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A mostrar mensagens de janeiro, 2017

Em Belém

Isabel Alçada – ex-ministra da Educação, escritora e fundadora do Plano Nacional de Leitura (PNL) – trabalha agora com o Presidente da República na área da Educação e montou, para alegria de Marcelo (que sempre gostou de livros), um programa que junta leitores e autores no Palácio de Belém uma vez por semana. À terça-feira, dois grupos de alunos de vários níveis de ensino de mais de 250 escolas públicas vão ter, assim, oportunidade de visitar a casa oficial do Presidente e falar com um determinado escritor (mais de 60 foram convidados) sobre a respectiva obra. (O escritor que tem, naturalmente, livros no PNL, ou seja, cuja leitura é já aconselhada). Os autores variam muito e podem produzir obra infantil – como António Torrado ou Alice Vieira, por exemplo – ou para adultos – como Afonso Cruz ou Valter Hugo Mãe – até porque, entre os estudantes que compõem as turmas do Secundário, já haverá quem leia como gente grande. E é suposto – em qualquer que seja o grau de ensino – os professores trabalharem na escola com os seus alunos os livros dos escritores com quem se encontrarão em Belém, para que as sessões sejam mais interessantes e os próprios escritores esclareçam dúvidas e matem a curiosidade aos seus interlocutores. De caminho, já se sabe, há sempre a possibilidade de tirar uma selfie com o Presidente.

Contra-sensos

Li um dia destes no Diário de Notícias que o primeiro livro de Hergé da série Tintim – Tintim no País dos Sovietes –, que até agora só existia na sua versão original, a preto e branco, vai ser finalmente colorido. Mas talvez o país dos Sovietes fosse mesmo um bocadinho cinzentão e as cores agora não respeitem esse mundo obscuro... Espero pela publicação para ver se pintar o livro não será um contra-senso; mas, por falar em Sovietes, lembrei-me de que recentemente o semanário Expresso começou a oferecer em pequenos fascículos uma biografia de Estaline da autoria de Simon Sebag Montefiore, biografia que já tinha sido publicada entre nós num único volume bastante gordo. Exclusivamente para a edição oferecida com o jornal, pediram um prefácio a Francisco Louçã, o que, estou convencida, enriquece a obra; porém, segundo o Manel, que já o leu, o prefaciador não poupa nas críticas à tradução do livro... Não será então um contra-senso oferecê-lo aos leitores tal como estava, não ter aproveitado os reparos para fazer uma boa revisão? É que, mesmo que algumas pessoas não dessem pela calamidade, ficam logo avisadas de que o que têm na mão vem com defeito...


 

A palavra intraduzível

Nós, portugueses, costumamos dizer que temos uma palavra intraduzível: saudade. Não é a mesma coisa que nostalgia (palavra quase igual em muitas línguas) e exprime um sentimento de tristeza pela ausência de alguém. Um dia destes, perguntei-me se “saudade” teria a mesma origem de “saudar” (são tão próximas) e pensei que, no fundo, a saudade talvez significasse um desgosto por não poder cumprimentar alguém que está longe. Mas não: ao que apurei, “saudar” vem de saúde, pelo que ainda hoje os espanhóis se despedem nas cartas com “saludos” e os italianos com “saluti”, querendo no fundo dizer que desejam que os outros estejam ou fiquem bem de saúde, tal como César dizia “salve” e, ao batermos os copos para um brinde, fazemos nós mesmos uma “saúde”. A saudade vem do latim (solitus+atis, uma espécie de solidão, uma vez que solus significa “a um”, ou seja, sozinho). É por o outro se encontrar longe que estamos sozinhos e sentimos a sua falta, expressão que em inglês e francês é mais directa (“I miss you”, sinto a tua falta; “tu me manques”, faltas-me); em espanhol, o correspondente a “tenho saudades tuas” é “te extraño”, que não pode traduzir-se por “estranho-te”, mas que é um pouco o avesso do que se “entranha”, isto é, o que está afastado. Franceses e espanhóis passam o ónus do desgosto para quem falta, nós e os ingleses assumimos a nossa própria solidão. Saúde para todos!

