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A mostrar mensagens de setembro, 2010

A imaginação

Há livros muito difíceis de classificar, e é talvez por isso que, frequentemente, nas listas dos livros mais vendidos, aparecem títulos na área da ficção que não são exactamente ficção, mas que também não são aparentados com aquilo que vulgarmente se designa por «não ficção». Li há muitos anos um livro esplêndido e inesquecível – A Louca da Casa, de Rosa Montero – que comprei como um romance, e não era um romance, mas que, parecendo um «ensaio» sobre um conjunto de memórias, soube, um dia, por razões que agora não vêm ao caso, tratar-se da mais absoluta ficção. Nesse livro celebrava-se sobretudo a imaginação – irmã de quase todos os escritores e, nesse livro, irmã gémea da autora, que a usa de forma brilhante, enganando permanentemente o leitor sobre o que já leu com o que vai lendo, nunca ficando este a saber o que foi, de facto, verdade e o que é apenas imaginação. Se gostar de livros que não são de nenhum género em concreto e conseguem ser quase todos, não hesite em ler este. Tenho a certeza de que não se vai arrepender.

Jesus de saias

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Há uns tempos, falei com grande entusiasmo de um livro que ia publicar. Tratava-se de um romance do escritor cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, também músico, vencedor do Prémio Carlos de Oliveira em 2009, que o destino trouxe à minha mão por duas vias diferentes: conheci o Mário Lúcio em Brasília e ofereci-me para apreciar o livro; e, uns dias mais tarde, o seu agente, que mora no Porto, enviou-o para a Leya sem saber de nada, pedindo que considerássemos a sua publicação, uma vez que o júri aconselhara a edição numa chancela com larga distribuição nacional (pois, de contrário, o livro seria dado à estampa pela editora da Universidade de Coimbra e quiçá acabaria nos armazéns entre traças e musgo). Pois bem: o livro – de que eu então transcrevi um excerto – está nas livrarias desde sábado passado e chama-se O Novíssimo Testamento. E, sem querer dizer mais sobre a história (que é um delírio de imaginação), conta aquilo por que teve de passar uma mulher chamada Jesus, tomada, no seu leito de morte, por uma reencarnação do próprio Cristo. Se quiser passar momentos mágicos e divertidos, este é um livro para si. Senão, também.


 


Uma questão de ouvido

Quando Pinto da Costa começou a «dizer de que» e a «pensar de que» foi motivo de paródia em todo o lado; de tal modo que algumas pessoas, desconhecendo a língua que falam e escrevem, acreditaram que «de que» era um preciosismo e cortaram o «de» em todas as ocorrências em que, na verdade, era indispensável. Nos originais que todos os dias me vêm parar às mãos, estou sempre a encalhar nas ausências dos «de que» depois de verbos ou expressões como «aperceber», «ter medo», «estar convencido», «ter esperança», etc., e insiro eu própria o «de», com a esperança de que o autor aprenda com as minhas correcções. Porém, um dia destes, uma colega da Leya estava de cabeça perdida porque um dos seus autores (homem com muitos livros publicados) cortara, nas provas de um livro, todos os «de» que o revisor introduzira a seguir ao verbo «lembrar-se», dizendo que, simplesmente, não lhe soavam bem. Mesmo depois de lhe terem sido dadas as necessárias explicações, insistiu e quis que o livro fosse publicado sem eles. Bem sei que é o autor quem assina o livro, mas não deveria imperar a razão sobre o ouvido?

Em branco

O Prémio Literário José Saramago – não há como negar – tem uma grande influência no sucesso e na divulgação dos escritores que o recebem. Como publiquei José Luís Peixoto, valter hugo mãe e João Tordo, consigo avaliar a diferença – pelas vendas e pela atenção do público e dos meios de comunicação – entre o antes e o depois da atribuição do prémio. Contudo, da única vez que o galardão foi dado a um escritor estrangeiro (no caso, a escritora brasileira Adriana Lisboa), não teve exactamente as mesmas repercussões. O romance premiado, Sinfonia em Branco, era maduro e belíssimo – a história de duas irmãs e da relação de ambas entre si e com um pai abusador –, mas não vendeu mais do que qualquer romance não premiado. Publiquei, ainda na Temas e Debates, a obra seguinte de Adriana Lisboa, cujo título remetia para um verso de Manuel Bandeira – Um Beijo de Colombina – e esse, então, quase passou em branco, o que foi apenas mais uma injustiça. E a Quetzal editou não há muito o seu terceiro título – Rakushisha –, que não li, mas espero que dê à autora o reconhecimento que merece. Se nunca pôs os olhos num livro de Adriana Lisboa, não continue em branco.

