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A mostrar mensagens de junho, 2015

Memória e a falta dela

Publiquei há muito um pequeno ensaio sobre a memória, de um professor de Oxford, que dizia que o nosso declínio começa quando nos falta o nome para a coisa; à mesa, por exemplo, pedimos que nos passem o... Pois, o sal, mas não nos lembramos da palavra. Acontece-me nos últimos tempos ficar muito triste por não me lembrar de um livro que li recentemente (embora me aconteça mais com filmes); ter, claro, uma ideia do argumento, mas ainda assim vaga, e já não saber o nome das personagens; de tal modo que por vezes tenho medo de falar desse livro de forma truncada, não vá o meu interlocutor achar que li apenas a sinopse ou as críticas, e não a obra. Já ouvi dizer que a leitura previne ou atrasa a doença de Alzheimer – Deus queira que sim, porque, com a minha profissão, estarei então imune; e, no entanto, não só me faltam os nomes para as coisas há já vários anos (e dos nomes para as pessoas nem é bom falar) como, mais recentemente, esqueço com grande facilidade o que leio, quiçá por ler demais (sim, todos esses livros que acabo por rejeitar e nem publico). Fico, pois, com pena de não ter lido todos aqueles livros importantes que devemos ler antes de morrer naquela idade em que nunca me faltava o nome para a coisa, pois, por mais que tente agora deitar-lhes a mão e lê-los numas férias, a verdade é que sei que não os reterei como seria desejável. E, por falar em férias, na semana que vem não andarei por aqui, lamento. Vou tentar apanhar sol por uns dias longe de Lisboa. E ler, claro. Vamos lá ver, se no regresso, recordo o suficiente para vos contar. Até dia 6!

Festas literárias

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Há umas semanas reparei que, no mesmo fim-de-semana, aconteciam três festivais literários – e disseram-me que os jornalistas culturais andaram a correr de um para outro, tentando cobrir todos e não privilegiar nenhum. Ao mesmo tempo que o Governo se desinteressa cada vez mais pela cultura – houve até uma marcha de artistas e sindicatos protestando contra a falta de apoios do Estado às actividades culturais –, é bom ver que as nossas autarquias dão o passo em frente e organizam por todo o País festivais e encontros que podem ajudar a estimular o público para a leitura e que põem frente a frente leitores e escritores. Leio que entre os dias 4 e 5 do próximo mês se realiza uma maratona de leitura na Sertã – vinte e quatro horas ininterruptas! – que conta com a presença de vários autores, entre eles Francisco Moita Flores, Mário Zambujal e Valter Hugo Mãe. O encontro é aberto a todos os que queiram aparecer e servirá, segundo os organizadores, para partilhar gostos, interesses e experiências. Esta maratona homenageará ainda o designer dinamarquês Niels Fischer, cuja exposição dedicada a Hans Christian Andersen esteve patente na Sertã em 2009. Prevê-se que, nesse âmbito, seja, de resto, lido de hora a hora um conto do reputado escritor infantil.


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A faca que une

Para começo de conversa, diria que nunca fui fã de Murakami (li dois romances e, como não me empolgaram, não reincidi), mas gosto muito da sua tradutora portuguesa. E não só como tradutora, mas como pessoa, que é o que mais interessa na vida (sobretudo na minha, que raramente preciso de tradutores). A Maria João Lourenço era minha colega na edição quando eu fui para a LeYa em 2010, mas pouco depois resolveu ir para casa traduzir a tempo inteiro e, por isso, falamo-nos e vemo-nos pouco. Nem isso, porém, a afastou do que faço e escrevo, e muito menos de ser a pessoa atenta e carinhosa que era antes. Um dia destes, numa daquelas entrevistas dadas ao telefone a correr, em vésperas da abertura da Feira do Livro de Lisboa, um jornalista do i fez-me umas quantas perguntas simples, entre elas, qual era o livro que eu nunca tinha conseguido comprar. Lembrei-me logo de A Faca não Corta o Fogo, de Herberto Helder, que outra ex-colega, a Ana Pereirinha, me emprestou por uns dias para lá pousar os olhos na altura em que saiu, mas que nunca tive na estante (nem o Manel). E um dia destes, vinha eu do almoço, encontro na minha secretária um envelope trazido em mão de casa da Maria João Lourenço pela minha colega Cristina Lourenço. Pois não é que era A Faca não Corta o Fogo? E ainda por cima com recortes de jornal com críticas ao livro, que a antiga dona juntou, dizendo que ficava feliz por me oferecer um livro muito lá de casa? Ainda estou sem palavras. E, agora, como é que se retribui um gesto destes? Além de boa tradutora, estamos perante uma boa pessoa, uma excelente pessoa. Tenho a impressão de que vou ter de ler todos os Murakami que traduziu para retribuir.

