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A mostrar mensagens de setembro, 2013

Ó tempo, volta para trás

Clara Ferreira Alves (CFA) não é, seguramente, uma personalidade consensual. O seu tom assertivo, ao que sei, irrita muita gente – e vê-la no Eixo do Mal contribui decerto para que algumas pessoas não a estimem muito Não estou lá muito convencida de apreciar a sua presença na televisão, mas leio sempre os seus textos com muito interesse na Revista do Expresso aos sábados e, mesmo que não concorde em permanência com as suas ideias, acho-a uma mulher inequivocamente culta e inteligente que, ainda por cima, escreve francamente bem (o que já é raro nos jornalistas). Recentemente, CFA dedicou uma crónica à morte da cultura literária (no dia 7 de Setembro, para quem não leu) e, dessa feita, bem queria ter discordado dela – mas poucas vezes na vida li coisa tão certa, tão clara e que me alarmasse tanto. A sua afirmação de que a revolução tecnológica destruiu o mundo como o conhecíamos pode parecer exagerada, mas o artigo é límpido como água, e a primeira consequência deste progresso tecnológico é o fim da consagração da literatura e do pensamento como arte, como criação. Agora, troca-se a biblioteca pelo shopping, e os media, a televisão mais do que todos, festejam todos os dias a ignorância e ainda batem palminhas. O tempo não volta para trás, isso é uma certeza inabalável. Mas então que faço eu agora, não me dizem, à procura do talento literário que cada vez menos gente deseja ou compreende? Por favor, leiam o artigo e digam-me se não tenho razão para ter medo do que aí vem.

Envelhecer

Sinto-me um bocado bota-de-elástico ao não querer perceber que a arte pode ser uma coisa que – sinceramente – eu preferia que não fosse. Uma vez, um senhor que estimo bastante e que tem cultura e bom gosto, disse-me que hoje já não havia arte, apenas instalações; e, conquanto eu tenha então achado que estava diante de um bota-de-elástico (até porque há instalações formidáveis), talvez hoje o tenha finalmente compreendido. É que, num jornal de referência, vejo dedicarem uma página inteira cheia de encómios a uma exposição de escultura. Mas, na fotografia que encima o texto, observo apenas paredes brancas, nas quais estão pendurados auscultadores, e uma cadeira banal à frente. A proposta é que o visitante se sente, coloque as «bandeletes» e fique à escuta. Bem, eu não sei o que dizem lá do outro lado – e até admito que possa ser «arte» (imaginemos que nos atiram com bela literatura); o que entendo menos bem é que isto seja uma exposição de «escultura», ainda por cima classificada com cinco estrelas, pois eu não vejo lá nenhuma peça escultural da autoria do escultor (acho que as cadeiras podiam ser do Ikea). Mas, pronto, devo ser eu que estou a envelhecer, e não tardará muito a que fique azeda e a começar as frases todas por «No meu tempo». Avisem-me, por favor, se isso começar a acontecer…


 


P.S. Se alguém tiver ido ver a exposição e me puder dizer o que sopram os fones, avance, porque posso estar a ser injusta, mas não estou com muita vontade de lá ir.

O botequim de Natália Correia

Já sou suficientemente antiga para ter frequentado um bar ali à Graça chamado Botequim, cuja mestra-de-cerimónias, por assim dizer, era Natália Correia com a sua longa boquilha. Fui lá ainda universitária com o meu pai, que gostava bastante da boémia, e mais tarde, já a trabalhar na edição, para assistir a um lançamento de um livro de Javier Marías (Todas as Almas, que, aliás, recomendo a quem não tiver lido). Acho que não voltei lá, mas sei que por ali passou muita gente interessante, mesmo que nem sempre tão interessante como a patronne, que era uma mulher directa, impagável e espirituosa como houve poucas em Portugal. Ora, o jornalista e escritor Fernando Dacosta publicou recentemente O Botequim da Liberdade, que fará decerto as delícias de quem frequentou o local e poderá, com a ajuda da obra, recordar e rever muita coisa que esqueceu; e, por outro lado, é um excelente fresco desse bar mítico e da sua grande dama, que ajudará os que não tiveram oportunidade de o conhecer a fazer uma pequena ideia da sua importância nesses tempos de tertúlias e encontros de intelectuais (com muito álcool e tabaco à mistura). Irresistível, portanto.

