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A mostrar mensagens de outubro, 2010

O poderio alemão

No ano em que Portugal foi o país convidado da feira Internacional do Livro de Frankfurt, trabalhei como directora de publicações no escritório que organizou a presença portuguesa; fizemos vários livros nesse ano e tínhamos de estar constantemente em contacto com os nossos colegas da Alemanha que traduziam os textos para esclarecermos tudo até à exaustão. Embora tivesse aprendido alemão durante quatro anos, não tinha a noção de quão descritiva era aquela língua e que dificuldade sentiam no escritório de Frankfurt os tradutores para verterem para alemão textos aparentemente tão simples. Só para terem uma ideia, em Portugal temos as palavras “doente”, “hospital” e “ambulância” (todas de raízes diferentes) que, numa tradução literal, têm os correspondentes alemães “doente”, “casa do doente” e “carro do doente”... Numa tarde em que precisávamos de um texto sobre o stand de Portugal rapidamente traduzido, tivemos de andar com mensagens de fax para cá e para lá (sim, ainda era o tempo do fax) por causa da expressão “quiosque multimédia”. Parecia óbvio, mas para os alemães colocarem tudo numa palavra (ou em duas) tiveram de saber o formato exacto do quiosque, se servia café, se era de livre acesso, quantos computadores tinha e muitas outras ninharias que, pelos vistos, eram fundamentais para uma tradução correcta. Estivemos horas naquilo e, no fim, o resultado foi surpreendente: qualquer coisa como Kiosk multimedia (ou vice versa, agora já não me recordo). Tanta pergunta para quê?

Português de Portugal

Quando estava na Temas e Debates, a editora tinha um acordo com uma congénere brasileira – a Rocco – para vender em Portugal (depois de revistos ou retraduzidos) livros cujos direitos mundiais para a língua portuguesa pertenciam a essa editora – entre outros, os thrillers de John Grisham como O Cliente ou A Firma. Numa viagem ao Rio de Janeiro para a Bienal do Livro, pediram-me que me encontrasse com uma assistente do senhor Rocco, no sentido de tratar de alguns assuntos pendentes e ver os livros que queríamos publicar em Portugal no ano seguinte. A senhora chamava-se Ana Maria Bergin e, embora fosse bastante mais nova do que eu, não tinha com ela qualquer familiaridade. Como acho o tratamento por “você” bastante feio e até um pouco indelicado, dirigi-me a ela na terceira pessoa, usando, como é costume em Portugal, o seu nome próprio. Estive, assim, cerca de uma hora dizendo coisas do tipo “Como a Ana Maria bem sabe...”, “A Ana Maria não conhece o mercado português, mas...”, “Eu sei o que a Ana Maria pensa sobre esse assunto”, “A Ana Maria podia sugerir-me...” e por aí fora, até que, de repente, ela me interrompeu bruscamente e perguntou: “Desculpa, mas quem é Ana Maria?” Fiquei, como podem imaginar, aparvalhada de todo. E, no abismo que se criou entre ambas, continuo a achar que não há acordo ortográfico que nos valha...

Dá Deus nozes...

Há muitos anos, fui convidada pelo Instituto Português do Livro e da Leitura (que depois se tornou a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas que acaba de ser, quanto a mim, escandalosamente extinta) para ir a uma Feira do Livro em Cabo Verde. Porque nessas paragens não abundavam livrarias, a feira era um acontecimento nacional e, antes mesmo de as portas se abrirem, havia uma multidão que aguardava, ansiosa, por tocar, cheirar, folhear e comprar livros – desde histórias infantis ilustradas a dicionários e livros de Direito, passando por romances, biografias e livros práticos. Ao final do primeiro dia, já só havia meia dúzia de exemplares nas mesas e escaparates, e os que tinham chegado tarde partiam acabrunhados e de mãos vazias no meio de queixumes surdos e um encolher de ombros. As crianças que tinham apanhado um livrinho pareciam exultantes, mas muitas havia que, à porta, choravam a sua pouca sorte. Nesse tempo, discutia-se muito em Portugal o desinteresse dos jovens pela leitura e fiquei deveras impressionada com a franca desilusão sentida por aqueles meninos. Quando perguntei a um deles – desdentado, com seis ou sete anos – se gostava tanto de ler como parecia, ele respondeu-me que sim e que, à falta de outra coisa, lia todos os dias o jornal e guardava as páginas de que mais gostava. Na semana passada, soube que Cabo Verde tem mais de 90% da sua população alfabetizada e lembrei-me imediatamente deste episódio. E ainda há gente que vive em cidades cheias de livrarias e nunca entra em nenhuma – e, pior, que nem lê o jornal...

