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A mostrar mensagens de março, 2017

Cegueira

Andava eu à procura de um poema de João de Deus na Internet (mais propriamente, «Ceguinha», texto que conheço desde a infância mas do qual a minha memória perdeu algumas quadras), quando o motor de busca me conduziu a uma página muito curiosa – na verdade, um site sobre a deficiência visual. Entre várias opções mais prosaicas, que se prendiam com a saúde dos olhos, uma delas indicava «Cegueira e literatura»; e, ao clicar, descobri uma extensa lista de obras literárias que de algum modo se relacionavam com o problema da cegueira: A Aventura de um Míope, de Italo Calvino, Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, A Colecção Invisível, de Stefan Zweig, A Sinfonia Pastoral, de André Gide (e que lindo que é este livro!) e outras coisas mais evidentes, como a autobiografia de Helen Keller ou a obra de António Feliciano de Castilho; e, bem entendido, também o poema de João de Deus que procurava. Mas há ali mais de 300 títulos, alguns ainda não traduzidos em português, livros de agora e de todos os tempos; e perguntei-me quem conseguiu coligir tantos livros que falam de cegos, têm cegos como personagens ou evocam, mesmo que apenas de raspão, a cegueira. E também pensei que, paradoxalmente, talvez os maiores interessados em lê-los sejam justamente os que não o podem fazer, o que é realmente muito injusto. Para quem queira consultar, aqui segue o link:


 


http://www.deficienciavisual.pt/r-Miseria&Ceguinha-Joao_de_Deus.htm


 

Bons enredos

Ao enviar-me mensalmente o seu «Abecedário do Leitor», o meu amigo Adolfo García Ortega ensina-me muitas coisas sobre livros e relembra-me outras tantas, algumas enterradas nos confins da memória. A última tinha que ver com um certo conto de Georges Perec chamado «A Viagem de Inverno» que li na saudosa Ficções, revista de contos dirigida por Luísa Costa Gomes que, infelizmente, deixou de ser publicada há muito. O enredo era fascinante: a história de um literato que encontra na casa de campo de uns amigos um livro de um escritor chamado Hugo Vernier, de quem nunca ouviu falar, e se sente imediatamente atraído pelas primeiras páginas; lê-o de ponta a ponta nessa noite, mas tudo aquilo lhe soa estranhamente familiar, chegando à conclusão  de que o texto é uma espécie de soma de versos de poetas famosos, como Lautréamont, Verlaine, Rimbaud e muitos outros. Põe a hipótese de Vernier ser um impostor, mas, ao consultar a sua biografia no volume que tem em mãos, descobre que nasceu muito antes dos «seus» poetas… Será então Vernier um génio desconhecido e plagiado por tantos grandes poetas que, por razões óbvias, nunca referiram o seu nome? O professor está obviamente interessado em saber mais, mas, quando se prepara para ir à biblioteca no dia seguinte, é levado de surpresa para um quartel (estamos em 1940) e só volta depois do fim da guerra (onde nunca esquece, porém, o assunto). Quando em 1945 tenta recuperar o livro – que não encontra em biblioteca nenhuma –, sabe que a casa dos amigos foi destruída pelos bombardeamentos… E, incapaz de cessar a investigação, acaba louco, internado num hospício. Embora a literatura seja sobretudo linguagem, como dizem alguns (e têm razão), quem consegue criar um enredo destes já tem a vida muito facilitada. Às vezes, os contos têm enredos bem melhores do que certos romances. E Perec consegue neste seu conto uma contenção que em certas ficções mais longas faz muita falta.

Fronteira

Entre hoje e dia 1 de Abril, realiza-se em Castelo Branco o Festival Literário Fronteira, segundo os seus organizadores, «para discutir o futuro e a esperança, o papel do público e o dos líderes, a forma como vamos relacionar-nos em sociedade daqui em diante, fazendo pontes com a literatura». Haverá debates, lançamentos de livros, entrevistas de vida, leituras de poesia, visitas a escolas e, claro, uma feira do livro, até porque muita gente vai querer autógrafos dos autores convidados, entre os quais se contam Álvaro Laborinho Lúcio, Fernando Pinto do Amaral, Kalaf Epalanga, Patrícia Portela ou Rui Cardoso Martins. Mas o ponto alto parece ser a sessão que juntará os actores Lídia Franco e Vítor de Sousa, que falarão dos muitos projectos em que participaram lado a lado e das suas memórias mais gratas na televisão e nos palcos. Se estiver por perto, não falte. A programação completa pode ser descarregada no link abaixo. Viva a descentralização.



