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A mostrar mensagens de 2020

Feliz Natal

Estamos no final de um ano que foi para esquecer (mas que não será esquecido, suspeito, pela sua singularidade). O vírus mudou as nossas vidas e separou-nos frequentemente dos que amamos, às vezes da pior maneira. Proibiram-nos os abraços e os beijos, passámos a respirar atrás de máscaras, cancelámos mil jantares, viagens e encontros com amigos. Tivemos medo de pôr o nariz fora da porta, desinfectámos as solas dos sapatos, as patas dos cães e as compras do supermercado, fomos impedidos de passear em muitas tardes de fim-de-semana. Para mim, que até gosto de recolhimento e silêncio, foi um ano tremendo, com cujos efeitos (directos e indirectos) ainda estou a tentar lidar. Mas houve algumas boas surpresas: os dois prémios maiores da literatura brasileira atribuídos a Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, o Man Booker Prize International para O Dessassossego da Noite, o romance de estreia de uma holandesa, Marieke Lucas Rijneveld, que comprei já em plena pandemia; o Grande Prémio de Tradução Literária para Guerra e Terebintina, do flamengo Stefan Hertmans, que publiquei no início de 2019. Enfim, apesar da cacetada que levou o mercado do livro, sempre houve algumas boas notícias. Agora vem aí uma vacina e vamos lá ver quando poderemos respirar fundo e beijar e abraçar. Para já, vamos tentar que o Natal não estrague o início do ano. Por isso, tenham juízo e protejam-se. Quero ter-vos cá em 2021. Sim, só voltarei ao blogue em Janeiro. Entretanto, leiam livros. O QI humano, que regra geral aumentava de ano para ano desde há quase um século, está em queda de há dez anos a esta parte. Entre outras coisas, pela pobreza da linguagem utilizada originada pela falta de leitura. Vacinem-se também contra a ignorância. E boas festas para todos!

Moldar a língua

Quando Mia Couto publicou o livro Jesusalém, juro que levei mais de um dia até perceber que a capa não dizia «Jerusalém», como inicialmente pensara, e a perceber a genialidade de um autor que é um (des)construtor maravilhoso da língua portuguesa (a minha/sua palavra preferida é «esparramorto», que diz logo tudo e é bem colorida). Nos últimos romances que li de Mia Couto a língua pareceu-me menos inventiva, como se o autor estivesse a tornar-se mais sério com o passar do tempo; mas, enquanto isso, herda essa elasticidade linguística a obra de Ondjaki, escritor que acaba de publicar o Livro do Deslembramento (que também levei algum tempo a perceber que não era «Deslumbramento»). Ondjaki, numa recente entrevista sobre esse livro que tem que ver com o regresso à infância, disse que o escreveu em língua «desportuguesa» e que não opera «com língua de dicionário, mas com língua de barro». Leio-o citado por Nuno Pacheco num artigo do Público, em que aparece ainda a explicação do autor angolano de que esta língua é a que provém de moldar «o barro indomável da fala que vai aos poucos enriquecendo os dicionários». Nuno Pacheco diz que há outros escritores que trabalham esta língua de barro (Manoel de Barros, Guimarães Rosa, Luandino Vieira, ou mesmo O'Neill em alguns textos), mas que as crianças é que são peritas em moldar palavras pela deturpação de outras, «como quem vira brinquedos do avesso». Viva então o desportuguesamento voluntário e criativo. E leiam-se artigos assim interessantes.

Bibliotecas

Eu gosto muito de silêncio. Tenho dificuldade em pensar se houver pessoas por perto a conversar, seja ao vivo, seja na rádio e na televisão. Penso menos mal, é certo, se for num sítio em que muita gente fala ao mesmo tempo e indistintamente, como num aeroporto, por exemplo, em que as falas se tornam uma espécie de ruído de fundo que não me incomoda. No entanto, o silêncio das igrejas e das bibliotecas é de ouro, ambas são templos sagrados onde se pode pensar sem interferências. Borges dizia que o mais parecido que havia com o Paraíso eram as bibliotecas, e talvez não andasse longe da verdade. Nas bibliotecas há uma enorme paz, já repararam? E essa paz não advém apenas do silêncio imposto aos leitores durante a sua permanência naquele espaço, mas também do facto (inspiro-me agora num livro que ando a ler e de que falarei aqui no blogue oportunamente) de ser um dos poucos lugares onde coexistem em plena comunhão adversários políticos, países em guerra, línguas vivas e mortas, autores que se odeiam, criminosos e vítimas, enfim, os exemplos podiam nunca mais acabar... Para mim, que gosto tanto de ler, passar a eternidade numa biblioteca como terá sido, por exemplo, a antiga Biblioteca de Alexandria seria um presente dos deuses.

Saunders em directo

Já aqui disse que, para quem domine  língua inglesa, o The Guardian tem sempre um programa cultural interessante a nível de palestras e oficinas; e qual não é o meu espanto quando descubro há umas semanas que o enorme George Saunders, que já ganhou o Man Booker Prize com o seu estranhíssimo e maravilhoso Lincoln no Bardo (que trata da morte de um dos filhos do presidente norte-americano numa noite em que havia uma festa na sua casa), vai participar no clube do livro do jornal em 28 de Janeiro próximo. O meu espanto tem também que ver com a terrível coincidência de, nesse dia, quase à mesma hora, eu estar a cumprir uma função semelhante (embora com menos brilhantismo, é óbvio, Saunders é genial) e de, por honrar sempre os meus compromissos, não estar disponível para ficar a ouvir o escritor norte-americano perorar sobre o seu romance premiado, que não é um romance qualquer, ou não é um romance sequer, ou até é capaz de ser, sei lá. Como não vale a pena chorar sobre o leite derramado, prefiro fazer o bem (que também me faz sentir bem), deixando o link para os sortudos que se queiram inscrever (pagando e tornando-se membros, claro) e tenham disponibilidade nesse dia:


Book Club with George Saunders | The Guardian Members

Lugares do coração

Tenho saudades de ir a todo o lado: a Espanha, que visitava com frequência antes disto tudo, ao Norte, onde tenho família e amigos, aos museus, aos espectáculos e, claro, às sessões lindas das Quintas de Leitura, no Teatro do Campo Alegre, no Porto. A última do ano de 2020 realiza-se hoje mesmo, com muitas das melhores vozes que ali dizem poesia (além dos queridíssimos Pedro Lamares e Filipa Leal): Susana Menezes, Teresa Coutinho, António Capelo, Paulo Campos dos Reis e a participação especial de Miguel Pereira Leite. Muito apropriadamente, a sessão chama-se «Juntos Inventaremos a Rosa-dos-Ventos», um verso roubado a Fernando Alves dos Santos, e abre com a intervenção de Afonso Cruz, que vai contar histórias de poemas com a cumplicidade de Ana Celeste Ferreira (voz) e Ricardo Caló (piano). Mas haverá, além da poesia, músicas de Luca Argel e, para fechar a sessão, um show de Tó Trips. Joana Rêgo vai dar imagem a esta quinta tão especial. Quem me dera lá estar, mesmo de máscara.

É desta!

Não sei se já sabiam, se até já participaram nele, mas o SAPO 24 tem um clube de leitura mensal em que toda a gente se pode inscrever. O seu nome é É Desta Que Leio Isto e, habitualmente, dedica-se a um livro específico (o «isto» da frase) e tem por convidado um autor,  editor ou alguém que tenha que ver, de certa forma, com o tema do livro em apreço. Eu já tinha sido convidada uma vez para a sessão dedicada a Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral, na qualidade de editora, mas infelizmente já tinha um compromisso nesse dia e não pude ouvir a conversa; e agora fui convidada para, no dia 21 às 21h30, numa versão do clube um pouco diferente e a pensar nos presentes de Natal, aconselhar uma meia dúzia de livros e falar um pouco de cada um deles os os participantes. A escolha vai ser variada, porque tenho de pensar que, do outro lado do ecrã, estão pessoas muito diferentes e nem todas com o mesmo gosto ou nível de leitura, mas garanto que vou dar boas sugestões a quem quiser oferecer livros neste Natal. Para a inscrição, basta preencher o formulário no link abaixo. Vamos lá ver se é desta!


https://forms.gle/ifrYZRfwrgpkaUidA


 

Amar perdidamente

Quando acabo um livro, demoro a escolher o seguinte entre tantas e tantas hipóteses e, pelo caminho, acabo por ler coisas pequenas que matam (fazem viver) uma ou duas noites de indecisão. Foi esse o caso com esta pérola de que hoje vos falo: Uma Paixão Simples, da escritora francesa Annie Ernaux. Quem já se apaixonou a sério alguma vez, entenderá este livro até ao osso, quando a pessoa que amamos ocupa realmente tudo dentro de nós e passa a comandar o nosso tempo, os nossos pensamentos, as nossas acções, neutralizando tudo o resto. Este é um livro brutalmente sincero sobre uma relação amorosa (presumo que autobiográfico) de uma mulher divorciada com um homem mais jovem, estrangeiro, belo, casado, a morar temporariamente em França. E sobre o que essa relação consome quando se concretiza, mas sobretudo enquanto não se concretiza, quando o homem não aparece, não telefona, não nada. Uma maravilha também por ser um livro sobre a paixão e sobre o contar da paixão, que são coisas muito diferentes e que surpreendem a própria narradora na leitura do que ela própria escreveu. Muito bom mesmo, não percam por nada deste mundo. Se houver alguém que não se reveja nele, é porque nunca amou perdidamente.

Preços festivos

A Fundação Calouste Gulbenkian tem servido de exemplo em muitas áreas, desde a arquitectura paisagista, por causa dos seus belos jardins desenhados por Ribeiro Telles,até à ciência, por causa do Instituto Gulbenkian de Ciência, passando pela sua biblioteca magnífica, pelo Museu, pelo apoio à artes ou mesmo pelos seus concertos e a sua orquestra. Mas raramente se fala na Gulbenkian editora de livros, e não só a Fundação tem sido extremamente importante para a publicação de obras relacionadas com temas altamente específicos que de outro modo não veriam a luz (reactores nucleares, por exemplo) como tem dado à estampa obras fundamentais que as editoras dificilmente poderiam pagar pelos custos associados ou a quantidade incrível de colaboradores. É por exemplo o caso da Gramática do Português, organizada por Eduardo Buzaglo Paiva Raposo, Maria Fernanda Bacelar do Nascimento, Maria Antónia Coelho da Mota, Luísa Seguro e Amália Mendes, cujo terceiro volume foi lançado recentemente e está em promoção, como, aliás, muitos outros livros, com descontos de Natal de 40%. Visite, pois, a loja da Gulbenkian em tempo natalício e encontrará presentes fantásticos para os que amam os livros. (Juro que não me pagaram para fazer publicidade.)

