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A mostrar mensagens de setembro, 2020

Um novo prémio

Calculo que muitos dos que frequentam as Horas Extraordinárias escrevam ficção e tenham livros na gaveta à espera de uma oportunidade. Ora, apareceu agora um novo prémio literário que pode ser uma saída para quem não arranjou ainda editor ou se esqueceu de um velho manuscrito no fundo do armário mas pode aproveitar agora para o rever. Trata-se de um galardão da iniciativa da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), criado para homenagear uma escritora que foi, de resto, um dos seus membros: Maria Velho da Costa. Recentemente falecida, a romancista que arrecadou o Prémio Camões em 2002, autora de livros notáveis como Missa in Albis, Casas Pardas ou o mais recente Myra, é então a «madrinha» deste novo prémio para primeiros romances inéditos (obras de estreia assinadas com pseudónimo), cujo prazo de entrega termina a 31 de Outubro próximo. O valor é de 2500 euros e o regulamento pode ser consultado na página da SPA. Atreva-se.

Afinadíssimo

Fico muito triste se se me apaga da lembrança um livro que li, sobretudo quando, mesmo esquecendo em traços largos o enredo, recordo muito bem o quanto gostei dele. Isso aconteceu-me recentemente com Concerto Barroco, do cubano Alejo Carpentier, que decidi reler em férias para poder descobrir porque tanto o amara da primeira vez. E é realmente um pequenino livro-maravilha, um concerto literário fascinante. Fala do encontro em Veneza, durante a época do Carnaval, de um comerciante de prata mexicano que viaja na companhia do seu escravo, rapaz extremamente vivaço e talentoso, com Haendel, Scarlati e o frade ruivo que dá pelo nome de Vivaldi. Pelo meio, ao lado dessas quatro figuras, ouviremos a pequena orquestra de órfãs que foram deixadas na roda do convento em que os outros se resguardam da confusão e depois assistiremos ao pequeno-almoço que as freiras preparam no cemitério de San Michele (onde está sepultado Stravinsky que, apesar de ser um músico do século XX e portanto não contemporâneo dos seus confrades, arranca deles comentários bem divertidos avant la lettre). Barroca e irresistível, esta novela belíssima pode fazer companhia a Os Passos Perdidos, outra maravilha de Carpentier.

Segredos revelados

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Escabeche, pataniscas, caldeirada, tripas, caldo verde ou peixinhos da horta. Bolo-rei, arroz-doce ou rabanadas… Enfim, se é português, todos estes pratos lhe dizem certamente alguma coisa (ou muito!) e estão entre o que de mais tradicional se pode encontrar na cozinha do nosso país. Mas faz ideia de quando nasceram e em que livros ou manuscritos apareceram pela primeira vez? Guida Cândido, especialista em História da Alimentação e autora premiada de duas obras que tive o prazer de publicar (Cinco Séculos à Mesa e Comer como Uma Rainha), vem revelar-nos agora segredos muito bem guardados. Sabia, por exemplo, que já se servia Marmelada no início do século XVI e que o cozinheiro de D. José e D. Maria I já fazia Pão-de-Ló? Pois bem, A Vida Secreta da Cozinha Portuguesa não só lhe dará a conhecer as origens da nossa cozinha tradicional como também lhe proporcionará todas as receitas inaugurais de 50 pratos típicos portugueses, todos de comer e chorar por mais. Boa leitura e bons cozinhados!


 