Obama Leitor

Numa entrevista concedida ao New York Times uma semana antes de deixar a Casa Branca, Obama declarou que os livros o ajudaram muito a sobreviver aos oito anos da presidência e que, aliás, sempre desempenharam um papel fundamental na sua vida desde a juventude, em que os levava nos seus passeios, ensinando-o a perceber quem era e quais eram, realmente, as suas ideias. Nos oito anos em que foi presidente dos Estados Unidos, nunca se afastou da leitura, considerando os livros uma excelente fonte de inspiração sobre as complexidades e ambiguidades da condição humana, bem como uma forma de abrandar  da confusão da vida política e ganhar distanciamento e perspectiva sobre as coisas, para poder pensar melhor e ter o equilíbrio necessário no momento de tomar decisões. Os escritos de Martin Luther King, Gandhi e Nelson Mandela foram, nessa medida, de grande utilidade, bem como as biografias de outros presidentes dos EUA. Mas Obama também confessa ter lido vários livros de ficção narrativa como escape, e inclui na sua lista obras de Roth, Bellow e V. S. Naipaul, mas também Junot Díaz e Jhumpa Lahiri, Marilynne Robinson, David Eggers e Zadie Smith. Ao novo presidente, acho melhor nem perguntarem o que anda a ler…

Subserviência ou medo

Leio no The Guardian a notícia de que a Prémio Nobel da Literatura Svetlana Alexievich e mais de trinta outros escritores, entre os quais o autor de policiais de sucesso internacional Boris Akunin e o poeta Lev Rubinstein, deixam o PEN Club da Rússia, reagindo à expulsão de Parkhomenko, membro do staff e acusado de ser um provocador e querer destruir a instituição a partir do seu interior. Ao que parece, Parkhomenko, destituído pelos 15 membros da administração do PEN russo, não gostou que os colegas recusassem o seu pedido de apoio ao cineasta ucraniano Oleg Sentsov, a cumprir uma pena de 20 anos de prisão decretada pelo tribunal da Rússia por «actividades terroristas», e acusou no Facebook o mesmo PEN de não cumprir a obrigação de defender e promover a liberdade de expressão, como fazem todos os outros PEN em diferentes lugares do mundo. Svetlana Alexievich, na carta em que comunica o seu afastamento da organização, alerta para o facto de nos anos da Perestroika o PEN ter sido motivo de orgulho para os escritores russos, mas sublinha que agora a instituição os envergonha pela subserviência ao poder, o que só tinha acontecido – et pour cause – durante o estalinismo. E acrescenta que, um dia, Putin partirá, mas que esta triste página do PEN ficará gravada para sempre na memória de todos… Os escritores, é verdade, poderão até imortalizá-la.

O balanço das mortes

O final do ano é sempre época de balanço – e os nossos jornais fazem por publicar as listas do que de melhor houve em termos de livros, filmes, álbuns de música, peças de teatro e exposições. E, logo que o novo ano se inicia, afadigam-se então quase sempre os mesmos jornalistas a anunciar as novidades que estarão em lojas, museus e salas de espectáculos durante o primeiro trimestre. Este mês de Janeiro, porém, houve um jornalista (Nuno Pacheco, do jornal Público) que fez um artigo contra a corrente e, quiçá «aproveitando» a partida de Mário Soares, escreveu sobre várias outras despedidas – ou seja, fez o balanço das mortes de artistas e outras personalidades que ocorreram em 2016, deixando-nos a todos mais pobres. Foi, como ele disse, um ano muito duro – e só na parte que mais toca este blogue, a dos livros, os óbitos foram muitos. Morreram autores de diversas áreas: Alvin Toffler, o autor do profético A Terceira Vaga (lembro-me bem do sucesso deste livro) e Elie Wiesel, o activista judeu que sobreviveu aos campos de concentração e acabaria por receber o Nobel da Paz; outros dois escritores que tiveram o mesmo galardão, mas na Literatura: o italiano Dario Fo e o húngaro Imre Kertész; a senhora que escreveu Não Matem a Cotovia, Harper Lee; o grandíssimo Umberto Eco, escritor plural; uma das três Marias, Isabel Barreno; o poeta brasileiro Ferreira Gullar, vencedor do Prémio Camões em 2010; Michel Tournier, autor de, por exemplo, Sexta-Feira ou a Vida Selvagem; o autor da famosa peça Quem Tem Medo de Virgina Woolf, Edward Albee; Lars Gustafsson, que escreveu o belíssimo A Morte de Um Apicultor; e mais meia dúzia de pessoas que se dedicaram à escrita em vários países do mundo. Ufa! Espero que 2017 não nos leve tantos.