Contos

Houve, em toda a história da literatura universal, grandes contistas, alguns dos quais também escreveram romances, mas foi em todo o caso no conto que se afirmaram. Basta pensar em Cortázar, Raymond Carver ou Borges para encontrarmos a excelência neste género literário, mas também vos podia falar de Katherine Mansefield, Alice Munro, Gogol, Hemingway, James Joyce, Juan Rulfo, Tchekov, D. H. Lawrence ou a grande Flannery O'Connor. Muitos escritores de ficção começam pelo conto, e acredito que, entre os Extraordinários, haja muitos que têm contos escritos. Ora, até final deste mês ainda podem submetê-los ao Prémio Luís Vilaça, para serem integrados numa antologia que irá ser publicada em 2021. Se querem saber quem foi o patrono do prémio e mandar um original, o link aqui fica:


https://drive.google.com/file/d/1mZF6p4aKJ_YPujEV51VpNNnOVQDJ0kNF/view?fbclid=IwAR2-9G7cY-Kcgnv_FPj9qPsCDyCc3D7bK8raOCnWfoJZu_9xpA95W8vfevo


 


 

Ferrante e as mulheres

Elena Ferrante, escondida atrás do mistério da sua identidade, teve um estrondoso sucesso com a tetralogia A Amiga Genial (li os três primeiros e depois apeteceu-me «mudar de ares», não tendo regressado à obra nem sabido o que aconteceu às protagonistas no final da vida, mas um dia terei oportunidade). Depois, um jornalista italiano revelou a sua identidade e muita gente pensou que tudo se desmonoraria; mas, afinal, parece que isso não afectou o interesse dos leitores pelos seus livros que estão, regra geral, entre os mais vendidos em toda a Europa. Ferrante foi, aliás, convidada para escrever uma crónica no fantástico The Guardian, jornal que também lhe pede de vez em quando que se pronuncie sobre assuntos específicos. E há pouco tempo, estando as mulheres na ordem do dia, foi-lhe solicitada a sua lista de livros preferidos de mulheres. Entre eles, encontram-se escolhas inescapáveis ou de certa forma esperadas, como O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion, ou Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, mas também A Pianista, da nobelizada austríaca Jelinek, ou o livro de Clarice Lispector A Paixão segundo GH. Mas vale a pena espreitar e prestar atenção a esta selecção. Deixo-a convosco no link abaixo.


Elena Ferrante names her 40 favourite books by female authors | Books | The Guardian


 

Ofereça livros e afins

Enquanto a APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) faz uma publicidade na rádio e na televisão apelando à compra de livros para ajudar um sector que foi profundamente abalado com a pandemia (e que já tinha sido abalado antes duas vezes, pela crise económica do princípio da década e pela concorrência das séries de ficção da Netflix e da HBO), algumas editoras encontram maneiras de fazer chegar os livros aos leitores de forma rápida. Além da Penguin-Random House, que fez um acordo com a Glovo (sim, a mesma empresa que distribui comida de restaurantes vários), a LeYa criou o serviço LeYa Express que, com portes gratuitos, entrega livros em Lisboa e na linha de Cascais em menos de duas horas. O serviço, pensado para ser alargado a outras cidades em 2021, tem uma paticularidade bem interessante: é que os livros não têm de ser da LeYa, podem ser de qualquer editora! Mas, se quer saber mais, aqui tem o link. E, por favor, se já recebeu o ordenado e planeia ir às compras, ofereça livros como presente de Natal. Nós precisamos.


Leyaonline - LEYA EXPRESS


Se tem receio de dar livros a quem gosta muito de ler por causa dos repetidos, pode também oferecer um curso relacionado com livros, pois há cada vez mais oficinas e clubes de leitura, muitos dos quais orientados por escritores. A ECON e a BookOffice, por exemplo, têm vários à disposição, basta consultar os respectivos sites. Passe a publicidade, aí vai o link do que vou dar em Janeiro de 2021 para qum queira correr o risco:


https://euaprendoemcasa.pt/workshop-por-maria-do-rosario-pedreira-livros-e-livros-escrever-editar-e-publicar-ficcao/

Um humor insubstituível

Agora, que já consigo falar dele sem me virem as lágrimas aos olhos (custou a sua morte), queria dizer que não conheci mais nenhum intelectual do seu gabarito em Portugal com tanta graça e tão pouca vaidade. Sim, refiro-me ao enorme Eduardo Lourenço, uma pessoa que não tinha peneiras nenhumas e estava cheio de razões para as ter. Era mesmo muito engraçado. Um dia, nas Correntes d'Escritas, eu estava sentada num pequeno sofá junto à recepção do hotel a ler o Diário de Notícias; o DN, nessa altura, tinha um caderno central de publicidade a cores, pejadinho de anúncios eróticos a massagens e saunas, com rabos e maminhas a transbordarem de lingerie de renda, e eu tinha pousado essas páginas centrais ao meu lado enquanto lia o resto. Pois bem: o professor agarrou no caderno, sentou-se ao meu lado e só depois olhou para o que tinha na mão. Abriu-o, folheou e depois olhou para mim a sorrir e disse: «Aqui está o maior bordel portátil da Europa.» Genial, como sempre. Cheio de um humor que não tem equivalente em mais nenhum dos nossos pensadores ou ensaístas, todos demasiado sérios. Teremos saudades também da sua graça.

Entre Vistas

Há uns anos conheci Paula Perfeito, que me entrevistou para o seu então jovem blogue intitulado Entre | Vistas. Recebi recentemente a notícia de que este blogue fez seis anos em finais de Novembro e quero aqui prestar-lhe uma pequena homenagem. Paula Perfeito assumiu desde o incício o compromisso da qualidade naquilo a que chamou um «exercício de cidadania cultural»; e, além de ter divulgado um sem-número de projectos e livros, fazendo sempre por mostrar aquilo que havia de mais interessante no panorama nacional, entrevistou dezenas de personalidades de várias áreas que deram o seu contributo e serviram de exemplo a muitos leitores. Nos tempos escuros da pandemia, em que tudo se tornou tão mais difícil para todos, foi o Entre | Vistas parceiro de um projecto de escrita colectiva idealizado por Ana Margarida de Carvalho e intitulado Bode Inspiratório, que contou com mais de 40 escritores e  atravessou a fronteira (e o oceano) chegando a ter tradução em inglês. As primeiras notícias sobre o projecto apareceram justamente blogue que referi, que publicou entrevistas de alguns dos participantes. Vamos ver o que nos reserva Paula Perfeito em 2021. Que conte mais meia dúzia, pelo menos, é o que desejamos.

O que ando a ler

Dizem as más-línguas que o Prémio Planeta em Espanha é ganho por um escritor convidado pela própria organização a submeter um livro ao concurso. Não sei se é ou não assim, até porque conheço alguns casos de premiados que não eram nada conhecidos nem especialmente bem-sucedidos antes de terem arrecadado o prémio. Mas seria em todo  caso plausível que, a ser verdade, Javier Cercas tivesse sido convidado para o ganhar em 2019, pois é um autor de gabarito que vende muitíssimos livros em Espanha (e não só) desde o brilhantíssimo Soldados de Salamina. É o seu Prémio Planeta que agora me ocupa as noites de leitura, um romance chamado Terra Alta, coisa, aliás, muito diferente do que até aqui tem feito, pois as suas obras baseiam-se habitualmente em acontecimentos reais e Terra Alta parte de matéria puramente fictícia e até de tipo policial. O início é, de resto, o assassínio extremamente violento de um casal rico, embora, mais importante do que a resolução do crime, pareça a vida do polícia que quer deslindar o caso e que, depois de ter sido um deliquente, se transformou num herói que ainda por cima aprecia a literatura e chamou à filha Cosette por causa de Os Miseráveis. Segundo reza a contracapa, trata-se da «epopeia de um homem em busca do seu lugar no mundo». Veremos se consegue encontrá-lo.

Luto nacional

Também aqui no blogue. Morreu Eduardo Lourenço. E não é preciso dizer mais nada.

O Torto tem direito

Todos se lembram certamente de que, em 2018, o escritor brasileiro Itamar Vieira Junior venceu o Prémio LeYa com o romance Torto Arado, cuja acção decorre numa fazenda na qual os empregados ainda não ultrapassaram a condição de escravos, o que, de resto, parecendo coisa antiga, é uma situação vivida actualmente no interior do Brasil e a que o próprio autor assistiu no âmbito do seu trabalho profissional. Esse livro, que conta a história de duas irmãs (Bibiana e Belonísia) que acabam por ter vidas distintas também por via da aprendizagem e da leitura, foi cá publicado em Fevereiro de 2019 (quando Itamar veio participar nas Correntes d'Escritas) e, no Brasil, pela mão da editora Todavia, em Agosto seguinte. Ora, neste momento estão a sair os prémios literários brasileiros relativos às obras publicadas no ano passado e Torto Arado venceu na quinta-feira o Prémio Jabuti e está na final do Prémio Oceanos, os dois prémios principais do país irmão, o que é absolutamente invulgar se pensarmos que se trata de um romance de estreia (o autor ainda só tinha publicado contos), mas ao mesmo tempo plenamente justificado, dada a maravilha que o livro é. Se vencer também o Oceanos, será uma felicidade muito grande, até porque 3 é o meu número favorito, mas de qualquer modo já estou muitíssimo satisfeita com estas notícias. Parabéns, Itamar, você merece, e não sou só eu que o digo, você tem muitíssimos fãs aqui em Portugal, além de que os jurados, pessoas qualificadas de vários países de língua portuguesa, escolheram Torto Arado para integrar a lista dos finalistas em ambos os prémios e isso quer dizer alguma coisa. Até dia 18 de Dezembro, ficamos a torcer por você mais uma vez.

Na banheira

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Podemos apaixonar-nos pela literatura infantil já adultos, e há vários livros para crianças que fazem parte da minha lista de livros favoritos. Entre estes, está O Tubarão na Banheira, com texto de David Machado e ilustrações de Paulo Galindro, cuja 13ª edição estou a publicar este mês com a chancela da Caminho. É um livro que recebeu já vários prémios e foi finalista de outros, além de ter sido seleccionado, no ano da sua edição original, para integrar o Plano Nacinal de Leitura, quando ainda eram poucos os livros escolhidos. Não só a história é absolutamente deliciosa (procurar um companheiro para um peixinho de aquário com uma cana de pesca nem sempre dá os resultados pretendidos), como existe uma inteligência muito especial no transformar do livro num caderno de palavras difíceis e na opção de deixar que uma das personagens principais permaneça ao mesmo tempo presente e invisível em todas as páginas. Se tiverem crianças na família, este é (passe a publicidade) um livro a não perder. Mas, se não tiverem, também, até porque uma percentagem dos direitos reverte para a Fundação do Gil.


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O país pequeno

O Manel, como creio que já aqui tenha dito, não anda de avião (fez uma excepção há uns três anos, mas foi uma espécie de milagre que ainda está por explicar); e, por isso, antes desta coisa desagradável do vírus, viajávamos bastante de carro, especialmente para o país vizinho (que agora já conheço quase tão bem como Portugal). No regresso de cada uma dessas viagens peninsulares, no momento em que entrávamos em Portugal, ele dizia sempre que, pronto, chegáramos ao «país pequeno», e a expressão interessa-me porque se aplica na perfeição ao assunto que trago a este post. No New York Times, os colaboradores e críticos residentes coligiram há dias as respectivas listas de livros preferidos de 2020: da poesia às memórias, da não-ficção ao conto. E encabeçaram o artigo com o título «100 Notable Books of 2020». Uma centena de livros dignos de nota? Mesmo a publicar demasiado, como se diz que acontece em Portugal, conseguiríamos destacar 100 livros mesmo especiais? Hum... não me parece. País pequeno o nosso... O link para os cem vai aí abaixo. A maioria, palpita-me, nunca cá chegará...


