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A mostrar mensagens de fevereiro, 2017

Preconceitos

Um dia destes, o Manel leu-me o primeiro parágrafo de um livro que tinha entre mãos. Rezava assim: «Decididamente, o Romão alquilé, com o seu carão brunido do sol, achamboirado e alegre, a jaleca de astracan a enxalmar-lhe o arcaboiço, a espora tilintando no sapatão de bezerro, todo o seu ar de alentejano ricaço, testudo como os asnos de Alvalade e torto como as azinheiras da sua terra – decididamente, ia eu dizendo, o Romão alquilé era o mais patego dos troquilhas de Portugal. Conhecido como cão ruivo, tratava de igual para igual ciganos e marialvas, marchantes e rascoas de viela. Bom coração, é verdade; mas olho sobre o ombro, poucas falas, desconfiado como sete e parvo como vinte. Tinha aquele fraco: os alborques das cavalgaduras. Era uma tentação.» Não conhecia a passagem e avancei que tinha algo de Aquilino. Mas estava longe, porque, sobretudo em termos políticos, era um escritor acarinhado pelo Estado Novo, nada mais nada menos do que Júlio Dantas. A minha geração foi marcada pelo manifesto que Almada lhe dedicou e – talvez por isso – passou sem ler este homem do sistema, crendo parvamente que nada valia em termos literários. E, se é verdade que aprecio o fado conhecido por Rua do Capelão (o seu título verdadeiro é Novo Fado da Severa) na voz de Amália – com letra de Júlio Dantas –, confesso a minha ignorância em relação a outros escritos do autor, que não devo ter sequer espreitado, percebo agora, por puro preconceito. E, todavia, este parágrafo que transcrevi é uma descrição formidável de uma personagem (podia ser usado em cursos de Escrita Criativa!) e faz-me pensar que, mesmo que não me agrade a figura, há que ler depressa o romance A Severa, que foi donde tirei a passagem.

Correntes

Hoje começa a 18ª edição das Correntes d’Escritas, o festival literário mais concorrido de Portugal (já estiveram uma vez mais de setecentas pessoas numa sessão!). De tal modo assim é que não há quem não queira lá estar – e amanhã, na sessão de inauguração oficial, que se realiza no Casino, o encontro contará com a presença do Presidente da República e do Ministro da Cultura (Luís Filipe Castro Mendes, que, sendo poeta, é um dos finalistas do Prémio Correntes d’Escritas/Casino da Póvoa). A conferência que abre o encontro será da responsabilidade de Francisco Pinto Balsemão (estou curiosa sobre a sua relação com os livros e a leitura) e, até sábado, teremos tempo para ouvir em mesas-redondas numerosos autores: Eugénio Lisboa, Hélia Correia, Mário Cláudio, Valter Hugo Mãe, Inês Pedrosa, Teolinda Gersão, Karla Suarez, Claudia Piñeiro, Paula de Sousa Lima, Germano Almeida e muitos, muitos outros. Há, como sempre, sessões em escolas, exposições, concertos e filmes, leituras de poesia e lançamentos de livros. E uma novidade: grupos de escritores, tradutores, ilustradores, fotógrafos, vão juntar-se um dia para produzir e ilustrar textos sobre a Póvoa de Varzim que serão posteriormente publicados. Eu vou lá estar (como não ir?) e, por isso, até segunda-feira vou deixar aqui os Extraordinários à míngua, mas prometo que, no regresso, hei-de contar-vos tudo. Até segunda!