Sexo, mas pouco

Nós, os Portugueses, somos um povo algo contido em matéria de sexo, talvez por força da repressão que a Igreja católica exerceu sobre nós ao longo de muitos anos; e, quando a revolução abriu as portas a uma certa libertação e tirou a prática sexual da lista dos pecados a merecerem castigo divino, o estado de graça não durou nem duas décadas, pois logo apareceu o vírus da SIDA, uma outra espécie de ameaça. Provavelmente por isso, na literatura portuguesa o sexo mostra-se pouco, mal ou muito discretamente; e, durante décadas, quem ousava dar-lhe corda raramente ultrapassava um efeito ridículo ou inverosímil. Lembro-me de um artigo publicado no Jornal de Letras há anos sem fim, em que Inês Pedrosa extraía dos romances nacionais cenas de sexo caricatas que, arrancadas ao contexto, podiam realmente fazer rir e chorar. Deve ter sido mais ou menos na mesma altura que li o belíssimo romance A Estação das Chuvas, de José Eduardo Agualusa, descobrindo um fôlego fantástico para as coisas do corpo e da sexualidade que nunca tinha encontrado num autor de língua portuguesa. É bem possível que a África, mais descontraída e quente, tenha a sua quota-parte de responsabilidade, mas lá que ali o sexo era bonito, ninguém pode negar.

O enciclopedista e o pretenso poeta

Quando tinha dezasseis anos, saiu-me num exame de Francês um texto delicioso. Contava a história de um jovem poeta que tinha ido encontrar-se com o grande Diderot para lhe mostrar o que andava a escrever e auscultar a sua opinião. O enciclopedista não se negou a dar-lha, mas pediu que deixasse os poemas e lhe desse tempo para os ler com atenção. Quando, ao fim de alguns dias, o jovem regressou, seguramente expectante, Diderot explicou-lhe que não só aqueles poemas eram maus como mostravam que o seu autor nunca seria capaz de escrever bons poemas... Como não sou Diderot – e embora às vezes me apetecesse –, não posso dizer nada de semelhante a alguns jovens (e não tão jovens) pretensos escritores que me mandam os seus livros (embora um dia destes Lobo Antunes me tenha dito que só se pode fazer um bom editing com crueldade). Tento, mesmo assim, ser frontal sem magoar demasiado na minha tentativa de dissuasão. Mas nem sei se chego aonde quero, porque, para ser franca, sei de muitos livros que recusei e foram, ainda assim, publicados por outras editoras. Alguns – pasme-se – até me incluíam nos agradecimentos... A propósito, O Poeta de Pondichéry, livro de poemas de Adília Lopes, refere-se a este jovem poeta que Diderot mandou passear.

De olhos em bico

Eu e o Japão não nos damos lá muito bem – mas tenho a certeza de que a culpa é minha, que não consigo entender, entre outras coisas, que, mesmo num país seguro, possam andar sozinhas crianças de quatro anos entre a casa e a escola. Quando estive em Tóquio há uns anos, achei demasiadas coisas estranhas (censuram os pêlos púbicos em livros, filmes e até anúncios de lingerie, tornando-os uma mancha indefinida, mas vendem uma manga horrorosamente violenta e não raro pornográfica); e perguntei-me – sem obter resposta – porque não têm as personagens dos desenhos animados «olhos em bico», e sim uns olhões verdadeiramente arregalados, quando se diz que os Japoneses nos consideram uma raça inferior. Não consigo alcançar o Japão, é o que é. E, ainda assim, há um escritor japonês que vive em Londres que leio com um prazer desmedido. Ganhou o Booker Prize com o magnífico Os Despojos do Dia (que deu um filme vencedor de vários Óscares), mas escreveu muitos outros romances de grande qualidade. Talvez seja um escritor já europeizado, mas a verdade é que, embora os seus cenários sejam frequentemente europeus, as suas histórias não deixam de estar impregnadas de valores tipicamente japoneses. Em Os Inconsolados, por exemplo, vê-se bem que Kazuo Ishiguro não podia ser senão japonês.

