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A mostrar mensagens de novembro, 2020

O Torto tem direito

Todos se lembram certamente de que, em 2018, o escritor brasileiro Itamar Vieira Junior venceu o Prémio LeYa com o romance Torto Arado, cuja acção decorre numa fazenda na qual os empregados ainda não ultrapassaram a condição de escravos, o que, de resto, parecendo coisa antiga, é uma situação vivida actualmente no interior do Brasil e a que o próprio autor assistiu no âmbito do seu trabalho profissional. Esse livro, que conta a história de duas irmãs (Bibiana e Belonísia) que acabam por ter vidas distintas também por via da aprendizagem e da leitura, foi cá publicado em Fevereiro de 2019 (quando Itamar veio participar nas Correntes d'Escritas) e, no Brasil, pela mão da editora Todavia, em Agosto seguinte. Ora, neste momento estão a sair os prémios literários brasileiros relativos às obras publicadas no ano passado e Torto Arado venceu na quinta-feira o Prémio Jabuti e está na final do Prémio Oceanos, os dois prémios principais do país irmão, o que é absolutamente invulgar se pensarmos que se trata de um romance de estreia (o autor ainda só tinha publicado contos), mas ao mesmo tempo plenamente justificado, dada a maravilha que o livro é. Se vencer também o Oceanos, será uma felicidade muito grande, até porque 3 é o meu número favorito, mas de qualquer modo já estou muitíssimo satisfeita com estas notícias. Parabéns, Itamar, você merece, e não sou só eu que o digo, você tem muitíssimos fãs aqui em Portugal, além de que os jurados, pessoas qualificadas de vários países de língua portuguesa, escolheram Torto Arado para integrar a lista dos finalistas em ambos os prémios e isso quer dizer alguma coisa. Até dia 18 de Dezembro, ficamos a torcer por você mais uma vez.

Na banheira

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Podemos apaixonar-nos pela literatura infantil já adultos, e há vários livros para crianças que fazem parte da minha lista de livros favoritos. Entre estes, está O Tubarão na Banheira, com texto de David Machado e ilustrações de Paulo Galindro, cuja 13ª edição estou a publicar este mês com a chancela da Caminho. É um livro que recebeu já vários prémios e foi finalista de outros, além de ter sido seleccionado, no ano da sua edição original, para integrar o Plano Nacinal de Leitura, quando ainda eram poucos os livros escolhidos. Não só a história é absolutamente deliciosa (procurar um companheiro para um peixinho de aquário com uma cana de pesca nem sempre dá os resultados pretendidos), como existe uma inteligência muito especial no transformar do livro num caderno de palavras difíceis e na opção de deixar que uma das personagens principais permaneça ao mesmo tempo presente e invisível em todas as páginas. Se tiverem crianças na família, este é (passe a publicidade) um livro a não perder. Mas, se não tiverem, também, até porque uma percentagem dos direitos reverte para a Fundação do Gil.


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O país pequeno

O Manel, como creio que já aqui tenha dito, não anda de avião (fez uma excepção há uns três anos, mas foi uma espécie de milagre que ainda está por explicar); e, por isso, antes desta coisa desagradável do vírus, viajávamos bastante de carro, especialmente para o país vizinho (que agora já conheço quase tão bem como Portugal). No regresso de cada uma dessas viagens peninsulares, no momento em que entrávamos em Portugal, ele dizia sempre que, pronto, chegáramos ao «país pequeno», e a expressão interessa-me porque se aplica na perfeição ao assunto que trago a este post. No New York Times, os colaboradores e críticos residentes coligiram há dias as respectivas listas de livros preferidos de 2020: da poesia às memórias, da não-ficção ao conto. E encabeçaram o artigo com o título «100 Notable Books of 2020». Uma centena de livros dignos de nota? Mesmo a publicar demasiado, como se diz que acontece em Portugal, conseguiríamos destacar 100 livros mesmo especiais? Hum... não me parece. País pequeno o nosso... O link para os cem vai aí abaixo. A maioria, palpita-me, nunca cá chegará...