Língua dominante

O inglês domina sobre qualquer outra língua, é um facto, e por vezes encontro pessoas portuguesas que já só sabem dizer determinadas coisas em inglês. Nas empresas, quando se consulta um organograma, os cargos vêm todos com as siglas inglesas – e creio que as novas tecnologias, por causa dos gigantes Microsoft e afins, viciaram gerações inteiras na utilização da língua inglesa por tudo e por nada. Alguns vocábulos portugueses praticamente desapareceram do emprego corrente – lembro-me, por exemplo, de «quantia», que hoje passou a ser «soma» (por causa de «sum», naturalmente) e de «exemplar» (de um livro ou disco), que foi substituído por «cópia» (de «copy», claro), lendo-se frequentemente na imprensa que um livro vendeu milhões de cópias. Em todo o caso, para defender a minha dama, eu insisto em escrever e dizer muita coisa que sinto fugir dos dicionários – e estranhei por isso que, nas capas de dois romances nórdicos (um norueguês, outro islandês) recentemente publicados, os nomes dos prémios recebidos – que eram dos respectivos países – estivessem em inglês. Claro que não nasci ontem e sei que cá na terra não se encontra facilmente quem fale essas línguas e, portanto, calcule que a tradução foi feita a partir da versão inglesa. Mas porque não simplesmente «Prémio Literário da Crítica Norueguesa» em vez de «Norwegian Critics Literary Prize» ou «Prémio Literário da Islândia» em lugar de «Icelandic Literary Prize»?

Verdade ou consequência

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Violante tinha, desde criança, um talento raro para a representação e, com a ajuda de um grande actor com quem acabou por se casar, tornou-se uma das mais aplaudidas actrizes portuguesas do princípio do século XX. Contudo, os que a vêem brilhar e afirmar o seu génio no palco dos maiores teatros nacionais desconhecem o terrível segredo que minou a sua vida e levou para longe o marido numa noite que podia ter acabado em tragédia. A Segunda Morte de Anna Karénina é um romance sobre o amor sem limites, a traição e os custos da vingança – e também uma obra arrojada sobre as tensões homossexuais reprimidas, sobre as vidas desperdiçadas de tantos portugueses na Primeira Guerra Mundial e sobre as diferenças – se é que existem – entre o teatro e a vida real, porque numa conversa entre dois actores de excepção, nunca se sabe o que é verdade, o que é consequência. Este é o mais recente romance de Ana Cristina Silva.


 


Leituras obrigatórias

O Manel, por causa da ideia do Expresso de que já aqui falei, anda a reler Os Maias; e esse facto gerou uma conversa sobre as leituras escolares obrigatórias e a imaturidade com que todos lemos determinados livros e autores, como Gil Vicente, Fernão Mendes Pinto, Camões (o d’Os Lusíadas) ou o próprio Eça que, relido na idade adulta, contém um suplemento de prazer. Nessa conversa, que decorreu durante uma sessão de autógrafos sem grande afluência (a praia a ganhar ao livro, claro), a escritora Inês Pedrosa referiu que tinha dado a Lírica de Camões a ler recentemente à filha (que a adorou) porque a achara desavinda com a épica camoniana estudada na escola (se calhar, a fazer divisão de orações); e acrescentou que, sendo hoje uma grande admiradora da obra de Agustina, não gostara assim tanto de A Sibila quando a lera pela primeira vez em adolescente. Isso acendeu porém uma recordação que não resistiu a partilhar connosco e eu faço o mesmo com essa história deliciosa: Agustina Bessa-Luís ficou a certa altura sem empregada e, andando à procura de uma pessoa que pudesse trabalhar para si, uma conhecida recomendou-lhe uma rapariga de confiança que, além de estar a precisar de emprego, não era propriamente uma ignorante. Puseram-se então ambas em contacto e foi combinado um dia para conversarem e verem até que ponto podiam ser úteis uma à outra. Porém, quando a rapariga se apresentou em casa da escritora e soube finalmente o seu nome (ou reconheceu o seu rosto de alguma contracapa, já não sei), foi peremptória ao afirmar que não havia nada a fazer, pois de modo algum trabalharia para aquela senhora. A razão era simples: a autora de A Sibila era a verdadeira responsável por a rapariga nunca ter conseguido acabar o liceu… 

