra que não conhecia associada a comida. Uma amiga que tem sempre a internet à mão consultou o telemóvel e logo descobriu que se tratava de uns finíssimos escalopes,  enviando-me o link em que o descobrira, com o qual me diverti nos dias seguintes, pois só em termos de preparação, corte e confecção de carnes a oferta de palavras não pára de aumentar. Vejamos, por exemplo, termos como «lardear» ou «albardar» juntarem-se a vocábulos mais comuns como «atar», «chamuscar», «limpar», «cortar», «desossar», «picar» e «rechear». E, antes ainda de pôr a carne a cozinhar, podemos dividi-la em «escalopes», «bifes», tournedós», «costeletas», «entrecôtes», «medalhões, «supremos», «carrés», «selas», «rojões», «febras» e muito mais (além de «grenadinos», evidentemente, que acima referi). Finalmente, para confeccionar a carninha (estamos quase a poder provar), há várias técnicas à disposição, tais como «fritar», «cozer», «panar», grelhar, «guisar», «estufar», «assar», «saltear», «gratinar», «brasear» (e isto para usar apenas verbos, porque ainda temos coisas como «ao sal» ou «au bleu», mas não vale a pena ser exaustiva). Um dia destes volto com o peixe e com mais uma dúzia palavras que, em inglês, são quase de certeza menos de metade. Claro que a nossa comida também nada tem que ver com a deles, pelo que ler um livro de receitas em Portugal é mesmo uma aprendizagem da língua, lá isso é.

Araucária

Lá em casa raramente vemos televisão (o futebol... enfim, notícias às vezes, pouco mais); mas um dia destes, já não sei bem porquê, estive a assistir com muito agrado a um pequeno documentário sobre a Capicua, que é uma pessoa que fala... e escreve... muito bem; então, lembrei-me de a mencionar aqui no blogue, pois não é todos os dias que uma rapper escreve livros com cabeça, tronco e membros e, sobretudo, sai da sua zona de conforto para escrever um disco inteirinho para uma fadista. Pois é, no dia 22 saiu Metade-Metade, de Aldina Duarte, um álbum que fala muito da natureza (que é também tema de algumas das obras de Capicua) e no qual, sobre as melodias do Fado Tradicional, ressaltam poemas belíssimos que dá gosto ouvir (e ler). O single de promoção está no link abaixo, e é também muito bom ver como é límpida e perfeita a dicção da fadista (são raros os cantores que dizem assim os versos das canções), uma amiga que adora a literatura e está sempre a inventar coisas magníficas, como um disco de fado escrito por uma rapper... Eu, que adoro árvores, fiquei rendida.


https://youtu.be/3-j7TKIgoXw?si=X2wbSiOTjr0if-9I


 

Velhos são os trapos

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«Não é todos os dias — nem todos os anos — que se encontra uma estreia tão fresca, segura e divertida como Escovar a Gata», disse o New York Times, um livro sobre o mundo sensual das mulheres mais velhas escrito por Jane Campbell à beira de fazer oitenta anos. Longe de caírem nos estereótipos da velhice, as protagonistas deste livro delicioso (e por vezes altamente dramático) – tantas  vezes atiradas para lares ou casas de família só por terem passado dos setenta – querem continuar a ter a chave de casa e não deixam que a sua vida seja controlada por outros. Susan descobre-se sexualmente atraída pela sua cuidadora no hospital; ao enviuvar, Linda resolve procurar o homem com quem teve um relacionamento escaldante durante um congresso; Martha, isolada num apartamento em tempos de pandemia, aceita a proposta do governo para desfrutar da companhia de um robô bem-comportado, que engana descaradamente; a avó que vai de comboio ao encontro da neta decide casar-se com o único passageiro da carruagem para não ter de ficar a tomar conta da irmã inválida e prepotente; a senhora que escova a gata do filho recorda, nos movimentos do animal, as próprias experiências sexuais e pensa que a nora há de acabar por pô-las na rua, a ela e à siamesa… Escrito de forma desafiante, cheio de uma sabedoria intemporal, eis uma fantástica lição contra o preconceito e os equívocos que rodeiam a vida das mulheres de idade.


