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A mostrar mensagens de setembro, 2025

Os quadros de Nuno Júdice

O grande poeta Nuno Júdice deixou-nos há cerca de ano e meio, mas não cessam as manifestações de homenagem à sua vida e obra. No último dia 20, por exemplo, foi inaugurada uma exposição no Museu de Portimão (Nuno Júdice nasceu na Mexilhoeira Grande ) intitulada Nuno Júdice: o Prazer das Imagens, com curadoria de Manuela Júdice, Filipa Leal e José Gameiro, que desafia os visitantes a conhecerem melhor a personalidade do poeta através dos «seus» quadros. Este «seus» explica-se de duas maneiras: não só Nuno Júdice desenhou, fotografou e fez colagens ao longo de toda a sua vida, em vinte cadernos, a par dos poemas que ia escrevendo; mas também adquiriu, ou recebeu de presente, uma obra pictórica ou fotográfica digna de ser mostrada ao público, da autoria de artistas tão conceituados como Júlio Pomar, Manuel Amado, Graça Morais, Rui Chafes, Jorge Martins ou o mais novo Duarte Belo, filho de outro sublime poeta (Rui Belo). A exposição ficará aberta até Janeiro e incluirá ainda documentários sobre o escritor. Uma boa razão para ir ao Algarve, menos fútil do que a praia.

Onze

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Há uns anos, fui entrevistada por Luísa Sobral para um podcast que a cantautora então tinha sobre letristas. Não havia muito tempo ainda, o seu irmão Salvador estreara uma letra minha num espectáculo de TV com o pianista Júlio Resende, e a Luísa gostava muito dessa letra e estou em crer que também por isso viera entrevistar-me. Conversa puxa conversa, percebi que era uma grande leitora desde pequena e que um dos momentos mais felizes da sua infância era ir com a mãe à livraria escolher os livros que levavam para férias. Um bom leitor não faz obrigatoriamente um bom escritor, mas desenganem-se os que pensam que se pode ser um bom escritor sem ter lido muito. Este ano, com grande alegria, publiquei o primeiro romance da Luísa Sobral, Nem Todas as Árvores Morrem de Pé. As estreias são sempre difíceis, sobretudo quando se trata de personalidades públicas que, já se sabe, evocam frequentemente comentários infelizes e invejosos; mas esta não podia ter corrido melhor. Vamos na 11.ª edição e há cada vez mais gente a comentar positivamente este livro sério e cheio de poesia sobre a vida de duas mulheres antes e depois da construção do Muro de Berlim. Se ainda o não leu, vai muito a tempo. Parabéns, Luísa Sobral. Uma grande leitora e uma grande escritora.


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Metroteca

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Embora se vendam cada mais livros em todo o mundo, ao que parece a maior fatia é de obras que pouco contribuem para a formação intelectual e ética e o desenvolvimento pessoal dos leitores; e além disso o que não baixa de maneira nenhuma é o tempo que hoje se passa diante dos ecrãs do computador ou do smartphone a ver vídeos ou mandar umas bocas nas redes sociais. Na Polónia, os hábitos de leitura estão a baixar, e o município de Varsóvia resolveu criar uma Metroteca. Uma forma que permite aos habitantes, através de uma tecnologia de ponta, alugar ou levar de empréstimo livros nas estações de metropolitano. Na primeira criada para o efeito, foi decorado um espaço de 150 metros quadrados com um acervo de 16.000 livros fornecidos por editoras a que nenhum passageiro fica indiferente. Basta aos interessados passarem o livro que querem ler por uma máquina que identifica o chip e isso permite saber onde anda o livro através de um localizador até ser devolvido à metroteca, evitando filas. Há livros sobre todos os temas e arrumados em estantes brancas e bonitas de forma fácil de encontrar. Quem quiser até pode ficar a ler no próprio metro. Um bom exemplo do que é tentar espalhar cultura mesmo debaixo de terra.


