Com ou sem badanas?

Quase sempre se escreve na contracapa de um livro um texto que resuma o seu enredo ou avance o assunto de que trata. Nem todos os livros têm badanas (eu gosto dos que têm porque as uso como marcadores), mas, geralmente, quando estas existem, são, entre outras coisas, usadas para proporcionar aos leitores um cheirinho da vida do autor (e por vezes até um relance da sua cara, mais ou menos bonita, tanto faz). As pessoas são curiosas e gostam de saber pormenores sobre quem escreve. O problema é que, de vez em quando, esbarramos numa badana biográfica totalmente disparatada... E já nem falo do número de filhos ou da raça dos cães (detalhes que os norte-americanos adoram acrescentar), mas de dados distribuídos pelas linhas à má fila, sem o mínimo bom senso. Um dia destes, por exemplo, caíram-me os olhos numa badana que começava logo por dizer que a autora era escritora. Ora, se tínhamos um livro dela na mão (e sei lá quantos mais escreveu ao longo da vida), seria mesmo preciso dizê-lo? (Quase me apetece sugerir que faria mais sentido explicar em certas badanas que quem assina o livro NÃO é um escritor.) E a verdade é que não dizia que “era” escritora, mas que o “fora” – mais estranho ainda, porque depois das datas de nascimento e morte entre parênteses a seguir ao seu nome, já tínhamos certamente concluído, se também não o soubéssemos já, que a senhora partira deste mundo. Não bastando isso, a frase seguinte informava-nos de que tinha sido casada com determinado escritor, como se isso lhe conferisse um estatuto que, solteira, nunca atingiria (e há muita gente entendida que sempre a achou muito melhor do que o marido, ainda por cima). Pois bem, parei de ler ali mesmo. Como o Joaquim Namorado disse ao Manel quando ele era estudante em Coimbra, os escritores são para se ler, não para se conhecer. Badanas para quê?

Comentários

  1. Não podia estar mais de acordo!
    Não há paciência para extrapolações do género "ah e tal, o escritor viveu isto e aquilo, e isso reflecte-se claramente na sua obra."
    Não digo que as suas vivência por vezes não fluam, mesmo que inconscientemente, para dentro da obra, mas às vezes exagera-se nestes tipo de comentários.
    Morte às badanas! :D

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  2. É isso mesmo, Rosário. Há autores que fazem bem a separação entre a vida e a obra, mas outros há que aproveitam bem a vida para vender melhor a obra. Por exemplo, esta mania de fabricar «escritores» a partir de gente famosa já enjoa.

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  3. O que não gosto é das capas amovíveis de alguns livros: caiem, desmancham-se, dobram-se e por fim acabam no lixo.

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  4. Então porquê que os editores fazem aquela cena dos autografos?
    Só fui 1x, fora os da minha profissão.

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  5. Ontem por acaso, enquanto lia "Sôbolos rios que vão" de António Lobo Antunes, reparei nas badanas, que também uso como marcadores. A informação é quase nula, mas as badanas, apesar de desproporcionadas em tamanho acrescentam um valor estético ao livro enquanto objecto. Penso que é isso que se quer.
    Quanto aos autores idealmente deveriam escrever sob pseudónimo. Li há uns tempos que um presidente de Câmara enviou um original com pseudónimo para uma editora e só se identificou quando soube que a obra ia ser publicada. Infelizmente são excepções à regra. Normalmente as editoras aproveitam o mediatismo dos autores para vender mais livros, não pela qualidade do que escrevem mas pela medida da popularidade destes junto do público.

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    1. É verdade: os autores deviam propor-se aos editores com pseudónimo, valendo o que está escrito como base única para a decisão. O problema é que a maior parte das empresas editoras não tem gente capaz de fazer essa apreciação. Nem deve querer ter.
      Não é o caso da Maria do Rosário Pedreira, a quem proponho que aborde este tema em próximo post.