Internacionalização

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Para os autores portugueses, que vendem livros para um mercado bastante pequeno (e o Brasil ainda não conta, essa é a verdade), a internacionalização é extremamente importante. Se um romance for comprado por vários países e traduzido em diversas línguas, o autor não só ganha notoriedade fora de portas como pode conseguir rendimentos importantes. Hoje, enquanto estiverem a ler-me, encontro-me em Bruxelas (ou a caminho) para ver David Machado receber o Prémio de Literatura da União Europeia pelo seu romance Índice Médio de Felicidade. Feliz fiquei quando soube do galardão, mas ainda mais feliz quando comecei a receber pedidos do estrangeiro para apreciarem o livro e logo a seguir ofertas para a sua tradução. É muito bom ver que um livro extremamente actual sobre uma Europa em crise faz o seu caminho, abrindo as portas a um autor ainda relativamente jovem, que terá certamente muito mais para nos dar. Sinto-me orgulhosa por poder lá estar a vê-lo ser recompensado pelo seu trabalho sempre tão solitário. Parabéns, David Machado!


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Pensar Portugal

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«Um povo sonâmbulo é um povo que vive no presente, como acontece com as populações em estado de guerra ou que sobrevivem sob ditaduras férreas, constrangidas a acreditar na propaganda do Estado, que assim lhes esvazia o cérebro, forçando-as a não crer na existência de alternativas. Hoje, os portugueses são, de facto, um povo sonâmbulo: vivem o presente sem saber porquê e para quê […]» Este excerto de Portugal: Um País Parado no meio do Caminho (2000-2015), de Miguel Real, reflecte sobre os efeitos da interrupção do processo de modernização europeia de Portugal a partir do início deste século e o que representam para diferentes grupos sociais figuras como Siza Vieira e Olga Roriz, Joana Vasconcelos, Cristiano Ronaldo e José Mourinho. Um ensaio que vale a pena ler pela sua originalidade e pela dura análise dos últimos quinze anos de governação em Portugal.


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Lavar corações

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Já aqui vos falei várias vezes das Quintas de Leitura, do Teatro do Campo Alegre, um espectáculo de poesia, música e outras artes, porque a imagem é sempre assegurada por um artista, seja pintor ou fotógrafo, que acontece uma vez por mês no Porto e, normalmente, é dedicado a um poeta e às suas palavras (ditas e escritas). De vez em quando, porém, juntam-se as poesias de dois (ou mais) numa só sessão, tornando-a menos pessoal, mais variada e mais susceptível de agradar a gente de gostos distintos. É o que vai acontecer na próxima quinta, dia 25, numa sessão que dá pelo nome de Máquina de Lavar Corações, em que o actor João Grosso apresentará logo no início uma performance com textos de Bocage, Verlaine e Cesariny com o bombástico nome «Para Continuar Tudo com Cara de Caralho» (ups!). Seguem-se leituras dos escritores portuenses Daniel Maia Pinto Rodrigues e Renato Filipe Cardoso (de poemas dos próprios), com acompanhamento musical, aquilo a que chamaram «Máquina de Lavar Dióspiros». O folheto promocional promete intensidade poética e muito humor e especifica que o espectáculo é desta feita para maiores de dezasseis (muita malandrice, calculo). Deixo-vos, então, um pequeno poema de amostra, de Renato Filipe Cardoso, e o bonito cartaz da sessão. Divirtam-se os que forem.


 


Senhoria


 


A alta renda


da sua cuequinha


moveu-me


uma acção de despejo.