Braço de Prata

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Mário Lúcio Sousa estará hoje na Fábrica e Braço de Prata, pelas 22h00, para apresentar simultaneamente o seu romance O Novíssimo Testamento, vencedor do Prémio Literário Carlos de Oliveira, e o seu novo CD, Kreol, no qual canta e toca com Milton Nascimento, Pablo Milanés, Harry Belafonte e Teresa Salgueiro, entre outros. Prometemos boas palavras e bons sons. Apareçam!


 


 

A eternidade ou um dia

Quando perguntam a um escritor porque escreve – e acontece frequentemente em sessões nas quais o público intervém –, as respostas variam, mas não ultrapassam normalmente meia dúzia de hipóteses. Há quem escreva porque quer e quem escreva porque tem de escrever; há quem escreva porque não sabe fazer mais nada e quem ache que nunca se teria tornado escritor se não tivesse uma vida para lá da escrita; há quem escreva para não morrer e até quem escreva para não matar; há quem escreva para dizer alguma coisa ao mundo e quem não saiba o que diz com o que escreve. Pensa-se desde sempre que os escritores, escrevendo, procuram sobretudo a imortalidade. António Lobo Antunes, por exemplo, numa recente entrevista ao Expresso, mostrou-se convicto de que a sua obra lhe sobreviverá e que ainda vai ser lida durante muitos anos (ele falou em séculos, creio eu). Não sei se sermos lidos depois de mortos é consolo maior do que sermos lidos em vida; talvez seja um certificado de qualidade, é certo, mas, em todo o caso, já cá não estaremos para ver os leitores pegarem nos nossos livros. Não será preferível um encontro com um leitor especial num único dia à desconhecida eternidade?

Desespero

Um dia destes, a olhar para as minhas estantes, apercebi-me de uma coisa assustadora: havia muitos livros que eu estava certa de ter lido e dos quais lembrava muito pouco ou coisa nenhuma. Já estou na idade em que me faltam os nomes dos actores que entraram em determinados filmes de que até gostei e, pior do que isso, na idade em que, quinze dias depois de ter visto um filme que não me agradou, já não sou capaz de recuperar senão vagos momentos da história. Isso até aguento. Mas com os livros fiquei preocupada, tanto mais que quero ainda ler todos os que puder e estou sem saber se, ao esquecer-me rapidamente deles, valerá realmente a pena lê-los. Ao mesmo tempo, sinto que a partir dos cinquenta entramos numa espécie de contagem decrescente, e não raro dou por mim a planear furiosamente leituras, com medo de que o tempo se acabe e eu não tenha conseguido pôr os olhos em metade do que queria. Disse-me recentemente alguém (o Manuel Jorge Marmelo, acho, mas com esta memória já não tenho a certeza) que, mesmo que estejamos sempre a ler desde pequenos, nunca, no tempo normal de uma vida, conseguiremos ultrapassar os três mil títulos. Não sei se haverá três mil livros imprescindíveis, claro, mas... como terão então feito aqueles que se gabam de ter mais de vinte mil volumes nas suas bibliotecas?

