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A mostrar mensagens de abril, 2014

Eco convertido? Nem por isso

O senhor Umberto Eco é, como toda a gente sabe, um acérrimo defensor do livro em papel, que acha o melhor instrumento de aprendizagem e transmissão de conhecimento, defendendo, aliás, que só pode ser maluco quem afirma que um dia desaparecerão os livros em papel. Mas eis que, por ter de fazer uma viagem para os EUA acompanhado de 20 livros que lhe eram indispensáveis à tarefa que ali o ocuparia, decidiu comprar um iPad e (diz ele numa entrevista a um jornal brasileiro) gostou! Porém, quando lhe perguntam se mudou a sua opinião sobre o digital e a Internet, responde que não, que na Internet a informação não é seleccionada, aparece sem hierarquia nem crivo, e que a Wikipédia é um perigo, pois presta um péssimo serviço aos cibernautas que, dificilmente, conseguem separar o que está certo do que está errado. Como exemplo, fala do que circula sobre si próprio e do tempo que perde a corrigir as entradas com o seu nome nas Wikipédias do mundo inteiro. E avança que o excesso de informação provoca amnésia (nunca me tinha lembrado disto) e que filtrar o conhecimento é fundamental para se ser culto, mas um ignorante jamais saberá filtrar, pelo que sugere que, para evitar o descalabro futuro, se crie desde já uma disciplina ou uma ferramenta chamada Teoria da Filtragem baseada na experimentação quotidiana da Internet. Um desafio para as universidades vindo do senhor Umberto Eco.

Inventar palavras

Não se é considerado um génio literário por dá cá aquela palha – e, tantos séculos passados desde a sua morte, Shakespeare continua a ser um génio para toda a gente que aprecia literatura e não só. Entre outras razões, porque foi dos escritores que mais contribuíram para o crescimento da língua inglesa. Para quem não saiba, ele inventou milhares de palavras novas que hoje fazem parte não só dos dicionários, mas do uso corrente dos falantes anglófonos – uma delas, bem aparentemente moderninha, é «manager», calculem. Mas existem muitas outras que lhe são atribuídas, embora não se saiba bem se foi ele realmente o seu inventor (é sempre possível que quem as criou ou pediu emprestadas a outras línguas fosse simplesmente analfabeto e não as pudesse registar). Em todo o caso, há exemplos bem interessantes – como «lonely», cuja primeira aparição escrita se deve à peça Coriolano, e «hurry» que consta da Parte I de Henrique VI (talvez antes os ingleses fossem menos apressados). E são também da sua pena os mais ou menos opostos «radiance» e «gloomy», bem como as palavras «critical» e «generous» (ambas derivadas do latim, mas inglesadas pelo nosso homem). Enfim, quando se celebra um autor pela sua inovação linguística (Mia Couto e o seu «esparramorto», por exemplo), não se deve esquecer que, por muita criatividade que exista hoje, ninguém supera o velho William.

Vasco Graça Moura (1942-2014)

Ontem chegou cedo a notícia – e era má. Uma amiga, jornalista do Público, dizia ao Manel que tudo indicava que Vasco Graça Moura morrera por volta do meio-dia. Ficámos tristes, sobretudo porque a sua luta contra a doença foi invulgarmente corajosa, uma espécie de fuga para a frente sem queixas nem lamentos, em que nunca deixou os compromissos e a escrita, por muito que lhe custasse (mas a um homem assim deveria custar muito mais não o fazer). Mas também nos doeu porque, com a sua morte, perdemos um dos nossos últimos intelectuais à maneira do Renascimento: um homem com uma cultura extraordinária da grande e da pequena história, melómano, literato, e um criador invulgar que felizmente nos lega uma obra própria bastante extensa e multifacetada e ainda, por meio das suas traduções, a obra de muitos outros autores de épocas e estilos diferentes com a sua marca poética especial. A este respeito, lembro-me de ter feito uma viagem de avião com ele há uns anos, de Lisboa para Madrid, e de ele ocupar o tempo todo do voo a traduzir dois poemas de Petrarca (só ele conseguiria fazê-lo, e bem, em pouco mais de uma hora); e de, na mesma altura, depois de um jantar em casa do então conselheiro cultural em Madrid, o escritor João de Melo, ter brindado os presentes com um soneto belíssimo, feito ali na hora, em três tempos, gabando a refeição e o convívio. A literatura saía-lhe com naturalidade, mas nunca com banalidade. Além disso, era a voz com mais peso contra o Acordo Ortográfico e, também por isso, nos vai fazer muita falta. Mesmo não concordando com muitas das suas posições políticas, tenho de dizer que a cultura portuguesa perdeu ontem um dos seus grandes vultos. E os que tivemos a felicidade de o conhecer (atenção, nunca fui íntima, nem quero passar por isso, mas estive muitas vezes com ele em acontecimentos literários ou ligados ao fado) também não esqueceremos a graça que tinha a contar anedotas.


