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A mostrar mensagens de setembro, 2022

Excerto da Quinzena

Sinto-me completamente esgotado, e esgotadas as reservas de oxigénio intelectual e físico que pude armazenar com os dois anos que consegui estar fora. O meu passaporte já vai fazer três anos de novo, sem um carimbo salvador para onde quer que seja! A exaustão da exaustão leva este gato vadio a pôr a pata no ar e, por uma vez na vida de um gato, a olhar insistentemente para si, como única chance de salvação. Sei que a Menez, também tomada de angústias, vendeu um guacho da Maria Helena, o que vai proporcionar-lhe uma saída daqui para fora. Seria tão grave para si como o é para mim pedir-lhe que me enviasse, me desse, um guacho libertador, talvez por mais dois anos, talvez para sempre, desta morte no vácuo. [...]


Carta de Mário Cesariny a Vieira da Silva de Julho de 1968, in Gatos Comunicantes: Correspondência entre Vieira da Silva e Mário Cesariny 1952-1985

Açores com música e literatura

Há uns anos fui falar a um festival literário sobre música e poesia, artes com muitos pontos em comum (trabalham fundamentalmente o som e o sentido, por exemplo); e hoje reparei que vem aí um festival que se realizará em duas ilhas dos Açores, São Miguel e Terceira, chamado Arquipélago de Escritores, que misturará música e literatura e tomará de certa forma a cantiga como «arma narrativa». Em São Miguel, as actividades decorrem de 7 a 9 de Outubro; na Terceira, de 13 a 16. Será convidado o biógrafo de Fernando Pessoa, Richard Zenith, residente em Portugal há muitos anos, para uma entrevista sobre o mais emblemático poeta português, que passou por Angra do Heroísmo (mas que bela cidade!) quando era adolescente. Entrevistados vão ser também a escritora Isabela Figueiredo e o fundador das Produções Fictícias e ex-director da RTP Nuno Artur Silva. Entre outros autores, José Carlos Barros, vencedor do Prémio LeYa com As Pessoas Invisíveis, estará nos Açores para falar desse romance. Na música, haverá concertos dos The Wants e de Os Perdedores. São os Açores a mexer e ainda bem.

Literatura fantástica

Não é o meu género preferido, mas há cada vez mais gente a gostar dele, talvez pela influência das séries televisivas de sucesso como A Guerra dos Tronos e os seus sucedâneos. E, portanto, vale a pena difundir aqui o Fórum Fantástico, que regressa este ano à Biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras, de 30 de Setembro a 2 de Outubro. Os temas são sempre variados, e em 2022 há muitos convidados estrangeiros, incluindo a escritora e cientista Julie Novakova (da República Checa), a escritora e historiadora Ana Cristina Rodrigues (do Brasil) e a escritora e criadora de jogos Kseniya Tomasheva (da Ucrânia). Os registos, segundo o organizador, estendem-se do lúdico ao académico, e não faltarão conversas, bancas de livros, exposições, oficinas e actividades para todos os gostos, entre as quais um quizz que dará direito a prémio. A quem quiser espreitar o programa, o link vai já aqui abaixo:


https://forumfantastico.wordpress.com/ 

Cursos e conferências

Fundamentalmente, nos meus tempos livres... leio, como se não lesse já o resto do tempo. Tenho leituras obrigatórias e leituras livres; e também a noção de que não vou conseguir ler tudo o que quero até ir deste para outro mundo. Mas, por pensar isso, descuro talvez outras artes, nomeadamente a música, de que percebo tão pouco... Claro que o desconhecimento tem remédio, e digo-o porque o incansável El Corte Inglés me mandou mais um Magazine donde constam os seus cursos e conferências até final do ano, e houve logo um que achei que podia fazer muito pela minha ignorância. Trata-se de As Grandes Formas da Histórica da Música, ministrado por Teresa Castanheira, que aborda a história da música através dos grandes géneros: a sinfonia, o concerto, a música vocal e religiosa, a ópera e a música contemporânea. Não sei se vou conseguir ir (saio sempre da editora demasiado tarde e o curso começa dia 3 às 19h00), mas sugiro que consultem o Magazine Cultural para, se tiverem tempo, frequentarem este ou outro dos cursos propostos e escutarem as conferências, algumas das quais por vultos bem conhecidos e temas actuais. Não podemos morrer estúpidos, mesmo que literatos.

