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A mostrar mensagens de outubro, 2022

O senhor Pina

Conheci Manuel António Pina (ao vivo, quero eu dizer, porque obviamente já o conhecia dos livros e das crónicas jornalísticas maravilhosas) num festival de poesia em Genebra, no qual, como agora se usa dizer, coincidimos numa mesa-redonda. Desse grupo de poetas (que incluía também Gastão Cruz e Pedro Tamen), infelizmente só Fernando Pinto do Amaral e eu permanecemos vivos. Mas o Manuel António Pina seguirá vivo para quem o leia e para quem queira contar ou ouvir as suas histórias sempre tão engraçadas, como aquela de ter um número absolutamente louco de gatos, «parte deles em pensão completa e o resto em meia pensão». Fez recentemente dez anos que o poeta do Porto morreu e a Feira do Livro da Invicta decidiu que estava na hora de o escolher como homenageado: vai, pois, ter a sua tília com o nome gravado no jardim do Palácio de Cristal e um festival literário com programação de João Gesta coordenado pelo também poeta (e romancista) Rui Lage. Falta quase um ano, mas já está decidido. Uma boa ideia para 2023.

Excerto da Quinzena

– És feliz? – perguntou-lhe inopinadamente a senhora.


O filipino não era desses que se perturbam com uma pergunta íntima e inesperada.


– Sou – respondeu logo, sem hesitar. – Quando a senhora também o é.


O sol e a luz do lume brilhavam no quarto. Oscilava na parede um raio luminoso, que Alison observava, enquanto ouvia distraída o monólogo do rapaz.


– O que me custa compreender é que se saiba – dizia ele. Muitas vezes principiava a conversa por uma alusão vaga, misteriosa, como esta. Era preciso esperar um pouco para apreender o sentido das suas palavras. – Só depois de estar muito tempo aqui- é que percebi que a senhora sabia. Agora creio que toda a gente… excepto o senhor Sergei Rachmaninov.


– De que é que estás a falar?


– Minha senhora, acredita mesmo que o senhor Sergei Rachmaninov saiba que uma cadeira é uma coisa sobre a qual nos sentamos ou que esse relógio marca as horas? E se eu tirar um sapato e lho meter à cara, dizendo: «Que é isto, senhor Rachmaninov?», o senhor pianista será capaz de responder, como qualquer pessoa, «É um sapato»? Custa-me tanto a crer!


 


Carson McCullers, Reflexos nuns Olhos de Oiro

Uma vida dinamarquesa

Suspeito que, por haver tão poucos tradutores de línguas nórdicas, tenhamos um grande défice de livros publicados em Portugal vindos destas paragens. Mas a boa notícia é que, de vez em quando, aparecem uns bons autores que desconhecíamos completamente, como é o caso de Tove Ditlevsen, dinamarquesa, de quem a Dom Quixote publicou recentemente A Trilogia de Copenhaga. O livro, uma autoficção que se lê como um romance, foi originalmente publicado em três volumes curtos (Infância, Juventude e Casamentos) que na edição conjunta tem um subtítulo ligeiramente diferente, Infância, Juventude, Relações Tóxicas, o que faz muito sentido, uma vez que a dependência terrível de fármacos, ministrados à narradora pelo próprio marido, médico e psicótico, ao longo de muitos anos é a marca mais visível desta última parte da trilogia. Mas o livro é sobretudo interessante porque nos oferece um retrato da Dinamarca muito inesperado: as famílias muito pobres, o frio das casas, o desemprego crónico entre guerras, a marginalização, a frustração de não se poder comprar um vestido ou um casaco quando se é uma rapariga a querer namorar. A infância e a juventude de Tove, que quer ser poeta desde criança mas aprende depressa que as pessoas querem sempre qualquer coisa umas das outras (e por isso vem a casar-se com um editor que podia ser seu pai), é uma infância pessoal que se torna universal na sua narração limpa e fria, sobretudo nas descrições familiares, muito pouco abonatórias. A tradução é do também escritor João Reis.