Writers friendly

Apaixonei-me na universidade por um poeta irlandês que recebera o Nobel nos anos 20 (W. B. Yeats) e, quando fui à Irlanda, cheguei a visitar em Sligo a sua sepultura num jardinzinho à roda de uma igreja, cujas árvores então praticamente despidas tinham, recordo, ninhos de corvos que pareciam desenhos a tracejado. O lugar era uma pintura – e, na Irlanda, acontece frequentemente tratar-se com bom gosto e carinho tudo o que diz respeito aos escritores. Foi sobre isto também que escreveu recentemente Miguel Esteves Cardoso (MEC) ao referir numa crónica a morte do poeta Seamus Heaney (outro grande), que tive a sorte de ouvir ao vivo na Feira do Livro de Frankfurt dedicada à Irlanda, em 1996, pois foi quem fez o brilhante discurso de abertura. Ao contrário dos ignorantes que nos governam no nosso rectângulo e desprezam na generalidade os artistas, os intelectuais e as suas opiniões, os dirigentes irlandeses, contava MEC, fizeram o elogio do poeta desaparecido no final de Agosto recitando versos dele de cor e chamando-lhe apenas Seamus, com a familiaridade que ele merecia. Foi em Dublin que visitei a primeira livraria aberta até à meia-noite, há muitos anos (nessa altura, nem havia centros comerciais em Lisboa) e que ouvi um trabalhador rural a quem pedimos informações na estrada falar de Yeats como aqui, se calhar, falariam de Toni Carreira ou, quando muito, de Amália. Um país que já teve quatro prémios Nobel da Literatura cuida, melhor do que ninguém, dos seus escritores.

Moda e literatura

Leio na página oficial da S, L, M, XL - Fashion and Design Week, a acontecer em Santo Tirso até amanhã, uma frase deliciosa de Oscar Wilde, que diz que «a moda é tão horrivelmente feia que a temos de mudar duas vezes por ano». Parece, porém, que este certame vai cruzar a moda com várias áreas menos «horrivelmente feias» da arte e da vida, entre elas, a gastronomia e a literatura. Um dos meus autores, Paulo Moreiras – que, além de bom escritor, é também um bom garfo e um estudioso-curioso da gastronomia (tendo escrito deliciosos opúsculos sobre o tremoço e a morcela, por exemplo) – vai intervir amanhã às 18h30 numa sessão sob o título «Na Ponta da Língua» e debruçar-se-á sobre o erótico na doçaria conventual, sessão que também contará com a presença da poetisa Rosa Alice Branco, que é a curadora da Literatura neste festival. Hoje ainda estará também numa mesa, a falar de modas e mitos da literatura, com Vasco Graça Moura, Maria Bochicchio e Paulo Cunha e Silva. Se estiver perto de Santo Tirso, vá-lhes fazer companhia e não se arrependerá, o mais provável é sair de lá de água na boca (para ler e comer). Mais informações no link abaixo.