Rádio ao vivo

Já há vários anos que é possível assistir ao vivo à gravação do programa de rádio Ensaio Geral, da autoria de Maria João Costa, da Rádio Renascença, que acontece uma vez por mês na Livraria Férin, em Lisboa. Mas a jornalista associou-se recentemente a João Paulo Cotrim (entre outras coisas, o editor da Abysmo) para a realização de um outro programa radiofónico intitulado Obra Aberta, estreado no dia 12 de Janeiro na Sala Glicínia Quartim do Centro Cultural de Belém, às 18h00, e igualmente aberto ao público interessado (e igualmente emitido na Renascença). A ideia é juntar um escritor a um leitor na mesma mesa – na estreia Frederico Lourenço, galardoado com o Prémio Pessoa, e António de Castro Caeiro – e fazê-los falar dos livros que leram, dos autores de que gostam, das personagens que os marcaram, abrindo os livros ali mesmo, diante do público, e explicando os porquês. Não consegui ir, infelizmente, a este programa inicial, mas no dia 26 de Janeiro (a Obra Aberta é quinzenal) será a vez de António Mega Ferreira (escritor) e João Queiroz (leitor) dividirem o tempo entre páginas e quem sabe consigo sair  do trabalho a tempo de estar às seis da tarde em Belém… A coisa promete.

Domínio público espanhol

Todos os anos entram no domínio público as obras de um certo número de escritores. Que quer isto dizer? Que, decorridos 70 anos sobre a morte de um autor, os direitos deixam de ser devidos aos herdeiros, e qualquer editor em qualquer parte do mundo pode publicar a obra livre deste encargo (podem até publicá-la vários editores ao mesmo tempo, como acontece, por exemplo, com O Principezinho, de Saint-Exupéry, com várias edições portuguesas desde que entrou no domínio público). Ora, ao que leio num blogue, em Espanha estes 70 anos só vigoram para autores que morreram depois de 1987, mantendo-se para os que perderam a vida antes disso o período de 80 anos antes estabelecido. Razão pela qual este ano de 2017, no país vizinho, entra no domínio público a obra dos escritores mortos em 1936 – e não em 1946, como acontece em Portugal. E, porém, se este atraso de dez anos parecia uma desvantagem, não o é realmente. Porquê? Porque 1936 é o ano em que começa a Guerra Civil de Espanha e, como toda a gente sabe, esta provocou, sobretudo entre os intelectuais, muitíssimas vítimas e mortes violentas (ocorre-me desde logo García Lorca, que morreu justamente neste ano). A Biblioteca Nacional de Espanha disponibiliza uma lista com mais de 300 nomes e 77 páginas! Nela, descubro Miguel de Unamuno e Ramón del Valle-Inclán, por exemplo, outros dois nomes importantes. Mas muitos mais haverá nessa lista ceifados pelo franquismo. Para quem a queira «folhear», deixo o link.


 


http://www.bne.es/webdocs/Servicios/Informacion_bibliografica/autores-dominio-publico-2017.pdf

