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A mostrar mensagens de outubro, 2016

Futuro

Começa amanhã o Fórum do Futuro, um festival internacional dedicado ao pensamento, que se realiza anualmente com a organização do Pelouro da Cultura do Município do Porto e reúne convidados de variadíssimas proveniências e disciplinas para reflectirem sobre os problemas da sociedade contemporânea. Com eventos espalhados pela Casa da Música, o Museu de Serralves e o Teatro Rivoli, entre outros, este ano o tema será «Políticas e Humanidades» e as sessões prometem ser profundas e interessantes (além de gratuitas, bastando apenas levantar os bilhetes com antecedência). Teremos, por exemplo, a oportunidade de ouvir o cardeal Ravasi sobre Deus, o escritor Tahar Ben Jelloun sobre o estado do mundo e a ameaça terrorista, o cineasta Joshua Oppenheimer, autor de um documentário sobre os sobreviventes do genocídio indonésio dos anos 1960, sobre o dever de não esquecer. Falar-se-á ainda de clima, de guerra, de arquitectura, de refugiados, do papel dos negros na História e de muito mais. Richard Zimler vai entrevistar a escritora Ali Smith e todos os moderadores são gente de respeito. Aproveite, não é todos os dias que há um programa tão suculento! Programação completa aqui:


 


http://forumofthefuture.com/

Cinco séculos à mesa

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Como vamos todos de fim-de-semana (grande, no meu caso), deixo-vos um livro para se deliciarem durante os próximos dias (em que há mais tempo para cozinhar), intitulado Cinco Séculos à mesa e assinado por uma especialista em História da Alimentação, Guida Cândido. A identidade da cozinha portuguesa, os pratos nacionais e regionais, são relativamente recentes em termos históricos. Mas, embora as práticas gastronómicas, os gostos culinários e as técnicas de confecção dos alimentos tenham evoluído ao longo dos tempos, muito do que comemos hoje é herança de um passado remoto, pelo que é possível, em pleno século XXI, preparar uma receita com quinhentos anos e saboreá-la em nossa casa. Este é o propósito da obra que vos trago; apresentando-nos o caminho traçado pela História da Alimentação, propõe que peguemos em cinco obras clássicas de culinária entre os séculos XV e XX e recriemos nas nossas modernas cozinhas uma bateria de cinquenta receitas deliciosas, incluindo entradas, pratos de peixe e carne, sobremesas, refrescos, e muito mais. O livro é prefaciado pelo chefe Hélio Loureiro. Tenham um saborosíssimo fim-de-semana!


 


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Escada para um romance

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Em Istambul, confluência de mundos, uma estranha escada desperta a atenção de Tiago Salazar, conhecido sobretudo como escritor de viagens; e ele decide ir atrás da sua história, que se confunde com a extraordinária saga dos seus construtores, presenteando-nos com o seu primeiro romance. Conhecidos como os «Rothschild do Oriente», os judeus Camondo erraram pela Europa até se instalarem em Istambul, onde viriam a tornar-se banqueiros do sultão e grandes filantropos. Abraham-Solomon, o patriarca, era o judeu mais rico do Império Otomano e combateu a maldição do judaísmo na Turquia fundando escolas que respeitavam todos os credos e legando ao filho e aos netos a importância da caridade e do mecenato. Já em Paris, o seu bisneto Isaac, amigo dos pintores impressionistas, doaria ao Museu do Louvre mais de cinquenta quadros de Monet, Manet e Degas; e o seu primo Moïse abriria um museu que ainda hoje pode ser admirado e visitado na capital francesa. E, porém, apesar do seu poder e da sua influência, poucos conhecem a história desta família magnânima... O mistério explica-se: sobre a dinastia Camondo abateu-se uma fatalidade – a sua fortuna e o seu sangue eclipsaram-se nos campos de Aushwitz. Em A Escada de Istambul, Tiago Salazar resgata do esquecimento várias gerações desta memorável família e compõe, a partir de factos e documentos reais, uma ficção na qual ele próprio deambula como personagem. (A foto abaixo é do grande Cartier Bresson.)


