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A mostrar mensagens de junho, 2013

Prisões

Está-se preso por muitas razões – e a ideia básica de que os reclusos são todos gente iletrada e desinteressada dos livros não corresponde à verdade. Basta pensarmos que Jean Genet ou Oscar Wilde estiveram presos para arrumarmos o preconceito num canto que fique a ganhar pó até que alguém o limpe e faça desaparecer de vez. Miguel Horta, pintor e animador cultural, a convite da Casa de Camilo e com o apoio da organização da «Guimarães, Capital da Cultura», criou um programa na biblioteca do Estabelecimento Prisional de Guimarães baseado n’As Memórias do Cárcere, de Camilo Castelo Branco. A obra serviu basicamente de pretexto para um número de reclusos criarem as suas próprias memórias, relacionando biografia e literatura. O projecto inclui a edição de um livro, a realização de um documentário e ainda uma curta-metragem. Miguel Horta tem experiência nestas coisas, pois há dez anos que trabalha em prisões em colaboração com o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, mas, citado num artigo de Andreia Brites na revista Blimunda da Fundação José Saramago, confessou que a experiência de Guimarães foi muito além do que é costume, em número de horas e nos resultados (entre outras coisas, descobriu um jovem recluso que tinha o 12.º ano que considera um grande poeta). Excepcionalmente, os detidos tiveram licença para visitar a Casa de Camilo e ouviram a história do escritor; um deles, que tivera ordem de libertação nesse dia, adiou a saída só para poder fazer a visita. Agora ficamos à espera destas Novas Memórias do Cárcere com muita curiosidade.

Telepatia

É francamente louvável o trabalho dos humoristas que, na rádio, nos jornais ou na televisão, têm de construir diariamente um texto com graça e substância – uma tarefa seguramente muito difícil, mesmo que a criação se traduza apenas em meia dúzia de linhas ou quatro vinhetas com balõezinhos. Obriga decerto a uma grande atenção à actualidade, a muito tempo a ler jornais de todo o mundo, implica espírito crítico e capacidade para a sátira, enfim, não é para qualquer um. Presumo que os humoristas tenham todos traços comuns, sejam afins em muita coisa, e que o mesmo clique os desperte quando ouvem uma história. E confirmei-o no sábado passado quando lia os jornais do dia e me apercebi de que, em dois diários diferentes, os cartoons não só se referiam ao mesmo assunto, como o abordavam exactamente da mesma forma. Aparentemente, um estudo recente mostrou que a maioria dos europeus acredita que o dinheiro vai desaparecer e ser substituído por outras formas de pagamento. Pois no Diário de Notícias José Bandeira, o criador de Cravo & Ferradura, afiançava que, quanto a isso, os Portugueses estavam muito à frente dos outros europeus, já que em Portugal «o dinheiro simplesmente não aparece e pronto»; no Público, Luís Afonso, o pai dessa tira deliciosa que é Bartoon, avançava que, efectivamente, «os Portugueses […] acreditam que o dinheiro já desapareceu». Parecia, em suma, que tinha havido uma espécie de telepatia.

Ídolos

Na semana passada, na crónica diária que escreve para o Público, Miguel Esteves Cardoso dizia estar arrependido de não ter conhecido pessoalmente um dos seus ídolos – Samuel Beckett – com quem trocara correspondência e que se oferecera numa dessas cartas para um encontro ao vivo. Não teve coragem, mas, quando soube da morte do dramaturgo, teve uma pena imensa de não ter conversado com ele – e, por isso, incentivava os leitores a não cometerem o mesmo erro se tivessem oportunidade de estar com os respectivos ídolos. Para mim, infelizmente, já não vai dar – porque o escritor que mais admiro, aquele de quem amo cada verso (William Buttler Yeats, poeta irlandês que ganhou o Nobel nos anos 1930), já não está vivo há muito tempo, na verdade morreu muito antes de eu ter sequer nascido. Mesmo assim, sei, por experiência própria, que o convite de Miguel Esteves Cardoso não é isento de riscos, tanto mais que, como editora, tive oportunidade de conhecer pessoalmente muitos autores portugueses e estrangeiros em festivais literários e, em certos casos, quase teria preferido ter-me ficado pela leitura dos seus livros, tão antipáticos eram. Em todo o caso, conheço a excitação que pode provocar estar ao lado de um «grande», seja de que área for, e nunca me conseguirei esquecer da estranha sensação que foi viajar numa carruagem de metro em Londres com Paul McCartney – toda a gente a sussurrar, a apontar, a sorrir, e eu feita parva, a jurar a pés juntos que não, não podia ele. Tenho um amigo que viajou de avião ao longo de sete horas ao lado de uma grande actriz norte-americana e cometeu o mesmo erro; quando se levantou no fim da viagem, arranjou coragem para lhe dizer que ela era mesmo parecida com… Pois, com ela própria! Quando percebeu a oportunidade que perdeu, nunca mais se refez.