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Adeus, futuro

Falei aqui há uma semana, pouco mais ou menos, da multiplicação de pontos de vista que passam pela cabeça do Senhor Palomar no livro de Calvino. Mas há pontos de vista inenarráveis que eu não sei como passam pela cabeça seja de quem for... É precisa mesmo uma grande ignorância para dizer que a culpa do Holocausto é dos judeus. Como?! Mas será que quem diz isto pensa que Hitler fez a guerra para lhes palmar o dinheiro e os bens ou que eles pecaram e portanto merecem? Pasmem, mas num lugar onde, por acaso, vivem imensos judeus (os Estados Unidos da América), muitos dos quais oriundos de famílias que saíram da Europa nos anos 1940, fugindo da barbárie e do extermínio, quase dois terços dos jovens adultos desconhecem a existência do Holocausto e, entre os adultos de 18 a 39 anos, há 23% que pensam que o Holocausto é um mito e que tudo o que o cinema e a literatura retratam desse período na Europa é manifestamente excessivo e próximo da lenda. Isto já para não falar das alminhas que culpam os judeus pelo Holocausto, que são, calculem, 11% dos interrogados. Enfim, a culpa é sempre da educação, claro, e a América, a olhar para o seu umbigo, está a esquecer cada vez mais depressa donde vieram a maior parte das famílias que hoje são americanas. Agora, que já não tenho a minha crónica, volto a dizer, chocada: Adeus, futuro.

Farmácia literária

Já aqui disse que muitos dos escritores portugueses estreados neste milénio são oriundos de áreas de conhecimento ditas científicas: engenheiros, físicos, arquitectos, médicos... o que não é, aliás, de estranhar, pois entre os estudantes de Letras estão provavelmente muitos que não entraram nos cursos que desejavam por falta de nota (é que para ir para Letras não são precisas, sabe-se lá porquê, médias altas). Mas as ciências sempre receberam bem as letras, e agora é o Museu da Farmácia que o vem provar com uma mão cheia de actividades: não só um clube de leitura (Rodrigo Guedes de Carvalho vai estar à conversa com os seus membros na noite de dia 29 sobre o seu mais recente romance, Margarida Espantada), como tem sessões de poesia (a próxima, com colaboração dos poetas Inês Fonseca Santos e António Carlos Cortez, é mais logo, às 19h00) e depoimentos de escritores sobre a criação e a leitura em tempos de pandemia. E há mais, claro, todos os meses, incluindo uma programação especial para crianças muito atraente. Vamos à farmácia tomar a cura para os nossos males? Vamos!

Microcosmos

Lembro-me de este romance ser um dos preferidos de um autor que publiquei há vinte anos, António Manuel Venda, que mo recomendou na altura; porém, apesar disso e do facto de quem o escreveu, Camilo José Cela, ter ganho o Prémio Nobel da Literatura, só este Verão lhe deitei a mão. Embora a tradução não seja famosa (revelando uma ignorância do idioma de origem algo estranha, já que as notas mostram que o tradutor tem um nível cultural acima da média), vale muito a pena ler A Colmeia, até porque é um livro sem protagonistas, o que é muito raro, tendo certamente mais de uma centena de personagens, que aparecem numa cidade que é uma verdadeira colmeia – Madrid –, mais precisamente num café por onde passam poetas, putas novas e velhas, miseráveis, músicos, funcionários, enfim, toda a espécie de gente, no período em que a Europa está em guerra, e os espanhóis, ainda que fora dela, vivem ainda as sequelas da guerra civil, que deixou o país devastado e entregue a uma pobreza confrangedora. Embora Camilo José Cela tenha combatido em jovem ao lado dos franquistas, este livro, do início dos anos 1950, foi censurado e publicado originalmente na Argentina, dada seguramente a imagem negativa que dá da Espanha esfomeada deste período. Muito interessante como ideia de um retrato colectivo sem heróis, um pouco datado, é certo, deve de qualquer modo ler-se este romance, que é dos mais conhecidos do autor.

Alto e em grupo

A EU Read, um consórcio de entidades que trabalham para a promoção da leitura (PNL incluído), lançou uma campanha que visa a leitura em voz alta e em grupo, reconhecendo os seus benefícios para as crianças. Chama-se, de resto, Reading loud, reading together. Os tempos não são os mais indicados para isto, bem entendido (o vírus obrigada ao uso de máscara e ao distanciamento social, nada práticos neste tipo de actividade), mas ela  pode ser praticada também em família. As vantagens são inegáveis: para lá do evidente desenvolvimento das competências de leitura, a partilha e a cumplicidade do grupo, bem como a sua identificação com o enredo e as personagens ajuda a criar momentos em que o desejo de continuar a ler é enorme (e isto, sim, é a motivação para a leitura). Além disso, a actividade ajuda a estabelecer laços afectivos, ensina a trabalhar em equipa, desenvolve a imaginação e o raciocinio e, entre muitas outras coisas, enriquece a expressão oral. O que falta é pô-la em prática, o mais cedo possível, nas nossas escolas e em casa. De pequenino se torce o pepino, e não me venham falar de falta de tempo, porque bastam dez minutinhos por dia.