O mundo que é a casa

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Entre os finalistas do Prémio LeYa do ano passado, encontrava-se um romance bem escrito e especialmente bem-humorado de uma estreante, Graça Videira Lopes, que foi professora universitária de Literatura Medieval e agora, que tem tempo livre, resolveu dedicar-se (e muito bem!) à ficção. A Casa Ocupada, assim se chama o seu livro de estreia, fala das famílias que vão ocupando ao longo de um século um palacete de Lisboa, mandado construir por um brasileiro torna-viagem em 1889 para nele instalar a numerosa prole (que não cessou também de aumentar fora de casa). O edifício – abandonado pelos anos 1950 e ocupado na sequência do 25 de Abril de 1974 – está hoje transformado num condomínio de luxo onde moram Júlia e Pedro, um jovem casal endinheirado. É pela voz de Júlia – curiosa sobre o passado da casa –, mas também pela de outros narradores, que vamos conhecendo não só as histórias das próprias personagens, mas também as que elas vão gradualmente descobrindo: a do republicano José Anastácio, o primeiro proprietário do palacete; e a do pai de Pedro e de Sofia, maoista em tempos da Revolução de 1974 e empresário de sucesso muitos anos depois. Inteligente, divertido e cheio de surpresas, este romance toma as décadas anteriores à implantação da República, os anos da Revolução e os tempos atuais para nos oferecer um retrato breve e irónico de algumas elites portuguesas, raramente tratadas em romances. A não perder!


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O senhor Molière

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Entrei na Faculdade no ano dos primeiros cursos de Línguas e Literaturas Modernas, que permitiam, pela primeira vez, a combinação de duas línguas de origens diferentes. Estudei por isso Francês e Inglês e, apesar de ter feito quase todas as cadeiras no Departamento de Estudos Anglo-Americanos, onde estavam muitos dos professores de quem gostava, tenho de dizer que me licenciei sem ter lido uma única peça de Shakespeare (li-as, mas fora das aulas), o que só pode ter sido fruto da confusão efervescente daqueles anos. Tive a sorte, porém, de poder num só ano estudar três peças de teatro em Literatura Francesa, ensinadas por três belíssimas professoras: Cristina Ribeiro, Maria João Brilhante e Helena Buescu. Tratava-se de Cid, de Corneille, Fedra, de Racine e D. João, de Molière, que é um texto absolutamente brilhante e divertido, embora não acabe lá muito bem... Sai agora outra peça de Molière para o mercado, O Misantropo, pela mão da Quetzal, no contexto da publicação das obras traduzidas por Vasco Graça Moura. Fala, como o título indica, de um homem metido consigo e pessimista que odeia positivamente a sociedade mas que ama uma jovem que, ao contrário dele, gosta imensamente da vida mundana e se recusa a viver isolada. A capa é também muito bela, pelo que significará para mim um regresso a este dramaturgo e ao teatro, que é talvez o género que menos leio. Leiam também.


P.S. Amanhã às 16h00 vou estar no Porto, na cooperativa Árvore, a convite da Poetria, a falar com a poetisa Rosa Alice Branco do meu novo livro de poesia. Apareçam!


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Boas esperanças

Não é novidade para ninguém que o romance que ganhou o Prémio LeYa em 2018 (e depois também os prémios Jabuti e Oceanos no Brasil) – Torto Arado, de Itamar Vieira Junior – tem tido uma extraordinária repercussão pelo mundo fora. São já dezassete países aqueles onde está ou vai ser traduzido e teve mais de 300 000 exemplares vendidos no Brasil. Está a ser adaptado a uma série (haverá notícias em breve), será um romance gráfico e os seus direitos de adaptação teatral foram vendidos a uma companhia do Brasil e a outra, «multinacional», que circula pela Europa. É desta última que falo hoje, pois estou ainda verdadeiramente impressionada (no bom sentido, claro) com o espectáculo que vi no Teatro S. Luiz na semana passada, O Agora Que Demora, da encenadora brasileira Christiane Jatahy, vencedora do Leão de Ouro da Bienal de Veneza. É um espectáculo moderno, belíssimo e muito original sobre refugiados, feito com uma inteligência rara no sentido de poder ser exibido em qualquer país sem grandes alterações (inclui um filme, música e representação ao vivo). Ora, isso prenuncia o que pode ser Depois do Silêncio, o espectáculo sobre Torto Arado que já começou a correr as salas da Europa e não tarda poderá ser visto também em Lisboa. Chamo já a atenção para que não o percam qando chegar. É bom voltar para casa de papinho cheio quando se assiste a um espectáculo assim e o Itamar Vieira Junior merece!