 


 

Grandes vidas para leitores pequenos

Trabalhei há uns anos numa editora que fazia colecções de livros para serem vendidas com jornais e, entre essas, saiu uma História de Portugal para crianças em vários volumes, sendo que o que tratava do 25 de Abril desapareceu imediatamente, pois os pais decerto arranjaram ali uma boa maneira de mostrar aos filhos como tinha sido essa revolução em que não se derramou uma pinga de sangue e que virou o País de pernas para o ar. Agora, a Imprensa Nacional – Casa da Moeda, em parceria com as edições Pato Lógico, lançam mais uma colecção infantil de peso, desta vez dedicada a grandes figuras portuguesas, cujos textos são escritos por José Jorge Letria e ilustrados por alguns dos nossos maiores nomes da ilustração, como João Fazenda, Nuno Saraiva e António Jorge Gonçalves. E, porque amanhã é dia de festa (e, palpita-me, de confusão, por tudo o que se sabe e que agora não vou esmiuçar), aconselho a compra pelos que são pais ou educadores do pequeno livro dedicado a Salgueiro Maia (o subtítulo é O Homem do Tanque da Liberdade), que pode e deve ser lido às crianças neste dia tão especial.  Também há Pessoa, Almeida Negreiros e o Soldado Milhões, mas a colecção não se ficará por estes quatro títulos.

Para todos

Luis Sepúlveda, ficcionista chileno, é um dos autores que mais vende em Portugal; depois de um estrondoso sucesso com O Velho Que Lia Romances de Amor, atingiu de novo o zénite com um livro supostamente juvenil intitulado História de Uma Gaivota e do Gato Que a Ensinou a Voar, reeditado posteriormente com ilustrações (concebidas para a editora alemã e reproduzidas em terras lusas) e «membro» de pleno direito do nosso Plano Nacional de Leitura. Mais recentemente, foi dada à estampa uma sua novela do mesmo tipo, História de Um Gato e de Um Rato Que Se Tornaram Amigos, esta ilustrada por esse artista genial que é Paulo Galindro, que reincide no agora publicado História de Um Caracol Que Descobriu a Importância da Lentidão, escrito para os netos em resposta à pergunta de um deles: Porque são tão lentos os caracóis? O protagonista, caracol sem nome, interroga-se sobre a lentidão da sua espécie e interpela os pares, que o acham bastante ousado e aborrecido e acabam por expulsá-lo do prado onde habita a comunidade. O Rebelde, assim baptizado mais tarde por uma tartaruga que o esclarece sobre a importância da lentidão, não fica, mesmo assim, ressentido e, quando sabe que as máquinas se apressam a destruir o prado verde onde estão os antigos companheiros para construir uma estrada, volta atrás – muito lentamente, como não podia deixar de ser – para os avisar dos perigos que correm. Uma aventura cheia de peripécias para mostrar que a rapidez nem sempre é uma vantagem. Até porque, para pensar, precisamos de tempo. Este livro é para todos.