Pecar com prazer

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Não é que exista uma hora indicada para pecar, mas venho aqui falar-vos de um ciclo de conversas chamado Sete Pecados à Tardinha, ideia do escritor Nuno Camarneiro (que já se responsabilizara pelas conversas Havemos de Falar de... em Aveiro há uns anos), que se incia hoje na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, às 18h00, e se repetirá nas últimas quartas-feiras dos meses de Novembro, Dezembro, Janeiro, Fevereiro, Março, Abril e Maio. Não que não se peque no resto do ano, mas os chamados «pecados mortais» são «só» sete (ira, avareza, gula, luxúria, preguiça, soberba e inveja) e, por isso, temos de deixar muitas quartas-feiras livres para a penitência. O programa, segundo a organização, prevê diálogos sobre as perspectivas simbólicas, históricas, religiosas, culturais, científicas e sociais do pecado e reunirá no palco, além de Nuno Camarneiro, que modera, um par de convidados de diversas áreas. Hoje à tarde falar-se-á sobre a preguiça. Carlos Tê, de quem admiro as letras absolutamente notáveis que tem feito para Rui Veloso, estará a contracenar com esta vossa criada que pode ser acusada de quase tudo, mas por acaso não é especialmente preguiçosa. Se estiver pelo Porto, apareça!


P. S. Hoje ao final da manhã o júri anunciará o vencedor do Prémio LeYa 2022.


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Um país perigoso

Recentemente, no âmbito do festival FOLIO, esteve em Óbidos para uma boa conversa o escritor nigeriano Akinwande Oluwole Babatunde Soyinka, conhecido por Wole Soyinca, dramaturgo, poeta e romancista. Ganhou o Prémio Nobel da Literatura no ano imediatamente anterior a eu entrar no mundo da edição (1986) e tem a bonita idade de 88 anos, mas está óptimo de cabeça, afianço, pois pude cumprimentá-lo num barzinho onde provava uma ginja de Óbidos. Tem, aliás, um grande sentido de humor. E, por ser tão simpático e divertido, a sua editora na Livros do Brasil disse-lhe que ainda haveria de o ir visitar um dia à Nigéria, que é, como sabem, um dos países mais perigosos do mundo, onde o grupo jihadista Boko Haram faz sequestros todos os dias e, de uma só vez,raptou de uma escola mais de cem raparigas que, tanto quanto sei, continuam desaparecidas em parte incerta. Quanto à posibilidade de ser visitado pela sua editora, Wole Soyinca sorriu e concordou, mas logo a seguir disse que iria ele próprio buscá-la ao aeroporto, depois levá-la-ia directamente aos raptores, negociaria com eles a sua liberdade e então, sim, ela poderia andar à vontade nas ruas de Abuja...

O que nos torna escritores

Estive no segundo fim-de-semana do FOLIO em Óbidos em diversas actividades, entre elas a conversa entre Pilar Quintana e Bernardine Evaristo sobre emancipação. Mas, se esta última escritora foi bastante militante e previsível (o que não lhe retira o interesse, atenção), creio que Pilar supreendeu pela leveza com que falou do assunto, partindo da sua própria vida. Escrevia histórias, contou, desde criança, mas percebeu cedo que não poderia viver da escrita na Colômbia; decidiu então fazer o curso de jornalismo por achar que era, apesar de tudo, o mais parecido com escrever. Infelizmente, depressa chegou à conclusão de que não queria narrar factos, mas inventá-los. Resolveu, pois, escrever o seu primeiro romance e mandou-o a várias editoras. Porém, como ia estar fora, foi a morada da mãe que deu para o caso de vir uma resposta de alguma editora. Ora, como era natural na época, os editores que recusaram o livro devolveram com a carta de recusa os originais recebidos; e, intrigada com tanto envelope gordo para a filha, a mãe de Pilar não resistiu e foi bisbilhotar de que se tratava. Quando regressou da viagem, PIlar nem se importou muito com as tampas que levou, porque, quando a mãe lhe disse «Uma rapariga decente não escreve estas coisas!», compreendeu que, apesar de ainda não atingido o livro perfeito, já era uma escritora.