Ler na escola

A criação de um Plano Nacional de Leitura – o nosso PNL, mas também muitos outros espalhados pelo mundo (lembro-me, por exemplo, de un Plan de Lectura na Argentina) – é fundamental, antes de mais, para que todos os alunos, venham de onde vierem, possam aceder ao livro em igualdade de oportunidades. Isso, para mim, é o mais importante, pois todos sabemos que há famílias que não têm um único livro em casa e que, se não for a escola a disponibilizá-los, muitas crianças não poderão ler livros e experimentar o prazer da leitura. Claro que o aconselhamento de certas obras para determinado grau de ensino ou idade é interessante, mas não deve ser tomado como um espartilho:  não há ninguém que conheça melhor o nível intelectual ou os hábitos de leitura de uma turma como o seu próprio professor e, assim sendo, a lista de recomendações de um Plano de Leitura (cá, lá e em toda a parte) deveria ser apenas um guia de sugestões. Muitas vezes, porém, não é. E porquê? Pois, agora vou chegar à parte difícil. É que há mesmo muitos professores que não lêem absolutamente nada e, quando têm de propor a leitura de uma obra aos seus alunos, imediatamente consultam a lista pois não saberiam de outro modo o que aconselhar. Li um artigo sobre o assunto, em que uma coordenadora de leitura, no Brasil, foi a uma escola em que os professores não tinham a mínima ideia de como motivar os alunos para a leitura; e, quando ela lhes pediu que trouxessem um livro de que tivessem gostado e falassem dele, bem… percebeu que não tinham lido nenhum livro nos últimos dois anos. Será que os Planos de Leitura de todo o mundo não deveriam também sugerir obras a professores?

Regresso ao Paraíso

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Amanhã deverá estar à venda O Paraíso, de Paula de Sousa Lima, natural dos Açores, que foi o único romance a chegar à final do Prémio LeYa no ano passado. A sua história começa ainda durante o reinado de D. Carlos: os habitantes de uma recôndita aldeia resolvem castigar, certa noite, os praticantes de um pecado que consideram hediondo, deitando fogo à sua casa na orla de uma floresta paradisíaca. E é tal a sanha colectiva que só duas pessoas não participam do massacre: a parteira e o padre; conseguindo adiantar-se à tragédia, resgatam um par de gémeos recém-nascidos da cabana, baptizados e entregues nessa mesma noite a orfanatos. É depois à vida destes irmãos que assistiremos, separados e sem saberem que têm, algures, uma alma gémea. E, à medida que os autores do crime vão morrendo na aldeia – a própria culpa castiga –, a parteira  nunca mais deixará de se perguntar pelos meninos que salvou, ignorando que o regresso deles à terra é uma possibilidade. Muito bem escrita e com personagens formidáveis, esta é uma narrativa sobre o preconceito e a incapacidade de fugir ao destino, algo lobo-antuniana, algo queirosiana também.


 


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Pobres avós

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Os laços de parentesco são, aparentemente, muito fáceis de entender; e, quando, por exemplo, aprendemos uma língua estrangeira, entre os primeiros vocábulos que nos ensinam estão, quase sempre, as palavras «pai», «mãe», «irmão», etc.; mas, antes dessas, também a palavra «nome», que é, de resto, a forma de cada um de nós se identificar junto de alguém. Quando era pequenita, uma das minhas sobrinhas perguntou o nome completo à avó (a minha mãe) e, ao ouvir o apelido «Pedreira», comentou muito espantada: «Ah, então eu e a avó somos da mesma família!» Foi uma risota descobrir que, para ela, o termo «avó» dizia, enfim, menos do que o nome que era comum a ambas. As crianças têm a sua maneira de pensar muito própria e, já que falei de uma avó e de uma neta, não resisto a partilhar convosco um texto que apanhei por aí, escrito por uma criança, certamente a pedido de uma professora; é, no fundo, uma composição sobre as avós. Eu fartei-me de rir e apreciei bastante a qualidade da redacção. Quanto às ideias… Bem, espero que se divirtam tanto como eu.


 


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Verosímil?

