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A mostrar mensagens de fevereiro, 2013

Almas gémeas

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Tenho muitas razões para estar orgulhosa nesta quinta-feira, embora a extraordinária Ana Bernardo, que às quintas está ocupada, me deva estar a rezar pela pele… Hoje faremos a apresentação pública do último romance de João Tordo, O Ano Sabático, com apresentação de Luís Ricardo Duarte e um bónus no fim (António Zambujo e Ricardo Cruz vão oferecer-nos, de certeza, um momento musical inesquecível). Além de achar este um dos melhores livros do autor, o tema dos gémeos, do duplo e da identidade apaixona-me desde sempre – e O Ano Sabático fala disso mesmo, de um par de músicos que nunca se viram mas cujo cérebro produz estranhamente a mesmíssima composição. E, para que conste, o escritor deu-me, além do seu romance, um presente suplementar, incluindo-me entre as pessoas a quem o dedica. Vai ser, também por isso, uma ocasião especial. Se quiserem aparecer, estão convidados. Senão, leiam o livro.


 


Orgulhosamente acompanhados

Recebi um convite da Universidade das Baleares para participar numa mesa-redonda no âmbito de uma semana dedicada à cultura portuguesa que se realiza daqui a uns dias; e, no início, até pensei que era por ter um dos meus livros traduzido por uma editora de Maiorca chamada El Gall; mas, quando perguntei em que língua deveria exprimir-me (leio catalão por intuição, mas não sei falar), responderam-me que, obviamente, em português – e que queriam até que lesse alguns dos meus poemas, pois os alunos que assistiriam a estas jornadas conheciam e estudavam a nossa língua. Só então me recordei de que Perfecto Cuadrado, um grande especialista e tradutor da nossa literatura, é professor de Literaturas Galega e Portuguesa naquela universidade e de que o convite partira dele e do seu departamento. Umas semanas mais tarde, soube também, por uma crítica muito elogiosa no El País, que outra editora de poesia em Espanha, a Pre-textos, publicara uma antologia de poemas de Jorge de Sena em castelhano – um risco grande, tendo em conta que agora ninguém parece querer editar escritores mortos – e fiquei muito contente. Quando lá fora se interessam por nós – seja ensinando ou estudando a nossa literatura, seja traduzindo-a e publicando-a – sentimo-nos orgulhosamente acompanhados.

Letra morta

A matéria-prima da literatura é a língua – e houve sempre quem se perguntasse como é possível, a partir de um número de vocábulos aparentemente limitado (é sempre possível criar neologismos, mas os dicionários não crescem assim tanto de um século para o outro), construir um texto com frases e expressões que, durante a leitura, parecem tantas vezes combinações nunca antes usadas por ninguém. É frequente surpreendermo-nos com a forma como determinado escritor inventa uma linguagem própria reinventando a língua, ao produzir, por exemplo, um efeito inesperado com duas palavras que não costumam aparecer juntas ou subverter uma regra gramatical para virar tudo do avesso, mas a seu favor. Há também a ideia (e em pintura, com a vulgarização das instalações, ela foi muito difundida) de que tudo está já criado e não se consegue ir mais longe em termos inventivos. O fim da literatura foi, de resto, anunciado várias vezes ao longo do século passado; no ano em que eu nasci, por exemplo, Maurice Blanchot defendeu que, ao tornar-se reflexão sobre si mesma, a literatura caminhava infalivelmente para a morte. Nesse mesmo século XX, porém, escreveram-se muitos romances que eram sobre a escrita de romances e também sobre escritores mortos e vivos e personagens de outras obras e, consequentemente, da obra que se estava a escrever. Alguns eram pura literatura e os seus autores até ganharam o Nobel... E cá estou eu, 53 anos após o vaticínio de Blanchot, todos os dias a ler literatura e todos os dias à procura dela. Será que vai chegar um tempo em que, por mais que passe páginas e páginas, nada do que leia caiba nessa palavra a que hoje chamo literatura?