Matéria-prima

Ouvi uma vez um crítico dizer que a ficção espanhola era muito mais rica do que a portuguesa porque os portugueses em geral tinham vidas demasiado pacatas – casa-trabalho, trabalho-casa –, conversavam pouco, estavam pouco com outras pessoas, ouviam poucas histórias. Não sei se é verdade, mas é lógico que uma vida cheia (e se for de problemas, ainda melhor) pode oferecer matéria-prima inestimável para a construção de ficções várias. Estive recentemente no Instituto Cervantes para assistir a um clube de leitura sobre um livro da chilena Andrea Jeftanovic, descendente de jugoslavos (quando os avós emigraram ainda havia e haveria Jugoslávia), e, ao ouvi-la, convenci-me de que a sua família era um programa completo de ficção. Em primeiro lugar, ela contou que havia judeus, católicos e ortodoxos convivendo na mesma casa, razão pela qual tão depressa festejavam o Natal cristão como a Páscoa judaica – e isto sem nenhuns problemas. Depois, quando houve a guerra dos Balcãs, aqueles jugoslavos todos que estavam há décadas no Chile passaram, de repente, a ser uns sérvios e outros croatas e, apesar da distância a que se encontravam do cenário de guerra, zangaram-se uns com os outros e alguns, inclusivamente, deixaram de se falar. Por fim, ela, que nascera já em Santiago mas de cabelos louros e olhos azuis, era sempre vista como uma espécie de estrangeira mas também não sentia pertencer a esse país europeu desmembrado aonde nunca tinha estado. Há vidas que, efectivamente, parecem histórias…

Uma ponte nunca vista

Mathias Énard costuma ser um escritor difícil, mas desta vez presenteou-nos com um curto romance extraordinariamente acessível que até deve ser oferecido a adolescentes, pois dele retirarão um imenso prazer. Chama-se Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes e tem como protagonista o grande escultor Miguel Ângelo, que anda zangado com o papa Júlio II por este não lhe ter pago o que lhe devia e, um pouco enraivecido com a situação, resolve aceitar um convite do sultão de Constantinopla para desenhar uma ponte sobre o Bósforo. Temente a Deus, o argumento que o convence a partir (e, mesmo assim, às escondidas) é o facto de Leonardo da Vinci ter respondido anteriormente ao mesmo convite, mas, pelos vistos, se ter saído mal, realizando o projecto de uma ponte inexequível. Já na estrondosa Istambul, o seco Miguel Ângelo conhecerá um poeta de Pristina que será o seu companheiro mais constante (e com o qual terá uma relação que, para mim, é o melhor desta novela) e uma personagem obscura (homem ou mulher, logo veremos) que foi expulsa de Granada e faz parte dos refugiados desse reino perdido. Com capítulos curtos e extrema musicalidade, o livro de Énard é uma obra de rara beleza sobre a arte, a amizade, o amor (ou a incapacidade de amar) e ainda uma ponte que ninguém chegou a ver (mas o desenho subsiste) e os pormenores que o grande escultor de Florença trouxe na memória dessa viagem e usou, aqui e ali, nas obras enormes que conhecemos. Prodigioso.

