Mensagens

A mostrar mensagens de janeiro, 2024

Kafka dissecado

Amanhã, dia 1 de Fevereiro, começa um ciclo intitulado «Franz Kafka: Bilhete de Identidade» na Biblioteca do Goethe-Institut em Lisboa, actividade que e insere nas comemorações do centenário da morte de Kafka, que se celebra este ano. Como se refere na apresentação deste ciclo, «cem anos após a sua morte, Franz Kafka permanece um dos monstros mais enigmáticos da literatura universal, dada a amplitude e a complexidade da sua biobibliografia»; e, por isso, quatro conversas não serão demais para falar do génio calado que não quis publicar a sua obra nem em vida nem depois da morte, e da qual teríamos sido privados se não fosse a desobediência de um amigo. A crítica literária Filipa Melo e os seus convidados vão  «evocar a relação do homem e do escritor com o corpo, o humor, a espiritualidade e a questão do mal» e, nesta primeira sessão, que se realiza às 19h, vamos descobrir a relação do escritor e das suas obras com a fisicalidade e a estética levados pela mão da escritora Dulce Maria Cardoso e do arquitecto, professor e dramaturgo João Filipe Borges da Cunha. As próximas sessões ocorrerão nos seguintes dias, com convidados a anunciar em breve:


14 de março, 19h00: Kafka: um clown triste
17 de outubro, 19h00 - Kafka: carta a um deus desconhecido
21 de novembro, 19h00: Kafka: o homem e o adjetivo


 Mais informações sobre o evento: https://www.goethe.de/ins/pt/pt/kul/sup/kft/kaf.html


 

A loucura por herança

Imagem

Este é um tempo de falarmos de saúde mental (tanto jovem a tomar antidepressivos não pode ser normal...) e o romance As Herdeiras, da escritora basca Aixa de la Cruz, fala-nos justamente disso. Passaram seis meses desde que Dona Carmen cortou os pulsos na banheira, e ainda ninguém percebeu porquê, tendo ao seu alcance comprimidos suficientes para acabar com a vida de modo mais suave. Isto descobrem, intrigadas, as suas quatro netas – Lis, Erica, Olivia e Nora – quando se instalam na casa da aldeia onde a avó vivia e que lhes foi deixada em testamento. Lis, que tem um filho pequeno, está ainda a recuperar de um trauma que sofreu ali dentro e só lhe interessa vender tudo e seguir em frente, enquanto a sua sonhadora irmã Erica planeia organizar no local retiros espirituais e passeios na natureza. Por sua vez, Olivia – a prima mais velha, que se formou em medicina por ter visto o pai morrer com um enfarte – não desiste de procurar em tudo o que é gaveta uma pista que explique o que realmente levou a avó a suicidar-se; e Nora, a sua desastrosa irmã, tem a ideia maluca de deixar o seu dealer usar o espaço como depósito de «mercadoria»; de resto, é ela quem a dada altura diz sem complacência: «Parece que um suicídio na família con­firma a suspeita de sempre, de que a loucura corre nos genes, de que estamos biblicamente perdidas.» Considerada internacionalmente uma digna sucessora de Henry James, Aixa de la Cruz constrói neste romance intenso e dramático – considerado um dos melhores livros de 2022 pelo jornal El País – a ideia da família como lugar de dissensão e calamidade, explorando a ténue fronteira que existe entre loucura e sanidade. Não deixem de ler, inesperado e muito actual.


As-Herdeiras_prop 1.jpg

Livrar-se de livros

Pesco o assunto por causa de um post de Nelson Ferreira dos Santos no Facebook. Aqui há tempos, diante da impossibilidade de meter nem que fosse mais um livro em casa sem o perigo de o chão abater, tivemos de nos livrar de muitos muitos muitos livros... Custa bastante (e já tenho saudades de alguns), mas, se queremos continuar a comprar e ter coisas novas, o melhor é prescindir de algumas das velhas. Lá em casa, por exemplo, tínhamos o mesmo título em edições diferentes, uma do Manel, outra minha, compradas em épocas diferentes, em línguas diferentes, de editoras diferentes. Tentámos que esse tipo de «exageros» fosse ponderado. Por outro lado, havia coisas que sabíamos não voltar a ler, coisas datadas, ultrapassadas, ou que não representaram absolutamente nada na nossa história como leitores. Guardávamos também livros da escola por razões que não se prendiam com os próprios livros, mas com a saudade da infância; e, além de alguns livros da primária e da Cartilha Maternal de João de Deus, acabou por ir tudo fora. No fim, nem foi tão mau como pensávamos (apesar do que eu disse acima sobre as saudades). Em todo o caso, para os mais hesitantes, há especialistas em «não acumular» que nos ajudam muito com os seus conselhos em matérias que têm que ver com a real necessidade de um livro, o gosto de reler, o valor estimativo, a pessoa que ofereceu, o pertencer a uma colecção, a facilidade em comprar de novo se for preciso, enfim... muitas razões para querermos ou não ficar com um livro quando sentimos que acumulámos demasiados. O artigo é mesmo interessante, pelo que vos deixo o link para que a decisão possa ser tomada em consciência se a ocasião se apresentar.


