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A mostrar mensagens de novembro, 2024

Excerto da Quinzena

A mulher idosa olha fixamente para um semáforo no cruzamento. Os flocos que caem à frente dele brilham com tons diferentes à medida que as luzes mudam. Até agora passaram por nós apenas quatro autocarros, todos de rota costeira em ambas as direções. Ninguém parece ter entrado ou saído dos autocarros. Não me lembro de ter visto nenhum deles parar.


[...]


O floco solitário que agora mesmo pousou e se derreteu sobre a minha luva era tão próximo de um imaculado cristal de neve de seis pontas quanto é possível encontrar-se. O que pousa ao lado dele está parcialmente desfeito, mas as quatro pontas que restam retêm a sua forma delicada. Estas dendrites moles e em deterioração são as primeiras a derreter. O minúsculo centro branco, a parte que se assemelha a um grão de sal, demora-se um suspiro antes de se dissolver.


As pessoas dizem «leve como a neve». Mas a neve tem um corpo próprio, que é o peso da sua gota de água.


 


Han Kang, Despedidas Impossíveis (trad. de Maria do Carmo Figueira e Ana Saragoça), no prelo.

O que fica por ler

Incluo-me num gupo de pessoas (penso que bastante alargado) que vai deixando para a reforma alguns livros que pedem tempo, disponibilidade mental, atenção redobrada, leitura sem interrupções. No meu caso, há, entre outras, uma obra magna que não li na juventude e que, sei lá porquê, resolvi eleger para a idade madura. Falo de O Homem sem Qualidades, de Musil, que vergonhosamente continua à minha espera na estante. Tenho, mesmo assim, a consciência pesada desde que li na revista Máxima  há vários anos uma crónica do escritor António Alçada Baptista, na qual ele confessava ter guardado muitas obras longas e densas para quando fosse mais velho e, tendo chegado a essa idade, sentia tristemente não ter já as suas faculdades a 100% nem a paciência e a dedicação necessárias à leitura dessas obras de maior densidade. Pois não é que eu mesma já vou sentindo o mesmo?, que me disperso com muito mais facilidade do que antes e que  frequentemente dou por mim a contar quantas páginas ainda me faltam para chegar ao fim, fugindo-me a paciência para livros que, mais cedo na vida, teria lido decerto com outro entusiasmo? Pois é, o cineasta António-Pedro Vasconcelos, com quem eu falava muitas vezes de livros, dizia que o pior da morte era o que deixávamos por ler... Tinha toda a razão, claro, e o pior é que alguns livros já não os leremos por manifesta impossibilidade...

Para amalianos e não só

Escrevo há cerca de dois anos (se estou a fazer bem as contas) uma crónica para o jornal digital a Mensagem de Lisboa intitulada "O Nosso Fado", que é, grosso modo, dedicada à canção de Lisboa. Eu sabia muitas histórias partilháveis, até porque o meu pai era um boémio e nos levava aos fados frequentemente; mas às tantas essas lembranças esgotaram-se e tenho lido bastantes livros sobre a arte do fado, tendo começado pelos mais teóricos e indo depois às biografias e memórias. Há uns meses, por exemplo, li um conjunto de artigos publicados nos anos 1920 no jornal A Voz do Operário e reunido mais tarde num volume intitulado O Fado e os Seus Censores, de Avelino de Sousa. E há uns quinze dias estive a deliciar-me com Amália: a Ressurreição, do jornalista e escritor Fernando Dacosta, que traz muitas e divertidas achegas à biografia de Amália baseada numa longuíssima entrevista conduzida pelo seu amigo chegado Vítor Pavão dos Santos. Neste livro de Dacosta, estão porém muitos episódios que só os que conviveram com a diva de perto provavelmente sabem e uma ou outra história que talvez não tenha sido antes registada por poder ofender A ou B, que entretanto morreram e já não se podem incomodar. Uma delas compôs, de resto, a minha crónica mais recente para a Mensagem de Lisboa e fala de dois poetas sonantes e da sua relação com a maior fadista da nossa história. Se quiserem ler, deixo-vos o link. Se gostam de fado, o Museu do Fado tem apoiado uma série de obras muito interessantes sobre fado e vale a pena dar uma espreitadela à página da Internet.


https://amensagem.pt/2024/11/19/cronica-fado-levantar-voz-amalia-rodrigues/?fbclid=IwY2xjawGwJOVleHRuA2FlbQIxMQABHbuL77PAHQ8LK_JHKomUliKKtNWsvhcirHYE0U6DaWySa1nHRiPLyYQ89g_aem__MHiUisuBowmEqaX83OIjg


