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A mostrar mensagens de dezembro, 2021

Excerto da Quinzena

Esta semana o excerto chega mais cedo, à quinta-feira, com desejos de Boas Festas, muita saúde, um Natal feliz e, claro, boas entradas em 2022. Eu cá só volto no dia 3 de Janeiro, até porque neste período já estamos todos a pensar em tudo menos no trabalho. Leiam e não comam demais (o excerto explica porquê):


Descontente consigo própria, a pessoa com excesso de peso que era Marion saiu do presbitério. Ao pequeno‑almoço tinha comido um ovo quente e uma fatia de tor­rada muito devagar, em pequenas trincadelas, seguindo o conse­lho de uma articulista da Redbook que afirmava ter perdido dezoito quilos em dez meses, e que a Redbook fotografara com uma espécie de fato de treino à Barbarella, a mostrar a sua cintura futurística de inseto, e que tinha também aconselhado emborcar uma lata de uma bebida de emagrecimento nacionalmente publicitada em vez do almoço, fazer três horas de exercício vigoroso todas as sema­nas, repetindo mantras como O que na boca é obra de um momento, nas ancas são anos de tormento, e comprar e embrulhar um pequeno pre­sente para si própria para abrir sempre que conseguisse perder x quilos. Com a exceção do sortido de comprimidos para dormir para uma década, não havia presente que Marion quisesse o suficiente para servir de recompensa, mas tinha começado obedientemente a frequentar aulas de ginástica na Igreja Presbiteriana às terças e quintas‑feiras de manhã, e teria ido hoje se Judson não estivesse em casa. Privada da devida meia sanduíche, com maionese, a que uma hora de queima de calorias na Presbiteriana a autorizaria, almoçara dois talos de aipo com queijo fundido nas estrias. Estes tinham‑na levado quase até à porta, rumo ao plano inclinado de uma tarde sem tentações, mas um dos biscoitos que fizera com Judson tinha‑se partido ao meio. Vendo‑o partido num tabuleiro de arrefeci­mento, no meio dos seus colegas inteiros, sentiu pena dele. Era a sua Criadora, e comê‑lo era uma espécie de obra de misericórdia. Mas a sua doçura tinha‑lhe despertado o apetite. Quando o descon­tentamento a apanhou, já tinha comido mais cinco biscoitos.


Jonathan Franzen, Encruzilhadas, tradução de  J. Teixeira de Aguilar

Era uma vez

Aqui há dias falei na sessão de apresentação das Obras de Mário Soares; e não me sentiria bem comigo mesma se falhasse uma referência ao livro Era uma vez Jorge Sampaio, apresentado, ao que parece, no mesmo local e no dia imediatamente a seguir. Jorge Sampaio já tinha sido objecto de extensa biografia, baseada nos seus imensos «caderninhos diários», mas agora trata-se de algo bem diferente: um volume reunido por amigos mais ou menos próximos (João Bonifácio Serra, José Gameiro, José Pedro Castanheira, Jorge Simões...)  que pediram a 250 pessoas (é obra!) que recordassem em poucos parágrafos uma história com o ex-presidente ou dessem um testemunho sobre o que nele mais admiraram. Da família aos amigos de seis e sete décadas, colegas de liceu e da faculdade, companheiros nas lutas políticas, no exercício da advocacia, na Câmara de Lisboa, no Partido Socialista, na Presidência da República, na defesa dos Direitos Humanos, muitos são os que contribuem com belos textos sobre Jorge Sampaio (incluindo Cavaco Silva!), não falhando também as imagens escolhidas por muitos fotojornalistas que acompanharam a carreira política deste homem singular. Uma justa homenagem.

As listas

Valem o que valem, é a verdade, as listas dos melhores livros, álbuns, filmes, peças de teatro, exposições, que os jornais publicam no final de cada ano. Em Portugal, custa-me dizer, não valem assim muito porque, no que toca, por exemplo, aos livros, estes são distribuídos pelos críticos e, portanto, o que um lê o outro habitualmente não lê, ou seja, haverá poucas obras que todos leram e todos gostaram (o «melhor do ano» é o que tem mais votos, em suma). Mesmo assim, as listas são um bom indicativo do que se anda a publicar e, quanto às estrangeiras, elas já foram um excelente guia para nós, editores, sobre o que ia saindo lá fora e o que fazia sucesso, num tempo em que não havia Internet e, como tal, só tínhamos conhecimento dos livros depois de estarem publicados. Hoje, recebemo-los ainda em Word ou em provas num PDF, e às vezes querem que os compremos com apenas uma sinopse, sobretudo se o autor for conhecido. Por isso, há já muitos livros nas listas de jornais estrangeiros que já estão publicados em Portugal e que até saíram ao mesmo tempo que a edição original (lembro-me de que isso aconteceu, por exemplo, no passado com alguns volumes da série Millenium ou com a biografia de Mandela). Em todo o caso, como gosto sempre muito de bisbilhotar o jornal The Guardian, deixo-vos a lista deste ano dos seus críticos.