100 Notable Books of 2020 - The New York Times (nytimes.com)

Livros a Oriente

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Ontem começou no Museu do Oriente, em Lisboa, a 13ª Festa do Livro, que vem mesmo a calhar para quem quer comprar livros para oferecer no Natal, uma vez que terão descontos apreciáveis, a partir de 20%. A entrada é livre, e a tónica das obras muito variada, embora se destaquem (e nem poderia ser de outro modo) os livros que versam sobre a presença portuguesa na Ásia, quer de índole ensaística, quer ficcional, bem como álbuns de arte oriental, guias, catálogos e monografias ligadas ao Oriente. Participarão mais de uma dúzia de editoras, algumas das quais de Macau. Neste âmbito, e em parceria com a Oficina do Livro, far-se-á hoje, por volta das 17h30, uma apresentação virtual do romance histórico Taprobana, de Eduardo Pires Coelho, cuja transmissão poderá ser vista no Facebook do Museu do Oriente e da LeYa e que contará com a participação de Artur Santos Silva, personalidade que se debruçará sobre este livro trepidante de que já aqui tive oportunidade de falar. Se estiver livre a essa hora, faça-nos companhia.


 


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Passo a passo

Quando vi o anúncio, salivei... Isto porque sou uma apaixonada pelas questões da língua, mas infelizmente nunca tive tempo suficiente para pôr o resto de lado e voltar à faculdade para cursar Estudos Clássicos. Mas estou sempre a correr para a etimologia das palavras (o Houaiss tem-me ajudado bastante, mas não chega) e até já tenho escrito textos sobre a origem de certos vocábulos aqui no blogue («cabeça», por exemplo). Mas estava a falar-vos de que fiquei com água na boca quando vi que Frederico Lourenço, além de todo o bem que já nos fez com as suas magníficas traduções de Homero ou da Bíblia e a publicação da Nova Gramática de Latim, acaba de nos presentear com  um volume intitulado Latim do Zero, composto por 50 lições que permitirão aos leitores, mesmo os ignaros em latim como eu, poder, no final deste curso, desfrutar da leitura de Vergílio no original. Latim do Zero começou por ser uma página de Internet estreada durante o confinamento e teve tantos seguidores que era forçoso que se transformasse num livro estruturado. Aprender até morrer. Vamos lá ver se é desta. Obrigada, Frederico Lourenço.

Primeira mulher, primeira estrangeira

Logo mais volta a série Herdeiros de Saramago, estreada na semana passada com os episódios sobre Paulo José Miranda e José Luís Peixoto, os primeiros vencedores do prémio literário que leva o nome do nosso único Nobel da Literatura. E hoje os contemplados serão Gonçalo M. Tavares (que venceu com Jerusalém) e Adriana Lisboa, a primeira estrangeira a receber o galardão com o romance Sinfonia em Branco, que publiquei na Temas e Debates pouco depois de o novo século começar. Falo deste livro porque, embora a obra desta autora esteja a ser regularmente publicada pela Quetzal, este romance não está disponível. E é pena, porque fala de um tema extremamente actual, o abuso sexual dentro da família, mas é um livro literário, e não comercial ou oportunista. Até porque Adriana Lisboa é uma escritora muito elegante (e o seu tom é europeu, pouco tem que ver com a maior parte da literatura brasileira contemporânea, mais urbana e directa ao assunto) e delicada (bastará ver a série e perceberão o que quero dizer). Conheçam-na melhor mais logo e conheçam os seus livros, que valem muito a pena.

Peixes grandes e peixes pequenos

Já se sabe que, no mar, os peixes grandes comem os peixes pequenos, mas em terra, e nos negócios, isso é também cada vez mais verdadeiro. Quando saí de uma editora pequena para um grupo grande, fi-lo porque em pouco tempo perdi vários autores que queriam e precisavam de dinheiro, marketing, espaço em livraria e promoção a sério, coisas que as editoras pequenas não podiam dar; e nem sequer me queixei de falta de lealdade porque as pessoas precisam de viver do que fazem e os escritores não são excepção. Admito que foi um choque para várias pessoas, mas era a única forma de poder continuar a publicar novos autores portugueses. Choque foi também para muitos o que se passou recentemente com a publicação em Espanha da obra da Prémio Nobel da Literatura Louise Glück. Lançada pela Pre-Textos, uma fantástica editora de poesia de Valencia, saíram, quase sem apoios, sete dos seus onze livros; ao que se sabe, nada venderam, mas isso nunca fez o editor vacilar na edição. Mas eis que a poetisa ganha o Nobel, e o seu agente literário, um senhor conhecido no meio por «Chacal», em lugar de recompensar a pequena editora que apostou ao longo de catorze anos sem quaquer retorno, agora não lhe renova os contratos e anda a propor a poetisa aos grandes grupos, que evidentemente podem pagar muito mais. Peixes grandes comendo os pequenos...

Ler com história

Os meus primeiros anos de actividade editorial foram passados em Campo de Ourique. A editora onde então aprendi as diversas fases por que passa um livro (revisão, paginação, composição, fotólito, ozalide, impressão...) ficava nesse bairro de Lisboa, perto do Jardim da Parada, praticamente em frente de uma livraria chamada Ler, que pertencia ao pai de um dos sócios da editora. Pela Ler tinham passado no Estado Novo muitos livros proibidos; e não foi uma nem duas vezes que ouvi essas histórias de resistência da boca do proprietário, o senhor Luis Alves, até porque na altura não havia Internet e, quando eu precisava de fazer consultas e não tinha as fontes necessárias, ia incomodar o prestável livreiro, pedindo-lhe que me deixasse ver determinado volume da Luso-Brasileira que se perfilava numa prateleira bem alta. Pois bem: apesar da concorrência das cadeias de livrarias e hipermercados, a Ler tem sabido resistir e manter-se de pé, honrando o seu passado. E há uns dias li que, com toda a justiça, ganhou a designação de "Loja com História", que de facto merece, não exactamente pelos anos que tem, mas pela história da democracia que passou por ali. Parabéns, pois, à Livraria Ler.

Dias que correm

Todos os anos, pelo Natal, ofereço uma agenda de secretária à minha mãe; e, quando uma única vez me esqueci, ele fez-mo notar logo no dia 26. A minha sogra enchia agendas de carteira com o registo de tudo o que fazia e temos uma arca cá em casa cheia delas. Eu própria gosto de agendas em papel, embora, claro, também use a do Outlook para as coisas profissionais; e, entre vários tipos de agendas, prefiro as literárias, pois, ao mesmo tempo que nelas anoto encontros, consultas, lembretes ou afazeres, aproveito para ler poemas ou excertos de textos literários, alguns dos quais conheço e recordo com prazer, outros descubro com deleite ou espanto. Este ano há agendas destas a que vale a pena prestar atenção. A Dom Quixote, por exemplo, publica Saudades, na qual podem ser encontrados excertos de muitos textos de autores de língua portuguesa, dos trovadores aos poetas e romancistas de hoje, sobre um tema tão português. E a Quetzal publica uma outra, Agenda Literária 2021, elaborada pela escritora Helena Vasconcelos, que regista em cada dia episódios relacionados com a gente das letras, como o aniversário de Mary Shelley logo no primeiro dia do ano. Tudo para passar 2021 a ler e a aprender. Belos presentes.

Oficina

Não tenho grande experiência de dar cursos ou workshops, embora já o tenha feito meia dúzia de vezes e (passe a imodéstia) nem me saí mal (pelo menos, foi o que me disseram); mas resolvi aceitar o repto que há tempos me lançaram de orientar uma oficina de quatro horas (em dois dias diferentes, 20 e 27 de Janeiro de 2021) sobre edição de livros, partilhando com os formandos as minhas opiniões sinceras e a minha experiência. No fundo, vou explicar o que devia ter um livro para ser publicado e aquilo que falta a um livro para ser um LIVRO (de ficção, bem entendido). Vou, portanto, falar de talento, linguagem, história, estrutura, verosimilhança, estilo, leituras, gosto, gramática... e muito mais; e também, claro, responder a perguntas dos que estarão do outro lado do ecrã (sim, é tudo virtual em tempos perigosos como estes, o que é talvez menos simpático, mas facilita a participação de qualquer pessoa em qualquer lugar). Por isso, se estão dispostos a aturar-me cara a cara ou querem saber mais do que aqui vos conto e fazer as vossas próprias perguntas, podem consultar as linhas-mestras da oficina e inscrever-se aqui:


https://euaprendoemcasa.pt/workshop-por-maria-do-rosario-pedreira-livros-e-livros-escrever-editar-e-publicar-ficcao/


Um dia destes, partilharei o programa mais detalhado.

Os herdeiros

Hoje é o aniversário de nascimento de José Saramago, o único escritor português que foi Prémio Nobel da Literatura. E não há forma melhor de o celebrar (além de ler os seus romances e diários, bem entendido) do que começar já esta noite a assistir ao programa Herdeiros de Saramago, que vai estrear-se em versão dupla na RTP 1 em horário nobre. Cada episódio se debruça sobre a vida de um dos escritores galardoados com o Prémio Literário José Saramago, desde Paulo José Miranda (o primeiro autor português a ganhá-lo) até Afonso Reis Cabral (o mais recente contemplado e o mais novo). Mas não pensem em nada de óbvio, porque o autor do programa, Carlos Vaz Marques, e a realizadora, Graça Castanheira, fizeram um trabalho profundamente original e inesperado (eu vi quatro programas em ante-estreia, integrados no festival de cinema Indie, em Setembro, e fiquei mesmo fã). A imagem é, por isso, uma parte muito especial destes episódios, e os tópicos desenvolvidos sobre cada um destes escritores de língua portuguesa (também há três brasileiros e um africano, além dos portugueses) não estão necessariamente ligados ao patrono do prémio ou à escrita romanesca, mas a factos da sua vida por vezes aparentemente desligados da actividade que os tornou herdeiros de Saramago. Hoje vamos conhecer melhor Paulo José Miranda e José Luís Peixoto e saber o que andam ou andaram a tramar. Para a semana há mais.