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Excerto da Quinzena

Chegado aqui, vejo-me como se fosse o Fabrice del Dongo, esse personagem do Stendhal, no início da Cartuxa de Parma, que avança, no nevoeiro de Waterloo, ouvindo vagamente o ruído da batalha, mas que não consegue encontrar o ponto em que os exércitos entram em confronto, limitando-se a enterrar as botas na lama num esforço para encontrar o inimigo. Posso dizer, por experiência própria, que não há nada mais cansativo do que andar em cimade um lamaçal. Levantar uma perna é um esforço tão grande como puxar um balde de água de um poço; isto, claro, depois de já termos puxado muitos outros baldes de água. E se o poço for fundo, não vemos sequer se há ou não água que chegue para tirar ainda mais baldes; mas o peso de cada balde redobra quando o puxamos, ouvindo-o bater contra as paredes do poço, provocando um eco que nos bate no ouvido até que não conseguimos ouvir mais nada. Posso comparar esta sensação à que tive ao ler, pela primeira vez, a Cartuxa de Parma sem conseguir parar da primeira até à última linha, como se cada página fosse um desses baldes que eu puxava do fundo da imaginação de Stendhal até chegar à vista dos meus olhos. Fiquei exausto, isto é, ficava exausto no fim de cada página, mas era um cansaço que me obrigava a continuar, sem descanso, sabendo que só no fim, quando o poço ficasse seco nessa última página, e eu estivesse mergulhado num oceano, de tanta água que tirara do poço, teria o repouso ambicionado, embora quase não conseguisse respirar, afogado naquele dilúvio de palavras.


Nuno Júdice, O Café de Lenine

Ler canções

Já tivemos um Nobel da Literatura que era, acima de tudo, um escritor de canções (e Leonard Cohen também já tinha sido indicado, segundo se sabe, ao mesmo prémio). Muitos revoltaram-se porque disseram que não se tratava de literatura, mas, por exemplo, o nosso Sérgio Godinho, além de contos e romances, tem realmente canções que são dignas de todos os elogios e prémios (uma das minhas favoritas é «Com um Brilhozinho nos Olhos»). Saíram já para o mercado vários calhamaços com as letras de Chico Buarque e Vinicius de Moraes (li-os todos!) e tenho guardado um volume menos ambicioso com as letras de Caetano Veloso, já antigo, salvo erro publicado ainda pelas Quasi. Em Portugal, saiu há pouco um livro de João Monge chamado Razão de Ser e Outras Letras, e o único senão é não ter todas as letras que ele escreveu, mas ser apenas uma selecção, embora abarcando um longo período, desde os Trovante até Kátia Guerreiro, António Zambujo, Helder Moutinho, Aldina Duarte e muitos outros. Leia estas canções do autor dos famosos «Lambreta» ou «Zorro», duas das minhas letras preferidas do volume, e vai ver que afinal até gosta de poesia. 

Amor, amor

Ando, como sabem, sempre à volta de palavras e de relações entre elas, tantas vezes do que parecem ser e não são. E um dia destes aprendi algo que não sabia. Apanhei já não sei em que texto que estava a ler uma referência aos «agapantos», uma palavra que não parece, vão desculpar-me, nome de flor, muito menos de uma flor leve, empoleirada num caule fininho, que parece desintegrar-se a qualquer momento se uma rabanada de vento sobre ela soprar. Fui à procura da origem deste nome e descobri que «agapanto» significa «a flor do amor» porque «agape» em latim é amor e «anthos» flor. Confusa sobre a explicação do «ágape» que, para mim, era um banquete bem fornecido, encontrei a justificação: é que «ágape» não é simplesmente uma comezaina, como eu pensava, mas uma refeição de confraternização, ou seja, um banquete entre amigos, gente fraterna, que os primeiros cristãos faziam juntos: um banquete, em suma, onde há amor. Gostei de saber, claro.

O continente em mudança

Costumo promover ou anunciar eventos em Lisboa que creio interessantes para os leitores deste blogue, mas desta feita, como perdi a sessão na capital porque estava tomada por outra coisa nessa tarde, aviso sobre a sessão a norte, no El Corte Inglés de Gaia, amanhã pelas 18h30. E faço-o porque admiro o conferencista, ele próprio nascido no Porto em 1949, chamado José Pacheco Pereira, conhecido por todos. No âmbito de uma programação que responde pelo nome «Sociedade», este senhor que é escritor, político, foi deputado, é blogger, fundador de um arquivo incrível chamado Ephemera e muito mais coisas, vai falar de «O Novo Velho Continente» e explicar muito do que está mal na construção europeia e os «erros, abusos e interesses escondidos atrás da retórica europeia», sem esquecer, evidentemente, o Brexit, que é um dos seus efeitos negativos, e a guerra da Ucrânia, que de certa forma retirou à Europa o estatuto de continente democrático. Diz Pacheco Pereira que o facto de vivermos hoje num novo Velho Continente não é necessariamente bom. Eu, se estivesse em Gaia, iria ouvi-lo sobre o assunto.