The best books of 2021 | Best books of the year | The Guardian

Humanidades e tecnologia

Num mundo hiperdigitalizado como aquele em que hoje vivemos, as Humanidades ainda terão lugar? Ao que parece, sim; e muitos dos que dirigem empresas profundamente tecnológicas vêm, surpreendentemente, das chamadas Letras: Susan Wojcicki, directora executiva do YouTube, estudou História e Literatura; Reid Hoffman, co-fundador do LinkedIn, e Stewart Butterfield, co-fundador da Flickr y Slack, licenciaram-se em Filosofia; e Carly Fiorina, ex-directora executiva da Hewlett-Packard, é formada em História e Filosofia Medieval. Os seus contributos para a reflexão sobre o futuro da ciência, a criatividade e o pensamento crítico são cada vez mais necessários ao desenvolvimento da sociedade tecnológica, sobretudo em matéria de tratamento de dados e inteligência artificial (IA). Aliás, as empresas de IA nos Estados Unidos contratam cada vez mais pessoas de Humanidades, especialmente gente ligada à comunicação, que saiba explicar ao público determinados conceitos e procedimentos, e também especialistas em ética. Há até uma máxima em Silicon Valley neste momento que, no fundo, se traduz por «Menos tecnologia, mais Platão», o que tem a sua graça se pensarmos que, de facto, as pessoas andam sempre agarradas às máquinas e parecem menos pensantes do que quando não as tinham. Será que as coisas estarão a mudar ou é só uma inversão, ou seja, o digital mete-se nas letras e as humanidades nas ciências? Leia-se sobre este assunto um artigo bem interessante no El País do último dia 10. Foi dele que tirei algumas das questões que acima ponho.


El relevante papel de las humanidades en un mundo cada vez más tecnológico | Futuros Educación | EL PAÍS (elpais.com)

Leonor Xavier (1943-2021)

Começámos mal esta semana. Morreu-nos a escritora e jornalista Leonor Xavier, sobre a qual sempre se dirá que era alguém realmente especial. Acho que ainda o meu pai era vivo quando falei com ela pela primeira vez, na antiga Feira das Indústrias de Lisboa, já não sei bem à saída de que evento, pois o Raul Solnado, com quem a Leonor viveu muitos anos, era um amigo próximo do meu pai nos últimos anos das vidas de ambos. Mas, ao longo do tempo, estivemos imensas vezes juntas, quer nas editoras por onde eu fui passando, quer em festivais ou feiras do livro, quer até em almoços ou jantares por esta ou aquela razão (lembro-me de um no Ritz por ocasião de um saudoso Prémio Máxima). E a Leonor era aquela pessoa que tinha sempre uma palavra agradável para os outros, que, com a sua capacidade de estar com todos, tinha amigos de todos os quadrantes políticos, que tinha uma forma de viver tão positiva que nem nas piores alturas da sua doença acreditámos que iria abandonar a vida, porque tinha a força de um boi e deve ter iludido a morte um montão de vezes. Jornalista e escritora, biografou Maria Barroso, Rui Patrício e Raul Solnado e escreveu sobre a sua experiência com o cancro e sobre a sua vida em Passageiro Clandestino e Casas Contadas. Aguarda-se em 2022 o seu livro Adolescência, que deixou entregue na editora. Que descanse em paz, como se costuma dizer.

Mário Soares, a obra

Como trabalhei alguns anos numa editora de certa forma associada ao Círculo de Leitores, que era quem então publicava os livros de Mário Soares, fui muitas vezes a apresentações por esse país fora com ele, e era sempre um gosto ouvi-lo e ver como tinha tantos admiradores, mesmo entre os mais jovens. Era, além de uma pessoa incrivelmente inteligente, um homem com imenso humor e sempre com um sorriso para toda a gente, nunca mal-encarado. Há uns dias, fez-se na Fundação Calouste Gulbenkian a apresentação do volume zero das suas Obras Completas, que muito provavelmente chegarão aos 20 volumes, já que o antigo Presidente da República era um homem que escrevia muito e, ao que sei, nunca se chegou ao digital. Nessa sessão, contou-se uma história muito divertida. Mário Soares convidou o poeta e artista plástico Mário Cesariny para um evento no Palácio de Belém e este respondeu que não podia ir, pois não tinha um fato escuro nem dinheiro para o ir comprar. Então, o Presidente respondeu-lhe que viesse com o fato claro, até porque, com aquela sua magreza, o fato escuro não devia ficar-lhe nada bem. Agora, sem o homem, leia-se a sua obra.

