Mensagens

A mostrar mensagens de setembro, 2011

Curto reinado?

Há uns tempos, indignámo-nos com a passagem do Instituto do Livro e das Bibliotecas a uma mera Direcção-Geral. Os que trabalham com livros sabem a importância que este organismo tem tido ao longo dos tempos, seja na internacionalização da literatura portuguesa, seja na promoção da leitura, seja ainda na realização de feiras do livro em países lusófonos carenciados como a Guiné-Bissau, Moçambique ou Cabo Verde. Nas operações de poupança da despesa pública, houve agora por parte do Governo a decisão de fundir a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas com a dos Arquivos, criando assim uma nova entidade cuja sigla faz pensar em experiências de laboratório (DGLAB). Não sei bem o que significa esta fusão, porque, segundo percebi, se trata apenas de diminuir o número de cargos dirigentes com vista a uma gestão mais racional (e mais barata) e nos dizem que, apesar dela, a política para o livro é central para a Secretaria de Estado da Cultura. O que me pergunto é se o Director-Geral do Livro, José Manuel Cortês, que foi nomeado há tão pouco tempo, conseguirá manter o lugar ou se tornará, afinal, o monarca do mais curto reinado de sempre à frente da instituição.

Ler em estrangeiro

Não tenho nada contra as pessoas que lêem livros estrangeiros, mesmo quando essas obras estão disponíveis em português, até porque frequentemente as nossas traduções deixam bastante a desejar. Eu própria já li numerosos livros noutras línguas, fosse por imperativo profissional (para avaliar se valia a pena publicá-los em Portugal), fosse por gostar tanto do autor que se tornava penoso esperar por uma tradução quando o original já ali estava à mão de semear, fosse até por crer, em certos casos específicos (sobretudo tratando-se de poesia), que uma tradução, fosse portuguesa ou numa língua diferente da original, nunca faria jus ao que o autor escrevera. Porém, sempre que me pediram de revistas ou jornais que indicasse a lista dos livros preferidos ou do que andava a ler, referi as edições portuguesas, acreditando que deste modo levaria mais pessoas a comprarem e lerem esses livros. Vem isto a propósito do novo suplemento do Diário de Notícias que veio substitui a falecida NS e no qual se pergunta a uma figura pública quais as suas leituras no momento. E é curioso que, até onde me foi dado ver, todas elas citam maioritariamente livros em inglês, muitos dos quais já publicados há muito tempo em versão portuguesa. Embora possa não ser nada disso, cheira-me a pretensiosismo intelectual e não creio que essa opção (quiçá sincera) ajude os leitores a aceitarem as sugestões e a lançarem-se na aventura de procurar nas livrarias os correspondentes títulos em português.

O mal dos pequenos

Diz o autor de As Mãos Pequenas, publicado na bela colecção Minotauro, que muito provavelmente não teria escrito o livro se não lhe tivessem lido o Requiem por Um Menino Morto, de Rilke. Pois ainda bem que lho leram, porque Andrés Barba é um jovem escritor espanhol digno de nota e esta novela a prova de que poderá ir longe na literatura. Partindo de uma premissa interessante, que é a de uma menina de família ficar precisamente sem família aos sete anos na sequência de um desastre que lhe mata os pais e ser, por isso, entregue a um orfanato, esta é a história de um confronto – entre quem chega e quem estava, entre o indivíduo diferente e a massa incaracterística, entre a memória e a hipótese, morta à nascença, de um futuro. Brilhantemente escrito, com uma tradução cuidada, violento porque a infância está sempre cheia de maldade, mas elegante e subtil na sua descrição, não se perca esta obra singular e inteligente que é também sobre o fascínio do desconhecido e a incapacidade de amar o que não se compreende.