Ensinar a contar

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Há uns tempos, publiquei um livro infantil que foi um sucesso para pais e educadores ensinarem as letras do abecedário às crianças. Chamava-se O Alfabeto Nojento e tinha (tem) texto de David Machado e ilustrações de David Pintor (um artista da Corunha que tem trabalhado muito com editores portugueses, sendo ele próprio autor de alguns livros, como o genial A Minha Árvore Secreta ou a maravilha sem palavras que é A Grande Aventura de Nara). O Alfabeto Nojento contava as patifarias de um menino impossível de aturar chamado Henrique, capaz de fazer partidas bem nojentas (com ranhos, cocós e larvas, por exemplo) mas, claro, de fazer os miúdos morrerem a rir. Dado o êxito do livro junto da pequenada, os autores resolveram reincidir agora com Os Números Nojentos, para ver se as crianças aprendem com gosto e bom humor não apenas números inteiros, mas também decimais, e se preparam para o fantasma da matemática que, mais cedo ou mais tarde, se materializará para algumas delas. Vamos lá ver se estes números igualam o sucesso que tiveram as letras.


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Blá-blá-blá

Não é novidade para ninguém que o mundo hoje é essencialmente inglês. Nos países onde se aprendem línguas estrangeiras, o inglês é seguramente disciplina obrigatória e, se não o for, é certamente a primeira opção de quase toda a gente. O francês, que era a língua com que comecei ainda na escola primária, formou muitas gerações de intelectuais portugueses: as pessoas da idade do meu pai arranhavam o inglês, mas falavam (e liam) bem francês, mesmo quando não tocavam piano; e faz pena que o francês tenha perdido protagonismo, até porque é uma língua musical e bonita. Porém, para quem tiver nostalgia, hoje começa o Bla Bla Café às 17h45 na Medicateca do Instituto Franco-Português. Não é, atenção, um curso, mas um espaço de conversa em francês para os que querem praticar ou aperfeiçoar a língua. Todas as semanas é proposto um tema para a conversa, que é moderada por uma pessoa nativa da língua. Ouvir com respeito e dar opinião (em francês, claro) é o objectivo destes encontros, temperados com um cafezinho. Inscrevam-se os interessados no link abaixo.


mediatheque@ifp-lisboa.com


 

No fundo do precipício

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Não é a primeira vez que publico esta autora; na verdade, até já falei dela aqui no blogue a propósito do pequeno romance A Cadela. Mas fiquei muito contente que a obra seguinte de Pilar Quintana fosse a vencedora do Prémio Alfaguara em Espanha e que essa circunstância a torne em Outubro convidada do FOLIO, em Óbidos. Os Abismos, assim se chama o novo romance, é um livro realmente fascinante sobre Claudia, de nove anos e filha única, cuja vida gira à volta da mãe homónima, já que o pai – com idade para ser seu avô – passa os dias no supermercado que gere com a irmã, que é casada com um tipo muito mais novo. Quando, porém, uma centelha de aventura parece disparar entre este rapaz e a Claudia-mãe, a crise familiar instala-se abruptamente e mergulha a jovem mulher numa depressão profunda, durante a qual se mete na cama a ler revistas, comentando com a filha como as mortes de Grace Kelly e Natalie Wood não podem ter sido senão suicídios. E, quanto mais a pequena Claudia precisa de esperança, mais a mãe lhe cria temores que a empurram para o abismo, donde nem as bonecas regressam. Tomando como cenário um mundo em que as mulheres não conseguem escapar a casamentos impostos e prisões domésticas, esta é a história inquietante de como uma criança assume as revelações da mãe e os silêncios do pai para construir o seu próprio mundo, sem saber que, apesar de continuarem todos juntos, a família já ruiu há uma eternidade.