Meninas e mulheres

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Fernanda, uma aluna insolente de um colégio elitista da Opus Dei, acorda certo dia com as mãos e os pés atados numa cabana escura no meio da floresta – e este é apenas o começo de uma jornada que tem tudo para ser aterradora. Longe de se tratar de alguém desconhecido, a sua sequestradora é Miss Clara, a professora de Literatura perseguida por um passado violento que Fernanda e as colegas atormentam há meses com vexames e perguntas inconvenientes. Porém, os motivos do rapto revelar-se-ão muito mais complexos do que a mera vingança pelos traumas sofridos na sala de aula e, de certa forma, não deixam de estar ligados ao desejo, ao ciúme e mesmo ao amor. Neste romance imaginativo e extremamente hipnótico, a equatoriana Mónica Ojeda – uma das vozes mais aclamadas da literatura da América Latina – cria em Mandíbula um mundo feminino feroz e implacável, partindo das relações nem sempre claras entre colegas de escola, professoras e alunas, mães e filhas, irmãs e melhores amigas. Viciante e imperdível. A tradução é de Rui Elias e a maravilhosa capa de Rui Garrido.


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Erros gramaticais

Divido com algumas pessoas o horror aos erros ortográficos. Acho deplorável que os jornais e as televisões cometam erros nos rodapés dos noticiários e nas notícias escritas, pois serão lidos por milhares de pessoas que confiam na sapiência desses meios; e agora, que há liberdade para todos escreverem na redes sociais, pior ainda: os erros estão mesmo por todo o lado, vindos por vezes de personalidades que até imaginávamos cultas, mas... Porém, o mais incrível é quando quem quer ser escritor (ou já o é) dá erros de palmatória ou confunde «iminente» com «eminente» (estou constantemente a encontrar este erro). Sei que muita gente me acha uma exagerada, explicando-me que em todas as épocas houve sempre gente a escrever com erros; mas agora uma amiga solidária manda-me um artigo de uma revista francesa que explica que os erros gramaticais não só ferem os ouvidos como... estão preparados?... fazem mal ao coração! É um estudo britânico feito no mês passado que o sugere, mostrando que a frequência cardíaca se altera quando deparamos com este tipo de erros e que o nosso stress aumenta em conformidade. E, se não acreditam, aqui vai o link, com o qual se podem entreter no fim-de-semana. Até segunda!


Les fautes de grammaire n’écorchent pas seulement les oreilles, elles nuisent aussi à notre santé - Edition du soir Ouest-France - 04/03/2024

Index

Uns dias antes de sair para as livrarias um livro maravilhoso cuja acção decorre numa escola de elite da Opus Dei (escreverei aqui sobre ele oportunamente), falo de um artigo que guardei sobre a quantidade de livros portugueses que estão proibidos por esta instituição e só tive tempo de ler agora. Os livros sempre foram malquistos por certas organizações e muitos deles, como todos sabem, foram queimados pela Inquisição e, mais tarde, pelos nazis que deles fizeram fogueiras públicas. A Igreja também chumbou a leitura de obras que a ofendiam ou iam contra os seus dogmas, e a escola fascista que frequentei durante a ditadura censurava os «fi de puta» de Gil Vicente nos livros escolares. Mas eu desconhecia que a Opus Dei em Portugal tivesse um index tão extenso (mais de 30 000 livros!) de  proibições e que, entre as mais ou menos evidentes, como o Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, ou A Relíquia e o Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, constassem obras de Lídia Jorge, como A Costa dos Mumúrios ou O Dia dos Prodígios,não se terão mesmo enganado? Faz-me lembrar há muitos anos uma livraria católica em Évora que não quis comprar exemplares de O Primeiro Éden, de David Attenborough, por achar que o Éden era outra coisa, e os censores do Antigo Regime que confiscaram uma biografia de Nijinski só porque lhes cheirou a russo. Brinco, mas não devia...