Geografia da língua

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Publico agora na Teorema um romance muito original de uma autora chilena, Andrea Jeftanovic, intitulado Amar numa Língua Estrangeira. Ele conta a história da relação entre Sara e Alex, ela habitante do Sul terceiro-mundista, ele cidadão do Norte ultracivilizado. Conhecem-se num avião e acabam a beijar-se na sala de transferências do aeroporto antes de rumarem cada um ao seu destino – e a língua do beijo é a mesma, embora as suas línguas sejam muito diferentes. Ao chegarem a casa, sabem que, enquanto estiveram no ar, houve um terrível atentado e telefonam-se preocupados um com o outro; e a partir de então desenvolvem um relacionamento que, apesar da distância, é profundamente íntimo e erótico e dá origem a vários reencontros, nos quais o Norte se choca com o Sul poluído e vítima da escassez e o Sul se aflige com o asseptismo e o desperdício exagerados do Norte. Enquanto isso, a língua estrangeira da comunicação faz com que nunca se diga inteiramente a verdade e a língua dos beijos não deixará ninguém mentir. Mas o terror dos atentados que ocorrem durante o período que dura a história dos amantes invade a sua intimidade. E há também um terror pessoal, o de uma doença que se instala e afecta quem precisa de ser tratado e quem tem de tratar. Este é um livro que não se esquece, garanto, duro e ao mesmo tempo profundamente sensível.


 




Erros criativos

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O jornalista João Miguel Tavares, cronista do Público e director-adjunto da revista Time Out, membro do Governo Sombra da TSF (e agora também da TVI 24), é pai de quatro filhos e autor de um blogue intitulado precisamente Pais de Quatro, no qual escreve sobre as alegrias, surpresas e dissabores (quase nenhuns) da paternidade. Foi justamente nesse blogue que encontrei um post engraçadíssimo sobre respostas erradas (mas altamente criativas e dignas de aplauso) que crianças norte-americanas deram em testes escolares. Algumas são notáveis do ponto de vista da lógica, como no caso em que a professora pediu aos alunos que fizessem um desenho de si próprios daqui a muitos anos, e um rapaz teve a ousada ideia de se desenhar no túmulo... Mas há outras fantásticas, como a de um teste de Ciências em que se diz que uma rapariga espreita pelo microscópio, mas não vê nada, perguntando-se de seguida aos alunos qual será o problema. Um deles, bastante expedito, responde que certamente a miúda é cega – e a professora não se deixa impressionar e anota à margem: «Boa tentativa!» A esperteza saloia chega, de resto, ao auge quando se pergunta o que é preciso fazer para converter centímetros em metros e um dos inquiridos responde simplesmente: «tirar o centí.» A melhor de todas está, no entanto, no teste em que se pede uma composição, sugerindo aos alunos que assumam o papel de um imigrante chinês em 1870 e escrevam uma carta a contar a sua experiência. O resultado aí vai. Genial!


 


Abrilada

Em véspera de feriado (fim-de-semana grande, para variar), meto o nariz em vários livros para ver se levo algum comigo para estes três dias livres que se avizinham. E, bom, reparo que, à beira de o 25 de Abril fazer 40 anos, saíram várias obras que tocam a matéria de diversas formas. Já aqui falei há uma semana ou mais em Os Rapazes dos Tanques (para ler e ver, porque as fotografias são geniais), mas há que referir também Os Memoráveis, de Lídia Jorge, romance que fala da revisitação da festa por alguém nascido muito mais tarde e noutro país; e também, pois então, a colectânea de poesia de Manuel Alegre cuja selecção aponta para a nossa revolução e se chama País de Abril. Mas não é tudo, porque também aliciante é A Flor e a Foice, de Rentes de Carvalho, publicado há muitos anos na Holanda e agora disponível igualmente para os leitores portugueses (o título, de resto, é suficientemente eloquente para podermos relacioná-lo logo com a efeméride); e, por último, Luísa Lobão Moniz, professora do primeiro ciclo há uma eternidade, produziu um livro para crianças intitulado A Escola dos Cravos, para ensinar aos mais pequenos como era a escola antes do 25 de Abril. Há-de haver outras coisas, evidentemente, sobretudo na área do ensaio, mas estou já demasiado indecisa, sem saber se me faço acompanhar por algum destes e como vou desempatar. O mais certo é levar a abrilada toda comigo de fim-de-semana. Uma Páscoa cheia de cravos, porque não?