SPA

Sabemos que um SPA é o que nos convém quando, ultra-stressados, precisamos de relaxar com a ajuda de banheiras com esguichos, águas aquecidas, massagens com óleos de perfumes inebriantes ou duches Vichy. Mas a feminina SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) é, realmente, o que me tem valido para receber regularmente sem stress os proveitos das letras que escrevo há uns anos, pois, sozinha, seria incapaz de descobrir quantas vezes passam na rádio e na televisão essas canções e de cobrar os respectivos direitos... Hoje, porém, vou à festa da SPA com um propósito diferente: conhecer os premiados desta sociedade em várias áreas, embora a que mais me interessa seja o romance, pois publiquei dois dos três candidatos ao galardão: O Feitiço da Índia, de Miguel Real, e O Rei de Monte Brasil, de Ana Cristina Silva. Ainda que Mário Zambujal seja um feroz concorrente de ambos, há que ter fé e confiança... E relaxar, como num verdadeiro SPA…

Queridas Correntes

Tenho todas as razões e mais uma para adorar as Correntes d’Escritas, encontro de escritores de expressão ibérica que se realiza anualmente na Póvoa de Varzim desde 2000 – e essa «mais uma» é porque foi lá que o Manel e eu decidimos que queríamos passar mais tempo juntos (e, até hoje, é como estamos). A organização é inexcedível (também em mimo e afecto) e o ambiente, por isso, único (nunca lá assisti a invejas ou ciumeira, o que seria natural com tanto escritor presente). Este ano, o primeiro acto cabe a João Lobo Antunes, que falará logo a seguir ao almoço das suas ligações aos livros, depois de termos sabido, ao fim da manhã, quem arrecadou, entre os poetas nomeados, o Prémio Literário Correntes d’Escritas-Casino da Póvoa e de nos ter sido oferecido um exemplar da revista das Correntes, dedicada desta feita a Urbano Tavares Rodrigues. Estarão no certame muitos autores para debates e mesas-redondas (eu entre eles) e, como já vai sendo costume, prestar-se-á homenagem a dois escritores entretanto desaparecidos (o brasileiro Lêdo Ivo e o português Manuel António Pina) e entregar-se-ão os prémios de edição dos Booktailors. Acaba sempre a correr, e este ano – por causa dos orçamentos – terá menos um dia e por isso saberá a pouco. Mas é tão bom que alguns municípios ainda gastem as suas verbas em cultura que não nos podemos queixar...


 


P.S. Amanhã não vai haver post, desculpem – mas tenho de me preparar para a minha mesa, que será à noite. Até segunda.

Regresso a um outro eu

Às vezes, há livros que nos chamam de outro tempo; e uma tarde destas, porque me pediram que recordasse um título que gostaria de voltar a ver circulando pelas nossas livrarias, comecei a olhar as estantes lá de casa e dei com um desses títulos que nos transportam imediatamente ao passado como máquinas do tempo: um romance de que gostara tanto quando o descobrira que nunca me atrevera a relê-lo, com medo, afinal, de que a magia se perdesse. Mas, enfim, agora ele parecia chamar-me da prateleira e era conveniente dar-lhe ouvidos. Li o texto das badanas e, tratando-se de um Prémio Planeta (coisa de que já não tinha ideia, confesso), se calhar a decepção nem seria assim tão grande – se chegasse a haver decepção, claro. Por outro lado, voltar a ele era um exercício engraçado de auto-conhecimento, de busca de um eu antigo e quiçá esbatido ou enterrado que me apetecia (re)conhecer. Bem, o romance é Resta a Noite, de Solelad Puértolas, e tinha-me mesmo enchido as medidas há uns vinte anos, até porque havia em mim qualquer coisa da protagonista, além uma viagem a um país exótico e muita solidão antes e depois dela. Não estava muito enganada quanto a isso, mas, excepto a solidão, essas memórias eram uma pequeníssima parte de uma intriga que, afinal, metia espiões ingleses e alemães, uma família aristocrata num palacete, um rapaz frágil e bastardo fugido para Honolulu, uma irmã farta do seu casamento e muitos outros factos adormecidos. E a tradução, ui, melhor nem falar, cheia de distracções em que, na altura, não devo ter reparado, até porque sabia muito menos castelhano do que hoje. O romance é ainda interessante, não me interpretem mal, mas o que me desiludiu a sério foi pensar que achei uma obra-prima um livro que agora consideraria apenas mediano, mesmo que galardoado com o Prémio Planeta. Reler tem estes perigos...