100 Notable Books of 2020 - The New York Times (nytimes.com)

Livros a Oriente

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Ontem começou no Museu do Oriente, em Lisboa, a 13ª Festa do Livro, que vem mesmo a calhar para quem quer comprar livros para oferecer no Natal, uma vez que terão descontos apreciáveis, a partir de 20%. A entrada é livre, e a tónica das obras muito variada, embora se destaquem (e nem poderia ser de outro modo) os livros que versam sobre a presença portuguesa na Ásia, quer de índole ensaística, quer ficcional, bem como álbuns de arte oriental, guias, catálogos e monografias ligadas ao Oriente. Participarão mais de uma dúzia de editoras, algumas das quais de Macau. Neste âmbito, e em parceria com a Oficina do Livro, far-se-á hoje, por volta das 17h30, uma apresentação virtual do romance histórico Taprobana, de Eduardo Pires Coelho, cuja transmissão poderá ser vista no Facebook do Museu do Oriente e da LeYa e que contará com a participação de Artur Santos Silva, personalidade que se debruçará sobre este livro trepidante de que já aqui tive oportunidade de falar. Se estiver livre a essa hora, faça-nos companhia.


 


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Passo a passo

Quando vi o anúncio, salivei... Isto porque sou uma apaixonada pelas questões da língua, mas infelizmente nunca tive tempo suficiente para pôr o resto de lado e voltar à faculdade para cursar Estudos Clássicos. Mas estou sempre a correr para a etimologia das palavras (o Houaiss tem-me ajudado bastante, mas não chega) e até já tenho escrito textos sobre a origem de certos vocábulos aqui no blogue («cabeça», por exemplo). Mas estava a falar-vos de que fiquei com água na boca quando vi que Frederico Lourenço, além de todo o bem que já nos fez com as suas magníficas traduções de Homero ou da Bíblia e a publicação da Nova Gramática de Latim, acaba de nos presentear com  um volume intitulado Latim do Zero, composto por 50 lições que permitirão aos leitores, mesmo os ignaros em latim como eu, poder, no final deste curso, desfrutar da leitura de Vergílio no original. Latim do Zero começou por ser uma página de Internet estreada durante o confinamento e teve tantos seguidores que era forçoso que se transformasse num livro estruturado. Aprender até morrer. Vamos lá ver se é desta. Obrigada, Frederico Lourenço.

Primeira mulher, primeira estrangeira

Logo mais volta a série Herdeiros de Saramago, estreada na semana passada com os episódios sobre Paulo José Miranda e José Luís Peixoto, os primeiros vencedores do prémio literário que leva o nome do nosso único Nobel da Literatura. E hoje os contemplados serão Gonçalo M. Tavares (que venceu com Jerusalém) e Adriana Lisboa, a primeira estrangeira a receber o galardão com o romance Sinfonia em Branco, que publiquei na Temas e Debates pouco depois de o novo século começar. Falo deste livro porque, embora a obra desta autora esteja a ser regularmente publicada pela Quetzal, este romance não está disponível. E é pena, porque fala de um tema extremamente actual, o abuso sexual dentro da família, mas é um livro literário, e não comercial ou oportunista. Até porque Adriana Lisboa é uma escritora muito elegante (e o seu tom é europeu, pouco tem que ver com a maior parte da literatura brasileira contemporânea, mais urbana e directa ao assunto) e delicada (bastará ver a série e perceberão o que quero dizer). Conheçam-na melhor mais logo e conheçam os seus livros, que valem muito a pena.