Os livros que somos

Enquanto me dedico a apreciar originais com vista à publicação, consigo dizer com relativa facilidade quais pertencem a autores que lêem e quais são escritos por gente que escreve sem ter lido. Em alguns casos, garanto, é até possível identificar algumas das leituras de um autor pelo que escreve (e não estou a falar de influências explícitas). Mas – escritores ou não – todos somos aquilo que lemos, pois os livros são como gente com que nos cruzamos ao longo da vida (e gostamos de uns mais do que doutros, mas todos são determinantes para o que nos tornamos). Não me tinha, porém, ocorrido essa fantástica perspectiva de Manuel António Pina numa crónica recentemente publicada na revista Notícias Magazine: a de que, curiosamente, também somos aquilo que não lemos; no seu artigo, Cavaco era, por exemplo, os livros todos de economia que lera, mas também Os Lusíadas que nunca lera – e acho que tem razão o nosso mais recente Prémio Camões. O pior é que agora, quando olho para as minhas estantes, descubro que sou imensa coisa que nunca me tinha passado pela cabeça (ou pelos olhos).

Os três males

Uma das coisas boas na vida de um editor é conhecer autores inteligentes e interessados que nos ensinam coisas e passam boa informação. Há algum tempo, o Nuno Camarneiro, autor de No Meu Peito não Cabem Pássaros, publicado em Junho, enviou-me um link para o segmento de uma longa entrevista a Gilles Deleuze sobre cultura no qual ele falava de literatura e edição. Antes de mais, foi um consolo saber que um homem como ele acreditava que, apesar de a cultura e a educação estarem a viver um péssimo momento em todo o mundo, quase a baterem no fundo, isso não queria dizer que não fosse possível suceder-lhe um período rico (o Renascimento sucedeu, afinal, à Idade Média). Mas o que mais me fascinou foram os três males que apontou para que as coisas tivessem chegado ao ponto a que chegaram no mundo das letras: 1) Que os jornalistas se tivessem posto a escrever livros (Deleuze dizia que sempre houve escritores jornalistas, claro, mas que muitos dos que hoje publicam livros não são, realmente, escritores). 2) Que, em parte por causa disso, toda a gente achasse que podia escrever um livro (não podia estar mais de acordo: o talento tem de ser a excepção, e não a regra). 3) Que a relação entre o livro e o leitor passou a ser, infelizmente, mediada pelo ponto de venda, que subverte tudo, porque precisa de facturar – e depressa –, devolvendo livros aos editores que ainda não tiveram tempo de se afirmar no mercado e obrigando os editores a produzir um número de novidades muito superior ao razoável e, por isso, de qualidade muitas vezes duvidosa. Muito bem, monsieur.

O texto e o suporte

Nunca como nestas férias vi tanta gente a ler num e-reader. Bem sei que a maioria desses leitores provinha de países estrangeiros – falavam inglês e neerlandês, sobretudo. Mesmo assim, parece que a coisa veio para ficar, e reconheço que, se tivesse de ler, por exemplo, para uma tese durante as férias, essa seria a melhor forma de levar comigo a bibliografia (levei oito livros numa pasta, que pesava bastante, e não era trabalho). Confesso que ainda não me habituei a ler livros num ecrã – gosto de folhear, dobrar o cantinho, ler duas passagens de páginas distantes em simultâneo, dividir o livro entre o que já li e o que ainda falta com o polegar, tudo tiques que, na máquina, seriam mais ou menos impraticáveis. No entanto, desde que herdei um iPad do Manel, já não o dispenso e quase todas as noites o ligo para investigar alguma coisa, nem que seja o nome de um actor que me escapa ou assistir ao trailer de um filme que vai dar na televisão e quero saber se vale a pena trocar por um livro ou por uma boa conversa. No fundo, porém, acho que aquilo que importa realmente é o texto, e não o suporte, e admito que estes livros virtuais possam ser realmente mais práticos de arrumar (o que eu não teria poupado em estantes) e mais ecológicos. Ao mesmo tempo, lembrando alguns textos de poesia de autores como Apollinaire, nos quais a forma era também o conteúdo (se é que isto se pode dizer), pergunto-me se estes dispositivos (nos quais se pode aumentar a letra a gosto, alterando as linhas e, consequentemente, o formato do texto) não poderão de algum modo subverter as intenções originais de um autor.