Detroit-Figueira-Lisboa

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Como já vem sendo hábito, a Biblioteca da Figueira da Foz organiza sessões mensais, às 21h30 de uma quinta-feira, sobre autores e livros específicos, em que os escritores podem conversar com o público sobre a sua mais recente produção e responder a perguntas do moderador, o também romancista António Tavares, que tem, entre outros, o pelouro da Cultura na Câmara figueirense. Hoje à noite, será a vez de João Ricardo Pedro e do seu romance O Postal de Detroit, publicado em Abril de 2016; e lá estarei com ele nuns confortáveis sofás de couro preto para fazer uma pequena introdução à obra e lançar algumas questões para abrir o diálogo. Vai ser divertido sentar-me entre dois galardoados com o Prémio LeYa, já que não só João Ricardo Pedro o venceu em 2011 com O Teu Rosto Será o Último, que atingiu números de venda espectaculares para um romance de estreia e foi traduzido em cerca de uma dezena de países, mas também o próprio moderador viu o seu romance O Coro dos Defuntos contemplado em final de 2015 com esse mesmo prémio. A seguir ao encontro, há chá de limonete e bolinhos para convidados e público, o que é bom, pois a seguir temos de conduzir até Lisboa e é bom levarmos o estômago aconchegado. Apareça!


CARTAZ JOÃO RICARDO PEDRO.jpg


 

Uma boa história

Uma aldeia situada a cerca de trinta e cinco quilómetros de Burgos saltou do anonimato para as parangonas dos jornais do país vizinho. É um lugar chamado Quintanalara, de apenas quatro ruas, casas de pedra de um só piso e, segundo o censo, uns míseros 33 habitantes (embora só nove vivam lá durante todo o ano). E, porém, ao contrário de aldeias e vilas de outra dimensão, acaba de construir uma biblioteca, e uma biblioteca de 16 000 volumes! Estes foram doados, na maioria, por particulares que herdaram bibliotecas de família que não cabiam nas suas casas, mas também por universidades, como a de Navarra, que se apaixonou pela iniciativa e mandou um camião cheio de livros. E o que é espantoso é que esta biblioteca, estando no meio rural, fica aberta dia e noite (sim, vinte e quatro horas por dia!) e não é um lugar de empréstimo, mas de troca: quem lá for buscar um livro tem de deixar outro, para que o número de volumes não diminua (a biblioteca está, de resto, incluída na rede de bookcrossing como um dos pontos de troca de livros mais bem apetrechados). Os responsáveis crêem que este pequeno templo milagroso atrairá pessoas a Quintanalara e projectam realizar ali conferências e apresentações de livros, não apenas para os habitantes locais (que não encheriam a sala) mas para gente das terras das redondezas que não têm grande oferta e para turistas e gente que ficou curiosa com a notícia. Propõem, aliás, o plano ideal para um fim-de-semana: visitar o património românico da zona e terminar o passeio na biblioteca, com uma boa história! Não sei porquê, mas já me estou a ver a ir a Quintanalara…

A nossa luta

Defendo que não há nada pior do que tentar apagar o passado, por pior que tenha sido, e creio que assistir a determinados documentários ou ler a verdade sobre o Holocausto, por exemplo, leva a que lutemos para que esse tipo de horrores não volte a acontecer. E, porém, fiquei um bocado assustada com a notícia de que Mein Kampf (A Minha Luta), a obra de Adolf Hitler que já não era publicada na Alemanha desde o final da Segunda Guerra Mundial, foi um dos livros mais vendidos naquele país contra todas as expectativas (aliás, a primeira tiragem foi de apenas 4000 exemplares e já se venderam 85 000!). O Instituto de História Contemporânea de Munique, que organizou um grande número de debates e apresentações à volta da obra, informa, porém, que esta edição anotada por especialistas do manifesto anti-semita do líder nazi, apesar de nunca ter saído do Top de vendas de livros de não-ficção desde que foi distribuída, tem servido sobretudo para promover o debate por toda a Europa sobre as consequências nefastas dos regimes autoritários e está longe de inflamar o neo-nazismo e a ideologia de extrema-direita que a obra expressa. Numa altura em que existe uma onda de xenofobia por toda a Europa, especialmente no que toca aos refugiados oriundos do Médio-Oriente, espero que seja mesmo assim: a nossa luta contra a luta de Hitler.