Disponível e obrigatório

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Não sei se ainda se lembram, mas aqui há uns tempos, neste mesmo blogue, referi um livro publicado há vários anos, vencedor do Booker Prize, cuja leitura recomendo em absoluto. Intitula-se O Deus das Pequenas Coisas, foi escrito por Arundhati Roy e é, além de uma peça literária belíssima, uma das obras mais interessantes sobre o problema das castas na Índia que alguma vez li. Na altura, avancei que este título – esgotado há muito – iria ser reeditado na colecção BIS – a colecção de pequeno formato da Leya. Pois anteontem, ao passar por uma mesa onde se acumulavam os exemplares dos livros que vão sair esta semana, lá estava esta maravilha! E com um preço muito, muito simpático: 7,50 €. Não há, pois, desculpa para não ler.


 




Bragatela

Paulo Moreiras – um autor de quem publiquei vários livros (de ficção e não ficção) – encontra-se presentemente na Ledig House (uma residência de escritores nos Estados Unidos) e escreve-me regularmente de lá. As suas mensagens são sempre poderosas e não raro incluem descrições absolutamente suculentas de comida, pois trata-se de um autor que é também um bom garfo e um curioso da gastronomia (mesmo no país do hamburger). Disse-me, numa das últimas mensagens, que o seu lindíssimo Livro da Ginja está a fazer furor entre os seus colegas de residência – e não me admirei, pois o Paulo tem uma forma especial de nos fazer gostar de tudo aquilo de que ele próprio gosta e já os deve ter convencido a provar aquele elixir vermelho, escorregadio e saboroso. Mas o que sinceramente desejo é que este período na Ledig House o leve a iniciar (ou prosseguir) um projecto por que há muito anseio – o seguimento de A Demanda de D. Fuas Bragatela, romance picaresco sobre um herói medieval capaz de virar tudo do avesso e sair ileso das piores situações. Na crise em que nos encontramos, precisamos de obras com humor e inteligência – e já estamos há demasiado tempo à espera desta.

Gossip literário

Tenho esse enorme defeito de não ser curiosa, pelo que – com excepções, bem entendido – não me fascinam, como a tantos, as biografias. Mas gosto de saber coisas de escritores (e aconselho, desde já, as entrevistas da Paris Review recentemente publicadas pela Tinta-da-China; não é, porém, de aspectos tão sérios que falarei hoje). Há uns anos, li um livro de Javier Marías (nesse tempo muito menos famoso do que hoje, mas – recordo – já bastante arrogante) que reunia uma série de textos sobre escritores notáveis publicados, se não erro, num jornal espanhol. Chamava-se Vidas Escritas e trazia a chancela da Quetzal, quando esta era ainda dirigida por Maria da Piedade Ferreira. Despretensioso e ligeiro (não era um livro a que Marías desse uma importância por aí além), falava-nos de algumas idiossincrasias de escritores, contadas com humor, bom gosto e talento literário. Foi nesse livrinho que descobri, por exemplo, que Faulkner apostava fortunas em corridas de cavalos e Conrad deixava cigarros acesos por toda a casa, tendo-se livrado por pouco de alguns incêndios. Leitura boa para domingos sem ambições, que nos mostra que alguns monstros sagrados têm um lado tão humano como qualquer mortal.