Clarissa, meu amor

Dificilmente encontrei entre as minhas leituras um autor mais visionário e moderno para a sua época do que Virginia Woolf. E os seus romances são talvez os únicos em que os pontos de exclamação espalhados pelas páginas nunca me incomodaram. É absolutamente fantástico pensar hoje que Mrs. Dalloway – a obra aonde Michael Cunningham foi beber para escrever o também extraordinário As Horas – foi escrito em 1925! (E aqui a exclamação é minha, e justifica-se.) Pois bem: a senhora Dalloway desta imperdível obra-prima é Clarissa, que começa o livro a comprar flores para mais uma das suas muitas festas (à qual não faltará sequer o primeiro-ministro) e o termina aparecendo junto a um convidado muito especial – Peter Walsh, o homem que se apaixonou por ela na juventude e, apesar de preterido por Richard Dalloway, nunca deixou de a amar um único minuto da sua vida (com tudo o que ela tem de snob e detestável, o que é ainda mais engraçado). Entre o primeiro e o segundo momentos, existe, porém, um tempo que contém tudo: as memórias, a crítica implacável, os efeitos da Primeira Guerra Mundial, a relação da Inglaterra com a Índia, o fosso entre as classes sociais, enfim, um sem-número de questões, dramas e análises impiedosas numa escrita que parece por vezes quase automática, mas que é de extraordinária inovação ainda hoje. Uma das coisas melhores nos bons autores é que nunca envelhecem, e o caso de Woolf é paradigmático.

Ler e não ler

Há pouco tempo fui passar um fim-de-semana junto ao mar; e, embora tivesse levado comigo um livro, não consegui passar das primeiras trinta páginas, tão precisada estava de ter os olhos todos para as ondas. Sou uma mulher tipicamente urbana, mais de me fechar em casa a ler um bom livro, mas em certas ocasiões também não dispenso isso a que chamam contacto com a natureza e que me traz excelentes recordações de infância de férias ao ar livre com passeios de bicicleta, caminhadas no areal e explorações científicas em pinhais e terrenos abandonados. Hoje as crianças das cidades estão muito metidas em casa e, quando não, trocam frequentemente a rua e o jardim pelos corredores dos centros comerciais, nos quais as pessoas se atropelam aos sábados e lambem montras cheias de coisas que nunca poderão comprar. Li que algumas crianças americanas, quando lhes pedem que desenhem uma galinha, a representam depenada e embalada como a vêem no supermercado, porque nunca tiveram realmente oportunidade de ver ao vivo um simples pintainho. E, por muito que ler seja importante, nada substitui o pôr as mãos na terra e descobrir. Nenhuma ilustração do mar substitui as verdadeiras ondas.

Carta à filha

Imagem

Ana Cristina Silva tem-se destacado pela autoria de romances psicológicos em torno de personagens reais. Já escreveu sobre várias mulheres, entre as quais Florbela Espanca ou Mariana Alcoforado, tendo agora chegado a vez de se dedicar a Carolina Loff, nascida em Cabo Verde, onde na infância, pelas injustiças a que assistiu entre brancos e negros, lhe nasceu o sonho de tornar o mundo um lugar mais justo. Mandada para Lisboa com o objectivo de concluir os estudos, Carolina acabou a militar no Partido Comunista, sendo presa pouco tempo depois de se envolver com um jovem camarada e engravidar. A mãe cuidou-lhe da criança durante a clausura, mas quando foi libertada Carolina levou a menina para Moscovo, onde trabalhou para os altos quadros do Comintern. Chamada, porém, a desempenhar funções em Madrid durante a Guerra Civil, deixou-a temporariamente num colégio interno; e, por vicissitudes que o romance explicará, só voltou a vê-la vinte anos depois, já depois de ter sido banida do Partido por se ter apaixonado por um inspector da PIDE, com quem foi viver. Cartas Vermelhas é, pois, como uma longa carta a essa filha que cresceu sem mãe, na qual Carolina Loff – que conheceu Cunhal e muitas outras figuras de proa do Partido – se justifica e confessa, rememorando toda a sua vida na viagem de comboio que se sucede ao encontro entre ambas. Muitas vezes comovente, esta é uma obra de ficção que também merece ser lida como um documento de uma época e de várias circunstâncias.