Ignorância e cultura

Fui recentemente convidada para participar com duas outras pessoas – Carlos Mendes de Sousa, um professor especialista em Sophia de Mello Breyner, e Isabel Capeloa Gil, a reitora da Universidade Católica Portuguesa – naquele programa de televisão da autoria de Anabela Mota Ribeiro chamado Curso de Cultura Geral de que aqui falei e muitos dos Extraordinários viram e não gostaram (pelo menos, do primeiro «episódio»), mas, para o que aqui me traz hoje, tanto faz. O tema prendia-se com o que é hoje «ser culto» e, nos dias que decorreram entre o convite e a gravação, pensei muito no assunto e cheguei à conclusão de que, quanto mais cultos somos, maior é a noção que temos do que ainda nos falta saber. Por outras palavras: quanto mais coisas sabemos, mais ignorantes nos sentimos. Uns dias depois de o programa ter sido gravado (e como foi bom conhecer e ouvir os outros convidados, pessoas com tanto para dizer e tão interessantes!), li com curiosidade uma entrevista feita no site escritores.online a Bruno Vieira Amaral, o autor de As Pequenas Coisas (de que aqui já falei), romance galardoado com, entre outros, o mais recente Prémio Literário José Saramago da Fundação Círculo de Leitores. E, à pergunta sobre o que era para ele um bom livro, o escritor respondeu desta forma: «Qualquer um que nos revele a verdadeira dimensão da nossa ignorância.» Que bom que não seja só eu a pensá-lo. Para quem queira ler toda a entrevista, aqui vai o link:


 


http://escritores.online/entrevistas/bruno-vieira-amaral/


 

Premiar a persistência

Pouco depois de o poeta Vasco Graça Moura, uma espécie de príncipe da Renascença dos nossos tempos, ter morrido, foi criado, para o homenagear, o Prémio de Cidadania Cultural com o seu nome, visando pessoas especialmente activas e empenhadas na divulgação da cultura. Nesta segunda edição (na primeira o prémio foi entregue a Eduardo Lourenço), o galardão foi atribuído ao conhecido jornalista José Carlos Vasconcelos, um veterano da acção cultural, que o júri definiu como «um dos raros exemplos de persistência na imprensa portuguesa de âmbito cultural» e é, desde há muito, a alma do Jornal de Letras, Artes e Ideias, um das poucas publicações periódicas dedicada à cultura que tem conseguido sobreviver a todas as intempéries. José Carlos Vasconcelos é também poeta, com cerca de uma dezena de livros publicados, fez Direito em Coimbra, onde presidiu à Associação Académica da Universidade, foi chefe de redacção da Vértice, uma revista emblemática que haveria de dar a conhecer muitíssimos autores, e ainda actor do teatro universitário quando estudante. Depois ingressou na carreira jornalística – Diário de Lisboa, Diário de Notícias, O Jornal, Visão… – mas sem nunca perder o pé à luta pela liberdade de expressão, tendo sido dirigente sindical e presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa. A sua ligação ao Brasil é conhecida e, nesse âmbito, foi membro da Comissão de Honra das Comemorações dos 500 Anos da Descoberta do Brasil e é sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras. Tem 76 anos e continua a trabalhar todos os dias na divulgação de escritores e artistas de todas as áreas. Parabéns, José Carlos Vasconcelos, pela sua persistência.

Que há-de ser de nós

Anabela Mota Ribeiro é imparável: escreve livros, organiza festivais, faz entrevistas, grava programas de TV, alimenta um blogue… Ufa! Há gente que tem um enorme talento para organizar o próprio tempo! As sessões Ler no Chiado, na Livraria Bertrand, são também da sua responsabilidade uma vez por mês, e hoje os versos da canção de Sérgio Godinho «Que há-de ser da longa batalha/ que nos fez partir à aventura?/ que será, que foi/ quanto é, quanto dura?» servirão de mote para uma conversa que se adivinha bem interessante, até porque, em tempos de «trumpismo», são chamados a dividir as suas opiniões sobre «o que vai ser de nós» o escritor norte-americano-português-de-alma Richard Zimler – um excelente comunicador –, o professor de Direito Eduardo Paz Ferreira (um homem cujo saber é profundamente abrangente e publicou recentemente o livro de ensaios e crónicas Por Uma Sociedade Decente) e a escritora e jornalista muito premiada Ana Margarida de Carvalho. Modera quem? Ora, Anabela Mota Ribeiro. É às 18h30, na Bertrand do Chiado.