 


 

Escrever em Buenos Aires

Quando fui a Buenos Aires visitar um amigo que infelizmente perdi para uma doença, o Malba, que é um museu excepcional, era ainda muito recente. Esse meu amigo dava lá cursos de literatura e ainda hoje o Malba tem muitos programas para leitores e escritores. Agora, por exemplo, abriram as candidaturas a uma residência de escritores estrangeiros no Malba: cinco autores de qualquer nacionalidade e mais três, um do Chile, um de Itália e um espanhol (estes três com bolsas co-financiadas pelos seus países). Desde 2018 que o Malba convida escritores de outras línguas e paragens para desenvolverem, ao longo de cinco semanas, um projecto artístico que tenham em mãos. A residência acontece nos meses de Abril, Junho, Agosto, Setembro, Novembro e Dezembro. Quem sabe se não é a sua altura de concorrer a esta bolsa e ser seleccionado? É que escrever em Buenos Aires é altamente inspirador, garanto, pois as livrarias estão por todo o lado e abertas até tarde, há muitas actividades literárias por toda a cidade e o espírito de Borges cumprimenta-nos a cada esquina. As candidaturas estão abertas até 13 de Dezembro. Para saber tudo, aqui fica o link.


www.rem.malba.org.ar

Para sempre

2018 foi o ano em que Itamar Vieira Junior ganhou o Prémio LeYa com o romance Torto Arado. O livro foi publicado em Portugal e vendido depois ao Brasil, onde foi publicado em 2019 pela excelente editora Todavia. Por lá, ganhou uma enorme popularidade, até porque falava de coisas que era preciso dizer sobre as condições em que ainda hoje muita gente trabalha no Brasil, e ganhou os prémios Jabuti e Oceanos no ano seguinte. A partir daí, foi um ver-se-te avias, e hoje o livro está vendido em 28 países. Foram feitos espectáculos de teatro e musicais, e estão em projecto outro tipo de adaptações, como exposições itinerantes, novela gráfica, série, etc. No ano passado, a edição em língua portuguesa do segundo romance do autor, Salvar o Fogo, foi editada simultaneamente em Portugal e no Brasil, e também já houve variadas vendas deste livro ao estrangeiro. O romance é lindo e fala do trabalho e da propriedade da terra, como o anterior, mas também da pedofilia praticada pela Igreja e da vida de uma família muito especial. E Itamar, merecidamente, venceu de novo o prestigiado Jabuti na semana passada! Fiquei mesmo contente e orgulhosa por estar ligada a estes livros. Prevejo coisas muito grandiosas para este autor e conto acompanhar a sua obra para sempre. Parabéns, Itamar. Ainda o verei ganhar ao Nobel...

Palavrinhas

Quando pensamos na palavra «organização», pensamos numa coisa arrumadinha, no seu lugar, quieta, imóvel. E, porém, «organizar» tem, curiosamente, a mesmíssima raiz da palavra «orgasmo», que é tudo menos uma sensação organizada, provocando espasmos, contracções, explosões de seiva, tremores, calafrios e sacões dos pés à cabeça; enfim, não vale a pena ser exaustiva, quem já teve sabe como é – e sabe que não tem nada de organizado. Mas como se dá então esta afinidade etimológica? Investiguei e descobri que «organizar», na base, quer dizer qualquer coisa como «dispor de forma a tornar apto à vida» ou «dotar de um órgão»; e, lá está, sem órgão, feminino ou masculino, não há «orgasmo». Tudo se explica, não é verdade? Fiquemos então a saber que o vocábulo «orgasmo», no tempo de Hipócrates, estava relacionado já com um «órgão pleno de seiva» e que, mais tarde, em França, significava, vejam lá, «um vivo acesso de cólera»... Um dicionário bom é uma excelente companhia. Bom fim-de-semana, com ou sem orgasmos.