 


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Pintainhos-elefantes

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Um livro por dia. Não, não estou a falar de ler, mas de imprimir em casa, com uma máquina trazida de uma tipografia que a achava obsoleta, um livro por dia – e não um livro de texto, mas um verdadeiro objecto de arte. O italiano Alberto Casiraghy, ex-tipógrafo, poeta, artista plástico e até construtor de violinos, desde 1982 já imprimiu cerca de 9500 livros de forma artesanal – com caracteres móveis, claro, e cosidos à mão, homenageando autores de todas as línguas, incluindo portugueses, como Pessoa ou Graça Moura. A estes livros de poucas páginas em formato A5 chamou Pulcinoelefante (à letra, pintainho-elefante) e começou por fazê-los com aforismos e poemas da sua eleição, ilustrados por si ou por amigos com desenhos, pinturas ou fotografias, para oferecer ou vender aos mais próximos. Estava longe de imaginar que essas preciosidades (a tiragem nunca foi superior a 35 exemplares, reparem bem) acabariam por se tornar conhecidas em todo o mundo, tendo constituído, por exemplo, uma exposição na nossa Biblioteca Nacional no final do ano passado e valendo ao italiano o epíteto de mago. E já lá vão 9500... O que começou por ser um divertimento doméstico (e a máquina ocupa metade da sua sala) acabou por transformar este amante dos livros num artista singular, por trazer muitos pintores e intelectuais a sua casa (que tem sempre as portas abertas), desejosos de serem parte de um pintainho-elefante, e, mais recentemente, por fazer de Casiraghy um militante do livro em papel. Uma vida apaixonante que nem todos se podem gabar de ter, mesmo os que, como os Extraordinários, gostam muito de livros. Deixo-vos algumas imagens para perceberem melhor esta história de dedicação.


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Lá e cá

A Feira do Livro de Madrid começou no dia 29 de Maio – e apetece dizer «isto anda tudo ligado» porque as duas capitais ibéricas fazem as suas feiras praticamente ao mesmo tempo. Mas, se para muitos estas são uma excelente notícia, porque lá se podem comprar livros mais baratos, muitos deles a preço de saldo, a verdade é que, enquanto elas duram, as livrarias ficam às moscas e não facturam nada que se veja. O jornal El País decidiu então, para as compensar das perdas, falar de duas livrarias por dia enquanto decorria a feira de Madrid, até porque no país vizinho parece que, só num ano, 912 espaços de venda de livros (eram 4336 no total) tiveram de fechar as suas portas. E porquê? Bem, porque, com a crise, as vendas de livros baixaram drasticamente (cá também), caíram 18% desde 2011 – e estes 18% correspondem a mais de 870 milhões de euros, números impressionantes (que um dia gostaríamos de alcançar no nosso pequeno Portugal). Segundo as estatísticas, há 55% de espanhóis que declaram não ler, ou ler apenas um livro por ano (quantos serão cá, mais ainda?); e, além disso, o número de festivais culturais, nos quais participavam muitos escritores e se vendiam os respectivos livros, caiu 27% em seis anos (por acaso, julgo que em Portugal acontece o contrário e que o poder local está a saber agarrar as oportunidades de celebrar a literatura e os escritores). Enfim, lá como cá, a desgraça é grande para livreiros e editores, ameaçados todos os dias pela diminuição nas vendas. Que fazer para inverter a situação em dois países de tanga (e às vezes também da tanga)?

Humanizar?