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Excerto da Quinzena

Com as pupilas esforçadas nuns olhos surpreendidos pela luz, o que se devia dirimir seguidamente era a procura de um novo romance, o que todos os domingos o primoirmão lhe escondia nalgum ponto da casa. Porque depois de sair para a pândega todos os sábados, Rico, lindamente intacto e magnífico por estar selado o seu mistério, comprava-lhe um livro em segunda mão na feira da ladra dominical do bairro, o maior mercado de livros em segunda mão da Europa. Depois parava para beber um café a fim de temperar a bebedeira e acendia com os seus sublinhados frases que eram cãibras e passagens que eram pistas para o primo. Simón tinha de procurar o livro mesmo antes de se pôr diante do seu Cola Cao com grumos e das suas madalenas de La Bella Easo. Muitas vezes levava a cabo as suas pesquisas a partir de um enigma que Rico lhe colocava debaixo da almofada ou de um caminho de setas marcadas com fita isoladora. A pista também podia estar escondida nalguma notícia do jornal que o pai tinha deixado na cozinha do andar. Às vezes, inclusivamente, Rico soprava a pista a algum taxista madrugador e bêbedo, de maneira que Simón tinha de descer ao bar familiar e perguntar aos clientes, de caderninho na mão, com o roupão de lã como gabardina, se sabiam onde poderia estar escondido o seu novo livro. Este jogo, que Rico batizou como os Livros Livres, era a promessa de um jogo que nunca mais iria acabar: o jogo de viver segundo as fantasias de profissionais das vidas possíveis, grumetes, músicos e sobretudo espadachins.


Simón, de Miki Otero, tradução de José Teixeira de Aguilar

Conversa entre escritoras

Uma das vozes mais interessantes da literatura francófona, a autora Leïla Slimani, conta com  todos ou quase todos os seus livros publicados em Portugal; um deles, chamado O País dos Outros, já foi aqui referido no blogue e prende-se com a história de uma rapariga francesa que se casa com um marroquino e deixa a pátria para viver no país do marido, passando a ter uma vida completamente diferente da que tinham na Alsácia. Ao que sei, baseia-se na história verdadeira da avó da autora, que teve de lutar muito pela liberdade num país muçulmano. Também autobiográfico é o livro Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo (conhecida sobretudo pelo romance A Gorda), que a Caminho publicou há pouco tempo numa nova edição, revista e aumentada. Nele, a autora fala essencialmente do comportamento ternurento do pai para com ela, mas racista em relação aos negros, em Moçambique, antes da Revolução, recordando sem paninhos quentes episódios tremendos da sua infância. Estas duas escritoras vão hoje encontrar-se às 19h00 na Mediateca do Instituto Franco-Português, na Embaixada de França, com o jornalista Carlos Vaz Marques, que certamente as interpelará sobre as questões da submissão da mulher, a influência da religião, o racismo e o colonialismo. A não perder.

Vivam as escritoras!

Quando compro um livro, geralmente é porque gosto do seu autor, porque mo aconselharam ou porque li alguma coisa interessante sobre ele. Longe de mim escolher aquilo que vou ler com base no sexo de quem o escreveu, embora acredite que, por exemplo, uma feminista radical possa, mesmo sem ter a noção disso, ser facilmente tentada por livros de mulheres e chumbar à partida livros de homens. Pensava que a maioria das pessoas agia como eu. Porém, num artigo publicado em Maio no diário britânico The Guardian, a autora de ensaios Mary Ann Sieghart pega numa estatística do Reino Unido para revelar que, afinal, se as leitoras compram 50% de livros de mulheres e 50% de livros de homens, já os leitores masculinos só compram 20% de livros escritos por mulheres, como se achassem que as coitaditas não escrevem senão futilidades e cor-de-rosices. Vai daí, o jornal propõe a vários escritores do sexo masculino que indiquem livros de mulheres que todos os homens devem ler; e é uma alegria, pois alguns deles não passam sem Virginia Woolf (Salman Rushdie adora Mrs Dalloway) ou George Eliot (o vencedor do Booker Howard Jacobson, por exemplo, escolhe A Vida Era assim em Middlemarch). Ian McEwan aconselha curiosamente o romance de uma holandesa que comprei recentemente (Hanna Bervoets: We Had to Remove This Post, fiquem muito atentos a esta pérola), Rob Doyle escolhe Margaret Atwood e Richard Curtis a maravilhosa Elizabeth Strout. Mas as escolhas recaem também sobre Maya Angelou, a belíssima Arundhati Roy, Ali Smith, Harper Lee (sim, a do Não Matem a Cotovia), Colette (um clássico!), Donna Tart, Iris Murdoch e até a Sue Townsend do livro O Diário Secreto de Adrian Mole, que foi um sucesso nos anos 1980. Não barrem os livros pelo sexo. Vivam as escritoras!