Entrevistas

Parece que as pessoas não são muito sensíveis a livros de entrevistas (que, ao que sei, se vendem muito pouco), embora eu goste muito da entrevistas publicadas na Paris Review. Por outro lado, diz quem sabe que uma entrevista num jornal feita a um escritor é muitíssimo mais lida do que uma crítica a um livro desse mesmo autor; e estou em crer que na rádio, com esse privilégio que é ouvir as vozes de entrevistador e entrevistado, a entrevista é um género com muita audiência (eu, por exemplo, gosto muito das entrevistas a membros da mesma família feitas por Teresa Dias Mendes no programa ADN da TSF). Quem tem um programa de entrevistas a figuras públicas em que a cidade de Lisboa é centro das atenções é o jornalista João Morales. Chama-se Lisboa Continua, e esta última emissão é com o escritor e argumentista Filipe Homem Fonseca, que lançou nas Correntes d'Escritas o seu mais recente romance, A Imortal da Graça, que, se não me engano, é semifinalista do Prémio Oceanos. Se acederem à gravação pelo link seguinte, poderão também subscrever o canal de João Morales gratuitamente e ouvir as restantes entrevistas.


https://www.youtube.com/watch?v=PEldsNHTwAw&t=1483s 


 


 

Calvinices

Uma das maiores injustiças da Academia Nobel, quanto a mim, foi não ter dado o galardão ao talentosíssimo escritor italiano Italo Calvino, um fabuloso inventor de modos, estilos e universos literários que, além disso, tinha um humor notável. Bem sei que era ainda bastante jovem quando morreu, mas o Nobel já tinha contemplado escritores mais novos (Camus, por exemplo). Já aqui devo ter falado de vários dos seus livros, mas hoje lembrei-me de Palomar, mais outra maravilha de originalidade e empatia. O livro acompanha um senhor chamado Palomar em várias situações (desde as férias na praia até às compras no talho) para nos mostrar que nunca há só um ponto de vista sobre as coisas e que, se formos como Palomar, nunca conseguiremos escolher entre duas coisas de ânimo leve nem deixar o cérebro descansar um segundinho que seja. Basta ler o capítulo sobre a rapariga em top less e as questões que o senhor Palomar se põe sobre qual deverá ser o seu procedimento ao passar por ela para se saber que até à última página vamos ter muito com que nos deliciar. Leia-se este autor, por favor, com ou sem Nobel.

Três irmãos

Muitos dos escritores, nos primeiros tempos da pandemia, viveram aquilo a que eu chamaria agora, para simplificar, um «período branco», querendo com isso dizer que a tensão provocada pelo medo da doença e/ou o confinamento os impediu de criar. Contudo, isso é coisa que não se pode dizer de Gonçalo M. Tavares, que não parou um instante de dar à pena e cujo diário foi/está a ser publicado pelo semanário Expresso há várias semanas (embora não na íntegra, o que indicia que ainda há-de sair provavelmente o todo num livro). Mas não foi só: escreveu no mesmo período a peça Os Três Irmãos, encenada pelo coreógrafo Vítor Hugo Pontes e com estreia marcada para amanhã no Teatro Viriato, em Viseu. O texto fala de uma família em espaço fechado e do «desaparecimento» de alguns dos seus membros sem que os outros se possam despedir deles, o que é uma excelente alegoria destes tempos negros. É igualmente uma boa notícia que uma coisa tão negativa como este vírus sirva para a criação,  que é coisa positiva. Em Lisboa, o espectáculo só poderá ser visto lá para Fevereiro, no S. Luiz. O meu livro preferido de Gonçalo M. Tavares é Jerusalém, que aconselho vivamente.

