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A mostrar mensagens de outubro, 2014

Cortes na educação

Já não me devia admirar com cortes e mais cortes que este Governo tem levado a cabo em todas as áreas. Embora não seja seguramente das pessoas mais afectadas com eles, também os senti – e tenho, sobretudo, olhos na cara para ver o que se passa à minha volta, principalmente com os mais desprotegidos. Apesar de tudo, quando o orçamento de 2015 foi anunciado, não queria acreditar que a educação tivesse sofrido um corte tão drástico (depois dos inexplicáveis cortes nas universidades, que deixaram de ter dinheiro para quase tudo, e das bolsas de investigação que se evaporaram, foi simplesmente demais). Na verdade, era em cultura e educação que devíamos investir pois sem ambas nunca chegaremos a lado nenhum (e às vezes sinto que, com a emigração de tantos licenciados bem preparados, que nunca mais voltarão a Portugal, sobrarão apenas os mal preparados e os ignorantes, o que dá, aliás, muito jeito a quem manda para lhes cair em cima e não haver reacção). A diminuição na venda de livros recentemente divulgada por um estudo universitário exaustivo sobre a matéria tem certamente já que ver com isto: a escola não está a saber criar hábitos de leitura. Os condicionamentos são cada vez maiores: crianças que andam todos os dias quilómetros de autocarro porque fecharam as escolas da sua área de residência, professores que são colocados a milhas de casa e que não têm motivação nenhuma para ensinar. Isso explica talvez porque em 2014 concorreram mais pessoas à Casa dos Segredos do que à universidade. Não, não é o País que temos; é o País que querem que tenhamos.

Coca-bichinhos

Quando a minha avó materna morreu, eu tinha oito anos e o último presente que recebi dela foi um livro ilustrado chamado A Menina Coca-Bichinhos. Durante o Verão, o meu irmão Jorge e eu brincávamos bastante com a bicharada (seguindo carreiros de formigas e observando ninhos de lagartixas) e, talvez por isso, o livro parecesse tão apropriado. Pois resolvi aceitar o desafio lançado por essa recordação e buscar no dicionário, à semelhança do que aqui fiz já com aves e vegetais, expressões construídas a partir de bichos mais pequenos. O Manel até disse que eu estava com bicho-carpinteiro, de tal maneira andava sempre a levantar-me para ir apontar mais um termo que me ocorria. Eu prefiro dizer que parecia um mosquito eléctrico, o que é, de qualquer maneira, bem melhor do que ser uma mosca morta ou uma barata tonta... Mas, para que conste, há também quem queira ser mosca, ou mosquinha, para poder estar onde não está e ouvir o que por lá se diz (quem esteja em pulgas para saber o que se passa); e quem perca a vergonha ao perguntar sistematicamente o que não é da sua conta e receba o epíteto de abelhudo (e o interpelado há-de queixar-se da perseguição com um «que melga!» ou mesmo «uma autêntica carraça!»). Quem anda desconfiado de alguém e com a pulga atrás da orelha pode também sentir um formigueiro avisador. Os que exigem dinheiro por tudo e por nada são verdadeiras sanguessugas. Os molengas são lesmas. A um garoto armado em adulto, diz-se frequentemente «já a formiga tem catarro». Chama-se verme a alguém capaz de coisas realmente vis. Estar em apuros é também estar em palpos de aranha. As coisas insignificantes são minhoquices. As portas velhas dos elevadores eram conhecidas como lagartas. Um cinema-piolho, expressão hoje desaparecida, era um cinema rasca. Percevejos era o nome dado a um certo tipo de pioneses. Uma sala às moscas está quase vazia. Nada-se mariposa, mas a paixão faz borboletas no estômago. Um certo zumbido dos despertadores é conhecido por besouro. Mulher com as medidas certas tem cinturinha de vespa, mas num vespeiro há normalmente muita maldade junta. Alguém que gosta de livros é uma traça. Popularmente, gafanhotos são perdigotos. No Brasil, grilo é preocupação. Gente com teias de aranha na cabeça é o que mais encontramos por aí e os andarilhos, equipamentos que servem para aprender a andar, também são conhecidos como aranhas ou aranhiços. Sempre adorei um modelo de Volkswagen a que se dá o nome de Carocha. E pronto, acho que já fui coca-bichinhos que bastasse. Qualquer dia dedico-me a animais maiores. Como dizem os irmãos brasileiros: Me aguardem.