Peixes grandes e peixes pequenos

Já se sabe que, no mar, os peixes grandes comem os peixes pequenos, mas em terra, e nos negócios, isso é também cada vez mais verdadeiro. Quando saí de uma editora pequena para um grupo grande, fi-lo porque em pouco tempo perdi vários autores que queriam e precisavam de dinheiro, marketing, espaço em livraria e promoção a sério, coisas que as editoras pequenas não podiam dar; e nem sequer me queixei de falta de lealdade porque as pessoas precisam de viver do que fazem e os escritores não são excepção. Admito que foi um choque para várias pessoas, mas era a única forma de poder continuar a publicar novos autores portugueses. Choque foi também para muitos o que se passou recentemente com a publicação em Espanha da obra da Prémio Nobel da Literatura Louise Glück. Lançada pela Pre-Textos, uma fantástica editora de poesia de Valencia, saíram, quase sem apoios, sete dos seus onze livros; ao que se sabe, nada venderam, mas isso nunca fez o editor vacilar na edição. Mas eis que a poetisa ganha o Nobel, e o seu agente literário, um senhor conhecido no meio por «Chacal», em lugar de recompensar a pequena editora que apostou ao longo de catorze anos sem quaquer retorno, agora não lhe renova os contratos e anda a propor a poetisa aos grandes grupos, que evidentemente podem pagar muito mais. Peixes grandes comendo os pequenos...

Ler com história

Os meus primeiros anos de actividade editorial foram passados em Campo de Ourique. A editora onde então aprendi as diversas fases por que passa um livro (revisão, paginação, composição, fotólito, ozalide, impressão...) ficava nesse bairro de Lisboa, perto do Jardim da Parada, praticamente em frente de uma livraria chamada Ler, que pertencia ao pai de um dos sócios da editora. Pela Ler tinham passado no Estado Novo muitos livros proibidos; e não foi uma nem duas vezes que ouvi essas histórias de resistência da boca do proprietário, o senhor Luis Alves, até porque na altura não havia Internet e, quando eu precisava de fazer consultas e não tinha as fontes necessárias, ia incomodar o prestável livreiro, pedindo-lhe que me deixasse ver determinado volume da Luso-Brasileira que se perfilava numa prateleira bem alta. Pois bem: apesar da concorrência das cadeias de livrarias e hipermercados, a Ler tem sabido resistir e manter-se de pé, honrando o seu passado. E há uns dias li que, com toda a justiça, ganhou a designação de "Loja com História", que de facto merece, não exactamente pelos anos que tem, mas pela história da democracia que passou por ali. Parabéns, pois, à Livraria Ler.

Dias que correm

Todos os anos, pelo Natal, ofereço uma agenda de secretária à minha mãe; e, quando uma única vez me esqueci, ele fez-mo notar logo no dia 26. A minha sogra enchia agendas de carteira com o registo de tudo o que fazia e temos uma arca cá em casa cheia delas. Eu própria gosto de agendas em papel, embora, claro, também use a do Outlook para as coisas profissionais; e, entre vários tipos de agendas, prefiro as literárias, pois, ao mesmo tempo que nelas anoto encontros, consultas, lembretes ou afazeres, aproveito para ler poemas ou excertos de textos literários, alguns dos quais conheço e recordo com prazer, outros descubro com deleite ou espanto. Este ano há agendas destas a que vale a pena prestar atenção. A Dom Quixote, por exemplo, publica Saudades, na qual podem ser encontrados excertos de muitos textos de autores de língua portuguesa, dos trovadores aos poetas e romancistas de hoje, sobre um tema tão português. E a Quetzal publica uma outra, Agenda Literária 2021, elaborada pela escritora Helena Vasconcelos, que regista em cada dia episódios relacionados com a gente das letras, como o aniversário de Mary Shelley logo no primeiro dia do ano. Tudo para passar 2021 a ler e a aprender. Belos presentes.

Oficina

Não tenho grande experiência de dar cursos ou workshops, embora já o tenha feito meia dúzia de vezes e (passe a imodéstia) nem me saí mal (pelo menos, foi o que me disseram); mas resolvi aceitar o repto que há tempos me lançaram de orientar uma oficina de quatro horas (em dois dias diferentes, 20 e 27 de Janeiro de 2021) sobre edição de livros, partilhando com os formandos as minhas opiniões sinceras e a minha experiência. No fundo, vou explicar o que devia ter um livro para ser publicado e aquilo que falta a um livro para ser um LIVRO (de ficção, bem entendido). Vou, portanto, falar de talento, linguagem, história, estrutura, verosimilhança, estilo, leituras, gosto, gramática... e muito mais; e também, claro, responder a perguntas dos que estarão do outro lado do ecrã (sim, é tudo virtual em tempos perigosos como estes, o que é talvez menos simpático, mas facilita a participação de qualquer pessoa em qualquer lugar). Por isso, se estão dispostos a aturar-me cara a cara ou querem saber mais do que aqui vos conto e fazer as vossas próprias perguntas, podem consultar as linhas-mestras da oficina e inscrever-se aqui:


https://euaprendoemcasa.pt/workshop-por-maria-do-rosario-pedreira-livros-e-livros-escrever-editar-e-publicar-ficcao/