https://mega.nz/#!1ZkF2CBL!BbeOwsmuk6e2v-qAKGK1WN9fdY4KCB-E7y0QDuSRUGg

Artes e Humanidades

A América culta ficou em choque quando Donald Trump propôs, recentemente, acabar com as agências de apoio às Artes e Humanidades e não as contemplar, pura e simplesmente, no orçamento. É o primeiro presidente a fazê-lo desde que estes apoios foram legislados por Lyndon Johnson, em 1965, que declarou que qualquer civilização desenvolvida deveria valorizar as artes e a cultura em geral. Era com uma «pequena» fatia (300 milhões de dólares) do orçamento que, há décadas, os museus compravam obras de arte e muitas instituições concediam bolsas a músicos, escritores, pintores e estudiosos. Mas, embora o Congresso tenha ainda uma palavra a dizer e nada esteja decidido, há gente boquiaberta em todos os quadrantes, até porque a filha de Trump é mecenas de artistas há muito tempo e a mulher do vice-presidente uma pintora. Os grupos que serão lesados fazem agora lobby junto dos Republicanos para que estes não votem na supressão destes agentes culturais; além do mais, alguns alegam que está em causa a preservação da própria história americana (há muitos museus que precisam de verbas para digitalizar cartas, fotografar uniformes, registar textos escritos relativos às guerras, etc.). Enfim, só o PEN Club já conseguiu 200 000 assinaturas numa petição para a conservação das agências, com a assinatura de muitos escritores de todo o mundo. Mas será que vai ajudar?

Cuidado com as palavras

As novas tecnologias favorecem uma comunicação demasiado rápida, mais reactiva e menos ponderada. Mas até um simples tweet ou um comentário no Facebook deve ser muito bem pensado antes de registado no mural. Um pequeno engano pode gerar uma autêntica desgraça para o seu autor – e, mesmo que ele dê pela calamidade e o oculte ou elimine, a verdade é que nuns segundos já poderá ter sido lido por muita gente. Uma autora de livros de cozinha do Reino Unido, chamada Jack Monroe (parece nome de homem, mas é uma mulher), que é também uma activista política e, ao que se diz, provocadora, ganhou recentemente um processo judicial que interpôs contra uma senhora que a terá difamado no Tweeter. Katie Hopkins, colunista digital, escreveu – em pouquíssimos caracteres, claro – que Jack Monroe teria sido vista a vandalizar um memorial de guerra quando, na verdade, tinha sido outra escritora a fazê-lo. Jack Monroe, que é parente de militares, sentiu-se ofendida, mas Katie, em lugar de se retractar, achou que um tweet era coisa insignificante e não pediu desculpa pelo engano. Resultado: teve de passar por um processo judicial que levou dois anos e foi condenada a pagar uma indemnização de 300 000 libras, embora Jack Monroe diga que não lhe guarda rancor e a queira convidar para jantar (mas Katie deve estar sem apetite). Bem, da próxima vez que escrever nas redes sociais ou até um comentário aqui no blogue, o melhor é pensar bem nas consequências antes de carregar na tecla ENTER. É que uma coisa destas, nos tempos que correm, pode acontecer a qualquer mortal.

Ir ou não ir?