Parentescos

Conheci há alguns anos Siri Hustevdt, escritora norte-americana de origem norueguesa que é casada com o romancista Paul Auster. Embora em muitos países ela tenha bastante sucesso e seja uma autora literária muito considerada, a verdade é que, noutros, as pessoas não resistem a referir-se-lhe como «a mulher de Paul Auster» e alguns jornalistas chegam até a perguntar-lhe, durante entrevistas que deviam cingir-se à sua obra, como é ser casada com o escritor norte-americano. Siri confessa que isso a irrita, como também aborreceria certamente Maria Judite de Carvalho ser mencionada como a mulher de Urbano Tavares Rodrigues, sendo ela uma escritora de mão cheia. Há vários escritores que tiveram filhos e netos também escritores – e os herdeiros (como, pelos vistos, os cônjuges) raramente gostam de ser tratados enquanto tal e comparados com os seus antecessores. Viu-se, aliás, no dia do anúncio do Prémio LeYa, como o jovem vencedor Afonso Reis Cabral, que é trineto de Eça de Queirós, logo quis afastar a genética das razões que o tinham levado a arrecadar o galardão, sublinhando que o importante era o livro, e não ele ou os seus genes supostamente literários. Também o escritor Mário de Carvalho tem duas filhas escritoras. O facto de uma não assinar com o apelido do pai livra-a certamente de associações forçadas. Quanto a Ana Margarida de Carvalho, que já assim assinava como jornalista há muito, foi mais difícil afastar a história do parentesco dos comentários e críticas ao seu livro. No entanto, se alguém pensava que era por causa da filiação que a crítica tinha sido tão entusiástica relativamente a Que Importa a Fúria do Mar, pode agora tirar o cavalinho da chuva: apesar de ser um romance de estreia, encontra-se entre os cinco finalistas para o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Português de Escritores, talvez o mais sonante prémio nacional, que será anunciado no mês que vem, e também entre os seis finalistas do Prémio Literário Fernando Namora, da Sociedade Estoril Sol, ao qual concorre também A Segunda Morte de Anna Karénina, de Ana Cristina Silva, que igualmente publico e está nomeada pela terceira vez consecutiva. Uma proeza que só a ela se deve, e a mais ninguém.

Alimento para o corpo e para a alma

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Se há duas coisas que nunca faltam à mesa dos portugueses, são o pão e o vinho. Em minha casa, tanto eu como o Manel não passamos sem pão, mesmo às refeições, e quando vamos a um restaurante japonês ele fica sempre a achar que lhe falta qualquer coisa... Pois destes dois produtos privilegiados há muitíssimo a dizer e contar – e foi o que fez o genial Paulo Moreiras, autor de romances e também de vários livros que recuperam as tradições nacionais (a ginjinha, o palito, a morcela e o tremoço, por exemplo), no recentemente dado à estampa Pão & Vinho – Mil e Uma Histórias de Comer e Beber, ilustrado com gosto e discrição. Nele aprendemos como entraram o pão e o vinho na alimentação corrente dos homens, as suas origens mais remotas, mas também a forma como ambos minaram o nosso quotidiano na forma de provérbios, adivinhas, superstições, versos e muito mais; cheio de curiosidades interessantes (porque se chama Pão de Açúcar à montanha que está no meio do Rio de Janeiro, por exemplo), de listas de tipos de pão, de castas, de festas que se celebram com pão e vinho e também de algumas receitas muito bem apanhadas, a obra recupera ainda excertos da literatura popular, filmes e apontamentos incríveis de muitas épocas e lugares nos quais pão e vinho são os verdadeiros protagonistas. Deixo-vos dois pequenos exemplos do cancioneiro popular só para aguçar a curiosidade. Mas, por favor, não deixem de ler.


 


Ó rosca do meu consolo,


Meu amado pão de bico,


Ó meu prezado miolo,


Como, ao mastigar-te, eu fico


Pateta, maluco e tolo!


 


Hei-de morrer numa adega,


Um tonel ser meu caixão,


Hei-de levar de mortalha


Um copo cheio na mão.


 