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Homenagem

Nem sempre é fácil compreender as influências de determinado escritor, especialmente quando começa o seu percurso, por assim dizer, mais profissional; mas há casos em que saltam logo à vista os escritores que leu e por quem se apaixonou. Lembro-me de sentir que Borges estava muito presente na cultura de Afonso Cruz quando li a sua primeira Enciclopédia Universal, por exemplo, e agora é mais do que evidente a paixão reverencial de Miguel Bonnefoy por Cem Anos de Solidão no romance-homenagem O Sonho do Jaguar, que recebeu o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa e o Prémio Femina, tendo sido ainda finalista do Prémio Médicis, do Prémio Renaudot e do Prémio Jean Giono. O autor, que viveu em Portugal e está agora em França (escreve, aliás, em francês), é filho de um chileno e de uma venezuelana, e escolhe precisamente Maracaíbo, na Venezuela, como lugar de acção, e como personagens três membros de uma mesma família cuja história começa com um órfão abandonado à porta de uma igreja e recolhido por uma pedinte. Às muitas semelhanças com o romance de García Márquez soma-se uma cultura vastíssima, um trabalho brutal sobre as metáforas e, sobretudo, um ritmo alucinante e uma imaginação prodigiosa. Embora me pareça que no fim esmorece ligeiramente (talvez pelo exacerbamento anterior), é uma homenagem incrível ao nobelizado colombiano e a um estilo que agora os latino-americanos acham fora de moda, mas que fez história durante décadas. Leia-se, claro.

Tirar do anonimato

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María vive uma dupla crise, pessoal e profissional. Há um ano que decidiu afogar as mágoas no álcool, que o chefe perdeu a confiança nela e que ninguém valoriza o seu trabalho de investigação no jornal; e, como se isso não bastasse, o seu relacionamento está por um fio. Encontra-se ainda embriagada quando uma manhã recebe um telefonema em que a mãe lhe anuncia a morte da avó que, no período da guerra civil espanhola, escondeu imensos militantes comunistas na sua pensão e se tornou uma das mulheres mais importantes da vida de María. É no velório que esta descobre uma mulher idosa e franzina que não conhece mas que deixa a sua mãe estranhamente inquieta. Ao perguntar de quem se trata, fica a saber que se chama Isadora, mas percebe imediatamente que existe entre ambas um segredo incómodo. Tentando endireitar-se, María pensa então fazer uma pesquisa sobre a vida aventurosa da sua avó. Porém, quando procura documentos, encontra a foto de uma mulher com uma tatuagem no peito onde se lê FELD-HURE. Por trás, um nome  e uma data: Isadora Ramírez García, 14 de outubro de 1945. E então começará uma investigação sobre as mulheres não judias que foram levadas pelos alemães para o campo de concentração de Ravensbrück, algumas ainda adolescentes, para servirem como prostitutas e cobaias de experiências médicas terríveis. Isadora, a amiga da avó, sobreviveu ao horror e quer contar a María sua história antes de morrer. Esta é a narrativa de O Barracão das Mulheres, um romance-reportagem interessantíssimo que tira do anonimato muitas mulheres injustamente esquecidas ou desprezadas e conta a sua história.


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Filosofia para todos

Os que têm a minha idade lembrar-se-ão decerto do estrondoso sucesso que teve um livro chamado O Mundo de Sofia, que era uma introdução à filosofia escrita de uma forma lúdica e de fácil compreensão que esteve nos Top de vendas em todo o mundo e inaugurou um estilo a que depois se chamou no meio editorial uma narrativa não-ficcional. Era realmente incrível como uma coisa que parece a todos os adolescentes tão complexa na escola secundária afinal era muito mais simples na formulação de Josteein Garder. Na mesma linha, o escritor e investigador português Simão Lucas Pires vai dar um curso de Filosofia para todos, uma introdução a esta disciplina fascinante, a partir do Espanto, que o autor considera «um corte na monotonia do quotidiano» e algo que nos faz «perder o pé». Assim, em cinco sessões semanais entre os dias 2 e 30 de Outubro, o curso falará sobre a interpretação da realidade, a pretensão do saber, a resistência à assunção da ignorância e muitas outras interrogações em que o espanto se perfila, na vida humana e na obra de escritores. Tudo no El Corte Inglés, às 18h30. Uma filosofia acessível aos leigos.