Quando estou a ler romances de autores que nunca publicaram, um dos problemas que mais frequentemente encontro é a falta de verosimilhança. Coisas muito forçadas, coladas com cuspo ou metidas a martelo porque dão jeito para justificar qualquer passagem anterior, mas que nem por um minuto acreditamos que pudessem ter acontecido. Uma vez por outra há um autor que reclama dizendo que, embora eu ache certos episódios inverosímeis (plural de inverosímil, e não aquela palavra irritante que tanta gente escreve acabada em «mel»), se baseou numa história verdadeira, portanto, em factos que aconteceram mesmo. Nesses casos, parafraseando aquela máxima aplicada à mulher de César, costumo dizer que, nos romances, não é preciso ser verdade, tem é de parecer… Li recentemente uma crítica a um livro inglês (ou metade, porque já não a li até ao fim) que me fez recordar estas conversas. Escrevia o crítico que no romance You Too Can Have a Body Like Mine, de Alexandra Kleeman, se conta a dada altura a história de um russo que começou a tossir e encheu um lenço de sangue. Foi imediatamente levado para o hospital onde, depois de radiografado, lhe descobriram uma massa densa e irregular no pulmão esquerdo. Todos pensaram que tinha um cancro e decidiram operá-lo de urgência; mas, assim que lhe abriram o peito na cirurgia, os médicos encontraram, implantada no seu pulmão, uma pequena árvore... Diria eu, se não se tratasse de um romance de tipo fantástico (e não se trata), que tal enredo era completamente inverosímil. E, segundo o crítico, a história do russo é mesmo verdadeira. Larguei, pois, a crítica e fui à procura de saber coisas do homem que tinha um abeto junto ao coração. Daria, parece-me, uma história bonita para crianças.

Na Europa de Leste

Gabriel García Márquez, antes de se tornar escritor, já era jornalista; e publicou longas reportagens numa espécie de fascículos que, mais tarde, quando já era conhecido, acabaram por ser reunidas e publicadas em livro. Uma delas já foi falada neste blog – trata-se de Relato de Um Náufrago, a crónica de um homem sozinho à deriva numa jangada, na sequência de um naufrágio, durante uma dúzia de dias. Recentemente, foi dado à estampa um outro projecto do mesmo tipo, ainda mais interessante, que dá pelo título de Em Viagem pela Europa de Leste e é o testemunho de uma visita de García Márquez (com dois outros jornalistas) a alguns países da Cortina de Ferro no final dos anos 1950. O périplo inicia-se em Berlim Oriental e inclui a Checoslováquia, a Polónia, a Hungria e a União Soviética – e as diferenças de país para país são comentadas pelo autor e pelos seus companheiros de viagem. Na URSS, o escritor colombiano de esquerda não resiste, porém, a relatar como o regime idealizado por Lenine é tudo menos uma pera doce, que o povo aceita com medo e não questiona. Como refere Plinio Mendonza, que voltou com Gabo a Moscovo mais tarde, o escritor galardoado com o Nobel da Literatura ficou muito desiludido com o comunismo. (Só para vos dar um exemplo, eis o que conta sobre a Polónia: «Para nos fazer crer que na Polónia há liberdade religiosa, abriram igrejas e puseram por todo o lado funcionários públicos disfarçados de padres.») Basta ler este livro para saber porquê.

Amor, amor

Amanhã, como todos sabem, é Dia dos Namorados – uma celebração do dia de S. Valentim que, quando eu era jovem, não existia por cá, mas que, mal apareceu, passou a ser obrigatória (suponho que os comerciantes gostaram da ideia de fazer mais uns cobres). O Museu Nacional da Imprensa, no Porto, resolveu então pegar nesta data como ponto de partida e festejar a criação literária inspirada pelos pozinhos do amor. Nessa medida, promove anualmente um concurso nacional para textos de temática amorosa, sejam em prosa, sejam em poesia, evocando um patrono de respeito: nada mais nada menos do que o poeta Manuel António Pina, também jornalista. Não existem limites de idade (podem concorrer tanto crianças como adultos) nem de número de textos (cada pessoa pode concorrer com tantos textos quantos quiser), e os concorrentes têm de ter nacionalidade portuguesa mas podem residir no estrangeiro. O envio dos textos deve ser feito em formulário próprio entre hoje e dia 19 de Fevereiro e, até ao final do ano, o júri decidirá quem merece o prémio, que será de viagens para duas pessoas (uma espécie de lua-de-mel), livros e CD. Se tem alguma coisa escrita sobre a matéria (o amor, claro), aqui lhe deixo o regulamento. Não custa nada tentar... e Cupido agradece.