Escritores no Porto

Como se sabe, este ano não se realizará a Feira do Livro do Porto pela primeira vez em várias décadas. O argumento de Rui Rio de que não tem porque ajudar os editores cai por terra imediatamente se pensarmos que os ajudou desde que ocupa as funções que ocupa – a menos que esteja a assumir a sua incompetência nos anos anteriores, mas não creio. De qualquer modo, os escritores existem para lá da Feira do Livro do Porto e sabem que devem à Invicta a sua participação. Assim, sob a liderança de Luís Miguel Rocha e com a especial colaboração de Manuel Jorge Marmelo, valter hugo mãe e Miguel Miranda, decidiram juntar-se e oferecer na Praça da Liberdade leituras, tertúlias e sessões várias para não frustrar o público leitor da segunda cidade do País. O grupo Não há feira, mas há escritores conta com o contributo de muitos nomes da literatura nacional, nem todos oriundos do Porto, seja de forma presencial, seja através de textos escritos para o efeito. As sessões decorrem a partir das 17h00 dos sábados 22 e 29 de Junho. E ainda existe um blogue onde os que não podem ir, mas se sentem naturalmente indignados com o vazio, escrevem o que pensam sobre a matéria. Custe o que custar ao senhor Rio, vai haver escritores no local onde se costuma realizar a feira – e estão de parabéns sobretudo os que se lembraram da iniciativa. Para eles, o meu extraordinário abraço.

Professores de Tróia

Como os professores estão nas parangonas nos jornais, é deles que hoje falarei. Na última Feira do Livro de Lisboa, veio ter comigo uma professora de Língua Portuguesa que se apresentou, entre outras coisas, como leitora deste blogue. Disse-me que sabia que eu não tinha simpatia pelo presente Acordo Ortográfico (AO) e entregou-me meia folha A4 com um texto em que se explicava sumariamente que as escolas vivem hoje um autêntico caos linguístico, coexistindo no ensino da língua portuguesa três grafias: a do português pré-AO, a do AO e ainda outra, que é uma mistela de ambas e em que tudo parece ser permitido. Os maiores prejudicados por esta situação serão, muito naturalmente, os alunos, que aprendem uma coisa num ano e outra noutro, vêem os pais escrever de forma distinta daquela em que estão a ser ensinados e são penalizados nas notas pelos erros que muitos pais e professores não acham sequer que sejam erros. Diz ainda a nota que os professores são os Cavalos de Tróia desta operação com a qual frequentemente não concordam, vendo-se obrigados a ir contra a sua consciência. Em suma, pelo futuro dos alunos, criaram o grupo Professores contra o AO no Facebook e pedem a quem os apoie que adira em http://www.facebook.com/groups/178207905663865/ ou siga o blogue Português de Facto (http://portuguesdefacto.wordpress.com/). Se quiserem dar a vossa opinião, os professores em causa (ou pela causa), agradecem.

A portuguesa

Falei aqui dela antes de existir e temo mesmo que tenha deixado de existir temporariamente agora, que volto a dedicar-lhe um post. Falo da Granta, essa revista que é um livro assinado por muita gente e tem já edições em várias línguas e vários países. Mais especificamente da portuguesa, dirigida por Carlos Vaz Marques e publicada com a chancela da Tinta-da-China. O número de estreia, lançado no início da Feira do Livro de Lisboa, tem o Eu como tema central e é sobre ele que discorrem muitos autores portugueses e estrangeiros. O eu, segundo o director da revista, é o ponto de partida literário por excelência. E excelente é também o primeiro texto desta revista literária, da autoria de Dulce Maria Cardoso, que se joga entre a ficção e as memórias e anda muito rente à filosofia. A fazerem-lhe companhia nas páginas que se seguem Saul Bellow, o Nobel turco Ohran Pamuk, Valter Hugo Mãe ou Hélia Correia, a par de nomes menos sonantes, como os de Valério Romão ou Ricardo Dias Felner. Há ainda outros, claro, mas a revista está aí para ser descoberta por quem gosta de ler e também das fotografias de Daniel Blaufuks, cujo «eu» se reflecte curiosamente quase sempre em coisas alheias. Dizem-me que esgotou – mas, se for verdade, espero que a reeditem em breve.