 


Um amor japonês

Murakami é talvez o mais internacional dos escritores japoneses contemporâneos e os seus livros são um êxito de vendas em vários países europeus, entre os quais Portugal. Vai, por exemplo, em nona edição o romance Sputnik, Meu Amor, de que tomei conhecimento por uma jovem leitora que o comprara em inglês em Nova Iorque há uns dez anos, quando eu ainda estava na Temas e Debates, mas que, por qualquer razão, ainda não tinha tido ocasião de ler. Embora me tenha parecido melhor na primeira metade do que na segunda (ou seja, até ao desaparecimento da jovem Sumire numa ilha grega), é obviamente um livro muito curioso sobre as vidas sentimentais de um homem e duas mulheres, sobre o amor não correspondido, os traumas de adolescência e o que é sentir e não sentir, sobretudo fisicamente, o amor. Com um tom levemente informal, mas sem esquecer a poesia em muitas passagens, esta é uma obra também interessante pela alternância do relevo ficcional das três personagens – Sumire, Miu e o narrador – e por um certo desdobramento dos vários eus, quase roçando a literatura de mistério.

Principesco

É quando se tem tempo livre que se deve ir à prateleira recuperar um clássico que estava a pedir uma oportunidade há séculos – e foi o que fiz nas férias, levando comigo o principesco romance O Leopardo, de Giuseppe Tomasi, príncipe de Lampedusa, que serviu de base a um filme de Visconti memorável. Enquanto o lia, não conseguia, de resto, afastar das personagens os rostos de Burt Lancaster, Claudia Cardinale e Alain Delon, mas isso não me impediu de apreciar cada pormenor de uma prosa muito cuidada, de um bom gosto inexcedível, cheia de ironia e sagacidade, às vezes muito cruel na análise dos factos e na descrição das pessoas. Passado na Sicília nos tempos da reunificação italiana, O Leopardo conta a história do Príncipe de Salina, Don Fabrizio, e da sua família (sobretudo o seu amado sobrinho, Tancredi) enquanto as convulsões políticas vão influenciando a sua vida de aristocratas e a vida dos burgueses, parecendo inverter os papéis, mas, de certa forma – como vaticina Tancredi –, deixando tudo mais ou menos na mesma. Primoroso também como romance histórico, não abusando de informação mas esclarecendo quanto baste, senti neste livro uma afinidade com alguns romances russos (por exemplo, de Turgeniev) escritos muitos anos antes, sei lá se por terem constituído leituras do autor a ponto de o influenciarem, se por os ambientes e situações aqui descritos pelo príncipe de Lampedusa se situarem, na verdade, na época em que viveram esses russos. A tradução é mesmo muito boa, de José Colaço Barreiros. Para quem aprecia um bom clássico, não falhe este.

A sorte grande

Leio tantas coisas más e sofríveis ao longo do ano à procura daquela que fará realmente a diferença que considero ter ganho a sorte grande na escolha do pacote de livros que levei comigo para férias, pois fui acertando título a título (como se de algarismos se tratasse) até ver desenhado o número premiado. Sorte pura, pois os avisos da crítica nem sempre se casam com o nosso gosto pessoal. No monte, uma obra-prima que seria um festim para Almodóvar, se ele gostasse de basear os seus filmes em textos alheios. Rabos de Lagartixa, de Juan Marsé – o autodidacta (julgo que fazia jóias) que se tornou um dos maiores escritores espanhóis contemporâneos –, é notável a vários títulos, entre os quais a composição do protagonista, o genial David, de catorze anos, que adora vestir-se de rapariga e colecciona rabos de lagartixa com vista a curar as hemorróidas do seu amigo Paulino, aprendiz de barbeiro a quem o destino prega bastantes partidas. Passado no mesmo ano em que os Aliados lançaram as bombas atómicas, numa Barcelona refém do racionamento e vítima dos esbirros de Franco, a história – não se assustem – é contada por um feto (o irmão de David a quem este não raro chama rãzinha peluda, girino ou verme nojento e que manda agarrar à placenta quando quer pregar um susto à mãe) e inclui um leque de personagens que se agarram a nós para todo o sempre, entre vivos e fantasmas (sim, também há alguns). Francamente imaginativo, mas sem nunca perder o pé ao que realmente interessa, este romance, publicado originalmente em 2001, ganhou os principais prémios literários de Espanha e um lugar muito especial no meu coração.