 


https://drive.google.com/file/d/0B6nVVUjHu7ngSHgzMWtqOFZGOGM/view


 


Já agora, deixo aqui também o regulamento do Prémio de Poesia Francisco Rodrigues Lobo, organizado com a parceria da nossa querida Livraria Arquivo, cujo prazo de candidatura termina no dia 25 deste mês:


 


http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugues/noticiasEventos/Documents/DSL2015/Regulamento%20Pr%C3%A9mio%20de%20Poesia%20Francisco%20Rodrigues%20Lobo%202017%20PDF.pdf


 


 

Peripécias camonianas

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Se não me engano, é já amanhã que irá para os escaparates o novíssimo romance de Mário Cláudio, intitulado Os Naufrágios de Camões, que tem como ponto partida a tese de um linguista norte-americano de que Os Lusíadas podem não ter sido escritos, pelo menos na íntegra, pelo poeta que todos conhecemos e que não teria sobrevivido ao naufrágio no delta do Mekong, no qual conta a lenda que salvou a sua magna obra entre as vagas. Timothy Rassmunsen, assim se chama o linguista, defende que o capitão da nau onde viajava o autor da epopeia se terá feito então passar por Camões e dado continuidade ao seu poema; e clama não estar sozinho nesta descoberta, socorrendo-se dos escritos do explorador britânico Richard Burton, descobridor das Nascentes do Nilo e tradutor d’Os Lusíadas para inglês. Verdade ou mentira? Pois saberemos se lermos os três capítulos do romance, cada um dedicado a uma personagem diferente: Rassmunsen, Burton e o escrivão-mor da embarcação naufragada que, por estar no sítio certo à hora errada (a do naufrágio), bem poderá esclarecer-nos sobre o que realmente aconteceu. Poderosamente imaginativo, polémico e inteligente, não perca mais uma peça literária fascinante deste grande autor.


 


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Escritores ambulantes

Li há tempos no El País um interessante artigo (de Leila Guerreiro, escritora que já foi às Correntes d’Escritas) sobre a circunstância de os escritores em todo o mundo estarem a ter cada vez menos tempo para escrever. Sim, é isso: hoje, ser escritor não se resume a produzir obra, a promoção é considerada parte integrante do processo e isso acaba por fazer com que muitos autores andem todos os meses de malas aviadas para um sítio qualquer, respondendo a convites de feiras, festivais, bibliotecas, escolas… no país onde vivem e no estrangeiro. Conta o dito artigo que um autor espanhol que já tenha algum gabarito recebe entre 20 e 35 convites por ano e que, se os aceitar a todos, estará cem dias fora de casa (e, provavelmente, sem escrever, embora haja quem leve o portátil e se ajeite a fazê-lo em quartos de hotel). Pode ser compensador em termos de conseguir novos leitores, mas alguns dos entrevistados confessam ter dúvidas sobre se vale a pena sacrificar a escrita à promoção, até porque depois de viagens mais longas há sempre um período de ressaca em que não são capazes de criar ou, se têm um emprego, o monte de coisas que têm para fazer no regresso é aterrador. Há, porém, quem refira que escrever é uma actividade solitária e por isso a ida a festivais é positiva, permitindo estar com os pares e trocar opiniões; mas há também quem discorde e ache que as mesas-redondas podem distrair do essencial, que é o livro, e o público gostar de ouvir os autores, mas não os ler. E, ainda assim, muitos escritores que não são convidados regularmente ficam ressentidos e, embora com o tempo por sua conta, não se importavam nada de trocar com os que andam sempre de mala na mão…


 


Em tempo: Ontem só consegui voltar ao blogue à noite e fiquei horrorizada com alguns dos comentários, sobretudo vindos de quem diz gostar de ler, a um post que era, acima de tudo, sobre a etimologia da palavra «forasteiro»; este blogue é sobre livros, edição e língua portuguesa. Preferia que continuasse assim. Até porque para falar de certas coisas e arreganhar os dentes há outros blogues mais apropriados.