Um dia destes, partilharei o programa mais detalhado.

Os herdeiros

Hoje é o aniversário de nascimento de José Saramago, o único escritor português que foi Prémio Nobel da Literatura. E não há forma melhor de o celebrar (além de ler os seus romances e diários, bem entendido) do que começar já esta noite a assistir ao programa Herdeiros de Saramago, que vai estrear-se em versão dupla na RTP 1 em horário nobre. Cada episódio se debruça sobre a vida de um dos escritores galardoados com o Prémio Literário José Saramago, desde Paulo José Miranda (o primeiro autor português a ganhá-lo) até Afonso Reis Cabral (o mais recente contemplado e o mais novo). Mas não pensem em nada de óbvio, porque o autor do programa, Carlos Vaz Marques, e a realizadora, Graça Castanheira, fizeram um trabalho profundamente original e inesperado (eu vi quatro programas em ante-estreia, integrados no festival de cinema Indie, em Setembro, e fiquei mesmo fã). A imagem é, por isso, uma parte muito especial destes episódios, e os tópicos desenvolvidos sobre cada um destes escritores de língua portuguesa (também há três brasileiros e um africano, além dos portugueses) não estão necessariamente ligados ao patrono do prémio ou à escrita romanesca, mas a factos da sua vida por vezes aparentemente desligados da actividade que os tornou herdeiros de Saramago. Hoje vamos conhecer melhor Paulo José Miranda e José Luís Peixoto e saber o que andam ou andaram a tramar. Para a semana há mais.

Frestas de luz

Há tempos disse aqui que não via nada de positivo nesta pandemia e no confinamento que gerou, mas fui precipitada, porque houve quem tenha sabido aproveitar a má onda com excelentes resultados. Madalena Alfaia, amiga dos livros (trabalhou muitos anos na editora Tinta-da-China e é tambem tradutora e autora), aproveitou uma aberta, seguindo, como ela própria disse, uma afirmação de Electra: «Chegou a hora em que já não se trata de pensar ou hesitar, mas de agir e olhar em frente.» E criou um projecto de escrita, interpretação e vídeo intitulado Aproveitando Uma Aberta: Quatro Monólogos para Quatro Autores em Quatro Divisões da Casa, que representa quatro versões do «encerramento» a que fomos forçados em Março. O trabalho de escrita dos autores visava actores específicos (Matilde Campilho/Vítor D’Andrade; Valério Romão/Carla Bolito; Madalena Alfaia/David Pereira Bastos; Jacinto Lucas Pires/Rita Durão) e um cenário particular: cozinha, casa de banho, quarto e sala. Com música de Filipe Melo e realização de João Gambino, os vídeos foram gravados no Verão e exibidos no Outono, e os textos publicados no suplemento «Ípsilon» do Público, podendo ser lidos nos links abaixo:


«Having a coke with you», Matilde Campilho


«O casaco de Baudelaire», Valério Romão


«Conversa de cama», Madalena Alfaia


«A atriz na sala de estar», Jacinto Lucas Pires


Os quatro filmes estão disponíveis em https://vimeo.com/user123675051


Parabéns à Madalena Alfaia por esta fresta de luz.