Grandes ideias

No prefácio a Livros, título do novo projecto do cantautor João Afonso, o jornalista Carlos Vaz Marques escreve que «cada livro tem dentro dele uma música própria à espera de quem a escute» e que «nos seus melhores momentos, livros e canções são fruto da mesma raiz». Tem razão. João Afonso, como explicou recentemente em entrevista à TSF, resolveu pegar em livros que tiveram uma importância decisiva na sua formação e musicou-os, transformando o seu trabalho num objecto muitíssimo especial, que é um livro/CD de 70 páginas com contributos de vários artistas plásticos, ilustradores, fotógrafos e autores portugueses, de André Letria a Isabel Rio Novo, de Henrique Cayatte a Jorge Silva Melo, de Augusto Brázio a Ricardo Araújo Pereira, para citar apenas meia dúzia. Com arranjos de Miguel Fevereiro, estas canções literárias vestem-se de voz e guitarra e inspiram-se em obras juvenis como O Principezinho, Tintim ou A Ilha do Tesouro, mas também em livros mais exigentes, como Metamorfose, de Kafka, A Relíquia, de Eça, ou mesmo os enormes clássicos como a Bíblia ou a Odisseia. Mas que boa ideia esta de casar música e livros! Estou morta por ouvir.

Uma medida necessária

Quando hoje lemos notícias, artigos de opinião, crónicas, etc., num jornal ou revista, não raro descobrimos erros de ortografia, pontuação, faltas de concordância, palavras usadas com um sentido que não têm... Nos rodapés das televisões acontece tanta vez que o Facebook está cheio de partilhas de fotografias de ecrãs com erros de palmatória. Ora, os meios de comunicação, que chegam a tanta gente, tinham obrigação de ter mais cuidado com o português pois podem ser responsáveis pela disseminação das incorrecções que publicam. Soube que há um jornal no Brasil, a Folha de S. Paulo, que se preocupa seriamente com esta questão. Todos os dias os jornalistas e colunistas da Folha recebem uma mensagem de uma linguista contratada sobre os erros encontrados no jornal do dia anterior, a sua correcção e uma explicação detalhada dos porquês de ser dessa maneira, e não de outra. Pode parecer que os jornalistas recebem a mensagem e a apagam sem ler, mas não, porque a verdade é que têm certamente medo de que os erros tenham sido feitos por eles próprios e querem de certezinha aprender de uma vez por todas para não sofrerem mais nenhuma «humilhação» junto dos confrades. Eu acho uma excelente prática que deveria ser adoptada por todos os media para o nosso bem comum. E, já agora, vou escrever a um comentador da TSF que passa a vida a dizer «ciclo vicioso» em vez de «círculo vicioso», o que é extremamente irritante num homem da sua importância.

Um poeta a ganhar na prosa

Na semana passada, como certamente se deram conta, foi anunciado o vencedor do Prémio LeYa 2021, em cuja lista de finalistas estavam catorze romances. Eram, pela primeira vez, mais de uma dezena (o máximo estabelecido pelo regulamento para enviar aos jurados), mas a colheita era boa e, como no ano passado, por conta da pandemia, o prémio foi interrompido, o júri aceitou ler uma dose maior. A impressão geral sobre o nível dos concorrentes foi boa e, ao  que parece, haverá mais livros além do vencedor para publicar; mas a escolha do galardoado foi unânime e teremos um poeta entre os romancistas que já arrecadaram o prémio. Chama-se José Carlos Barros! O autor é arquitecto-paisagista e transmontano (com um sotaque bonito que não perdeu, apesar de viver no Algarve há muitos anos). Já esteve ligado à gestão autárquica e foi deputado à Assembleia da República, onde teve a pasta do Acordo Ortográfico. Escreveu pelo menos dois romances, O Prazer e o Tédio (adaptado ao cinema) e Um Amigo para o Inverno (finalista do Prémio LeYa em 2012), um livro maravilhoso sobre um episódio real acontecido em ditadura que poucos conhecem. E agora é o mais recente vencedor do Prémio LeYa com As Pessoas Invisíveis, que espero que seja tão bom como os anteriores e a sua poesia. Enquanto este não chega, leiamos os já publicados.