 


http://www.esad.pt/pt/eventos/s-m-l-xl-literatura

O nosso agente em Lisboa

Há uns dias, assim, de repente, veio a má notícia: Ilídio Matos, o primeiro agente literário português (e o único em Portugal ao longo de décadas), representando os direitos de editoras alemãs, suíças, norte-americanas e outras, tinha morrido. Dois dias antes, duas editoras da LeYa tinham almoçado com ele e dito que estava entusiasmado com uma operação às cataratas que ia fazer, pois andava a ver muito mal. Mas que, de resto, parecia francamente bem e cheio de projectos. Nesse dia planeei combinar mais um almocinho com ele e com a minha amiga Ana Pereirinha, editora na Planeta, pois há muito que lho prometêramos; mas já não irei a tempo – e arrependo-me obviamente de deixar que o stress se sobreponha tanta vez às coisas realmente importantes da vida. O Ilídio era um grande amigo – e, com aquele seu ar de pai, chamava-me carinhosamente «joiinha» ou «doutorita», pois conhecia-me desde 1987, o ano em que me iniciei no mundo dos livros. Ele tinha um fantástico sentido de humor e, estando no mundo editorial há tantos anos (tinha oitenta e sete), histórias interessantes para contar que nunca mais acabavam e faziam as delícias de quem o ouvia. Quase todos os editores sentirão a falta dele, tenho a certeza, e merecia que todos os jornais lhe dedicassem umas valentes páginas porque faz claramente parte da História da Edição em Portugal e foi um dos seus mais originais protagonistas. Ficámos sem o nosso agente em Lisboa – e estamos tristes.

Contar histórias

Quando os autores portugueses têm livros traduzidos noutras línguas, as editoras estrangeiras enviam-lhes exemplares que eles guardam religiosamente e lhes servem, entre outras coisas, para oferecer a confrades em encontros literários internacionais, melhor se dando a conhecer. Mas não é fácil encontrar esses livros à venda em livrarias portuguesas – e os turistas não têm muitas hipóteses de comprar traduções de autores portugueses quando nos visitam. Ou, melhor, não tinham – porque dois amigos com boas ideias resolveram criar um negócio que dá pelo nome de Tell a Story e reúne todas as condições para correr bem, uma vez que Lisboa recebe turistas todo o ano. Trata-se de vender numa carrinha azul, alegre como uma carrinha de gelados, decorada com estantes e expositores, a obra de autores de cá em variadíssimas línguas – francês, inglês, alemão, neerlandês… A carrinha, que anda atrás dos turistas numa ideia de «desassossego» a homenagear Pessoa – possivelmente o autor mais procurado –, estaciona em locais frequentados por estrangeiros e oferece uma panóplia de títulos e histórias numa acção de promoção da nossa literatura. Até agora, os franceses são quem mais compra, mas todos vão ver as histórias que há para contar. Uma bonita e útil iniciativa.

O mal-amado

Raramente um protagonista masculino é tão frágil como o de Maldito Seja o Rio do Tempo, de Per Petterson, o norueguês que se celebrizou com Cavalos Roubados, romance que lhe valeu muitos prémios e a tradução em cerca de cinquenta países. Este novo livro (que merecia, de resto, um maior cuidado a nível da redacção e da revisão na edição portuguesa – encontrei «verãos» por «verões» mais de uma vez, só para dar um exemplo) fala-nos de um homem de 37 anos a quem, de repente, parece ter caído o mundo em cima: já não lhe bastava o facto de a mulher lhe ter pedido o divórcio (e este amor tem muito que se lhe diga), de ter deixado de acreditar no comunismo e percebido que fez demasiadas asneiras no passado em nome da ideologia (como deixar a universidade para trabalhar numa gráfica, inspirado na revolução cultural de Mao), e ainda descobre que a mãe tem um cancro e, provavelmente, pouco tempo de vida. Decide, pois, ir ter com ela à casa de Verão que possuem numa pequena povoação da Dinamarca (donde ela é oriunda) com o intuito de a apoiar; mas é ela quem, afinal, lhe dá força e mimo, embora de um modo frio, quase bergmaniano, dizendo-lhe, por exemplo, que nunca percebeu como quis ele pertencer à classe operária se desde sempre fazia parte dela. A Noruega deste livro é, de resto, completamente nova para mim, que só conheço a fama que o país tem de ser o melhor do mundo para viver e ignorava as vidas duríssimas dos que trabalham nas fábricas, metade do tempo de noite, e sempre com tanto frio. Maldito Seja o Rio do Tempo (curiosamente, um verso de um poema de Mao sobre a saudade da infância) é um romance admirável sobre relações familiares complexas, sobre as vidas que chegam ao fim e as que, tendo hipótese de recomeçar, continuarão ainda mais apagadas do que as que se extinguiram. Per Petterson é um autor que merece a nossa atenção.