Centenário

Já aqui disse que um dos meus livros favoritos é O Amante, de Marguerite Duras (não, não vou abrir uma livraria só para vender o livro na Baixa, como o leitor de que falei ontem, mas gosto mesmo muito do romance, bem como de outros escritos pela mesma pena). Pois a senhora Duras, se fosse viva, faria cem anos este ano (nasceu, como a Primeira Guerra Mundial, em 1914) e por todo o lado se festeja o seu centenário. Em França, vão-lhe publicar a obra completa na Pleiade, uma colecção de luxo, e um dos últimos suplementos Babelia, do El País, em Espanha, dedicava-lhe um razoável número de páginas. Mas também em Portugal não lhe somos indiferentes – e o Porto comemora-a com espetáculos, sessões de cinema, exposições, leituras públicas e até conversas sobre jornalismo cultural, promovidas por mais de duas dezenas de entidades, artistas e investigadores. Diz uma das organizadoras que o centenário da escritora que nasceu no Vietname e morreu em Paris, e teve uma vida bastante agitada pelo meio, é um bom «pretexto para dar a conhecer, ou para revisitar, uma autora carismática e de referência do século XX, que questionou fronteiras entre diferentes tipos de escrita». As livrarias da Invicta vão, pois, encher-se de livros de Duras e serão levadas à cena peças adaptadas das suas obras no Teatro Nacional de S. João e no Teatro do Campo Alegre durante este mês de Abril, que é o do seu nascimento. Tomara que tudo isso sirva para muitos que ainda não a conhecem passem a lê-la com regularidade.

O desassossegado

Os livros provocam grandes paixões que ficam para sempre (ao contrário das paixões por homens e mulheres, que são normalmente temporárias, dando origem a decepções ou um amor mais tranquilo). Em Oslo, um leitor apaixonou-se de tal forma por um livro que considera o melhor do mundo que decidiu, mesmo que apenas por alguns dias, abrir no centro uma livraria chamada Bookstore of Intranquility e chamar a atenção para a sua enorme paixão, vendendo apenas... O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares. Christian Kjelstup, assim se chama o desassossegado-mor da Noruega, colocou centenas de exemplares da tradução do pessoano livro por todo o lado, escreveu o título em letras garrafais na montra e organizou, logo na noite da abertura, um serão à volta de Pessoa que, pelo que se sabe, foi bastante concorrido. Convidou um guitarrista português ali emigrado para abrilhantar o serão e para tudo contou com o apoio da Embaixada de Portugal, que deu o evento por bem-sucedido, pois teve direito a uma reportagem sobre o senhor Pessoa num dos canais televisivos com maior audiência. Kjelstup espera que deste modo muitos outros leiam o livro que ama. E nós, à distância, ficamos-lhe gratos.