Vidas para meninos

Quando eu era miúda, havia em Portugal muito pouca coisa que pudéssemos ler, sobretudo se tivermos como termo de comparação o excesso que hoje existe. Lembro-me de irmos com a minha avó a uma papelaria chamada Perdiz na rua onde morávamos e de o senhor nos aconselhar, a mim e ao meu irmão mais novo, algumas leituras. Num dos últimos sábados, recordei, de resto, com detalhe uns livrinhos de capa cartonada ali comprados, que eram uma série de biografias de homens e mulheres ilustres, destinadas sobretudo a rapazes, mas que – provavelmente por as preferir às histórias que me cabiam em sorte – também eu li na infância. E dessa colecção faziam parte Pasteur ou Marie Curie, mas também os presidentes Washington e Lincoln (tenho ideia de que eram traduções de edições americanas). Ora, foi justamente por ter ido nesse sábado ver o filme de Spielberg, Lincoln (gostei muito), que de repente me vieram à memória algumas coisas que lera nesse velho livro do meu irmão (salvo erro de capa arroxeada) e comecei a tentar compor na minha cabeça a colecção completa. Tive então, sei lá porquê, saudades desse tempo em que a avó nos levava à Perdiz e tudo parecia mais fácil, especialmente porque éramos pequenos e das dificuldades se ocupavam naturalmente os crescidos. E, de repente, perguntei-me se hoje os miúdos ainda lêem biografias de gente inspiradora (que também são contos de proveito e exemplo) e têm ídolos que não sejam figuras de duas dimensões retiradas dos ecrãs de TV e dos jogos da PlayStation.

Aos pares

Em determinadas épocas perfilam-se pares de autores que atingem um grau de sucesso semelhante. São, pois, concorrentes, seja nas vendas, seja na notoriedade e nos prémios alcançáveis. Por vezes, tornam-se adversários – e isso leva a que, tantas vezes estupidamente, se pense que quem lê e gosta de um não terá pelo que o outro faz grande atracção ou genuíno prazer. Dizer que quem adora Saramago não pode gostar de Lobo Antunes – ou vice-versa – é uma tolice, embora possamos pender mais para um do que para outro por terem estilos francamente diferentes. Nos meus tempos de faculdade, era-se mais Herberto Helder ou mais Eugénio de Andrade, por exemplo, como se não se pudesse ser isso tudo e ainda mais (Sophia, Ruy Belo, Jorge de Sena ou Ramos Rosa). No Brasil, se vou como poeta a algum encontro, logo querem saber se sou adepta de Drummond de Andrade ou de Manoel Bandeira; e um amigo italiano que escreve poesia perguntou-me uma vez se eu era dos que amavam Ungaretti ou dos que preferiam claramente Montale. Enfim, esta coisa de um contra o outro não me agrada. Porque não aos pares?