https://www.millersbookreview.com/p/keep-or-toss-my-personal-criteria?utm_source=post-email-title&publication_id=564548&post_id=140220428&utm_campaign=email-post-title&isFreemail=true&r=24a20e&utm_medium=email&fbclid=IwAR3fWTUcxG7W-7SHAPiWUieoGOxCIWowL7IyQ-tVPf9-2lU4otnZX5ITBJg

Excerto da Quinzena

[...] Mãe, a senhora que diga se o santo tombou na fundura, diga, mãe, se for de tombar eu não tenho medo. Mais medo me dá que meu irmão seja sozinho à boca dos bichos, a podrir por feridas que abra, perplexo no abandono. A senhora que diga, mãe, a senhora que diga onde devo ir.


Mariinha dos Pardieiros senrou-se sobre os joelhos, desmoronada. Ruíra de si mesma. Era pelo chão. Dizia que o menino entrara na escuridão. Ficara tão escuro em volta que não se tornava mais possível enxergar coisa alguma.


Certamente pelo medo, pela pressa do sangue no interior do corpo, o espelho silente nsinuava ondular. Ou o modo como caíramos de corpos no chão abalara as madeiras e o espelho reflectiu sua pequena vertigem. Ondulou. Tive a impressão de se mover sozinho, aflito por dentro, na sua ínfima espessura onde todas as coisas eram apenas fantasmas das coisas reais.


 


Valter Hugo Mãe, Deus na Escuridão

Ler é poder

Fico muito feliz quando alguém se entusiasma de tal modo pela leitura que resolve pôr toda a gente a ler. Sílvia Ribeiro, com um mestrado recente em Mediação da Leitura, deseja que no seu concelho as empresas tenham minibibliotecas e emprestem livros aos funcionários, quer porque alguns deles têm ordenados baixos e não os podem comprar com a frequência com que gostariam, quer porque se calhar alguns dos trabalhadores precisam de ser convocados para o acto de ler por chefes ou colegas. Seria bom que houvesse mais pessoas a pensar assim e a pôr a mão na massa. Segundo as palavras da autora do Ler é poder, «criei este projeto com o objetivo de aproximar as pessoas do livro e da leitura, no sentido de passarem a incluí-la (ou a tê-la mais presente) na sua rotina diária, tentando, contribuir (ainda que de forma muito limitada) para aumentar os (embaraçosos!) índices de leitura em Portugal.» A ideia é incluir pelo menos dez a quinze empresas de Ourém, algumas das quais já foram contactadas e têm mais de 70 empregados. Mas, para isso, são precisos livros, claro. Eu já vou dar alguns dos meus, bem entendido, mas quero sobretudo divulgar o projecto, que me parece realmente meritório, para que outras pessoas se juntem e libertem de livros que não voltarão a ler nem lhes fazem falta. Se quiserem saber mais detalhes sobre este bonito projecto, o link do Instagram está abaixo. E tentem o mesmo nos vossos concelhos!


https://www.instagram.com/projetolerepoder2024/

Boletim europeu

A Folha (ou a folha), o Boletim da Língua Portuguesa nas Instituições Europeias, tem mais um número, e alguém me avisa de longe, pedindo a divulgação aqui no blogue, o que faço, de resto, sem qualquer sacrifício. Primeiro, porque é uma forma de escrever um post sem ter de pensar muito; segundo, porque é uma boa maneira de fazer chegar a mais gente a informação (não somos muito dados a publicações institucionais fora das universidades e, por vezes, é uma pena, porque há sempre coisas interessantes que perdemos); e terceiro: o artigo de abertura, sobre tradução, é assinado pelo grande Harrie Lemmens, um tradutor que tem dado a conhecer na Holanda a obra de muitos autores portugueses e brasileiros mortos e vivos, inlcuindo Lobo Antunes e esta vossa serva, de quem Lemmens traduziu um conjunto de poemas que ele próprio escolheu e coligiu (um privilégio para mim, bem entendido). Mas há outras novidades, artigos de Luís Filipe Sabino, Joana Gil, Jorge Madeira e Paulo Correia («Escrever em português sobre a Índia e o Oriente», outro assunto de interesse), pelo que, havendo candidatos para estas leituras, o link fica já abaixo.