Adaptações

Há algumas autoras anglo-saxónicas que descobri nos últimos anos que aconselho sempre que me pedem uma sugestão de leitura: Elizabeth Strout, Maggie O'Farrell, Elaine Feeney, Claire Keegan. Desta última os livros são pequeníssimos, mas dizem exactamente o que devem dizer, são humanos, sem palha, magníficos, retemperadores. O primeiro que li, Pequenas Coisas como Estas, continua a ser o meu preferido e, na minha cabeça, enquanto o lia, transformou-se numa espécie de filme de Frank Capra, um realizador que adoro pela sua humanidade e que teria adorado ler os livros de Keegan, tenho a certeza. Aconteceu-me ver na televisão há uns meses, praticamente por acaso, o filme que adapta o segundo livro que li desta autora, Acolher, e curiosamente não fiquei desiludida, embora, confesso, estivesse desconfiada de que fosse possível conseguir adaptar mantendo a política do "sem gordura". Mas agora soube que Pequenas Coisas como Essas já foi também adaptado ao cinema e que a própria Claire Keegan participou na escrita do argumento. O filme de Tim Mielants, que estreou dia 1 de Novembro na Irlanda, conta com grandes actores como Emily Watson ou Cillian Murhy, e eu já estou com água na boca. Se a novela nos enche o coração de um amor e de um bem inigualáveis, nem imagino o que será o filme, sobretudo se o virmos em mood de Natal. Espero é que venha depressa e não desmereça a grande escritora, que merece o melhor.

Perguntas

Muitos romancistas referem que os seus livros não respondem a nada, pelo contrário, fazem muitas vezes as perguntas que os inquietam. No livro de conferências de Juan Gabriel Vásquez intitulado A Tradução do Mundo, o escritor colombiano conta que o editor de Tchékhov se irritou com ele por não ser capaz de tomar posições claras nos seus contos; e que Tchékhov terá ripostado que ele estava a confundir duas coisas: responder às perguntas e formulá-las correctamente. Na semana passada, ouvi a jornalista Isabel Lucas (também escritora, embora de não-ficção) dizer no programa da TSF de Nuno Artur Silva que, numa entrevista, as perguntas são tão importantes como as respostas, pois uma coisa leva a outra e, se as perguntas forem pobres, as respostas podem também não ser fantásticas. Já vi uma vez um escritor entrevistado ao vivo num festival literário desistir, aliás, de responder às perguntas tontas da sua entrevistadora, pegando-lhe na mão e dando-lhe umas pancadinhas no pulso, como a dizer, "pára lá, que eu faço isto sozinho", e a seguir fazer aquilo sozinho e dar um baile incrível sem precisar realmente de ninguém, porque estava a formular as perguntas certas e a responder-lhes. Isabel Lucas disse nesse programa de rádio que tinha muito medo das perguntas, e ainda bem que tem, porque as suas entrevistas a escritores, recentemente saídas com o título Conversas com Escritores, são boas e talvez o seu cuidado com as perguntas tenha que ver com esse medo e com o desejo de ganhar a confiança dos entrevistados, entre os quais estão nomes tão sonantes como os de Julian Barnes, Javier Marías, Paul Auster, Salman Rushdie ou Elena Ferrante. Esta é uma forma de saber quais foram as perguntas que levaram os romancistas a responder com a ficção. Vale muito a pena saborear por isso este livro de entrevistas.

A lição de Proust

Penso que foi no podcast Vale a Pena de Mariana Alvim que fiquei a saber que o último volume da Recherche foi apontado pelo escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez como uma das suas leituras-chave. Custa-me dizê-lo, mas não passei dos primeiros três volumes da Recherche. Conheço duas fãs incondicionais de Proust que a lêem e relêem continuamente, mas também conheço alguém que diz que é incrível como alguém consegue escrever cem páginas sem sair do lugar, mas que aquilo não é para toda a gente. Nem sei onde posicionar-me entre estas duas opiniões: percebo que é genial, um jogo fantástico entre escrita e memória, mas também acho chatinho (e, além disso, embirro com o Marcel, desculpem). Tudo isto para dizer que nos últimos tempos andei às voltas com um livro que percebi logo que era bom (não tanto como Proust, mesmo assim) mas que, quando o lia na cama, dava-me o sono ao fim de poucas páginas. E, porém, era incrível como a autora, Marlen Haushofer, descrevendo o dia-a-dia praticamente invariável da sua protagonista no campo, na companhia de uma vaca e de um cão (há gatas, mas passam o dia na delas), consegue fazer maravilhas, lá está, sem sair do sítio. O livro tem sido enormemente elogiado e é um hino à natureza. Chama-se A Parede porque, num fim-de-semana que a protagonista foi passar na cabana de caça de uns amigos, se ergue uma parede invisível na montanha que a vai isolar para sempre do resto do mundo. Sim, a parede não a deixará sair de onde está e obrigá-la-á a sobreviver num ambiente que não era o seu e a tornar-se outra pessoa. É de algum modo algo buñuelesco, curioso e inteligente, mas eu achei-o levemente chatinho. A tradução, boa, é de Gilda Lopes Encarnação.