Quando vou a qualquer lado falar da minha poesia, perguntam-me várias vezes se tenho gatos em casa (ou se gosto de gatos) porque há muitos gatos nos meus poemas. Na verdade, os poemas são o lugar onde acho que os gatos ficam melhor – e, na vida real, prefiro cães, embora raramente os use na poesia, porque de facto os gatos prestam-se mais a figuras literárias (têm mais fibra, digo eu). Aliás, como as crianças, os gatos gostam de ouvir ler histórias – e aqui no blogue já divulguei um programa que consistia em pôr crianças a ler para gatos (se não o leu, vai aqui o link http://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/aqui-ha-gato-227321). Mas, embora o cão seja menos dado à leitura, parece que chegou a vez de o humanizar de outra forma: ouço no rádio que a Nikon inventou uma câmara fotográfica que, pendurada na coleira de um cão, dispara e tira fotografias sempre que o seu coração fica acelerado. Esta Heartography, assim se chama a maquineta (que ainda não se sabe, de resto, se vai ser comercializada), regista, como seria de esperar, imagens de seres humanos da cintura para baixo, pratos cheios de comida de cão, pombos, crianças e, claro, gatos, muitos gatos… No entanto, como se não chegasse tornar cães fotógrafos, alguém se lembrou de os pôr também a ver televisão; a Dog TV, um canal especial para cães que ficam muito tempo sozinhos em casa enquanto os donos trabalham, está disponível em Portugal desde 23 de Maio, com programas de relaxamento e estimulação com a duração de seis minutos e algumas imagens de rua para entreter. Enfim, o gato ouve ler, o cão vê televisão. Claro que, nos poemas, ficarão sempre melhor os gatos.

Ler é sexy

Uma vez convidaram-me para ir à Feira do Livro de Guadalajara, no México, e foi na sessão inaugural que ouvi Vargas Llosa dizer que se tornou leitor (e mais tarde escritor) porque teve uma infância difícil (a mãe, de quem ele era muito próximo, casou-se pela segunda vez e pô-lo num colégio interno porque ele e o padrasto se davam mal). A leitura permite-nos, de facto, ter outras vidas ou identificar as ficcionadas com a nossa (numa espécie de psicoterapia) e isso torna-nos mais flexíveis e compreensivos com os outros, ou seja, melhora as nossas relações sociais, até porque, como disse algures Shopenhauer, «ler significa pensar com uma cabeça alheia» – e, pondo-nos no lugar do outro, tornamo-nos menos egocêntricos. Leio num artigo de jornal que, por esta e outras razões, devemos tentar incutir o gosto da leitura nas crianças o mais cedo possível, incluindo porque a estrutura de uma história introduz conceitos como o da sequência de acontecimentos e a relação de causa-efeito e desenvolve a atenção – além de aumentar o conhecimento e o vocabulário e de ser uma actividade relaxante (ao que parece, é também por isso que muita gente acaba por adormecer a ler na cama). O que não sabia era que ler também era sexy... Diz o mesmo artigo que as estatísticas mostram que as pessoas que lêem são mais inteligentes e cultas, manejam melhor a língua, têm uma inteligência emocional mais desenvolvida, são mais compreensivas e que todos esses factores atraem os outros, inclusive sexualmente. E esta, hã? Este argumento pode convencer muitos fracos leitores, não?

Fugir da infância

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Dizem que todos somos marcados pela infância que tivemos – e isso é mais do que certo para José, o protagonista de O Caçador do Verão, o novo romance de Hugo Gonçalves (publicado cerca de dois anos depois do aclamado Enquanto Lisboa Arde, o Rio de Janeiro Pega Fogo). José nasceu e cresceu no seio de uma família um tanto desequilibrada – e, mesmo que o tente, não poderá esquecer aquele Verão em que a mãe o deixou numa aldeia algarvia em casa de uma desconhecida e se foi embora com um namorado para Espanha. Valeu ao rapaz a companhia de um trio de irmãos muito singular (e que são das melhores personagens do romance), estar no epicentro de uma aventura aliciante – a fuga da prisão uma perigosa quadrilha – e, por fim, ter um avô com a cabeça no lugar, que o vai recuperar ao fim de umas semanas e se portará doravante como seu pai. José, hoje quarentão e sem mãe, quer – por todas as razões – fugir a estas memórias magoadas, mas não consegue: o avô, com quem não fala há anos, convoca-o para uma reunião no lar onde vive. Afinal, que lhe quererá? Pois, é preciso chegar à última página para o saber... História séria mas com bons momentos de humor, triste mas com uma alegria muito terna, O Caçador do Verão é também um regresso a um certo Portugal que queria ser europeu, desconhecendo ainda o que isso tinha de perigoso.