folha73_pt.pdf (europa.eu)

Um livro muito escuro

Na nossa vida, por uma ou outra razão, há sempre livros que, se não forem lidos na altura em que são publicados, acabam por ir ficando para trás, numa lista interminável de obras a ler que raramente conseguimos recuperar. Tenho lá muitos em que ainda queria pôr os olhos antes de me dar o tranglomanglo (caramba, há quanto tempo não usava esta expressão!), mas suspeito de que para os mais sérios e longos já não vou ter paciência ou concentração. No entanto, nos últimos tempos fui buscar um desses atrasados à estante e foi um belo presente de Natal atrasado que dei a mim mesma. Trata-se de Beloved, da norte-americana Toni Morrison, vencedora do Prémio Nobel da Literatura em 1993, e nas primeiras páginas eu já estava caidinha por aquela prosa que não é fácil mas cheira a invenção e inteligência por todos os lados. A história fala de um grupo de escravos que tiveram a sorte de trabalhar muitos anos na «Sweet Home» de um casal que os «tratava bem». Porém, com a morte do chefe de família, a viúva teme ficar sozinha com os negros e resolve trazer para tratar da propriedade um mestre-escola e os seus dois sobrinhos, cuja presença e comportamento mudarão para sempre a vida dos escravos. Na sequência de alguns actos violentos, a fuga será tentada ou executada, mas as consequências serão terríveis, e nem as crianças conseguirão escapar ao difícil destino que lhes calhou em sorte. Maravilhoso, mágico, duríssimo, escuríssimo, um primor de linguagem inventiva, este é um livro realmente especial que não deve deixar de ser lido num momento em que as questões do racismo e da escravidão são tão comentadas. Mas, por favor, não vale ler a sinopse da contracapa: é um texto muito desmancha-prazeres que conta o que o leitor deveria descobrir sozinho já passada metade do livro...

Algo e o seu contrário

Escrevi aqui há tempos sobre o artigo de Miguel Real a respeito da crise da ficção nacional, em que se dizia, entre outras coisas, que, nos últimos anos, os vencedores de importantes prémios para a língua portuguesa (Oceanos, Saramago, LeYa...) tinham sido africanos ou brasileiros. É verdade, claro, e a questão foi também abordada no número seguinte do JL por António Carlos Cortez (poeta, crítico e romancista) que, concordando com Miguel Real, vai até mais longe, dizendo que a língua portuguesa falada no Brasil e em África é mais colorida do que o chatinho português europeu (não estou a citar, mas a interpretar). Para corroborar estas opiniões, reparei há dias que na lista dos romances nomeados para o Dublin Literary Award na categoria de livros traduzidos estão três livros escritos originalmente em português, mas mais uma vez nenhum é de um autor português: Torto Arado, de Itamar Vieira Junior; A Palavra Que Resta, de Stênio Gardel (que salvo erro, já foi finalista de outros prémos  internacionais) e O Bebedor de Horizontes, de Mia Couto (dois brasileiros e um moçambicano). Podemos sempre somar dois mais dois e tirar esta conclusão, mas o resultado da conta feita noutro sítio também pode ser diferente. É que, na última edição do Prémio Oceanos (o maior de língua portuguesa no Brasil), na categoria de romance, não havia um único autor brasileiro na final, eram só portugueses e africanos... Talvez tudo seja afinal uma ilusão e, no ano que vem, os portugueses se sagrem vencedores destes prémios e de outros mais.