Há algum tempo, depois de a Hungria anunciar que iria construir um muro para conter a entrada de refugiados, uma escritora convidada para um festival literário em Budapeste pôs a hipótese de desistir da sua participação por se encontrar nos antípodas dessa decisão. Estava, obviamente, no seu direito, embora os organizadores do dito festival pensassem muito provavelmente como ela e não devessem ser os mais castigados com a sua ausência. Num interessante artigo publicado no Guardian, diz-se que os activistas políticos tentam frequentemente convencer os escritores e artistas a boicotar determinados certames, enquanto os organizadores alegam que, se eles lá forem, há uma maior probabilidade de se debaterem questões fundamentais e de se denunciarem situações inaceitáveis. Por outro lado, também há quem acuse certos países de realizarem eventos considerados plurais, com gente de todo o mundo, só para fingirem que são abertos e liberais quando, no fundo, tudo não passa de uma fachada; mas um estrangeiro recusar um convite para falar num país em que os locais não podem abrir a boca não será colocar mais um tijolo na barreira à liberdade de expressão? Um filósofo inglês que fez várias palestras sobre liberdade de expressão num país em que há censura ficou a perguntar-se se valeu a pena e se o que disse terá tido alguma influência; e acha que não. Como decidir então nos casos em que os direitos humanos não são cumpridos no país que convida? Ir? Não ir?

Milhões por um livro

Num país do tamanho de uma ervilha, como é o nosso, um escritor não vai financeiramente longe (se sonhar com uma casa com piscina, claro), a menos que seja uma estrela televisiva ou consiga ser traduzido no mundo inteiro e vender muitos exemplares da sua obra. Fico, por isso, sempre bastante confusa, e a fazer contas de cabeça, quando, em certos livros norte-americanos (A Vida Amorosa de Nathaniel P., por exemplo) com escritores como personagens (muitas vezes principiantes, apenas com contos e poemas publicados em revistas), aparecem editores a oferecer-lhes adiantamentos que seriam impensáveis no nosso jardinzinho à beira-mar plantado (até referem o número de dígitos). Mas agora caiu-me nas mãos uma lista de obras que custaram milhões aos seus editores – e isto, creio, por terem oferecido a Obama e à mulher quantias astronómicas para escreverem livros. Eu própria publiquei em tempos cá em Portugal a autobiografia de Bill Clinton, mas desconhecia que ele tinha recebido 15 milhões de dólares à cabeça… E que o romancista Ken Follet, num negócio para uma trilogia, ganhou logo ali 50 milhões de dólares; e que João Paulo II (ou o Vaticano, sei lá) foi contemplado com 8,5 milhões de dólares em 1994… Imagino que a autora do Harry Potter também ganhe assim muito dinheiro e, quanto a esta última, talvez tenha feito bem em sair aqui da ervilha onde viveu tantos anos.


 


P.S. Hoje, se estiver na Figueira da Foz, haverá na Biblioteca uma conversa com os autores Isabel Rio Novo e Paulo M. Morais que promete ser interessante.

Escritores de canções

Apesar de Sérgio Godinho sempre ter insistido na expressão «escritor de canções», não costumamos considerar escritores aqueles que fazem letras e poemas para serem cantados. Mas a Academia Nobel, ao premiar Bob Dylan com o maior galardão que existe para a Literatura, mostrou que eles têm, afinal, tanto direito a serem denominados escritores como os que se dedicam à escrita de romances, poesia ou peças de teatro. Talvez por isso, foi divulgado com alguma pompa e circunstância na revista The New Yorker que a Biblioteca Pública de Nova Iorque ficará com o espólio de Lou Reed – e quem o anunciou foi a cantora Laurie Anderson, sua viúva, no dia em que Reed, se fosse vivo, faria 75 anos. Por aqui não creio que as nossas bibliotecas se interessem muito ou estejam preparadas para gerir o espólio de um músico: gravações electrónicas, registos em papel, pautas, vídeos e discos sem fim, além de objectos pessoais, fotografias, cadernos… Não temos um grande museu para a música e os músicos, e as nossas bibliotecas olham mais pelos espólios dos escritores à moda antiga. Mas talvez as coisas mudem com a introdução da expressão «escritor de canções» na nossa língua e com o Nobel da Literatura atribuído a um músico.