Compliquex

Simplificar e aliviar os procedimentos burocráticos e a respectiva linguagem parece-me, em princípio, uma coisa positiva, até porque sempre achei que, em Portugal, se gostava muito de complicar. Há um ano e tal pediram-me que «traduzisse» um artigo da Constituição para que os jovens o pudessem perceber numa redacção mais clara – e, bolas, desculpem-me o palavreado, mas até eu tive dificuldades em compreendê-lo quando o li pela primeira vez. Um dia destes, pousando os olhos num anúncio publicado num jornal, verifiquei que o vício de complicar a prosa se mantinha. O título era este: «Subconcessão da Utilização Privativa do Domínio Público e das áreas Afectas à Concessão Dominial atribuída à Sociedade Estaleiros Navais de Viana do Castelo, S.A.» Bem, claro que quem está interessado já sabe de tudo antes de ler o anúncio, mas, numa frase única, conseguimos ter as palavras «subconcessão» e «concessão», «domínio» e «dominial» (além de que temos «áreas» escrito com minúscula e «Afectas» com maiúscula, o que não percebi); e no corpo do anúncio propriamente dito, de dois parágrafos, lemos coisas como «a subconcessão de […] terreno que integra a concessão dominial concessionada à ENVC». Ui, entre tanta concessão acabei por ficar confusa. Não podiam aplicar aqui o Simplex, ou, pelo menos, escrever mais bonito? Num outro anúncio, posto por uma universidade, o título também era bem estranho: «Procedimento concursal comum para a celebração de um contrato de trabalho em funções públicas a termo resolutivo incerto.» Oh diabo, quem é que se lembrou desta formulação tão estranha para uma coisa, afinal, tão simples?

Byron e os cães mortos

O senhor Coetzee não ganhou seguramente o Nobel – nem muitos outros prémios literários – por acaso. É um autor sul-africano notável, que entre outros romances escreveu Desgraça, no qual um académico branco, mulherengo e apreciador de Byron assedia Melanie, uma das suas alunas mulatas; a rapariga apresenta queixa (movida pelo namorado e pelos pais, mais do que por vontade própria) e David, não tentando defender-se sequer de um acto que seria capaz de repetir (respondeu a um impulso, eis como define a situação), acaba por ser expulso da universidade. Sem nada que fazer, resolve visitar Lucy no interior do país – a filha neo-hippie que deixou a Cidade do Cabo para se tornar proprietária de uma pequena parcela de terreno e vive de vender flores no mercado e guardar cães nas férias dos donos (mas muitas vezes é apenas de abandono que se trata e os animais ficam com ela). O reencontro entre pai e filha é franco e agradável e, embora os seus hábitos sejam diametralmente opostos e o professor gostasse mais de uma Lucy menos «campónia», a verdade é que acaba por se adaptar àquele ermo, ocupando os dias com trabalho braçal, o libreto de uma ópera sobre Byron e o apoio a uma clínica veterinária onde aprende a consolar os cães que vão ser abatidos (na maioria dos casos, porque os donos são pobres e não os podem manter). Porém, quando a sua vida estava a ganhar um novo rumo (ele até tinha ido para a cama com uma mulher da sua idade – e feia), um ataque violento à casa vira tudo do avesso e tem consequências devastadoras para Lucy e o seu futuro naquele lugar. Mas ela recusa-se a sair dali, doa a quem doer. Este é um livro sobre a África do Sul pós-apartheid, sobre as atrocidades e as feridas abertas de uma sociedade eminentemente racista. Duro, seco e desassombrado, fala dos que parecem conseguir adaptar-se ao inadaptável – como os cães cheiram a morte, mas se oferecem ao carrasco para uma última festinha. A não perder.