Tempos duros

Vivemos tempos duros e já aprendemos que um simples vírus, uma coisita de nenhum tamanho, pode de repente mudar o mundo todo, matar milhões de pessoas, alterar hábitos enraizados, provocar depressões, desemprego e divórcios, suprimir a sociabilidade e o afecto, tornar negros negócios que antes frutificavam. Foi também uma coisa de nada (no caso, uma mentira: a de que o líder eleito encorajava a entrada do comunismo na Guatemala) que mudou o rumo do país quando, em 1954, um golpe de Estado orquestrado pela CIA derrubou o governo. É disto que fala o mais recente romance de Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura e autor de grandes romances, muitos dos quais já mencionados aqui no blogue. Chama-se Tempos Duros, está classificado como um thriller histórico e, segundo o El Pais, mostra como as coisas poderiam ter sido bem diferentes se não fosse, de facto, essa mentira. Para ler e aprender. Publica a Quetzal. A tradução é de Cristina Rodríguez e Artur Guerra.

Boas notícias

Uma das excelentes notícias de hoje é que o meu braço-direito aqui na editora, a Madalena Escourido, se tudo correr bem, se doutorará daqui a pouco. Por causa das restrições, não pude, como gostaria, ir vê-la defender a sua tese (sobre Afonso Cruz, Patrícia Portela e Joana Bértholo) na Universidade de Coimbra, mas estarei diante do computador a acompanhar esse momento alto roendo as unhas. Outra boa notícia é a de que o enorme leitor e bibliófilo Alberto Manguel, nascido argentino e naturalizado canadiano, que foi leitor de Borges em jovem, escreveu livros magníficos sobre a leitura e reuniu uma das mais fascinantes bibliotecas de sempre, vem viver para Lisboa, onde dirigirá um Centro de Estudos da Leitura num palacete que a nossa Câmara lhe cedeu para instalar os seus 40 000! volumes que, assim, poderão ser vistos (e consultados) pelos portugueses. Claro que, até tudo estar pronto, vai demorar não menos de dois anos, mas... o tempo passa num instante. Só boas notícias.

Lugar para Dois

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De um finalista do Prémio LeYa, o livro de que hoje vos falo é para ler e ouvir (sim, inclui códigos que podem ser lidos com um telemóvel para se escutar uma canção alusiva ao episódio, até porque uma das personagens é um músico, e o autor, Miguel Jesus, também). Trata-se de Lugar para Dois, cuja acção decorre maioritariamente em Moçambique e que é tão cinematográfico que quase sentimos os cheiros e ouvimos os ruídos do mato. Conta a história de um homem bem-sucedido que, no final dos anos 1950, poderia escolher o futuro que quisesse, mas um acidente estúpido com a filha enche-o de uma culpa de que não se consegue libertar. Tenta recomeçar a vida longe e instala-se num lugar recôndito de Moçambique, onde uma velha negra o ajuda nas tarefas domésticas e lhe leva jornais que o põem a par dos movimentos independentistas nas Colónias e das mudanças por que a Metrópole vai passando. Porém, apesar do desejo de ficar sozinho, uma inscrição no tronco do embondeiro que enfeita a propriedade diz que aquele é um «lugar para dois», insistindo na paternidade que lhe estava destinada. E, por mais que Daniel a renegue por duas vezes, é nesse caminho que acabará por encontrar o próprio perdão. Belo, duro, ternurento – com uma banda sonora exclusiva! – este é um romance excepcional.Lugar_Para_Dois K 3D (2).jpg


 


 