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O da Joana

O da Joana é um pequeno livro de Valério Romão, autor que é considerado pela crítica um dos mais promissores ficcionistas da actualidade e esteve presente já por duas vezes na revista Granta com textos de sua autoria. Mas a expressão «o da Joana» ou «Isto não é o da Joana» é, segundo leio recentemente na Revista do Expresso, uma expressão bastante antiga, normalmente aplicada a um lugar terrivelmente desarrumado ou a um comportamento desajustado ou, por assim dizer, indecoroso. Pois parece que a dita expressão está ligada a Joana de Nápoles (Joana I, condessa da Provença) que, acusada de conspiração com vista à morte do marido, se terá refugiado depois em Avignon, cidade papal, no século XIV. Aí terá aprovado um decreto que regulamentava os bordéis, do qual fazia parte a colocação de uma porta bem visível por onde todos pudessem entrar e sair (e deviam entrar e sair muitos, gerando confusão). Esses bordéis ficaram então conhecidos como «paços da mãe Joana», dando mais tarde origem a «casas da Joana», ou simplesmente, «os da Joana» e, por isso, apesar de se ter perdido a conotação sexual, não se perdeu a de sítio onde há confusão e mau-comportamento. Para que saibam, o livro de Valério Romão nada tem que ver com esta história – embora aproveite a graça da expressão – mas com uma Joana grávida a quem acontece um terrível percalço. É o segundo volume da trilogia «Paternidades Falhadas», iniciada com Autismo, muito aplaudido pelos críticos.

VGM

Com o tempo, os intelectuais portugueses foram-se transformando – e hoje faltam-nos aqueles que eram realmente intelectuais completos. Falo por exemplo de Eduardo Prado Coelho, que podia escrever com a mesma profundidade sobre livros, dança e comida, ou do recentemente desaparecido Vasco Graça Moura que, além de poeta e romancista, era um homem cultíssimo em muitas artes (um melómano confesso, de resto) e um interessante opinion-maker, mesmo que não concordássemos sempre com as suas opiniões. Mas a sociedade Estoril-Sol, que é já conhecida pelo lançamento de dois Prémios Literários (Revelação Agustina Bessa-Luís e Fernando Namora, ambos atribuídos anualmente) e também pela publicação da revista Egoísta, não esqueceu o grande Vasco Graça Moura e resolveu homenageá-lo, tornando-o patrono de mais um prémio. Desta feita, o galardão contemplará a Cidadania Cultural e, digo eu, não podia calhar melhor.

Leiria sempre

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Já aqui vos falei muitas vezes da Livraria Arquivo, em Leiria, um espaço muito bonito e acolhedor no que toca a livros e autores. Sempre que a oportunidade se apresenta, lá vou eu à Arquivo, acompanhada de um ou mais escritores, para uma sessão à roda dos seus livros para um público que costuma ser bastante interessado e participativo. Desta feita, a viagem far-se-á depois de almoço com a vencedora do Prémio LeYa em 2013, Gabriela Ruivo Trindade, autora de Uma Outra Voz, e, já na cidade de Leiria, iremos encontrar-nos com António Tavares, o autor de As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia, que, por viver na Figueira da Voz, faz a viagem no sentido inverso. A conversa promete ser boa, digo eu – sendo que aquelas a que tenho assistido na Arquivo o foram sempre. Se estiver pelas redondezas, vá fazer-nos companhia.


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Envenenados

Muitos dos autores de ficção que publiquei ao longo da vida eram também poetas. Alguns, aliás, já eram poetas antes de se terem tornado ficcionistas (José Luís Peixoto e valter hugo mãe, por exemplo). Diz a crítica que é difícil jogar nos dois lados com o mesmo nível – e talvez por isso uma das artes impere sobre a outra, fazendo com que determinado autor seja sempre conhecido ou como poeta ou como prosador (Saramago foi um romancista de excepção, mas a sua poesia não é muito difundida). Em todo o caso, não convém generalizar: acabo de ler O Uso dos Venenos, uma colectânea de poesia de José Carlos Barros, e não a acho nem superior nem inferior ao romance que dele publiquei no ano passado – Um Amigo para o Inverno – que foi finalista do Prémio LeYa em 2012. Vejo entre os dois livros pontos de contacto inequívocos, uma ligação às origens, à ruralidade, à memória. Até alguns objectos e palavras se cruzam nos dois volumes. Pedro Mexia, numa crítica ao poemário, fala de uma reunião de textos «com uma tonalidade humanista e melancólica que não teme o poético». Um exemplo, para que fiquem a conhecer melhor:


 


Ruína


 


Guardava a casa, o lume intemporal, como outros


guardam uma língua ou escondem da usura


alguns aspectos de uma biografia. Guardava a casa


como se não houvesse mundo além da escaleira


 


ou ao mundo não fosse dado entrar atravessando


a porta. É difícil compreender agora que a ruína


possa começar assim pelo lado de dentro, do interior


dos objectos que se chegou a supor imperecíveis.