Uma espécie de loucura

Há uns anos, numa tarde inesquecível na Feira do Livro de Lisboa, Eduardo Prado Coelho comparava romancistas e poetas. Dizia que, enquanto os primeiros eram claramente neuróticos, os segundos eram, sem qualquer dúvida, psicóticos. Ou seja: ambos mentalmente doentes, embora o transtorno dos romancistas não interfira com o pensamento racional e o distúrbio dos poetas implique uma certa perda de contacto com a realidade. Também Eduardo Lourenço, numa sessão belíssima a que assisti na Casa Fernando Pessoa, avançou que os poetas raramente sabem donde lhes vem aquele primeiro verso que provoca o poema, havendo nisso uma espécie de transcendência que faz com que, tradicionalmente, se diga que estão mais próximos de Deus do que as outras pessoas – incluindo os romancistas, que costumam explicar com grande detalhe donde lhes veio a ideia para determinado romance. E, no entanto, Lobo Antunes fala de uma mão que escreve alheia à sua cabeça; e na semana passada, numa sessão em Leiria com, entre outros, o escritor cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, autor de O Novíssimo Testamento, este disse ao público que, na verdade, também não sabia bem donde lhe vinham as palavras quando abria o portátil e começava a digitar. Depois, pensando melhor, arriscou, porém, uma hipótese divertida: download cósmico?

Terra Santa

Quando hoje se fala na nova literatura portuguesa, os nomes que vêm à baila são quase sempre os mesmos: José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, valter hugo mãe, João Tordo. Tive a felicidade de poder dar à estampa os romances de estreia de três deles, mas, naturalmente, não deixo de considerar um escritor enorme o único que nunca publiquei: Gonçalo M. Tavares. O seu Jerusalém, que venceu vários prémios cá dentro e lá fora, é um romance absolutamente notável e único no panorama das letras portuguesas, tão próximo da tradição da Europa Central como Tordo está da anglo-saxónica. Enquanto o lia, tinha sempre um aperto no coração, como se soubesse que o mal estava à espreita e havia de se mostrar cedo ou tarde – um mal que era inevitável porque inscrito numa espécie de linhagem histórica que o determinava. As personagens – médicos, loucos, deficientes, traumatizados da guerra, prostitutas – ficam connosco muito para além de o livro fechado, mesmo que algumas delas tenham morrido nas suas páginas. E as ideias por detrás da história pareceram-me, por vezes, tão geniais e novas que, enfim, tive ainda mais pena de não ter sido eu a publicar este livro, mas muito feliz por ele existir.

Diana Bar

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Hoje, no Diana Bar, na Póvoa de Varzim (adoro esta terra!), o jornalista e escritor Manuel Jorge Marmelo apresenta O Novíssimo Testamento, de Mário Lúcio Sousa. Amanhã, haverá nova sessão de apresentação na FNAC do NorteShopping (obrigada, querido Manel Jorge).


 


Grandes equívocos

Agora há poucos jovens que queiram fazer cursos de Letras, provavelmente por falta de saídas profissionais, mas nem sempre foi assim e houve anos em que muita gente foi parar a estes cursos porque as médias de entrada não eram muito altas, e era melhor um curso na mão do que outro a voar. Contaram-me a história de uma aluna do curso de Estudos Portugueses na Universidade Nova de Lisboa que mostra bem o equívoco de se ir estudar uma matéria para a qual não se tem a menor vocação. Na primeira aula de Literatura Portuguesa (julgo que assim se chamava a disciplina, mas tanto faz para a historia), a professora Clara Rocha estava a comunicar aos alunos todas as obras que iriam estudar ao longo do ano e, entre elas, referiu a poesia de Sá Carneiro. Para admiração da docente e de muitos dos colegas (foi uma delas que me contou o episódio), houve uma aluna que se mostrou admiradíssima e, com a desfaçatez própria da ignorância, inquiriu: «Sá Carneiro?! O quê? Esse também escrevia versos?»

A Vida não Basta

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Hoje, em Leiria, pelas 18.30, na Livraria Arquivo, João Tordo, Vasco Luís Curado, Mário Lúcio Sousa… e eu (a editora dos três) vamos participar numa conversa, animada com música e boa companhia. Se estiver por ali, apareça!