Amor, ciência, comida e muito mais

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Já aqui falei de Os Dias de Saturno, de Paulo Moreiras, um romance escrito há uns anos que o autor quis aperfeiçoar e que regressou às prateleiras das livrarias no mês passado pintado de fresco. Como tudo aquilo a que o Paulo Moreiras nos habituou, não só a história é admirável, cheia de peripécias e reviravoltas surpreendentes e tragicómicas, misturando personagens reais e fictícias, amor e comida, como a linguagem é incrivelmente cuidada, com expressões deliciosas que ele resgata da literatura pícara e das centenas de dicionários que consulta. Amanhã será o lançamento desta nova versão em Lisboa, e a apresentação caberá a um outro escritor, João de Melo, que é um autor que, ao contrário de muitos, sempre leu as gerações de escritores que lhe sucederam, e é também um excelente orador, pelo que vamos ter de certeza um bom momento! Vemo-nos lá? Aqui fica o convite.


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Um inédito do mestre

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«Todos os anos, a 16 de agosto, Ana Magdalena Bach apanha o ferry que a leva até à ilha onde a mãe está enterrada, para visitar o seu túmulo. Estas viagens acabam por ser um convite irresistível para se tornar uma pessoa diferente durante uma noite por ano. Ana é casada e feliz há vinte e sete anos e não tem motivos para abandonar a vida que construiu com o marido e os dois filhos. No entanto, sozinha na ilha, Ana Magdalena Bach contempla os homens no bar do hotel, e todos os anos arranja um novo amante. Através das sensuais noites caribenhas repletas de salsa e boleros, homens sedutores e vigaristas, a cada agosto que passa Ana viaja mais longe para o interior do seu desejo e do medo escondido no seu coração. Escrito no estilo inconfundível e fascinante de García Márquez, Vemo-nos em Agosto é um hino à vida, à resistência do prazer apesar da passagem do tempo e ao desejo feminino. Um presente inesperado de um dos melhores escritores que o mundo já conheceu. A tradução é de J. Teixeira de Aguilar.» Assim anuncia a editora o inédito de García Márquez, de que Saramago ouviu ler ao vivo umas páginas num encontro de escritores e nunca mais esqueceu. Um livro que o mestre colombiano andava a burilar havia muito e não chegou a publicar em vida, mas que os herdeiros acharam que não desmerecia o Senhor Nobel e que acaba de ser editado em todo o mundo. Eu cá vou ler, mais alguém?


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Começar bem a semana

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Sei que a maioria dos leitores deste blogue não costuma ler poesia. Sei-o até pela ausência de comentários quando é sobre poesia ou livros de poesia o post que aqui escrevo, mas não desistirei  nunca de a mencionar, até porque acho que, em muitos casos, existe apenas preconceito e que a leitura de certos poemários tirarariam da boca de muitos o tal «não gosto de poesia» que tantas vezes vejo escrito ou ouço. O livro que hoje vos trago é, de resto, obrigatório para quem queira passar uma horas boas ou simplesmente espreitar de vez em quando. Porque reúne o melhor, a nata da nata, de muitos pequeninos livros dispersos por editoras várias e nem sempre fáceis de encontrar. Falo de Taludes Instáveis (Poemas Escolhidos), de José Carlos Barros (autor que já ganhou o Prémio LeYa com o romance As Pessoas Invisíveis), que foi prefaciado por Francisco José Viegas, outro autor de poesia e prosa e, além disso, um conterrâneo, uma vez que ambos os escritores são transmontanos e entendem muito bem a Natureza de que falam. José Carlos Barros, que foi um do autores descobertos pelo DN Jovem (como Riço Direitinho, José Luís Peixoto e tantos outros) é, quanto a mim, um dos poetas mais significativos da contemporaneidade e foi um prazer poder fazer este livro com ele. Já está, de resto, na minha cabeceira. Para ler e saborear aos poucos. Imperdível. Deixo-vos a capa e um cheirinho:


Pedia-te apenas


 


Lembro-me desse tempo em que dizias


«faço tudo por ti meu amor».


E eu pedia-te apenas que te suspendesses das nuvens


ou que caminhasses vagarosamente sobre as águas


dos grandes lagos


da península.