Pseudónimo

Há dias, contei que em 1984 assinei alguns poemas com pseudónimo. Há imensas razões para não se usar o próprio nome – mas, no meu caso, foi um poeta respeitável que me disse que, se queria publicar, devia pensar num nome literário (o que fiz, claro). Mais tarde, porém, quando comecei a escrever livros juvenis, o editor aconselhou-me a recorrer ao meu nome verdadeiro, uma vez que os meus alunos e ex-alunos (eu estava então no ensino) não me poderiam reconhecer pelo pseudónimo (o princípio do marketing, suponho). Achei, pois, melhor pôr o meu nome real em tudo, por pouco literário que fosse, em lugar de me chamar duas coisas distintas. Que leva alguém a assinar com um nome diferente do seu? Não gostar do que lhe deram? Talvez, mas Possidónio Cachapa ri-se de si próprio, dizendo que, com um nome assim, não precisa para nada de um pseudónimo. Por outro lado, o bancário José Fontinhas preferiu ser o grande poeta Eugénio de Andrade... Já Bocage usou um pseudónimo para arrasar quem quis sem se denunciar (esperto, sem dúvida, como, aliás, muitos jornalistas que, no antigo regime, aproveitavam a capa do nome falso para dizerem o que, se calhar, não diriam se assinassem com o seu nome). Também conheço quem tenha ficado em apuros por constar do seu passaporte nome diferente daquele em que a organização de um festival literário lhe tinha reservado o hotel e passado o cheque das ajudas de custo; e ainda quem continue a assinar com o apelido do ex-marido (quando se começa com um nome e se tem sucesso, é muito difícil voltar ao nome de solteira); e até sei de um senhor que foi convidado para um encontro só de mulheres por assinar com um petit-nom – Mia (Couto) – que noutras línguas é feminino. Enfim, haverá de tudo, mas eu, sei lá porquê, não tenho já muito que ver com o meu pseudónimo – e, sem querer, também já não consigo ler esses poemas antigos como se fossem (só) meus.

Os clássicos

Conheço uma escritora cubana que tem um gato às riscas, cor de laranja, muito gordo. Chama-se Horácio e foi comprado (ou adoptado) quando ela vivia em Itália, daí o baptismo. Porém, assim que o olhamos, ocorre-nos imediatamente o nome Garfield (é igualzinho ao boneco, até na sua propensão para dormir), porque, já se sabe, de Horácio, o poeta latino da Antiguidade, pouco lemos e não nos lembra nada de especial. Talvez as tiras de Garfield também se tornem um clássico daqui a cinquenta ou cem anos, mas é ainda demasiado cedo para o sabermos. Admito que não haja tempo para tudo – e queremos andar actualizados (eu sobretudo, que me dedico à literatura mais jovem) –, mas conheço muita gente que, a partir de certa idade, diz que só lê clássicos, pois, se vingaram após tanto tempo e continuam a ser publicados, é porque são seguramente livros bons. Recentemente, fui contactada pelo projecto Adamastor, que se ocupa da edição digital de clássicos da literatura, para responder a algumas perguntas sobre a importância dos clássicos. Antes e depois de mim, outros escritores, como Mário de Carvalho, Eduardo Pitta ou Rentes de Carvalho, também responderam à pergunta «Porquê ler os clássicos?». O link da minha entrevista vai aí abaixo, para quem quiser ler. Hoje, como disse um dia destes um dos leitores do blogue (e com alguma razão), estou a encher chouriços. Desculpem.


 


http://projectoadamastor.org/tag/maria-do-rosario-pedreira/

As Vozes

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Está à venda há dois dias o romance que venceu a última edição do Prémio LeYa, pela primeira vez atribuído a uma mulher. Trata-se de Uma Outra Voz, de Gabriela Ruivo Trindade, que vive há vários anos em Londres com o marido e os filhos e se estreou no romance com este texto a várias vozes. A narrativa cobre um século de História de Portugal a partir das estórias de várias pessoas presentes em momentos-chave, como a implantação da República ou o 25 de Abril, e gira em torno de um homem que foi decisivo para a elevação de Estremoz a cidade, trazendo a luz e o comércio às ruas e educando um sem-número de sobrinhos sem posses. Teremos, assim, os relatos de um adolescente muito cómico, de uma noiva com dúvidas, de uma mãe que esconde uma relação escandalosa, de um universitário que enfrenta uma tragédia por amor, de uma prostituta que se recusou a casar com o homem que amava para não o prejudicar – e, depois de se calarem estas vozes, também a voz do protagonista através de um diário arrancado às cinzas por uma descendente muitos anos depois. A primeira apresentação pública será já no sábado, em Estremoz (where else?), com a presença do Presidente da Câmara, no Teatro Bernardim Ribeiro. Uma espécie de regresso às origens. Se estiver por perto, faça-nos companhia.