Borges poeta

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A monumental obra de Jorge Luis Borges (não me refiro ao tamanho, bem entendido) não foi brindada, como merecia, com o Nobel da Literatura, o que pode considerar-se bastante injusto se tivermos em conta que se trata de alguém que inventou uma forma de escrever única e irrepetível (apesar dos epígonos). Mas mais importante é tê-la disponível para leitura. Ora, a poesia de Borges foi traduzida pelo também poeta Fernando Pinto do Amaral e editada em quatro volumes pela Teorema e o Círculo de Leitores há uns quinze ou vinte anos, mas estava desaparecida do mapa das livrarias, o que era um tremendo mau sinal. Não havendo agora carcacanhol para comprar quatro volumes (ainda por cima eram todos de capa dura e sobrecapa), a Quetzal dá  milagrosamente à estampa num único volume a Poesia Completa. São poemas escritos pelo mestre argentino de 1923 a 1985, de Fervor de Buenos Aires (o primeiro livro) até Os Conjurados (o último),  reunidos numa edição de luxo com uma capa que tem uma belíssima ilustração de Lia Pereira. À venda a partir de ontem. Ide ler!


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Alto Minho

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Iniciado em Abril, regressou ontem o ciclo de encontros literários do Alto Minho, As Palavras Que Nos Unem, integrado no projecto «Inclusão ativa de grupos vulneráveis: Cultura para todos», que permite a invisuais e deficientes auditivos acompanharem todas as sessões através de suportes em braille e tradução em línguagem gestual. Numa programação de conversas orientada pelo jornalista João Morales, grande dinamizador cultural, desta vez os encontros acontecem nos municípios de Melgaço (foi ontem, lamento chegar tarde, e ainda por cima estavam presentes Nuno Camarneiro e Ana Ventura), Ponte da Barca (21 de Outubro), Viana do Castelo (27 de Outubro), Monção (28 de Outubro) e Paredes de Coura (29 de Outubro). Foram convidados, além dos já referidos, António Mota e José Pedro Leite em Ponte da Barca; José Mário Silva e Rita Taborda Duarte em Viana do Castelo; Olinda Beja e Carlos Quiroga (galego!) em Monção; e, por fim, Filipe Homem Fonseca e Adolfo Luxúria Caníbal em Paredes de Coura. Haverá música e teatro para animar e o programa está disponível para ser descarregado no link abaixo com a novidade de ter a «audiodescrição» ou consultado no cartaz aqui reproduzido. É assim mesmo!


http://redebibliotecas.altominho.pt/noticias/detalhes.php?id=1084


 


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O regresso de João Pinto Coelho

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Alguns dirão que o seu tema era Aushwitz ou a Segunda Guerra Mundial, mas não só. Desta feita, João Pinto Coelho rumou à Nova Inglaterra e brinda-nos com uma história de família. Depois de passar a infância num orfanato, Noah conhece finalmente a mãe, Patience, aos doze anos. Mas, apesar de ela fazer tudo para o compensar, nunca se refere ao motivo do abandono; e, por isso, seja na casa de praia de Cape Cod, onde passam temporadas, seja no teatro do Connecticut onde acabam a trabalhar juntos, há uma fronteira que nenhum dos dois ousa atravessar. Quando Noah conhece Frank O’Leary – um jesuíta excêntrico que guia um Rolls-Royce –, descobre nele o amparo que procurava. Mesmo assim, há coisas que o padre prefere guardar para si: os seus anos de estudante; o bar irlandês de Boston onde ele e os amigos se embebedavam e recitavam poemas; e ainda a jovem ambiciosa que não temeu desviá-lo da sua vocação. É, curiosamente, a terrível experiência de solidão num colégio religioso – assombrado por histórias de Dickens e um assassínio macabro – o primeiro segredo que Patience partilhará com Noah; contudo, quando essa confissão se encaixar no relato do padre Frank, ficará no ar o cheiro da tragédia e a revelação que se lhe segue só pode ser mentira. O desfecho é mesmo genial. De que estão à espera? Esta semana o livro é posto à venda.