Mulher de escritor

Li um artigo muito interessante publicado no Dia da Mulher em jeito de homenagem às caras-metades de alguns escritores. Começava por dizer que não é fácil viver com alguém que carrega permanentemente dentro de si histórias e personagens, dedicando menos tempo do que seria desejável à realidade, e que depois passa por frequentes crises de vazio e depressão entre livros. Mas algumas das mulheres mencionadas no artigo não estiveram apenas a tratar da casa e dos filhos, ou a gerir as contas domésticas (também houve mulheres assim, claro); algumas estiveram mais ao lado do escritor do que à sua sombra e foram determinantes para o trabalho dos maridos. A mulher de Tolstoi, por exemplo, copiou nada mais nada menos do que sete versões de Guerra e Paz, e a de Nabokov, além de dactilografar e comentar os seus romances, era a sua motorista particular: levava-o à Universidade num Oldsmobile e ouvia as suas aulas entre os estudantes… Houve ainda tradutoras e editoras entre as mulheres de alguns escritores – a jovem mulher de Dostoiévski tê-lo-á, segundo se diz, ajudado a terminar o original de O Jogador. Nem todas, porém, tiveram a sorte de participar positivamente na vida dos maridos e houve quem tivesse até desistido da própria carreira – como a mulher de Hermann Hesse que, maltratada pelo marido e louca com as suas infidelidades, acabou por deixar de tocar (era pianista) e terminou os seus dias num hospital psiquiátrico.

Dias da poesia

Um dos segredos do sucesso da Feira do Livro de Lisboa, diz-se, é o facto de acontecer ao ar livre e permitir a quem passa pegar descontraidamente num livro, espreitar, ler algumas linhas, não ter – em suma – medo de mexer, o que nem sempre acontece no espaço mais fechado e formal de uma livraria. E, porque Março é mês de poesia (o Dia Mundial da Poesia comemora-se amanhã), a Casa Fernando Pessoa junta-se à freguesia de Campo d’Ourique e à Livraria Ler (no mesmo bairro) e organiza uma feira do livro de poesia no Jardim da Parada até amanhã, para que aqueles que ali passam (e são muitos) possam folhear e comprar poemas à sua vontade. Mas as novidades não ficam por aí, porque a poesia vai tornar Campo de Ourique um lugar propício para ler e falar de livros, estando previstas oficinas para crianças, música, visitas temáticas guiadas à Casa Fernando Pessoa, leituras de poesia e muito mais. Amanhã à noite, por exemplo, Amélia Muge dará a voz a Ondula como Um Canto, acompanhada ao piano pelo excelente Filipe Raposo. Mais informações no site da Casa Fernando Pessoa.

David Machado em grande

Hoje é dia de lançamento em Lisboa de Os Naufrágios de Camões, de Mário Cláudio, apresentado na Biblioteca Nacional por Manuel Alegre às 18h30 (apareçam). E, além disso, aqui na LeYa é também dia da nossa reunião mensal de apresentação das novidades de Abril ao departamento comercial, pelo que estou atarefadíssima e com o tempo muito contado. Mas queria dizer que estou muito contente porque um dos meus autores, David Machado, verá este ano o seu romance Índice Médio de Felicidade (que recebeu o Prémio Literário da União Europeia) adaptado ao cinema por Joaquim Leitão (a estreia está prevista para Julho) e será o autor português escolhido para integrar com um conto – «A Noite Repetida do Comandante» – uma colectânea intitulada Best European Fiction 2017, publicada pela editora norte-americana Dalkey Archive. Este ano, a tradução de Índice Médio de Felicidade foi também publicada nos Estados Unidos nas versões papel, e-book e audiobook e, para a Feira do Livro de Lisboa, sairá o novo romance deste autor que, entre outras coisas, fala de um tema extremamente actual: a violência no namoro. Fico feliz que a carreira de David Machado vá de vento em popa e agora vou a correr tratar da minha vida, desejando a todos um excelente fim-de-semana.


 


P.S. A partir de hoje, e até dia 22, realiza-se o festival Ronda Poética, em Leiria, com leituras, debates e outras actividades. Se estiver por lá, tem muito por onde escolher. Pode consultar a programação no seguinte link:


http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugues/noticiasEventos/Paginas/Ronda-Po%C3%A9tica-2017.aspx


 