Destronar a língua materna

A língua mais importante no mundo não é a língua materna com mais falantes, mas aquela que é a segunda língua de mais pessoas. Pois, o inglês. Quando vamos a um país cuja língua não dominamos, puxamos logo do inglês como língua de comunicação; e, devido à produção em massa de séries, filmes e música em inglês (sobretudo nos EUA), não só uma quantidade enorme de palavras inglesas são usadas quotidianamente em Portugal (sobretudo nas empresas, onde todos os cargos foram convertidos à tradução inglesa e os Recursos Humanos, quando entra alguém de novo, chega a chamar à recepção ao novo funcionário «On Boarding»), mas também a língua do país é permeada por construções gramaticais do inglês. Hoje, por exemplo, muitos portugueses usam o «tu» em lugar do «nós» ou do impessoal «se» (e tudo por causa do «you», que é simultaneamente «tu» e toda a gente); as redes sociais estão a abarrotar de anglicismos ou palavras em inglês; mas o que acho mesmo a pior das notícias é que, nas provas feitas este ano nas escolas concluiu-se que os alunos do 4.º ano (portanto, com 9 ou 10 anos) se saem melhor em Inglês do que em Português. Foram realizadas mais de 340.000 provas. Teme-se o pior.

A norte

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Amanhã estarei muito longe de Lisboa, na verdade, já quase em Espanha, pois terei uma actividade no Centro de Estudos Mário Cláudio, que fica em Venade, Paredes de Coura. O Centro, dirigido actualmente pelo professor Cândido Oliveira Martins, promove mensalmente uma série de Diálogos Interartes, nos quais é suposto estarmos acompanhados por alguém que pratique uma arte diferente da nossa mas esteja ligado a nós e à nossa própria arte (que, no meu caso, será a literatura, a que faço ou dou a conhecer). Mas, curiosamente, escolhi para me acompanhar Jorge Reis-Sá, alguém que faz a mesmíssima coisa do que eu, mas, como eu, acaba por estar ligado a uma outra arte, a música, e sempre através dos livros. Enquanto eu escrevo letras para fados e outras canções, o Jorge dirige na Imprensa Nacional uma colecção de livros com as letras de ilustres autores como João Monge, Rui Reininho, Carlos Tê e outros. Falaremos disso, claro, do que ambos escrevemos (temos até um prémio em comum, o da Fundação Inês de Castro) e da sua recente participação em programas culturais televisivos sobre Camões e Camilo, em que também é preciso uma certa arte para uma pessoa se sair bem. Se estiver a norte, apareça para dialogar.


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A culpa do Leste

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Falo hoje de um livro maravilhoso de uma autora búlgara, Joanna Elmy, que virá ao FOLIO no primeiro fim-de-semana para trocar conversa com Luísa Sobral a propósito de Fronteiras. Trata-se de Feitas de Culpa, um romance já traduzido em vários países. Yana, estudante búlgara recém-chegada a uma pequena cidade americana através de um programa de intercâmbio, presencia uma noite um acidente de viação. A vítima é outra estudante do Leste Europeu, condutora da bicicleta que embateu com o carro, que falece no local. A morte da rapariga é rapidamente esquecida, pois faz parte de uma série de acidentes semelhantes, sem importância para as autoridades. Mas, para Yana, é um catalisador que a desperta para a sua condição. Enquanto permanece nos EUA como imigrante ilegal, após o término do programa de intercâmbio, Yana começa então a relacionar a sua vida precária com as da mãe e da avó, intrinsecamente ligadas à sua, vidas cheias de tristeza e de culpa por a sua liberdade significar o sofrimento da geração precedente. Narrado a partir do ponto de vista de três mulheres assombradas pela violência, pelo vício e pela impossibilidade de encontrar um lugar para viver, este romance conta as suas vidas, que coincidem com a história contemporânea da Europa de Leste – da ditadura totalitária do regime comunista pós-1944 ao período de transição democrática da década de 1990 e à imigração para o Ocidente –, um território dilacerado, cujas cicatrizes mal saradas Yana, a sua mãe Lilly e a sua avó Eva herdaram.