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Excerto da Quinzena

Apesar deste ambiente quase perfeito, ocasionalmente ouvia alusões a conflitos passados, situações que haviam sido, na opinião da maioria das pessoas, criadas pelas alunas. Uma vez, soube, uma aluna grávida e prestes a abandonar o colégio – os pais queriam obrigá-la a ter a criança e a viver fora do país – atirou-se do primeiro andar do edifício do BGU. A rapariga e o feto sobreviveram, mas uma professora que já lá não trabalhava denunciou à direção que Alan Cabrera passara muito tempo a discutir com a aluna e as suas colegas os pecados do aborto. A rapariga grávida saiu tão consternada de uma das aulas de teologia que pouco depois se atirou do primeiro andar. A professora que denunciou o caso também se queixou nas redes sociais das políticas institucionais do Delta e acusou-os de perpetuarem a violência contra as mulheres. Essa professora, obviamente, foi despedida, mas houve mais algumas professoras que sentiram a beligerância do discurso de Alan Cabrera nas suas salas de aula, apesar de não se atreverem a comentá-lo para além dos corredores do colégio. Em situações destas, pensava Clara, não se podia fazer nada: os pais das alunas apoiavam o tipo de educação que ali recebiam e, por essa razão, todos os anos pagavam enormes quantidades de dinheiro para a celebração de cerimónias e atividades da Opus Dei. «Este é o lugar ideal para trabalhar», disse-lhe Ángela no dia em que tomaram café juntas. «Desde que de vez em quando saibas fazer de surda, cega e muda.»


 


Monica Ojeda, Mandíbula, tradução de Rui Elias

Anedotas

Recuso muitos convites porque mos fazem em cima da hora e já não consigo corresponder. Mas um dia destes esqueci por completo que tinha um compromisso (vá lá, o Outlook lembrou-me a tempo) porque, na verdade, a conversa sobre o assunto já tinha sido há quase um ano. Sobre a antecedência «excessiva», conheço, aliás, uma história deliciosa. Um escritor em princípio de carreira é convidado por uma biblioteca de província (passa-se em Espanha) para fazer uma leitura dos seus poemas daí a oito ou nove meses. Porém, no início do ano, o bibliotecário reforma-se, vem uma pessoa nova substituí-lo, essa pessoa entra de baixa por doença uns meses depois, e desaparece de certo modo o rasto de sessões agendadas no ano anterior. Mas, no dia aprazado, o escritor novato mete-se no carro, leva a velha pasta que herdou do pai, e aparece à hora indicada na biblioteca, de pasta na mão. Dirige-se ao balcão e diz que está ali para fazer a leitura. Então, a senhora sai de trás do balcão e leva-o até um corredor, dizendo-lhe: «É aqui.» Confuso em relação a qual das portas pertence à sala onde deve entrar, ele indaga: «Aqui onde?» É quando a funcionária abre um armário de parede, deixando à mostra o quadro de electricidade. «Não disse que vinha fazer a leitura?» Bem, isto nunca me aconteceu, ainda bem, mas um autor meu já fez uma viagem intercontinental para participar de um festival que, afinal, não tinha sido diivulgado nem tinha público... Ele passou uns dias de praia e turismo óptimos, ganhou o cachet sem ter de fazer nada e voltou à pátria. Histórias dignas de Vila-Matas.

O meio literário

Ontem falei de adaptações cinematográficas e hoje volto à carga, pois um dos meus autores, pessoa sempre atenta ao panorama editorial em Portugal e lá fora, sugeriu-me que visse um filme que até certo ponto descreve bem o estado de coisas a que se chegou. Trata-se de uma longa metragem candidata a vários óscares (cinco, creio), baseada num livro de Percival Everett (já aqui falei deste autor que foi finalista do Man Booker Prize a propósito de um documentário sobre escrita criativa). Tem por título Ficção  Americana e fala de um autor negro, médico e professor do Ensino Superior, admirado pela academia e pelos pares, mas cujos livros são cada vez menos lidos. Decide então escrever uma autêntica estopada politicamente correcta de ataque ao poder branco na América, que acaba por ser vendida em todo o mundo, incluindo para uma grande adaptação cinematográfica (a conversa com o futuro realizador é hilariante). Para isso contribui igualmente o facto de o agente inventar que se trata da obra de um criminoso que está preso e não poder, por isso, revelar a sua verdadeira identidade. Pelo meio, é-nos contada a história da família do escritor, cuja mãe começa a revelar os efeitos da Alzheimer e cujos irmãos viveram pelos vistos bastante afastados da estrela intelectual. Vale a pena ver, claro, nem que seja para percebermos o que o mundo dos livros está a atravessar.