Frestas de luz

Há tempos disse aqui que não via nada de positivo nesta pandemia e no confinamento que gerou, mas fui precipitada, porque houve quem tenha sabido aproveitar a má onda com excelentes resultados. Madalena Alfaia, amiga dos livros (trabalhou muitos anos na editora Tinta-da-China e é tambem tradutora e autora), aproveitou uma aberta, seguindo, como ela própria disse, uma afirmação de Electra: «Chegou a hora em que já não se trata de pensar ou hesitar, mas de agir e olhar em frente.» E criou um projecto de escrita, interpretação e vídeo intitulado Aproveitando Uma Aberta: Quatro Monólogos para Quatro Autores em Quatro Divisões da Casa, que representa quatro versões do «encerramento» a que fomos forçados em Março. O trabalho de escrita dos autores visava actores específicos (Matilde Campilho/Vítor D’Andrade; Valério Romão/Carla Bolito; Madalena Alfaia/David Pereira Bastos; Jacinto Lucas Pires/Rita Durão) e um cenário particular: cozinha, casa de banho, quarto e sala. Com música de Filipe Melo e realização de João Gambino, os vídeos foram gravados no Verão e exibidos no Outono, e os textos publicados no suplemento «Ípsilon» do Público, podendo ser lidos nos links abaixo:


«Having a coke with you», Matilde Campilho


«O casaco de Baudelaire», Valério Romão


«Conversa de cama», Madalena Alfaia


«A atriz na sala de estar», Jacinto Lucas Pires


Os quatro filmes estão disponíveis em https://vimeo.com/user123675051


Parabéns à Madalena Alfaia por esta fresta de luz.

Livros com livros

Pensando num livro que quero muito comprar (O Infinito num Junco, de Irene Vallejo), concluí que a melhor receita para a perfeição é um bom livro com livros lá dentro. (Por acaso, ao escrever isto, lembrei-me da recente publicação d'O Cânone, com organização de Miguel Tamen, António Feijó e João R. Figueiredo, e, pensando na polémica que desencadeou, diria que não deve ser perfeito; mas, quando o ler, o que ainda não fiz, poderei ajuizar.) Em todo o caso, um bom romance em que os livros são como personagens geralmente resulta às mil maravilhas, e li recentemente no The Guardian um artigo que enumera uns quantos, embora nem todos cá traduzidos. A mim ocorrem-me de repente Farenheit 451, de Ray Bradbury, A Sombra do Vento, do recentemente falecido Carlos Ruiz Zafón, O Nome da Rosa, de Umberto Eco, A Noite do Oráculo, de Paul Auster, ou Casa de Papel, de Carlos María Dominguez, mas Italo Calvino e Vila-Matas são exímios em introduzir os livros nas suas obras. E, em língua portuguesa, podemos falar de A História do Cerco de Lisboa, entre outros livros de José Saramago, de Os Naufrágios de Camões, de Mário Cláudio, ou mesmo d'Os Loucos da Rua Mazur, do mais jovem João Pinto Coelho, sobre um livro que está, afinal, por escrever e desencadeia toda uma história incrível. E aos Extraordinários, que lhes ocorre no âmbito das ficções com livros dentro?


 


 


 

Geografia da ausência

Ontem ao fim da tarde (desculpem não ter avisado, mas quase de certeza que a sessão foi gravada) houve um lançamento virtual do mais recente livro de Mia Couto, O Mapeador de Ausências, que pôde ser visto nos murais do Facebook de uma série de bibliotecas, teatros e centros culturais por esse País fora. O autor é o mais conceituado escritor moçambicano contemporâneo, detentor, entre outros, dos prémios Vergílio Ferreira, União Latina de Literaturas Românicas, Eduardo Lourenço e Camões, tendo também sido finalista do Man Booker International e o primeiro autor de língua portuguesa a integrar a final deste importante prémio internacional. O romance fala de um prestigiado intelectual moçambicano branco, professor na Universidade de Maputo, que regressa à terra onde nasceu, na Beira, ao fim de muitos anos de ausência, para ser homenageado nas vésperas do ciclone que assolou aquela região em 2019; e a história oscila entre as suas recordações de infância (quando Moçambique era ainda uma colónia), os episódios que se seguiram à independência (como, por exemplo, o facto de um criado da casa se ter transformado num dirigente da FRELIMO) e uma história de amor na actualidade. São 416 páginas de deleite para os muitos fãs de Mia Couto desfrutarem nestes dias em que têm de ficar em casa. Não há desculpas com a falta de tempo, hã?


 

Quem cala consente

O título deste post é um provérbio português, quanto a mim bastante acertado. O olhar para o lado, fingir que não se vê, passar indiferente no meio do que corre mal, tudo isso são modos de consentimento. Num artigo de uma médica portuguesa que trabalha em Lesbos que li recentemente, tomei conhecimento de que está a agudizar-se a tragédia no  campo de refugiados que ardeu e deixou muita gente a dormir na rua, porque não se faz nada, e o mesmo é dizer que todos estamos a consentir que isso aconteça. Consentimento é também o título de um livro de Vanessa Springora, que saiu recentemente pela Alfaguara. Interessa-me muito lê-lo (ainda não o fiz) porque conheço a história de Gabriel Matzneff, o escritor francês (hoje octogenário) que, ao longo de anos, andou a publicar nas melhores editoras francesas (que não viram nisso nada de estanho) livros em que elogiava o sexo com menores (um deles intitulado até Os Menores de Dezasseis). Vanessa Springora foi uma dessas adolescentes que, com catorze anos, passava as tardes na cama com Matzneff, enquanto os iluminados do Maio de 68 (Sartre e tudo) sabiam mas assobiavam para o lado ou achavam apenas fruto dos tempos modernos e abertos que viviam. Mas, anos depois, a mulher madura resolve olhar para trás e fala da sua experiência de fazer sexo oral em vez de lanchar com as amigas e de quantos consentiram nisso de diversas formas. E não se trata de um livro oportunista como tantos que agora surgem, sobretudo nos EUA (até porque ela própria consentiu na relação com Matzneff, que tinha na altura 50 anos, mais 35 do que ela), mas de um livro sobre o perigo justamente do fechar os olhos, calar... e consentir. A tradução é de Tânia Ganho.

Up to Down?

No século XX, os amigos estrangeiros que viajavam com a TAP Air Portugal eram francamente elogiosos relativamente à companhia de aviação: diziam que se comia melhor do que em qualquer outra companhia aérea, que os produtos servidos eram muito acima da média, que os profissionais (pilotos, hospedeiras, comissários de bordo) eram de grande competência e que a revista Up, com artigos sobre Portugal e a colaboração de escritores e jornalistas, era uma das melhores naquele segmento. Concordo: nas minhas viagens aéreas com a TAP, sobretudo nas mais curtas (pois nas outras aproveito para ler algo mais substancial), li sempre com prazer os textos da Up, dirigida há mais de uma dúzia de anos pela jornalista Paula Ribeiro, e até cheguei a escrever uma pequena crónica sobre as melhores coisas que havia em Portugal, na minha humilde opinião. Li há alguns dias que a pandemia deu também cabo da Up... A revista foi suspensa em Março, naturalmente porque o número de voos não justificava a sua impressão (a publicação chegou a ter mais de um milhão e meio de leitores mensais) e ainda se pensou na sua passagem a digital, mas pelos vistos acabou por ser cancelada, e parece que agora existe um concurso público para a sua substituição. Lamento, porque o que havia era uma boa receita e o que aí vem pode ser um mau cozinhado. E porque era uma revista com qualidade gráfica e bom aspecto que me cheira que vai baixar de nível (Up to Down?) só para custar menos dinheiro. Há uns anos que os meus amigos estrangeiros começaram a ser bastante críticos em relação à TAP (atrasos e cancelamentos de voos, sanduíches de plástico, falta de pessoal ou gente antipática); e agora podem juntar-lhe o desaparecimento da Up. A revista voou.

Estantes

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Se não existissem estantes, não sei o que seria de mim; mas sei que todos nós, que gostamos de livros, louvamos a sua invenção e existência. Há quem as tenha sempre arrumadinhas (por ordem alfabética, por país, por género literário, por ordem cronológica...), e quem (como é o meu caso) nunca consiga tal proeza e esteja sempre a pousar os livros em cima dos que lá estão à espera de um dia em que haja tempo para os entalar no lugar correcto. Agora, que tantas actividades passaram a ser virtuais (mesmo assim, não creio que em Portugal a venda de e-books tenha aumentado significativamente), não consigo imaginar um futuro em que as estantes sejam transformadas em pequenos aparelhos que armazenam livros. Quem não vê as lombadas alinhadas, às cores, com os nomes dos autores e os títulos e os vincos marcados pela leitura, não é um verdadeiro bibliófilo. Mas, não há dúvida, será mais ecológico. Para já, porém, teremos estantes para todos os gostos, como esta, engraçada, que encontrei por aí.


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Os clássicos

Costumo dizer que estou à espera da reforma para poder ler os clássicos que me faltam. Porém, na semana passada li no The Guardian que a pandemia, coisa tão deprimente que não lhe consigo encontrar nada de positivo, tem paradoxalmente contribuído para que os ingleses se estejam a pôr em dia com a leitura dos clássicos. Ao que parece, as vendas de calhamaços como Guerra e Paz, de Tolstoi, Crime e Castigo, de Dostoievsky, ou D. Quixote, de Cervantes, subiram bastante, bem como as de volumes de Obras Completas de autores célebres. Não sei se as pessoas querem de repente valores seguros e têm medo de ficar sem possibilidade de comprar livros; mas é sempre uma boa notícia que os leitores regressem aos clássicos, desde que não seja só para decorar as estantes. Eu por acaso releio um clássico, mas mínimo: trata-se de A Metamorfose, de Franz Kakfa, que vou prefaciar em breve para uma edição dedicada aos estudantes do Secundário. Um clássico cada vez mais actual.

Dobradinha

Não, não estou a falar desse prato muito apreciado a norte e conhecido popularmente por "tripas", embora acredite que até não desgoste dele o escritor a quem dedico o post de hoje, uma vez que sempre gostou da cozinha típica portuguesa. "Dobradinha" é um termo que também tem aplicação futebolística, modalidade igualmente do agrado do escritor em causa. Mas hoje a palavra interessa-me sobretudo para dizer que Francisco José Viegas (sim, é ele) conseguiu a proeza de, com A Luz de Pequim, o seu mais recente romance, ganhar a dobrar: não só foi contemplado com o Prémio Literário Fernando Namora, da Sociedade Estoril Sol, como também com o PEN Narrativa 2020. Agora é que se pode mesmo dizer: é obra! Entrevistado pela Renascença, o autor bi-galardoado agradeceu ao inspector Jaime Ramos (o investigador que é há trinta anos protagonista dos seus livros) e confessou-se acima de tudo um contador de histórias. O júri do Prémio Fernando Namora tinha como finalistas, além do romance vencedor, As Crianças Invisíveis, de Patrícia Reis, Quando Servi Gil Vicente, de João Reis, Filho da Mãe, de Hugo Gonçalves, e A Visão das Plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida. Estes dois últimos eram também finalistas do PEN Narrativa, juntamente com Tríptico da Salvação,de Mário Cláudio (que venceu o Prémio APE-DGLAB), e O Duplo Fulgor do Tempo, de Maria Graciete Besse. Parabéns a Francisco José Viegas (e Jaime Ramos, evidentemente).