 


Anuário ressuscitado

Quase ninguém sabia que me estreei na publicação de poemas em 1984 (muito antes de ter saído o meu primeiro livro de poesia, que é de 1996). Excepto aos mais próximos, não falei disto, até porque na altura assinava com pseudónimo; mas recentemente saiu um artigo no jornal Público a contar tudo e, portanto, não merece a pena estar a manter o segredo. A editora Assírio & Alvim, então dirigida por Manuel Hermínio Monteiro, um dos mais festejados editores nacionais (e que saudades me traz), lançou nesse ano longínquo um projecto que foi marcante para a edição portuguesa. Tratava-se de convidar poetas não publicados a enviar os seus poemas (na altura, um máximo de sete), para serem apreciados por um júri com vista à publicação numa obra colectiva chamada Anuário de Poesia Inédita. Essa iniciativa deu frutos, pois uma boa percentagem de poetas dados a conhecer no anuário desse ano e dos que se seguiram (até 1987, data do último anuário) acabaram por tornar-se nomes importantes da literatura portuguesa (não estou a falar de mim, mas de Adília Lopes ou de José Eduardo Agualusa, por exemplo). Porém, muitos mais foram os que ali viram poemas publicados e que, não sendo conhecidos hoje pela poesia, são nomes fortes na nossa cultura, como Jorge Vaz de Carvalho (tradutor, autor e cantor lírico), João Pinharanda (crítico de arte), Joana Pontes e Manuel Mozos (cineastas) e até, ao que parece, Pacheco Pereira, que assinou «Abrupto» e, assim descoberto pelo nome do seu blogue, não confirmou nem desmentiu, o que quer dizer que era mesmo ele. Pois agora a Assírio & Alvim resolveu tirar o anuário das cinzas e voltar a publicá-lo trinta anos depois, celebrando o Dia da Poesia do próximo ano com a saída de um volume de inéditos. Quem quiser, pode mandar dez poemas para a editora e tentar a sua sorte. Uma excelente notícia.

Os livros chamam-nos

Pacheco Pereira é um homem muito lido, tem uma biblioteca tão grande ou maior do que as bibliotecas públicas (um armazém alberga-a, ao que parece) e são sempre boas as suas crónicas sobre os livros, as livrarias, a leitura. Não há muito tempo escreveu, aliás, um belo texto sobre a capacidade que os livros têm de chamar por nós, levando-nos a desejá-los, a comprá-los e... nem sempre a lê-los. Foi, pelo menos, o que se passou com ele recentemente – e nesse texto conta como adquiriu três títulos, dos quais, muito provavelmente, só lerá um de fio a pavio. Mas expõe no seu artigo um ponto de vista extraordinariamente interessante, que se prende com o facto de a curiosidade ser, segundo ele, o grande motor intelectual de sempre e de encontrar estranheza na circunstância de meio mundo a achar um defeito, e não uma qualidade, e de pouco se ter escrito ou debatido sobre ela, por muitas obras e colóquios que existam dedicados, grosso modo, ao conhecimento. E, ao falar deste aspecto que crê subvalorizado, avança também que ser curioso é meio caminho andado para se ser surpreendido e chamado por certos livros, mas que isto lhe acontece sobretudo em livrarias tradicionais, com os volumes em papel que ainda se podem folhear, pois, quando frequenta as livrarias virtuais, já sabe de que vai à procura e, portanto, não sente normalmente apelo nem surpresa. E, sendo um homem invulgarmente culto, tem a inteligência de dizer que o seu apego a certos livros que se calhar nem virá a ler tem que ver com a sua vontade de aprender, com a sua noção de que é ignorante em muita coisa, ao contrário de certos arrogantes incultos que crêem já nada precisar de ler ou saber (e são tantos). Termina o artigo declarando que, enquanto houver livros para ler, não terá um único momento aborrecido na vida. Concordo que, com livros à disposição, fiquemos salvaguardados do tédio, mas também há muitos livros chatinhos...