Pano para mangas

Quando eu andava no liceu, uma professora de Português disse à nossa turma que Gil Vicente dava pano para mangas. É bom referir que o comentário vinha a propósito de uma adaptação muito pouco ortodoxa que tínhamos feito de A Farsa de Inês Pereira e que fora depois representada por vários alunos para toda a escola. Mas a senhora tinha razão – há autores que dão pano para mangas, suscitam facilmente a escrita de outros textos ou abordagens ditas artísticas. Outro caso assim é o de Agustina. Além das várias adaptações cinematográficas a que os seus livros já foram sujeitos, algumas delas do realizador Manoel de Oliveira, chegou agora a vez de um compositor, Eurico Carrapatoso, transformar numa ópera um texto inédito da escritora portuense intitulado Três Mulheres com Máscara de Ferro. A estreia, na Fundação Calouste Gulbenkian, aconteceu recentemente por ocasião do I Congresso Internacional dedicado à obra de Agustina Bessa-Luís, mas esperamos poder ver a ópera por esse País fora com brevidade.

A família de Eça

Leio num dos jornais de fim-de-semana que o filme Os Maias, de João Botelho – cineasta que é chegado à literatura e também já nos deu o Desassossego de Bernardo Soares, entre outras obras –, já foi visto por mais de 70 000 espectadores em Portugal. Parece, pois, que os portugueses perderam finalmente o medo do cinema português (melhor dizendo, o preconceito), ou então são os pais dos alunos que vão ter de ler a obra de Eça de Queirós durante este ano que os levam para que fiquem já com uma ideia da história e, se não chegarem a passar-lhe os olhos, possam mesmo assim debitar alguma coisa nos testes. A verdade é que também eu estava curiosa em relação a este Os Maias, e fui vê-lo, mas sem adolescentes. Gostei bastante dos cenários pintados e da interpretação dos actores, já menos da ligação dos episódios com voz off – que na maioria dos casos nem me pareceu necessária – e do final um pouco chocho, sem a graça que, na minha memória, tem no livro essa corrida para o americano. E apreciei obviamente o Eça, dito ali com todas as palavras que estão escritas por quem teve de as decorar ipsis verbis (opção do realizador que, digo eu, deve admirar o escritor) mas que antevejo de muito difícil compreensão para jovens de 15 anos que não leram a obra, sem hipótese de rebobinarem e voltarem a ouvir certos diálogos ou de irem ao caderninho de significados ver o que querem dizer determinadas palavras. Na sala onde vi o filme, a bem dizer, era tudo gente da minha idade. Mas talvez seja melhor assim. Sem terem visto o filme, alguns alunos sentir-se-ão obrigados a ler o romance, e isso é que é importante.

Vai um livrinho?

Num destes domingos em que havia sol fui almoçar com o Manel a um japonês que tem uma simpática esplanada ali para os lados da Expo. Na mesa ao nosso lado, ficaram dois casais jovens, um dos quais com a filha, uma menina muito pestanuda que tinha, quando muito, dois anos. Deram-lhe de comer de um tupperware trazido de casa antes de eles próprios se servirem (o restaurante é self-service) – uma massa de lacinhos com carne, que normalmente agrada às crianças; e, terminado o repasto, a miúda começou a ficar irrequieta e a pedir colo. Como os graúdos também queriam almoçar, o pai da menina perguntou à sua cara-metade se tinha trazido o telefone da filha. O telefone «dela», disse e eu ouvi muito bem. E, quando eu julgava que iria sair da enorme bolsa que as mães de filhos pequenos sempre trazem com elas um telefone de brincar, desses que tocam campainhas e têm muitas teclas coloridas, eis que aparece sobre a mesa um moderníssimo iPhone, logo entregue à bebezita que já sabia tudo sobre a geringonça e começou imediatamente a passar fotografias e a jogar, deixando os progenitores à-vontade para degustarem sushi e sashimi. Ora que diabo, pensei eu, então o telefone «dela», de uma criança de dois anos, era aquela máquina estupenda e caríssima a que tantos adultos aspiram? Porque não um livrinho, meus senhores, com bonecos, ruídos e até cheiros, que também os há? Irão estes meninos tecnológicos ser capazes de brincar a alguma coisa mais tarde e com alguém? Ou vê-los-emos sós durante toda a infância, diante de ecrãs de computador, sem abrir a boca para comunicar com os da sua idade, mandando apenas mensagens escritas ou apondo comentários em redes sociais? Um susto, é o que é...