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Palavrinhas

Uma das palavras mais usadas e que mais coisas parece significar é «género». Além de apontar para as propriedades comuns de um dado grupo de pessoas, animais ou objectos (como em «o género humano»), ou de uma dada categoria taxonómica (uma espécie), é ainda utilizado com o sentido de estilo, modo ou tipo (o género de vida que alguém leva, por exemplo), como categoria gramatical (género masculino ou feminino de uma palavra), como sexo (idem), como categoria literária (a literatura «gender» ou o escritor que escreve vários géneros, poesia, romance, ensaio) ou artística (género cubista); e, no plural, «géneros» refere-se também a produtos, alimentos ou mercadorias (há falta de géneros na Palestina actualmente para ajudar as populações à fome). Curiosamente, a etimologia desta palavra de origem latina aponta para o sentido de «nascimento, descendência, origem, raça» (os genes, enfim...) e é por isso que uma pessoa «generosa» é, na base, não uma pessoa que oferece géneros desinteressadamemente, como eu pensava, mas um «fidalgo ou nobre, de família ilustre, de boa qualidade (que, no fim da linha, é o que pode oferecer os tais géneros). Sempre a aprender.

O Último Avô

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Já está nas livrarias o mais recente romance de Afonso Reis Cabral, um dos mais jovens autores portugueses literários de peso, que venceu o Prémio LeYa com o primeiro romance (O Meu Irmão) e o Prémio Literário José Saramago com o segundo (Pão de Açúcar). Tardou a entregar o terceiro, mas compensou a espera com a qualidade, por isso perdoamos-lhe o silêncio e o atraso. Em O Último Avô conheceremos Augusto Campelo, o mais genial escritor português, que queima o manuscrito no qual trabalhou durante anos, deixando para trás um mistério: seria o tão esperado romance sobre a experiência traumática da Guerra Colonial, de que tantas vezes falava, mas à qual nunca dedicou um livro? Subsiste a dúvida: o escritor morre uma semana depois. Resta por isso ao neto a missão de descobrir a verdade e de compreender (ou não) o gesto do avô. Mas essa busca arrasta-o sem querer para um terreno bem mais doloroso, que se prende com a fuga e a morte prematura da mãe, cuja ausência é sublinhada há anos por um quarto trancado na casa do avô. Atravessando a intimidade de três gerações de uma família marcada por perdas, conflitos e paixões, O Último Avô conta a história da relação entre um escritor tirânico e o seu único neto, entre a herança literária e a vida real. Brilhante, garanto-vos.


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Línguas raras

Quando um autor é publicado pela primeira vez, tem sempre muitas perguntas para fazer que se prendem com o seu futuro como escritor «universal», e uma delas geralmente está relacionada com a tradução do seu livro no estrangeiro. Como são poucas as editoras lá fora que têm leitores de língua portuguesa, é preciso muito trabalho para conseguir uma tradução de um autor português desconhecido em qualquer país, mais ainda se não se investir na retroversão para inglês de um excerto para difusão, o que resulta caro. Mas, depois de os livros começarem a disparar (o que, por exemplo, aconteceu com o romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, depois de ter ganho prémios de peso em Portugal e no Brasil), por vezes acabam por vender-se em línguas muitíssimo raras, como o persa, o tamil, o urdu, o telugu... Não foi bem isso que aconteceu com o espantosamente bem-sucedido Pedro Alecrim, do querido António Mota, a história de um rapazinho que perde o pai publicada originalmente em 1988 e com mais de 40 edições até hoje; mas acaba de ser traduzido para a língua mirandesa, um  feito a que poucos têm o privilégio de assistir. Parabéns, António, por este Bai Pedro Bai, uma tradução que quase ninguém consegue, mesmo os autores famosos!