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    2. O autarca que refiro em cima no meu comentário é "Alberto S. Santos, escritor e presidente da Câmara Municipal de Penafiel. Depois do sucesso de "A Escrava de Córdova", o autarca lança hoje o 2º livro, "A Profecia de Istambul", um romance histórico que foi escrevendo nas horas vagas."

      Link: http://noticias.sapo.pt/info/artigo/1105691.html

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  6. Uma "reflexão" sobre badanas: http://videos.sapo.pt/Tc9ZdneuQhLWaa45gc52

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  7. Badanas, gosto delas. Mesmo que venham em branco. Com frequência as badanas esclarecem-nos sobre a Editora que assumiu a função de parteira do livro, livro objecto, não livro conteúdo. A largura, a informação sobre o Autor, uma pincelada na estória do livro, lista de títulos da Editora, bateria de perguntas cujas respostas estão no interior do volume que temos nas mãos, críticas que o livro recebeu, ou que alguém diz que recebeu, embora seja mais frequente encontrá-las na contra-capa, localização que também pode albergar ou dois parágrafos do livro que o Editor considerasse atractivos, mas que também podem estar nas badanas. Também já vi índices na badana, índices do próprio livro e dum segundo volume, para que o leitor saiba o que encontrar na sequência daquela leitura. Há livros sem badanas e livros só com uma badana, cuja utilização como marcador se afasta, como é óbvio.
    Há badanas que são simplesmente a continuação da capa, numa espécie de segredo que se quer revelar, mas apenas aos mais atentos, como no livro A Imagem Útil, um objecto feito com precisão cirúrgica, onde nada foi deixado ao acaso.
    A face dos autores aparece cada vez mais, a cores ou a preto e branco, num processo que se pretende de identificação do livro com o leitor, mostrando a cara do Autor, um humano como nós. Dizem-me que os livros com fotografias dos autores se vendem mais, são capazes de ter razão, pois as pessoas gostam de saber quem enfileirou as palavras daquela forma, dar uma cara ao nome que vem na capa e, se possível, reconhecerem-na no meio da rua, poderem identificá-la na fila do supermercado ou nas cadeiras do cinema. É uma certa proximidade com a fama que está presente ainda que inconscientemente.
    Um livro com badanas é um livro mais sólido, o que não quer dizer que o conteúdo corresponda a essa solidificação. Porém, e apesar de preferir livros com badanas, sugiro às Editoras que poupem no orçamento badanal e invistam mais em Revisores. A Maria do Rosário diz que parou de ler pela idiotice do conteúdo da badana e eu não consigo ler com tanta gralha; o último que me deixou nas primeiras paragens sem vontade de ir ao fim da linha foi A Cura de Schopenhauer, muito recomendado mas a ganhar pó pela ligeireza com que foi tratado pela Editora.

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  8. Fiquei muito aliviada por saber que alguém que edita e, acima de tudo, preza os livros também usa as suas badanas como marcadores. Durante muitos anos não usei marcador nenhum mas com o declínio da capacidade de memorização começei a usar as badanas para o efeito: a da capa na primeira metade do volume e a da contra-capa na a segunda; Fazia-o, no entanto, envergonhadamente, julgando que se tratava de uma espécie de heresia. Não mais! Obrigada.

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  9. Eu gosto das badanas, usando-as não só para marcar algumas páginas, mas para ler alguma informação, quando relevante. Creio que o problema poderá ser quando a informação não é relevante, tornando-se a badana palco de biografias pouco inspiradas ou sinopses que nada acrescentam.

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  10. Gostei do seu ponto de vista. Para quê complicar o que é simples? Já pensou em fornecer este seu pensamento para futuras badanas? Talvez (algumas) pessoas compreendam afinal para que serve uma badana!

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  11. Tenho tanto livro com badana e não fazia a mais pálida ideia que podia ser usada como marcador. Pensei que fosse apenas uma marca estética.

    Seja como for, estive a experimentar e só dá para as 1ªs páginas, lá para as págs. 50 e tal o livro fica mal fechado e a capa corre o risco de dano. Não gostei do efeito.

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