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As nossas bibliotecas

Uma vez falei com uma senhora a quem tinham assaltado a casa durante umas férias com a ajuda de uma camioneta de mudanças. Limparam tudo – até as gavetas da cozinha (provavelmente para tornar credível a suposta mudança de casa) – mas, curiosamente, deixaram ficar os livros todos; o peso deve ter desmotivado os ladrões, mas não foi só isso, todos sabemos. Muitas vezes me pergunto o que será dos meus livros quando morrer. Mesmo que alguns dos meus sobrinhos gostem de ler (uns são ainda demasiado pequenos para se saber se a leitura os vai realmente apaixonar), gostarão eles de todos os meus livros e, sobretudo, viverão em casas com espaço para os guardar? Grandes leitores e coleccionadores como Pacheco Pereira ou Vasco Graça Moura – e com dinheiro para isso – arrendaram quintas e armazéns para poderem estar perto dos seus livros. O primeiro criou um importante centro de documentação ao serviço de todos, o que garante já uma partilha; mas o segundo deixou, ao morrer, um espólio impressionante (cerca de 40 000 volumes) que não caberá, digo eu, na casa de nenhum dos filhos. Leio que a família pretende disponibilizá-lo, mas não doá-lo, à Faculdade de Letras do Porto. Quererá isto dizer que, apesar de tudo, gostariam de continuar a ser donos desses livros, mas provavelmente não podem tê-los em casa? Que farão um dia à minha desarrumada biblioteca os meus sobrinhos (não tenho filhos), gostando ou não de ficar com ela?

O estranho em nós

«Um preto de cabeleira loira e um branco de carapinha não é natural.» Assim começava um velho anúncio de televisão a um produto que restaurava a cor original do cabelo (uma espécie de tinta, suponho). Vem esta memória a propósito do que vemos como natural e de estranharmos nos outros – estrangeiros – coisas que afinal são mais do que naturais, mas que não correspondem ao arquétipo que temos deles, porque as imagens que construímos através dos media são redutoras, referindo-se normalmente àquela minoria que dá direito a notícia. Em Americanah, a nigeriana Chimamanda Ngosi Adichie conta que, nos EUA, umas cabeleireiras que lhe desfrisaram uma vez o cabelo a elogiaram por falar tão bem inglês, estando na América há tão pouco tempo. A verdade é que a língua oficial da Nigéria é o inglês (e que os americanos não são propriamente cultos); mas, quando pensamos hoje na Nigéria, vemos logo os Boko Haram raptando 200 raparigas de uma só vez e ouvimo-los, sem querer, gaguejar numa qualquer língua selvagem e incompreensível. Quando fui a Éfeso (e, se destruírem Palmira, sempre nos consolará a beleza de Éfeso), a guia turística turca era loira, usava mini-saia e bebia cerveja – e logo foi avisando os mais admirados (de novo, eram os americanos) que não constituía um caso especial. Também num destes fins-de-semana, na Ericeira, ouvi comentar o espanto que fora para muita gente a chegada de um grupo de surfistas afegãos – muitos correram a vê-los como se se tratasse de uma atracção de feira; e talvez estivessem à espera de encontrar sobre as pranchas homens de fatiotas até aos pés e turbantes, de metralhadora a tiracolo, feitos os talibãs que encheram os ecrãs das televisões ao longo de muito tempo. A imprensa e a televisão, embora nos dêem informação, também nos criam imagens truncadas de certos países e é preciso estarmos alertados para não generalizarmos a partir delas. O que vale é que, lendo livros, mesmo ficções como Americanah, podemos corrigir a nossa ideia do que é ou não natural.

Na Invicta

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Hoje e amanhã estarei na Invicta – e, longe do computador, não poderei ler os vossos comentários ao longo do dia nem corrigir erros e gralhas com a ajuda de alguns. Nem todos os «meus» escritores são lisboetas, e Nuno Gomes Garcia, autor de O Dia em Que o Sol Se Apagou, que publiquei recentemente, nasceu em Matosinhos e, ainda que vivendo actualmente em Paris, volta a Portugal para a apresentação pública do seu romance amanhã, na belíssima Lello, sita no Porto. Também Gabriela Ruivo Trindade, autora de Uma Outra Voz, aproveita uma viagem de uma semana a Portugal (mora em Londres há dez anos) para organizar uma sessão em torno do romance vencedor do Prémio LeYa em 2013, numa cidade onde tem amigos e família. Esse encontro realizar-se-á depois de amanhã, no auditório do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto. Se vive, pois, na Invicta ou por aqueles lados, está obviamente convidado para os dois lançamentos. Eu, por consideração para com os leitores deste blogue, deixo um post prontinho para amanhã e depois só regresso dia 11, que na quarta é dia de os Portugueses descansarem.


