Armados em bons
Um dia destes, chamou-me a atenção um anúncio de página inteira com um ar pré-natalício publicado num suplemento cultural de um jornal diário. Tratava-se de uma campanha aparentemente a favor das crianças que não têm dinheiro para comprar livros e apelava ao nosso sentido de generosidade, caridade ou dever, propondo-nos que comprássemos um livro para essas crianças e o depositássemos num «livrão» – recipiente donde, em Dezembro, os livros seriam retirados e entregues a crianças de determinada instituição. Assim, à primeira vista, uma ideia louvável, claro; eu até tenho em casa muitos livros infantis repetidos ou dispensáveis que não me importaria de ir pôr no dito livrão – e também não me escusaria a comprar mais um ou dois nesse espírito de missão que se traduz em dar livros a quem quer mas não pode ler. O anúncio era, porém, de uma conhecida cadeia de livrarias portuguesa e, no livrão, afinal só podem colocar-se livrinhos acabados de comprar em qualquer das suas lojas... Sim, leu bem. Um negócio para a respectiva livraria, claro, mas disfarçado de acto beneficente... Sem contar com o custo do anúncio – que não se pode desdenhar em tempos de crise – e, provavelmente, da construção de livrões vários, tudo o mais é lucro limpo e sem osso. Nunca gostei muito dos que se armam em bons...
Incrível! Não tinha percebido que só queriam livros acabadinhos de comprar nas lojas deles. É saber os nomes das entidades que os receberão e ir lá directamente entregar os nossos livros.
ResponderEliminarInacreditável! Pensei que se pudessem colocar todos os livros. Acabaram de perder uma cliente.
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ResponderEliminarNOJO!
Quando penso que já não possível ser surpreendida com os desmandos deste mundo, eis que aparece sempre alguém capaz de imaginar o inconcebível
ResponderEliminarAna Cristina Silva
O anúncio dessa cadeia de livrarias passa na rádio também. A campanha de publicidade...custa dinheiro e tem de ser paga. Reconheço que o departamento de marketing que lançou essa campanha tem uma grande capacidade de imaginação, pena é que seja inversamente proporcional à ética que deviam ter e ética ou se têm..ou já não se aprende.
ResponderEliminarJá ouvi o anúncio e nunca pude imaginar que as condições seriam essas. Pensei, aliás, que era uma pena não terem livrões em mais cidades... Lamentável...
ResponderEliminarTenho duas perguntas: qual é a cadeia de livrarias? E se alguém colocar nesses livrões " livros não comprados em qualquer das lojas da dita?
ResponderEliminarOlhe que tenho lido que a iniciativa pede sim "livros escolares usados"...
ResponderEliminarhttp://bibliotecariodebabel.com/geral/vidros-no-vidrao-livros-no-livrao/
Isso foi há dois anos. Agora a história é outra.
Eliminarhttp://www.ionline.pt/conteudo/88604-livrao-o-banco-alimentar-dos-livros-criancas
Sem palavras...
Vamos lá todos entregar livros usados e comprados noutro lado, porque não?
Lamentável, de facto. Porém, não nos podemos esquecer que vai haver crianças que irão receber os livros e lê-los!
ResponderEliminarCom efeito, é um pouco manhoso. Poder-se-ia argumentar que não é muito diferente das campanhas do Banco Alimentar contra a Fome nos hipermercados; mas no caso presente bens usados seriam da mesma utilidade e suscitariam maior adesão. Só que não dariam dinheiro a ninguém, claro está.
ResponderEliminarHá dois anos, salvo erro, esta iniciativa dedicava-se a livros escolares em segunda-mão; agora, resolveram ganhar umas coroas com a caridade. País de espertos.
Até adivinho qual é a livraria...
ResponderEliminarJá algum(a) dos(das) indignados(as) contribuiu para o Banco Alimentar contra a Fome nos supermercados? E levou o arrozinho de casa? Então?