Viagem literária

É óbvio que só podemos visitar Avalon, Oz, a Atlântida ou Macondo através dos livros dos autores que criaram esses mundos, mas há bastante ficção à roda de lugares reais – e um dia destes, em conversa com amigos, decidimos que haveríamos de começar a visitar cidades, vilas e aldeias de que ouvimos falar desde sempre mas que, na verdade, não conhecemos senão dos títulos e enredos de certos romances. Por exemplo, eu não sabia onde ficava a Casa Grande de Romarigães (a do Aquilino, bem entendido) até ir ao Google e ver que era perto de Paredes de Coura (hei-de lá ir depois de ler o romance, o que ainda não fiz), nem que Prazins (a da Brasileira, de Camilo) pertencia ao concelho de Guimarães. Vai daí o Manel teve a ideia de irmos a Tormes (a Tormes do absolutamente notável A Cidade e as Serras), onde Eça de Queirós não chegou a viver (pernoitou apenas), mas que hoje alberga a Fundação com o seu nome, parte da sua biblioteca e os móveis que, depois da morte do escritor, vieram da sua residência em Paris. Além da visita guiada à casa, em que se fica a saber muita coisa sobre Eça e a família, existe um restaurante que serve os petiscos queirosianos, pelo que não falhámos a ementa que foi, pelos vistos, ali servida ao próprio Eça quando visitou Tormes: canja, frango alourado com arroz de favas e creme queimado. Estamos agora a pensar que lugar dos livros vamos visitar a seguir…

Estímulo à natalidade

Sou, com muito gosto, membro da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), até porque, sozinha, nunca conseguiria apurar os direitos que geram as letras que escrevo para fados e canções. Recebo, por isso, quase diariamente, uma newsletter que a SPA envia a todos os seus membros e, pouco antes do Natal, fiquei muito bem impressionada como uma das medidas recentemente tomadas pela cooperativa: a de dar a todos os seus funcionários com filhos até aos sete anos a quantia de 100 Euros por mês, também como estímulo à natalidade, num país em que quase não nascem bebés. Claro que não se cria uma criança com 100 Euros mensais, mas considero esse valor uma boa ajuda, inclusivamente porque a SPA já oferece aos respectivos trabalhadores os manuais escolares para os filhos em todos os graus da escolaridade obrigatória. Diz o texto do comunicado: «Compatível com a disponibilidade financeira da cooperativa, esta medida de apoio social irá contemplar de imediato um total de 30 crianças, o que representa um encargo mensal para a SPA de 3000 euros, contributo dos autores portugueses para o crescimento e desenvolvimento dos filhos dos trabalhadores da cooperativa que os representa e defende.» Sendo eu autora e membro da SPA, sinto-me orgulhosa por poder contribuir.

Leitores e livreiros

À semelhança do que acontece em outros países do mundo, em que livreiros elegem uma obra entre todos os livros publicados em determinado ano (o Prémio FNAC em França, por exemplo), a cadeia de Livrarias Bertrand resolveu criar o Prémio Livro do Ano Bertrand para uma obra em prosa (romance, conto ou novela) publicada entre Novembro de 2015 e Novembro de 2016. O júri é composto por todos os livreiros da rede Bertrand e bem assim pelos Leitores Bertrand, aqueles que possuem o cartão de fidelização da livraria. A selecção dos livros, que são 55 no total e podem ser vistos (capinhas e tudo) no site da Bertrand, contou com o apoio dos jornalistas Anabela Mota Ribeiro e José Mário Silva, que recomendaram cinco livros cada um (não fosse ficar alguma coisa importante de fora), e foi grande o meu contentamento quando vi que a lista contemplava quatro títulos que publiquei (A Vegetariana, Um Postal de Detroit, O Coro dos Defuntos e Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato), pois considero que, com tanto livro a sair todas as semanas por tantas editoras, ter lá um quinto da minha produção anual é francamente bom. Até dia 15 deste mês, os portadores do cartão Bertrand podem votar (só uma vez cada um) no seu livro preferido (deixo abaixo o link para os interessados) e, no final do mês, surgirá então a lista dos dez títulos finalistas, dos quais nascerá um pouco mais tarde a obra vencedora. Essa terá a sorte de ter exposição nas livararias do grupo durante todo o ano de 2017. Pode ser que me calhe essa sorte...