Cinquentona

Ninguém imaginaria que Mafalda, a menina rebelde que odeia sopa e tem uma visão do mundo muito desassombrada, pudesse fazer este ano meio século. Na verdade, ela permanece igual, não envelhece apesar do correr do tempo que aos restantes traz rugas e cabelos brancos. E não envelhece sobretudo porque continua actual e oportuna num mundo que mudou imenso em muita coisa, mas é ainda o mesmo em quase tudo. Não consigo esquecer a lufada de ar fresco que foi descobrir este magnífico cartoon do argentino Quino (diminutivo de Joaquín) e as suas deliciosas personagens: além da própria Mafalda, claro, toda ela um programa, o Manelinho, o Filipe, o Miguelito, o Gui, a absolutamente irresistível Liberdade com a sua tartaruga Burocracia, e ainda a supremamente irritante Susaninha, capaz de me arrancar gargalhadas com as suas frases intempestivas. Numa tira desta banda desenhada, saindo de uma loja de artigos para o lar, vem um casal de braço dado; e a sempre romântica e sonhadora Susaninha observa o homem de alto a baixo, como se avaliasse mercadoria, e logo pergunta à senhora: Por quanto lho venderam? Mas a política nunca deixou de estar também presente nas notáveis histórias de Mafalda e abriu os olhos a muitos adolescentes, até em países com regimes ditatoriais, como era há cinquenta anos a terra natal do autor. Parabéns, Mafalda.

Em desuso

Hoje é dia de falar de palavras e expressões que os nossos jovens provavelmente já não usam e que é importante que apareçam de vez em quando em textos e conversas, para que não morram. Um dia destes, por exemplo, a minha mãe contou-me que tinha ido de escantilhão ao supermercado e que estava cansada porque andara toda a semana numa fona (note-se, tem 90 anos, mas ainda não está a cair da tripeça). Como a arenga não parecia terminar, achei por bem pôr-me na alheta. Há pessoas muito mais novas do que ela que são um pelém (adoro esta, usada frequentemente pelo escritor Mário Cláudio e que me cheira a infância, pois a minha avó paterna aplicava-a a meninos que adoeciam por tudo e por nada, sempre queixosos). Outra palavra que desapareceu do uso corrente – e se calhar ainda bem – é enjeitadinha, originalmente referindo-se a criança rejeitada ou abandonada pelos pais e presente em muitos fados da primeira metade do século XX. Tal como a expressão a esmo, que eu aprecio pela sonoridade estranha e que é hoje quase sempre substituída por «ao acaso», «à toa» ou «indistintamente». Um dia disse a uma rapariga que cortara o cabelo que lhe tinha feito bem ir ao baeta; ficou na mesma, não conhecia a expressão. Por fim, três outras palavras que só as pessoas de alguma idade ainda usam: pífio (já ouvi o professor Marcelo dizê-la a propósito de uma remodelação governamental insignificante); flausina (o mesmo que sirigaita) e capitosa (que vem de capo, cabeça, e significa «obstinada», mas sempre a ouvi designar louras que causam impressão indelével). E pronto, para o mês que vem, há mais.

Porto mais rico

Uma das vantagens de se ser convidado para um festival literário fora do País não é conviver com os conterrâneos do mesmo ofício, uma vez que a esses temos acesso todo o ano, se o quisermos, e a verdade é que não queremos assim tantas vezes, até porque podemos não simpatizar com alguns deles ou com as suas obras e preferimos não ter de o dizer. A vantagem é, na verdade, conhecermos os nossos confrades de outros lugares, pessoas que não têm qualquer ideia do nosso trabalho e por isso estão naturalmente abertas e curiosas como, aliás, nós sobre elas. Quantas vezes não me aconteceu ler um jovem autor completamente desconhecido para mim só porque o ouvi falar na mesa de um encontro de escritores a quilómetros de casa e me pareceu que só podia escrever livros interessantes? Aconteceu-me em França, num festival de poesia, travar conhecimento com um poeta espanhol que leio até hoje e um dia gostaria até de traduzir. Pois agora é a vez de uma autora que publico, Ana Margarida de Carvalho, ir representar Portugal a Porto Rico no Festival de la Palabra, que se realiza anualmente naquele país e cujo director é José Manuel Fajardo, um romancista espanhol residente em Lisboa. Será a única escritora portuguesa do cartaz e terá a oportunidade de se encontrar com colegas das letras de todo o mundo, maioritariamente de língua espanhola – colombianos, mexicanos, espanhóis (Javier Cercas e Rosa Montero, óptima companhia), entre outros – mas também alemães, haitianos e norte-americanos, além dos muitos porto-riquenhos que estarão a jogar em casa. Fico muito contente que tenha sido ela a escolhida este ano e tenho a certeza de que, com a sua presença, Porto Rico ficará ainda mais rico.

