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A mostrar mensagens de maio, 2025

O mundo dos autores

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Quem trabalha com livros ouve muitas vezes as pessoas que gostam de ler invejarem o seu trabalho, como se passássemos os dias exclusivamente a ler coisas boas. Muitas memórias de editores de todo o mundo explicam que não é bem assim, até porque há muitas outras tarefas que realizamos (e quantas delas chatas ou burocráticas...), cursos que somos obrigados a fazer (ai, já enjoei tanta cibersegurança!), leituras que só apetece amachucar e meter no lixo e, claro, se não publicarmos apenas traduções, ainda temos... os autores, que podem ser fáceis e amorosos, indiferentes e pouco empáticos, ou insuportáveis, exigentes e conflituosos. É disto tudo que falam as memórias do meu excelso marido, Manuel Alberto Valente, no livro O Outro Lado dos Livros, que inclui as crónicas que o semanário Expresso publicou ao longo de alguns anos e que agora se reúnem com mais umas coisas num volume independente que a Quetzal deu à estampa e chegou às livrarias na semana passada. O lançamento será segunda-feira próxima, às 18h30, na Livraria da Travessa, e se quiser saber como arranjar um linguado a Paul Auster ou comprar direitos de um romance numa casa de banho de um restaurante, entre muitas outras histórias, este é o livro ideal para quem quer saber o que é a profissão de editor.


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Estado Novo

Foi ontem, 28 de Maio, o dia (bem) escolhido para apresentar um novo livro. Chama-se O Estado Novo em 101 Objetos e assina-o a jornalista Fernanda Cachão, que nasceu no tempo cinzentão de Marcello Caetano ao leme. A apresentação, que aconteceu na Livraria Buchholz em Lisboa, foi do jornalista Adelino Gomes, um dos jornalistas que fizeram a reportagem do 25 de Abril de 1974 sentado num tanque e tem sempre histórias incríveis para contar, incluindo sobre «Uma Montra da Ditadura Portuguesa», que é, não por acaso, o subtítulo deste livro de que hoje vos falo. Da fivela do cinto que fazia parte do uniforme da Mocidade Portuguesa, ao serviço de loiça Vista Alegre usado nos voos de primeira classe da TAP, passando obviamente por cartas, documentos e tantas outras coisas, a autora conta-nos, em textos independentes, o papel destes 101 objectos que constituíram, no fundo, a vida portuguesa ao longo dos anos do Estado Novo. Estou em crer que muita gente vai querer espreitar...

Escutar o mundo

Nuno Artur Silva (entre outras coisas, fundador das Produções Fictícias), que há dias lançou Erros Meus, a sua Poesia Incompleta, na Imprensa Nacional, tem um programa de rádio semanal na TSF chamado A Escuta do Mundo, no qual conta sempre com dois convidados. Estes falam do que andam a fazer (são geralmente pessoas ligadas às artes), além de partilharem com os ouvintes o que andam a «escutar» (não necessariamente discos, é uma metáfora), e regra geral comentam também o que passa no mundo. Parafraseando Saramago em O Ensaio sobre a Cegueira, Nuno Artur Silva inicia o seu programa com o conselho: «Se puderes ouvir, escuta. Se puderes escutar, atenta.» Ora, este programa (descobri agora) tem também uma espécie de versão mensal no El Corte Inglés, em que o seu autor reflecte sobre os principais acontecimentos do mês em jeito de conferência; e tenho razões para acreditar que hoje às 18h30 a sessão vai ter sumo e dar que falar, tendo em conta sobretudo os recentes resultados eleitorais. Se estiver interessado em escutar e atentar, mais logo pode ouvir o mundo pela voz de um criativo que gosta muito de pensar nas coisas.

Medalhas

Na semana passada, a Ministra da Cultura concedeu dez medalhas de Mérito Cultural numa só manhã e nem se pode dizer que fosse por vir aí um governo de outro sentido, porque a AD ganhou as eleições com grande vantagem e, além disso, as pessoas condecoradas, se não o foram antes, já mereciam há muito tempo o reconhecimento dado agora. Entre elas, estiveram Pedro Sobral e Augusto M. Seabra, que receberam a medalha a título póstumo; mas também o grande fotógrafo Alfredo Cunha, que nos deu as melhores fotografias do 25 de Abril (de resto, publicadas em livro); o incrível cenógrafo José Manuel Castanheira, de um bom gosto incrível e sempre tão discreto; a incansável Manuela Júdice, que foi quem «levantou» a Casa Fernando Pessoa e hoje dirige a Casa da América Latina, depois de comissariar uma data de feiras do livro no estrangeiro; e bem assim os artistas plásticos José de Guimarães e Emília Nadal, a actriz São José Lapa, o oleiro Querubim Rocha e (uma pessoa de quem nunca tinha ouvido falar, mea culpa) António Carmelo Aires, que descobri ser um guardião muito especial da arte pastoril alentejana. Parabéns a todos!