 


 




Os picos do ouriço

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Trabalhar num grande grupo editorial tem algumas vantagens (mesmo que muita gente não acredite, tem mesmo); uma delas é podermos aceder a certos livros antes de os terem as livrarias – e foi isso que me aconteceu recentemente com o novo Lobo Antunes, Sôbolos Rios Que Vão: alguém mo ofereceu sem eu sequer ter pedido. A verdade é que não o ia comprar – tenho demasiadas coisas que ler e sinto há muito que é preciso disposição e disponibilidade para um autor de peso como ele – coisas que habitualmente me faltam. Mas... sim, puseram-me o livro na mão e era um desses exemplares fininhos que, apesar do que exigem, se lêem em relativamente pouco tempo. Foi mais forte do que eu, como se aquela mão que o autor diz que escreve os livros por ele tivesse esticado um dedo acusador como a dizer-me que já não era sem tempo. O romance fala de um homem às voltas com um ouriço bicudo (também podia ser um caranguejo, uma vez que se trata de um cancro, mas o ouriço é bastante mais apropriado) e da sua suposta salvação pelo recurso a memórias de infância junto da nascente do Mondego num tempo em que as botas não lhe duravam mais de um Inverno, o pai abusava da empregada, o avô desdenhava os jornais na varanda, o tio supostamente impotente o ensinava a fazer oitos com a bicicleta, uma estrangeira aparecia nua no hotel dos ingleses, a mãe contava como conhecera o pai e o jovem Virgílio o acomodava numa carroça até à vila entre sacas de batatas que o incomodavam como... ouriços? Depois, havia a avó, pedindo-lhe que não espalhasse o peixe no prato e perguntando-lhe se não ouvia os gatos. A avó, o melhor de tudo. Que dizer? As memórias de infância são quase sempre o que nos salva. E aqui também.


 


O Novíssimo Testamento

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É hoje. Estão todos convidados.



A tia do Nobel

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O primeiro livro que aconselhei quando criei este blogue foi justamente uma obra de Mario Vargas Llosa, o vencedor do Prémio Nobel da Literatura deste ano. Na altura, A Tia Júlia e o Escrevedor, um romance notável confessadamente autobiográfico, encontrava-se esgotado, mas foi reeditado há pouco e está aí de cara lavada para quem nunca o leu. Esse meu post foi dos que mais comentários teve desde que o blogue começou. Acredito, pois, que muitos gostarão de saber esta notícia.


 


Livro, que livro?

Andava atarefada, sempre à procura de bocadinhos livres para me agarrar às capas de um determinado livro, quando o Manel me perguntou que andava eu a ler com tamanha sofreguidão. Respondi-lhe que andava a ler o Livro, mas ele não percebeu imediatamente. E, quando deixei o exemplar num sítio qualquer da casa e não o encontrava, perguntei-lhe se ele por acaso tinha visto o meu livro e ele perguntou outra vez de que livro se tratava. Respondi: o Livro. Ficou confuso, mas, finalmente,  lá se fez luz. Este título de José Luís Peixoto presta-se a confusões e tem, realmente, muito que se lhe diga. O Livro também – e com ele passei muitas horas extraordinárias nos últimos tempos. Quando estava a chegar ao fim, até veio aquela tristeza que temos quando nos separamos de alguém que amamos. A primeira parte é absolutamente magnífica, com muitas passagens e personagens que me recordaram Nenhum Olhar, mas com uma leveza nova e até alguns apontamentos de humor (um surdo que «se descuida» diante de toda a gente porque não ouve os próprios puns, por exemplo). A segunda parte – de que a crítica gostou menos – é uma forma de o autor ser moderno, para não ser apenas clássico. Não tenho nada contra nem acho de forma alguma que esteja a mais, até porque tem dados importantes sobre o desfecho da história do Ilídio, da Adelaide e de outras pessoas. Como eu supunha, é mesmo um senhor livro.