Rainha de bolso

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Em Portugal os livros de bolso ainda não são tão populares como no país vizinho, mas de há uns anos para cá começaram a instalar-se e existem agora boas colecções, com uma selecção de títulos muito variada (do mais literário ao mais comercial), e, claro, a preços convidativos, o que em tempos de escassez não deixa de ser importante. Uma delas é a 11 x 17, da Bertrand, outra a BIS, da LeYa, em que se inclui o livro de que hoje falarei. Trata-se de As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia, que não é exactamente um romance histórico, ainda que nos elucide sobre uma era e uma personalidade históricas específicas, mas antes um livro de memórias ficcionadas da última rainha portuguesa e presumivelmente (a ficção permite) oferecidas a Salazar e resgatadas por um militar no dia 25 de Abril, tendo vindo parar às mãos do próprio autor do livro, Miguel Real, depois de muitos anos e muitas andanças. O enredo é já de si bem original, portanto não se espere que a rainha diga o esperado, deixemo-la ser contundente e crítica com Portugal, com o Portugal do seu tempo de monarca e com o Portugal que sucedeu ao regicídio, porque a senhora D. Amélia, depois de perder filho e marido, ainda se fartou de viver, assim assistindo, mesmo que de longe, a muita coisa de que, enfim, não gostou. Assistamos nós também a este testemunho, num livro que caminha sempre entre o real e o imaginário, entre o plausível e o completamente inesperado. E a preço módico, o que é só mais uma vantagem.


 


Tudo bons rapazes

Estamos no mês da revolução e com muitos motivos para a querermos comemorar, pois todos os dias nos foge o tapete de baixo dos pés, que o mesmo é dizer que nos estão a roubar aos poucos tudo o que conseguimos a partir desse dia mágico que foi o 25 de Abril. E há um livro sobre o assunto que é uma façanha: trata-se de Os Rapazes dos Tanques e é um álbum belíssimo com textos de Adelino Gomes (um jornalista que fez a cobertura em directo em 1974) e as fotografias únicas de Alfredo Cunha, um dos melhores fotógrafos portugueses (que também registou a revolução para a posteridade). Na obra, sabemos finalmente quem eram os rapazes que nesse dia estavam dentro dos tanques que vieram de Santarém para Lisboa – e também os que, ao serviço dos que ainda mandavam, foram enviados para a rua para ver se se livravam dos revolucionários, mas, graças a Deus, e a eles próprios, não dispararam um tiro e deixaram a democracia levar a melhor. Vemo-los então, uns miúdos, nas fotografias da época, e vemo-los hoje, mais velhos, quase todos desencantados, contando como tudo se passou e cheios de pena de que a festa pareça ter chegado ao fim. Um livro que, além de ser um documento, é uma obra de arte. Para falar dele, estarão hoje às 18h45 na Livraria Férin os dois autores, gravando ao vivo, e com assistência, o programa Ensaio Geral da jornalista Maria João Costa para a Rádio Renascença. Não falte.

Vazio cheio

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Já aqui falei, aquando da sua publicação, do novo romance de Pedro Guilherme-Moreira, Livro sem Ninguém, que, aliás, deu azo a muitos comentários e algum estranhamento. Mas garanto, agora que volto ao assunto, que, sem ninguém e tudo, este livro está cheio de gente, apesar da proeza que o autor conseguiu ao falar das casas de uma rua inteira e do que se lá passa durante um ano sem nunca ter de lá entrar. Para os mais desconfiados, direi até que esse ano na rua é um ano excepcional, pois, desde histórias de amor até ao mais absoluto desamor, passando pela amizade, pelo preconceito, pela tragédia e pela redenção, é um nunca acabar de episódios que se vão compondo à medida que as estações se alteram e a florista tem montras mutantes. Hoje ao fim da tarde, pelas 18h00, na Livraria Ler Devagar, faremos a apresentação do romance em Lisboa, já depois de a termos feito em Gaia, mais pertinho da residência do autor. A apresentação estará a cargo de João Rebocho Pais, outro escritor com um novo livro a sair muito em breve (o anterior, para quem não se lembra, foi O Intrínseco de Manolo, a imprimir agora a segunda edição). Apareça e tire as dúvidas todas.