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À procura da língua materna

No último dia 7 fui, como oportunamente avisei, ao Instituto Cervantes ouvir a conversa entre Lídia Jorge e o escritor guatemalteco Eduardo Halfon, que foi, aliás, soberba. Entre as muitas coisas que foram ditas, há, porém, uma história que Halfon contou e que explica a forma original como se tornou escritor. De família de direita e abastada, o romancista viveu na Guatemala até aos dez anos; mas, quando a guerra civil atingiu um ponto insuportável, os pais resolveram mudar-se para os Estados Unidos. Foi, pois, em inglês que Eduardo e os irmãos fizeram a parte mais substancial da sua educação, tendo ele cursado engenharia numa universiade americana. Enquanto viveu nos EUA, segundo disse, os livros não lhe interessavam nada, pouco lia, gostava era de jogar à bola e estar com os amigos. Mas eis que as leis da imigração norte-americanas fizeram com que, acabado o curso, Halfon fosse obrigado a regressar ao seu país de origem. Ele, que falava inglês com os irmãos e os amigos, usando o castelhano apenas com a geração mais velha, teve uma dificuldade extrema em de repente mudar o chip e ter de falar a língua materna para conseguir trabalhar e viver na Guatemala. Decidiu então ir estudar para a universidade; e, embora tenha inicialmente pensado em Filosofia, acabou por ser «recambiado» por um professor para Letras. E eis que, à procura da sua própria língua, começa a ler e a escrever e percebe o gosto pela literatura e pela construção da ficção, um rapaz que antes não lia um livrinho... Diz que continua a pensar em inglês, mas que só consegue escrever em espanhol (traduzirá os pensamentos?). Afinal, se os americanos quisessem lá todos os estrangeiros que para lá vão estudar, já teríamos perdido um escritor...

Excerto da Quinzena

Nina levantava-me, e era bom o seu levantar, mas eu nunca lhe hei-de contar como numa noite de Inverno uma chuva inesperada, de mistura com trovões, na casa que lá deixei, entrou pelo buraco da instalação do telefone, se infiltrou ao longo da parede, acumulou-se a um canto da sala e foi desaguar na cesta das revistas. Não vou contar a ninguém, nem sequer a Nina, os desaires que são só meus. Não lhe vou contar como nessa cesta eu havia abandonado, por acaso, O Grande Atlas do Mundo, quando o seu lugar era sobre o tampo da escrivaninha. Só que os objectos são como os seres humanos, procuram o lugar da perdição quando têm de se perder. Ora, nessa noite de tempestade, a água da chuva, seguindo o seu caminho imparável, ao infiltrar-se até chegar ao canto da sala, foi transformando tudo o que era papel acumulado na cesta de verga numa massa informe, sem eu dar por nada. Quando dei pelo material ensopado era demasiado tarde. À chuva e à trovoada seguiu-se o bom tempo, e ali estava o desastre. O Grande Atlas ainda era reconhecível mas estava perdido. Com esperança de recuperá-lo, cheguei a colocá-lo ao sol, ainda lhe apliquei o secador e o ferro de engomar. De nada serviu. Despeguei folha a folha, mas elas tinham-se colado, e à medida que as separava, grandes manchas brancas iam ocupando o espaço onde antes havia a representação de oceanos, mares, continentes, países, páginas bem assinaladas por onde eu estudava o mundo à minha maneira.