 


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Livros de estreia

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Já me tinham convidado de outras vezes, é certo, mas as datas propostas nunca me davam jeito no meio de tantos trabalhos e de viagens que tenho de fazer para lançamentos e apresentações dos livros que publico. Ao fim de sei lá quantas tentativas, consegui, mesmo assim, arranjar uma abertazita. Trata-se de participar numa sessão na Casa da Escrita, em Coimbra, onde se realizam regularmente sessões sobre o primeiro livro – o princípio de uma carreira literária, portanto – de um dado escritor. E desta vez calhou-me a mim: ouvir, primeiro, Teresa Carvalho falar de A Casa e o Cheiro dos Livros, o meu primeiro livro de poesia, publicado quando já tinha 36 anos; e, depois, decerto dizer eu alguma coisa, ou ler, ou discordar, ou contar como foi. É logo mais, às 18h00, na Rua João Jacinto, n.º 8, em Coimbra. Se estiver por perto, apareça. Dizem que o lugar é bem bonito.


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As senhoras

Falei aqui ontem dos atributos das raparigas – e hoje o post, embora enviesadamente, também tem que ver com elas. Há cerca de um mês, li a notícia boa de que dois autores portugueses tinham sido seleccionados para o Prémio Femina em França (a primeira selecção incluía 14 romances traduzidos). Este é um prémio instituído há mais de cem anos, mas só contempla romance estrangeiro desde 1985, tendo sido ganho, por exemplo, em 1990, por Vergílio Ferreira com o romance Manhã Submersa. Os dois candidatos portugueses deste ano, Valério Romão e Gonçalo M. Tavares (que, por acaso, já foi finalista em 2010), concorrem, respectivamente, com as obras Autismo e Matteo Perdeu o Emprego. Na passada sexta-feira, chegou a segunda boa notícia: os dois passaram à final, ou seja, dos 14 romances seleccionados agora ficaram só 5, e 2 deles são de portugueses! Os concorrentes são romances de Rabih Alameddine, Petina Gappah e Edna O’Brien, e o prémio será anunciado hoje, pelo que peço que torçam todos pelos nossos para ver se funciona. E, afinal, que tem isto a ver com as senhoras? Ah, bom, é que – tal como o nome indica – no júri do Prémio Femina só há mulheres. Espero que elas gostem dos nossos rapazes.

Miúdas versus Rapazes

Um dia, num belíssimo filme de James Ivory, ouvi Vanessa Redgrave (já não recordo o nome da sua personagem) dizer que, se as mulheres mandassem no mundo, haveria muito menos guerras porque elas não quereriam que os seus filhos combatessem e fossem mortos. Serão as mulheres diferentes dos homens a esse ponto? Não fui mãe, mas tenho sete sobrinhos, cinco dos quais são raparigas. Observando-os aos sete ao longo do tempo, sou obrigada a concluir que elas foram sempre mais desembaraçadas, mais desenrascadas, mais auto-suficientes, menos dependentes. Souberam inventar formas de fazer dinheiro para poderem viajar, distribuindo panfletos e sentando convidados VIP em estádios de futebol durante o Euro ou estacionando carros em eventos internacionais como o Open de Ténis do Estoril. Eram (e as mais pequenas serão ainda possivelmente) mais senhoras de si, mais autónomas, mais fura-vidas. Li que actualmente há mais mulheres do que homens a entrarem nas nossas universidades; e, quando dão notícias sobre equipas de pesquisa médica e científica por esse mundo fora que descobrem curas e fazem outras conquistas notáveis, não raro estão nelas várias mulheres. Também as estatísticas confirmam que Elas lêem muito mais do que Eles. Um dia destes, li até a estranha notícia de que no Reino Unido os pais gastam menos 25% em livros para os filhos do que para as filhas, porque os rapazes preferem outros brinquedos. Ora, se os rapazes deixarem de ler, cuidem-se: as raparigas vão mesmo tomar conta do mundo…