Excerto da Quinzena

Disseram-me isto: que o meu avô abriu uma cova no jardim das traseiras e de seguida a regou com gasolina; depois, atirou-lhe o manuscrito e, com um sorriso, acrescentou ao cozinhado a chama pequena de um fósforo. Com empenho e combustível, até uma pequena chama faz grandes coisas.


Antes, durante anos, escondeu um caderno escrito à mão que teve o efeito de o calar, como se só houvesse histórias naquelas páginas. Assemelhava-se a certos reformados cujo derradeiro interesse, por norma uma genealogia vaga ou uma filatelia desinteressante, os faz sumir da actualidade.


Agora falava pouco do passado, ao contrário do que acontecia na minha adolescência, que ilustrara com as coisas da guerra: havia casacos de ouro, crânios em praias portuguesas, gorilas de dorso de prata atravessando as estradas de Cabinda, um cabo de metal tenso entre duas árvores para decapitar quem por elas passasse, corpos esquecidos em pás de retroescavadoras; e até um tiro de G3 que subiu direitinho pelo olho do cu de um macaco.


Encantava-me de tal maneira ouvi-lo, prendia-me cego numa mentira de amor, como se quem conta e quem ouve dessem as mãos, que eu achava que o avô e o contador de histórias eram a mesma pessoa. A África do avô tinha sempre uma fuga, o contraponto da violência. Uma criança nunca morria sem que o sangue desenhasse uma rosa, nunca uma cidade saqueada surgia sem que alguém tentasse repor um frasco de compota às prateleiras das mercearias. Tudo era violento e delicado na guerra, como tudo parecia violento e delicado no avô.


 


Afonso Reis Cabral, O Último Avô

Lisboa setecentista

Durante muito tempo, o escritor e jornalista Tiago Salazar ocupou-se essencialmente do tema da viagem, correndo o mundo, publicando livros que os lugares que visitava evocavam e tendo até um programa de viagens na televisão. Depois, quando deixou de escrever em jornais e passou a conduzir um tuc-tuc em Lisboa, fazendo viagens culturais e literárias, começou a interessar-se mais pela História e a escrever romances sobre personagens que merecem ser lembradas. Assim, publicámos da sua pena O Magriço (um dos Doze de Inglaterra), O Pirata das Flores (uma espécie de Sandokan nacional) e mais recentemente O Judeu de Santa Engrácia, a história de um judeu condenado à morte acusado de roubar uma igreja ainda inacabada (o que era falso), porque a justiça portuguesa já não funciona há muitos séculos. Este romance é, de resto, o ponto de partida para uma conversa-conferência que ocorrerá mais logo, às 18h30, no Âmbito Cultural do El Corte Inglés, onde o Tiago falará da Lisboa da época e das diferenças que existem entre essa e a que percorre actualmente todos os dias no seu tuc-tuc. O Judeu de Santa Engrácia, em espírito, acompanhar-nos-á ao longo da sessão e, claro, merece mesmo ser lido. 

