Um problema de esquerda
O meu «compadre» (como se dizia antigamente) é canhoto (creio que o termo correcto é esquerdino, mas acho que ele não se ofende por eu usar uma palavra, ao que julgo, pejorativa); parece que ainda lhe tentaram ensinar a escrever e comer com a mão direita, mas não deu resultado, e isso não o impediu de adorar fazer riscos e desenhos e ser há muito director gráfico em agências de publicidade. Ainda assim, sempre o ouvi queixar-se das tesouras e das facas de peixe que, pensadas para quem faz tudo com a mão direita, incomodam bastante quem usa a esquerda e, sobretudo, de pouco ou nada servem, porque ficam com as lâminas viradas para o lado em que não há nada para cortar. Sempre me impressionou bastante na infância a forma como os colegas canhotos colocavam a folha de papel sobre a mesa e escreviam – todos torcidos – e, um dia destes, ao ver na televisão um árabe a escrever da direita para a esquerda, pensei que, se calhar, nesses países onde a direcção da escrita é diferente da nossa há mais esquerdinos e os destros são a excepção. Na verdade, também no Japão os livros começam pelo (nosso) fim e a capa está onde nós, por norma, colocamos uma sinopse, críticas e outro material promocional. Será que lá também os canhotos são privilegiados?
A esquerda tem vários problemas, mas não esse. Não existem diferenças nas questões de lateralidade em função da orientação da escrita, nem sequer os esquerdinos estão facilitados em sistemas de escrita, cuja orientação é diferente, como o árabe ou japonês.
ResponderEliminarAna Cristina Silva
Queria dizer de dominância do hemisfério que se reflecte depois na lateralidade. Peço desculpa. Ana Cristina silva
ResponderEliminarOs esquerdinos, ou canhotos, não são tão poucos como isso. Antigamente, quando se obrigava nas escolas a escrever com a mão direita (à minha mãe até lhe amarraram a esquerda ao encosto da cadeira, na escola primária!!!, porque ela "distraía-se") não se tinha consciência da quantidade de pessoas que se "dão melhor" a usar a mão e o braço esquerdos. Hoje, felizmente, já nos apercebemos de que a percentagem não é pequena. Razão mais do que suficiente para se adaptarem certos instrumentos e utensílios (facas, tesouras, etc.) aos esquerdinos.
ResponderEliminarO Paul McCartney é um dos canhotos famosos, que adaptou o seu instrumento de trabalho à sua "peculiaridade". Creio que já todos repararam, em vídeos dos Beatles, que a sua guitarra está ao contrário das outras (o braço está virado para o lado direito, em vez do esquerdo).
O tema é, sem dúvida, fascinante!
ResponderEliminarPenso que a habilidade na mão direita ou esquerda depende, em alguma medida, de factores genéticos (que, tanto quanto sei, ainda não estão totalmente conhecidos). Se assim for, o país onde a pessoa nasce e é educada não estaria directamente associado à mão com que se escreve mais confortavelmente.
Escrevi, há uns anos, no suplemento P2 do PÚBLICO, um texto sobre a descoberta de um gene que estaria, segundo investigadores da Universidade de Oxford, associado à habilidade na mão esquerda http :/ br.groups.yahoo.com group pnlbr message /18740?var=1).
«...a forma como os colegas canhotos colocavam a folha de papel sobre a mesa e escreviam – todos torcidos...»
ResponderEliminarÉ isso que ainda hoje me impressiona (uma recepcionista da LeYa, por ex.) e não consigo reprimir a espreitadela: não só a posição daa base, o papel, mas sobretudo «a violência», a forma como esgravatam, como riscam.
Repare-se na elegância com que escreve um oriental, um árabe; só depois, e nem sempre, sabemos o sentido da pintura
Sou uma das canhotas da LeYa, que também tentaram converter a dextra (em vão, já se vê) e muitas vezes tenho sentido que os objectos são desenhados por e para dextros (afia-lápis, tesouras, portas, carros, etc.).
ResponderEliminarQuanto ao gene, em 2007 foi descoberto um que estará relacionado com o «canhotismo», mas não será condição indispensável (lembro-me de ter lido algures que o ambiente do ovo durante as primeiras divisões celulares seria determinante).
Links sobre o gene dos canhotos:
LRRTM1 is not essential for left-handedness, but it can be a strong contributing factor.
http://blogvisao.wordpress.com/2007/08/01/715-cientistas-encontram-o-gene-que-d-origem-ao-canhotismo/
http://news.nationalgeographic.com/news/2007/08/070801-left-gene.html
Sim, Anabela F., tem toda razão. Como escrevi no texto do P2 (cuja ligação disponibilizei no meu comentário anterior): "Ao ler o estudo publicado na última edição da publicação científica Molecular Psychiatry, apetece-nos dizer que foi descoberto o gene dos canhotos. Mas não é bem assim. . . . apenas uma versão do LRRTM1 estabelece uma associação directa entre a genética e os canhotos."