A companhia dos livros

Há uns anos, resolvi que a minha assinatura dos e-mails poderia ser enriquecida com uma frase que, de algum modo, tivesse que ver comigo e com as minhas funções. Escolhi nessa altura uma de que não me arrependi e ainda lá está, debaixo do meu nome, em português e inglês, de cada vez que envio um e-mail. Diz «Lemos para sabermos que não estamos sozinhos» e o seu autor é o britânico C. S. Lewis. A leitura é de facto uma excelente companhia e a mim já me salvou de umas quantas depressões. Uma vez, Mario Vargas Llosa contou ao vivo que, em adolescente, ler sobre o sofrimento alheio o fez sentir-se menos só e triste no colégio interno onde o padrasto o metera. Ler é isso, como diz a frase que escolhi, descobrirmos que não estamos sós nos nossos infortúnios. Encontrei no mural do Facebook de uma amiga um cartaz bonito que dizia «Não estou sozinho, tenho muitos livros», o que é só mais uma maneira de dizer que a leitura faz mesmo companhia; no entanto, há momentos em que ler não pode ser uma obrigação, e a grande Virginia Woolf, numas resoluções para o Ano Novo em 1931, escreveu, entre outras coisas: «Ser livre e gentil comigo mesma [...] Às vezes ler, às vezes não ler. Sair, sim, mas ficar em casa apesar de convidada. Quanto a roupas, comprar boas.» Pois, às vezes não ler também é muito bom, sobretudo para quem lê por profissão o dia todo.

Laboratório

Imagem

Agora, que os jornais parecem estar a desaparecer tal como os conhecemos e os jornalistas culturais têm cada vez menos espaço para escrever, viram-se frequentemente para a organização de outras actividades, e é vê-los orientarem encontros literários ou artísticos, fazendo podcasts, escrevendo em blogues, fazendo oficinas. Quem não descansa é o incrivelmente imaginativo João Morales, há já muitos anos responsável pelo festival de livros da Lourinhã, Livros a Oeste e que se tem multiplicado por sessões ao vivo e entrevistas gravadas. Desta feita, oferece-nos um Laboratório de Escrita, que na verdade não sei bem o que é, mas deve ser qualquer coisa divertida e original, a avaliar pelo cartaz escolhido para anunciar o evento. Acontece já no próximo sábado às 17h00 em Lisboa, perto do Jardim Constantino, na Zénite Bar Galeria, à Rua Passos Manuel (a mesma rua onde era a Assírio & Alvim de Manuel Hermínio Monteiro), e traduz-se num convite aos interessados para virem escrever histórias acompanhados uns dos outros, com a vantagem de, sei lá se para se sentirem mais inspirados, beberem qualquer coisinha. Um sábado diferente, em suma.


cartaz laboratório_Janeiro 2024.jpg

Alice premiada

Conheço a escritora Alice Vieira há muito tempo e não minto se vos disser que ela é uma força da natureza (às vezes, um autêntico furacão). Nunca a vi senão bem-disposta, sempre com um sorriso na boca, quando não uma gargalhada sonora, e raramente quieta e parada. Ela gosta de se divertir com os amigos e a sua voz e alegria enchem uma casa, como se costuma dizer. Mas, além disso, é uma das mais conhecidas escritoras portuguesas para a infância e a juventude (e também poetisa, alto lá!), tendo-lhe sido recentemente atribuído o Prémio Iberoamericano de Literatura Infantil e Juvenil, que foi entregue em Lisboa na presença do Ministro da Cultura e do Embaixador de Portugal na Cidade do México. Entre outras razões, o júri (composto por várias entidades internacionais) distinguiu-a pelo «estilo pessoal que transcende gerações e culturas», pela «qualidade e diversidade» da obra e «por saber interpretar o mundo interior de crianças e adolescentes», sublinhando ainda a sua capacidade de «observar do quotidiano» e extrapolar do pessoal para o universal. Aos oitenta anos, a escritora é a primeira autora portuguesa contemplada com este galardão. Ficamos contentes, Alice. Parabéns por mais esta distinção!


 


 

Curiosidade e orgulho

Tenho para mim que a curiosidade é um dos verdadeiros motores do conhecimento. Não falo, claro, de espreitar pela fechadura do vizinho, mas sim de querer saber, de perguntar, de não ficar satisfeito com pouco e ir mais além. Uma das coisas que dizia sempre às minhas turmas quando era professora era justamente isso, que não havia razões para se ter vergonha de fazer perguntas porque ter a resposta é a única maneira de ficar esclarecido e chegar mais longe. Por vezes, também me inquiriam sobre algumas coisas a que não sabia responder (isto geralmente nas aulas de Francês, com nomes difíceis) e eu acabava por dizer aos alunos que não sabia e que por isso iríamos ter de aprender todos juntos a resposta. Não me lembro de ter inventado uma palavra por orgulho, para tapar um buraco ou fingir que sabia, e nunca senti que me caíam os parentes na lama por causa disso. Agora, porém, descubro que essa coisa chamada ChatGPT (sim, esse instrumento da Inteligência Artificial que anda toda a gente a consultar e utilizar) é orgulhoso e, quando não pesca nada sobre determinada matéria, recusa-se a admiti-lo e, em vez de fazer como eu, inventa simplesmente uma resposta em tom convincente, quicá tentando vencer pela retórica a ignorância de quem a interpela. O que vale é que há quem a apanhe na curva, como prova o relato abaixo de um programa de rádio de Nuno Markl, que inventou três provérbios malucos e foi perguntar ao ChatGPT o que queriam dizer e qual era a sua origem. Vale a pena ouvir para verem como estamos mesmo tramados.