As crianças merecem

Nada como começar cedo nestas coisas da arte e da literatura. Uma autora de livros infantis que já publiquei em duas das editoras por onde passei, Marina Palácio, também ilustradora de excelência, é, além disso, de 2009 para cá, uma fervorosa construtora de projectos interessantes para crianças em várias áreas, desenvolvendo regularmente catorze oficinas de leitura e criatividade, nas suas palavras, «laboratórios para a criação da consciência da identidade “Nós e o Mundo” (...) cruzando expressões artísticas, ciência, humanismo, natureza, e promovendo ideias criativas e inovadoras». As oficinas (Como Nasce Um Livro? Jardineiros das Madrugadas, Educar pelo Livro, Oficina das Árvores e dos Avós, entre muitas outras) têm lugar em escolas, bibliotecas e outras instituições culturais em todo o País e recebem crianças entre os 3 e os 17 anos para formar leitores que se tornem elementos activos na sociedade. Deixo-vos, pois, os links do seu vídeo de apresentação e espero que inscrevam os mais pequenos em alguma destas actividades.


 


http://www.marinapalacio.blogspot.pt/

Amarrados

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Por estes dias, sai para as livrarias um livrinho muito bonito de José Fialho Gouveia (o excelente entrevistador do infelizmente extinto programa Bairro Alto), acompanhado de um CD cujas músicas foram compostas por Manuel Paulo (da Ala dos Namorados, entre outros). Trata-se de Amarrada à Tua Mão, uma peça de teatro para todas as idades que pode ser lida como um conto sobre esta pressa louca com que hoje vivemos e que nos tira o tempo e o prazer das coisas que são realmente importantes para nós. As personagens são um casal – ele sempre doido de trabalho, sem sequer tempo para ir ver o pai ao lar, ela uma jornalista farta da profissão e desiludida por nunca ter disponibilidade para a filha de ambos (quantas vezes chega a casa e já ela dorme?) – e uma boneca, a boneca que foi o brinquedo preferido da jornalista, mas jaz agora na prateleira de cima de um armário, sem préstimo, e nos canta a sua solidão (essas são as canções presentes no CD). Num dia especialmente triste, o casal resolve fazer um balanço sobre a sua vida e confirmar que os sonhos que tinham antes de se tornarem adultos foram, afinal, completamente ultrapassados por essa vida voraz e triste que levam. Então, também a boneca conhecerá um novo destino... Muito bonito e uma boa lição para todos nós, Amarrada à Tua Mão já esteve em cena, mas queremos que regresse, nem que seja aos palcos de muitas cabeças.


 


P.S. Apareça na Fábrica Braço de Prata dia 16 às 19h para ouvir Alice Vieira falar do livro e também algumas das canções.


 




Nobel

Parabéns a Patrick Modiano. Escrevi aqui sobre um livro dele, Horizonte, em 19 de Julho de 2012. O Manel, pelo que disse nesse post, está contente. Eu irei explorar outras obras para ver se também fico.

Passarinhar

Como há uns tempos os Extraordinários se divertiram com um texto que aqui publiquei sobre «vegetarianismo linguístico», resolvi voltar à carga e dizer que, para evitar os males da carne vermelha, sempre podemos recorrer às aves e fazer, na mesma, um brilharete lexical. Senão, vejamos: No galinheiro de um estádio de futebol, pode ser triste um adepto ver perder a sua equipa por causa de um frango – é, na verdade, um galo se isso acontecer e até o pode deixar com pele de galinha; pior ainda é se, à saída, está a chover e chega a casa um pinto. Se assim for, mais vale à mulher, que é uma gralha, calar o bico (antes que ele lhe corte o pio), comer como um pisco e a correr a sopa a ferver (o que vale é que tem goela de pato) e ir deitar-se com as galinhas para evitar discussões (já tem penas que cheguem). O seu vizinho, um pato-bravo da habitação clandestina, casado com uma perua de nariz aquilino com a mania das grandezas, queria multiplicar a fortuna, acreditou na galinha dos ovos de ouro (foi um pato), contou com o ovo no cu da galinha, mas o negócio trazia água no bico e, afinal, acabou depenado (mais valia um pássaro na mão, disse-lhe a mãe, uma pata-choca com pés de galinha debaixo dos olhos). Por sua vez, o sobrinho, um borracho que tinha o hábito de se pavonear por aí, verdadeiro galifão, pôs-se a galar a pombinha do andar de cima, que era o patinho-feio do prédio, papagueou-lhe uns poemas de amor, ela derreteu-se, caiu que nem um patinho, mostrou-lhe a passarinha (no Norte seria o pito) e agora vem aí a cegonha – e tomara que a rapariga seja uma mãe-coruja, porque o rapaz é um galo doido, capaz de a trocar por uma pega à primeira oportunidade (estes galarotes deviam era morrer como tordos, comentou a mãe da desonrada). Gostaram? Estou a tornar-me uma ave rara, mas escarafunchar nos dicionários é ou é não o ovo de Colombo?