Estrelas caídas

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Amanhã sai para o mercado o novo romance de Isabel Rio Novo, A Matéria das Estrelas, que tem que se lhe diga, até porque repesca uma personagem de um outro romance, mas não dela, que também publiquei: A Boneca Despida, de Paulo M. Morais. Fala, pois, do guarda-marinha Jacinto da Silva Fernandes, que não comparece à chamada do navio-patrulha Flamínio, pronto a largar do porto de Ponta Delgada, sendo mais tarde encontrado pelos colegas deitado por terra, inanimado, na casa que arrendava. O trágico e misterioso incidente suspende o percurso de um jovem cujas qualidades e aspirações pareciam talhá-lo para a carreira dos mares, marcando o início de uma investigação conduzida por Eduardo, médico e familiar dos Silva Fernandes, que traçará a história de Jacinto, desde a sua infância até à sua sobrevivência como deficiente, passando pelos dias anteriores ao incidente. Revolvendo os indícios deixados pelo jovem (fotografias, cartas, livros, amigos) na ânsia de encontrar respostas, Eduardo confrontar-se-á com segredos abafados e revelações dolorosas. E compreenderá que, mais do que a procura da verdade sobre Jacinto, está no fundo a conduzir uma pesquisa existencial. «Obra de um notável fôlego narrativo», servida por «uma linguagem apuradíssima», segundo o júri que o agraciou com o Prémio Literário Cidade de Almada em 2024, o romance A Matéria das Estrelas traz o registo inconfundível de uma das grandes vozes da literatura portuguesa contemporânea.


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Excerto da Quinzena

A vilegiatura marítima começa em Monte Gordo num período de crise para os pescadores locais. É certo que nunca lhes pertenceram os meios de pesca, nem as embarcações nem as redes de arte, e que os tempos, portanto, nunca foram de abundância. Mas aí, nas xávegas, sempre tiveram lugar como parceiros ou como contratados. Acontece que a xávega tem os dias contados, ameaçada pelas armações de sardinha, pelos cercos e galeões, as parelhas de arrasto espanholas, práticas predatórias a desviar ou a delapidar os cardumes, a destruir os fundos marinhos. Não vai longe o tempo em que o Capitão do Porto de Vila Real de Santo António se lamentava de a indústria piscatória se encontrar limitada à pesca da sardinha com xávegas, quando era tanta, e inaproveitada, a riqueza destes mares. Pois agora, na década de 1890, com os cercos a apanharem os cardumes de pelágicos antes de estes se aproximarem da costa, com anos sucessivos de arrastos predadores a destruir os fundos marinhos, o pobre aglomerado "decai a olhos vistos pela escassez da pesca da sardinha", com as poucas Barcas ainda em actividade a fazerem lanços miseráveis.


José Carlos Barros, Os Filhos de Monte Gordo, Fundação Francisco Manuel dos Santos

Quem não tem medo, apareça

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Calhou este ano publicar, com um intervalo de apenas três meses, dois romances que venceram o mesmo galardão, o Prémio Literário Cidade de Almada, embora em anos diferentes. Como o segundo ainda não está disponível (os lançamentos no Porto e em Lisboa serão, de resto, em junho), volto a falar do segundo, pois mais logo haverá na FNAC da Avenida de Roma, em Lisboa, uma conversa à volta dele, depois de já termos feito uma apresentação na Livraria Poetria no Porto, de onde a autora é natural. Falo de Sara Brandão Duarte e do seu Quem Tem Medo dos Santos da Casa, que foi escolhido por um júri que incuía outra autora de quem publiquei os primeiros títulos, Ana Margarida de Carvalho,  e o professor Manuel Frias Martins. Passa-se numa pequena comunidade piscatória muito crente e fala de um padre que teve a coragem de mandar talhar em madeira uns santos bem modernos a que os paroquianos, claro, torceram o nariz. A autora falará disto e de muito mais com a jornalista do Público Carolina Branco às 18h30. Venham ouvir.