Lídia Jorge, Misericórdia


 

FOLIO outra vez

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Hoje seria dia de «Excerto da Quinzena», mas tenho outra matéria para publicitar, pelo que terão o excerto na próxima segunda-feira sem falta. Amanhã, há dois acontecimentos no FOLIO, em Óbidos, que quero partilhar com os leitores do blogue, até porque gostaria muito de os ver por lá, assim tenham tempo livre e interesse. Às 15h00, a escritora colombiana Pilar Quintana, de quem publiquei os romances A Cadela e Os Abismos (este último vencedor do Prémio Alfaguara de Romance no ano passado), vai estar na Tenda Vila Literária a falar de Emancipação com a escritora britânica Bernardine Evaristo que, como devem saber, é uma das vencedoras do prestigiado Booker Prize. A conversa será moderada pela jornalista do Expresso, Luciana Leiderfarb. Às 17h00, na Livraria de Santiago, ocorrerá por sua vez o lançamento do romance A Casa Ocupada, de Graça Videira Lopes, que será apresentado por Fernando Cabral Martins, professor na Universidade Nova de Lisboa e especialista em Fernando Pessoa. O convite aqui fica para os interessados. Apareçam!


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Literatura e inteligência artificial

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Num encontro de poesia em Oeiras, já não sei se no final do ano passado, convidaram-me para discutir o tema da inteligência artificial aplicada à poesia com uma professora do Instituto Superior Técnico. Como sabia pouco sobre a matéria, estive a investigar e, curiosamente, descobri poesia criada por máquinas bastante boa, alguma até melhor do que muitos versos tremendamente fracos que estamos sempre a encontrar por aí. Claro que a poesia criada por «cérebros artificiais» parte sempre de um conjunto grande de textos poéticos preexistentes escritos por pessoas de carne e osso; e, como na máquina da taluda, no fundo o computador mistura todas as bolas e depois deixa cair uma poesia nova; o que não sabemos é se faria um poema assim jeitoso sem lhe darmos a «ler» antes muitos poemas jeitosos. Mas, se quer saber mais sobre este assunto, vá hoje ao Goethe-Institut de Lisboa, pelas 19h00, onde dois especialistas vão falar de poesia digital e ciberliteratura: Rui Torres, professor catedrático no Porto, e João Gabriel Ribeiro, jornalista e designer. Ambos têm plataformas de poesia digital e, suponho, vão defender as suas damas.


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«Esplanar»

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Pelas estatísticas que de vez em quando consulto, sei que este blogue tem leitores nos quatro cantos do mundo, embora, claro, como seria de esperar, o grosso esteja aqui no Portugal pequenino. Porém, os dados não me permitem saber se tenho mais leitores no Norte ou no Sul, no Porto ou em Lisboa. Partindo do princípio de que terei uns quantos na capital, aviso-os então de que hoje ao fim da tarde vou «esplanar» e tomar «chá com livros» no Parque das Nações (e gostaria de estar acompanhada, bem entendido). Num diálogo com António de Oliveira, que moderará a sessão, estou convidada para passar umas horas num belo espaço chamado «Esplanando» onde se fala de literatura com um chazinho sobre a mesa. Por certo, terei oportunidade de contar como comecei a ler a a escrever, dos livros que publiquei (meus e dos outros), das mudanças que encontrei na edição ao longo do tempo, da minha preguiça como autora. Por isso, se lhe apetecer, venha «esplanar» connosco, o convite segue abaixo.