Conferências Outono-Inverno

Tudo leva a crer que a situação viral não vai melhorar nos próximos tempos, e é provável ou aconselhável que passemos agora mais tempo em casa. Mas não é preciso arranjar uma depressão por causa disso, até porque vai haver uma série de conferências praticamente à distância de uns cliques. A EC-ON vai fazer uma espécie de balanço literário e poético da segunda década do século XXI através de videoconferências sobre vários assuntos, tais como a língua portuguesa (por Fernando Venâncio), a tradução literária (por João Paulo Cotrim), a literatura de humor (por Ricardo Araújo Pereira), a literatura da lusofonia (por António Cabrita), a crítica literária (José Mário Silva) e muito mais. Estas palestras digitais realizam-se até Janeiro e serão uma espécie de festival literário à distância. Se quer saber mais, consulte o link abaixo. Aproveite para aprender em casa.


http://escritacriativaonline.net/cursos/icone/i17/


 

O que ando a ler

Julgo que foi Pessoa quem disse que um bom livro infantil deveria ser lido com o mesmo prazer por crianças e adultos. Realmente, há livros para crianças que as tratam como pobres tontinhas, e nenhum adulto suportaria lê-los até ao fim. Mas nem todos, graças a Deus. É o caso do livro que ando a ler (sim, era aqui que queria chegar) e, embora não costume dedicar-me à literatura infanto-juvenil, vi que  Mia Couto o elogiava e achei que devia espreitar. Era, ainda por cima, o vencedor do Prémio Branquinho da Fonseca, atribuído anualmente pela Fundação Calouste Gulbenkian e o jornal Expresso a escritores entre os 15 e os 30 anos, que já contemplou autores que hoje estão confirmadíssimos, como Rita Taborda Duarte (também poeta), ou livros que depressa se tornaram conhecidos, como O Caderno Vermelho da Rapariga Karateca, de Ana Ferreira Pessoa. O premiado mais recente, O Gato Que Chorava como Pessoa, do jovem enfermeiro Geremias Mendoso (parece pseudónimo, mas não é), é um livro de contos contados na primeira pessoa, cuja acção decorre em Moçambique, pátria do autor, num estilo ternurento e sensível mas ao mesmo tempo sem paninhos quentes nem moralismo (por vezes até com uns insperados socos no estômago). Ainda só li umas vinte páginas, mas já posso dizer que, mesmo sendo adulta, de certeza que não vou deixar o volume a meio. Publica a Caminho e tem algumas ilustrações de Samuel Djive.

Estrangeira

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Aqui há tempos, julgo que ainda antes do Verão, falei aqui do livro de uma autora italiana intitulado Sempre Estrangeira. É a história absolutamente fascinante de um casal de deficientes auditivos contada pela sua filha que, paradoxalmente (ou não), acabou por se interessar sobretudo pelas línguas e ser tradutora (e é também a história da própria narradora, sempre a fugir de um lado para o outro tal como na infância, do pai para a mãe e vice versa). Claudia Durastanti, a autora premiada do citado livro, estará em Portugal a convite do Instituto Italiano e das Publicações Dom Quixote para uma sessão com numerus clausus (por isso é bom reservar lugar) na próxima terça-feira, dia 3 de Novembro, às 19h00. Vai conversar com ela o tradutor de Sempre Estrangeira, Vasco Gato, ele próprio escritor e tradutor (inescapáveis as suas traduções de poesia coligidas em livro). Vamos ouvi-la? O convite aqui fica.


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A nossa Terra

Na primeira editora em que trabalhei, foram publicados muitos dos fantásticos livros de David Attenborough, e até conheci pessoalmente o seu editor na HarperCollins, um tipo magro e seco que vivia numa das Ilhas do Canal (Jersey ou Guernesey, já não me recordo) mas se reuniu comigo na sede da editora em Londres, aonde ia uma vez por semana. A Vida na Terra, O Primeiro Éden, A Vida Privada das Plantas, Os Desafios da Vida, O Planeta Vivo, são tudo belíssimos livros de Attenborough, geralmente publicados ao mesmo tempo que se transmitiam as suas séries televisivas homónimas (todas maravilhosas). Um dia destes, na Netflix, vi o fantástico documentário Uma Vida no Nosso Planeta, que é o testemunho deste cientista de 93 anos, que trabalhou sempre no terreno, para as gerações mais novas: um apelo urgente à reposição da biodiversidade perdida num momento em que os animais selvagens estão a ser gravemente substituídos em todo o mundo pelos animais domésticos e as savanas e prados por pastos e terrenos agrícolas (além dos problemas da seca e do aumento da temperatura que também terão de ser resolvidos, e podem sê-lo se o homem agir já). E eu apelo a que vejam esta peça notável e aprendam com ela. Também há o livro, claro, para quem não tenha a Netflix, mas as imagens dos animais em movimento são obviamente insubstituíveis, além de que a voz deste mestre que pensa no futuro da humanidade é indispensável para nos cativar. A natureza, como verão, arranja sempre maneira de se renovar. O homem é que não.

O guerreiro sincero

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Tiago Salazar, jornalista hoje arredado dos jornais, tem-se dedicado especialmente à literatura de viagens (foi também autor de um programa de TV nesta área) e aos livros de crónicas, mas já escreveu um romance sobre os Rotschild do Oriente (A Escada de Istambul) e acaba de reincidir na ficção com um pequeno volume maravilhoso do género histórico. Chama-se O Magriço e conta a história de D. Álvaro Gonçalves Coutinho, celebrizado numa passagem d’Os Lusíadas como um dos Doze de Inglaterra, cavaleiros portugueses que, no reinado de D. João I, participaram num combate que visava lavar a honra de doze damas e do qual saíram vencedores.Tratando-se de um cavaleiro de linhagem na Corte do Mestre de Avis, o Magriço não aceitou, porém, que o seu monarca lhe negasse casamento com a mulher que amava e partiu para a Borgonha, onde lutou por mais de uma década entre os pares de João Sem Medo, que o considerou um dos mais destemidos guerreiros que alguma vez o serviram. Tiago Salazar instala-se de armas e bagagens na Idade Média e, vestindo a pele desta personagem controversa, dá-nos um testemunho das suas andanças e tribulações num relato em forma de autobiografia romanceada, ao jeito dos melhores livros de cavalaria, a que nunca falta uma pitada de colorido e humor.


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O álcool e os escritores

Um dia destes, uma amiga francesa mandou-me um vídeo extraordinário: um francês daqueles muito boçais e com nariz vermelho dizia que tinha lido um livro que tratava dos efeitos terríveis do álcool na vida humana e, por isso, deixara de... ler, claro. Ri-me, mas a verdade é que o álcool foi tremendo não só para muitos leitores como para muitíssimos escritores. E  bastaria falar de Poe, Hemingway (Paris É Uma Festa mostra bem como qualquer centavo ganho ia para uma garrafa de vinho ordinário, mesmo quando já havia um bebé em casa), Fitzgerald, Bukowski, Steinbeck, Raymond Carver ou Faulkner (estes são «bêbados» conhecidos de todos, julgo eu), mas lembrei-me desta questão por ter lido recentemente Por cima do Vulcão, de Malcom Lowry (a transcrição da carta de 40 ou 50 páginas que o escritor enviou ao editor que recusou inicialmente a sua obra mais emblemática, Debaixo do Vulcão, e depois acabou por publicá-la), na qual um professor universitário traça, à laia de apresentação, um «retrato-montagem» de Lowry, que é o de um homem que estragou a vida à conta do álcool. Enfim, muitos autores escreveram as suas obras-primas com uma garrafa ao lado e acabaram com o fígado às postas mas muito aplaudidos. Porém, folgo em saber que outros, como Mark Twain, eram abstémios e tiveram o mesmo sucesso.

Os novos feminismos

Uma amiga chegada postou no Facebook a sua gloriosa indignação em relação à estupidez de certas pessoas, acrescentando que seria bom «eliminá-las» das nossas vidas. A sua irritação tinha, claro, razão de ser e prendia-se com um artigo publicado na revista The Economist sobre um livro que defende que as mulheres devem «eliminar» os homens não só das suas vidas, mas das suas mentes! Assina o livro Alice Coffin (um apelido bastante gráfico que evoca um caixão onde a senhora quer meter os homens todos do mundo), e o título em inglês é Lesbian Genius. Nele, a autora diz que já não vê filmes nem lê livros de homens e também não ouve música de homens – e está no seu direito, claro, mas apelar a que todas as mulheres façam o mesmo é paradoxalmente pô-las ainda mais ignorantes do que alguns homens querem que elas sejam… O/a articulista (nunca sabemos quem escreve o artigo nesta revista) antevê um mundo sem Voltaire, Mozart ou Truffaut e não gosta… (nem eu, e sou mulher). Alice Coffin foi despedida da Universidade Católica, onde ensinava, por ter comportamentos totalitários e obscurantistas em relação ao sexo oposto (e não sabemos se quem a despediu era homem); mas não é a única a instigar ao ódio aos representantes do sexo masculino. Moi, je deteste les hommes, um pequeno ensaio de uma escritora francesa (esta mais moderada, porque até é casada com um homem, ou seja, não está ainda pronta a «eliminar» os homens da vida e da mente), está também a fazer furor em França e creio que não faltará muito para que apareça por aí uma tradução. (Ainda bem que já cá não estás para assistir a estas coisas, Simone de Beauvoir. Porque eras capaz de te indispor… O teu feminismo não era nada disto.) Adeus, futuro.

Coragem

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Li um destes dias um texto em que uma personagem dizia ao interlocutor que, se fôssemos bem a ver, as coisas em certos aspectos não tinham mudado muito desde o feudalismo: havia uma dúzia de pessoas com mais dinheiro do que quase todas as outras juntas... Claro que é uma comparação exagerada (e já não é a posse de terras que faz a fortuna), mas não deixa de ser verdade que os homens mais ricos do mundo são uma espécie de senhores feudais cujos vassalos são frequentemente escravizados e ganham uma ninharia. Podemos pedir às pessoas que não comprem o que eles produzem? Podemos pedir às pessoas que não lhes dêem mais dinheiro a ganhar e comprem, em vez disso, aos que precisam, aos pequenos? Eu achava que não, mas um livreiro independente de Brooklyn, Nova Iorque, teve a coragem de o fazer. As suas montras são um apelo a que os leitores comprem livros em livrarias independentes e parem de contribuir para o enriquecimento dos que já são ricos. Muito ricos. Mas depois descobri que não é só longe que estas coisas acontecem. Ora vejam estas duas imagens e reflictam.


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A fingir

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Está desde há dias no mercado o novo romance de um escritor que é, para os Extraordinários, muito especial, até porque no passado ofereceu o retrato a alguns dos membros deste «clube». Estou naturalmente a falar de João Pinto Coelho, o autor de Perguntem a Sarah Gross e Os Loucos da Rua Mazur, romances que foram, respectivamente, finalista e vencedor do Prémio LeYa. Desta feita, saímos da Polónia gelada para a muito mais temperada Toscana, onde conheceremos Annina Bemporad, uma judia linda e rebelde que acorda a meio da noite com o ruído de um tiro e descobre que se tornou adulta. Isso obrigá-la-á a trabalhar, tornar-se uma mulher responsável e buscar um futuro digno. Mas, por se recusar a entregar o seu amor ao sobrinho do fascista-mor da cidade – e, ainda por cima, o humilhar em público –, este vai garantir que ela não possa realizar os seus sonhos. A essa impossibilidade somar-se-á a ocupação da Itália pelos alemães, que, claro, perseguem os judeus. Hão-de valer a Annina a sua amiga Alessia, uma lésbica excêntrica, e Peppino, o homem que monta espectáculos com lixo e é amigo dos homens da Resistência. Profundamente imaginativo e rigorosamente documentado, Um Tempo a Fingir é um romance magistral, cujo enredo tem a rara qualidade de ser ao mesmo tempo absolutamente inesperado e completamente verosímil. Mais um grande livro de João Pinto Coelho.