Livros com bichos

Todas as crianças gostam de ler livros com bichos, é um facto. E não falo apenas de fábulas, mas de histórias que, no fundo, são sobre pessoas que tomam o corpo de ursos, patos, cães e gatos, representando o papel de pais e filhos humanos na perfeição. Mas não são esses que hoje contemplo neste post; falo – isso, sim – de obras maiores que, mesmo usando os animais como personagens, são alegorias das sociedades humanas e só podem ser inteiramente entendidas por adultos ou, vá lá, adolescentes mais ou menos despertos para o real. O Triunfo dos Porcos, de George Orwell, é o melhor exemplo que conheço, e tenho a certeza de que todos os leitores deste blogue sabem do que se trata, pelo que não me alongarei com explicações desnecessárias. Porém, publiquei há uns anos uma trilogia intitulada As Crónicas do Corvo (A Revolta; A Peste; O Julgamento), de Clem Martini (se não me engano, um autor canadiano), que era verdadeiramente aliciante para leitores novos e velhos e passou, ao que sei, bastante despercebida. Tomando bandos de corvos inimigos (as gralhas também ajudam) e descrevendo as migrações forçadas e os regressos à pátria, as revoltas e a luta pelo poder, as questões morais e a crise de valores, estes três livrinhos revolucionários valem muito a pena e podem até ser vistos como uma introdução à política para os adolescentes. Na minha juventude, a obra deste tipo que mais se lia era o mais xaroposo Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, cujo sucesso mundial justificou inclusivamente uma adaptação cinematográfica com banda sonora de Neil Diamond. Tudo livros que falam das coisas sérias dos homens vestidos com pele de bichos.

Sinais da crise

Os Top de vendas das livrarias nem sempre foram inteiramente honestos. Atenção: só estou a vender o peixe que me venderam a mim... Há muito tempo, um editor-livreiro que, infelizmente, já não está entre nós contou-me que, quando faziam muita fé em determinado livro e, por isso, compravam bastantes exemplares, se, na primeira semana, as expectativas se defraudavam, punham o título na lista dos mais vendidos e esse destaque levava, efectivamente, a que muitos leitores o adquirissem (o marketing avant la lettre). Hoje as coisas estão todas informatizadas e é impossível fabricar mentiras, pelo que são quase sempre os mesmos livros que encabeçam os Top das livrarias: novidades escaldantes, best-sellers internacionais, obras de gente famosa, os temas que, em cada momento, estão a dar, como se costuma dizer. E, no entanto, eis que os mais recentes Top de vendas divulgados nos jornais incluem títulos publicados há imenso tempo, muitos deles de autores que até têm livros editados já em 2013. Que aconteceu então? Fácil. Trata-se de restos de edição vendidos a dois e três euros, em bom estado e com miolo respeitável. Quem os não comprou a quinze ou dezassete, aproveita a época da pelintrice e leva para casa a garantia de umas horas bem passadas. Sinais da crise.

Estamos aqui

No sábado 2 de Fevereiro, eu – que ao fim-de-semana tento afastar-me de lançamentos e outras coisas que se pareçam com trabalho – não resisti a ir à sessão de apresentação do novo livro de poemas de João Luís Barreto Guimarães na Bertrand do Chiado. O poeta merecia, pois, além de ser um grande escritor, é um confrade culto e generoso que conhece bem a poesia contemporânea e se dedica há muito a divulgá-la em blogues e ao vivo (e às vezes é tão raro um escritor escrever sobre os outros que, pela parte que me toca, não podia faltar). A obra saída do forno chama-se Você Está Aqui, numa clara alusão aos mapas de cidades e transportes públicos que não raro nos orientam nas suas redes a partir de um ponto preciso. Trata-se, assim, de um livro de poesia que é também um livro de viagens e cuja divisão se faz em duas partes – Partidas e Chegadas. Corresponde a primeira a textos sobre cidades estrangeiras, embora nada tenha de postal ilustrado, antes visitando a história pequena e a História maior desses lugares (pessoal e oficial). A segunda faz-se do regresso ao País, aonde é sempre difícil voltar quando as coisas parecem todos os dias mais decadentes, o que torna a leitura mais implicada. A apresentação da obra esteve a cargo de outro poeta – António Carlos Cortez – e foi mesmo interessante. Que bom ter estado lá. Agora, estou aqui, a ler o livro.