Literatura russa

No próximo mês de Outubro comemora-se o centenário da Revolução Russa e é bem provável que a rentrée nos vá brindar com um bom número de livros sobre o assunto. Enquanto isso, Putin vai fazendo e dizendo das suas, até porque a Rússia, mesmo com o fim da Guerra Fria, nunca deixou as parangonas dos jornais – e nem sempre pelas melhores razões. Mas há coisas formidáveis vindas desse país frio, e a literatura é só uma delas. Quando perguntam a um escritor que obras reputa essenciais e imperdíveis ou que livros o tornaram leitor, a verdade é que não raro aparecem os nomes de Tolstoi ou Dostoievsky; mas ao lado destes também poderiam estar Gogol ou Turgeniev, Soljenitsine ou Tchekhov, Anna Akhmatova e mesmo o poeta Josef Brodsky, que se exilou nos Estados Unidos, começou a escrever directamente em inglês e acabou a ganhar o Prémio Nobel da Literatura. Hoje à tarde, na Bertrand do Chiado, Anabela Mota Ribeiro vai capitanear uma sessão da Ler no Chiado inteiramente dedicada à literatura russa e vão acompanhá-la Ana Matoso, que fez um doutoramento sobre Tolstoi, a russa Anastasia Lukovnikova, que estudou Ciência Política e Cinema, e ainda Helena Vasconcelos, crítica literária e leitora, entre outras coisas, dos escritores russos. É, como sempre, às 18h30 – e de certeza que se vai aprender muita coisa boa.

Menina e Moça

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Conheço esta «menina e moça» quase desde que nasceu. Foi, aliás, o seu pai – o professor António Manuel Baptista, a quem estarei eternamente grata – que me meteu no mundo da edição no longínquo ano de 1987; mas nessa altura nenhum dos dois (nem ele, nem eu) fazia a mais pequena ideia de que a Cristina Ovídio, que era a mais nova dos seus quatro filhos, também acabaria por ir parar ao mundo dos livros. E depois de ser editora muitos anos na Oficina do Livro e também na editora Clube do Autor, com a qual continua a colaborar como freelancer, a Cristina resolveu abraçar um projecto belíssimo de fazer inveja a todo o amante da leitura e de espaços para ler descontraidamente e comprar livros. Trata-se da nova livraria Menina e Moça, que é também um bar muito simpático, e fica no Cais do Sodré, em Lisboa. Decorada com excelente gosto (o tecto é da autoria do grande ilustrador João Fazenda) e cheia de fotografias de escritores espalhadas pelas prateleiras, é o local ideal para os leitores lisboetas se abastecerem de material de leitura e se sentarem logo numa mesinha a bisbilhotar as primeiras páginas. A Menina e Moça está aberta entre o meio-dia e as duas da manhã e promete em breve uma programação cheia de actividades de promoção da leitura. Não perca a ocasião de a visitar!


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Oceanos

É um oceano aquilo que evidentemente nos separa do Brasil; e a língua portuguesa, que tantas vezes achamos que também nos separa, vai agora unir-nos numa excelente iniciativa; o Prémio Oceanos (antigo Prémio Literário Portugal Telecom), ao qual até ao ano passado só podiam concorrer livros em língua portuguesa publicados no Brasil, passou há menos de uma semana a contemplar também todos os livros publicados em Portugal nas várias categorias a concurso. A sua curadora em Portugal será a jornalista Ana Sousa Dias. São boas notícias, claro, pelo valor e pela importância do galardão, já ganho, de resto, por alguns escritores portugueses, entre os quais Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe, embora com as edições brasileiras dos seus romances. O oceano vai também estreitar-se daqui a uns mesinhos, no momento em que abrir a Feira do Livro de Lisboa, pois o Pavilhão do Brasil, ausente do certame há meia dúzia de anos, vai regressar em força e dar um ar da sua graça entre 1 e 18 de Junho próximos (a feira este ano começa mais tarde). Tanto mar, tanto mar, mas afinal não tão difícil de navegar no que toca às letras.