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Já a ladrar

Há cerca de um ano comprei os direitos de um pequeno romance colombiano que achei admirável e muito contra-corrente. Duro, dramático, trágico e profudnamente humano. Chama-se A Cadela e a sua autora, Pilar Quintana, viveu anos na área onde se passa a história, uma zona paupérrima e húmida na costa do Pacífico (e estamos sempre a sentir a chuva no corpo enquanto lemos). O argumento prende-se com uma mulher que não consegue engravidar e, depois de muito sofrimento, resolve substituir o desejado bebé pela última cadelinha de uma ninhada. Não esperem, porém, nada de querido e amoroso a partir daqui, porque nem sempre os cães (ou os filhos) correspondem ao que idealizam as respectivas mães. Soube recentemente que A Cadela está já a ladrar fora de portas. Este livro incrível é finalista de um prémio de peso nos EUA: o National Award, na categoria (introduzida apenas em 2018) de livros traduzidos. E fico aqui em pulgas, a fazer figas e a rezar para que a talentosa Pilar Quintana vença e, claro, possa vir vistar-nos assim que o estupor do vírus permitir.

Poesia roubada

No momento em que leio com deleite um pequeno livro de poesia de um autor cujo romance publiquei (falarei dele num post independente), volto à carga com uma história de roubo (na semana passada falei de uma casa esvaziada onde só ficaram os livros), desta feita de um longo poema. (Roubo-a também eu, como agora se diz, ao mural do meu colega editor Vasco Silva.) Diz a notícia por ele lida que desapareceram de uma casa em Hong Kong várias peças valiosas, entre as quais um longo poema de Mao (sim, pelos vistos o ditador chinês também escrevia poemas), manuscrito pelo próprio num pergaminho e avaliado em 250 milhões de euros. Porém, a pessoa que o surripiou não devia acreditar muito no valor da poesia (ou dsconheceria quem era o autor) porque vendeu o dito poema apenas por 54 euros a um «especiallista» que, achando-o muito grande, o rasgou ao meio na esperança de facturar duas vezes... Não sei quanto ganhou com a ignorância, pois isso já não era dito; mas aquilo a que achei graça foi a frase de um sinólogo inglês, Arthur Waley, segundo o qual «os poemas de Mao não são tão maus como as pinturas de Hitler, mas não são tão bons como as paisagens de Churchill». Tenho de ver se leio este meu confrade.

Aprender

Li uma entrevista muito interessante no The Guardian a Isabella Rossellini sobre as maravilhas do envelhecimento («mais gordos  mas mais livres», diz ela), entre as quais a actriz destaca o tempo (que, quando trabalhava como modelo, não tinha) e o poder aprender e estudar assuntos que lhe interessam, como, por exemplo, tratar de animais (e não são cãezinhos, mas vacas, galinhas, porcos, pois gere uma quinta e põe a mão na massa). Embora se diga que burros velhos não aprendem línguas, eu gosto de contrapor o «aprender até morrer», sendo a aprendizagem das coisas mais compensadoras e lindas que alguma vez experimentei. E aprendi no mural de um amigo facebookiano a história da primeira poetisa afro-americana a publicar um livro nos EUA, que não conhecia: uma escrava senegalesa chamada Phillis Wheatley (Phillis era o nome do barco que a levou à América, Wheatley o do comerciante que a comprou). Phillis começou a escrever poemas aos treze anos naquela língua que não era a sua e, com vinte anos, como achavam que ela era uma impostora, levaram-na perante uma série de magistrados: mas, além de ter ficado provado que os seus poemas não eram plagiados, ela ainda recitou Virgílio, Milton e passagens da Bíblia, impressionando os dezoito homens de toga e cabeleira: era escrava, negra, mulher, mas... poetisa. Ter aprendido a ler salvou-a mais tarde da escravatura.

Um rio de letras

Recebo a notícia de que é já amanhã que, em Almada, se vai realizar um festival dedicado à narração oral, talvez a mais antiga forma de transmissão literária que se conhece. Eu adoro ler alto e penso que todas as crianças deveriam fazê-lo na escola e em casa, pois está provado que tem enormes vantagens para a fidelização à leitura; e gosto também de ouvir ler quando o narrador, dizedor, declamador (seja lá o que for), sabe convencer-nos e atrair-nos. Já ouvi uma actriz ler um conto infantil de David Machado maravilhosamente e escutei até ao fim, na verdade tão interessada como uma criança. Ora, entre as 11h e as 17h de amanhã, é uma boa altura para ouvirmos ler narradores profissionais e convidados neste Rio de Contos, que vai já na sua quarta edição: Ana Figueiras, Cláudia Pulquério, Paula Salema e Telma Marreiros, bem como Ana Sofia Paiva, Luís Carmelo, Paula Carballeda, Patrícia do Carmo, Ricardo Ávila, Thomas Bakk e Válter Peres. A narração será também traduzida para língua gestual portuguesa. Para quem não possa estar no Fórum Municipal Romeu Correia, em Almada, e queira assistir de longe pelo computador, então vai ser preciso fazer a inscrição aqui:


biblactividades@cma.m-almada.pt


 


 


 

Livros roubados

Uma vez ouvi contar a história de umas pessoas que, quando voltaram de férias, tinham a casa vazia. Uma camioneta de mudanças aparecera para empacotar o apartamento e, como era Agosto e estava toda a gente de férias, ninguém desconfiou de que não fossem profissionais (eram profissionais, mas do roubo). Curiosamente, deixaram apenas uma coisa: os livros… É triste, mas é cada vez mais verdade que as pessoas não estão interessadas em ler. E, porém, Amosse Mucavele, que foi curador da Feira do Livro de Maputo durante vários anos, contou no Facebook uma deliciosa história: trouxe de um alfarrabista uma série de livros emprestados e, de repente, descobriu que, entre eles, estavam livros que pertenciam a um seu amigo, tinham lá o nome dele e tudo, embora nunca o tivesse ouvido dizer que fora vítima de roubo ou que os emprestara a um… ladrão, mas também não o achava capaz de os ter vendido. Agora o dilema é se os devolve… e a quem. Depois disto, tornou-se mais atento e já encontrou muita coisa nos alfarrabistas que é, de facto, oriundo de bibliotecas de amigos e conhecidos. Nunca compra esses livros, por precaução… Mas, se foram roubados ou vendidos por algum amigo a quem foram emprestados, isso quer dizer que ainda há países onde os livros são, pelo menos, cobiçados por várias pessoas.

Namorado

Sim, sei que o título deste post empurra para assuntos do coração, mas não é nada disso. Falo, para que saibam, do poeta Joaquim Namorado porque acabo de ver que a sua obra poética reunida num volume intitulado Sob Uma Bandeira vai ser apresentada no próximo dia 17, no Museu do Neo-Realismo, pela não de Fernando Pinto do Amaral e com a presença de António Redol, filho do escritor Alves Redol. Joaquim Namorado dirigiu a revista Vértice em Coimbra, para onde o Manel escrevia quando ali estudava na Faculdade de Direito; quando, porém, decidiu vir para Lisboa acabar o curso, foi comunicar a sua mudança para a capital a Joaquim Namorado, querendo saber se continuava a colaborar com a revista e explicando-lhe que, enfim, era em Lisboa que viviam os escritores e que estava desejoso de os conhecer. Foi então que o matemático e poeta estalinista lhe deu uma forte cachaçada e o preveniu: «Os escritores são para ler, e não para se conhecer!» Quanta razão, mestre. Há mesmo alguns que nem deviam pôr os narizes fora das suas casas.

Fora de tempo

Nestes dias que correm, sinto-me cada vez mais ultrapassada e fora de cenário, em vésperas de arrumar as botas e, como Herculano, retirar-me para um ermo qualquer. Enquanto há cada vez menos gente a ler, as discussões nas redes sociais tornam-se de uma esterilidade confrangedora – e ainda por cima carregadas de ódio – quando os problemas realmente graves continuam todos por resolver (além da fome, da precariedade e do desemprego, por exemplo, os refugiados do campo de Moria que Portugal disse que receberia continuam lá, e a dormir no chão). Enfim, sinto que tudo está a ser dominado de forma completamente cretina pelo politicamente correcto; e, se é óbvio que as situações de injustiça e desigualdade devem ser combatidas, chegou-se agora a excessos difíceis de aceitar. Recebi esta semana, de uma agente literária, a proposta de um livro que está ainda a ser escrito, mas pelo qual uma editora de nomeada nos Estados Unidos já avançou uma enorme quantidade de dólares. A agente está super-entusiasmada com a originalidade e diz-se convencida de que vai ser um êxito em todo o mundo. Fiquei curiosa o bastante para passar à sinopse, mas fui ficando de cara à banda à medida que a lia. O tema? Pois bem, mais ou menos isto: a tinta branca é racista. Pintar as nossas casas de branco não é inocente nem está isolado da supremacia branca. (Não sei como os arquitectos vão lidar com isto, mas estão tramados.) Para dizer a verdade, ainda pensei que fosse um livro humorístico, mas, lendo o texto até ao fim, percebi que não é uma piada, que pretende mesmo ser sério. Devo ser então eu que estou já fora de tempo e de jogo e acho isto estúpido e perigoso, porque alimenta conflitos onde não os havia (e já chegam os reais, ou não?). E, como adoro luz e tenho, por acaso, a minha casa toda pintadinha de branco, o melhor é preparar-me para ser considerada uma racista insuportável. Não tarda muito ainda vão desaconselhar o leite, diz uma colega minha. Adeus, futuro.

Fome e fartura

Costuma dizer-se que não há fome que não dê em fartura... e é o caso. Depois de meses de publicação de livros que não puderam ser lançados ao vivo por razões óbvias (e antes que a situação piore e nos voltem a confinar), as editoras Abysmo e Nova Mymosa fizeram, na segunda-feira dia 5, dia de comemorar a República, no espaço lisboeta do Espelho d'Água, uma maratona de doze lançamentos conjuntos, com apresentações e leituras ao longo de quatro horas e transmissão online para quem, apesar de tudo, continua com medo de sair. Os livros são pequenos, evidentemente, alguns de pouco mais de vinte páginas, e alternam entre poesia e prosa. Entre eles, contam-se os de autores como Márcia Balsas, Mónica Camacho, Andreia Azevedo Moreira, Pedro Loureiro, Isabel Olivença, Luís Carmelo, José Mário Silva, João Paulo Cotrim, Vasco Gato e Paulo José Miranda, este último o primeiríssimo vencedor do Prémio Literário José Saramago com a novela Natureza Morta. Muito que ler!