A Constituição

Na Universidade de Verão do PSD, António Barreto disse que a Constituição da República Portuguesa devia ser revista (e até falou em referendo!). A afirmação fez correr muita tinta (muita gente afirmou que Barreto perdeu a cabeça e se passou para o lado do poder e quase toda a Esquerda se mostrou indignada). Este não é um blogue sobre política e quero que se saiba desde já que o que direi a seguir nada tem que ver com o que pretendia (ou pretende) o senhor professor. Mas aqui há tempos um instituto estatal lançou um projecto de publicação de uma Constituição Explicada aos Jovens e, entre outras pessoas, fui chamada a trocar por miúdos um dos seus artigos. Pois tenho de ser absolutamente sincera e confessar que a prosa era tão obscura e ambígua que me vi grega para entender e traduzir em linguagem simples e perceptível o conteúdo do dito artigo. Não é deste tipo de revisão que fala António Barreto, evidentemente, mas, se todos os Portugueses se tivessem de pronunciar sobre a Constituição, estou mesmo a ver os equívocos em que meio mundo ia cair...

Mais vale tarde

O Manel costuma dizer que, quando acabar o mundo, os estrangeiros podem vir para Portugal, pois aqui as coisas costumam chegar com alguns anos de atraso. Foi isso que aconteceu com a edição da obra de J. Rentes de Carvalho, escritor português bastante conhecido na Holanda, onde vive, e em Portugal praticamente ignorado até há pouco tempo, quando a Quetzal resolveu começar a dar à estampa a sua obra. E eu, para que conste, estou cheia de ciúmes porque gostava de ter sido eu a fazê-lo, mas, para que também conste, andava na mesma ignorância dos outros (e tinha, ainda por cima, obrigação de estar mais desperta). Enfim, o que importa é que já nos podemos deliciar com os livros de Rentes de Carvalho e acabo de ler o primoroso La Coca, que daria um filme tão bom como Cinema Paraíso misturado com Às Segundas ao Sol e que trabalha a memória num sentido algo proustiano, mas (não me matem) bastante menos chatinho. Na contracapa chamam-lhe um pequeno romance por não chegar às 200 páginas de letra algo miúda, mas é um grande, grande, romance de formação que é imperioso ler. Tomando como ponto de partida uma investigação sobre o tráfico de droga no Minho e na Galiza para um livro ou uma reportagem que o narrador (o autor?) escreverá, este livro tem personagens absolutamente inesquecíveis e riquíssimas quer do ponto de vista humano, quer literariamente, entre velhos contrabandistas, traficantes, «brasileiros» ricos, uma preceptora francesa, um lorde enfiado numa quinta cheia de obras-primas impressionistas e até – a sério – o próprio Picasso. A não perder. E agora, assim haja tempo livre, o autor já não me escapa.

Novas do acordo ortográfico

Os livros escolares já seguem todos o novo acordo ortográfico, a maioria dos jornais também, na LeYa as traduções adoptam a nova ortografia, sendo os autores lusófonos ainda os únicos que podem decidir ignorá-la. Há muita coisa nesse acordo com que não concordo, é bom que se diga, mas, como profissional da área do livro, não posso deixar de o ir conhecendo, até porque – estou quase certa – alguns dos autores que publico optarão por segui-lo em breve (sobretudo, aqueles que são professores do Ensino Secundário). Para nos pormos em dia, saiu um livro de três especialistas que é de grande ajuda, pois não só ensina o que mudou, como inclui exercícios para irmos praticando. Se anda perdido, não deixe, pois, de adquirir este Saber Usar a Nova Ortografia, de Edite Estrela, Maria Almira Soares e Maria José Leitão.

Sábados mais pobres

Já muito se disse por aí sobre o facto de a crítica literária ter desaparecido dos nossos meios de comunicação, substituída que foi por uma forma mais ligeira de falar dos livros – a que vulgarmente se chama recensão, mas que, frequentemente (sobretudo na imprensa regional), não passa de uma sinopse da obra junto da respectiva capa (e quantas vezes essa sinopse não é a da contracapa do livro, escrita pelo editor, mas escandalosamente assinada pelo jornalista que devia ler o livro para poder opinar, mas não esteve para isso). Mesmo assim, nós, editores e escritores, ficamos consolados quando os livros que publicamos e escrevemos são referidos num jornal ou numa revista, sabendo que, pelo simples facto de preencherem parte de uma página, a sua existência é menos solitária do que na mesa ou na prateleira da livraria. Custou-me, por isso, que o Diário de Notícias tenha acabado («descontinuado» era a palavra usada) tão abruptamente com a revista NS, que saía todos os sábados e tinha duas páginas exclusivamente dedicadas a livros. O seu conteúdo não era profundo, bem entendido, mas, para além de este desaparecimento poder originar mais um lote de desempregados, o que é grave, agora temos menos um sítio para divulgar e partilhar. E sábados, evidentemente, mais pobres.