Desilusões

Antes de partir para férias, estive a pensar no que devia levar para ler. Não gosto de ir muito carregada e, portanto, apesar de contar sempre com alternativas, costumo levar um romance mais extenso, e foi o caso. Tinha visto várias pessoas a escrever frases elogiosas a respeito de um determinado livro, ou a referir que o estavam a ler, e achei que, enfim, podia ser uma boa escolha. Chamava-se, ainda por cima, A Breve Vida das Flores, um título bonito, e fora traduzido pela Maria de Fátima Carmo, que conheço como tradutora e por quem poria as mãos no fogo. Também levava dois prémios de vantagem escritos na capa. Mas... a seguir a umas cento e tal páginas muito razoáveis e bem construídas,  mesmo que sem grande rasgo literário, infelizmente a coisa deu para o torto e tornou-se uma xaropada inexplicável. Pode ser defeito meu, e pode ser também deformação profissional, mas a verdade é que me custou muitíssimo acabá-lo e só conseguia pensar no que devia ter sido cortado e não fazia ali falta nenhuma, pelo contrário, tornando o livro uma espécie de investigação criminal sem detective (ou com detectives a mais), género para o qual não estava mesmo preparada... Cheirem-no, que a vida das flores é breve. O meu gosto não é igual ao vosso. Mas eu da próxima vez vou desconfiar e não ceder tão facilmente às opiniões alheias.

Ressacas

Reli há uns tempos umas colectâneas de poesia espanhola do século XX organizadas e traduzidas por Joaquim Manuel Magalhães, que foi meu professor na Faculdade (e era muito melhor professor do que tradutor de castelhano, mas isso não importa muito para o que hoje me traz). Fiquei muito espantada pela quantidade de poemas que encontrei sobre o álcool, a bebida, as ressacas, os vomitanços...; e, claro, não pude deixar de pensar que os espanhóis não vão, como os portugueses, do trabalho para casa, passando normalmente um bocado com os colegas e amigos, bebendo uns vinitos e tapeando por aí, o que se pode ver em qualquer cidade espanhola, das grandes às pequenas. Pode ser que, por isso, acabem a beber mais do que a conta, sim. E, sendo escritores, que reflictam sobre o hábito ou o vício nas suas obras. Fiquei a pensar que, mesmo aqueles escritores portugueses que toda a gente diz que bebiam bastante (Cardoso Pires, por exemplo), raramente se referem a esse facto no que escrevem. Eu, pelo menos, não me consigo lembrar de nenhum romancista ou poeta que fale abertamente das suas bebedeiras ou ressacas. Será que é porque se sentem culpados e associam o álcool a algo negativo, e não ao convívio com os amigos, como no país aqui ao lado? Julgo que é o Eduardo Pitta que diz que a nossa literatura é mais macambúzia do que a espanhola, porque eles vivem muito mais do que nós. Será? Bem, a cada um a sua ressaca.

Maravilha

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Se existem coisas maravilhosas, a leitura é uma delas. E ler As Maravilhas é, posso afiançar-vos, também maravilhoso. Falo, claro, do romance da poetisa espanhola Elena Medel, que, apesar de ser a sua ficção de estreia, já está a correr mundo com um enorme sucesso e em línguas várias. É um livro, de resto, que conta a vida de duas mulheres (avó e neta) que podiam ser portuguesas: a história de um destino sempre afectado pela falta de dinheiro, como tantas vezes acontece por cá. Elena Medel esteve em Portugal para o lançamento, há uns meses, mas volta agora em plena Feira do Livro de Lisboa a convite do El Corte Inglés. Hoje, pelas 17h00, estará por isso presente para uma conversa com a jornalista Ana Galvão na Praça Amarela sobre o seu percurso literário (e o que a levou da poesia para a ficção) e sobre a escrita do romance Las maravillas, que autografará logo a seguir para os leitores espanhóis nos stands do El Corte Inglés. Já mais tarde, pelas 21h00, estará pelo stand da D. Quixote, na Praça LeYa, a assinar a edição portuguesa para os portugueses. Apareça por lá, vai ser uma boa forma de começar o fim-de-semana.