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P. S. Aproveito para dizer que no mesmo local e à mesma hora, o escritor Nuno Duarte, vencedor do Prémio LeYa, estará amanhã a conversar com o jornalista Luís Ricardo Duarte, do Jornal de Letras.


 

Sintra

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Sintra tem uma paisagem singular, mas é, além disso, um lugar mágico que facilmente se presta ao esoterismo e tem muitos admiradores, sendo estudado por filósofos e apreciado por escritores, como era o caso, por exemplo, de Maria Gabriela Llansol. Com o apoio da Câmara Municipal de Sintra, a Alagamares, uma instituição cultural sintrense, vai, nos próximos dias 29 e 30 de maio, organizar na Biblioteca Municipal de Sintra o VIII Encontro de História de Sintra, que contará com oito comunicações originais, da autoria de Carlos Manique, Fernando Morais Gomes, Renato Epifânio, Teresa Caetano, Duarte Arnaud, Nuno Miguel Gaspar, Liberto Cruz e João Rodil. Para os participantes, está ainda prevista uma visita ao Paço da Ribafria na Vila de Sintra, pelo que, se gosta de Sintra e está interessado em aprender, inscreva-se pelo endereço alagamaressintra@gmail.com porque os interessados são sempre muitos e os lugares limitados.


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A sério?

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Há quem pense que as histórias para crianças são sempre a brincar, mas acabo de publicar, com a chancela da Caminho Infantil, Uma História a Sério, da dupla sempre vencedora David Machado (texto) e David Pintor (ilustração). É uma delícia porque apanha os pais mergulhados em jogos digitais, vídeos e mensagens, em vez de deitarem um olho ao que os filhos andam a fazer, o que obriga a filha a satisfazer o pedido do irmão mais novo de lhe contar uma história quando devia era estar a fazer os trabalhos de casa. Mas ela é tão boa a contar histórias que de repente as suas palavras ganham vida e a história, em vez de imaginada, é a sério, com um urso enorme a bater à porta de casa e a perseguir os irmãos. Todos os maus se juntam às personagens, e há ladrões, piratas, feras e muito mais perigos, até que a mana finalmente se cala e regressam os dois a casa exaustos, encontrando os pais exactamente como os deixaram: entretidos com a porcaria dos telemóveis, como se nada se tivesse passado. Um livro mesmo bom, mesmo a sério. Até os adultos gostam.


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Mães, pais e filhos

Há uns anos, não muitos, descobri uma autora irlandesa belíssima, sobre cujos livros certamente já escrevi no blogue. O primeiro que li chama-se Hamnet e fala da morte de um filho de Shakespeare com um surto de peste, bem como das consequências dessa tragédia na vida da mãe e também na obra do pai-poeta. O segundo tem por título Retrato de Casamento e por protagonista Lucrezia d' Medici, uma jovem que nunca gostou dos jogos da Corte e é de repente obrigada a casar-se com o duque de Ferrara e a dar-lhe um herdeiro, senão... A autora de que falo é Maggie O'Farrell, que vale mesmo a pena acompanhar, e li ainda da sua pena recentemente um romance mais antigo, A Primeira Mão Que Segurou a Minha, traduzido pela poeta Inês Dias, que é um livro belíssimo que conta paralelamente duas histórias de mães, pais e filhos (a que se passa primeiro é mesmo uma história muito bela com personagens fascinantes) para depois as ligar a partir do último terço numa reviravolta bem urdida e um tanto inesperada. Merecia uma capa mais bonita, mas o que lá está dentro é que conta. Leiam!