O amor

Na semana passada, aconteceu-me no mesmíssimo dia assistir a duas esplêndidas declarações de amor. Uma delas foi a entrevista de Pilar del Río, viúva de Saramago, a Constança Cunha e Sá na TVI 24: brilhante, forte e comovente. A outra, um agradecimento de Helena Marques ao marido no final da sessão de lançamento do seu mais recente romance, O Bazar Alemão: sincera, cúmplice e engraçada (o marido estava escondido na sala, presumivelmente corado). Fico sempre com a lágrima ao canto do olho e ao mesmo tempo cheia de fé nas pessoas quando ouço alguém falar sem problemas da pessoa de quem gosta, porque os portugueses, habitualmente contidos, parece que têm vergonha de mostrar o que sentem, e a excepção é realmente uma lufada de ar fresco. Deve ter sido por isso que, quando publiquei um dos meus livros de poesia, alguns críticos escreveram que aquele era um acto de grande coragem. Pois não acredito que nenhuma destas duas senhoras tenha precisado de coragem para falar dos amores da sua vida. E eu também não.

Para cima ou para baixo?

Há uns anos, a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros enviou uma circular que traduzia uma qualquer directiva, se não me engano, da União Europeia, segundo a qual os editores portugueses deveriam, a partir de então, escrever os títulos e autores nas lombadas dos livros de forma que se lessem de cima para baixo. Deste modo – que os ingleses já praticavam há anos –, um livro pousado numa mesa com a capa para cima teria o texto da lombada na posição correcta, e não, como antes acontecia, de pernas para o ar. Ainda hoje deixo passar este «erro», e é a Madalena, que trabalha comigo, quem dá por ele e me avisa (os designers das capas também o deixam passar frequentemente). No entanto, um destes dias, à procura de um livro de determinado autor na estante, verifiquei que, para as lombadas se poderem ler todas na mesma direcção, muitos dos volumes estavam, literalmente, de costas para mim… Além disso, como pessoa baixa que sou, habituei-me a ler de baixo para cima. Porque é que não deixaram as coisas como estavam?

Auto-ajuda

Sempre me intrigaram os chamados livros de auto-ajuda; das muitas vezes que estive deprimida, triste, com um tédio profundo e por aí além, preferi sempre a ajuda dos outros à auto-ajuda. E li, claro, livros que me ajudaram a esquecer a neura, mas eram sobretudo obras de ficção e poesia. Não era claro para mim como podia alguém acreditar que, só por ler os conselhos de um suposto especialista, curava as mágoas e afins; e tinha dificuldade em compreender porque faziam tanto sucesso alguns títulos e autores. Até que, quando estava na Temas e Debates e editávamos parte do catálogo da editora Rocco do Brasil, veio parar às minhas mãos uma série de livros intitulada «Marte & Vénus», de John Gray (um tipo com carinha de parvo que dedicava todos os livros a «Bonnie, my wife»), cujo primeiro volume, Os Homens São de Marte, as Mulheres de Vénus, esteve 259 semanas seguidas no Top Ten da New York Times Review of Books. E então percebi que este género não faz mais do que repetir e registar todas as coisas que toda a gente sabe, mas pensou que não tinham passado pela cabeça de mais ninguém (por exemplo: que, quando preocupados, os homens preferem ficar calados e as mulheres desabafar). É numa espécie de identificação com o leitor comum, que se sente menos só nas suas cismas e descobre que, afinal, não é burro porque os «especialistas» pensam exactamente como ele, que me parece residir o segredo do sucesso. Eu continuarei a preferir os amigos, os outros livros e até, se for preciso, os psiquiatras…

É hoje!

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Muito feliz com este lançamento, este livro, este autor. E a vossa companhia, se vos apetecer ir.