cartaz Maria do Rosário Pereira com moderação d

Conhecer

Quando Afonso Reis Cabral ganhou o Prémio LeYa com vinte e poucos anos, ouvi-o dizer numa entrevista que escrevia sobre o que conhecia. O seu romance O Meu Irmão, sendo obviamente ficção, tinha como protagonista um homem que tinha um irmão com síndrome de Down, e não por acaso Afonso Reis Cabral também o tinha, o que lhe permitiu seguramente descrições mais credíveis do comportamento da personagem. Devemos escrever sobre o que conhecemos bem? Será melhor a nossa ficção se ela espelhar uma realidade de que estejamos mais próximos? Perguntei-me isto por causa da entrevista de Arturo Pérez-Reverte ao Ípsilon na sexta-feira passada a propósito do seu Linha da Frente, que decorre durante a Guerra Civil espanhola. Ali pode ler-se que teve «três fontes fundamentais de informação: “Uma, os muitos livros de uma biblioteca sobre a guerra civil, li tudo o que fosse História, ensaio, romance, e também vários autores estrangeiros. Outra fonte foi a minha família: o meu pai, o meu tio e o meu avô, que fizeram a guerra civil. Foram fontes directas, contavam-me histórias, não eram discursos manipulados por terceiros, contaram-me algumas das suas experiências. A terceira fonte foi o facto de eu ter estado em guerras civis [como repórter para o canal de televisão TVE]. Das dezoito guerras em que estive, oito foram guerras civis: Angola, Moçambique, El Salvador, Nicarágua, Jugoslávia, Líbano... Eu sei o que é uma guerra civil. Não foi o cinema que me contou. Vi-as, ouvi-as, cheirei-as e falei com as pessoas. Tenho três boas bases de autoridade para falar sobre isso.”» Tiremos daqui as nossas conclusões.

Alma fadista

Tenho andado muito ocupada com as provas de uma antologia que assino com a fadista Aldina Duarte e que para o mês que vem, se tudo correr como esperamos, verá a luz (e as prateleiras das livrarias). Tem que ver com o fado, e mais tarde voltarei a ela, mas a canção lisboeta hoje aparece aqui no blogue porque no passado sábado foi lançado no Museu do Fado um volume que vou querer ler assim que tenha tempo. Trata-se de Severa 1820 e fala, pois claro, da primeira «fadista» conhecida (e guitarrista, já agora), que se chamava Maria Severa Onofriana e nasceu há quase dois séculos na Madragoa, impressionando as gentes que a ouviam cantar, em especial, segundo reza a lenda, o Conde de Vimioso, que muito contribuiu para que a sua carreira vingasse e, com ela, o próprio género. É o duplo centenário da Severa, e ao mesmo tempo os dez anos da inscrição do fado como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, que se comemoram com a saída deste livro, cuja coordenação esteve a cargo de Paulo Lima e inclui textos de várias figuras conhecidas, como Jorge Sampaio, Rui Vieira Nery ou Salwa Castelo-Branco, bem como fotografias de Augusto Brázio. Inclui ainda dois CD, sendo um deles com a banda sonora do filme A Severa, que é o primeiro filme sonoro português. Vai ser um belo presente de Natal para quem gosta de fado.

Eduardo Halfon

Quando se fala de literatura latino-americana de língua espanhola, pensa-se quase sempre em escritores mexicanos, argentinos e colombianos, talvez por serem naturais dos países mais fortes em termos literários e com mais tradição de prémios internacionais e índices de leitura acima da média. Estive em Buenos Aires e fiquei louca com a quantidade de bancas de livros por todo o lado, com El Ateneo, uma das maiores e mais belas livrarias do mundo, e com a quantidade de gente que acorre a eventos literários em museus e bibliotecas. Na Colômbia, onde tenho a sorte de ter uma antologia de poemas traduzida e publicada, vi o interesse genuíno dos leitores, que compareciam às apresentações em Bogotá e Cartagena sem me conhecerem de lado nenhum, e dos jovens universitários numa sessão para que fui convidada; e no México, tive casa cheia em sessões de leitura de poesia e numa conferência que fiz com Rui Vieira Nery sobre fado. Sim, são países muito dados às letras e com muitíssimo bons escritores. Mas não podemos escamotear o facto de o Peru, o Chile e a Guatemala já terem tido prémios Nobel da Literatura, apesar de terem menos autores conhecidos. E é justamente deste último país um dos escritores mais interessantes da actualidade, Eduardo Halfon, de que já aqui falei a propósito de Canção e Luto, mas cujo projecto literário é verdadeiramente fascinante, combinando o registo ficcional com as memórias da família de ascendência libanesa. Não percam hoje, às 19h00, a sua conversa com Lídia Jorge no Instituto Cervantes. Só pode valer muito a pena. Eu vou!