Palavrinhas

Estava eu em leituras (camonianas, salvo erro) e encontrei num mesmo parágrafo as palavras «cartear» e «descartar». Fiquei curiosa sobre que «carta» juntava as duas coisas e lá fui consultar a etimologia das palavras, chegando à conclusão de que «charta/carta» é uma forma latinizada do grego «khártes», que quer dizer «folha de papiro preparada para receber a escrita». O seu significado abarca papel (ainda hoje «carta» é equivalente a «papel» em italiano), bula, encíclica, missiva, epístola; e é desta palavra que derivam «carteira» (que no século XIX ainda servia para esconder cartas), «cartaz» ou mesmo «cartel» (que, em francês, era a carta que se enviava a desafiar alguém para um duelo). O verbo «cartear» tem que ver com «trocar cartas, corresponder-se», mas também com «jogar cartas». Ora, o verbo «descartar», que hoje está na ordem do dia (tanta coisa descartável...) vem justamente das cartas de jogar, e não das escritas. Pensei que queria dizer «deitar papel fora» na origem, mas não, está associado ao facto de pôr de lado uma carta que já não interessa ao jogo (o prefixo «des» quer dizer «não»). Que giro, não é?

Prémio LeYa

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Todos os anos anunciamos o romance vencedor do Prémio LeYa em Outubro ou Novembro, sendo o livro publicado em Abril do ano seguinte e o galardão entregue cerca de um mês depois. O mais recente premiado foi o publicitário e escritor Nuno Duarte com a maravilha que é Pés de Barro, uma ficção em torno da construção da Ponte sobre o Tejo (naquela altura baptizada «Salazar») nos inícios da década de sessenta, período que coincide curiosamente com a partida dos primeiros navios para a Guerra Colonial na mesma Alcântara onde se lançam os pilares de uma obra à semelhança da Golden Gate de São Francisco, que os americanos, de resto, vieram orientar e superintender. Tudo visto pelos olhos de um operário (Victor Tirapicos), residente num bairro das redondezas, e dos seus vizinhos e colegas que observam uma Lisboa em mudança, ainda cinzenta mas já a piscar o olho ao futuro. Hoje vai ser a entrega do prémio e estou muito feliz por ter publicado este romance que será apresentado esta tarde por Helena Roseta. Apareçam.


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Camões

Claro que, como qualquer pessoa que gosta de poesia, muitas das minhas horas nestes últimos tempos, por conta de comemorações e outras razões, têm sido dedicadas a Camões (tantas rimas!), nascido (supostamente) há 500 anos, mas não menos actual do que muitos poetas da actualidade (e melhor do que todos, lá diria Vasco da Graça Moura, que não gostava por aí além de Pessoa). Uma genialidade que não está ao alcance de todos, claro, e que lhe dá o direito de ser celebrado juntamente com a festa do nosso dia nacional (o 10 de Junho), ou não fossem Os (seus) Lusíadas uma epopeia sobre os Portugueses, com Vasco da Gama a representá-los. Li também sobre Camões e recomendo-vos hoje um livro intitulado Camões, Vida e Obra, de Carlos Maria Bobone, de que gostei imenso. Surpreende, por um lado, por ser uma espécie de não-biografia (dado que, quando se fala do Príncipe dos Poetas, quase nada está provado e as fontes são poucas e frequentemente contraditórias); e, por outro, pela cultura do autor que, ainda jovem, está incrivelmente bem informado e documentado e tem, de resto, teses bem interessantes da sua lavra sobre vários assuntos (a origem social, a natalidade, o temperamento, a obra, o tempo em que o poeta viveu). Leiam Camões e leiam sobre Camões. Em breve, falarei aqui também da excelente biografia de Isabel Rio Novo, mas ainda estou longe de a acabar.

Lourinhã

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É hoje, dia 13, que começa a 13ª edição de mais um festival literário, desta vez o Livros a Oeste, na Lourinhã, cujo responsável é de há muito o jornalista João Morales que cria uma programação dedicada a públicos distintos, incluindo crianças. Numa organização do Município da Lourinhã, este ano o mote do encontro é «A História é uma encruzilhada»; e, para falar da História com H e das suas consequências inescapáveis num momento tão difícil para o mundo, estão convidadas pessoas de muitas áreas e de muitos quadrantes políticos distintos. Debates com escritores, leituras de poesia, uma exposição de Miguel Januário, um concurso de contos, são algumas das actividades previstas até ao próximo dia 17 de Maio, data do encerramento do certame. O resto pode ser visto e consultado no link abaixo. Divirtam-se.