Adaptações

Um dia destes fui, muito curiosa, ver o filme Zona de Interesse. Tinha lido o maravilhoso romance homónimo de Martin Amis em que a película se baseia e queria ver como o cineasta Jonathan Glazer o transformara numa outra linguagem. Acho que preferimos quase sempre o livro, mas respeitamos uma metamorfose bem feita; neste caso, fiquei desiludida, pois o humor britânico de Amis (tão criticado por se tratar de um livro sobre um assunto demasiado sério: a gestão dos campos de extermínio), presente desde logo na invenção de um nazi que tem uma vida de dandy paredes-meias com o campo de Aushwitz, não aparece quase nunca no filme, que se desenha completamente germânico e frio, se calhar como convém ao realizador. Outro filme que me deixou curiosa e deve ter estreado há dias foi O Vento Assobiando nas Gruas, da realizadora suíça residente em Portugal Jeanne Waltz, que nos leu e avaliou muitos originais na Temas e Debates quando eu era lá editora e publicava então muita ficção portuguesa. Desta feita, trata-se de um romance de Lídia Jorge que decorre nos anos 1990 e conta uma história de amor. Vamos ver?

O beijo do morto

Na semana passada, nas Correntes d'Escritas, foi muito bom participar dos lançamentos dos novos livros de Juan Vicente Piqueras (O Quarto Vazio) e João de Melo (Longos Versos Longos). Deste último falarei mais tarde aqui no blogue, mas queria dizer desde já que o livro de Piqueras é belíssimo e, como o título indica, fala da morte. No entanto, o autor espanhol (quase valenciano) contou uma história hilariante nas Correntes d'Escritas: que, na pequena aldeia donde eram os avós (camponeses analfabetos) e onde passou a sua infância, era costume, quando alguém morria, as crianças irem beijar a pessoa morta. Ora, explicou ele, sendo os rapazes deste meio pouco dados a mimos e bastante ariscos, chegavam à adolescência e percebiam que praticamente só tinham beijado mortos até então, pelo que de repente só queriam namorar as miúdas todas do lugar. A sua intervenção foi, de resto, muito bonita, entremeada pela leitura de poemas, mostrando que este livro já premiado lá fora tem absolutamente de ser lido. Mesmo aqueles que habitualmente não compram poesia, não terão razão para não abrir a excepção. A edição é da Assírio & Alvim.

O que ando a ler

Leio menos ensaio do que gostaria, mas, por deformação profissional, estou treinada sobretudo para ler ficção, encontrar autores, perceber o que está a mudar na arte de contar histórias. Porém, agora leio um ensaio maravilhoso, que já comprei há muito e estava lá por casa à espera de uma brecha. Soube que um colega o andava a ler e o seu entusiasmo pegou-se-me; então, mal terminei o romance que tinha em mãos, passei a Regresso a Reims sem mais demoras, até porque o livro de Didier Eribon é também uma história como as da ficção, a de um rapaz que nasceu num meio extremamente pobre e bruto e sai de casa assim que pode (até porque é homossexual e o pai e os amigos deploram pessoas como ele), não regressando senão muitos anos depois, quando já a mãe está sozinha e a relação com ela finalmente se recupera. Esse regresso a Reims é realmente poderoso, porque Didier Eribon entende que não era afinal da homossexualidade que teve vergonha (já escreveu sobre este assunto noutro ensaio que foi, aliás, libertador para muitos), mas das suas origens sociais. Colocando-se, assim, no centro da narrativa, ele analisa sociologicamente o tempo da sua infância e mesmo o tempo que antecedeu o seu nascimento (a vida tremenda de ambos os progenitores) para analisar as razões por que cresceram tanto os votos na Frente Nacional, incluindo no seio da sua família, que votara sempre no Partido Comunista. Elogiado por muitos, incluindo a falecida romancista Hilary Mantel, Regresso a Reims é um livro sobre as desigualdades de sempre e o que estas provocam no futuro.