https://youtu.be/650G3cu4fJ0?si=3JhMKjRmoEZnrqmT


 

A prevalência da imagem

Diz-se que uma imagem vale mais do que mil palavras. Talvez, mas para mim há por vezes um pequenino conjunto de palavras que vale mais do que mil imagens. A verdade é que somos diariamente matraqueados com imagens (em anúncios, em blogues, em videoclips, em fotos e vídeos nas redes sociais e até nas partilhas telefónicas) e de tal maneira nos viciámos nelas que, ao que parece, já poucos de nós conseguem ter paciência ou concentração para ler até ao fim um post ou um e-mail mais longo (lemo-lo, regra geral, na diagonal), mas somos facilmente atraídos pelos ecrãs onde passam imagens. Isto explica o recente sucesso mundial daquilo a que se costuma chamar «novela gráfica» (um romance contado em versão «texto + imagem» a partir de uma ideia original ou baseado num romance existente em versão apenas de texto); e também explica o crescente interesse dos autores de ficção em terem uma versão «ilustrada» dos seus romances, além do e-book e do audiolivro, até porque a adaptação cinematográfica é muito difícil de obter. O género tem, assim, ganho leitores todos os dias e essa circunstância leva ao aparecimento de excelentes artistas nesta área da edição (e cá em Portugal podemos citar, entre outros, o par Filipe Melo-Juan Cavia e a novela gráfica Balada para Sophie, por exemplo). Na lista dos finalistas do Booker Prize também já houve uma novela gráfica (Sabrina), e qualquer dia ainda temos um Nobel da Literatura capaz de escrever e desenhar ao mesmo tempo. Livros com imagens são também prevalecentes nos TOP de vendas e, em França, por exemplo, no ano passado, os dois títulos mais vendidos eram livros de BD com os heróis Astérix e Gaston Lagaffe, escritos ainda por cima por novos escritores que substituem os criadores das personagens, esses mortos e enterrados. Um dia destes ainda me pedem que ponha um boneco para atrair leitores aqui para o blogue...

Excerto da Quinzena

Disseram-nos que tínhamos a sua permissão para nos tornarmos marido e mulher, e foi só isso. Só isso.


Decidi então que pelo menos iria ter um vestido que não fosse feito da serapilheira que usava para trabalhar. E assim comecei a roubar pedaços de tecido e acabei com um vestido impossível de imaginar. A blusa era feita de duas fronhas que se encontravam na cesta de costura de Mrs. Garner. A frente da saia era um bocado de tecido usado para tapar uma cómoda, no qual uma vela caída fizera um buraco, e uma das antigas faixas que Mrs. Garner usava à cintura e na qual costumávamos ver se o ferro de engomar já aquecera. Ora as costas foram um problema durante muito mais tempo. Parecia-me que não conseguia encontrar nada cuja falta não fosse notada de imediato. Porque depois eu teria de desmanchá-lo e colocar os pedaços onde os encontrara. O Halle era paciente e esperou que eu acabasse de costurar o vestido. Sabia que não haveria casamento sem que eu o tivesse. Acabei por tirar uma rede mosquiteira que estava presa a um prego no celeiro. Usávamo-la para coar as geleias e conservas. Lavei-a e branqueei-a o melhor que consegui, e depois cosi-a para formar a parte de trás da saia. E ali estava eu, no vestido mais horrível que se possa imaginar. Apenas o meu xaile de lã evitava que me parecesse com uma assombração. Mas ainda nem tinha catorze anos, e acho que era por isso que estava tão orgulhosa.