Servidões

De cada vez que sai um novo livro de Herberto, é como se fosse o último. Quando foi publicado aqui há uns anos A Faca não Corta o Fogo, dizia-se que não haveria mais nenhum depois desse e correram muitas lágrimas, porque a edição foi pequena demais para o número de leitores interessados. Mas Herberto Helder não se esgotou, e Servidões, recentemente posto à venda, é para já o último. Para não repetirem o desgosto que sentiram nessa altura, muitos leitores amputados do livro anterior, assim que ouviram dizer que Servidões ia sair, correram às livrarias a reservar o seu exemplar. No dia em que começou a ser vendido no pavilhão da Feira do Livro de Lisboa da Assírio & Alvim, as pessoas queriam levar aos cinco e aos seis de cada vez, provavelmente satisfazendo encomendas de amigos e familiares. E tudo porque Herberto não quer fazer reedições dos seus livros e, ainda por cima, impõe uma tiragem relativamente pequena (e o editor não tem como não cumprir esta servidão). Quem arranja arranja, quem não chega a tempo, paciência. Talvez esta restrição faça, efectivamente, com que os livros desapareçam mais rapidamente das lojas e dos armazéns e não fiquem para aí a aboborar e a criar bolor desnecessariamente – uma boa ideia, portanto. Mas não será igualmente um pouco estranho que um poeta assim amado e admirado por tanta gente não queira ter mais do que x leitores, ou seja, não chegue provavelmente àquele jovem que só agora começou a gostar de poesia mas não podia fazer ideia da urgência com que tinha de comprar o livro do grande mestre ou a um leitor fiel que, por mero acaso ou falta de emprego, emigrou há pouco e vai ficar sem ele? Há também quem diga que tudo isto é uma operação de marketing e que, se o livro não estivesse condenado a uma única edição, provavelmente não desaparecia do mercado num ápice, como tem acontecido sempre. Conheço pelo menos uma pessoa que nunca leu Herberto na vida e que agora foi a correr adquirir a raridade, quiçá para a entalar numa estante. Pode ser tudo e mais alguma coisa, evidentemente. O que se me oferece dizer, apesar de tudo, é que quem conseguiu um exemplar o deve ler. Mesmo que não seja o último.

Contar a várias mãos

Há já vários anos que o editor Carlos da Veiga Ferreira – actualmente da Teodolito, mas ao leme da Teorema durante muitos anos – faz uma joint venture com a FNAC para a edição anual de um pequeno livro de contos (que este ano assinalou o 15.º aniversário da FNAC em Portugal), vendido ao preço simbólico de 4 € e cujas receitas revertem integralmente para a AMI. O Prazer da Leitura, assim se chama a pequena colectânea, é um livro quadrado de capa dura lançado quase sempre por ocasião do Dia Mundial do Livro, e pelas suas páginas já passaram muitos nomes de escritores. Mas há sempre autores que o editor descobre que ainda não convidou e, desta feita, salta à vista na capa o grande J. Rentes de Carvalho (que é, de resto, um talentoso contista) ao lado de três respeitáveis jornalistas – o também poeta Pedro Mexia, o também romancista Francisco Duarte Mangas e a também crítica literária Dóris Graça Dias – e ainda do ficcionista Sandro William Junqueira, de que aqui já falei a propósito do livro Um Piano para Cavalos Altos. A proposta é bastante variada e promete leituras para todos os gostos. E sempre se ajuda uma boa causa.