A arte de argumentar

Há muitos anos li um livro admirável que passou completamente despercebido, mas faria certamente as delícias de todos quantos amam a filosofia. Decorria a sua acção num país sem nome, que podia ser Espanha ou Portugal, no tempo da Santa Inquisição; e contava a história de um náufrago que dava à costa numa praia perto de um mosteiro, vindo de um lugar estranho onde ninguém ouvira nunca falar de Deus. Para salvar a pele da fogueira, tem este homem culto e atraente de explicar porque não pode acreditar no que não conhece a um inquisidor inteligente que tenta provar-lhe, com a ajuda de uma menina que foi encontrada entre os lobos, que a ideia de Deus é inerente à criatura humana e anterior a qualquer aprendizagem. Os diálogos entre os protagonistas são de uma riqueza extraordinária em termos de argumentação e desafiam permanentemente o leitor a pôr-se no lugar ora de um, ora de outro. Chama-se esse romance O Conhecimento dos Anjos e foi escrito por uma inglesa, Jill Paton-Walsh, que – tanto quanto sei – não voltou a ser traduzida em Portugal. Mas é uma pérola a procurar nos «baús» dos alfarrabistas.

Parar de ler

Não sou especialmente impressionável – o sangue nunca me afligiu, mesmo em criança, e posso ouvir histórias realmente nojentas à mesa sem perder o apetite. Também raramente choro em filmes e livros (excepto se já estou deprimida), porque, mesmo que me identifique com alguém ou alguma coisa, nunca deixo de sentir que tudo aquilo é ficção. (O defeito é meu, claro, mas tenho de viver com ele, como com todos os outros.) Há, porém, algumas coisas que me comovem – e normalmente têm mais a ver com velhos do que com crianças (talvez por nunca ter sido mãe). Mas foi, curiosamente, por causa de uma cena com bebés que tive um dia de interromper a leitura de um livro, tal era o aperto na garganta e no estômago. O romance chamava-se As Cinzas de Ângela (deu, de resto, um filme terrível) e era construído a partir das memórias de um irlandês, Frank McCourt, que emigrara para os EUA. Ainda na Irlanda, a mãe do autor ia tendo filhos no meio de uma pobreza irremediável e, como não podia deixar de ser, ia-os perdendo quase ao mesmo ritmo a que nasciam. O problema maior (para mim, que me fui abaixo) foi quando a dita senhora teve um par de gémeos e um deles, dois anos depois, não resistiu à grande fome. A reacção do irmão que sobrevive à sua ausência, a procura constante da metade que se foi, é – garanto – demasiado pungente. Mesmo para gente que não se impressiona habitualmente…

Parabéns

A Mario Vargas Llosa pelo justíssimo Nobel da Literatura.

As mulheres dos escritores

As mulheres dos escritores não têm uma fama por aí além – e, se passam a viúvas, a coisa tende a piorar. Ouço esta tirada muitas vezes e sei quase sempre em quem estão a pensar os que a dizem. Claro que há histórias reais de viúvas que se apropriaram das palavras escritas pelos maridos em guardanapos de papel e tentaram ganhar dinheiro com elas; de outras que nunca mais largaram as editoras com exigências; de uma ou duas que bateram o pé e não deixaram tirar o acento grave nos advérbios acabados em «mente» porque era assim que os falecidos tinham escrito no tempo deles; e ainda das que inventavam que eram as musas dos escritores quando o mundo inteiro sabia que o casal dormia há anos em quartos separados. Sim, acredito nestas excepções, mas quantas mulheres e viúvas haverá das quais nunca saberemos a existência – discretas, recatadas, silenciosas? E quantas serão pessoas normalíssimas, que não correspondem minimamente ao figurino de «mulher de escritor» do nosso imaginário? O Manel conta que conheceu a mulher de um escritor que levava o tricô para as conferências do marido e fazia malha enquanto o ouvia; e outra que se levantava a meio da noite, acordada pelo telefone, e se metia no carro para ir buscar o marido que, de tanto beber, não conseguia voltar para casa sozinho... Conheci uma senhora – lindíssima, por sinal – que era escritora e mulher de escritor. Pois o pior que os jornalistas podiam fazer-lhe era falar-lhe do marido...