Para variar

Este é um blog que fala sobretudo de livros e de edição, mas, para variar, vou hoje falar-vos de um filme, até porque sei que, ao fazê-lo, não estou a sair da minha zona de conforto. Na verdade, o filme trata de livros… e de edição, claro, e em várias passagens – salvaguardadas as distâncias, bem entendido – recordou-me o meu trabalho quotidiano e algumas das vicissitudes deste belo, mas às vezes tão duro, ofício. Trata-se de Um Editor de Génios, realizado por Michael Grandaje, que conta a história da relação entre Max Perkins (o grande editor da Scribner que deu à estampa autores tão grandes como Hemingway e Scott Fitzgerald) e o escritor Thomas Wolfe (não confundir com o autor de A Fogueira das Vaidades) desde o final dos anos 1920 até à morte deste, em 1938. As duas personagens (papéis desempenhados por grandes actores como Colin Firth e Jude Law) são quase antagónicas, mas criam-se entre ambas laços apertados e até uma certa dependência, uma vez que o escritor é demasiado prolixo e é preciso reduzir milhares de páginas adjectivadas e metaforizadas que escreveu a um volume mais conciso e legível, o que sem o editor não é tarefa fácil. Mas estes laços e estes cortes são apenas uma parte das cisões e das ligações desta história que interessará seguramente a todos os que gostam de livros. A ver, evidentemente.

A rapariga e o pintor

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Eu bem sei que já aqui falei de Adoração, de Cristina Drios (e não há muito tempo), mas há razões para que volte à carga. O livro sobre esse pintor maravilhoso que ficou conhecido por Caravaggio (na verdade o seu nome próprio era Miguel Ângelo, mas Miguel Ângelo já havia um) e um dos seus quadros (Natividade com S. Francisco e S. Lourenço, conhecido por Adoração) vai ser apresentado logo à tarde, pelas 18h30, na Livraria Buchholz por Luís Carmelo. Estão todos obviamente convidados para este lançamento, mas, não podendo ir, não falhem a leitura deste irresistível romance que cruza duas épocas e nos traz algumas personagens que ficam connosco até muito tempo depois de acabado o livro, como o agente Salvatore Amato (tentem traduzir este nome; surpreendente, não?), Antonia Rei, uma rapariga perdida, ou o duque de Nottetempo, figura que seria digna de um Fellini, mas também de um Visconti (perceberão se lerem Adoração). Então, aparecem? Ainda por cima há música!


 


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Desmancha-prazeres

Quando Elena Ferrante começou a escrever livros, pôs ao seu editor como condição para os publicar não ter de aparecer em lado nenhum, alegando que era a obra que importava, e não a pessoa que a escrevia. Deu, é bem certo, algumas entrevistas por e-mail ao longo dos anos, mas ninguém sabia quem era Elena Ferrante, embora houvesse dados que configuravam uma mãe, uma napolitana, uma professora com formação em Clássicas. O sucesso que obteve com a tetralogia A Amiga Genial (ainda não li o último, está em fila de espera) estragou, porém, os seus planos; atraído ele próprio pelo sucesso que representaria a descoberta da real identidade da famosa Ferrante, um jornalista decidiu ir atrás dos rastos da escritora e publicou um artigo em que revela que se trata de uma tradutora chamada Anita Raja, filha de uma alemã que foi para Itália a fugir do Holocausto, casada – isso, sim – com um escritor napolitano que algumas pessoas já tinham pensado ser o autor por detrás do pseudónimo. Para tanto, chegou ao ponto de investigar os dinheiros que saíam da editora para pagar trabalhos a Anita Raja (era demasiado dinheiro para uma simples tradutora) e inventariar bens e casas cada vez maiores e mais bem situadas pertencentes ao casal (um escritor e uma tradutora não costumam ter casas assim tão boas). Embora todos nos perguntássemos quem era a Ferrante, chego à conclusão de que o maior gozo era mesmo não o saber. Porque senti a revelação como um acto de um desmancha-prazeres, além, claro, de uma clara devassa da vida privada (mas sobre isso já muitos falaram). Há, porém, quem defenda que é obrigação do jornalista investigar – e que não devemos criticar, portanto, o autor da descoberta, que fez apenas o que lhe compete. Seja como for, eu preferia não ter sabido a verdade. Não há nada como um bom mistério.