 




Pérolas

Chega-me às mãos um livrinho de uma pequena editora, a Glaciar, chamado Os Cinco Enterros de Fernando Pessoa. É uma antologia poética de Juan Manuel Roca, um dos nomes mais importantes da poesia da Colômbia, nascido no ano de 1946 e premiado com tudo e mais alguma coisa, não apenas no seu país, mas em toda a América de língua espanhola e também em Espanha. A selecção dos textos (um dos quais dá, de resto, nome ao volume) esteve a cargo de outra poeta colombiana, Lauren Mendinueta, e a tradução chega-nos pela mão de Nuno Júdice, que sabe o que faz. Como a melhor forma de conhecer qualquer poesia é através da leitura, não servindo de muito dizer apenas coisas sobre ela, fico caladinha hoje e mostro um poema, esperando que ele impressione positivamente os leitores deste blogue. Pelo menos, tanto como a mim. Até porque fala de um assunto que nos interessa a todos.


 


 


Breve História de Ninguém


 


Diz o senhor Nabokov que a literatura não nasceu quando uma criança de um vale do Neandertal chegou a gritar: Um lobo! Um lobo!, e atrás dela, as quatro patas no ar, um lobo cinzento brandia a sua língua estralejante.


Diz, melhor, que a literatura nasceu quando uma criança de um vale do Neandertal chegou a gritar: Um lobo! Um lobo!, e atrás dela não vinha ninguém.


Desde então, ninguém é um personagem eterno, um fantasma nos vales do poema.

O que eu ando a ler

Agora vou dar uma de snobe, fazendo o mesmo que já critiquei tantas vezes em outros, mas prefiro ser sincera e portanto dizer o que efectivamente ando a ler a inventar um qualquer título em português só para não escorregar na minha própria casca de banana. E o livro que tenho em mãos (aliás, é apenas um PDF com o texto, mas o livro existe e está à venda em livrarias online) é mesmo em inglês, chama-se Fairyland – A Memoir of My Father, escreveu-o Alicia Abbott, e pedi-o ao editor estrangeiro por pensar que seria vantajoso publicá-lo em tradução, uma vez que vai servir de base ao próximo filme de Sofia Coppola e tem um tema bastante actual – a educação de uma criança por um gay. Trata-se, como o título indica, de um livro de memórias e foi escrito pela mão de uma mulher que ficou órfã de mãe aos dois anos e foi doravante criada apenas por um pai que, pouco depois da viuvez, deixou de se interessar por mulheres e assumiu abertamente a sua condição de homossexual. Alicia nasceu nos gloriosos anos 60 e os seus pais eram hippies, amavam-se e não praticavam exatamente o amor livre, mas eram, digamos, bastante liberais nos seus costumes. E Steve Abbot, poeta e jornalista, vendo-se viúvo, resolve abandonar a pequena cidade onde vivia com a família, agarrar na filha bebé e rumar à gloriosa São Francisco, efervescente e em permanente revolução, na qual se torna um activista pelos direitos dos homossexuais. A filha acompanha-o a todo o lado desde a mais tenra idade, cai de sono em bares onde se fazem leituras de poemas, convive com toda a espécie de artistas, vê o pai como um homem que transforma tudo em magia, para descobrir, com o correr do tempo, que ele não é, afinal, igual aos pais das suas colegas e que o mundo, por acaso, até é bastante hostil relativamente a essa diferença. Veremos, pois, a vida destes pai e filha a par e passo, sempre de apartamento em apartamento, sempre sem dinheiro, sempre com companhias muito discutíveis que geram por vezes zangas profundas, mas ao mesmo tempo como dois amigos inseparáveis que têm um código de convivência muito especial. O livro é talvez demasiado americano, pois alude a um sem-número de detalhes e nomes que para nós, portugueses, são desconhecidos, mas vale sobretudo pelo relato de uma experiência de vida diferente e por se ler como um romance. Tenho muita curiosidade em ver o que fará a menina Coppola deste livro no seu filme.