Em nome da terra

A partir de amanhã e até dia 14, na Aldeia do Melo, terra natal de Vergílio Ferreira, realiza-se a quarta edição do festival literário Em nome da Terra. Serão 40 os convidados para o certame, entre escritores, músicos, pensadores, performers, sendo o homenageado deste ano o filósofo José Gil, que terá inclusivamente uma rua da aldeia baptizada com o seu nome. Segundo a organização, este ano «o programa foi desenhado como um mapa de experiências entre leitores e autores» e inclui, além dos sempre interessantes debates, actividades para todas as idades. Darão um ar da sua graça autores como Afonso Cruz, Ondjaki, Valter Hugo Mãe ou Francisco José Viegas, e haverá espectáculos musicais assegurados por Teresa Salgueiro, Márcia, Joana Alegre, Rogério Charraz e muitos outros. Os mais pequenos terão direito a histórias contadas ao vivo e estará patente ainda uma exposição de Rita Cortesão chamada «Cartas ao Futuro» e alusiva à própria aldeia. Tudo em nome da terra de Vergílio e da sua memória.

A vida dos ricos contada pelos próprios

Hoje, fala-se muito de autoficção quando, num conto ou romance, o lado autobiográfico é assumido pelo autor desde o início; e, por muito que alguns achem que isso é uma espécie de literatura menor por contar o real sem ter de recorrer à imaginação, a verdade é existem obras completas autoficcionais que dão direito ao Prémio Nobel da Literatura, como foi o caso da de Annie Ernaux, autora que nunca escondeu que os seus livros falavam acima de tudo de si própria. Foi, de resto, esta escritora e o seu O Acontecimento (a história de um aborto que terá feito) que espicaçou a escritora Colombe Schneck, judia parisiense nascida em 1966, cuja mãe se salvou dos campos de extermínio escondida num convento católico durante a Segunda Guerra Mundial, a escrever também uma ficção sobre uma gravidez indesejada (e descuidada) que lhe "aconteceu" aos dezassete anos e que desencadeou um aborto. E essa é só a primeira e maravilhosa história de Trilogia de Paris, um tríptico esplendoroso no qual aprendemos como vivem os verdadeiramente ricos, as roupas de alta-costura que recebem das avós e as férias em Saint-Tropez, mas em tudo o resto iguais a nós, excepto numa espécie de contenção a que o estatuto aristocrático os obriga e que aqui é especialmente visível na ficção chamada «Duas Burguesinhas», título que pressupõe já uma certa frontalidade que não inclui qualquer vergonha (não escolhemos em que família nascemos). Esta trilogia de momentos vividos em Paris é de uma sinceridade sem limites e, como a descreveu Deborah Levy, possui uma «escrita valiosa», representa «um estudo profundo sobre a existência em várias idades e fases da vida». Eu adorei.

Uma questão de vírgula

Li no Linkedin um texto muito bonito de um escritor-fantasma chamado Pedro Matos Viegas (sim, ele identificava-se como ghost writer de figuras públicas) um texto sensível e bonito em defesa da vírgula antes de um vocativo e chamado "Não deixem a vírgula morrer". Para quem não estudou estas coisas no Secundário, posso dizer-vos que se trata da vírgula que se põe em frases como "Parabéns, Pedro", "Bom dia, avô" ou "Olá, mãe". A verdade é que nós, que aprendemos que essa vírgula antes do vocativo é obrigatória, não gostamos mesmo nada de a ver ausente em todo o lado, incluindo em títulos de livros e filmes (o nosso amigo que escreve o artigo cita, por exemplo, a longa-metragem Amo-te Teresa). Se virem bem, dizer "Olha, Jorge" é um pedido a Jorge para que olhe para qualquer sítio para onde o falante apontou; enquanto "Olha Jorge" quer dizer que uma terceira pessoa olha para um sujeito chamado Jorge. Não é a mesma coisa, como podem confirmar por aqui, e é triste quando alguém que paga um anúncio de página inteira num jornal para felicitar uma pessoa por um prémio ou outra distinção (imaginem um "Parabéns, José Saramago!" inserido num suplemento literário pela sua editora quando ele ganhou o Nobel) não se lembre de incluir a vírgula necessária que, como se queixa o Pedro Matos Viegas, quase nunca está. Por isso, vejam lá se para a próxima não se esquecem da pobrezinha nos vossos textos. Eu espero nunca a comer. Adeus, Extraordinários, até amanhã.