O regresso à leitura

Há quem diga que precisamos de bater no fundo para podermos renascer de um outro modo mais digno. Cá por mim, já estamos numa espécie de fundo, mas talvez haja efeitos positivos a retirar das circunstâncias. O jornal The Independent publicava há semanas uma estranha notícia sobre o renascimento do interesse pela leitura numa pequena comunidade espanhola nos arredores de Granada. Ao que parece, todas as tardes e noites a população anda num entra-e-sai da biblioteca local com livros em sacos e debaixo do braço. A biblioteca – note-se – fechou oficialmente há dois anos (presumo que por falta de leitores), não tem funcionários pagos e – mais curioso ainda – funciona à luz da vela porque a electricidade está cortada. Mas uma dúzia de voluntários e muitos dadores de livros perceberam que esta era a altura de a ressuscitar e começaram a organizar actividades que levaram os locais de volta à biblioteca, onde a afluência subiu mais de 50%. Uma das bibliotecárias refere que, se antes quem vinha buscar romances cor-de-rosa eram as donas-de-casa, hoje são principalmente os desempregados que requisitam livros (não só estão sem dinheiro, como têm mais tempo). A situação repete-se em muitas outras regiões de Espanha e talvez contribua para a criação de hábitos de leitura em muita gente. Ler nunca fez mal a ninguém e ajuda a esquecer os maus bocados.

A estatística da felicidade

Já aqui vos falei do novo romance de David Machado, intitulado Índice Médio de Felicidade. Nele, abrindo os capítulos, temos alguns números interessantes, deixando bem à vista que os países com bom nível de vida, onde as pessoas não são carenciadas, apresentam um índice médio de felicidade superior ao de outros onde há fome e dificuldades – a Suíça, por exemplo, tem um índice médio de felicidade de 8 (a tabela é de 0 a 10 e os dados de 2012) enquanto o Congo ou a Costa do Marfim se ficam pelos 4,4. Mas não é só o conforto material que conta, o mood colectivo deve ser bastante determinante, porque a soalheira Costa Rica supera a Suíça com um índice médio de felicidade de 8,5, apesar de ser um país com muitas carências, enquanto Portugal, mais bisonho mas, em todo o caso, mais desenvolvido, só consegue uns míseros 5,7 (que, segundo leio no jornal, baixou para 5,1 em 2013). O número encontra-se mediante a resposta à pergunta «De 0 a 10, quão satisfeito se sente com a vida no seu todo?» e fizemo-la a pessoas de várias idades no vídeo cujo link vai abaixo. Ou era porque tinham vindo de férias uns dias antes ou porque já tinham lido o romance de David Machado e estavam contentes, a verdade é que é caso para dizer que nem pareciam portuguesas…


 


 


http://www.youtube.com/watch?v=jiNqG1ZJYCI&feature=youtu.be


 