Estranho estrangeiro

Com o Brexit e a saída do Reino Unido da União Europeia, com a subida ao «trono» de um Trump tresloucado que proibiu logo nos primeiros dias a entrada nos Estados Unidos de pessoas oriundas de uns quantos países, não está a ser nada fácil ser estrangeiro em algumas nações onde se fala inglês (o Canadá, pelos vistos, é outra história). Em inglês, a palavra para «estrangeiro» é «foreigner» – e um dia destes, à mesa, o Manel perguntava qual seria a sua origem. Pus a hipótese de derivar de uma palavra próxima de «fora» por causa do comecinho – e não me enganei muito, pois concluí que vem do francês antigo «forain», palavra que significava «aquele que vem de fora» e que, com o passar do tempo, passou a designar o proprietário de carrosséis ou outras atracções de feira, pois habitualmente os que vinham montar feiras e circos andavam de terra em terra, sendo quase sempre estrangeiros. Curioso é que a palavra que nós e os espanhóis usamos também vem do francês – «estrangier», hoje «étranger» (a partir de «étrange», «estranho»), que por sua vez deriva do latim «extraneus» (como o «straniero» italiano); ora, este «extraneus» inclui a partícula «extra», que quer dizer «fora de». (Assim sendo, «extraordinário», palavra que está no título do presente blog, é no fundo «fora do comum»; que grande pretensiosa me sinto agora ao dizê-lo.) Descubro ainda que «extra» contém o prefixo indo-europeu «eghs» que, em grego, está presente em palavras como «êxodo» – e cheira-me que nos Estados Unidos vai haver um dia destes um verdadeiro êxodo forçado, que o senhor Trump não vai ficar por aqui. A xenofobia também vem do grego, significa medo dos estrangeiros, mas na era Trump são os estrangeiros que têm razões para ter medo.

Adaptações

No mês dos Óscares, estreiam-se muitos filmes nas salas de cinema portuguesas e dá-se início a um ano de novidades cinematográficas (em que se incluem os candidatos ao galardão de Hollywood, mas não só). Leio numa revista que em 2017 vai ser possível ver vários filmes que se basearam em livros e sei que alguns deles constituirão uma desilusão para quem leu as obras, mas podemos sempre esperar adaptações felizes. Em Janeiro, já pudemos ver O Silêncio, de Martin Scorsese, sobre jesuítas portugueses no Japão, a partir do romance de Shusaku Endo; e também, por exemplo, o filme assinado por Ben Affleck Viver na Noite, sobre a obra de Dennis Lehane. Em Fevereiro vai aparecer mais um filme da série das Cinquenta Sombras e, em Março, A Cabana, o best-seller de W. Paul Young levado à tela por Stuart Hazeldine, e um filme para o qual estou muito curiosa baseado n’O Sentido do Fim, de Julian Barnes, com a fantástica Charlotte Rampling. A famosa actriz Julia Roberts será a mãe de Augie no filme Milagre, a partir da obra homónima de R. J. Palacio, com estreia marcada para Abril; e, nesse mesmo mês, haverá A Cidade Perdida de Z, uma história passada na Amazónia escrita por David Grann, bem como a adaptação de O Círculo, de Dave Eggers, que será protagonizado por Tom Hanks. O romance O Jantar, de Herman Koch, dá origem ao filme com o mesmo nome que será possível ver em Maio (com o já entradote Richard Gere) e, a partir desse mês, com o calorzinho a espreitar, são de esperar muitos outros filmes, quiçá levezinhos, como as roupas de Verão. Para quem gosta de ler os livros antes de ver os filmes, já aqui fica a informação.