 


Gaffes

Quase toda a gente conhece a gaffe de Santana Lopes (ou do seu assessor) ao pedir que agradecessem a Machado de Assis a oferta de um exemplar do Dom Casmurro (um romance delicioso) que lhe tinham enviado. Mas não é a única. Sei de várias histórias em que jornalistas pediram entrevistas a escritores mortos – e alguns destes jornalistas não eram estagiários, mas pessoas conhecidas e reputadas, que assinavam crónicas em jornais diários e apresentavam programas na televisão. Das que ouvi não posso jurar se são ou não verdadeiras; mas nunca me esquecerei de, no ano em que Portugal foi país convidado da Feira de Frankfurt, uma senhora alemã ter pedido uma entrevista com António Vieira. Pensámos que se tratava do etólogo e psiquiatra António Bracinha Vieira, que também é ficcionista. Mas não: a senhora queria mesmo encontrar-se com o defunto autor dos Sermões e outra obra vasta e maravilhosa. Como não organizávamos sessões espíritas, não foi possível…

O silêncio é de ouro

Joaquim Manuel Magalhães – o poeta que, infelizmente, resolveu retalhar a sua obra há pouco tempo, reduzindo-a a quase nada – foi meu professor na Faculdade de Letras durante três anos. Era, digam o que disserem, um excelente professor, com uma cultura abrangente e uma grande capacidade de fazer com que os alunos reconhecessem e gostassem de coisas boas (não só literárias). Esses anos de universidade foram muito sacudidos por greves e, volta não volta, os transportes resolviam parar todos ao mesmo tempo e os professores decretavam que não havia aulas (umas coisas arrastavam outras, mas, mesmo com greves, ninguém ficava por ensinar). No entanto, Joaquim Manuel Magalhães, já um pouco farto de interrupções no programa, quando uma nova greve se anunciou disse que tinha carro e que, por isso, viria dar aulas a quem aparecesse. Apareceram seis pessoas, as que viviam perto e podiam ir a pé. Claro que não tivemos aula, estivemos apenas a conversar sobre o que cada um andava a ler. Recordo que, na altura, eu lia, fascinada, O Silêncio, de Teolinda Gersão, que fora professora de Joaquim Manuel Magalhães (e é autora de vários livros notáveis e, quanto a mim, bastante subestimada pelos leitores portugueses). Foi por causa deste pequeno romance tão profundo e bonito que o professor me emprestou o meu primeiro livro de Duras (Moderato Cantabile, numa edição de bolso em francês), fazendo-me descobrir uma autora de quem nunca mais me separei. Mas não é só por isso que O Silêncio merece destaque. Recomendo-o vivamente a todos – calados ou faladores.

Já falta pouco

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Miguel Real é o autor que há mais tempo me acompanha, pois, nas minhas mudanças de uma editora para outra, fui perdendo alguns autores pelo caminho – com grande pena minha, evidentemente; não só porque gosto deles como pessoas, mas porque, tendo feito a parte mais difícil em termos profissionais, que foi lançá-los como escritores quando ninguém sabia quem eram, me custou que fossem outros a aproveitar-se do seu sucesso. Miguel Real, porém, encontra-se entre aqueles que ficaram comigo e conta com a minha gratidão eterna. O seu próximo livro – As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia – está quase a sair (julgo que as livrarias o terão no dia 27) e, embora não traia o título e inclua mesmo as memórias da mulher de D. Carlos (fictícias, evidentemente), tem uma descrição do 25 de Abril que é dos capítulos mais fortes e surpreendentes da literatura portuguesa. Intitula-se «Um Rasgão no Tempo» e quem passou pela revolução não pode ficar indiferente (nem deixar de entender com a própria carne) esta descrição-consequência dos factos ocorridos naquele dia, numa espécie de enumeração interminável de altos e baixos entrançados de forma belíssima. Este episódio é, de resto, o ponto partida para a descoberta de um manuscrito com as memórias da rainha – «a francesa», como os Portugueses lhe chamavam – mas pode ser lido de forma independente pela sua intensidade.


 


Receios nenhuns

No seu blogue A Origem das Espécies, Francisco José Viegas responde ao meu post anterior, garantindo que os meus receios não têm razão de ser. Agradeço-lhe muito. Antes assim. Não quero ninguém zangado por minha causa.