Música enquanto podemos

Há tempos, pediram-me que escrevesse uma história para um livro infantil colectivo em que tinha de falar do Afeganistão. As suas vendas revertiam a favor de uma associação portuguesa que apoia raparigas afegãs que vêm fazer os seus estudos universitários para Portugal, uma vez que no seu país são proibidas de estudar. Para escrever esse livro, pedi para falar com uma delas, para lhe fazer perguntas corriqueiras sobre, por exemplo, o que comem e como se divertem; e tomámos um café numa manhã em que fiquei a saber muitas coisas que não sabia, entre as quais que ouvir música é proibido no Afeganistão e que alguém que seja apanhado a ouvir música pode ser preso e torturado. Já alguém imaginou um país sem música?! Eu nem queria acreditar! Mas, porque podemos ouvi-la aqui em Portugal sem problemas, sugiro então que assistam ao curso que começa hoje no Âmbito Cultural do El Corte Inglés de Lisboa (já houve este curso no de Gaia antes) ministrado por David Ferreira. Chama-se História da Música Ligeira e vai da invenção da gravação sonora até 1959, ano em que supostamente o rock morreu. São cinco sessões que passarão pelo jazz, a chanson française, a bossa nova e o rock. Vamos lá?

Excerto da Quinzena

Ela acorda a meio da noite no lado de Larry na cama. Algures no escuro do seu corpo uma vela arde por ele, mas quando ela a procura para alumiar o exterior do corpo somente encontra escuridão. Durante o sono ouviu o vento a chamar e agora parece andar a vaguear pela casa como se a porta de entrada tivesse sido deixada aberta. Vai à janela e espreita o exterior, as nuvens velozes e alaranjadas, contemplando a cidade e ansiando por ela. Percorre a casa às escuras sentindo os pés a arrefecer, com a sensção de se ter tornado um fantasma do seu passado. Detendo-se à porta do quarto dos filhos a ouvi-los dormir, enquanto lá fora o vento sopra. Não há nada mais inocente do que uma criança a dormir, é deixar as crianças dormir e quando ele tiver regressado continuaremos como antes. Ela enfia-se na cama, esfrega os pés para os aquecer e acorda com uma luz estranha, escutando um uivo rouco do vento, a janela batida com gravilha molhada. Ainda meio a dormir, aproxima-se da janela com a sensação de a casa estar a voar, às voltas em plena ventania. [...]


Paul Lynch, Canção do Profeta, tradução de Marta Mendonça

A voz da poesia

Não costumo assistir a sessões de "poesia falada" ou "spoken word", mas, por dever de ofício, no domingo passado estive no Templo de Poesia, em Oeiras, a acompanhar uma espécie de concurso promovido no âmbito da Mostra Artes da Palavra. Era já a final (a semifinal fora na véspera), que incluía 8 concorrentes, entre os 15 e os 25 anos, que tinham de dizer em palco um poema de sua autoria (um pouco como os rappers), dedicado ao 25 de Abril, coisa que não lhes diz certamente tanto como aos mais velhos. Mas, embora alguns poemas mencionassem sobretudo os avós (até os pais já devem ter nascido depois da Revolução), a verdade é que muitos desses poemas eram extremamente comprometidos, implicados e preocupados com o estado do mundo e da política. Foi, devo dizer, uma lufada de ar fresco e uma grande alegria ver como a maioria dos textos tinham bastante qualidade literária, além da mensagem propriamente dita, que é o que nesta arte parece primordial. A vencedora, Lua Afonso, tinha apenas dezasseis anos e era impressionante a dizer os seus textos, mas a média era realmente bastante alta. A apresentadora, Maria Caetano Vilalobos, ela própria autora de poesia para "dizer", esteve também muitíssimo bem; descontraída, inteligente, com piada, dando sempre a volta e boa a improvisar quando se enganava, fez-me pensar que as televisões têm nestes espectáculos muitos jovens talentosos que deviam vir buscar para substituir algumas das suas supostas apresentadoras profissionais. 