 


Toni Morrison, Beloved, trad. de Maria João Freire de Andrade

Poeta escondido com o rabo de fora

Durante muitos anos, o jornalista Nicolau Santos, hoje na presidência da administração da RTP e antes na da LUSA, foi o editor do caderno de Economia do Expresso (a sua formação é, de resto, em Economia). E, se bem se lembram, na primeira página desse suplemento havia sempre um poema, como que para alegrar e dar alguma cor a um espaço em que era quase tudo relacionado com números. Depois disso, embora mais na sombra, continuou sempre a amar a poesia, organizando leituras e conversas que anima em bibliotecas e convidando muitos poetas para discutirem a sua arte e outras questões. Foi sempre, sabe-se, um grande leitor de poesia e uma espécie de poeta com o rabo de fora, mas agora mostra-nos mais: dá-nos um livro novo de poemas, chamado A Feliz Embriaguez de Existir, que ainda praticamente só folheei mas me pareceu logo conter várias pérolas, não só pela claridade (África, onde nasceu, e o amor devem ter alguma coisa a ver com isto) mas também pela ressonância de certos poetas que homenageia nas entrelinhas. Deixo-vos um cheirinho:


 


Debaixo de uma pedra


 


Se encontrares uma pedra


Que te pareça estar há muito tempo


No mesmo sítio


Pelo musgo e pelos líquenes que a envolvem


Não a levantes


Sem te perguntares


No mais íntimo de ti


Se estás mesmo preparado


Para enfrentar o que de lá vai sair.

Para dar e vender

Acabo de receber a agenda do El Corte Inglés para os próximos meses e tem programação para dar e vender. Coisas parecidas ou iguais a outras que já lá se realizaram (e quiçá se repetem por ter havido muita gente que ficou de fora); e coisas muito originais, como um curso inventado e apresentado por Nuno Artur Silva com o sugestivo título A Salvação do Mundo, com três sessões dedicadas à beleza, à ficção e à religião entre 9 e 23 de Fevereiro. Uma das palestras a que vou tentar mesmo ir é Nós e as Árvores na Ca(u)sa Comum, dada pelo enorme conhecedor de árvores Bagão Félix, de quem tenho um livro ultra-interessante sobre o assunto (já aqui disse há pouco tempo que adoro árvores). Não posso faltar também à conferência Tocando Vidas (publiquei este livro, que é uma tese de Paula Freire) sobre o projecto da Orquestra Geração (crianças desfavorecidas a quem é dado um instrumento e tocam numa orquestra, ultrapassando tantas vezes problemas sociais e escolares), em que serão oradores a autora do livro, Álvaro Laborinho Lúcio e Juan Maggiorani. Em fevereiro, Ana Zanatti e José Anjos lerão Camões (este ano faz 500 anos o poeta!) acompanhados da harpista Ana Isabel Dias. E muito mais; o programa é imenso e vale a pena espreitá-lo, pois tem eventos para todos os gostos e quanto mais cedo se inscrever melhor.

Livrarias perdidas

Em 2023 soube que duas livrarias, que tinham ambas o crachá lisboeta de "Lojas com História", iam provavelmente desaparecer. A primeira foi a Livraria Barata que, até por razões pessoais (moro perto e foi lá que comprei muitos dos meus livros escolares e não só), me causou uma enorme pena ver entrar em declínio. Começou pequenina com um grande livreiro, que passava livros clandestinos por baixo do balcão antes do 25 de Abril, e acabou uma grande livraria da capital numa zona que então tinha o seu charme. A direcção chegou a encarregar-me de editar uma revista nos finais dos anos 1990, para a qual entrevistei várias pessoas, algumas delas hoje sobejamente conhecidas, como Pedro Mexia. Mas a Barata já não andava bem há muito tempo e hoje é uma FNAC, com tudo o que isso possa querer dizer. Já a segunda livraria, a Férin, uma das mais antigas e prestigiadas de Lisboa, que fora comprada em 2016 pelo imparável e insubstituível José Pinho (que infelizmente nos deixou no ano passado), fechou recentemente as portas por tempo indeterminado. Diz-se que é para fazer um inventário profundo que impossibilita manter as portas abertas, mas, dada a sua localização privilegiada em pleno Chiado (e a abertura do enorme Centro Cultural no Bairro Alto que José Pinho já não pôde acompanhar mas já deve dar trabalho de sobra aos herdeiros), teme-se o pior... Curiosamente, em busca de novidades para ler, encontro numa livraria virtual em pré-lançamento dois romances que me trouxeram o assunto sobre o qual hoje escrevo: A Livraria Perdida, de Evie Woods, e A Livraria dos Pequenos Milagres, de Mónica Gutiérrez. Quase me apetece dizer que pode ser que haja um milagre nestas duas livrarias perdidas...