Uma odisseia

Em inglês, Ulisses é Odysseus – e o Ulisses de James Joyce, ainda que hoje seja considerado em todo o mundo um dos grandes clássicos da literatura do século XX, passou por uma autêntica odisseia até ser publicado e reconhecido como tal. Há até quem diga que a história da sua publicação terá sido tão complexa como o processo de escrita a que o autor irlandês dedicou muitos anos da sua vida. Segundo leio num blogue espanhol, quem o conta é Kevin Birmingham numa obra que se lê como um verdadeiro livro de aventuras e que relata como Ulisses, depois de ser considerado imoral no Reino Unido e ter tido, por isso, enormes problemas de distribuição, foi proibido nos EUA por causa de certas leis anti-pornografia e objecto de contrabando, entrando no território pela fronteira com o Canadá ou camuflado por outros produtos em barcos que chegavam da Europa. A primeira edição americana foi, aliás, uma edição pirata (um editor atrevido que sabia que tinha muitos leitores interessados no título censurado) e só nos anos 1930 foi possível publicar o livro livremente na América, conseguindo a grande editora Random House, certamente com a ajuda de bons advogados, ganhar um processo judicial que mudou a perspectiva do livro que tinham alguns juízes. Para quem quiser espreitar esta odisseia do outro Ulisses, o livro de Kevin Birmingham, na tradução espanhola, chama-se El libro más peligroso: James Joyce y la batalla por Ulises.

Pecar

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Amanhã já deverá estar à venda em algumas livrarias (e até terça-feira nas restantes) o mais recente ensaio de Miguel Real, intitulado Nova Teoria do Pecado, sobre um assunto – o pecado, claro está – que, segundo a Bíblia, foi o início da nossa perdição (e tudo porque queríamos saber mais, comendo o fruto da árvore do conhecimento, o que hoje seria talvez razão para sermos elogiados). Mas este pequeno livro, na senda de outros do mesmo autor que formam já uma colecção (Nova Teoria do Mal, Nova Teoria da Felicidade, etc.), vai bastante longe, procurando os motivos pelos quais certos comportamentos foram considerados pecados pela Igreja e analisando as relações entre medo, culpa e poder, recuando até aos primórdios da História da humanidade. No final, reflecte também se nesta sociedade contemporânea em que vivemos (e que parece cada vez mais indiferente a tudo) ainda faz sentido falarmos de pecado ou castigo e se os muitos crimes que hoje se praticam pesam de facto nas consciências de quem os comete. Muito interessante, garanto.


 


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Ressacar

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Há quem adquira sentido de humor e uma alegria estonteante ao beber álcool, mas no dia seguinte é que são elas... Há também quem esteja de tal modo viciado em drogas duras que faça tudo (roubar, por exemplo) para que não lhe falte a dose seguinte, já que a ressaca acarreta, pelo que sei, dores insuportáveis. Nada disto se pode comparar, obviamente, com o vício da leitura; mas leio num blogue chamado Liprópatas que há gente que tem verdadeiras ressacas depois de ler determinados livros de forma intensa e intensiva. Começa logo porque o livro fatalmente tem um fim (presumo que o medo de que acabe seja uma pré-ressaca) e depois surge uma espécie de vazio (é ainda cedo para o substituir e, por isso, existe a tentação de voltar a ele e reler ou sublinhar as partes de que mais se gostou). Mas os efeitos secundários desta ressaca de leitura incluem também procurar todas as informações disponíveis sobre o autor na Internet, comprar todos os seus livros e, inclusivamente, tentar contactá-lo nas redes sociais e em clubes de fãs para exprimir opiniões pessoais e fazer elogios... O blog aconselha, para minimizar a ressaca, procurar um amigo que tenha lido o mesmo livro e falar com ele sobre a experiência. Se pensarmos naquele romance de Stephen King que deu origem a um filme – Misery –, facilmente concordaremos que o escritor deve ser deixado de fora das nossas ressacas.