Autora-mistério

Há muitos anos, li dois pequenos romances muito agradáveis, algo eróticos, de uma autora chamada Agustina Izquierdo: Um Amor Puro e Uma Recordação Indecente. (Se ainda os encontrarem nos alfarrabistas, dediquem-lhes a vossa atenção.) Talvez porque a autora, sendo de origem espanhola, escrevia em francês (ao que parece, era de uma família antifranquista que se refugiara em França), gerou-se o boato de que era apenas um pseudónimo de Pascal Quignard, que negou a autoria dos romances e afirmou que já lhe tinham atribuído quatro pseudónimos, todos falsos. Pois parece que temos, desde os anos 1990, mais uma autora-mistério: trata-se de Elena Ferrante, italiana, que, ao enviar a sua primeira obra ao editor, pôs como condição para ser publicada nunca aparecer em lado nenhum e apenas responder a entrevistas por escrito, nas quais já declarou ter nascido em Nápoles, ser licenciada em Estudos Clássicos, ensinar e ser mãe. Peguei num volume recentemente dado à estampa pela Relógio d’Água, Crónicas do Mal de Amor, constituído por três distintas novelas, e – ainda que só tenha lido a primeira –, fico na dúvida sobre se as declarações de Ferrante são mesmo de Ferrante. Isto porque, nesse texto, encontro múltiplas ressonâncias de autores espanhóis que conheço relativamente bem – o Juan José Millás de A Ordem Alfabética ou Assim Era a Solidão (que usa recorrentemente como protagonista Elena, o nome de baptismo da escritora italiana), algum Marsé e ainda traços de Buñuel aqui e ali – mas também porque me parece ser mão de homem a escrever, mesmo que os temas sejam, como o da relação entre mãe e filha, tipicamente femininos. Alguém me disse que, ao pé de Ferrante, Bukowski é um menino do coro. Quem quer que seja esta Ferrante, só posso dizer que não a percam.

Do outro lado

Do outro lado do mar, na América do Sul, também se lê em português. E não é raro que todos os anos, quando se anunciam os finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura, surjam entre os nomeados, além de brasileiros, autores portugueses publicados no Brasil. Este ano não é excepção: na categoria de Poesia, chegaram à final Ana Luísa Amaral com o seu livro Vozes e Gastão Cruz (já nomeado noutros anos) com o seu Observação de Verão seguido de Fogo. Na categoria de Romance, o prémio que já foi ganho por Gonçalo M. Tavares volta a contemplar o autor como finalista, desta feita com a obra Mateo Perdeu o Emprego, sobre o qual já aqui escrevi no Verão do ano passado, pois foi nas férias de 2013 que o levei para ler. Mas não é tudo: a jornalista Alexandra Lucas Coelho, que se estreou no romance com E a Noite Roda (vencedor do Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores) e viveu largo tempo no Rio, escrevendo textos para o Público sobre a vida no Brasil, concorre na categoria de Conto e Crónica com a sua obra Viva México!, publicada originalmente pela Tinta-da-China. Os concorrentes do outro lado são de peso, mas já não seria a primeira vez que ganharia um português.

Bibliotecas

Vila Franca de Xira inaugurou uma moderníssima biblioteca municipal. E ainda há pessoas que passam uma vida inteira sem ter posto os pés numa biblioteca. No princípio deste século, trabalhei para uma empresa que tinha, na sua sede, um grupo de jornalistas recentemente licenciados, contratados para escreverem entradas de dicionários e enciclopédias sobre tudo e mais alguma coisa, mas que pesquisavam exclusivamente na Internet, não fazendo a mais pequena ideia do que era entrar numa biblioteca e requisitar um livro. Um dia, um dos responsáveis pela empresa pediu a um desses jovens que escrevesse um verbete de quinze linhas sobre João de Deus (o assunto era literatura); e então ela foi ao Google ou à Wikipédia e fê-lo em menos de nada (copy/paste, provavelmente); só que, quando se foi a ver, a figura do verbete era o S. João (o apóstolo preferido de Deus, estão a ver?)… Bem, como homenagem às bibliotecas públicas, junto hoje uma colecção de fotografias que revelam exemplos bem curiosos. Divirta-se a ver e, claro, vá à biblioteca.