https://cm-lourinha.pt/menu/4733/livros-a-oeste-2025--festival-do-leitor


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Canções

Têm saído ultimamente muitos livros de canções. Numa colecção publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda cuja responsabilidade é de Jorge Reis-Sá, saíram, por exemplo, livros com as letras (completas ou escolhidas) de Rui Reininho, Carlos Tê, Miguel Araújo ou João Monge, autores com extensos repertórios de «song-writing» que vale a pena lermos com atenção, mesmo que na maioria das vezes os poemas ganhem vida com a música e a interpretação. Menos comum, porém, é um livro de canções que sai em vez do CD que esperaríamos... Não sei se me fiz entender, mas desta feita as canções só podem ser ouvidas ao vivo ou comprando o livro. Trata-se de Anónimos de Abril: Um Livro de Histórias Reais e Canções Originais, um projecto da autoria de José Fialho Gouveia, Joana Alegre e Rogério Charraz que pretende homenagear figuras como a da senhora que vendia cravos no 25 de Abril ou a de presos políticos que foram torturados para que a democracia enfim chegasse, mas cujos nomes poucos conhecem. São oito histórias que incluem um código QR que dá depois acesso às canções, cujas letras são de José Fialho Gouveia, que qualquer dia terá também o seu livro de letras, pois está a escrever para várias pessoas com grande sucesso. A edição é da Zigurate e permite-nos ouvir música enquanto homenageamos estes anónimos com a leitura.

Excerto da Quinzena

Era uma vez, numa grande floresta, uma pobre lenhadora e um pobre lenhador.


            Não, não, não, não, acalmem-se, isto não é o Pequeno Polegar! De modo nenhum. Tal como vocês, detesto essa história ridícula. Onde e quando já se viu pais a abandonarem os filhos por não terem o que lhes dar de comer? Vá lá…


            Nessa grande floresta, portanto, reinavam a fome e o frio. Sobretudo no inverno. No verão, um calor sufocante abatia-se sobre a floresta e expulsava o frio. A fome, pelo contrário, era constante, sobretudo naqueles tempos em que grassava a guerra mundial.


            A guerra mundial, sim, sim, sim, sim.


            Como o pobre lenhador fora requisitado para serviços de interesse público – para benefício unicamente dos vencedores que ocupavam cidades, aldeias, campos e florestas ‒, era portanto a pobre lenhadora que, da aurora ao crepúsculo, percorria a floresta na esperança, frequentemente frustrada, de encontrar com que prover às necessidades do seu magro lar.


            Por sorte – há males que vêm por bem –, o pobre lenhador e a pobre lenhadora não tinham filhos para alimentar.


            O pobre lenhador agradecia aos céus essa graça todos os dias. A pobre lenhadora queixava-se do facto, mas em segredo.


            Não tinha filhos para alimentar, é certo, mas também não tinha filhos para amar.


            Por isso, rezava aos céus, aos deuses, ao vento, à chuva, às árvores e até ao sol, quando os seus raios perfuravam o arvoredo, iluminando o matagal com uma transparência feérica. Implorava assim a todas as potências do céu e da natureza que lhe concedessem finalmente a graça da vinda de um filho.


 


Jean-Claude Grumberg, A Mais Preciosa Mercadoria, trad. de Luísa Benvinda

Um bebé que não chegou a Auschwitz

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Estreia hoje um filme de animação maravilhoso baseado num pequeno livro que publiquei há tempos chamado A Mais Preciosa Mercadoria. Esta maravilha foi escrita por um senhor francês chamado Jean-Claude Grumberg, que assistiu, muito pequenino, ao momento em que os nazis levaram o seu pai para o campo de concentração onde acabaria por morrer, facto que o inspirou a escrever uma história em que um bebé se salva de chegar a Auschwitz e é educado por um casal de lenhadores sem filhos. Michel Hazanavicius, o realizador, apaixonou-se por esta história e resolveu fazer, a partir dela, um filme de animação cujo trailer está já disponível no site da distribuidora Alambique. Algumas vozes são de actores muito estimados, como é o caso de Jean-Louis Trintignant, e o autor do livro é também co-autor do guião. Este filme pertence ao Plano Nacional de Cinema e é aconselhado pela Associação dos Professores de História porque o Holocausto faz parte da matéria desta disciplina e convém não omitir a sua história e até recordá-la para que não se repita. Deixo-vos amanhã um excerto para vos abrir o apetite.