Receios

Quando a gigante Porto Editora comprou o grupo Bertrand + Círculo de Leitores, houve muitas coisas que me preocuparam (até porque trabalho na concorrência, e o Manel trabalha na Porto Editora). Duas, porém, foram imediatas. A primeira tem que ver com o Prémio Literário José Saramago, atribuído a um romance em língua portuguesa publicado nos dois anos anteriores e assinado por um autor com menos de trinta e cinco anos. Quererá a partir daqui o grupo Porto Editora dar um prémio a um livro que, muito provavelmente, é de um concorrente? Pois não sei. Fazer desaparecer o Prémio Literário José Saramago, sobretudo depois da morte do Nobel português, seria, mais do que um acto de mau gosto, uma verdadeira afronta; mas, nos meus piores momentos, enceno a situação de o galardão passar a contemplar um inédito (e não um livro editado) que possa posteriormente integrar o catálogo de uma das editoras do grupo. Veremos. A outra preocupação prende-se com a revista Ler. Num país como o nosso, onde não há praticamente publicações literárias, seria uma machadada fortíssima acabar com ela, mas também acredito que os magros lucros que se calhar dá falem mais alto e dêem o golpe de misericórdia. A mim, que a leio desde o número zero, custa-me que desapareça. Mas também se diz por aí que o seu director é um dos nomes falados para a Cultura se o PSD ganhar as próximas eleições e o facto de ele ter estado na Universidade de Verão dos sociais-democratas pode ser um sinal de que não se trata apenas de um boato. Sem ele, a Ler seria a mesma coisa?

Simpatias

Nem sempre fiz exactamente o que gostava de fazer e nunca trabalhei nas editoras que eram os meus modelos antes de me iniciar no mundo editorial. Vinha de Letras e comecei a actividade numa editora conhecida e reconhecida justamente pela publicação de obras de divulgação científica e, embora tivesse adorado tudo o que lá aprendi (e foram nove anos), achava, na época, que seria muito mais feliz numa Assírio & Alvim, que publicava quase todos os livros de poesia que eu comprava e logo devorava. Criamos naturalmente simpatias por algumas editoras e antipatia por outras; e, neste momento, quero dizer que sinto uma grande simpatia-empatia pela Tinta-da-China, que não só faz livros bons, mas fá-los bonitos. Já tive ocasião, há mais de um ano, de ir a um programa de televisão elogiar a colecção de viagens dirigida pelo grande jornalista Carlos Vaz Marques. E, apesar de nessa altura ela só contar dois ou três títulos, a verdade é que não perdeu o pé e soube enriquecer-se com variedade e qualidade sempre que pôs nos escaparates um novo livro. Infelizmente, não consegui lê-los a todos e, dos lidos, continuo a preferir Na Pérsia, de Anne-Marie Schwarzenbach – viagem pela Pérsia que é também viagem interior belíssima e triste. Recentemente, porém, o Manel comprou (e está a ler) o Na Síria, de Agatha Christie, sobre o qual não escondo a minha grande curiosidade. Mas há que saber esperar, como noutras coisas da vida.

João Tordo fala de O Bom Inverno

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Traduzir o amor

Gosto de que pessoas em quem confio me aconselhem leituras e já aqui confidenciei que o meu romance de férias (um romance de peso, com mais de 500 páginas) me foi aconselhado por Ricardo Menéndez Salmón, autor de, entre outros, A Ofensa. Chama-se O Viajante do Século e assina-o um jovem argentino que dá pelo nome de Andrés Neuman. Costumo fugir dos romances extensos por pensar que, no mesmo tempo que preciso para um deles, posso despachar dois ou três. Mas, neste caso, não há arrependimento possível, pois trata-se de um dos melhores livros que li nos últimos tempos. De argentino, porém, não tem absolutamente nada; quando já tinha devorado cinquenta páginas, sentia-me a ler uma tradução de um autor checo ou alemão e, mais para a frente, nas cenas das tertúlias literárias (e não só), cheias de diálogos e pensamentos surpreendentemente ricos, pareceu-me até que podia estar metida num romance russo (mesmo que os russos tratem as mulheres de forma bastante diferente). Este viajante do século (Hans, um tradutor que trabalha enquanto viaja em pleno século XIX) chega a uma cidade donde, surpreendentemente, não consegue sair. Há várias razões que concorrem para essa impossibilidade, mas a mais tardia é a sua paixão arrebatadora por Sophie – uma personagem inesquecível que, tenho a certeza, faria as delícias de muitas feministas. A relação dos dois (carnal e literária) é dos episódios mais inventivos e poderosos que me passaram pelas mãos, pois os dois traduzem corpo e literatura ao mesmo tempo, sem nenhuma das actividades perder com a outra. Inteligente, culto e deslumbrante, este romance de grande fôlego é uma prova de que os jovens autores são capazes dos maiores feitos literários.