ResponderEliminarAs campanhas do Banco Alimentar não privilegiam uma cadeia de supermercados e os supermercados não põem anúncios de página inteira a anunciá-las.
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EliminarA questão é saber se se pode comprar um pacote de arroz e não se pode comprar um livro. Ou se a iniciativa é má só porque foi publicitada. Ou se era melhor que a dita rede de livrarias tivesse ficado quieta e calada. Ou se há boas iniciativas para vender livros e outras más. Se é melhor, já que falamos em supermercados, que haja cadeias de livrarias que têm à venda livros acabados de sair em promoções de "Pague 3 e leve 4". Ou se... ou se...ou se...
Penso que seria uma atitude de muita elegância dessa livraria se, apesar de incitar à compra dos livros nas usas lojas, aceitasse também no seu livrão livros usados ou comprados noutros sítios. Fazia publicidade na mesma e sempre era mais diplomática.
EliminarPara além de os alimentos não se enquadrarem na categoria de produtos passíveis de serem "consumidos" em segunda mão, parece-me que nenhuma cadeia de hipermercados adere à iniciativa exigindo à cabeça que a compra seja feita as suas lojas.
EliminarAliás, a recepção dos alimentos é feita fora das linhas de caixa, pelo que se quiser, pode mesmo levar o "arrozinho" de casa.
Sim, esta indignada vai estar no armazém do Banco Alimentar a separar alimentos durante o fim-de-semana.
EliminarRespondendo a uma pergunta antes feita, já que que custa sempre \"chamar os bois pelos nomes\", presumo que a livraria é a Bertrand. Também não devo andar longe da verdade se disser que todos os residentes em Portugal contribuintes deste blogue já contribuíram também para o Banco Alimentar, e não apenas os que se presumem donos de toda a moralidade, inteligência, ortografia e filologia, entre outros. Eu tendo a acreditar nos meus semelhantes antes de acreditar em mim próprio, a quem não tenho, aliás, em grande conta, ou levo demasiado a sério. Resta dizer, já agora, que no próximo fim-de-semana o Banco Alimentar estará nos mercados supremos do país:). Pereira Serra, filólogo - mas ser humano não isento de erros (de ortografia, gramaticais e outros)e voluntário do BA, que agora volta ao silêncio
ResponderEliminarPareceu-me uma boa ideia porque no final haverá crianças a receberem livros.
ResponderEliminarAo menos a Bertrand não deita livros ao lixo como a Leya. Ou esqueceu-se que a sua editora é capaz de destruir livros em vez de os dar a alguém que lhes dê algum uso? A sua coerência engrandece-a.
ResponderEliminarEm primeiro lugar, o meu blogue é pessoal, não profissional, e não escrevo em nome de nenhuma editora (de contrário, só falaria dos livros da LeYa, e não é o caso). Depois, sendo uma assalariada, no tenho nenhuma responsabilidade nas acções da administração do grupo para o qual trabalho. Por fim, sobre a destruição de livros, já se escreveu o bastante para se concluir, afinal, que todas as editoras destroem livros. A situação está a mudar gradualmente com uma nova legislação criada.
EliminarAo menos a Bertrand não deita livros ao lixo como a Leya. Ou esqueceu-se que a sua editora é capaz de destruir livros em vez de os dar a alguém que lhes dê algum uso? A sua coerência engrandece-a.
ResponderEliminarCuriosamente, só os autores da Leya é que se queixaram. Curiosamente, a lei que refere surgiu na sequência da polémica causada com as queixas dos autores da Leya. Coincidências.
ResponderEliminarSendo o seu blog pessoal, e permitindo-se por isso a criticar acções dos outros, aguardarei com expectativa a oportunidade de ler aqui observações pertinentes sobre iniciativas menos felizes da sua editora.
A primeira queixa de livros destruídos veio de Maria Teresa Horta e referiu-se a uma obra publicada justamente na Bertrand. Em relação aos meus posts, quero que note que nunca refiro nomes quando critico, mas os refiro sempre quando elogio. É apenas num comentário que encontrará a referência ao nome da cadeia de livrarias. Criticarei obviamente a LeYa quando sentir necessidade de o fazer.