Tristes reformas

Leio num jornal que os novos governantes do Brasil vão fazer reformas profundas no ensino médio. Infelizmente, pela voz do jornalista, parece-me que o país se vai virar para um ensino mais técnico e menos abrangente, privilegiando áreas ditas técnicas e científicas e suprimindo a obrigatoriedade do estudo da filosofia e das artes. Os alunos terão uma carga horária muitíssimo superior – passará das actuais 800 horas anuais para as 1400 (nem vão ter tempo para brincar os pobres) – justificada pelo facto de que, só estando na escola a tempo inteiro, com horário de profissional, o aluno terá possibilidade de aprofundar (e se especializar) em uma de cinco áreas: «linguagens [línguas?], matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica e profissional.» Pois, mas então porque é que, mesmo com tanto tempo passado dentro da escola, desaparecem dos programas a filosofia, a sociologia, as artes e a educação física, que passam a ser apenas disciplinas opcionais? Cá para mim, a mudança traz água no bico – e ensinar a pensar deixou de ser uma coisa boa, tal como dar largas à criatividade dos estudantes. Por todo o lado o mesmo, enfim. Tristes reformas.

Estranheza

Consta que a decisão do Prémio Nobel da Literatura se atrasou uma semana em relação ao previsto por ter havido desacordo entre os membros do júri. Disse-se também que talvez tivessem escolhido alguém que se presumia iria recusar o galardão e não queriam repetir o episódio de Sartre; disse-se até que o escolhido morrera desde a primeira reunião e que tinham tido de buscar outro nome; disse-se que.. que.. que… Depois de saber quem arrecadou o prémio, imagino que não tenha sido fácil pôr os jurados todos a acreditar que Bob Dylan seria uma boa ideia. Quando Woody Allen escreveu o seu primeiro livro, um crítico literário americano desapontado referiu: «Could you stick to movies?» Talvez esse mesmo crítico concordasse, porém, que muitos dos scripts de Woody Allen são geniais, mas são geniais porque andam à boleia da imagem, lidos de per si não constituem decerto obra literária. E, porém, já me estou aqui a perguntar se um bom guionista de cinema ou televisão, um bom libretista de ópera ou da Broadway, não poderá no futuro ser agraciado com o Nobel da Literatura… Chamem-me bota-de-elástico. Não me importo. Eu, que por acaso até escrevo letras para canções e fados, não concordei com a escolha de Bob Dylan no passado dia 13. Por muito belas e profundas que sejam as suas canções, são isso mesmo, canções: texto + música (e ainda interpretação). Não creio que o texto sem a música se aguente e estou convencida de que, se Dylan nunca tivesse cantado os seus textos (poemas, para quem prefira), não teria ascendido à condição de poeta respeitável e nobelizável. A poesia de outros que foram anteriormente premiados – Seamus Heaney, Brodsky, Eliot, Quasimodo, Neruda, só para citar alguns – tem uma música intrínseca, diferente de caso para caso, que não precisa de nenhuma outra música para o texto brilhar. Ter a bengala de outra arte – a música, o cinema – para valorizar um texto é, de algum modo, diferente de se ser puramente escritor. Chamem-me chata. Não me importo.

Contra a violência doméstica

Dizemo-nos um país de brandos costumes, e é bem verdade que em Portugal ainda se respira com segurança e até se pode caminhar por muitos dos bairros da capital sem perigo nem sensação de ameaça. E, porém, todos os anos morrem cada vez mais mulheres, assassinadas por maridos, ex-maridos e namorados, sendo os números das que não morrem mas são igualmente vítimas de violência doméstica também cada vez maiores. Ana Cristina Silva, de quem publiquei vários livros nos últimos anos, o mais recente dos quais A Noite não É Eterna, escreveu em 2003 A Mulher Transparente, um romance que se encontrava esgotado havia muito e que relata justamente a vida de uma mulher marcada pela brutalidade de um homem que sobre ela exerce um poder absoluto. Agora, com prefácio da Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Catarina Marcelino, o livro, reescrito pela autora, foi oportunamente reeditado. Apresentado no ISPA no final do mês passado pela escritora e procuradora da República no Tribunal de Família e de Menores Julieta Monginho, os seus direitos revertem integralmente para a APAV. Vamos colaborar?