Pela boca morre o peixe

Tive o prazer, enquanto editora, de inaugurar o Fórum da FNAC Chiado com um lançamento. E nunca vi tantas cabeças voltarem-se quando, pouco antes do evento, a autora do romance quis ir à casa de banho e atravessou os antigos Armazéns do Chiado perseguida por um sem-número de olhares gulosos. Tinha quase um metro e oitenta, era bonita, chique e – pasme-se – de grande timidez e simplicidade. Chamava-se Carmen Posadas, ficara viúva havia menos de duas semanas e disse-me algum tempo depois que a viagem a Portugal fizera milagres pela sua disposição. Pela nossa boa-disposição fez também milagres o seu romance – Pequenas Infâmias – que era o segundo que escrevia e arrebatara naquele mesmo ano o Prémio Planeta. Tudo começa com um cozinheiro guloso, que não resiste a meter-se ao fim da noite na sua arca frigorífica para provar as magníficas trufas de chocolate que confeccionou umas horas antes e, zás, é lá encontrado enregelado e hirto na manhã seguinte. Quem matou o simpático chef e porquê? Pois bem, para isso será preciso ler este romance divertido, cheio de personagens deliciosas, onde – como em qualquer cozinha que se preze – também não faltam baratas, o que, em literatura, nem incomoda assim tanto.

O livro dos mortos

A extensa obra de um autor tem sempre momentos menores, mas um bom número de livros publicados ajuda qualquer escritor a consolidar uma carreira. Estranho é que alguém que escreveu quase nada sobreviva ao tempo e sirva de modelo a tantos outros. Este foi, pode dizer-se, o caso de Juan Rulfo, autor mexicano de umas meras trezentas páginas que comoveram, influenciaram e deslumbraram os seus confrades, de Borges a García Márquez, de Onetti a Neruda. Diz-se até que foi ele o pai do «realismo mágico» com o seu magnífico Pedro Páramo – um desses romances em que, por atropelos constantes da vida, só agora pude pousar os olhos (e deixá-los lá). Mas nunca é tarde para milagres. O princípio do livro é tão intenso que – tenho a certeza – nunca o esquecerei; e empurra-nos literalmente para a leitura de centena e meia de páginas tão desconcertantes que uma vez por outra até voltei atrás, convencida de que talvez tivesse estado distraída por segundos. Porém, o magnetismo depressa me devolveu à obra, onde os mortos ratam na vida alheia, são tão bisbilhoteiros e maledicentes como eram em vida e quase nunca perdoam a Pedro Páramo – o homem de quem o narrador vai à procura depois de saber que é o seu próprio pai. Um livro sem «senãos», excepto, talvez, o texto da badana chamar sul-americano a alguém que nasceu no México…

A rever e a aprender

Tenho uma grande admiração pelos bons revisores e cada vez encontro menos pessoas capazes de fazer uma boa revisão em todos os sentidos. Conheci revisores que descobriam todas as distracções dos autores (um deles, recordo, emendou uma conta mal feita a Pacheco Pereira na biografia de Cunhal) mas deixavam ir uma nota de rodapé três páginas adiante da respectiva chamada; trabalhei com outros que tomavam o texto como entidade abstracta e o reviam na perfeição gramaticalmente, mas deixavam passar todos os disparates (Maio de 86 por Maio de 68!) desde que a frase estivesse correcta (um deles entregava o livro revisto sem ter a mais pequena noção da história que ele contava); e encontrei pelo menos dois que adoravam apontar erros de palmatória a professores universitários ou achincalhar escritores (gente muito frustrada, evidentemente). Sempre houve de tudo… e até revisores bastante ignorantes. O meu pai contava que, quando era estudante de Direito, um dos seus professores (Manuel de Andrade, julgo) se queixava de que um dos revisores dos seus livros tinha a mania de alterar coisas por mero desconhecimento e que, uma vez, já farto disso, a seguir a uma frase que falava de um facto que tinha sido demonstrado à saciedade, não resistiu a escrever: «À besta do revisor: é mesmo saciedade, e não sociedade, hã?» Bom mesmo é quando não damos pelo revisor quando lemos um texto…