Escritores de canções

Grande foi a polémica quando o Prémio Nobel da Literatura foi atribuído a Bob Dylan. Além de ele ser autor de canções, só tinha escrito duas ou três obras ditas literárias; e para a maioria das pessoas que acompanha a literatura contemporânea pareceu injusto. Sérgio Godinho, porém, achou muito bem, defendendo que um escritor de canções é efectivamente um escritor e que a canção é um género como qualquer outro, não necessariamente menor. Já não ficámos tão surpreendidos quando o Prémio Camões foi entregue a Chico Buarque: ou por já estarmos habituados, ou pelos olhos azuis e a beleza do homem, ou porque a língua portuguesa se faz bonita poesia na voz do cantor brasileiro, ou porque ele escreveu vários romances bons e isso lhe dá o direito a ser considerado um grande escritor. E este ano a Feira do Livro do Porto, depois de ter homenageado uma data de poetas e romancistas naturais da Invicta (Ana Luísa Amaral, Agustina, Mário Cláudio...), lembrou-de de eleger como escritor homenageado Sérgio Godinho no ano em que faz 80 anos, com uma programação alusiva à sua vida e obra, que inclui alguns livros de ficção, um dos quais recente, sobre suicidas, mas é sobretudo feita de maravilhosas canções. Pergunto apenas porque não ganhou um prémio (literário, pois claro) Leonard Cohen, que também merecia tanto? (A Feira do Porto acaba no próximo domingo, só para avisar.)

Pais e filhos

Uso o título de um dos livros de que mais gosto do russo Turgénev (lido há muito, confesso, tenho de o reler) neste blogue para falar de um romance que li recentemente chamado O Aniversário. O seu autor, Andrea Bajani, já me tinha sido aconselhado pela fotobiógrafa de Pessoa (e viúva de Tabucchi) Maria José de Lancastre, que até me emprestou outro título dele para eu ler no original. Mas este O Aniversário não conta, na verdade, a festa de anos de ninguém, mas o décimo aniverário de uma espécie de divórcio entre um filho e os seus pais. Não estrago o prazer do leitor ao contá-lo porque as primeiras páginas do romance, a sinopse  e a cinta explicam logo que um homem se despediu dos pais num certo domingo, como fazia todos os domingos, só que o fez pela última vez, embora nem o pai nem a mãe o soubessem. E, quando começa este divórcio, ficamos com a ideia de que o filho é talvez um pouco egoísta; mas, à medida que a leitura vai avançando e conhecemos melhor o poder do pai e a escolha da mãe de se submeter, de abdicar da vida a favor do marido (abrevio muito, mas não quero naturalmente abrir o jogo), não podemos senão concordar com a partida definitiva do filho. O escritor francês Emmanuel Carrère, a propósito da obra, fala de um "escândalo" que se traduz num "livro escandalosamente sereno" e essa é uma excelente descrição para este romance muito contido, prudente, discreto, quando poderia ser demasiado colorido ou trágico. Um autor que sabe fazer as coisas e a que apetece regressar.