Os dias de Mário Cláudio

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Este domingo teremos a última oportunidade na Feira do Livro de Lisboa de comprar livros do escritor Mário Cláudio (e de outros autores, bem entendido). Entre os seus títulos publicados pela Dom Quixote, encontra-se Tríptico da Salvação (o romance a que foi atibuído recentemente o Prémio de Romance e Novela da APE-DGLAB, sendo Mário Cláudio o único autor a ter recebido este galardão por três vezes), mas também um volume acabadinho de «sair do forno» da LeYa intitulado Três Novelas, que reúne os seus primeiros três trabalhos de ficção há muito esgotados e que nunca tinham sido publicados num só volume: Um Verão Assim, As Máscaras de Sábado e Damascena. Paralelamente, sai o volume de ensaios comemorativo dos seus 50 anos de carreira, Trilogia do Belo, com organização de Maria Celeste Natário e José Vieira e textos de muitos estudiosos da obra do mestre. Na próxima segunda-feira, o escritor recebe o Prémio da APE na Fundação Gulbenkian, numa cerimónia em que serão respeitadas todas as normas de segurança. Estes são mesmo os dias de Mário Cláudio.


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Viajar sem sair do lugar

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Estes não são os melhores tempos para viajar, mas há maneiras de o fazer sem sair do lugar, e ler sobre viagens é uma delas. Falo-vos hoje, por isso, de Pés na Terra, de Raquel Ochoa, autora que venceu o Prémio Agustina Bessa-Luís com A Casa-Comboio e que já publicou várias biografias e romances históricos. Pés na Terra ensina-nos que «em viagem vive-se às vezes um século inteiro num só dia» e que «viajar é a melhor forma de compreender quem somos». Nele, Raquel Ochoa, que é também guia de viagens e aventureira, mostra-nos que, com ou sem mapas, o mundo é um lugar onde o observador é tão importante como o observado e que enfrentar a natureza tal como ela é faz de nós mulheres e homens maiores. O volume reúne memórias de viagens aos cinco continentes, fazendo-nos olhar para o mundo contemporâneo como algo incrivelmente belo, mas também cheio de desigualdades e contradições. As experiências da autora (sobretudo como mulher que viaja sozinha, enfrentando o risco e o preconceito), as peripécias inesperadas, as provações e o desconforto a par da superação, do deslumbramento e da pacificação são o guia ideal para quem queira sair do seu umbigo para o umbigo do mundo, de mochila às costas ou sentado no sofá. Raquel Ochoa estará hoje na Feira do Livro às 18h30 e no sábado às 16h30 para autografar os seus livros. Apareça.


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Heranças

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Há uns tempos, muito antes da pandemia, num dia chuvoso, fui ali para os lados da Sé participar nas filmagens de um episódio de uma série de TV dedicada aos vencedores do Prémio Literário José Saramago, cujo autor é o jornalista Carlos Vaz Marques e a realizadora Graça Castanheira. A série Herdeiros de Saramago, que vai falar de vários escritores e da sua vida quotidiana e passada, era para estrear em Junho, mas atrasou-se com o diabo do vírus. No último sábado, porém, vi em ante-estreia, no Indie, quatro episódios: o respeitante à brasileira Adriana Lisboa, os que se dedicam a Paulo José Miranda (o primeiro vencedor) e Ondjaki (que ganhou em 2013) e aquele em que eu mesma fiz uma perninha (João Tordo). Fiquei muito bem impressionada. Na TV verei, por isso, os outros, que serão sobre José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, Andréa del Fuego, Julian Fuks, Bruno Vieira Amaral e Afonso Reis Cabral). Estreiam na RTP em Novembro. Deixo-vos com uma foto do mais recente premiado numa das cenas do seu episódio.


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Sugiro como leitura os livros destes herdeiros do Nobel. Há muito por onde escolher.


 