Inveja

Um dia destes, uma das leitoras deste blogue criticou o meu orgulho parvo ao confessar-me capaz de ler mais de mil páginas em quinze dias. Expliquei-lhe que não era bem isso, mas apenas satisfação por ter conseguido fintar o trabalho e ler só o que me apetecia nessas duas semanas. Contudo, quero que ela saiba (e também todos os leitores deste blogue) que não sou perfeita e, como toda a gente, tenho direito aos meus defeitos e pecados. Por exemplo, de vez em quando, sinto inveja – essa coisa sinistra – do que os outros andam a ler. Quando o Manel e eu vamos a uma livraria e compramos um livro que nos seduz a ambos, se ele começa primeiro, eu fico invejosa; não lho digo, mas gostava de o apressar e irrito-me quando ele abandona displicentemente o exemplar no braço do sofá para ver os resumos do futebol, enquanto eu para ali fico, como diz o povo, a aguar. Da última vez que isto me sucedeu foi com o Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo. Era suficientemente pequeno para o poder ler todo num sábado, mas o Manel pegou-lhe nesse mesmo sábado. Fiquei invejosa. O livro tinha um início fortíssimo, que lera na livraria, e custou-me esperar. Levei-o uns dias depois numa viagem de comboio ao Porto e li-o entre a ida e a volta. É talvez o primeiro livro sincero e desapiedado sobre os nossos ex-colonos em África, contado pela filha de um deles. Politicamente incorrecto, claro, mas isso torna-o ainda mais interessante. A ler, evidentemente.

A música da fome

Prometi a mim mesma ler, durante as férias, Tudo O Que Eu Tenho Trago Comigo, de Herta Müller. Ninguém ganha o Nobel da Literatura por acaso e sentia-me verdadeiramente ignorante por nunca ter lido nada desta vencedora nem ter ouvido falar dela até à atribuição do prémio. Mas Portugal tem destas coisas e, embora sejamos bastante proficientes em termos de línguas estrangeiras, a verdade é que parecemos capazes de traduzir apenas do inglês, do castelhano e ainda (mas cada vez menos) do francês. A literatura de língua alemã contemporânea é, pois, uma perfeita desconhecida para nós – e isso justifica, embora apenas em parte (porque havia, afinal, alguma coisa traduzida), o meu completo desconhecimento desta senhora. Perdão: desta Senhora, com maiúscula, porque basta ler este romance para perceber que estamos diante de uma escritora notável. Ela conta, de uma forma belíssima e horrível ao mesmo tempo (se tem estômago de princesa, é melhor nem se atrever a esta maravilha), a permanência de um jovem durante cinco anos num campo de trabalho na União Soviética. Um jovem de dezassete anos que acaba de descobrir a sua homossexualidade e parte para um castigo que não merece, achando até que lhe fará bem distanciar-se da família e do seu pequeno mundo. Um jovem alemão que tem o azar de morar numa Roménia que capitulou perante a Rússia e declarou intempestivamente guerra à Alemanha e que é levado, como milhares de conterrâneos, a pagar uma factura que não deve. Tudo o que tem leva consigo, é certo, mas o que encontra nesses cinco anos é apenas fome, uma fome que nunca passa e se torna o tema recorrente de uma narrativa poética avassaladora. O livro podia, inclusivamente, intitular-se (como o romance do Nobel de 2008, Le Clézio) A Música da Fome – que também é muito belo, mas chega mais tarde ao corpo e ao coração. E, baseado no testemunho de um sobrevivente que a autora acompanhou ao longo de vários anos, fornece uma informação preciosa que muitos de nós desconhecemos e que é preciso sabermos para que não se repita.