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Coincidências

Há anos maus, já se sabe, mas alguma vez pensaram que num só ano fossem arrebatados dois Prémios Nobel da Literatura? Pois é, foi justamente em 1962, estava eu ainda sem saber o prazer que os livros me haveriam de dar, que se finaram dois espectaculares escritores: Faulkner e  Hesse. O Hermann era vinte anos mais velho, nascera em 1877 na Alemanha e não apostava em cavalos como o norte-americano, o que lhe deve ter dado bastante mais saúde (embora ele também tivesse crises de ansiedade e passado pela psicanálise). Escreveu livros absolutamente imperdíveis, como Siddharta, Narciso e Goldmundo (o meu favorito) ou O Lobo das Estepes, e não podia ser mais diferente em tudo de William Faulkner (um homem bem bonito, por sinal), romancista fascinante que fala da decadência da América de modo singular (O Som e a Fúria, Luz em Agosto, Os Ratoneiros...), embora seja de certa forma um escritor «à europeia», e é uma inspiração para muitos autores contemporâneos de todo o mundo, incluindo, creio, o nosso Lobo Antunes. Na Feira do Livro, hoje às 19h30, dois grandes escritores portugueses, Mário Cláudio e Lídia Jorge, vão falar destes dois génios literários no auditório da Praça LeYa. Eu vou, não perco esta conversa por nada deste mundo. Apareçam também. Vamos de certeza aprender coisas que não sabíamos.

Humanidade

Uma vez, fui convidada pelo Colégio Moderno, em Lisboa, para participar numa conversa na Semana da Poesia, e fiquei muito agradavelmente surpreendida pelo nível das perguntas e intervenções dos alunos, um dos quais, antes ainda de me dirigir a palavra, fez questão de dizer com uma pontinha de orgulho que era de Humanidades. A palavra, embora não pensemos logo nisso, vem de «humano», e isso, meus amigos, parece-me fazer toda a diferença, embora, na prática, nem sempre os que estudam as ditas Humanidades sejam mais humanos do que os seus colegas de Ciências ou até os seus docentes. Em todo o caso, mesmo correndo o risco de parecer lamechas, encontrei uma carta escrita por um sobrevivente de Auschwitz aos professores de todas as disciplinas que apela a esta humanidade que achei muito oportuna, pois sinto que também é isto que está a faltar no ensino em muitos países civilizados, privilegiando-se a técnica e a especialidade. Diz o autor da carta que viu câmaras de gás construídas por engenheiros qualificados; crianças envenenadas por médicos qualificados; bebés mortos por enfermeiras especializadas; mulheres e crianças mortas e queimadas por tipos que tinham sido excelentes alunos. E acrescenta que por isso tem sérias suspeitas sobre a educação. Pede, assim, aos professores que ensinem os seus alunos a serem humanos, e não monstros treinados ou psicopatas experientes. E conclui: a leitura, a escrita e o conhecimento de aritmética só serão importantes se tornarem as crianças mais humanas. No mesmo dia em que encontro esta carta, dizem-me, porém, que na escola da minha rua, os meninos este ano não vão ter manuais senão digitais nem escrever nada senão com as teclas num ecrã. Robot versus humano?

Apoteose

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Mário Cláudio é um dos mais prolíficos escritores portugueses, e não há ano em que não nos brinde com uma novidade. Desta feita, trata-se de Apoteose dos Mártires, que ainda por cima tem uma capa belíssima. Decorre no ocaso do Império Português e debruça-se sobre os destinos de Tomás Rodrigues da Cunha, pequeno fidalgo e militar natural do Minho, e Pierre Berthelot, piloto-mor e cosmógrafo, oriundo da Normandia. Carmelitas descalços no Convento de Goa, rumaram à Ilha de Sumatra no Índico, integrando a embaixada que se propunha firmar um tratado de aliança com o sultão de Achém, movidos pelo espírito de entrega e sacrifício, inspirador dos mártires de todas as épocas. As aventuras que viveram, nas quais o amor profano nem sempre se distinguiria do sagrado, constituem verso e reverso de uma só medalha, cunhada na miséria da guerra, na exaltação da alma, e na partilha da Terra. Como outros, de ontem, de hoje e amanhã, apostaram na glória da condição humana, mas viram o seu sangue derramado. É a primeira vez que um escritor lhes dedica um romance, e este, que vale mesmo a pena, vai ser lançado hoje à tarde no Porto, pelo que aqui fica o convite aos que estejam pela Invicta. Apareçam.