Uma história a norte

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Hoje, enquanto os extraordinários leitores do blogue estiverem a ler este post, já estarei muito longe do meu habitual gabinete de trabalho. Também há autores – e dos bons – longe da capital, e participarei ao fim da tarde num lançamento de um romance no Algarve. O escritor neste caso chama-se José Carlos Barros e, apesar de transmontano, é ali que vive e trabalha. O seu livro – Um Amigo para o Inverno – regressa, porém, às suas origens nortenhas e baseia-se numa história verdadeira que aconteceu ainda no tempo da ditadura. É, aliás, belíssima, como a escrita do autor, que lembra Torga aqui e ali e nos deixa de boca aberta a olhar as montanhas, os campos, as lareiras que ardem nas casas dos mais pobres. E fala de um sargento que, em 1971, é deixado pela mulher com quem vivia sem perceber porquê, na mesma altura em que é chamado a chefiar o posto da GNR numa Vila da qual nunca se diz o nome. À chegada, perceberá imediatamente que a sua presença vai ser disputada à direita e à esquerda – e esta esquerda é nada mais nada menos do que uma célula do Partido Comunista de que poucos ouviram dizer ter alguma vez existido no Norte. Um assassínio inesperado e a respectiva investigação irão, porém, ensinar-lhe muita coisa que se passou nos últimos quinze anos e pô-lo a par de algumas notícias que, curiosamente, se prendem com a sua própria vida sentimental e explicam o que recentemente lhe aconteceu. Um Amigo para o Inverno é mais um romance que chegou à final do Prémio LeYa e hoje será apresentado por Carlos Brito. Se estiver no Algarve, pode lá dar um saltinho.


 


A arte de entrevistar

Há jornalistas que fazem um pouco o que calha e outros que fazem quase tudo, mas há alguns jornalistas portugueses que são sobretudo conhecidos pelas suas entrevistas, como é o caso, por exemplo, de Carlos Vaz Marques, um notável entrevistador da TSF que há anos conduz um programa chamado Pessoal e Transmissível, Ana Sousa Dias, que se tornou conhecida num programa de televisão chamado Por Outro Lado, que nos trouxe personalidades fascinantes (nunca esqueci da entrevista a Aldina Duarte, bem como a de uma freira missionária em Moçambique), ou ainda de Anabela Mota Ribeiro, que há anos e anos se dedica a entrevistar pessoas interessantes de variadíssimas áreas, muitas das quais para revistas semanais dos principais jornais portugueses (uma das últimas entrevistas, bastante badalada por causa do presumível insulto a Cavaco Silva, foi a Miguel Sousa Tavares). Infelizmente, como os jornais vão quase sempre parar ao lixo ou à reciclagem e não temos o hábito de gravar estes programas da rádio e da televisão, é muito raro podermos reler, rever ou re-ouvir peças fascinantes. Excepto no caso de Anabela Mota Ribeiro, que teve agora a belíssima ideia de reunir os seus trabalhos num site para quem lá quiser ir ler e consultar. Para o visitar, basta carregar na ligação que está aí do lado direito, entre outros Amigos dos Livros. Pode ser que um dia os outros dois jornalistas façam o mesmo.

Rasgão

Nas duas últimas décadas senti que houve uma grande evolução em três formas de arte – a fotografia (que já tinha nomes de peso, mas ganhou claramente atenção do público, da crítica e até dos mercados), a ilustração (que é hoje de alto nível) e, na literatura, o romance gráfico, do qual já aqui dei exemplos de grande qualidade. Ora, por falar em romance e em gráfico, veio parar-me recentemente à mão uma obra bem interessante que dá pelo nome de Diário Rasgado, da autoria de Marco Mendes. Embora a designação «diário» aponte para um texto de teor autobiográfico, o autor avisa que as suas pranchas são, afinal, ficções, mesmo que baseadas em gente e factos reais (e eu consigo reconhecer, pelo menos, o rosto dos seus familiares em alguns desenhos, porque sou editora do irmão e já travei conhecimento com outros parentes); mas, se essa designação pode levar a uma espécie de engano, a verdade é que encaixa bem no resultado, que é uma sucessão de acontecimentos que decorrem, aparentemente, em dias diferentes de uns quantos anos, marcando a vida do protagonista. Algumas das situações – nomeadamente as que dizem respeito à relação amorosa – atravessam todo o livro, apresentando, de resto, um desfecho bastante realista e singular. Outras constituem pertinentes comentários sobre o estado do País, as dificuldades dos trabalhadores a recibo verde, o desemprego dos jovens licenciados. Outras ainda são uma espécie de intervalos jocosos ou desabafos que cruzam todas as vidas. O desenho é primoroso – e há um toque agradavelmente despreocupado quando por vezes aparecem textos riscados ou corrigidos à mão, tornando mais verosímil a intenção de aproximar a ficção da realidade. Às vezes duro, às vezes escatológico, Diário Rasgado faz desejar que os dias do autor não se fiquem por este livro.