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Livro-retrato

Será que as nossas bibliotecas dizem realmente quem somos? Quantos dos livros que temos na estante foram efectivamente lidos por nós? Quantos estarão lá apenas porque alguém no-los ofereceu (e não estou a pensar em presentes dados por amigos e familiares que julgam, pelo menos, conhecer-nos, mas nessa grande quantidade de obras que nos vêm parar às mãos em festivais, congressos, bibliotecas públicas, câmaras e muito mais sem, na verdade, o desejarmos). É possível traçarem-nos um retrato fiel pelos livros que guardamos em casa? Bem, depois da morte de Doris Lessing, que recebeu o Prémio Nobel da Literatura, Nick Holdstock foi convidado a organizar a sua biblioteca (4000 volumes!) e, ao contrário do que esperava, o caos que encontrou não definia a sua proprietária: ela tinha de tudo, e muito desarrumado – filosofia ao lado de ilusionismo; mesmo na cozinha, havia muito mais do que livros de culinária, nomeadamente uma obra sobre os gulags na Albânia que não poderia certamente ser tida por uma receita saudável. Além disso, os livros não tinham praticamente vestígios da Doris Lessing leitora: nem cantos dobrados, nem sublinhados, nem mesmo o nome dela no frontispício, ainda que trouxessem frequentemente a marca dos seus autores em dedicatórias (de Raymond Carver, Alberto Manguel, Allen Ginsberg, entre outros). Nick Holdstock pensava que, ao folhear os exemplares, encontraria anotações importantes que queria seleccionar para um possível futuro biógrafo de Lessing, mas as voltas saíram-lhe trocadas... Agora, que o Manel e eu decidimos reunir as nossas duas bibliotecas para nos livrarmos dos repetidos e arranjarmos espaço para o que ainda virá, é que já ninguém nos poderá tirar o retrato como leitores.

Camões no Porto

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Uma das coisas que mais admiro no escritor Mário Cláudio é a sua generosidade. Ao contrário de muitos outros autores consagrados, que não lêem nada das gerações que se lhes seguem, Mário Cláudio disponibiliza-se frequentemente para ler as obras de jovens e principiantes e lhes dar a sua sincera opinião (outra virtude, porque não é pessoa para mentir). Foi, de resto, por ter lido o texto de uma autora que considerou merecedora de uma boa chancela editorial para os seus escritos que me encaminhou há tempos um romance de Isabel Rio Novo. Na altura, eu tinha tanta coisa para ler que, enquanto as costas não folgassem, como diz o ditado, sugeri à Isabel que concorresse ao Prémio LeYa – e o seu romance (Rio do Esquecimento) acabou por ser finalista nesse ano. Mário Cláudio ficou contente por ver que não era o único a reconhecer o talento desta escritora – e agora decidiu ir ainda mais além, convidando-a para apresentar no Porto o seu Os Naufrágios de Camões, recentemente publicado. Não era qualquer escritor firmado que escolheria para apresentar livro seu uma escritora não muito conhecida e com obra ainda relativamente escassa. Tiro-lhe o chapéu, claro, e aproveito para convidar todos os que estão perto da Invicta para vir ouvir este par logo à tarde, num lugar muito bonito, a condizer com a literatura.


 


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O rato do campo e o rato da cidade

O título deste post é o de uma fábula que li na infância; e veio-me à cabeça por causa de um artigo publicado no Diário de Notícias sobre escritores que se afastaram da cidade e migraram para a "província". É sabido que, por exemplo, Alexandre Herculano, decepcionado com o rumo que a nação tomava, se exilou em Vale de Lobos e resolveu dedicar-se à agricultura; o mesmo fez o brasileiro Raduan Nassar, vencedor da mais recente edição do Prémio Camões, que escreveu três pequenos livros admiráveis e logo se recolheu numa fazenda. Mas, embora alguns autores que vivem longe da capital se queixem que é por isso mesmo que têm menos atenção da crítica e do público, hoje há muitos escritores activos que moram longe das grandes urbes – e não é por isso que perdem notoriedade. Sai-lhes seguramente mais barato (é o que diz o poeta Miguel Manso, que se mudou para perto da Sertã) e, quando precisam de parar para resolver alguns problemas das suas narrativas, o ar livre e a ausência de barulho e poluição tornam-se bastante mais agradáveis e inspiradores (é o que diz Luísa Costa Gomes a respeito dos quilómetros de areal que tem como vizinhos todo o ano). Com as estradas modernas e as comunicações sofisticadas, é hoje muito mais fácil viver fora dos grandes centros e não perder com isso. Mesmo assim, todos os entrevistados do artigo – Joel Neto e Afonso Cruz, além dos já mencionados – já viveram em Lisboa e foi aí, provavelmente, que o seu nome se firmou.

Porquê sozinho?