Boas notas não chegam

Uma vez, uma rapariga que me tinha enviado um original para apreciação ficou muito revoltada por eu lho ter recusado ao fim de apenas umas vinte ou trinta páginas. O seu principal argumento para não aceitar o meu veredicto era ter sido muito boa aluna a Português. Mas boas notas não chegam para se ser escritor; e, se alguns autores de não-ficção até podem tornar-se escritores muito competentes e com rasgo (conheço alguns), a verdade é que para o escritor de poesia ou ficção o talento é mesmo necessário, e isso nada tem que ver com saber gramática (embora ajude). Um dia destes, de resto, li por aí que, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, um menino russo chamado Joseph Brodsky recebeu do professor um relatório escolar impiedoso. Além de o acusar de ser mal-educado e preguiçoso, dizia que o aluno raramente fazia os trabalhos de casa, que tinha os cadernos desorganizados e sujos e que a sua letra não passava de um monte de rabiscos. Ao que parece, Brodsky odiava a escola soviética, demasiado disciplinada e repetitiva, e deixou os estudos bastante cedo. Mas, se os professores não o conseguiram cativar, como ele confessou mais tarde, "as fachadas dos edifícios ensinaram-me mais sobre os egípcios, os gregos e os romanos do que qualquer sala de aula". Mesmo fora da escola, Brodsky apaixonou-se pela arte e pela poesia e foi justamente pelos seus poemas contrários ao regime de teve de exilar-se. Pouco depois de ter ido viver para os EUA já cometia a proeza de escrever poesia directamente em inglês. Em 1987 ganhou o Nobel da Literatura. Ter boas notas é importante para muita coisa, mas para ser escritor... não tanto.

Book 2.0

Já se inscreveu para o Book 2.0, que começa amanhã e dura apenas dois dias? Não falte, se quer ter uma ideia sobre o que será o futuro dos livros. É a terceira edição deste evento organizado anualmente pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, e desta vez as conversas, debates e masterclasses acontecem no auditório da Fundação Champalimaud em Lisboa. Como ontem disse, estamos a viver tempos difíceis em relação à literatura (o digital rouba e deseduca o público de ler um texto mais extenso, pensar e estar sozinho); e portanto pode ser importante ouvir alguns especialistas e pessoas do ramo falarem de como reinventar o livro a leitura nos anos que aí vêm. As sessões dividem-se entre os dias 3 e 4 e os participantes são muitos, desde editores, livreiros e autores, decisores políticos e activistas da leitura, jornalistas e leitores e ainda pessoas que têm histórias para contar sobre como o livro foi importante nas suas vidas (penso que Carlos Fiolhais, Dino d'Santiago, Cristina Ovídio, Dinis Machado ou mesmo o nosso Presidente estão entre essas). Se precisarem de informação, deixo o link abaixo. Espero ver-vos por lá!


https://book.apel.pt


 

O que ando a ler

Ora sejam muito bem-vindos de novo ao blogue, se é que já vieram de férias, se é que ainda aí estão (e espero que sim). Depois de arder uma parte significativa do País, lá se foram tantas árvores que falar de livros em papel até pode parecer pecado. Porém, neste intervalo silencioso ouvi dizer que o Governo acabou com a rede de bibliotecas escolares e com o PNL (não consigo ainda confirmar se é um corte total, se foi apenas uma espécie de transferência para outro local do tipo boneca russa), e portanto não posso desistir do meu papel de divulgadora e impulsionadora da leitura, até porque isto não anda lá muito fácil para a literatura a sério. Havemos de trocar ideias sobre o assunto nos próximos tempos, claro, mas neste primeiro dia é para dizer que ando/andei a ler dois livros que falam do luto, nenhum deles de ficção: um pequeno livro de homenagem a um pai, O Meu Pai Voava (assina-o Tânia Ganho, escritora e tradutora), que colige episódios, memórias e reflexões sobre o pai e o vazio que deixou (muito bonito mesmo, o pai da Tânia fez-me lembrar tantas vezes o meu pai, sobretudo na sua falta de pragmatismo e no seu alheamento em relação às notas dos filhos na escola); e um livro de Valter Hugo Mãe chamado A Educação da Tristeza, ilustrado pelo próprio autor e cujo texto é impresso a cores que designam mortes particulares, com vários textos sobre a dificuldade em aceitar a morte de pessoas próximas (o sobrinho de 16 anos, a melhor amiga, o pai...) e sobre o desaparecimento de uma alegria que os mortos levam com eles e que não conseguimos recuperar como eles se calhar gostariam. Ambos muito recomendáveis. (Amanhã falaremos, se possível, de coisas mais alegres.)