Cheque-livro

Dou sempre cheques-livros no Natal à minha irmã, compro-os em geral numa livraria com ampla escolha, pois ela lê demasiado e nunca sei o que já tem. Mas estes cheques-livros de que aqui falo hoje são gratuitos e destinam-se a firmar ou formar leitores que tenham feito 18 anos neste ano ou em 2023. Sim, leu, bem, são completamente gratuitos e fazem parte de uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, «que tem como objetivo fomentar hábitos de leitura e aproximar os mais jovens das livrarias», aonde geralmente não entram sem os pais. Os jovens, que têm de residir em Portugal, têm direito a um cheque-livro de 20 euros, bastando, para o receber, inscreverem-se na plataforma e registarem-se. O voucher será então emitido após preenchidos os dados e pode ser trocado por um ou mais livros até 23 de Abril de 2025, que será... Dia do Livro! O endereço da plataforma vai abaixo:


https://souleitor.gov.pt


 

Almada em Madrid

Eu não sabia, confesso, mas Almada Negreiros passou um período da sua vida em Madrid que, ao que parece, foi bastante profícuo. Aconteceu entre o final dos anos 1920 e o princípio dos anos 1930 e deu-lhe a oportunidade de participar em tertúlias com os vanguardistas espanhóis que ocorriam em vários lugares, tais como o café Pombo, que ainda hoje é frequentado por poetas e pintores. Almada produziu em Madrid os murais para a residência de estudantes da Fundación del amo, na Cidade Universitária, os painés para o teatro Muñoz Seca e o Cinema Barceló e outras obras. Talvez por isso, a Embaixada de Portugal em Madrid organize, nos dias 23 e 30 de Novembro e 14 de Dezembro, visitas guiadas à Madrid de Almada Negreiros, que começam no Museu Rainha Sofia que até do dia 6 de Janeiro tem em exposição o Auto-Retrato de Grupo, obra do pintor modernista que costuma estar, se não erro, no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. Se vive em Madrid, não perca. Inscreva-se em: hola@laliminal.com


 


 


 

Ovídio

A filha de um amigo espanhol tirou o curso de Literaturas Clássicas e é hoje professora na Universidade de Manchester, onde se doutorou. Contou-nos, porém, que nem sempre é fácil ensinar Ovídio, sobretudo A Arte de Amar; antes de começar, é obrigada a explicar aos seus alunos que este autor romano nascido pouco antes de Cristo fala por vezes das mulheres de uma forma que hoje seria considerada inaceitável. E o problema é que os estudantes (mais as estudantes, na verdade) podem simplesmente recusar-se a estudar a obra, e até a ler o autor... Bem, por cá o professor Carlos Ascenso André está a traduzir toda a obra de Ovídio, e recentemente saiu Remédios contra o Amor, publicado em versão bilingue, o que (creio eu) é uma novidade. Espero que nas nossas universidades as raparigas não resistam a lê-lo, até porque, segundo o tradutor sugere, «os Remedia amoris eram bem mais do que o divertimento poético que pareciam, admitindo uma revisão do lugar da mulher, que assume um papel muito mais profundo nestes poemas». Leia-se, pois!

O que ando a ler

Oh, diabo, com o feriado na semana passada, esqueci-me completamente do post mensal sobre as minhas (e as vossas) leituras. Mil perdões. No dia 1, estava eu a ler o mais recente romance de Possidónio Cachapa, A Selva Dentro de Casa, cuja acção decorre no período da Guerra Colonial e tem por protagonista uma criança que vive numa aldeia com a mãe (o pai estava sempre a desaparecer e acabou mesmo por pedir a separação para poder viver com outra mulher). Enquanto nos conta (sim, o narrador é essa criança) a sua vida difícil (pobreza, professores violentos, mãe gelada, ausência do pai...), vamos sabendo do seu tio Quim, um jovem de vinte anos que combate em África e suporta de tudo (medo, mortes de amigos, tiros, até uma cobra enrolada na sua perna ferida). É um livro que parece ter sido escrito num tempo em que se evocava mais frequentemente o rural na literatura (a história passa-se no Alentejo), e constitui um bom retrato de  uma época que eu ainda vivi na infância, com madrinhas de guerra, aerogramas e soldados desejando feliz Natal e um ano cheio de «propriedades» aos familiares do rectângulo televisivo. A preto e branco, claro.