EliminarSobre o fase inicial de divisão celular do óvulo fecundado, lembro-me de ter lido uma explicação curiosa num óptimo livro de Lawrence Wright (jornalista da revista New Yorker e vencedor de um Pulitzer). Trata-se do fenómeno "vanishing twin" ou, numa tradução livre, do gémeo que se evapora. Em "Twins: And What They Tell Us About Who We Are" (John Wiley & Sons, 1999), Wright refere a hipótese de que os canhotos seriam o irmão (ou a irmã) remanescente de uma gravidez que inicialmente era múltipla. O artigo que avança essa hipótese, até hoje não comprovada, é de 1928 e pode ser lido aqui: http://www.biolbull.org/cgi/reprint/55/4/298 (ficheiro PDF).
Será que o canhoto é um gémeo que nasceu sozinho? Ou melhor, um ex-gémeo? Estas questões fascinam-me. Há quem defenda que quando nos sentimos sistemática e inexplicavelmente tristes e incompletos é porque, na verdade, estamos a fazer o luto de um irmão que nunca chegamos a conhecer. O peso dessa memória uterina, biológica, segundo os que acreditam nessa explicação, levaria a sentimentos como a culpa e o desterro. Um misto de saudade de alguém com quem partilhamos a primeira das moradas e vergonha por ter sobrevivido.
Verdadeiras ou não, estas hipóteses acendem-nos o imaginário e renderiam bons personagens em romances bem escritos.
Não sou entendida na matéria, mas tenho uma sobrinha que no fim da adolescência teve de tirar um quisto e a quem o médico disse ser afinal um despojo de um irmão que não se chegou a desenvolver...
EliminarOh! O mesmo livro de Lawrence Wright aborda casos como esse... Não sei bem explicar mas tenho enorme fascínio por tais fenómenos. Acho que a condição humana é tão bem explorada em episódios que fogem àquilo que a convenção diz ser o "normal".
EliminarSerá que algum de vocês, que aqui e acolá fazem horas extraordinárias, se recorda de personagens de ficção associadas ao fenómeno "vanishing twin"?
«Será que o canhoto é um gémeo que nasceu sozinho? Ou melhor, um ex-gémeo?»
ResponderEliminarFabuloso!!! Sou gémeos (isso, dos signos) e na tropa tive problema, porque atirava com a arma à esquerda, e a jogar bilhar também pegava no taco com a mesma mão.
Engraçado! Também há coisas que me "saem" com a esquerda, por exemplo, dar cartas, num jogo de cartas: seguro sempre o baralho com a direita e conto e dou com a esquerda. Enfim, como em cima referi, a minha mãe é canhota...
EliminarP.S. Sou Caranguejo ;)
Caríssima Maria do Rosário:
ResponderEliminarA escrita no Japão, tradicionalmente — e ao que julgo a mesma regra é preservada na China e na Coreia — segue, de facto, a regra da direita para a esquerda, mas na vertical (em "coluna"), e não é nada desconfortável de escrever para um ocidental destro como eu que escreva regularmente em Nihon-Go .
Mas sucede que no Japão, com a Restauração Meiji de 1870, que trouxe consigo o processo de ocidentalização, e com o passar dos anos, a matriz ocidental, também na escrita, acabou por ir gradualmente se impondo, coisa que por vezes (como tantas outras peculiaridades do Japão...) causa uma espécie terrível a quem não esteja familiarizado com as regras de cá.
Porque se bem que a maioria — ao que me parece — das publicações mantém a regra sino-matricial da escrita em coluna da direita para a esquerda — é assim para a vasta maioria dos livros, assim como com a generalidade dos jornais e muitas revistas —, sendo a maioria dos textos publicados com observância dessa regra tradicional, ainda assim são incontáveis os textos, publicações e situações quotidianas onde a escrita nipónica se faz apresentar 'à ocidental' — ou seja, em frases escritas na horizontal, da esquerda para a direita.
Deste último grupo de casos são clássicas as situações como os enunciados de testes ou de exames, informação panfletária diversa, avisos simples como informações na entrada das habitações, elevadores etc., e ainda as legendas dos filmes (se bem que neste caso usam ambos os sistemas de escrita consoante as situações [impossível explicar aqui e por escrito em quais se aplica uma e outra regras, só mesmo apreciando um caso em concreto e presencialmente, lhe posso explicar!], mas predominando, neste campo, a legendagem 'à ocidental'), e outras situações simples como notas à margem, numa foto, notas de rodapé, etc., nestes casos sempre 'à nossa moda'.
Espero ter podido esclarece-la e bem assim aos demais leitores, sobre o que aqui se passa, neste hemisfério, e no que respeita a este tema.
Meus melhores cumprimentos,
Luís Filipe Afonso, em Hakata , Kyushu
Obrigada! Fartei-me de aprender!!
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