EliminarPermita-me corrigi-la: primeiro foi denunciada a questão da Leya, e referindo vários livros; semanas depois é que surgiu a reclamação da Maria Teresa Horta. Os links estão aí e, já agora, atente-se no tipo de reacções das empresas.
ResponderEliminarhttp://tsf.sapo.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=1504676
http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=1489935
Absolutamente de acordo.
ResponderEliminarA dita "responsabilidade Social" que algumas empresas dizem promover, também é algo que não aprecio.
Ver empresas lançar campanhas que custam dezenas de milhares de euros, para anunciar que vão oferecer umas centenas, é algo que me repugna.
É querer fazer de todos nós (os que são confrontados com os anúncios da boa vontade) tolos.
As empresas têm a sua função na sociedade, e não é esta não é a mais útil.
Peço desculpa, minha cara Rosário, e com o devido respeito, que é muito, mas não consigo perceber a utilidade material, e até formal, dessa sua anunciada coerência de não identificar quem e o que critica. Não considero especialmente virtuoso este hábito tão português do "vocês sabem do que estou a falar". No caso da Bertrand, os dados que deu foram abundantes para permitir a sua identificação. Então, qual a razão de a não nomear? Todos os seres humanos e algumas coisas são criticáveis e potencialmente imperfeitos. É a crítica leal e frontal que permite que cada um de nós melhore.
ResponderEliminartambém pensei nisso, quando li a "publicidade quase enganadora", quase...
ResponderEliminarComo funcionária da referida rede de livrarias informo os interessados que aceitamos todos os livros,comprados ou não na Bertrand com a única exigência que estejam em perfeito estado.Podem dirigir-se a qualquer uma das livrarias e entregá-los.Apenas isso.
ResponderEliminarCara Maria do Rosário Pedreira
ResponderEliminarEm nome das Livraria Bertrand, agradeço o seu contributo para a divulgação da nossa campanha.
Dito isto, lamento que tenha procurado denegrir a nossa imagem de forma gratuita, desconhecendo as características da iniciativa em causa. Assim:
1) A mecânica do Banco de Livros é igual à do Banco Alimentar. Talvez as organizações facturem com as vendas efectuadas, mas todas elas contribuem também para estas causas. Também a Bertrand “inaugurou” todos os livrões colocando em cada uma das suas 52 livrarias livros para serem oferecidos.
2) As Livrarias Bertrand recomendam 6 livros com preços que foram negociados com as editoras e em que ambas as partes sacrificaram as suas margens, por forma a ser possível baixar o P.V.P. nesses livros e tornar maior a adesão dos clientes sem com isso gerar lucro para a nossa empresa.
3) Achamos fundamental que as crianças necessitadas tenham, exactamente como todas as outras crianças, acesso a livros intactos em estado impecável, com cheirinho a novo, com todas as páginas, sem riscos, rasgões ou páginas soltas como acontece com livros em 2ª mão, particularmente os infantis.
4) As campanhas de responsabilidade social são desenvolvidas em parceria com os meios, os chamados media partners, e que cedem o seu espaço para a comunicação destas campanhas. Como tal, falar-se em “custo do anúncio” é um disparate e induz em erro os demais. E para seu conhecimento, os autores gravaram os spots de rádio gratuitamente.
5) Havendo crianças a beneficiar claramente desta iniciativa, não deveria ser esta a preocupação principal? No entanto, opta-se por uma demagogia obtusa. Estranhas prioridades.
As críticas, quando construtivas e devidamente fundamentadas, são sempre pertinentes. Agora, quando revelam um complexo de superioridade moral inadequado, contribuem para deixar ficar mal quem as profere. O que se lamenta, particularmente neste caso, considerando o inegável contributo que a Maria do Rosário Pedreira tem dado às nossas Letras.
Cumprimentos,
Teresa Figueiredo