 


http://www.telegraph.co.uk/culture/photography/11070618/10-unusual-and-beautiful-public-libraries.html?frame=3024436

Escritaria

Há já alguns anos que se realiza em Penafiel um encontro anual de homenagem a um escritor português consagrado. Estive lá em 2009, quando Saramago era a estrela e o prémio literário com o seu nome foi aí entregue a João Tordo pelo romance As Três Vidas, mas já por lá passaram Lobo Antunes ou Mário de Carvalho e desde o início deste mês que a escritora agraciada pela Escritaria de 2014 é Lídia Jorge. O programa inclui arte de rua (as montras enfeitadas com livros são belíssimas), peças de teatro, cinema, várias conferências e exposições, toda a espécie de acontecimentos através dos quais o público será levado «a descobrir, num qualquer local improvável, numa esquina, rua ou viela, algo que o remeta para o universo da escritora» (roubo as palavras aos organizadores do certame). Um dos pontos altos desta Escritaria será amanhã à noite, no Museu Municipal de Penafiel, quando o Padre Anselmo Borges apresentar o novo livro de Lídia Jorge, O Organista, uma novela que é dada à estampa já depois de ter saído o romance Os Memoráveis em Abril deste ano. Mas o que melhor ilustra a importância da autora eleita são as quase 20 individualidades ligadas à cultura que, neste contexto, se irão deslocar a Penafiel para participar no programa e dar o seu testemunho. Entre elas, descobrimos nomes como Eunice Muñoz, José Fanha ou Cucha Carvalheiro. Se estiver por perto, vá ver como é.

A guerra do amor

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Em pleno centenário da Primeira Guerra Mundial, eis um romance português que recupera para a ficção uma história verdadeira, a dos bisavós da autora – ele português, ela francesa – que se conhecem e apaixonam durante um dos mais mortíferos conflitos de sempre, sobretudo para os Portugueses. Em Amor entre Guerras, de Sofia Ferros, Miguel é um jovem médico do Porto que parte para combater em França, como tantos dos seus amigos, e Alexandrine é uma rapariga invulgar, rebelde, admiradora da revolução russa e defensora dos direitos das mulheres. A paixão acontece num hospital improvisado, no qual um doente que sofre de febres palúdicas exige a presença do médico português, especialista em doenças tropicais, e onde Alexandrine passa as tardes com os doentes, consolando-os das feridas da guerra e ajudando um velho médico com falta de pessoal. Desse encontro nasce um casamento ardente, mas sempre ameaçado pela intervenção na política e pelo desejo de independência de Alexandrine, pouco comuns numa mulher da sua época e não muito bem vistos pelo marido criado no Norte com uma família tradicional. São por isso vários os momentos que ameaçam a ruptura desta relação, até que Miguel resolve aceitar um lugar em Moçambique, crendo que na distante Lourenço Marques Alexandrine deixará de lhe criar problemas. Mas não será exactamente assim. O lançamento da obra acontece hoje às 18h30 nas Caves Manuelinas do Museu Militar. Se quiser, apareça por lá.


 


O que ando a ler

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Ler um calhamaço num virote é sempre bom sinal – e as páginas deste Os Interessantes, da norte-americana Meg Wolitzer, realmente voam. O romance é de grande lucidez e a autora tem um invejável sentido de observação (invejável é, de resto, a palavra certa, pois a inveja é aqui coisa tão central como o talento, umas vezes sobrevalorizado, outras desperdiçado). Esta é a história de um grupo de adolescentes que se conhecem num campo de férias em 1974: dois irmãos bonitos e ricos, um gordo genial, uma aspirante a bailarina, um rapazinho tristonho filho de uma cantora folk – todos a viverem em Manhattan – e uma outsider que rapidamente se torna insider, a Julie órfã de pai e suburbana que acaba o Verão como Jules, um nome menos vulgar e mais de acordo com a actriz de comédia que descobriu poder ser. O Vietname não foi assim há muito tempo, o caso Watergate levou à demissão de Nixon enquanto os jovens gozavam as suas férias criativas, mas ao longo da vida destes seis interessantes, cuja evolução acompanharemos com muito interesse, como manda o título, assistiremos igualmente a trinta anos de história americana, culminando com a crise dos mercados que o país ainda está a sofrer. O destino das personagens será bastante surpreendente (tendo em conta, sobretudo, o sucesso que imaginaram para si próprias nesse ano longínquo no campo de férias), com muita decepção e resignação à mistura, mas também com amizades que por vezes ameaçam até os casamentos (ou ajudam a salvá-los em momentos de grande fragilidade). Um romance realmente interessante, raro – sem nada a mais apesar das suas quase seiscentas páginas – que merece ser lido e cumpre tudo o que promete.