 

O Diabo regressa

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No final do ano passado, quando o escritor cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, ex-ministro da Cultura do seu país, esteve em Portugal para lançar o seu mais recente romance O Diabo Foi Meu Padeiro, sobre o campo de concentração do Tarrafal e as suas vítimas ao longo do tempo, infelizmente não teve agenda para fazer uma apresentação no Museu do Aljube Resistência e Liberdade, em Lisboa, como tínhamos planeado e fazia, aliás, todo o sentido, dado o tema. Porém, como o autor é também músico e tinha concertos agendados em Portugal esta semana, lá conseguimos um buraquinho para organizar esta tarde a sessão, na forma de uma conversa, seguida de um momento musical. Estão todos convidados, claro. (Mas para verem em streaming, porque com a pandemia os lugares já foram todos preenchidos.)


 


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Gramática

Quem gosta da língua portuguesa, raramente resiste a comprar tudo o que tem que ver com ela. E foi, aliás, por isso que corri pelo meu exemplar de Pontuação em Português: Guia Prático para Escrever Melhor, de Marco Neves, professor universitário e grande divulgador, com várias obras publicadas e um blogue muito curioso e pedagógico chamado Certas Palavras. Não que eu não saiba pontuar (alguma coisa aprendi nestes trinta anos de leituras e edição); mas este instrumento simples e claro ajuda a explicar a potenciais autores aquilo que estão a fazer mal em termos de pontuação, embora fique com pena de que o autor não tenha guardado umas páginas para explicar como se usa a pontuação dentro e fora de aspas, pois esta é talvez a coisa em que os  autores, mesmo experimentados, mais dificuldades têm. Ainda assim, o guia é muito útil para quem tem dúvidas se deve ou não pôr vírgula em determinado lugar da frase, bem como uma boa lição para as raparigas que enchem os seus textos de reticências e pontos de exclamação desnecessariamente. E, ainda por cima, é baratíssimo!

Os novos autores

Há mais de vinte anos que me preocupo em encontrar novos escritores de qualidade na massa tremenda de originais que vem parar-me às mãos. Mas em todas as áreas deve ter havido nestes mesmos vinte anos quem o mesmo fizesse (escarafunchar); e agora há um livro intitulado Lugar dos Novos que fala disso mesmo, dos novos autores (alguns já nem são assim tão novos), apoiado pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) e publicado pela Guerra e Paz. Da música à escrita, da televisão ao teatro e ao cinema, os autores falam dos seus percursos artísticos e pessoais em entrevistas dadas à jornalista Ana Aranha para a rubrica «Lugar dos Novos», que é transmitida no programa televisivo Autores. «Lê-lo é saber o que pensam os mais novos membros da comunidade autoral portuguesa», diz o comunicado da SPA; e, entre eles, estão as escritoras de livros infanto-juvenis Maria Inês Almeida e Isabel Zambujal, o músico e cantor João Pedro Portugal ou o pianista Ruben Alves, só para dar alguns exemplos. Segundo a SPA, o livro é também «um retrato humano, ágil e diversificado desta realidade, que nos dá uma garantia importante para o futuro: a de que de irão nascer muitas outras obras nas próximas décadas». Oxalá!

Atrevimento

Houve quem achasse um autêntico atrevimento um escritor negro resolver escrever nos anos 1950 uma história escaldante sobre a relação entre dois homens brancos homossexuais. Houve até quem achasse que o livro não seria publicado nos Estados Unidos, terra natal do autor. Mas O Quarto de Giovanni quebrou fronteiras e barreiras e espantou meio mundo, confirmando James Baldwin, auto-exilado em Paris, como um dos mais arrojados escritores norte-americanos de sempre. Este é um livro sobre a descoberta da homossexualidade de um jovem norte-americano em viagem pela Europa quando se separa por uns dias da namorada e conhece Giovanni, o imigrante italiano que é barman num clube nocturno, e se apaixona por ele, embora sinta sempre que a relação é a prazo, uma vez que tem na mira casar-se em breve e o pai não vai continuar a mandar-lhe dinheiro dos Estados Unidos enquanto não regressar para lhe apresentar a noiva. As descrições deste idílio/inferno no quarto de Giovanni (quarto sujo, desarrumado, pobre) são extremamente avançadas para a época em que o livro foi escrito e sentimos a todo o momento que este triângulo amoroso está sempre à beira do rasgão, mesmo não conseguindo antever qual será o final. A tradução é do escritor Valério Romão. Sobre James Baldwin, não convém perder também o documentário I’m not your negro, absolutamente brilhante, e Se Esta Rua Falasse, sobre o qual já aqui escrevi.

Pobres autores

Estou cada vez mais convencida de que o consumidor final é a única coisa em que hoje se pensa quando se produz um artigo; e, se até há alguns anos a cultura era excepção, pois tudo mudou. Muita gente já não sabe quem escreveu o livro que anda a ler, o que é verdadeiramente triste (embora fosse pior se o livro não chegasse a ser lido), e os autores (seja em que área for) estão relegados claramente para segundo plano. Num anúncio de página inteira do Público do dia 29 de Setembro último, publicitava-se um filme em DVD que vai ser vendido com o jornal a partir do próximo dia 9. Encabeçava a página a frase melosa «A mais bela história de amor...» (com reticências e tudo); e, sobre a fotografia de duas lindíssimas jovens de olhos fechados no momento pré-beijo ardente (as actrizes, bem entendido: uma loura, a outra morena), um texto em duas colunas resumia o enredo desta «história de amor avassaladora» (o adjectivo é sempre o mesmo) e, ao lado, elencava os prémios que o filme ganhou ou para os quais foi nomeado (e são uns quantos). Na base da página, o título Retrato da Rapariga em Chamas, a data a que o DVD estará à venda e o preço (9,99 € com o jornal). Mas... De quem é o filme, alguém me diz? Não. Numa foto minúscula da capa do DVD a um cantinho, o realizador não é sequer legível. Se os autores, que são os responsáveis pela criação artística, já não têm uma linha para eles num anúncio de pagina inteira... Adeus, futuro

O que ando a ler

Muito contra o que é costume, porque não é das áreas que eu mais explore (mesmo que devesse), ando a ler um romance gráfico. Dá-se o caso de este me ter sido aconselhado por um autor que o aplaudiu sem reservas, de eu ter lido uma excelente crítica sobre ele num jornal e de, por acaso, até conhecer ao de leve o autor do argumento, Filipe Melo, embora de outras andanças (a música, já que ele é um fantástico músico, pianista e director musical do último projecto de um amigo, António Zambujo). Chama-se esta obra maravilhosa Balada para Sophie, conta com o artista Juan Cavia na parte do desenho (uma boa escolha porque também ele é extremamente dotado) e narra a história de uma estagiária do Le Monde que vai entrevistar um velho músico retirado que trocou uma carreira na música erudita pelo sucesso fácil da canção popular. A conversa entre ex-vedeta e «jornalista», que abarcará toda a vida do artista desde a infância à velhice, tem o seu ponto alto no período da Segunda Guerra Mundial e da Paris ocupada e brinda-nos no final com uma composição musical de Filipe Melo que é justamente a balada que dá nome ao título. É tudo imperdível. Publica a Tinta-da-China.

Um novo prémio

Calculo que muitos dos que frequentam as Horas Extraordinárias escrevam ficção e tenham livros na gaveta à espera de uma oportunidade. Ora, apareceu agora um novo prémio literário que pode ser uma saída para quem não arranjou ainda editor ou se esqueceu de um velho manuscrito no fundo do armário mas pode aproveitar agora para o rever. Trata-se de um galardão da iniciativa da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), criado para homenagear uma escritora que foi, de resto, um dos seus membros: Maria Velho da Costa. Recentemente falecida, a romancista que arrecadou o Prémio Camões em 2002, autora de livros notáveis como Missa in Albis, Casas Pardas ou o mais recente Myra, é então a «madrinha» deste novo prémio para primeiros romances inéditos (obras de estreia assinadas com pseudónimo), cujo prazo de entrega termina a 31 de Outubro próximo. O valor é de 2500 euros e o regulamento pode ser consultado na página da SPA. Atreva-se.

Afinadíssimo

Fico muito triste se se me apaga da lembrança um livro que li, sobretudo quando, mesmo esquecendo em traços largos o enredo, recordo muito bem o quanto gostei dele. Isso aconteceu-me recentemente com Concerto Barroco, do cubano Alejo Carpentier, que decidi reler em férias para poder descobrir porque tanto o amara da primeira vez. E é realmente um pequenino livro-maravilha, um concerto literário fascinante. Fala do encontro em Veneza, durante a época do Carnaval, de um comerciante de prata mexicano que viaja na companhia do seu escravo, rapaz extremamente vivaço e talentoso, com Haendel, Scarlati e o frade ruivo que dá pelo nome de Vivaldi. Pelo meio, ao lado dessas quatro figuras, ouviremos a pequena orquestra de órfãs que foram deixadas na roda do convento em que os outros se resguardam da confusão e depois assistiremos ao pequeno-almoço que as freiras preparam no cemitério de San Michele (onde está sepultado Stravinsky que, apesar de ser um músico do século XX e portanto não contemporâneo dos seus confrades, arranca deles comentários bem divertidos avant la lettre). Barroca e irresistível, esta novela belíssima pode fazer companhia a Os Passos Perdidos, outra maravilha de Carpentier.

Segredos revelados

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Escabeche, pataniscas, caldeirada, tripas, caldo verde ou peixinhos da horta. Bolo-rei, arroz-doce ou rabanadas… Enfim, se é português, todos estes pratos lhe dizem certamente alguma coisa (ou muito!) e estão entre o que de mais tradicional se pode encontrar na cozinha do nosso país. Mas faz ideia de quando nasceram e em que livros ou manuscritos apareceram pela primeira vez? Guida Cândido, especialista em História da Alimentação e autora premiada de duas obras que tive o prazer de publicar (Cinco Séculos à Mesa e Comer como Uma Rainha), vem revelar-nos agora segredos muito bem guardados. Sabia, por exemplo, que já se servia Marmelada no início do século XVI e que o cozinheiro de D. José e D. Maria I já fazia Pão-de-Ló? Pois bem, A Vida Secreta da Cozinha Portuguesa não só lhe dará a conhecer as origens da nossa cozinha tradicional como também lhe proporcionará todas as receitas inaugurais de 50 pratos típicos portugueses, todos de comer e chorar por mais. Boa leitura e bons cozinhados!


 


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Adeus, futuro

Falei aqui há uma semana, pouco mais ou menos, da multiplicação de pontos de vista que passam pela cabeça do Senhor Palomar no livro de Calvino. Mas há pontos de vista inenarráveis que eu não sei como passam pela cabeça seja de quem for... É precisa mesmo uma grande ignorância para dizer que a culpa do Holocausto é dos judeus. Como?! Mas será que quem diz isto pensa que Hitler fez a guerra para lhes palmar o dinheiro e os bens ou que eles pecaram e portanto merecem? Pasmem, mas num lugar onde, por acaso, vivem imensos judeus (os Estados Unidos da América), muitos dos quais oriundos de famílias que saíram da Europa nos anos 1940, fugindo da barbárie e do extermínio, quase dois terços dos jovens adultos desconhecem a existência do Holocausto e, entre os adultos de 18 a 39 anos, há 23% que pensam que o Holocausto é um mito e que tudo o que o cinema e a literatura retratam desse período na Europa é manifestamente excessivo e próximo da lenda. Isto já para não falar das alminhas que culpam os judeus pelo Holocausto, que são, calculem, 11% dos interrogados. Enfim, a culpa é sempre da educação, claro, e a América, a olhar para o seu umbigo, está a esquecer cada vez mais depressa donde vieram a maior parte das famílias que hoje são americanas. Agora, que já não tenho a minha crónica, volto a dizer, chocada: Adeus, futuro.