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A boca grande

Nas férias, fiz bastantes caminhadas a pé (dizem que tira o stress – e eu estava a precisar de me desembaraçar dele) e, numa delas, fui dar a uma feira do livro armada numa tenda em frente da praia da Ericeira – o que seria inescapável, dirão alguns. Pois foi aí que, por meros 2 Euros, comprei um livrinho de Dostoiévski chamado O Crocodilo, deliciosa leitura para duas horas a olhar o mar, porque o mestre russo sabe deleitar-nos como ninguém com qualquer meia dúzia de palavras. Um funcionário público (russo, claro) vai com a mulher e um amigo (o narrador) ver um crocodilo que está em exposição numa galeria muito badalada; e tanto faz para mostrar à sua belíssima e enojada esposa que o bicho é inofensivo que acaba por ser engolido vivo por ele. O problema é que o funcionário engolido é público, mas o crocodilo esfomeado é propriedade privada – e, ainda por cima, de um alemão, que não está disposto a perder a receita dos bilhetes para salvar o senhor presumido que, apesar do acidente, continua a falar do oco do monstro e já se alegra com o número de visitantes que a situação vai atrair e no quanto isso lhe vai render – um fanfarrão que fala demais, tem boca grande e desiste de ser salvo só para que os jornais tenham qualquer coisa para dele dizer…

Um erro olímpico?

Pobre Miguel Relvas, sim, esse mesmo, que devia andar sem nada para fazer desde que deixou o governo… Pois, mesmo sem remuneração, deram-lhe (não imagino quem) um cargo que não podia estar mais em desacordo com a figura: o de alto-comissário da Casa Olímpica da Língua Portuguesa (uma casa criada no Rio de Janeiro, onde se realizarão, como sabem, os próximos Jogos Olímpicos). Diz-se que a instituição não é estatal e que o seu financiamento se fará com dinheiros privados (não imagino de quem). O alto-comissário, a respeito do próprio cargo, refere: «Como condições prévias, exijo fazê-lo a título não oneroso e geograficamente abrangente, isto é, englobando, nas realidades culturais a promover, além dos países que têm comités olímpicos, aqueles territórios que, fazendo parte de outros países soberanos, têm com a cultura portuguesa uma conexão forte e associações que perseguem os mesmos fins que os comités olímpicos nacionais.» Ora, ficou claríssimo (pelo menos, para mim) que o antigo ministro usa a língua portuguesa como ninguém e que não faz a mínima ideia do que irá fazer lá pelo Rio de Janeiro para a promover. Um erro olímpico terem-no escolhido, diria eu.

Bandidos

Naturalmente, porque publico muitos autores estreantes, também me interesso pelos que publica a concorrência, sobretudo se os críticos os referenciam como excepcionais. Já não sei quantas, mas eram muitas as estrelas com que os jornais classificavam a obra de estreia de Rodrigo Magalhães, com o estranho título de rima falsa Cinerama Peruana, um conjunto de três histórias que se cruzam, mas não vale a pena dizer exactamente onde, porque as arestas podem tocar-se, mas também se afastam por fricção. A aparente simplicidade da linguagem usada pelo autor é, de resto, contradita por uma complexidade que é certamente deliberada e desafiante quase sempre (quando não o é, o leitor perde qualquer coisa, e o que vale é que já ganhou o equivalente). Nestas três histórias, jogam-se os destinos de gente que mata por prazer: um aprendiz de alfaiate com manias de ensaísta, dois gémeos de sexos diferentes (ou não) e, no último conto, que é o mais substancial e dá nome ao livro, uma série de pistoleiros que tão depressa estão ao lado do mestre como lhe querem suceder na liderança do grupo. Bem escrito, sem dúvida, com um certo tom de Bolaño (houve quem falasse igualmente em Carver, eu não encontrei assim tantas semelhanças), numa passagem ou noutra, confesso, apeteceu-me desligar o complicómetro, mas acho que estes bandidos merecem atenção por parte dos leitores. Para quem disparou pela primeira vez, como Rodrigo Magalhães, o tiro (mais ao estômago do que ao coração) foi certeiro. Os vivos ficam à espera do próximo ataque.