 


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Roubado em Lisboa

A minha mãe tem sobre a cómoda do quarto uma bonita tacinha de porcelana; quando a viramos ao contrário, diz na base: «Roubada em Madrid no Hotel x.» Roubar é feio, claro, mas o hotel de que já não recordo o nome incentivava a isso – ou, se quisermos, dava um presente aos hóspedes de forma bastante original. Na minha adolescência, tive amigos que rapinavam coisas – não muito importantes, é certo, mas mesmo assim…- e tinham descontracção para isso, o que nunca foi o meu caso. Também alguns colegas de faculdade iam a livrarias e à Feira do Livro apetrechar-se de leituras. Nunca fui capaz, por mais que gostasse de ler e achasse que os livros mereciam ser lidos fosse de que maneira fosse. Um dia destes, uma amiga contou-nos que tinha roubado sem querer a revista Estante, uma publicação da FNAC, de pequeno formato e papel reciclado (pelo menos, aparenta), com entrevistas, artigos de opinião, recensões e curiosidades à roda dos livros. Disse-nos que pensou que era para as pessoas levarem – até pela forma como estava exposta – e que só ao chegar a casa se apercebeu de que, na contracapa, havia uma etiqueta com o preço (1,50 €), mas que já não teve forças para voltar à loja. E – curioso – foi só quando acabou de contar essa sua história que o Manel olhou para mim e para ela alternadamente com um sorriso maroto e a seguir lhe perguntou se era mesmo verdade que a revista se vendia. É que também ele a tinha roubado... sem querer. Pelos vistos, a Estante tem ar de coisa para dar, mas, meus senhores, não diz «Roubada em Lisboa» e, embora baratinha, tem um preço. Assim sendo, se a virem numa loja da FNAC, não se distraiam.

A bunch of escritores

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Embora Portugal seja uma aldeia, não pensem que todos os escritores se conhecem, mesmo os que habitam a mesma cidade e têm idades próximas. A Figueira da Foz vai assistir hoje no seu museu, pelas 21h30, a um encontro que nunca se deu e que, provavelmente, também não se vai repetir tão cedo (ou, pelo menos, nos mesmos moldes). Para estas afamadas 5.as de Leitura, temos a bunch of escritores, e a particularidade é que todos ganharam o Prémio LeYa – são na verdade os vencedores das últimas quatro edições desse prémio: João Ricardo Pedro (com O Teu Rosto Será o Último), Nuno Camarneiro (que é figueirense e ganhou com Debaixo de Algum Céu), Gabriela Ruivo Trindade (vinda de Londres e autora de Uma Outra Voz) e ainda Afonso Reis Cabral (o mais recente galardoado com a obra O Meu Irmão). Mas não é tudo: convida e modera a conversa um finalista do mesmo prémio, António Tavares (autor de As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia), que é também o vice-presidente da Câmara da Figueira da Foz. E eu também vou, claro, pois não perdia uma reunião assim por nada deste mundo. Quem foi que disse que devíamos descentralizar? Pronto, nós descentralizámos. Agora, apareçam!