Farmácia literária

Já aqui disse que muitos dos escritores portugueses estreados neste milénio são oriundos de áreas de conhecimento ditas científicas: engenheiros, físicos, arquitectos, médicos... o que não é, aliás, de estranhar, pois entre os estudantes de Letras estão provavelmente muitos que não entraram nos cursos que desejavam por falta de nota (é que para ir para Letras não são precisas, sabe-se lá porquê, médias altas). Mas as ciências sempre receberam bem as letras, e agora é o Museu da Farmácia que o vem provar com uma mão cheia de actividades: não só um clube de leitura (Rodrigo Guedes de Carvalho vai estar à conversa com os seus membros na noite de dia 29 sobre o seu mais recente romance, Margarida Espantada), como tem sessões de poesia (a próxima, com colaboração dos poetas Inês Fonseca Santos e António Carlos Cortez, é mais logo, às 19h00) e depoimentos de escritores sobre a criação e a leitura em tempos de pandemia. E há mais, claro, todos os meses, incluindo uma programação especial para crianças muito atraente. Vamos à farmácia tomar a cura para os nossos males? Vamos!

Microcosmos

Lembro-me de este romance ser um dos preferidos de um autor que publiquei há vinte anos, António Manuel Venda, que mo recomendou na altura; porém, apesar disso e do facto de quem o escreveu, Camilo José Cela, ter ganho o Prémio Nobel da Literatura, só este Verão lhe deitei a mão. Embora a tradução não seja famosa (revelando uma ignorância do idioma de origem algo estranha, já que as notas mostram que o tradutor tem um nível cultural acima da média), vale muito a pena ler A Colmeia, até porque é um livro sem protagonistas, o que é muito raro, tendo certamente mais de uma centena de personagens, que aparecem numa cidade que é uma verdadeira colmeia – Madrid –, mais precisamente num café por onde passam poetas, putas novas e velhas, miseráveis, músicos, funcionários, enfim, toda a espécie de gente, no período em que a Europa está em guerra, e os espanhóis, ainda que fora dela, vivem ainda as sequelas da guerra civil, que deixou o país devastado e entregue a uma pobreza confrangedora. Embora Camilo José Cela tenha combatido em jovem ao lado dos franquistas, este livro, do início dos anos 1950, foi censurado e publicado originalmente na Argentina, dada seguramente a imagem negativa que dá da Espanha esfomeada deste período. Muito interessante como ideia de um retrato colectivo sem heróis, um pouco datado, é certo, deve de qualquer modo ler-se este romance, que é dos mais conhecidos do autor.

Alto e em grupo

A EU Read, um consórcio de entidades que trabalham para a promoção da leitura (PNL incluído), lançou uma campanha que visa a leitura em voz alta e em grupo, reconhecendo os seus benefícios para as crianças. Chama-se, de resto, Reading loud, reading together. Os tempos não são os mais indicados para isto, bem entendido (o vírus obrigada ao uso de máscara e ao distanciamento social, nada práticos neste tipo de actividade), mas ela  pode ser praticada também em família. As vantagens são inegáveis: para lá do evidente desenvolvimento das competências de leitura, a partilha e a cumplicidade do grupo, bem como a sua identificação com o enredo e as personagens ajuda a criar momentos em que o desejo de continuar a ler é enorme (e isto, sim, é a motivação para a leitura). Além disso, a actividade ajuda a estabelecer laços afectivos, ensina a trabalhar em equipa, desenvolve a imaginação e o raciocinio e, entre muitas outras coisas, enriquece a expressão oral. O que falta é pô-la em prática, o mais cedo possível, nas nossas escolas e em casa. De pequenino se torce o pepino, e não me venham falar de falta de tempo, porque bastam dez minutinhos por dia.

Entrevistas

Parece que as pessoas não são muito sensíveis a livros de entrevistas (que, ao que sei, se vendem muito pouco), embora eu goste muito da entrevistas publicadas na Paris Review. Por outro lado, diz quem sabe que uma entrevista num jornal feita a um escritor é muitíssimo mais lida do que uma crítica a um livro desse mesmo autor; e estou em crer que na rádio, com esse privilégio que é ouvir as vozes de entrevistador e entrevistado, a entrevista é um género com muita audiência (eu, por exemplo, gosto muito das entrevistas a membros da mesma família feitas por Teresa Dias Mendes no programa ADN da TSF). Quem tem um programa de entrevistas a figuras públicas em que a cidade de Lisboa é centro das atenções é o jornalista João Morales. Chama-se Lisboa Continua, e esta última emissão é com o escritor e argumentista Filipe Homem Fonseca, que lançou nas Correntes d'Escritas o seu mais recente romance, A Imortal da Graça, que, se não me engano, é semifinalista do Prémio Oceanos. Se acederem à gravação pelo link seguinte, poderão também subscrever o canal de João Morales gratuitamente e ouvir as restantes entrevistas.


https://www.youtube.com/watch?v=PEldsNHTwAw&t=1483s 


 


 

Calvinices

Uma das maiores injustiças da Academia Nobel, quanto a mim, foi não ter dado o galardão ao talentosíssimo escritor italiano Italo Calvino, um fabuloso inventor de modos, estilos e universos literários que, além disso, tinha um humor notável. Bem sei que era ainda bastante jovem quando morreu, mas o Nobel já tinha contemplado escritores mais novos (Camus, por exemplo). Já aqui devo ter falado de vários dos seus livros, mas hoje lembrei-me de Palomar, mais outra maravilha de originalidade e empatia. O livro acompanha um senhor chamado Palomar em várias situações (desde as férias na praia até às compras no talho) para nos mostrar que nunca há só um ponto de vista sobre as coisas e que, se formos como Palomar, nunca conseguiremos escolher entre duas coisas de ânimo leve nem deixar o cérebro descansar um segundinho que seja. Basta ler o capítulo sobre a rapariga em top less e as questões que o senhor Palomar se põe sobre qual deverá ser o seu procedimento ao passar por ela para se saber que até à última página vamos ter muito com que nos deliciar. Leia-se este autor, por favor, com ou sem Nobel.

Três irmãos

Muitos dos escritores, nos primeiros tempos da pandemia, viveram aquilo a que eu chamaria agora, para simplificar, um «período branco», querendo com isso dizer que a tensão provocada pelo medo da doença e/ou o confinamento os impediu de criar. Contudo, isso é coisa que não se pode dizer de Gonçalo M. Tavares, que não parou um instante de dar à pena e cujo diário foi/está a ser publicado pelo semanário Expresso há várias semanas (embora não na íntegra, o que indicia que ainda há-de sair provavelmente o todo num livro). Mas não foi só: escreveu no mesmo período a peça Os Três Irmãos, encenada pelo coreógrafo Vítor Hugo Pontes e com estreia marcada para amanhã no Teatro Viriato, em Viseu. O texto fala de uma família em espaço fechado e do «desaparecimento» de alguns dos seus membros sem que os outros se possam despedir deles, o que é uma excelente alegoria destes tempos negros. É igualmente uma boa notícia que uma coisa tão negativa como este vírus sirva para a criação,  que é coisa positiva. Em Lisboa, o espectáculo só poderá ser visto lá para Fevereiro, no S. Luiz. O meu livro preferido de Gonçalo M. Tavares é Jerusalém, que aconselho vivamente.

Tempos duros

Vivemos tempos duros e já aprendemos que um simples vírus, uma coisita de nenhum tamanho, pode de repente mudar o mundo todo, matar milhões de pessoas, alterar hábitos enraizados, provocar depressões, desemprego e divórcios, suprimir a sociabilidade e o afecto, tornar negros negócios que antes frutificavam. Foi também uma coisa de nada (no caso, uma mentira: a de que o líder eleito encorajava a entrada do comunismo na Guatemala) que mudou o rumo do país quando, em 1954, um golpe de Estado orquestrado pela CIA derrubou o governo. É disto que fala o mais recente romance de Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura e autor de grandes romances, muitos dos quais já mencionados aqui no blogue. Chama-se Tempos Duros, está classificado como um thriller histórico e, segundo o El Pais, mostra como as coisas poderiam ter sido bem diferentes se não fosse, de facto, essa mentira. Para ler e aprender. Publica a Quetzal. A tradução é de Cristina Rodríguez e Artur Guerra.

Boas notícias

Uma das excelentes notícias de hoje é que o meu braço-direito aqui na editora, a Madalena Escourido, se tudo correr bem, se doutorará daqui a pouco. Por causa das restrições, não pude, como gostaria, ir vê-la defender a sua tese (sobre Afonso Cruz, Patrícia Portela e Joana Bértholo) na Universidade de Coimbra, mas estarei diante do computador a acompanhar esse momento alto roendo as unhas. Outra boa notícia é a de que o enorme leitor e bibliófilo Alberto Manguel, nascido argentino e naturalizado canadiano, que foi leitor de Borges em jovem, escreveu livros magníficos sobre a leitura e reuniu uma das mais fascinantes bibliotecas de sempre, vem viver para Lisboa, onde dirigirá um Centro de Estudos da Leitura num palacete que a nossa Câmara lhe cedeu para instalar os seus 40 000! volumes que, assim, poderão ser vistos (e consultados) pelos portugueses. Claro que, até tudo estar pronto, vai demorar não menos de dois anos, mas... o tempo passa num instante. Só boas notícias.

Lugar para Dois

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De um finalista do Prémio LeYa, o livro de que hoje vos falo é para ler e ouvir (sim, inclui códigos que podem ser lidos com um telemóvel para se escutar uma canção alusiva ao episódio, até porque uma das personagens é um músico, e o autor, Miguel Jesus, também). Trata-se de Lugar para Dois, cuja acção decorre maioritariamente em Moçambique e que é tão cinematográfico que quase sentimos os cheiros e ouvimos os ruídos do mato. Conta a história de um homem bem-sucedido que, no final dos anos 1950, poderia escolher o futuro que quisesse, mas um acidente estúpido com a filha enche-o de uma culpa de que não se consegue libertar. Tenta recomeçar a vida longe e instala-se num lugar recôndito de Moçambique, onde uma velha negra o ajuda nas tarefas domésticas e lhe leva jornais que o põem a par dos movimentos independentistas nas Colónias e das mudanças por que a Metrópole vai passando. Porém, apesar do desejo de ficar sozinho, uma inscrição no tronco do embondeiro que enfeita a propriedade diz que aquele é um «lugar para dois», insistindo na paternidade que lhe estava destinada. E, por mais que Daniel a renegue por duas vezes, é nesse caminho que acabará por encontrar o próprio perdão. Belo, duro, ternurento – com uma banda sonora exclusiva! – este é um romance excepcional.Lugar_Para_Dois K 3D (2).jpg