Livros com livros

Pensando num livro que quero muito comprar (O Infinito num Junco, de Irene Vallejo), concluí que a melhor receita para a perfeição é um bom livro com livros lá dentro. (Por acaso, ao escrever isto, lembrei-me da recente publicação d'O Cânone, com organização de Miguel Tamen, António Feijó e João R. Figueiredo, e, pensando na polémica que desencadeou, diria que não deve ser perfeito; mas, quando o ler, o que ainda não fiz, poderei ajuizar.) Em todo o caso, um bom romance em que os livros são como personagens geralmente resulta às mil maravilhas, e li recentemente no The Guardian um artigo que enumera uns quantos, embora nem todos cá traduzidos. A mim ocorrem-me de repente Farenheit 451, de Ray Bradbury, A Sombra do Vento, do recentemente falecido Carlos Ruiz Zafón, O Nome da Rosa, de Umberto Eco, A Noite do Oráculo, de Paul Auster, ou Casa de Papel, de Carlos María Dominguez, mas Italo Calvino e Vila-Matas são exímios em introduzir os livros nas suas obras. E, em língua portuguesa, podemos falar de A História do Cerco de Lisboa, entre outros livros de José Saramago, de Os Naufrágios de Camões, de Mário Cláudio, ou mesmo d'Os Loucos da Rua Mazur, do mais jovem João Pinto Coelho, sobre um livro que está, afinal, por escrever e desencadeia toda uma história incrível. E aos Extraordinários, que lhes ocorre no âmbito das ficções com livros dentro?


 


 


 

Geografia da ausência

Ontem ao fim da tarde (desculpem não ter avisado, mas quase de certeza que a sessão foi gravada) houve um lançamento virtual do mais recente livro de Mia Couto, O Mapeador de Ausências, que pôde ser visto nos murais do Facebook de uma série de bibliotecas, teatros e centros culturais por esse País fora. O autor é o mais conceituado escritor moçambicano contemporâneo, detentor, entre outros, dos prémios Vergílio Ferreira, União Latina de Literaturas Românicas, Eduardo Lourenço e Camões, tendo também sido finalista do Man Booker International e o primeiro autor de língua portuguesa a integrar a final deste importante prémio internacional. O romance fala de um prestigiado intelectual moçambicano branco, professor na Universidade de Maputo, que regressa à terra onde nasceu, na Beira, ao fim de muitos anos de ausência, para ser homenageado nas vésperas do ciclone que assolou aquela região em 2019; e a história oscila entre as suas recordações de infância (quando Moçambique era ainda uma colónia), os episódios que se seguiram à independência (como, por exemplo, o facto de um criado da casa se ter transformado num dirigente da FRELIMO) e uma história de amor na actualidade. São 416 páginas de deleite para os muitos fãs de Mia Couto desfrutarem nestes dias em que têm de ficar em casa. Não há desculpas com a falta de tempo, hã?


 

Quem cala consente

O título deste post é um provérbio português, quanto a mim bastante acertado. O olhar para o lado, fingir que não se vê, passar indiferente no meio do que corre mal, tudo isso são modos de consentimento. Num artigo de uma médica portuguesa que trabalha em Lesbos que li recentemente, tomei conhecimento de que está a agudizar-se a tragédia no  campo de refugiados que ardeu e deixou muita gente a dormir na rua, porque não se faz nada, e o mesmo é dizer que todos estamos a consentir que isso aconteça. Consentimento é também o título de um livro de Vanessa Springora, que saiu recentemente pela Alfaguara. Interessa-me muito lê-lo (ainda não o fiz) porque conheço a história de Gabriel Matzneff, o escritor francês (hoje octogenário) que, ao longo de anos, andou a publicar nas melhores editoras francesas (que não viram nisso nada de estanho) livros em que elogiava o sexo com menores (um deles intitulado até Os Menores de Dezasseis). Vanessa Springora foi uma dessas adolescentes que, com catorze anos, passava as tardes na cama com Matzneff, enquanto os iluminados do Maio de 68 (Sartre e tudo) sabiam mas assobiavam para o lado ou achavam apenas fruto dos tempos modernos e abertos que viviam. Mas, anos depois, a mulher madura resolve olhar para trás e fala da sua experiência de fazer sexo oral em vez de lanchar com as amigas e de quantos consentiram nisso de diversas formas. E não se trata de um livro oportunista como tantos que agora surgem, sobretudo nos EUA (até porque ela própria consentiu na relação com Matzneff, que tinha na altura 50 anos, mais 35 do que ela), mas de um livro sobre o perigo justamente do fechar os olhos, calar... e consentir. A tradução é de Tânia Ganho.