Húmus

Em Março do ano que vem – mais exactamente no dia 12 – comemoram-se 150 anos do nascimento do grande escritor Raul Brandão. A belíssima cidade de Guimarães prepara para esse mês um festival literário em torno da figura e da obra do autor de Húmus, mas já começou, na verdade, a festejar o escritor em Abril deste ano com sessões várias na Biblioteca Municipal Raul Brandão, na qual confrades e estudiosos se debruçam sobre o mestre, que também foi jornalista e morreu em Lisboa em 1930. Depois de Pedro Vieira, Bruno Vieira Amaral, Afonso Cruz, João Tordo ou José Luís Peixoto, é hoje a vez do poeta e crítico Pedro Mexia participar da actividade «Escritor no Concelho», durante a qual terá oportunidade de falar da sua leitura de Raul Brandão, mas também de conversar sobre o seu próprio percurso literário. Eu gostaria de ir, mas estarei no Porto para o lançamento na Invicta de Uma Parte Errada de Mim, de Paulo M. Morais, que desta feita contará com a apresentação do escritor João de Melo na FNAC de Santa Catarina. Até amanhã!

Adorável

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Descrito pelo duque de Nottetempo, seu contemporâneo, como «um brigão, um arruaceiro», o pintor Caravaggio passou uma curta temporada na Sicília em 1609, aguardando o indulto papal para um crime de sangue que cometera em Roma. Nesse período, pintou uma tela que ficaria conhecida por A Adoração e que esteve no Oratório de S. Lourenço, em Palermo, até ser roubada em 1969, ano em que nasceria uma menina chamada Antonia Rei. É essa mesma Antonia que, em 1992, testemunha um homicídio perpetrado pela máfia numa praça da cidade, onde é interrogada pelo comissário Salvatore Amato, que acaba por contactar alguns dias mais tarde. Mas não é curiosamente sobre o assassínio que lhe quer falar, antes sobre o roubo do famoso quadro... Oscilando entre épocas afastadas no tempo, entre a história fascinante da pintura d’A Adoração e a da investigação de Salvatore Amato num dos mais violentos períodos da acção da máfia, este novo romance de Cristina Drios (finalista do Prémio LeYa com Os Olhos de Tirésias), intitulado Adoração, recorre aos jogos de espelhos que Caravaggio usava nas suas pinturas para atrair ao mesmo vórtice de luz e trevas as vidas de um leque de personagens cativantes, mortas ou vivas, mas todas misteriosamente condenadas ao desencontro. Adorável, em suma.


 


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Clássicos com novo look

Com tanto livro a ser publicado todos os dias, e os autores disponíveis para conversas, debates e autógrafos, não é lá muito fácil aos escritores mortos sobreviverem (perdoem o paradoxo). Há, porém, maneiras felizes de os trazer de volta à leitura – e leio no Guardian que as vendas de alguns clássicos (David Copperfield, de Charles Dickens, ou Guerra e Paz, de Tolstoi, por exemplo) subiram 10% no último ano pela simples razão de terem sido objecto de novas adaptações televisivas, convocando leitores e também muitos «releitores» para as obras. Mas há inúmeros livros que não tiveram a sorte de chegar ao grande ou ao pequeno ecrã, pelo que os editores britânicos tiveram de recorrer a outros expedientes e gastar tempo e dinheiro a adivinhar o que a nova geração – que pode ler no ecrã do telemóvel o e-book, e frequentemente de graça – procura realmente num clássico em papel. Prefácios e apresentações dos textos por gente com gabarito? Formatos agradáveis, fáceis de folhear e transportar? Bonitas ilustrações no interior e na capa? Colecções de sonho que toda a gente quer ter nas estantes? Livros subdivididos em vários livros menores? Um editor da Penguin Classics diz que a edição das poesias completas de Emily Brontë vendia algumas centenas de exemplares por ano, mas desde que publicaram uma selecção dos poemas com 80 páginas já venderam 30 000... Por outro lado, o director de arte da Penguin acha que algumas capas podem intimidar certos leitores e, embora as antigas continuem em circulação, «refrescou» o ar clássico, esperando atrair um novo público. Parece que agora a competição não pára e que os mortos estão a regressar às estantes a toque de caixa...