Crise na ficção portuguesa

Ao longo do tempo, tenho sentido que os originais que me chegam anonimamente são cada dia mais fracos e mais pobres em termos de linguagem e imaginação. No final do ano, descobri dois que me agradaram muito, mas são excepções, e a regra tem sido a pura desilusão. É verdade que, quanto mais lemos, mais exigentes nos vamos tornando; mas não sou eu apenas que me queixo disto, porque há pouco tempo Miguel Real escreveu um artigo no JL perguntando-se se a ficção portuguesa não se encontrá realmente em crise e confirmando o que aqui escrevi há tempos (que os vencedores de alguns dos prémios literários mais importantes para a língua portuguesa, como o Saramago, o LeYa ou o Oceanos, têm sido ganhos por autores do Brasil e dos PALOP). Diz ele, entre outras coisas, que a língua portuguesa na Europa está longe de ter a vivacidade que tem noutros países, que os assuntos tratados nos romances portugueses são cada vez mais fúteis, que as nossas narrativas se tornaram insignificantes em termos estéticos e que a receita do modelo saído do 25 de Abril se esgotou. Aposta, mesmo assim, em autores como Ana Margarida de Carvalho, Patrícia Portela, Joana Bértholo e outros, mas afirma que, no geral, os autores actuais «repetem o repetido». Houve muitos que se apressaram a dizer que o próprio Miguel Real é romancista, quiçá acusando o toque; na verdade, quem conhece o autor do artigo sabe que ele nunca se considerou mais do que um «escritor médio» (as palavras são suas) e, por isso, talvez se esteja a incluir sem problemas entre os autores desta ficção em crise. Mas, embora dê razão a Miguel Real pela minha experiência, gostaria de acreditar que a crise é passageira. Só o futuro, porém, o poderá dizer.

A América auto-suficiente

Li no resumo de notícias que todos os dias é enviado para o meu e-mail que, em 2023, houve uma greve histórica na indústria do cinema nos Estados Unidos e que, por causa dela, muitos dos mais aguardados filmes só chegarão às salas de cinema neste ano de 2024. Lembrei-me então de uma outra greve ligada ao cinema norte-americano, esta de argumentistas, ainda nos anos 1990, que durou meses e preocupou muito os grandes estúdios. Nós aqui acompanhávamos o que se passava no mundo em geral (e, portanto, essa notícia vinha à baila frequentemente nos noticiários) mas, claro, o mesmo não acontecia com a maioria dos norte-americanos, cujos conhecimentos se cingiam frequentemente ao que acontecia no seu bairro, na sua cidade ou, quando muito, no seu Estado. Ora, veio nessa altura a Portugal lançar um livro o historiador Daniel Boorstin, professor universitário e então director da Biblioteca do Congresso. Numa noite em que o levámos aos fados, coube-me fazer conversa com Ruth, a sua simpática mulher, e perguntei-lhe se tinham filhos e se algum era historiador como o pai. Ela respondeu-me que tinham dois rapazes, e o académico interveio para dizer que um deles era argumentista em Hollywood, perguntando eu de imediato se aderira à greve. Daniel Boorstin ficou completamente aparvalhado: mas como é que neste cantinho da Europa se sabia de uma greve de argumentistas em Hollywood? Pois é, os países auto-suficientes raramente se interessam pelo que se passa no resto do mundo... Muito interessante, deste autor, é o livro Os Criadores, sobre as mentes geniais e fundadoras em todas as áreas artísticas, incluindo, claro, a literatura. Se ainda o encontrarem, leiam-no, vale mesmo a pena.