Excerto da Quinzena

Chegámos a Boston num autocarro da Greyhound. As ruas estavam resplandecentes, os contornos dos edifícios definidos, as linhas exactas. A cidade tinha qualquer coisa de familiar, uma atmosfera demasiado europeia para aquilo que procurávamos. Precisávamos de sair dali depressa. Esperámos pelo Rui deitados na relva do Boston Common. Vários grupos de rapazes e raparigas jogavam futebol americano, ou frisbee, ou faziam ioga. Havia uma transparência desarmante em todos os seus gestos, uma segurança evidente na forma como se moviam: estavam felizes, certos de que cada coisa se encontrava no devido lugar. Não parecia existir neles a necessidade de sair em busca de vidas alternativas. Possivelmente, nas suas cabeças, o mundo fora daquele parque estava coberto por uma neblina cerrada.


– Esta merda é completamente Hemingway – comentou o Marco.


– Eu sei. Até mete nojo.


–Temos de deixar estas cidades bonitinhas. Para isto tínhamos ficado em Lisboa. Temos de ir para sul.


 


David Machado, A Educação dos Gafanhotos

Jornal crioulo

Quando ouvimos alguém falar crioulo, há de vez em quando uma palavra em português que salta da conversa mas não destoa. O português entretece-se naturalmente com o crioulo (que não tem algumas palavras para certas coisas) e, com tantos caboverdianos em Portugal é até estranho que ninguém antes se tenha lembrado de fazer revistas ou jornais em crioulo por cá... Mas nunca é tarde, e a Mensagem de Lisboa já deu o passo, aproveitando ter recebido uma bolsa de jornalismo europeu da Newspectrum para línguas minoritárias. O padrinho desta bela iniciativa será o artista Dino d'Santiago, e vai coordenar o projecto a jornalista e cantora Karyna Gomes, que estudou jornalismo em São Paulo e já trabalhou para a Associated Press e a nossa RTP. A notícia foi dada pelo próprio jornal Mensagem de Lisboa, dirigido por Catarina Carvalho, com o que poderia ser um primeiro título em crioulo, cheio de palavras começadas por K, e é menos fácil de compreender do que eu pensava. Mas vai dar para aprendermos crioulo, porque as notícias serão bilingues e assim chegamos lá por comparação. Numa Lisboa que é mulata há séculos, calculo que se trate do primeiro jornal português-crioulo. Se Dino d'Santiago diz que se trata de um enorme passo para a humanidade que espera ver replicado noutros territórios europeus, eu só posso concordar e aplaudir aqui do meu cantinho. Parabéns a quem foi da ideia! Leiam o primeiro artigo de todos aqui:


https://amensagem.pt/2021/12/02/lisboa-crioula-projeto-jornalismo-mensagem-dino-dsantiago-kriolu-preconceito/?utm_medium=email&mc_cid=0a2a49c2dd&mc_eid=c4234557ea


 

Natália

Já sabem que não sou muito «televisiva» e, embora acredite que há séries francamente boas, é muito raro dispor-me a ver uma até ao fim, principalmente porque estou sempre a perguntar-me se não deveria aproveitar esse tempo para ler, pois a idade avança e cada vez há mais livros à minha espera. No entanto, um dia destes resolvi alinhar em ver um documentário intitulado Insubmissa em dois dias seguidos (são mesmo duas partes, antes e depois do 25 de Abril) sobre a escritora Natália Correia, essa mulher telúrica que chegava e logo vencia pela aparência, a coragem, as ideias, a voz, a frontalidade. A realização é assinada por Joaquim Vieira e a investigação e o roteiro são da romancista e guionista Filipa Martins, que já tinha colaborado em vários filmes e séries (Três Mulheres, Bem Bom, etc.) e que aqui intervém também como «a ouvidora» de todos os testemunhos; e são muitos, pois não só assistiremos a conversas com pessoas que sempre soubemos das relações de Natália, como Helena Roseta ou Fernando Dacosta (este último escreveu até sobre o Botequim, bar que foi uma espécie de casa de Natália aberta ao público), mas também vários desconhecidos que com ela privaram, como o empregado do bar, o jovem pianista que lá tocava ou uma professora de Matemática muito sua amiga. Gostei! Um ritmo muito inesperado, boa música de fundo (embora às vezes um pouco alta), muitas novidades, um retrato extraordinariamente bem feito de uma escritora e mulher muito especial. Até, vejam lá, em matéria de intimidade... A certa altura alguém conta que, por ocasião de uma sua participação num determinado evento fora de Lisboa, no hotel só lhe reservaram um quarto e Natália não ia sozinha. Ela fez uma fita: mas como era possível dormir na mesma cama com um homem? Só para saberem, o senhor que a acompanhava era... o marido. Vejam o documentário na RTP PLAY, que vale muitíssimo a pena.