 


http://www.bertrand.pt/premio-livro-do-ano-2016

Cultura geral

Nós, portugueses, temos fama de nos queixarmos constantemente de tudo – o mau tempo, a falta de dinheiro, as políticas do governo… – e, se é um facto indesmentível que o mundo anda mesmo às avessas, a verdade é que também há coisas que estão a melhorar, e eu diria que a RTP é uma delas, sobretudo a RTP2, que está a saber combinar serviço público e entretenimento da melhor maneira. No próximo domingo à noite, é lá que vai estrear-se um programa da autoria de Anabela Mota Ribeiro que promete: chama-se Curso de Cultura Geral e propõe aos convidados que falem do que é hoje ser culto, baseando-se nas suas experiências pessoais e numa lista de coisas que viram, leram, ouviram, sentiram, e os marcaram para a vida. Haverá gente de todas as áreas, famosos e desconhecidos, especialistas e aprendizes, bancários, padres, jovens e muito mais. A produção avisa que a paridade foi uma preocupação e que, em 13 programas, participarão 39 mulheres. Eu também lá vou estar (sobre isso falarei um destes dias), mas não é por ter sido convidada que recomendo o programa, antes porque estou certa de que todos os que lá vão aprendem tanto como os que os ouvirem a partir de casa. No próximo domingo, cerca das 22h30, ligue a televisão e fique a saber mais coisas.

Uma gralha caríssima

Ninguém é perfeito – e todos os editores sabem que não há livros sem gralhas. Quando estamos a contraprovar (ver se as emendas marcadas na primeira prova foram todas feitas), acontece regularmente que, num grupo de páginas seguidas, não se fizeram quase correcções; isso corresponde a um momento em que o paginador estava já cansado e devia fazer um intervalo, tomar um café e regressar mais fresquinho. É horrível ler um livro cheio de gralhas, bem sei, mas umas são insignificantes, enquanto outras podem ser realmente muito chatas. Li num divertido artigo sobre o assunto que, numa versão da Bíblia em Inglaterra, um dos Dez Mandamentos saiu «adulterado», dizendo «Thou shalt commit adultery» (oh, meu Deus!, a Bíblia a mandar cometer adultério!). Mas muito pior foi o que aconteceu na Austrália com um livro que era, supostamente, outra Bíblia, a da Pasta, e em que o autor escreveu muito provavelmente o que não queria. Numa das receitas, de tagliatelle com sardinhas (eu cá não a experimentaria), em lugar de acrescentar «salt and black pepper» (sal e pimenta preta), o que ficou escrito foi «salt and black people»… Quando se deu pela calamidade, foi preciso tirar os livros do mercado (mais de 7000), o que custou à empresa cerca de 20 000 dólares australianos! Por isso, sempre que encontrarem gralhas nos livros que publico, por favor usem o endereço de e-mail associado a este blogue e comuniquem-mas: assim, numa segunda edição, corrigi-las-emos.

Museu de BD

Tenho um amigo que adora Banda Desenhada e possui uma colecção impressionante; e, como vive actualmente em Bruxelas, imagino que a tenha enriquecido muito nos últimos anos, já que a Bélgica tem uma enorme tradição neste género particular. A França também, claro, organizando anualmente um festival de BD em Angoulême, a que acorrem todos os fanáticos de pranchas e vinhetas que queiram andar actualizados. Em Portugal, já temos muitos autores de BD de grande qualidade e um festival na Amadora que tem vindo a ganhar importância nos últimos anos. Mas faltava-nos um Museu da Banda Desenhada – e a autarquia de Beja chegou-se à frente, segundo explicou um dos seus técnicos, Paulo Monteiro, que – se não erro – é também um belíssimo ilustrador português. A história da BD em Portugal – desde o primeiro «álbum», da autoria de António Nogueira da Silva, de 1850 – vai ser contada pela primeira vez numa estrutura museológica, sempre articulada com a história mais ampla da BD no mundo, até porque a Câmara de Beja promete juntar ao acervo que já tem na Bedeteca da cidade um número significativo de obras de autores estrangeiros, nomeadamente franceses, italianos, espanhóis, brasileiros e argentinos. A data para a abertura do museu ainda não está marcada, mas esperemos que não demore muito. Actualmente, leio pouca banda desenhada, mas foi com os livros do Tintim do meu irmão mais velho que aprendi os rudimentos do francês e gosto muito de regressar a alguns autores da minha adolescência.

