As maravilhas da modernidade
Publiquei no virar do século um livro de Bill Gates onde este declarava que o mundo tinha mudado mais nos últimos cinquenta anos do que nos trezentos anteriores. Talvez seja verdade. Quando comecei na edição, no final dos anos 80, escolhia livros nos catálogos que recolhia nas feiras internacionais, pedia os direitos por carta, às vezes respondiam-me que quem os detinha era um agente, voltava a escrever, mandavam-me finalmente um exemplar e concediam-me dois meses para me pronunciar, após os quais eu desistia ou fazia uma oferta (mais uma vez por carta), que normalmente era aceite três semanas mais tarde. Uf! Nunca um livro saía simultaneamente em todo o mundo, como hoje acontece, mas também raramente havia leilões ou tínhamos de fazer ofertas um ou dois dias após a recepção de um ficheiro em Word ou PDF de determinado romance. Pois é verdade que os tempos mudaram e muita coisa foi facilitada e agilizada. Ainda bem, pois já não conseguiríamos viver sem tudo o que a tecnologia nos trouxe. O Manel não resistiu ao iPod, ao iPhone, ao E-Book e agora também aguarda, ansioso, um iPad que há-de chegar de França nos próximos dias; e eu não escreveria isto nem seria lida sem as maravilhas desta modernidade. Mas, se um dia destes me queixava da memória a seguir aos 50, pois a verdade é que os mais novos também se queixam do mesmo e já ninguém sabe um simples número de telefone de cor, porque a máquina ajuda e não vale a pena exercitar os neurónios em coisa tão comezinha. Por outro lado, com os chats e as redes sociais, tenho ideia de que as pessoas se vêem menos e andam mais sozinhas. Ainda na Gradiva, nos primórdios do vírus da Sida, ajudei a publicar um livro (Vox, de Nicholson Baker), que era uma conversa telefónica sobre sexo entre um homem e uma mulher, respectivamente das costas leste e oeste dos EUA, que usavam as linhas eróticas por constituírem uma forma segura de ter relações sexuais. Acabava bem, porque ambos alcançavam o orgasmo, mas não será um orgasmo melhor em presença do outro? E as centenas de amigos que todos temos no Facebook poderão ajudar-nos quando precisarmos deles?
Pertinente, bem reflectido, triste. É assim a vida do tempos modernos, cada vez mais rodeados de tecnologia e cada vez em maior solidão. Pergunto-me, e brevemente será estudado, como serão os miúdos de amanhã, cujos principais interlocutores de interacção são as máquinas. Como é que serão capaz de exprimir emoções ou construir relações?
ResponderEliminarAna Cristina Silva
Há cem anos atrás dizia-se exactamente o mesmo... o progresso, a máquina e a sua frieza.. etc,etc ... este tipo de comentário sai sempre das bocas das gerações que já vão a meio do caminho... :-)))
EliminarNão tenho Facebook...
ResponderEliminarMaria do Rosário: centenas de amigos, centenas de orgasmos: é questão de começar.
ResponderEliminarTrabalhou na Gradiva? Gabo-lhe a resiliência :-)
ResponderEliminarAs redes sociais abocanham tudo menos o esquecimento e o sonho (porque tudo é possível), porque todos sabem tudo e e todos podem tudo e os públicos passeiam-se entre os privados e todos são amigos. Ambição máxima deste tempos: sonhar e ser esquecido.
ResponderEliminarPS: Quanto aos amigos, a regra é a mesma da vida. Dessas centenas, aproveita-se um ou dois. Os restantes querem ver e ser vistos, ser ouvidos mas não ouvir. Mas um ou dois são uma dádiva.
Por coincidência, comentei há uns dias no meu blog a relação da internet, nas suas variadas formas, com os livros e de que maneira influenciaria o mundo dos livros no futuro.
ResponderEliminarAs estatísticas demonstram que os livros digitais, ebooks , vieram para ficar e que aos poucos vão tomar o lugar do livro impresso. São sinais dos tempos. Quanto a mim continuo a preferir o livro tradicional.
Quanto às redes sociais, o termo amigo não é como é óbvio, para designar os amigos mas sim outro tipo de relação que só é possível com a internet. Se eu quiser acompanhar os escritos de algumas pessoas no facebook tenho de me amigar a essa pessoa embora não a conheça de lado nenhum e só queira seguir o que a pessoa escreve e não o que ela é a nível pessoal. Nos dias de hoje é possível ler um livro e comentar na hora com o próprio escritor ou com a editora, coisa impensável há uns anos atrás, o que só traz vantagens tanto para os autores como para as próprias editoras que conseguem publicitar livros com praticamente zero custos e ainda saber em primeira mão o que os leitores acham disso.
ah! Se não falasse nesse Vox numa mais me iria lembrar desse livro... lembro-me bem de ter estado com ele na mão na altura em que saiu, lendo de relance alguns diálogos, mas depois acabei por sair da livraria sem o comprar. Não me deve ter convencido... :-)))
ResponderEliminarDaa! como dizem os que não decoram os nºs. "não será o orgasmo melhor em presença do outro"? Que é que acha MRP?
ResponderEliminarE não é só. A troca de olhares. O tocar. O abraço. As mãos.
Flirtar pela internet é melhor que nada mas não é nada. E tanto não é nada que há pessoas a fazê-lo durante anos e de repente descobrem que nada são para o outro. Quem tem centenas de amigos no FB, não tem, é claro.