Mazombos e Mascates

Imagem

Acaba de sair o novo romance de Miguel Real, A Guerra dos Mascates, que – no ciclo brasileiro – se situa imediatamente antes de A Voz da Terra (galardoado com o prémio Fernando Namora e finalista do prémio da APE) e não lhe fica nada atrás. Mais romântico do que de costume, a obra recupera algumas personagens já conhecidas dos leitores fiéis deste autor (Julinho Fernandes e Violante Dias) e pretende continuar um romance homónimo de José de Alencar do século XIX, no qual se descreve uma guerra entre as cidades de Olinda e Recife no início de Setecentos, mais concretamente entre os ricos detentores dos engenhos de açúcar (os mazombos) e os comerciantes pobres a quem esses obrigam a pagar avultados impostos (muito actual, parece-me). Mas, entre os intervenientes deste confronto, para além da invenção delirante de um Lula Aparecido da Silva, há personagens absolutamente deliciosas – do mais cândido ao mais maligno – e amor e ódio em partes iguais. Vamos lá ver se é desta que arrecadamos o prémio que ficou para trás.


 


O senhor das velas

Há muitos anos, acompanhei a uma sessão da Comunidade de Leitores da Biblioteca de Almada (a propósito de Morreste-me) José Luís Peixoto (de quem então era editora) e assisti à conversa. No final, soube que o livro a tratar na sessão seguinte seria As Velas Ardem até ao Fim e dele me falou entusiasticamente na altura o jornalista José Mário Silva, que ali fora também. Como na altura desconhecia a obra, comprei-a e li-a com bastante prazer, mas, sei lá porquê, nunca mais tinha voltado a Sándor Márai até este ano. Ora, caiu-me nas mãos o fabuloso A Herança de Eszter, uma pequena maravilha que gira em torno de Lajos, um canalha irresistível que regressa, viúvo, ao fim de vinte anos, a casa de Eszter, a mulher que o amou de forma definitiva (tendo recusado outros dois homens) e com cuja irmã ele se casou, depois de ter desbastado o que seria a herança de ambas, à excepção de um anel (embora sobre esse anel muito haja a dizer) e da casa onde Eszter ainda mora com uma velha prima que a ajuda na organização doméstica. E, por muito avisados que estejam, todos neste livro conhecem os próprios limites e o sem-limites que é Lajos e o que ele vem ainda buscar. Surpreendente até à última página, como uma vela que arde mesmo até ao fim, esta é uma daquelas pérolas que não se esquecem, escrita por um senhor que descobri ter-se suicidado (estranhamente) aos 89 anos.

Vermelho-Sangue

Imagem

Para quem gosta de thrillers, acção, séries movimentadas e intrigas policiais, já está publicado o segundo volume de uma série que estou a fazer na ASA, cujo autor é Pedro Garcia Rosado, intitulada Não Matarás, de que em Julho do ano passado saiu A Cidade do Medo. Neste novo livro, Vermelho da Cor do Sangue, revisitamos o Verão Quente de 75 e o golpe de 25 de Novembro (data em que, misteriosamente, desaparece em Lisboa um alto quadro soviético cujo passaporte é encontrado no cofre de um banqueiro) e assistimos à intervenção de um grupo de criminosos imigrados em Portugal (alguns ex-KGB) que assaltam casas, traficam jóias, batem bastante e matam por dinheiro e com certa regularidade. Mas o banqueiro (que faz lembrar alguns da nossa praça) é, pelos vistos, pior ainda. Só que, ao contrário dos outros, bebe Barca Velha…


 


Uma gaffe (ou talvez não)