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Mais logo

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Quem aqui se viu retratado no final do ano passado pela pena de Joao Pinto Coelho não vai certamente querer faltar ao lançamento, mais logo, do seu romance Perguntem a Sarah Gross, finalista do Prémio LeYa. Trata-se de uma história contada em tempos e lugares distintos, pois é, afinal, nesse país-continente chamado Estados Unidos – e no final dos anos 1960 – que vamos conhecer a cidade de Osphitzin desde o final da Primeira Guerra Mundial e, com ela, também a vida de Sarah, uma rapariga nascida na América mas cedo recambiada para a Polónia, donde só sairá no fim da Segunda Guerra Mundial e na companhia de Esther, amiga que nunca a abandonou e conhece melhor do que ninguém (até porque os acompanhou) os dramas terríveis da sua vida e as perdas que suportou nessa cidade que, pelas piores razões, é hoje conhecida em todo o mundo por Auschwitz. Para saber mais, não conte comigo. Na FNAC do Chiado, pelas 18h30, contamos com uma oradora de luxo – Irene Pimentel – para apresentar a obra; e fazemos questão da sua companhia, estivesse ou não nos belíssimos desenhos que o autor ofereceu a este blogue. Por isso, arranje maneira de sair hoje mais cedo. O metro vai quase até à porta e o João Pinto Coelho merece.


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Livro deitado

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Há livros que chamam por nós, apesar de não serem para a nossa idade. Foi o que se passou comigo recentemente com A Cantora Deitada, de Sandro William Junqueira (autor de um romance de que já aqui falei, Um Piano para Cavalos Altos); mas não por conhecer o nome do escritor de outras literaturas, antes porque a capa, que abaixo reproduzo, da grande Maria João Lima, é um assobio todo virado para quem a olha. Gosto de meias às riscas e os sapatinhos de presilha transportam-me logo para festas de infância, mas a ilustração, acredito, tem o mesmo efeito sobre quem já cresceu a usar ténis ou alpergatas. E, aberto o livro, ele está deitado, como, aliás, a protagonista, Alice, que se deita na esquina de uma cidade e desata a cantar, crente de que, se o fizer de pé, como a maioria das outras pessoas, a canção que lhe sai da garganta cairá ao chão, não podendo chegar aos ouvidos dos pássaros. O resto não posso contar, que o livro é mais ilustração do que história, mas há aqui um casamento muito feliz entre imagem e texto, qualquer coisa que, enfim, sabe chamar por nós, obrigar-nos a parar um instante e... ler. E isso, num livro para crianças, é fundamental. E, se é para crianças e os adultos gostam, cinco estrelas! Parabéns aos autores.


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O que ando a ler

Acabo de ler (por não ter conseguido parar enquanto não via virada a última página) O Meteorologista, de Olivier Rolin, autor francês de quem li outros romances, dos quais o meu preferido até hoje era Porto Sudão (e já aqui escrevi sobre ele), mas este não lhe fica atrás. É um livro apaixonante por muitas razões, investigado até ao osso, cuidadoso, muito bem escrito e realmente original (como uma radiografia de um tempo feita através da biografia de um homem). Evoca – e até cita às vezes – Tudo Passa, de Vasily Grossman (outro grande romance) e debruça-se sobre a história exemplar de um meteorologista que amava as nuvens, cumprindo com brio as suas tarefas na direcção do instituto meteorológico ao serviço da Rússia e do Partido. Mas estamos na época do Grande Terror estalinista, em que denunciar, caluniar e mentir podem salvar a pele. E eis que, como em O Processo de Kafka, este homem relativamente apagado, que acreditava no regime mesmo sendo filho da aristocracia latifundiária, se vê apanhado nas malhas das grandes purgas estalinistas sem saber como nem porquê (talvez lhe bastasse ser filho da aristocracia latifundiária); escreve então do gulag para onde é levado cartas nas quais tenta educar à distância a filha pequena, que não mais verá, através de desenhos e adivinhas, e presentear a sua jovem mulher com figuras feitas de pedrinhas representando o próprio Estaline de quem nunca deixa de esperar a correcção da injustiça. Morrerá fuzilado em 1937, mas isso – bem como a maneira e o local onde tudo acontece – só se saberá em meados dos anos 1990 (é importante ler este livro também para percebermos até que ponto foi a paranóia colectiva da URSS no tempo do Grande Terror). Sobrarão os seus desenhos para a filha, o motor que levou Rolin a pesquisar a história do seu protagonista. Com um final absolutamente notável, uma reflexão lúcida e desarmante, este é um daqueles livros que mexem connosco e nunca mais nos deixarão sossegados. Se não devemos esquecer nunca o Holocausto, também nunca mais podemos esquecer este período negro da história russa. Indispensável ler esta obra-prima.