Up to Down?

No século XX, os amigos estrangeiros que viajavam com a TAP Air Portugal eram francamente elogiosos relativamente à companhia de aviação: diziam que se comia melhor do que em qualquer outra companhia aérea, que os produtos servidos eram muito acima da média, que os profissionais (pilotos, hospedeiras, comissários de bordo) eram de grande competência e que a revista Up, com artigos sobre Portugal e a colaboração de escritores e jornalistas, era uma das melhores naquele segmento. Concordo: nas minhas viagens aéreas com a TAP, sobretudo nas mais curtas (pois nas outras aproveito para ler algo mais substancial), li sempre com prazer os textos da Up, dirigida há mais de uma dúzia de anos pela jornalista Paula Ribeiro, e até cheguei a escrever uma pequena crónica sobre as melhores coisas que havia em Portugal, na minha humilde opinião. Li há alguns dias que a pandemia deu também cabo da Up... A revista foi suspensa em Março, naturalmente porque o número de voos não justificava a sua impressão (a publicação chegou a ter mais de um milhão e meio de leitores mensais) e ainda se pensou na sua passagem a digital, mas pelos vistos acabou por ser cancelada, e parece que agora existe um concurso público para a sua substituição. Lamento, porque o que havia era uma boa receita e o que aí vem pode ser um mau cozinhado. E porque era uma revista com qualidade gráfica e bom aspecto que me cheira que vai baixar de nível (Up to Down?) só para custar menos dinheiro. Há uns anos que os meus amigos estrangeiros começaram a ser bastante críticos em relação à TAP (atrasos e cancelamentos de voos, sanduíches de plástico, falta de pessoal ou gente antipática); e agora podem juntar-lhe o desaparecimento da Up. A revista voou.

Estantes

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Se não existissem estantes, não sei o que seria de mim; mas sei que todos nós, que gostamos de livros, louvamos a sua invenção e existência. Há quem as tenha sempre arrumadinhas (por ordem alfabética, por país, por género literário, por ordem cronológica...), e quem (como é o meu caso) nunca consiga tal proeza e esteja sempre a pousar os livros em cima dos que lá estão à espera de um dia em que haja tempo para os entalar no lugar correcto. Agora, que tantas actividades passaram a ser virtuais (mesmo assim, não creio que em Portugal a venda de e-books tenha aumentado significativamente), não consigo imaginar um futuro em que as estantes sejam transformadas em pequenos aparelhos que armazenam livros. Quem não vê as lombadas alinhadas, às cores, com os nomes dos autores e os títulos e os vincos marcados pela leitura, não é um verdadeiro bibliófilo. Mas, não há dúvida, será mais ecológico. Para já, porém, teremos estantes para todos os gostos, como esta, engraçada, que encontrei por aí.


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Os clássicos

Costumo dizer que estou à espera da reforma para poder ler os clássicos que me faltam. Porém, na semana passada li no The Guardian que a pandemia, coisa tão deprimente que não lhe consigo encontrar nada de positivo, tem paradoxalmente contribuído para que os ingleses se estejam a pôr em dia com a leitura dos clássicos. Ao que parece, as vendas de calhamaços como Guerra e Paz, de Tolstoi, Crime e Castigo, de Dostoievsky, ou D. Quixote, de Cervantes, subiram bastante, bem como as de volumes de Obras Completas de autores célebres. Não sei se as pessoas querem de repente valores seguros e têm medo de ficar sem possibilidade de comprar livros; mas é sempre uma boa notícia que os leitores regressem aos clássicos, desde que não seja só para decorar as estantes. Eu por acaso releio um clássico, mas mínimo: trata-se de A Metamorfose, de Franz Kakfa, que vou prefaciar em breve para uma edição dedicada aos estudantes do Secundário. Um clássico cada vez mais actual.