Já aqui disse que, apesar de Agosto em Portugal ser aquele mês em que não acontece praticamente nada, nas minhas férias tomei conhecimento de que a Porto Editora assinara um «protocolo de colaboração» (a expressão não é minha) com a Assírio e Alvim, envolvendo edição e distribuição. Embora a assimilação de editoras independentes por grandes grupos já não seja novidade para ninguém, fiquei surpreendida com a notícia, pois ainda não me esqueci de uma entrevista de Vasco Teixeira (o «patrão» da Porto Editora) ao jornal Público no ano passado em que este dizia que daqui a dez anos não se editariam livros de poesia em Portugal, pois era um género que só vendia trinta ou quarenta exemplares... É bom saber que mudou de opinião entretanto, pois a Assírio e Alvim foi sempre uma editora essencialmente de poesia e a promessa de que manterá total autonomia na escolha do programa faz-me pensar que não deixará de o ser. E, mesmo com algumas reticências, estou disposta a acreditar que este «negócio» pode ser a salvação da Assírio e Alvim (que de outro modo talvez não conseguisse sobreviver) mais do que a sua condenação. O Jornal de Letras, porém, parece não estar tão convencido disso e teve um deslize bastante engraçado ao redigir a notícia na semana passada, avançando que foi assinado entre as duas editoras «um protocolo para as áreas de edição e destruição». Oxalá seja só uma gralha, e não o subconsciente a falar...

À chegada

Faço parte daquela parcela de portugueses que trabalha em empresas que fecham umas semanas em Agosto. Parti, por isso, para o Sul no princípio do mês à cata de sol mas, como levei com a chuva à chegada tal porta na cara, nos primeiros dias sobrou-me apenas o consolo da leitura enquanto ouvia uma assanhadíssima trovoada. Comecei por Raduan Nassar, o grande escritor brasileiro nascido em 1935, que pouco escreveu – mas bem – e que, depois de um romance, uma novela e uns contos, resolveu retirar-se da vida intelectual e ir cuidar de uma chácara para desgosto dos seus leitores. Em apenas um par de horas – que a novela é mais uma noveleta – tinha matado a sede com Um Copo de Cólera, uma fantástica peça literária sobre um casal apaixonado e desavindo: ela jornalista, jovem e algo progressista, ele mais avançado nos anos, convencional e bruto – mas o amor tem destas coisas, e o sexo pode ser tão perfeito entre dois seres humanos que a ira, por mais medonha, pelos vistos às vezes não chega para apagar o desejo e as boas recordações. Este é um livro sobre a sedução, a manha, o confronto, a fragilidade do forte e do fraco no meio de uma discussão muito feia descrita de forma muito bela. Traduzido em várias línguas, este livrinho tão pequeno já deu filme, não imagino de que tamanho. Mas a minha alegria ao lê-lo foi imensa.

Cá estamos

Pois é... Custou um bocado regressar ao trabalho depois de um período de descanso e horas de leitura realmente extraordinárias. Mas tive muita sorte com os livros que levei comigo para férias (e de que aqui falarei nos próximos dias) e, sem stress, o tempo rendeu mais do que habitualmente e deu mesmo para muita coisa, entre clássicos e contemporâneos. Não é, no entanto, por estarmos longe que as coisas param, e na minha ausência separaram-se os Blogtailors (Nuno Seabra Lopes deixou o projecto, que ficou a cargo de Paulo Ferreira), alguém ameaçou pedir a insolvência da Europa-América (cujos empregados se começaram a queixar de falta de pagamento de salários) e a Assírio e Alvim está muito perto de ser comprada pelo grupo Porto Editora (um protocolo de colaboração foi já assinado). Na minha secretária, tinha também os exemplares acabadinhos de sair do forno do novo romance de Miguel Real (A Guerra dos Mascates, que já está à venda) e do último de Ana Cristina Silva, uma obra inspirada em Carolina Loff (a militante comunista que se apaixonou por um inspector da PIDE) intitulada Cartas Vermelhas. Mas comentarei tudo isto em posts independentes, pois hoje é apenas para dizer que estou de regresso a esta minha e vossa casa e com muito que partilhar sobre aquilo que aqui nos junta, os livros, pelo que, se acaso pensavam que não teriam de me aturar, estavam redondamente enganados. Até porque tive saudades vossas, mesmo dos que têm mau-génio. Até amanhã.