Esperança na humanidade

Parece-me que o mundo se está a tornar um lugar onde não apetece lá muito viver e que a leitura se está a transformar numa actividade cada vez mais restrita quando, no fundo, deveria ser o contrário. E, no entanto, de vez em quando surge uma história milagrosa que me enche de esperança. Desta feita, foi a de uma menina de 11 anos num bairro pobre de São Paulo que descobriu muito cedo o gosto pela leitura e promoveu uma campanha para construir uma biblioteca no quintal da casa a fim de contagiar os vizinhos com a sua paixão. Publicou um vídeo na Internet, que foi visto por um grande empresário, através do qual recebeu uma doação de cerca de 5000 livros (dos quais – pasme-se – já leu mais de 500!). A sua casa está sempre cheia de crianças (que têm de passar pela cozinha para chegar à biblioteca), mas a família já se habituou ao rebuliço e sabe que é por uma boa causa, pelo que não refila. Kaciane – assim se chama a menina – diz que sempre gostou de brincar às escolas e que não vai ficar por aqui, planeando para breve uma biblioteca itinerante, que leve livros a outros bairros desfavorecidos, porque a leitura é fundamental e necessário que os livros cheguem a todos. Estamos precisando de mais Kacianes por esse mundo fora...

No Japão

Valter Hugo Mãe (Prémio Saramago com O Remorso de Baltazar Serapião) está de volta com um novo romance intitulado Homens Imprudentemente Poéticos. Passa-se num Japão com perfume antigo e conta a história de dois homens – o artesão Itaro, que faz leques maravilhosos, mas é um homem amargo que cuida de uma irmã cega que salvou da morte certa; e o oleiro Saburo, que está permanentemente apaixonado pela própria mulher e tem a felicidade das coisas pequenas, plantando fileiras de flores na orla da montanha e juntando cores vivas ao lamacento barro. A zanga entre ambos é, porém, muito grande – e a «poesia» de Saburo vista como uma imprudência pelo seu vizinho Itaro. O resto da história deixo para quem quiser ler para não me chamarem desmancha-prazeres, acrescentando apenas que José Tolentino Mendonça descreveu o livro como «uma luminosa parábola que fica a reverberar por muito tempo». Amanhã, o romance é lançado no Teatro S. Luiz, pelas 16h00, com a moderação da jornalista Teresa Sampaio, leituras por Pedro Lamares e a participação das cantoras Márcia e Ana Bacalhau. A entrada é livre, mas, porque existe um limite de lugares sentados, é preciso levantar bilhete antes da sessão. Seja, por isso, poético – se lhe apetecer – mas não imprudente.


 


P. S. Já depois de escrever este post, reparei que Mario Vargas Llosa vai estar, igualmente amanhã, às 18h00, no CCB, para apresentar o seu romance Cinco Esquinas. Isto é tramado...