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Viagens literárias

Na sexta-feira falei aqui de intimidades escusadas entre público e autor. Hoje falo de viajar com um autor sem de modo algum tocar a sua (e a nossa) intimidade. Falei aqui várias vezes do facto de o romance Perguntem a Sarah Gross, de João Pinto Coelho, ter sido o ponto de partida para uma viagem organizada pelo escritor aos cenários do livro: a cidade de Oswiécin, onde vivem os Gross do livro, e a que os alemães mais tarde chamarão Auschwitz; o bairro e o gueto judeus em Cracóvia; o museu Schindler (desse alemão que fabricava panelas e salvou mais de mil judeus da morte certa); e, por último, os campos de extermínio de Auschwitz-Birkenau, cujas imagens temos visto repetidamente em filmes e documentários, mas que ao vivo têm outro peso. Foi muito impressionante, claro, pois só quem não tenha um pingo de sensibilidade pode ficar indiferente a imagens como a das próteses, dos cabelos ou dos brinquedos arrancados aos judeus mandados directamente para a câmara de gás. Mas todos ganhámos com a visita, estou certa, e foi uma excelente ideia que, afinal, poderá ser repetida com base em outros livros. Eu, por exemplo, gostaria de ir à Indochina de O Amante, de Marguerite Duras (hoje Vietname); mas, se cada um de nós pensar um pouco, descobre de certeza um destino diferente a partir de um romance que leu. Querem dar ideias?

Intimidades literárias

Já há muito que os escritores saíram das suas torres de marfim e se sentaram ao lado dos  leitores. Ontem falei das feiras do livro, onde estão a autografar olho no olho de quem os lê; mas podia ter falado de idas a escolas e bibliotecas ou de festivais literários, lugares nos quais o escritor está bem próximo das pessoas, como uma delas, e não como um ser sagrado e distante num pedestal, como acontecia antes. Esta possibilidade de conviver com os nossos autores preferidos, de os ouvir a metro e meio de nós, de lhes poder fazer perguntas, é de facto excelente (estou a pensar que vi e ouvi Herta Müller e Vargas Llosa a conversar a dois passos de mim e que já valeu a pena ser editora e ter ido a Guadalajara só por causa disso). Ao mesmo tempo, este tipo de encontros multiplica-se, e os escritores, sobretudo os mais convidados, têm cada vez menos tempo para escrever, ao mesmo tempo que os organizadores procuram ser originais e, por vezes, metem a pata na poça. O espanhol Sergio del Molino foi convidado para ir a um encontro literário em Itália (bem pago) e, quando chegou, percebeu que teria de acampar com os leitores, dormir com eles na tenda e até (desculpem, mas os espanhóis conseguem ser brutos quando querem) cheirar-lhes os traques... Este tipo de intimidade também podia ser dispensado. O artigo vale mesmo a pena e deixo aqui o link.


https://elpais.com/cultura/2022-08-11/los-festivales-literarios-son-misery-la-experiencia-extrema-de-un-escritor-en-contacto-intimo-con-sus-lectores.html


 

De volta, e o que ando a ler

Pois sejam bem-vindos, depois de (espero bem) umas férias no campo, na praia, ou até na cidade, se ficaram por casa sem trabalhar, a pôr as leituras em dia. No mês que passou, tivemos infelizmente a calamidade dos incêndios, que parece piorar de ano para ano, morreu-nos a grande poeta (ela não gostava de «poetisa») Ana Luísa Amaral, de quem terei muitas saudades, e houve aquele tremendo ataque a Salman Rushdie que, depois de ter andado anos e anos escondido, foi apunhalado por um radical islâmico (e quase morto) quando falava de literatura e se achava finalmente livre de ameaças. O meu regresso faz-se em plena Feira do Livro do Porto e de Lisboa, e já me espera um fim-de-semana com autores a autografarem livros no Parque Eduardo VII com pavilhões novinhos em folha. Leio, entretanto, um livro que tinha começado há muitos anos em francês, quando estava noutra editora, e que ficou a meio nessa altura porque foi comprado por outra editora: A Elegância  do Ouriço, de Muriel Barbéry. Publiquei o romance de estreia desta autora (Une Gourmandise, não me lembro como lhe chamámos cá, já foi há tanto tempo), mas foi o do ouriço que lhe fez a carreira: as histórias contadas na primeira pessoa de uma porteira extremamente letrada (mas às escondidas) e de uma adolescente sobredotada, filha de uma jurista e de um político, que acha o mundo sem graça e tenciona suicidar-se um dia destes. Espero que tenham lido bons livros este Verão. Nos próximos tempos falarei dos que li.