FOLIO

Hoje começa mais uma edição do festival FOLIO, na vila literária de Óbidos, e se consegue um tempo livre até dia 16 há realmente muitas razões para lá ir. Puxando a brasa à minha sardinha, desde logo a presença de Pilar Quintana, a «minha» autora de A Cadela e Os Abismos, que irá no dia 15, pelas 15h00, contracenar com Bernardine Evaristo, a vencedora do Booker Prize com Rapariga, Mulher, Outra, sobre o qual já aqui escrevi. Mas estarão também Eduardo Halfon (já leram Luto?), Manuel Vilas, Olga Tocarczuk e Wole Soyinca (dois Prémios Nobel da Literatura), Mia Couto, Pacheco Pereira e muitos outros. O programa inclui ainda sessões em escolas, oficinas, seminários e cursos, incluindo um ministrado pelo escritor Gonçalo Tavares a partir de dez versos de poemas portugueses. Como sempre, haverá ainda concertos, exposições de ilustração e muitas mais actividades ao longo de dez dias de sonho, em que o tema central é... o PODER! Vamos?


P. S. Atenção, hoje às 12h00 é anunciado o Prémio Nobel da Literatura!

Figuras de estilo

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Lembro-me de que, nos meus tempos de estudante da Escola Secundária (na altura, chamava-se apenas liceu), estudávamos uma série de figuras de estilo e de retórica e tínhamos de ter a sua definição na ponta da língua, o que nem sempre era fácil, sendo muito mais fácil reconhecê-las num texto. Recordo, porém, que um dia, por causa de uma frase em que se falava com pompa excessiva de uma autêntica ninharia de forma a fazer-nos rir, um professor nos disse que a melhor forma de definir «ironia» era dar a entender o contrário do que se queria efectivamente dizer. Não nos pareceu, na altura, uma definição muito boa, mas na verdade era-o; e um dia destes, no jornal Público, apareceu um anúncio procurando candidatos para um emprego que prova como esse professor estava afinal completamente certo. Parabéns ao Sindicato dos Oficiais de Justiça por pôr a criatividade ao serviço da defesa dos trabalhadores e, antes de tudo, claro, pela ironia.


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O que ando a ler

Estas duas últimas semanas foram pesadinhas, pois, a seguir ao calor, ao barulho e ao movimento da Feira do Livro de Lisboa (que este ano incluiu um enfarte em directo, mas o autor que o sofreu já está fora de perigo, graças a Deus), veio o planeamento dos livros de 2023 e os orçamentos, com contas para cada livro previsto, o que cansa qualquer cabeça nascida para as letras. Talvez por isso não fui capaz de entusiasmar-me por aí além com o livro que trago em mãos, do vencedor do Prémio Nobel da Literatura nascido em Zanzibar (mas a residir há muito em Inglaterra), Abdulrazak Gurnah. Trata-se de Paraíso e é, de certa forma, também um romance de formação, na medida em que relata a vida de um adolescente na companhia de um comerciante a quem foi entregue pelo pai em pagamento de uma dívida. Maltratado pelos capatazes, protegido pelo comerciante, muito belo e cobiçado por homens e mulheres, está sempre no fio da navalha e prestes a ser vítima de abuso. Primeiro a trabalhar numa loja e a mimar um jardim, depois numa grande viagem comercial pelo interior de África, o jovem Yusuf conhecerá tribos hostis, dissensões religiosas, atitudes violentas e primárias, costumes estranhos e mosquitos capazes de matar; e lembrar-se-á cada vez menos do rosto da mãe, que chorou ao vê-lo partir de casa aos doze anos. Escrito com delicadeza, mas talvez um nadinha arrastado, este romance foi finalista do Booker Prize em 1994 e tornou conhecido o seu autor no Reino Unido e não só.