Belezas do cosmos

Não é segredo para ninguém que iniciei a minha carreira nos livros pela mão de um cientista (já escrevi sobre isso aqui no blog) e que trabalhei nos primeiros nove anos de actividade numa editora especialmente vocacionada para a divulgação científica. Nessa editora, o campeão de vendas era Carl Sagan, o físico de Cornell que, na altura, tinha um programa de televisão belíssimo chamado Cosmos, que era também o título do seu livro mais vendido. Mas não era por ser um homem de ciência que descurava as letras, e é dele uma das mais interessantes frases sobre a leitura. Ela aí vai, caçada um destes dias no Facebook no mural de um amigo brasileiro (deixo tal qual encontrei): «Que coisa incrível é um livro. É um objeto achatado feito de árvore com partes flexíveis nas quais imprimimos uma porção de rabiscos escuros e esquisitos. Mas basta olhar para ele e você está dentro da mente da pessoa, talvez de alguém morto há milhares de anos. Através dos milênios, um autor está falando claramente e silenciosamente dentro da sua cabeça, diretamente com você. A escrita talvez seja a maior das invenções humanas, unindo pessoas que nunca se conheceram umas às outras, cidadãos de épocas distantes. Os livros rompem os grilhões do tempo. Um livro é a prova de que os humanos são capazes de realizar magia.» Grande verdade.


 


Em tempo (porque me chamaram a atenção de que não sugerira qualquer livro, mas Cosmos era também uma sugestão): de Carl Sagan, O Cérebro de Broca, cuja tradução foi feita por mim aos vinte e tal anos.

Resistir ao tempo

A Dom Quixote teve em tempos, se não me engano, uma colecção cujos títulos eram escolhidos por António Lobo Antunes. Um desses, com prefácio da sua pena, é uma daquelas novelas exemplares que tem tudo para resistir ao tempo, pois mantém-se profundamente actual, apesar de terem passado mais de uma centena de anos sobre a sua publicação. Trata-se de A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, um livrinho com menos de cem páginas, que conta abreviadamente a história da vida de um juiz desembargador: da infância ao casamento, da sua primeira colocação até ao posto cimeiro da sua carreira, dos seus momentos felizes na infância até uma vida de aparências sem qualquer felicidade e, por fim, aos tempos que antecedem a sua morte e que lhe permitem olhar para trás e fazer um balanço que é, afinal, de muita dor e remorso. E, ainda que a prosa de Tolstoi nos remeta sempre para um tempo que não é o nosso, conseguimos rever-nos perfeitamente nos sentimentos de Ivan Ilitch e concluir que o ser humano permanece o mesmo em todas as épocas, o que é especialmente visível na primeira cena da novela, em que a notícia da morte de Ivan Ilitch leva imediatamente os seus colegas a pensar em qual deles irá ocupar o seu lugar (e também no jogo de cartas que os espera a seguir ao velório). Uma pequena obra-prima que nunca passa de moda. É isto a verdadeira literatura.

Feira do Livro

As Feiras do Livro estão de volta em Lisboa e no Porto e, desta vez (coisa rara e nunca vista), acontecem ao mesmo tempo! Em virtude da pandemia, as regras são apertadas (uso de máscara para todos e desinfecção obrigatória das mãos, entrada e saída dos pavilhões por lados diferentes e número de visitantes limitado); mas o primeiro fim-de-semana foi uma festa para os leitores que, como se estivessem sedentos de ver livros num espaço ao ar livre, não quiseram faltar. As sessões de autógrafos em Lisboa foram muito concorridas e, no Porto, houve sessões de debate, uma das quais com David Machado e Patrícia Reis, autores aqui da casa. É também no âmbito da programação da Feira do Livro do Porto que vão regressar as Quintas de Leitura, desta vez com a participação da Garota Não e do autor de A Criada Malcriada, Hugo van der Ding, e com leituras de Cristiana Sabino, Filipa Leal, Francisca Camelo e Paula Cortes, imagem de Mariana, a Miserável e muito mais. Se gosta de livros, vá às feiras. Tem até 13 de Setembro para as visitar.