Flores silvestres

Os nefelibatas (palavra sublime para falar dos que andam sempre com a cabeça nas nuvens) raramente olham para o chão que pisam. Mas, por acaso, um cientista que dedicou toda a sua vida a estudar as estrelas  (o canadiano recentemente falecido Hubert Reeves) sempre gostou muito de olhar o que crescia no solo dos campos e florestas. Quando veio a Portugal, nos anos 1990, eu trabalhava na editora que o publicava cá (livros como A Hora do Deslumbramento, Um Pouco mais de Azul...) e tive, por isso, a sorte de o acompanhar numa visita à cidade, que incluiu sobretudo um longo périplo pelo Jardim Botânico. Eu tinha um fraquinho não exactamente por plantas, mas pelos seus nomes; e admirava sinceramente quem olhava para um caule ou um botão e sabia logo a que planta pertencia. Hoje, mesmo sendo urbaníssima, sei já qualquer coisa de árvores, mas agora vou ficar também a saber de flores com Hoje Vi Uma Flor Selvagem, do senhor Reeves, que é uma espécie de guia de flores silvestres, dessas em que vale a pena reparar quando as vemos iluminar campos e caminhos: falo, por exemplo, dos jarros, que estão por todo o lado, das azedas, de miosótis ou outras florinhas conhecidas de todos, mas também de espécies com nomes incríveis como «tasneirinha jacobeia», «assobio», «verónica-da-pérsia» ou «pantufas do Menino Jesus», todas acompanhadas por fotografias a cores e de um texto informativo belíssimo. Leiam agora e, na Primavera, divirtam-se a identificar as flores em passeios pela natureza (enquanto as alterações climáticas não derem cabo delas). Grande Hubert Reeves, uma pessoa que fala das coisas com tanto amor que as páginas dos seus livros se viram com imensa rapidez.

Livros no sapatinho?

Recebi um postal de Natal maravilhoso de uma amiga editora, especialmente indicado para leitores furiosos. Diz qualquer coisa como «O meu presente de Natal és tu», mas logo abaixo acrescenta numa letra mais pequena: «Estava a brincar; tem de haver pelo menos alguns livros no sapatinho.» Sim, imagino que para os leitores deste blogue tenha havido muitos livros no sapatinho, alguns repetidos, suspeito, porque quando estamos demasiado a par do que vai saindo por vezes é difícil não nos darem livros que já temos. Comprei uns quantos títulos, eu também, para eu ou a minha mãe oferecermos a cunhadas, sobrinhos, uma irmã e amigos. Quase todos eram livros que eu própria desejava que me oferecessem, mas não tive grande sorte: não recebi de presente um único desses romances (aquele com que estava mais curiosa vou ter mesmo de o comprar; tratava-se de Não Tenho Casa Se Esta não For a Minha Casa, de Lorrie Moore). Não me deram, de resto, senão um livro (um apenas, raios!), porque, lá está, devem pensar que estou fartinha de livros por causa do trabalho e quero é camisolas, colares, discos, perfumes, velas e objectos para a cozinha (deram-me uma caixa nova para o pão, o que foi óptimo, porque a antiga estava partida, mas não foi surpresa porque fui eu a avisar que precisava de uma). Enfim, recebi, feliz da vida, o livro do astrofísico Hubert Reeves sobre flores silvestres, o que pode parecer estranho, mas a verdade é que interesso verdadeiramente por botânica, embora prefira árvores a flores. (Amanhã então falarei deste belo Eu Vi Uma Flor Selvagem, que é belíssimo.) E os senhores Extraordinários, que livros vos deram?

O que ando a ler

Ora sejam bem-vindos a este espaço dedicado aos livros neste novo ano de 2024, que vai ter mais um dia do que o anterior (todos os nascidos a 29 de Fevereiro podem finalmente festejar o aniversário). E, como sempre, falemos do que andamos a ler neste primeiro dia útil do mês. Por certo já aqui devo ter dito que uma das melhores surpresas que tive na minha vida de leitora foi um romance de estreia excepcional chamado A Solidão dos Números Primos, do italiano Paolo Giordano. Quanto a mim, nenhum dos livros seguintes do autor igualou o primeiro em qualidade, mas leio neste momento o mais recente, Tasmânia, que vem referenciado como um dos melhores livros do ano em Itália. Começa em Paris, em 2015, pouco depois dos atentados que vitimaram uma série de jovens que assistiam a um concerto, e, na parte em que vou, atravessa o ano de 2018 na cidade de Roma (mas já vi ao folhear que vai até 2021); somos levados pela mão de um narrador que gostaria de ser pai (mas Lorenza, a mulher, já tinha um filho do casamento anterior) e que, tendo estudado Física (como o autor), se dedica sobretudo ao jornalismo e a escrever um livro sobre um tema de que já ninguém quer ouvir falar (a bomba atómica). As personagens secundárias (um cientista especializado em nuvens, um colega de curso, uma activista climática, um padre que se apaixona por uma miúda), são todas muito bem desenhadas e bem actuais, exactamente como os temas que se vão cruzando e que não deixam de lado algumas injustiças causadas pelo politicamente correcto e pelas questões da paridade. Veremos onde é que isto vai dar. A tradução é de Vasco Gato.