Ouvir poemas

Nos anos longínquos em que as Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, davam os primeiros passos, havia sempre leituras de poemas à noite, no bar do hotel onde os convidados estavam hospedados. Às vezes os diseurs eram perturbados pelo tilintar de copos e chávenas, tornando a tarefa mais difícil, mas nem assim desanimavam, porque as cadeiras e o chão do bar se enchiam de gente da Póvoa e dos arredores que iam ali exclusivamente para ouvir poesia. (Hoje continua a haver sessões de poesia neste encontro, mas numa sala específica cuja lotação se esgota rapidamente.) Existem muitas pessoas que, embora não sejam leitores regulares deste género literário, gostam de ouvir dizer poemas; e muitas pessoas que até dizem não gostar de poesia até ouvirem alguém ler alto uns quantos textos e descobrirem que, afinal, não se importariam de ter os livros daquele poeta. Nem todos temos tempo para passar horas nas livrarias à procura de poetas de que vamos gostar, mas agora a revista Ler resolveu colocar no seu blog um poema por dia – e, além do texto ali transcrito, dá-nos a ouvir frequentemente o próprio poeta ou outra pessoa a dizê-lo em voz alta num pequeno vídeo. Por isso, se quer saber o que se anda a escrever por aí – e o que já se escreveu há mais tempo – pode começar o dia a ouvir um poema, e então, sim, decidir se o poeta é dos que gosta ou dos que prefere passar. Comece já hoje, que é segunda-feira. Logo à noite, às 22h00, haverá também o lançamento do livro Naquela Língua, uma antologia da novíssima poesia brasileira, no bar Povo, ao Cais do Sodré, com leitura e conversa.


 


http://ler.blogs.sapo.pt/

Sucesso pela tradução

Há tantos autores a escreverem hoje em dia em todo o mundo que, como já aqui tenho dito, são poucos os que se internacionalizam e conseguem traduções noutras línguas. É, porém, bastante curioso que alguns dos que o conseguem comecem a ter êxito e reputação justamente por causa delas. O chileno Luís Sepúlveda, por exemplo, vende incomparavelmente mais livros em Portugal e na Itália do que no seu Chile natal, e Paul Auster confidenciou um dia ao Manel que vendia muito mais livros em França do que nos EUA, onde podia andar pelas ruas à vontade sem ser reconhecido. Há muitos anos as Publicações Dom Quixote publicaram Elena Ferrante, mas nessa altura ela não era célebre como hoje e os livros passaram despercebidos; o que efectivamente a tornou famosa em todo o mundo foi a edição americana de A Amiga Genial. O mesmo para Roberto Bolaño: a tradução das suas obras nos Estados Unidos contribuiu para que se tornasse um mito e fosse publicado em todo o lado, mesmo depois da morte. Num artigo sobre a matéria publicado no The Guardian, leio que uma data de escritores só passaram a ser levados a sério nos seus países de origem depois de alcançarem notoriedade num país estrangeiro: Laura Kasischke, por exemplo, que foi capa do jornal Le Monde em França, enquanto nos Estados Unidos dava aulas numa pequena comunidade do Michigan e ninguém sabia quem era; e também os autores britânicos Robert McLiam Wilson, David Mark e Rosamunde Pilcher, que atingiram números de vendas e admiradores substanciais em França e na Alemanha antes de o Reino Unido lhes prestar atenção; ou mesmo a grande Donna Leon, que diz que os Europeus sempre gostaram mais dela do que os Americanos, pois estão simplesmente mais habituados a ler literatura séria e, além disso, ela sempre viveu na Europa. Durante muito tempo, o nosso querido Rentes de Carvalho tinha um sucesso enorme na Holanda, onde vivia, e cá quase ninguém o conhecia…Enfim, parabéns aos tradutores no meio de tudo isto.