Kamasutra para o S. Valentim

Somos peritos a importar tradições alheias – e quando vejo meninos e meninas disfarçados de fantasmas e bruxas no dia 31 de Outubro até fico de cabelos em pé (mas, claro, imagino que seja exactamente esse o objectivo do Halloween). O Dia dos Namorados é só mais uma destas importações, pois quando eu era adolescente não havia disso em Portugal; a primeira vez que me lembro de um namorado me oferecer um presente no dia 14 de Fevereiro já estávamos na década de 1990 e eu fiz uma figura triste porque, como não estava acostumada a celebrar o dia, ia de mãos a abanar... Porém, desde então os pares apaixonados gostam de trocar presentes pelo S. Valentim e, estando a data próxima, começam a aparecer nas homepages das livrarias virtuais destaques a romances xaroposos com capas tendencialmente em tons de rosa e lilás e títulos que incluem quase sempre a palavra «amor» e os seus derivados. No entanto, este ano a coisa promete ser mais picante por razões que todos conhecemos e têm que ver com o recente sucesso de As 50 Sombras de Grey. E, como é preciso usar de artimanhas para vender livros numa época de crescente pelintrice, encontrei um produto fascinante que dá pelo nome de Kamasutra de Grey. A capa, seja na imagem, nas cores ou no próprio tipo de letra, é mesmo chapada dos livros da senhora E. L. James, mas, ao contrário do que se poderia esperar, a editora não é a que publicou a trilogia. Isto é aquilo a que eu chamo «ir a reboque» – mas nem se pense que é caso único porque basta ver as montras das livrarias para logo sermos brindados com dezenas de capas em vários tons de cinzento, com algemas, sapatos de salto, ligas ou outros clichés eróticos, num todo homogéneo seguindo a moda Grey (ou gray, porque é tudo meio cinzentão). Nada contra. Mas, se o sexo é desejável entre namorados, espero que alguns não precisem desta cartilha e, a seguir, leiam um livro decente.

Zona de conforto

Todos aqui sabem que trabalho maioritariamente com autores em princípio de carreira e, por isso, com obras de estreia – e essa é uma situação delicada, porquanto, se estou a lançar para o mundo um autor perfeitamente desconhecido, só posso realmente contar com a minha opinião. Tenho a consciência de que, apesar de ser uma leitora experiente e conhecer relativamente bem o mercado, há sempre um lado subjectivo na selecção que faço; e, portanto, de cada vez que ponho um destes livros «na rua», sinto um calafrio e muito receio de não acertar. Este ano, porém, dois dos autores que publico pela primeira vez – Carlos Campaniço e Cristina Drios – fizeram-me uma boa surpresa que me coloca, à partida, numa zona de conforto. O primeiro, enquanto eu revia as provas do seu romance, ganhou com ele (chama-se Os Demónios de Álvaro Cobra) o Prémio Literário Cidade de Almada, que é para inéditos; a segunda, de quem eu lera há cerca de ano e meio um pequeno livro de contos intitulado Histórias Indianas (que achei muito bonito, mas muito difícil de comercializar, daí tê-la estimulado a escrever um romance), ganhou também com essa colectânea o prémio «Novo Autor, Primeiro Livro» do Teatro do Campo Alegre. Assim, sabendo que há efectivamente mais gente a concordar comigo quanto à excelência destes autores, acabo por me sentir mais segura de que, pelo menos nestas duas opções, fiz o que devia. Um dia destes, falarei obviamente com mais pormenor nos livros de ambos.