O poder das personagens

Quando alguém diz que uma situação é «kafkiana» ou «dantesca», não podemos senão concluir que Kafka e Dante passaram o teste do tempo e dificilmente desaparecerão da vida dos homens, mesmo que não leitores. O mesmo acontece com certas personagens de obras clássicas – e leio um interessante artigo sobre como o nome de tantos distúrbios psíquicos contemporâneos foi, afinal, roubado a figuras de romances e peças de teatro. Já para não falar do complexo de Édipo ou de Electra, que todos conhecem, descubro por exemplo que aqueles que padecem de um ciúme obsessivo, que tantas vezes os leva a matar o objecto do seu «amor», sofrem de uma doença chamada Síndrome de Otelo (o Otelo de Shakespeare, bem entendido, que matou a pobre Desdémona sem razão). Aos que se recusam a crescer diagnostica-se geralmente a Síndrome de Peter Pan e aos que se preocupam excessivamente com a aparência e não querem envelhecer, a Síndrome de Dorian Gray (do romance de Oscar Wilde, claro). As mulheres que têm fobia de ser autónomas sofrem do Complexo de Cinderela e, no outro extremo, as pessoas que se superam constantemente só pelo prazer de se sentirem heróicas têm Complexo de Super-Homem.  Bela Adormecida é o nome comum dado à Síndrome de Kleine-Levin, um distúrbio neurológico em que o paciente fica letárgico e apático a maioria do tempo; e, para não citar todos os casos do artigo, termino com a Síndrome de Ofélia (a namorada de Hamlet, bem entendido), nome com que um neuropsiquiatra baptizou a doença da filha – confusão mental, falta de memória, dificuldade em articular o discurso, alucinações e depressão – que muitas vezes está associada ao facto de os pacientes terem um linfoma. Que outras doenças encontraremos no futuro com nomes de personagens literárias?

O que ando a ler

Ora então sejam bem-vindos ao Horas Extraordinárias neste ano novo, depois de umas pequenas férias muito soalheiras e repousantes (pelo menos, para mim) e provavelmente uns quilitos a mais e uns quantos livros lidos. Como hoje é o primeiro dia útil do mês, cabe-me de resto falar do que ando a ler – e por acaso leio um romance bem bom, de Isabela Figueiredo, de quem já tinha lido o Caderno de Memórias Coloniais (acho que terei falado dele aqui no blogue). A obra que tenho em mãos – A Gorda – é realmente impactante, e basta a primeira página para nos agarrar. Contada na primeira pessoa, num tom que é bastante cru e não isento de um inteligente cinismo, a história começa por referir a perda de 40 quilos de Maria Luísa numa gastrectomia (essa operação que diminui o estômago) dois anos depois da morte da mãe, levando-nos então de volta à sua infância e adolescência, com e sem os pais, e aos dramas por que passam as gordas nessas idades, mas sem nada de patético ou lamecha, até porque Maria Luísa nunca se verga. Original é também a forma como a autora nos apresenta os vários episódios da vida da protagonista, dividindo os capítulos do seu romance em partes de uma casa – a Porta de Entrada, O Quarto de Solteira, a Sala de Estar… –, lugares que lhe servem para relatar momentos fundamentais da vida da «gorda» e que podem estar relacionados com os hábitos dos bairros suburbanos, com as memórias da vida colonial, com a iniciação amorosa, com a escrita de correspondência e não só. Numa prosa intensa, às vezes desarmante (aplaudo as descrições das cenas de sexo que, na literatura portuguesa, costumam resvalar frequentemente para o mau gosto), este é um livro mesmo muito bom que ninguém deve deixar de ler. Para magros, gordos e assim-assim.