Lobo com pele de cordeiro

Pessoa escreveu algures que só era um bom livro para crianças aquele que pudesse ser lido com prazer por adultos também. O livro de que hoje falarei pertence a uma colecção aparentemente juvenil (as ilustrações ajudam a vê-lo assim, bem como a editora que o publicou – a Planeta Tangerina – que é sobretudo conhecida pela edição de livros infantis), mas está longe de ser o que parece (daí o título do post) e deve ser lido por todos os adultos que gostem de uma história séria, profunda e contada com muita arte. Se virem, pois, um livro extremamente azul pousado na mesa das crianças de uma livraria (a autora até já anda de cabelos em pé por causa disso), por favor não passem a correr. Fiquem, folheiem e comprem, porque Irmão Lobo, de Carla Maia de Almeida (com ilustrações de António Jorge Gonçalves, que são boas, mas na verdade não fazem muita falta a não ser para, no final, nos mostrar uma casa em ruínas), é uma pérola sobre uma família típica e atípica – especialmente sobre Bolota, a filha mais nova (e mais nova também do que seria suposto na sua conjuntura), e o pai, uma grande personagem que se chama tão depressa Alce Negro como Homem do Gelo e é o companheiro desta miúda especial numa «expedição» que, desde o início, se pressente dramática, mas vai muito mais longe do que imaginámos. Não se pense, porém, que Irmão Lobo é uma aventura recheada de peripécias, como é apanágio dos livros juvenis; pelo contrário: trata-se de uma narrativa absolutamente actual sobre o desemprego e os seus efeitos numa família que já teve casa com jardim, cão da neve de olhos azuis e uma vida que, infelizmente, foi acabando (mais para uns do que para outros, mas para todos sem excepção). Sem lamechice nem pedagogia barata, este livro fala de coisas muito difíceis e muito importantes e, por isso, precisa de ser arrumado nas estantes (depois de lido, evidentemente) de toda a gente que se preocupa com o presente e com o que ele pode fazer ao futuro dos mais novos. Numa palavra: Maravilhoso.

Ler e ouvir

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É já hoje que faremos o lançamento de A Última Canção da Noite, o segundo romance de Francisco Camacho, recentemente publicado pela Dom Quixote. É um verdadeiro page-turner que tem uma espécie de banda sonora (basta ler os títulos dos álbuns mencionados ao longo do texto) e cujo enredo inclui o desaparecimento de um músico de sucesso e o seu encontro com o homem a quem vai revelar a sua história (na verdade, trocarão ambos experiências, pois o ouvinte também tem muito que contar). A apresentação, na Livraria Ler Devagar da Lx Factory, será feita por João Miguel Tavares e Zé Pedro (sim, o dos Xutos). Espera-se uma enchente de boa-disposição. Se quiser, apareça!