O mudo fala tão bem

No ano passado, quando fui à Feira de Guadalajara, assisti no auditório principal, no contexto das cerimónias inaugurais, à entrega do Prémio Juan Rulfo, que é um tributo pelo conjunto da obra de um escritor (Lobo Antunes é, segundo creio, o único português contemplado). Ganhou-o então Fernando Vallejo, um autor e realizador de cinema colombiano que, no discurso de agradecimento, citou alguns dos intelectuais que mais o marcaram, incluindo o peruano Julio Ramon Rybeiro, desaparecido do mundo dos vivos em 1994. Conhecia Rybeiro de nome e reputação, mas ainda não tinha tido oportunidade de lhe «meter o dente». Pois a verdade é que a altura chegou e posso diz-vos que estou maravilhada com o primeiro volume de contos deste autor que a Ahab publicou sob o título A Palavra do Mudo (este «mudo» é o desprotegido, o marginalizado, aquele que raramente tem a palavra e que é quase sempre a figura que protagoniza os contos do autor peruano). A selecção e tradução estão a cargo de Tiago Szabo, que soube escolher muito bem as peças, desde logo o texto inicial «Só para fumadores» (os fumadores adorarão), mas também, por exemplo, a história do professor substituto que não chega a dar a sua primeira aula, a do armário onde se reflectem os antepassados ou a do livro em branco que anda de estante em estante até ir parar às mãos de um poeta desafortunado. Recomendo este livro a quem gosta de contos e a quem não gosta (mas passará a gostar).

Um presente excepcional

Ao Manel e a mim, certamente por trabalharmos há décadas em edição, quase ninguém oferece livros; presumo que as pessoas creiam que conseguimos preços melhores por estarmos inseridos no ramo ou se acanhem de nos dar uma obra que, por acompanharmos de perto a produção nacional e internacional, possa constituir um tiro ao lado. É uma pena: primeiro, porque gostamos obviamente de ler – e somos dos que mais apreciarão receber livros de presente; depois, porque, como não resistimos a ler muito do que vai sendo publicado, gastamos muito dinheiro em livros. Recentemente, porém, um amigo que viveu longos anos no Brasil abriu mão de uma preciosidade que por lá comprara para me oferecer um presente excepcional. O objecto em si é logo de um bom gosto e cuidado já difíceis de encontrar. E o miolo, ainda por cima, é coisa da minha predilecção. Trata-se de uma tradução belíssima de poemas de John Donne, acompanhada de um texto crítico, tudo assinado pelo grande Augusto de Campos – para quem não saiba, um dos maiores poetas brasileiros. O livro intitula-se John Donne: o Dom e a Danação, e as poesias vertidas para o português pelo mestre Campos (não é só Portugal que tem um – o Brasil tem, aliás, dois, Augusto e o seu irmão Haroldo) não perdem a graça e a beleza do original, o que é uma proeza rara e digna de nota. Feliz, por todas as razões, que um amigo se tenha finalmente decidido a oferecer-me um livro – e que esse livro seja esta jóia.

Cartão de boas-vindas

Hoje o meu post é uma espécie de surpresa para uma pessoa francamente especial na minha vida, que graças a Deus cruzou um dia o meu caminho. Estou a falar da Madalena, o meu braço-direito (e quantas vezes também o esquerdo), que me acompanha há mais de três anos e meio neste bonito mas difícil ofício da edição de literatura (difícil, porque as pessoas gostam cada vez mais de livros que não são literatura, tornando quiçá quem põe o dinheiro no negócio também cada vez mais desconfiado sobre a real importância de publicar livros a sério). Pois bem, como todos os anos por esta altura, a Madalena foi de férias uma semana inteira e regressa hoje (ufa!). E, além do facto de ser uma pessoa muito bem-disposta e sempre com boa cara (não me consigo lembrar da última vez que a vi aborrecida; preocupada, sim, mas quem é que, neste momento, com um mínimo de sensatez, pode despreocupar-se?), é de uma rapidez de resposta que podia enervar alguém menos stressado do que eu – e tornou-se-me tão indispensável com os anos que, se ela não deixasse uns memorandos irrepreensíveis para eu seguir à risca na sua ausência, eu era bem capaz de agarrar uma depressão nervosa todos os anos em Janeiro. Devo-lhe muito – e espero que ela o sinta, pois, na lufa-lufa diária que enfrentamos, às vezes não nos sobra nem um minuto para um elogio e, se calhar, ela até é mais pródiga do que eu a dizer coisas agradáveis quando, na verdade, o contrário é que teria razão de ser. Sei que a maioria dos que aqui vêm ler-me todos os dias não a conhecem, mas acredito que daqui a alguns anos, quando eu já estiver cansada disto, a Madalena possa substituir-me na dura tarefa de ler centenas de páginas todas as semanas e separar o trigo do joio. Hoje, que ela regressa, estou muito mais aliviada e quero dizer-lhe, para todos «ouvirem», que me fez uma falta tremenda. Espero que nunca seja uma Madalena arrependida…