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Palavrinhas

Estava a ler já não sei o quê e reparei que na mesma frase havia duas palavras muito semelhantes em termos gráficos: «revolver» e «revólver». A diferença é apenas de um acento agudo, mas de facto é muito maior do que eu esperaria. Como à partida não lhes encontrei grandes afinidades, fui ao Dicionário Houaiss ver as respectivas etimologias e surpreendi-me ao ver que o verbo «revolver» vem do Latim e que a arma com cano vem do inglês... Esquisito, mas é verdade. «Revolver», com o sentido original de «enrolar», «enroscar», «rolar para trás», acabou por ter sobretudo o significado de «remexer», «desarrumar» ou «agitar», enquanto «revólver» é simplesmente o nome de uma arma com um cano e um cilindro que rola (se calhar para trás) onde se introduzem balas. Talvez um corpo ou cabeça que levem um balázio de um revólver fiquem revolvidos, mas eu nunca diria que linguisticamente uma coisa não tinha nada que ver com a outra. Sempre a aprender.

Festivais

Esta semana Lisboa vai encher-se de debates e conversas sobre literatura. Ontem começou mais uma edição do Festival 5L, que decorre no Beato Innovation District (não conheço, mas fiquei curiosa, parece que é o espaço da antiga Manutenção Militar), com uma programação dedicada ao tema da Inovação: Utopia/Distopia. Destacam-se entre os convidados o vencedor do Booker Prize Paul Lynch (com o romance A Canção do Profeta, não perca), Lídia Jorge, Dulce Maria Cardoso, Ricardo Araújo Pereira e Amin Maalouf, mas haverá muito mais gente presente num certame que se estende até dia 11 e no qual se vai falar muito de Inteligência Artificial. A partir de dia 9, decorrerá também o Palavrio, festival literário organizado pela Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, que homenageia Saramago e Luiz Pacheco e conta com as participações de João de Melo, Djaimilia Pereira de Almeida, João Tordo, Jorge Reis-Sá, David Machado, Francisco José Viegas, Ana Bárbara Pedrosa e o mais novo Francisco Mota Saraiva, entre outros. No dia 10, Tiago Torres da Silva falará de fado na companhia da bela fadista Joana Amendoeira. E haverá à tarde uma mesa de poetas, que graças a Deus nunca são esquecidos nestes eventos. Boa semana, há muito por onde escolher.

Dia da língua portuguesa

Hoje é Dia da Língua Portuguesa. Uma língua riquíssima em termos de vocábulos, uma língua que é falada por milhões, uma língua que está em quatro dos cinco continentes, mas que, infelizmente, não tem a difusão que merece e não é falada por quase ninguém no mundo editorial, razão por que as traduções dos livros portugueses são ínfimas. Li num artigo que o que faz uma língua importante não é o número de falantes nem os países que a falam serem economicamente interessantes; a China, por exemplo, é uma potência económica e tem milhões de habitantes, e a sua língua não vale nada porque quase só é falada pelos próprios chineses. O que enriquece uma língua é ser língua de comunicação entre todos, é ser a segunda língua para a maioria dos habitantes do planeta. Nunca chegaremos ao sucesso do inglês... mas celebremos a nossa língua no dia do seu aniversário. Como? Ora, lendo livros portugueses!

O que ando a ler

Já falei aqui de certezinha absoluta do livro As Malditas, de Camila Sosa Villada, uma autora argentina travesti (a palavra é da própria) que deu recentemente uma entrevista ao Público e cujo romance de estreia (em espanhol Las Malas) é absolutamente imperdível e trata da vida de um grupo de travestis que se prostituem numa espécie de Bois de Boulogne. Este novo romance (Tese sobre Uma Domesticação) não é tão bom (era difícil, claro), mas vale a pena ser lido. Fala de uma actriz (hoje dizemos «trans», embora a autora continue a preferir «travesti») que se casa com um advogado homossexual (que nem percebe bem porque se apaixonou por ela e que tem os seus casos com homens de vez em quando); juntos, resolvem adoptar um menino de dez anos seropositivo, que desenha muito bem, mas a actriz tem dificuldades em manter uma vida familiar calma e normal, até porque o seu modelo de casamento (mãe e pai divorciados e um tanto brutos) não é o melhor e também porque está acostumada a uma vida bastante licenciosa e não resiste a uma queca extramatrimonial, seja com o encenador, seja com o carpinteiro que também não desdenha a mãe dela (há muito sexo neste livro, aviso). Veremos no que dá, neste momento estou a caminho de um fim-de-semana em família (com pais e meio irmão) que não me parece que vá acabar bem.