Ler ou não ler

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Há uns tempos, fui cortar o cabelo. Uma das senhoras que frequentam o cabeleireiro e sabe que sou editora, estava preocupada: na escola da neta, que tem treze anos, a professora de Português mandara ler o primeiro romance de Valter Hugo Mãe, O Nosso Reino, e a mãe da miúda tinha espreitado o livro e achado que não era adequado para aquela faixa etária. Disse-lhe que, de facto, o acharia mais apropriado a estudantes do Secundário. Na semana seguinte, descobri no jornal Expresso uma polémica relativa à Escola Pedro Nunes, cujos professores também recomendaram o romance: os pais de muitos alunos discordam em absoluto da leitura da obra pelos seus filhos do oitavo ano (talvez porque inclui linguagem muito crua em certas passagens, embora poucas) e foram à escola indignar-se e propor a sua imediata substituição. Enquanto a senhora que vai ao meu cabeleireiro já me avisou que, afinal, a professora da neta desistiu da ideia de os seus alunos lerem o livro (pelos vistos, ela própria ainda não o lera e, ao fazê-lo, acabou por concordar que era pesado para miúdos de 13 e 14 anos; que professora é esta que recomenda um livro que não leu?), na Escola Pedro Nunes houve professores que fizeram finca-pé e dizem que os alunos já não são crianças e que a literatura também serve para incomodar; além disso, o Plano Nacional de Leitura recomendava a obra para o 3º ciclo do Básico, ou seja, do 7º ao 9º ano (ao que parece, houve um erro informático na classificação). Ora, diante dessa decisão, houve pais que proibiram simplesmente os filhos de ler o livro (arcando com as consequências, entre elas a de que os miúdos o vão ler às escondidas, claro) e pais que se deram ao trabalho de pintar por cima das passagens mais vernaculares (como se a literatura pudesse ser amputada)… Eu, que conheço bem este romance porque fui eu o publiquei pela primeira vez, acho que, para o ler – as suas páginas sem maiúsculas ou pontos de interrogação, a sua linguagem elaborada, as questões tratadas (políticas, filosóficas, místicas) –, é preciso já ter alguma maturidade intelectual e bons hábitos de leitura, e custa-me muito a crer que em turmas do oitavo ano haja alunos suficientes com estas características que possam realmente fruir o texto em todas as suas vertentes. Tenho uma sobrinha de 14 anos bastante boa aluna e informada (quis ir pessoalmente assinar o livro de condolências de Mário Soares, por exemplo), mas não me parece, mesmo assim, que ela fosse entender este romance em toda a sua grandeza. Nunca proibiria um filho de o ler (eu própria li muita coisa em miúda que não era para a minha idade) só por causa de meia dúzia de palavras que, fora do contexto, podem parecer chocantes (os jovens, sempre com o nariz na Internet, já leram certamente coisas muito piores); mas, que me desculpe ou agradeça o Valter, parece-me que a sua leitura por gente desta idade pode simplesmente queimar futuros leitores para a sua obra.


 


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O que ando a ler

O meu querido irmão Jorge ofereceu-me no Natal o último livro de Ian McEwan, Numa Casca de Noz, traduzido por Ana Falcão Bastos, que tenho o prazer de conhecer há muitos anos. Possuo – julgo eu – a obra ficcional completa de McEwan (comecei a lê-lo pel’ O Jardim de Cimento em 1987, era ele um jovem e eu também), mas ainda não tinha conseguido pegar nesta maravilha que ando agora a ler. O protagonista do romance é – pasme-se! – um feto (enroladinho como se estivesse numa casca de noz) e, por acaso, já não lhe falta assim muito tempo para nascer. Concebido por Trudy (uma doidivanas manipuladora que bebe demasiado vinho, especialmente para uma grávida) e John (um editor de poesia melancólico que a ama desesperadamente), o bebé que fala connosco ouve tudo o que se passa dentro do corpo mãe (os pormenores são divinos) e bem assim cá fora, perto dela; e, por isso, não só anda preocupado com o estado do mundo a que virá aportar (Trudy gosta de ouvir rádio e as notícias raramente são animadoras), mas sobretudo com a família que lhe calhou em sorte, pois a mãe está em vias de trocar o marido pelo cunhado e, com a ajuda deste, «livrar-se» de John e… também, a seu tempo, da criança que tem na barriga. A cerca de duas semanas do parto, a indignação do bebé é grande e vamos ver como as coisas se vão desenrolar até lá, que ainda me faltam umas cem páginas, onde tudo pode acontecer. Uma escrita fantástica, uma leitura desafiante.