Bicicletas

Agora, que a coisa aperta cada vez mais, até nas sete colinas da capital, num sobe-e-desce desgraçado, as bicicletas multiplicam-se, poupando-se em combustível e ganhando-se em exercício físico. E, por falar em bicicletas e em miséria, um dia destes revi o belíssimo Ladrões de Bicicletas, de Vittorio de Sica, que venceu em 1948 o Oscar de melhor filme estrangeiro; uma história passada em Itália cujo protagonista é um pobre pai de família lutando por um emprego numa altura em que não há trabalho para ninguém e o único lugar que lhe oferecem – a colar cartazes pela cidade – implica, justamente, ter uma bicicleta (e o pior é que a dele está no prego e vai ser preciso pagar para a tirar de lá). Nunca li o romance de Luigi Bartolini em que se baseia esta longa-metragem (que, por acaso, nem é assim tão longa) e, portanto, não sei se nele o desfecho é o que conheço – nem como de uma história que, aparentemente, se resume em três linhas, é possível fazer mais de cem páginas (mas ainda hei-de descobrir). No filme, porém, depois de conseguir trocar a bicicleta com os lençóis da própria cama na loja de penhores, este pai verá, enquanto trabalha, ser-lhe roubado o velocípede em plena rua – e, com ele, a possibilidade de ter um salário e alimentar a família. E, porque a Polícia nada faz para o ajudar a encontrar o ladrão, resta ao coitado imitar o patife, mesmo que não se saia tão bem como era preciso e a cena decorra debaixo do olhar crítico e devastado do próprio filho. Desconheço se estamos tão mal como os italianos nesse longínquo pós-guerra, acho que ainda não, mas, com tudo o que sabemos que vai acontecer e mais o que ignoramos, palpita-me que também aqui comecem a desaparecer bicicletas...

O que ando a ler

Hoje é dia de partilhar leituras. Quando iniciei a deste livro que hoje trago – A Amante Holandesa, de J. Rentes de Carvalho – lembrei-me, sem querer, das conversas às escuras e em voz baixa que trocavam o guarda mais velho e o guarda mais novo em Lituma nos Andes, de Mario Vargas Llosa. Também nesse romance o mais novo relata com detalhe excessivo a sua paixão e o outro bebe as palavras e desfruta, como se fosse com ele. Mas aqui as confidências são entre dois homens já entrados nos anos numa aldeia que ambos abandonaram jovens e à qual regressaram velhos: o Gato, um pastor que esteve emigrado na Holanda e por lá teve uma amante e uma filha que nunca mais viu e de quem morre de saudades; e o narrador, um professor cuja vida foi um imenso vazio, que se casou por inércia, tem dois filhos imprestáveis que moram longe e um tédio difícil de aguentar. Depois de um episódio com uma carta que, de certo modo, poderia aparentar-se à história de Cyrano de Bergerac – carta que o segundo escreve à amante holandesa do primeiro por este ser analfabeto –, uma grande desgraça acontece, colhendo-nos a todos de surpresa como uma espécie de final antecipado. Mas, a partir daí, o foco desloca-se para o narrador, de quem iremos, afinal, saber muita coisa que teríamos preferido ignorar. A aldeia, esse corpo grande com os seus brutos e bêbados, é a melhor personagem de todas – e tão impiedosa como a do Rebate, do mesmo autor, de que já falei neste blogue. (Talvez, no fundo, seja a mesma.) A ler, como sempre, tratando-se de Rentes de Carvalho.