Dobradinha

Não, não estou a falar desse prato muito apreciado a norte e conhecido popularmente por "tripas", embora acredite que até não desgoste dele o escritor a quem dedico o post de hoje, uma vez que sempre gostou da cozinha típica portuguesa. "Dobradinha" é um termo que também tem aplicação futebolística, modalidade igualmente do agrado do escritor em causa. Mas hoje a palavra interessa-me sobretudo para dizer que Francisco José Viegas (sim, é ele) conseguiu a proeza de, com A Luz de Pequim, o seu mais recente romance, ganhar a dobrar: não só foi contemplado com o Prémio Literário Fernando Namora, da Sociedade Estoril Sol, como também com o PEN Narrativa 2020. Agora é que se pode mesmo dizer: é obra! Entrevistado pela Renascença, o autor bi-galardoado agradeceu ao inspector Jaime Ramos (o investigador que é há trinta anos protagonista dos seus livros) e confessou-se acima de tudo um contador de histórias. O júri do Prémio Fernando Namora tinha como finalistas, além do romance vencedor, As Crianças Invisíveis, de Patrícia Reis, Quando Servi Gil Vicente, de João Reis, Filho da Mãe, de Hugo Gonçalves, e A Visão das Plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida. Estes dois últimos eram também finalistas do PEN Narrativa, juntamente com Tríptico da Salvação,de Mário Cláudio (que venceu o Prémio APE-DGLAB), e O Duplo Fulgor do Tempo, de Maria Graciete Besse. Parabéns a Francisco José Viegas (e Jaime Ramos, evidentemente).

Conferências Outono-Inverno

Tudo leva a crer que a situação viral não vai melhorar nos próximos tempos, e é provável ou aconselhável que passemos agora mais tempo em casa. Mas não é preciso arranjar uma depressão por causa disso, até porque vai haver uma série de conferências praticamente à distância de uns cliques. A EC-ON vai fazer uma espécie de balanço literário e poético da segunda década do século XXI através de videoconferências sobre vários assuntos, tais como a língua portuguesa (por Fernando Venâncio), a tradução literária (por João Paulo Cotrim), a literatura de humor (por Ricardo Araújo Pereira), a literatura da lusofonia (por António Cabrita), a crítica literária (José Mário Silva) e muito mais. Estas palestras digitais realizam-se até Janeiro e serão uma espécie de festival literário à distância. Se quer saber mais, consulte o link abaixo. Aproveite para aprender em casa.


http://escritacriativaonline.net/cursos/icone/i17/


 

O que ando a ler

Julgo que foi Pessoa quem disse que um bom livro infantil deveria ser lido com o mesmo prazer por crianças e adultos. Realmente, há livros para crianças que as tratam como pobres tontinhas, e nenhum adulto suportaria lê-los até ao fim. Mas nem todos, graças a Deus. É o caso do livro que ando a ler (sim, era aqui que queria chegar) e, embora não costume dedicar-me à literatura infanto-juvenil, vi que  Mia Couto o elogiava e achei que devia espreitar. Era, ainda por cima, o vencedor do Prémio Branquinho da Fonseca, atribuído anualmente pela Fundação Calouste Gulbenkian e o jornal Expresso a escritores entre os 15 e os 30 anos, que já contemplou autores que hoje estão confirmadíssimos, como Rita Taborda Duarte (também poeta), ou livros que depressa se tornaram conhecidos, como O Caderno Vermelho da Rapariga Karateca, de Ana Ferreira Pessoa. O premiado mais recente, O Gato Que Chorava como Pessoa, do jovem enfermeiro Geremias Mendoso (parece pseudónimo, mas não é), é um livro de contos contados na primeira pessoa, cuja acção decorre em Moçambique, pátria do autor, num estilo ternurento e sensível mas ao mesmo tempo sem paninhos quentes nem moralismo (por vezes até com uns insperados socos no estômago). Ainda só li umas vinte páginas, mas já posso dizer que, mesmo sendo adulta, de certeza que não vou deixar o volume a meio. Publica a Caminho e tem algumas ilustrações de Samuel Djive.