Fugir das palavras

Li há tempos um belo artigo do jornalista Tiago Bartolomeu Costa no jornal Público sobre uma mesa-redonda durante o último Festival de Teatro de Avignon, para a qual foram convocados filósofos com o objectivo de darem o seu contributo para, de algum modo, se prever o que acontecerá no futuro e nos ajudarem, com as suas ideias, a sairmos desta terrível crise. Ups! É melhor não utilizar sequer a palavra «crise». Yves Citton, o pensador suíço presente no debate, alega que «o uso de certas palavras tem como objectivo a não produção de pensamento» e que, se em vez de os políticos dizerem «despesa», disserem «investimento», o mais provável é não sentirmos que estamos em crise (e lá disse eu outra vez o vocábulo proibido). E propõe que, em lugar de andarmos à procura de hipóteses e explicações, há que responder com concretizações – logo, a imaginação tem de ser posta a trabalhar, porque, como diz o filósofo francês Didi-Huberman, «de cada vez que se cria uma nova forma, cria-se um desejo de transformação». Toca, pois, a pensar – e a deixar de falar em... não, agora já não me apanham a repetir a palavra.

Uma questão de felicidade

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Na obra-prima de Eça, levantam-se vozes discordantes quando Carlos da Maia decide ser médico. Em resposta às objecções, alguém diz, porém, que não há melhor profissão do que aquela num país cuja população ocupa a maior parte do tempo a queixar-se e a estar doente. Sim, é verdade que somos, por natureza, um bocado chorinhas e queixosos, mesmo que frequentemente cheios de razão, mas no romance de que hoje falarei, Índice Médio de Felicidade, de David Machado, encontraremos um protagonista nos antípodas deste modelo. Daniel, assim se chama a inesquecível personagem, perdeu o emprego, está em vias de perder a casa e até a família, tem um dos melhores amigos preso e o outro a caminhar para a loucura, mas nada parece demovê-lo de um optimismo e de uma esperança que são uma lição para todos nós. Porque, sem futuro, o presente não faz sentido, Daniel vira tudo do avesso, se for preciso, para que não falte felicidade àqueles que ama. Num romance que é também sobre os tempos duros que vivemos, David Machado conta-nos uma história que é uma autêntica espiral de peripécias com um ritmo incrível e gente que gostaríamos de ter como amiga. Dramático, realista e às vezes hilariante, esta é uma obra acerca da esperança que resta a quem perde quase tudo, que nos ensina muita coisa sobre nós mesmos.


 


Começos

Cá estamos de volta ao blogue e ao trabalho – e espero que as vossas férias tenham sido boas e que todos cheguem cheios de força para comentar o que, a partir de agora, vos for servindo nestas minhas Horas Extraordinárias. E, como hoje é começo do mês, cumprindo o ritual de cada um dizer o que anda a ler, lembrei-me de aconselhar um romance de começos absolutamente genial que, lido uma vez, jamais se esquece. Trata-se, pois claro, de Se numa Noite de Inverno Um Viajante, do grande Italo Calvino, uma obra que nunca há-de estar ultrapassada, de tão moderna que continua a ser tantos anos após ter sido escrita. Um leitor compra um livro numa livraria (o romance que acabo de citar) e, assim que lê o princípio, fica com água na boca (como todos nós, se o lermos). Mas, por razões que aqui não se contarão, descobre que o segundo capítulo é, afinal, de um outro livro – um romance não menos fascinante, por certo, mas não aquele que esperava. Vai, obviamente, reclamar do sucedido (e querer ler os dois livros de fio a pavio, já agora) e conhece, na livraria, uma leitora a quem a mesma «tragédia» sucedeu, o que acaba por gerar uma paixoneta e muitas afinidades. Porém, à medida que ambos tentam recuperar a sequência do que leram, por mil enganos e conspirações inimagináveis, terão sempre na mão mais um começo de um novo romance, cada qual mais aliciante, que em vão desejarão continuar a ler. Com uma mão notável para escrever em estilos muito diferentes, do Japão à América Latina, passando pela Europa Central, este livro de Calvino é um caso sério da literatura de todos os tempos e lugares.