Ensinar a (gostar de) ler

No tempo em que era professora, infelizmente não havia muitos colegas com os quais pudesse falar de livros. E o que mais me assustava era que, de vez em quando, apareciam na escola promotores de editoras (não necessariamente escolares), abriam o seu estendal na Sala de Professores e muitos dos docentes não só não compravam nada como nem sequer iam lá espreitar (mas perdiam imenso tempo a ver pulseiras, fios e anéis de ouro em bolsas de veludo). Tenho-me perguntado ao longo destes anos como será possível a quem não lê e não gosta de ler fazer aquilo a que hoje se chama «motivar os jovens para a leitura». Mas também não estou certa de que o gosto pela leitura seja transmissível – penso que a descoberta se faz quando um leitor encontra um livro (e nem precisa de ser bom) que, naquele exacto momento, faz um clique e estala qualquer coisa dentro dele; e isso é um milagre a dois, não inclui mais ninguém. Em todo o caso, é sempre preciso que alguém dê livros às crianças, sobretudo às que não têm livros em casa, para esse clique acontecer, e o professor pode, de facto, ser essa pessoa. Por isso, é bom que leia e goste de ler para escolher melhor o que entrega.

Pinga-amor

Publiquei em tempos um livro de um escritor colombiano – Jorge Franco Ramos – de quem García Márquez disse ser um dos autores a quem não se importava de passar a candeia. Foi um elogio merecido, claro, porque esse romance de estreia era uma pequena maravilha (também publiquei o segundo, mas este continuou a ser o meu preferido). Rosário Tesouras (com um título tão tremendo, não sei como o decano dos escritores colombianos sequer se deu ao trabalho de o abrir) conta a história de dois meninos maus de famílias boas que, em Medellín, cidade conhecida sobretudo pelo tráfico de droga, conhecem Rosário, uma bela rapariga de um bairro pobre («súbdita» de um dealer) que, na sequência de uma tentativa de violação, cortou à tesourada os testículos do agressor (daí a alcunha de Tesouras). Mas não se assustem com a crueza, pois ela não dura nem um parágrafo. Tudo o mais é contado com a maior delicadeza por um dos rapazes – o pinga-amor mais querido da literatura que já encontrei – que, apaixonado por Rosário até ao osso, a vê encantar-se pelo amigo e usá-lo a ele apenas para chorar as suas mágoas ou mandar recadinhos (que são sempre dados). Claro que nem tudo acaba bem (droga é droga e o mundo da droga impiedoso), mas o romance não dá um único solavanco e o leitor não tropeça em nada do princípio ao fim senão num amor sincero e incondicional que todos gostávamos que alguém tivesse por nós.

Livros dentro de livros

Para quem gosta realmente de ler, um livro que tenha um ou mais livros dentro acaba por tornar-se ainda mais atraente; e foi certamente esta atracção que fez de alguns títulos verdadeiros campeões de vendas. Falo, por exemplo, de A Sombra do Vento, que já vendeu milhões de exemplares em dezenas de línguas e países e que, sendo de um autor até então perfeitamente desconhecido (publicara apenas dois ou três títulos juvenis), alcançou um sucesso de que Carlos Ruiz Zafón e os seus editores de certeza não suspeitavam. O livro lê-se muito bem e, apesar de falhas na estrutura (perdoáveis numa quase estreia), tem personagens muito bem concebidas, que convocam a nossa empatia imediatamente. Contudo, se não fosse essa invenção fantástica do cemitério dos livros esquecidos referida logo no início e o mistério à volta de um certo livro, os leitores não deslizariam ao longo das páginas com o mesmo prazer. Pois acaba de sair um romance de José Luís Peixoto intitulado justamente Livro e, assim que soube do título, fiquei entre o maravilhada e o receosa (lá que é estranho, é) – mas, sem sombra de dúvida, curiosíssima sobre que livro seria esse. Li depois que «Livro» era o nome de uma personagem e, sem querer, houve uma desilusão qualquer. Mas comprei na mesma e espero, apesar de tudo, que seja um Sr. Livro.