Palavrões

Um dia destes, o linguista Marco Neves, autor de vários livros e de um blogue já aqui referidos, perguntava-se qual seria o palavrão mais comum usado em Portugal para poder responder à curiosidade de um amigo estrangeiro. E, hesitando na entrega de uma solução que não correspondesse à verdade, acabou por usar o Facebook para fazer uma espécie de inquérito a pouco mais de uma centena de pessoas. Não ficou muito convencido com o resultado (the f word), avançando que, se os contributos tivessem sido mais numerosos, o mais provável era ter chegado ao mais suave "merda" (a proposta era cada um dizer o que lhe sairia pela boca se desse uma topada na perna da mesa). Comigo, acertaria no "merda" (não vou muito além disso, confesso); mas vejo tanta miudagem a dizer "fogo" pela boca fora que, na verdade, talvez o veredicto fosse mesmo a palavra vencedora, que enfeita capas de livros (fazendo-os vender como pãezinhos quentes) com o subterfúgio do asterisco em vez do O. Mas onde terão ficado as saborosas imprecações que a minha avó usava em maus momentos, como "Raios", "Irra", "Poça", "Arre" ou "Livra"? Será que já desapareceram ou desaparecerão em breve com a morte dos mais velhos? Vamos deixar que os nossos ouvidos se acostumem ao "fogo" e ao "fosga-se", ou mesmo àquele palavrão bem nortenho que ainda faz corar, ou rir, os sisudos lisboetas? Já pensou qual é o seu palavrão?

Entre | Vistas

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O site Entre | Vistas, que já aqui referi mais de uma vez, já leva sete anos de vida. Parabéns a esta plataforma digital, como hoje se diz, que publicou ao longo do tempo centenas de conteúdos extremamente interessantes (entre outros domínios, na área do livro e das viagens) e foi parceira de eventos culturais emblemáticos, como o Bode Inspiratório, projecto que juntou dezenas de escritores e artistas plásticos num «folhetim à antiga» e valeu a Paula Perfeito um convite para marcar presença no último FOLIO. São mais de sessenta entrevistas a figuras de todas as disciplinas, que têm coisas para dizer, histórias para contar e ideias para partilhar e debater. José Luís Peixoto, Carlos Mendes de Sousa, Chakall, Rosa Montero, Marina Costa Lobo, Pedro Norton de Matos, Afonso Cruz e muitos mais dão-se a conhecer nas respostas a perguntas que nunca são as banais e favorecem uma conversa que vale sempre a pena acompanhar. As recensões e os artigos sobre locais a visitar (dentro e fora de Portugal) também são muito úteis, bem como algumas notícias e informações sobre eventos e prémios, como o Prémio Camões atribuído recentemente a Paulina Chiziane. Os sete anos mereceram um novo logo bem bonito, de Sara Vaz Pinto, que aqui reproduzo. Vale a pena visitar.


www.entre-vistas.pt


Logótipo Entre_Vistas - 7 ANOS.png


 

O que ando a ler

Às vezes, os amigos editores oferecem-nos livros que publicaram, querendo partilhar connosco a alegria de uma escolha. Recentemente, aconteceu-me com uma colega da Quetzal e recebi de presente o magnífico O Esplendor dos Brunhoff, de Yseult Williams, que conta a história de uma família europeia que é praticamente desconhecida do grande público, apesar dos seus feitos notáveis e das figuras que constituíam a teia das suas relações pessoais. A história deste clã narra-se a partir do patriarca Maurice (antes Moritz) de Brunhoff (1861-1937) no tempo da guerra franco-prussiana e passa para a geração dos seus filhos magníficos, entre os quais se encontram o ilustrador do elefante Babar e a directora da revista Vogue em Paris (o marido desta última, Lucien Vogel, é uma personagem igualmente fascinante). Porém, se esta família passou quase incógnita, foi certamente porque pelos corredores das suas casas andaram muitas pessoas cujos nomes acabaram por ofuscar o dos Brunhoff, como Diaghilev, Jean Cocteau, Picasso, Dior ou Chanel. Apesar de discretos, os Brunhoff, para que se saiba,  já davam cartas no início do século XX e estão ligados à edição das primeiras revistas de moda francesas (sendo uma delas a Gazette du bon ton), bem como à fotografia artística, à imprensa e à arte em geral. Não se livraram, mesmo assim, de duas guerras mundiais e dos campos de extermínio na Polónia. O seu destino consta desta biografia aliciante que ando a ler.