Ler é uma actividade solitária, é um facto. Claro que se pode ler em voz alta para alguém que não vê, ou até em grupo, numa aula de Língua Portuguesa, lendo um texto a várias vozes. No entanto, para uma leitura atenta requer-se algum recolhimento. E, porém, se há pessoas que não gostam de ir ao cinema sozinhas – por não terem depois com quem trocar impressões sobre o filme –, agora também há muitas maneiras de ir ter com alguém para discutir um livro que se acabou de ler. A revista Time Out/Lisboa publicou, de resto, uma lista de clubes e comunidades de leitura espalhados pela cidade. Parece que o mais antigo destes clubes se chama Missa e tem como objectivo falar sobre a Bíblia, mas há muitos mais. As livrarias (Leituria, Ler, Almedina...) têm quase todas actividades relacionadas com a leitura e debate à volta dos livros, bem como algumas instituições (a Culturgest, por exemplo) que todos os anos organizam comunidades de leitores que se debruçam sobre livros relacionados com temas específicos. Além delas, porém, alguns bares (Povo, A Viagem, Titanic sur Mer...) oferecem também agora a possibilidade de ler poesia ou falar de livros em vez de beber e dançar (ou ao mesmo tempo). Assim, se está desesperado por falar com alguém acerca do que leu, não fique sozinho: escolha o lugar que lhe parecer melhor.

Em desuso

Já há muito tempo que não dedicava um post a palavras ou expressões que caíram ou estão a cair em desuso; e foi porque o Manel chamou a alguém à minha frente «rapioqueiro» – aplicável a quem gosta de folia – que, de repente, me lembrei do assunto e resolvi recolher alguns termos de que gosto e já raramente ouço por aí.  Os sinónimos apresentados para «rapioqueiro» no Dicionário Priberam são, de resto, quase todos pouco correntes nos dias de hoje, como «pândego», «patusco» (que gosta de «patuscadas»), «gaiteiro» ou «farrista». O «pândego», vocábulo que a minha avó usava frequentemente para designar alguém que fazia rir e se sabia divertir, levou-me a outros com que ela me definia em criança e que acho estarem também a desaparecer, pelo menos da boca dos mais jovens: «rabina», «arisca», «diabrete», «mafarrica» e «levada da breca». Esta última expressão era utilizada por ela não só com o sentido de «travesso» ou «irrequieto», mas também com a acepção de «desembaraçado» ou «despachado». Aos saloios, a minha avó chamava «pategos» – já não ouço ninguém dizer isto há que tempos, mas o termo constava daquele excerto do Júlio Dantas que mostrei aqui no blogue há dias; e também se servia de uma palavra que aprecio muito – «ratatinhado» –, que nenhum dos dicionários que consultei regista (com muita pena minha), referindo-se a coisa mal feita, apressada, atamancada ou a uma roupa que devia ser o número acima. Acrescento ainda a palavra «cotomiço» (alguém pequeno) e a expressão «já a formiga tem catarro» (esta ainda se usa, creio, mas é um achado). E, por hoje, é isto.

O que ando a ler

Ando a saltitar entre dois livros, curiosamente da mesma editora e ambos com belíssimas capas. O primeiro foi-me oferecido pela sua tradutora, Maria do Carmo Figueira, no Natal passado, e escreveu-o uma nigeriana – Helen Oyeyemi – que tem uma frescura e uma imaginação difíceis de encontrar. Chama-se O Que não É Teu não É Teu e é uma colectânea de contos, alguns bastante longos, todos eles relacionados com chaves (ou fechaduras) que, como a contracapa anuncia, são um «convite à descoberta de um universo onde a beleza poderá existir». E existe – pelo menos no fraseado original e no delírio às vezes um pouco «latino-americano» da sua autora, que é seguramente um nome a reter e a acompanhar. Entre um conto e outro, espreito também A Avó e a Neve Russa, do português João Reis (também ele tradutor, e de gente bem respeitável como Knut Hamsun), um ainda jovem escritor que nos oferece – até onde li, umas cinquenta páginas – uma narrativa cheia de ternura e  humor sobre a relação entre um menino de dez anos (o narrador) e a sua querida Babushka, a avó russa que foi vítima do desastre nuclear de Chernobyl e alguns anos depois, a residir no Canadá, continua a sofrer as sequelas do acidente na forma de uma tosse persistente que não prenuncia nada de bom. Acho que vou continuar assim, a entremear ambos os livros, até chegar ao fim de um deles. Para já diria que os dois valem a pena!