 


Um rato pariu a montanha

Quando no mês passado acompanhei Nuno Camarneiro a uma sessão na Livro do Dia, em Torres Vedras, o proprietário ofereceu-nos a ambos, no fim da sessão, um livro que publicara (a livraria também se dedica à edição) intitulado Mister Mouse ou a Metafísica do Terreiro (do autor francês Philippe Delerm) que achava não ter tido o acolhimento da crítica e dos leitores que efectivamente merecia. Li-o de um fôlego (até porque tem poucas páginas) e achei-o realmente uma delícia. Mr Mouse, o protagonista, é (nem podia deixar de ser) um rato, um rato muito especial – e é a sua vida quotidiana, na companhia de Emily, a mulher, e dos ratinhos Morty e Jenny, os filhos, que nos é descrita na novela através de pequenos episódios coloridos e inteligentes. Mr Mouse tem uma quedazita para a metafísica, gosta de fumar cachimbo e de comprar no comércio tradicional, mas sobretudo de escrever uns textos autobiográficos que mostrou a um escritor conceituado que admira muito. E é também um pai babado (o que por vezes aborrece um bocadinho os filhotes). Pois bem: este rato do campo (vive numa vilazinha que parece simpática) é um pouco cada um de nós, com os seus dilemas, as suas dúvidas e as suas alegrias inconfessáveis. Um bonito texto que alguns adolescentes com queda para a filosofia também apreciarão.

Filmes

As palavras levam-nos por vezes aonde não esperávamos e ajudam-nos a desenvolver a nossa veia de ficcionistas (ou, quiçá, uma imaginação delirante). Um dia destes estava a ler o jornal Público a correr – como acontece quase todas as manhãs – e a passar os olhos pelas gordas e, de repente, os meus olhos arregalaram-se com o título de uma coluna: «Ressurreição de Visconti confirmada em Vicenza.» Sou uma grande admiradora de Lucchino Visconti e apreciaria bastante o seu regresso à vida e ao cinema, pois neste século ainda não encontrei um realizador com o seu bom gosto e a sua elegância; mas que anunciassem a sua ressurreição pareceu-me, ao mesmo tempo, um reles golpe publicitário do município de Vicenza para se fazer importante e levar até lá gente de todo o mundo arrepiada com o milagre. Brinco, claro, mas foi ao autor de filmes como Rocco e os Seus Irmãos ou O Leopardo que aquelas palavras me levaram. O meu delírio acabou, contudo, mal li as primeiras linhas da notícia: estávamos, afinal, na página de Desporto e Visconti é um ciclista italiano que, pelos vistos, deu a volta por cima e venceu quatro etapas do Giro (a volta a Itália em bicicleta). Tenho de estar mais atenta aos cabeçalhos da próxima vez para não me pôr a fazer filmes…

O que ando a ler

Para além de andar a ler, também ando a tentar livrar-me de umas tendinites estuporadas com uma fisioterapia que tem um lado doloroso (a massagem, o exercício, as ondas de choque) e um lado entediante: o ficar ligada a umas maquinetas às meias horas, sentada numa cadeira sem fazer nada. Percebi que, mesmo que apenas com uma mão, conseguia ir passando páginas e ler um livro não muito longo em duas sessões. O último que foi comigo chama-se Tudo É e não É e assina-o Manuel Alegre, com quem o protagonista – o escritor António Valadares – tem algumas afinidades: desde logo, o facto de escrever, mas também alguma da matéria com que sonha. O sonho é, de resto, o grande tema deste romance, que nos traz um Valadares queixando-se a um amigo psiquiatra de ter sonhos recorrentes e algo obsessivos, sonhos que terminam quase sempre com o recepcionista de um hotel a telefonar-lhe para o quarto, dizendo-lhe que se despache, pois o autocarro vai partir (para onde, não sabemos – nem ele); mas o escritor perdeu o casaco, tem a mala por fazer e invariavelmente chega tarde demais. Do pedido do psiquiatra para que passe esses sonhos a escrito, nasce uma narrativa deliciosa, crítica e bem-humorada, na qual às tantas o sonho é matéria de ficção (ou já só ficção) e parece sonhar-se o que se deseja, e não o que o sonho quer que se sonhe, sobretudo quando o aparecimento em sonhos de uma mulher misteriosa é quiçá o reflexo da mulher que Valadares deixou um dia à sua espera quando teve de fugir para não ser preso. Com alguns pontos de contacto com Engano, de Philip Roth, de que falei aqui no blogue no mês passado, este romance muito actual vale bem a pena (e faz, obviamente, esquecer o tédio de qualquer fisioterapia).