Livrarias e cinema

Declarada a supremacia da imagem relativamente ao texto, os livros estão mesmo a ficar para trás e a ficção a ganhar terreno na forma de séries televisivas. (Uma tristeza, claro, para quem, como nós, adora o cheiro dos livros e gosta de pensar e ver dentro da cabeça enquanto lê.) Isso tem levado a que um número bastante grande de livrarias e editoras tenha tido de fechar portas nos últimos  anos ; e, se as crises económicas não ajudaram, a pandemia foi outro drama para quem deixou de vender ao longo de meses (ainda há dias se anunciou o fecho da Cotovia). Mas dessas situações mais dramáticas é também possível fazer arte; e, no âmbito do festival Indie, hoje pode ver-se no Cinema Ideal, em Lisboa, às 19h30, um documentário que promete ser interessante. Chama-se The Booksellers, assina-o D. W. Young, e nele se fala das livrarias (e dos livreiros) de Nova Iorque desde os anos 1950, em que o número de estabelecimentos quase chegava às quatro centenas, e os nossos dias, em que, infelizmente, já não chegam a cem. Lojas antigas e belas, como a que mostrei aqui há tempos desenhada por Frank Lloyd Wright, e lojas modernas e sofisticadas respondendo a exigências tecnológicas, haverá para todos os gostos neste documentário onde também serão ouvidos os livreiros. Se puder ir, não falte: o cinema também precisa de leitores. (O documentário repete no mesmo local no próximo sábado, às 21h45.)

Os nossos pais

Os meus pais foram bastante liberais para a época e nunca chatos nem bota-de-elástico, embora nem sempre tenha sido fácil ser filha deles (tinham o seu feitio, enfim). Muitas vezes me têm pedido que escreva sobre esse duo, principalmente depois de tê-lo feito num texto que li nas Correntes d’Escritas há uns anos e de o fazer de passagem nas minhas crónicas. Mas sempre senti que teria de encontrar o tom certo para isso, tal como o encontrou Richard Ford ao escrever Entre Eles: Recordando os Meus Pais, um livro que reúne dois relatos escritos com quase trinta anos de intervalo: o primeiro pouco depois da morte da mãe (que chegou a ter uma publicação independente em vários países) e o segundo bastante mais recentemente, cujo protagonista é o pai, que morreu à frente do escritor tinha ele dezasseis anos. Este texto sobre o pai é, ainda assim, um texto sobre o casal, a forma como se conheceram, a sua paixão, a sua vida a dois pelas estradas da América profunda (o Ford pai era caixeiro-viajante) e a forma como o filho, que veio ao mundo quando já ninguém estava à espera, revolucionou a vida desse par, obrigando-o a regras que nunca tivera e até à decisão de ter um lar algures, coisa com a qual Edna e Parker nunca tinham estado muito preocupados. Um livro belíssimo sobre os laços familiares de um tipo que não me importava de escrever sobre os meus pais. Recomendo-o sem reservas a todos os leitores. A tradução é de Tânia Ganho.


 

O que ando a ler (e sejam bem-vindos)

Ora sejam bem-vindos de novo a este blog, findo que está o período de férias. As minhas foram boas e espero que as vossas também. O tempo deu para ler e reler muita coisa e nos próximos tempos falarei de tudo isso, mas hoje, como é de regra, aproveito para falar do livro que ando a ler e esse tem tudo que ver com a epidemia que actualmente assola o mundo, embora tenha sido escrito muitos anos antes de termos ouvido falar dela. Trata-se de A Peste, de Albert Camus, e em certas passagens parece que é um romance dos nossos dias, embora nele a doença esteja confinada a uma cidade cujas «portas» foram cerradas para a conter, não podendo dela entrar nem sair ninguém. E conheceremos, entre muitas outras personagens curiosas, um homem que cospe da sua varanda para cima dos gatos; o médico que deixou a mulher doente partir uns dias antes de eclodir a peste para se tratar na montanha e que agora só sabe dela por telegrama, nunca tendo a certeza se que o que lê é verdade; um homem que se enforca e pendura um aviso na porta para o salvarem; ou o jornalista que foi àquela cidade para fazer entrevistas para uma reportagem e ficou obrigado a permanecer num lugar que não é o seu e de que tem de sair a todo o custo, sob o risco de perder a namorada que arranjou recentemente. Quem narra a história é um mistério (suspeito de que terei de chegar ao fim para descobrir), mas, claro, os clássicos são o que há de mais seguro em termos de leitura e, portanto, estou a navegar em páginas pestilentas mas incrivelmente vivas. Espero que as vossas leituras também estejam a ser compensadoras. Bom regresso.