Recessão literária

Depois de um presidente como Obama, que representou seguramente uma mudança de paradigma na presidência dos EUA, é difícil aceitar que um dos candidatos seja agora alguém muito próximo de uma caricatura ou de um personagem de BD. Mas a explicação para a ascensão de Donald Trump à posição de poder assumir os destinos da nação mais importante do mundo pode talvez explicar-se por um certo grau de ignorância arrogante de quem o apoia (Richard Zimler contou-me que «intelectual» na América é para muitos um insulto), ignorância que quiçá  se prende com uma queda vertiginosa dos índices de leitura dos americanos. Leio num pequeno artigo que existe uma «recessão literária» (gosto deste termo) nos Estados Unidos (eu diria que não é só lá) e que os números de leitores de literatura (mesmo que na categoria se incluam livros como As Cinquenta Sombras de Grey), que tinham aumentado entre 2002 e 2008, têm vindo a cair desde esse ano até níveis bastante inesperados... Só 36% dos homens lêem contos, romances, poemas ou teatro, enquanto 50% das mulheres os consomem; os que têm formação superior compram duas vezes mais livros do que os que apenas acabaram o Secundário. Não há uma diferença significativa entre leitores jovens ou mais velhos, lendo todos mais ou menos o mesmo número de títulos. A principal razão apontada pelos autores da investigação para este decréscimo é o tempo gasto com as apps do iPhone e as séries de TV... Uma época demasiado rápida, na qual é difícil conseguir tempo e concentração para ler literatura.

Males invisíveis

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Quando por vezes entrevistam os vizinhos de um homem que matou a mulher ou a namorada, esses dizem que não faziam ideia de que o assassino fosse uma pessoa violenta ou perturbada. Por outro lado, na sequência de um suicídio, amigos e famílias ficam frequentemente surpreendidos e à procura de razões. O desequilíbrio e a doença psíquica podem ser invisíveis e, mesmo quando o não são, representam um estigma que leva muita gente a não procurar uma saída enquanto é tempo. Uma Dor tão Desigual resultou de um desafio feito pela Ordem dos Psicólogos a oito autores para que explorassem as fronteiras múltiplas e ténues que definem a saúde psicológica e o que dela nos afasta. Em estilos muito diferentes, um leque extraordinário de escritores (Afonso Cruz, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M Tavares, Joel Neto, Maria Teresa Horta, Nuno Camarneiro, Patrícia Reis e Richard Zimler) brinda-nos com textos que mostram como qualquer um de nós pode viver momentos difíceis e precisar de ajuda. São histórias de perda, solidão, fraqueza e delírio, mas também de esperança e humanidade. Pretende-se com este livro combater preconceitos, despertar consciências e ajudar a encontrar uma saída. A capa é do magnífico André Letria.


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O que ando a ler

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Confesso: às vezes, sou uma maria-vai-com-as outras… Antes de ir para férias, a minha amiga Aldina Duarte, fadista, pediu aos seus amigos facebookianos que lhe aconselhassem livros. Na altura, o escritor Mário de Carvalho recomendou-lhe a leitura de O Homem Que Via Passar os Comboios, de Georges Simenon, e eu, que estava a acompanhar as sugestões, fiquei logo com a pulga atrás da orelha porque nunca tinha lido o romance, quiçá porque raramente me vire para autores de policiais. O livro, ao que parece, está esgotado, mas tive sorte: o Manel tinha a velhinha edição da Dom Quixote nas suas estantes (embora eu creia que o tenha na colecção MilFolhas, do Público, mas já não tenho a certeza nem sei onde está). E não é um policial, embora inclua mortes e perseguições; é um romance psicológico surpreendente publicado no final dos anos 1930 (com a guerra à porta) que acompanha Kees Popinga, o protagonista, num périplo curioso, de Groninga (onde era apenas um bem-comportado e um contido funcionário de uma empresa naval) até Paris (onde, depois de assassinar a amante do patrão, deambula por bares e cabarés, mata mulheres a sangue-frio e desafia permanentemente a polícia e os jornalistas, oferecendo-lhes pistas sobre o seu próprio paradeiro e comentando com ironia as notícias que vão saindo sobre os seus crimes). Inesperadamente, achei o estilo algo reminiscente de autores da Europa Central, como Walser ou Marai (Simenon é belga), o que muito me agradou, e apreciei muitíssimo esta metamorfose que mostra como os homens são cheios de mistérios e recalcamentos e, não raro, por detrás de um choninhas está um tipo agressivo e violento. Se o encontrarem por aí, não fiquem a ver passar os comboios.


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