Palavrinhas

Um dia destes lembrei-me de que em tempos escrevia muitas vezes aqui no blogue sobre palavras estranhas (ou, pelo menos, palavras que faziam pensar) e ia investigar a respectiva origem. Há uns tempos, encontrei uma dessas palavras num livro de Mário Cláudio (é onde encontro mais preciosidades deste tipo) e há dias vi que a tinha anotado num papel, como a pedir que investigasse sobre ela, mas ainda não o tinha feito. A palavra é «algebrista», mas, no contexto, não tinha mesmo nada a ver com matemática, embora o termo também queira dizer, evidentemente, um especialista em álgebra. Parece que em certos locais, o algebrista é um endireita, e vamos lá então saber que relação tem a álgebra com este antepassado do osteopata. Indo às origens, descobrimos então que o vocábulo «álgebra» (começa com al, note-se) deriva do árabe «al-jabr», que significa originalmente qualquer coisa como a «arte de reunir ossos quebrados». Está, pois, explicado que um endireita, mesmo sem saber matemática, possa ter o nome de algebrista. Há coisas mesmo giras nesta nossa língua, não há?


 


 

O novo romance de Miguel Real

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O nosso querido autor Miguel Real nunca está parado. Vemo-lo a estudar na Biblioteca Nacional, a  participar em colóquios e histórias da literatura, a escrever artigos sobre colegas, biografias de grandes nomes, recensões a livros... Mas a verdade é que, depois de Cadáveres às Costas, de 2018, nunca mais nos entregava um romance, e já estávamos com água na boca. Graças a Deus, acabou por chegar a novidade: havia romance para 2024 e sobre um tema bem polémico, uma vez que se tratava da vida de Jesus contada pelo próprio. Assistirão portanto os leitores a muitos episódios que já conhecem (mas vistos por uma nova perspectiva) e a outros que desconhecem em absoluto, mais secretos e íntimos. Claro que Miguel Real teve a belíssima ideia de convidar um sacerdote para apresentar o seu livro e o lançamento é hoje na Livraria Buchholz em Lisboa. Espero que apareçam, pois o convite segue abaixo.


 


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Prémio LeYa

Amanhã, pelas 12h00, será anunciado mais um vencedor do Prémio LeYa (ou não). Este prémio, lançado em 2007, no ano da fundação da LeYa, já nos trouxe uma boa quantidade de autores novos, o que é sempre bom, embora tenha havido dois ou três anos em que não foi atribuído por não se encontrar entre os candidatos um romance que o merecesse. Já o venceram escritores de várias latitudes (de Moçambique, de Portugal e do Brasil) e de várias idades, o mais novo dos quais foi Afonso Reis Cabral, que tinha apenas 25 anos. Até hoje, só uma mulher o venceu (Gabriela Ruivo Trindade), embora tenham sido publicadas muitas obras finalistas de mulheres, entre as quais Ana Margarida de Carvalho, Isabel Rio Novo ou Susana Piedade, para citar alguns nomes. O júri também se foi alterando ao longo do tempo por várias razões (uma delas porque era importante ter sempre pessoas dos vários países de língua portuguesa e alguns membros destes países desistiram ao fim de uns quantos anos, outra por haver poucas mulheres). Mesmo assim, o saldo tem sido positivo, sobretudo (risos) para quem leva a massa para casa... Vamos estar atentos ao meio-dia, tipo anúncio do Prémio Nobel? Eu vou.

Excerto da Quinzena

(Como sexta foi feriado, chega só hoje.)


Ao que parece, quando era nova, a mulher era «mesmo muito inteligente» – algo que a mãe, durante o seu último ano de tratamento do cancro, tinha aproveitado todas as oportunidades para lhe recordar. Como se, antes de mor­rer, esta fosse a única coisa que ela tinha de deixar absolutamente clara.


Em termos de linguagem, esse epíteto podia bem ser ver­dadeiro. Aos quatro anos, e sem que ninguém lhe ensinasse, já tinha um bom domínio do hangul, o alfabeto coreano. Des­conhecendo por completo o que eram consoantes e vogais, tinha decorado combinações de sílabas como se fossem uni­dades. Quando fez seis anos, o irmão mais velho explicou-lhe a estrutura do alfabeto hangul, papagueando o que o seu pro­fessor tinha dito. Enquanto o ouvia, tudo lhe pareceu muito vago, mas acabou por passar toda a tarde daquele início da primavera de cócoras no pátio, preocupada com a ideia das consoantes e vogais. Foi nessa altura que descobriu a dife­rença subtil entre o som ㄴ quando pronunciado na pala­vra 나, na, e quando pronunciado na palavra 니, nih; depois disso, percebeu que ㅅ tinha um som diferente em 사, sah, e em 시, shi. Recapitulando todas as combinações possíveis de sílabas, descobriu que a única que não existia na sua lín­gua era ㅣ, ih, combinado com ㅡ, eu, e por essa ordem, razão pela qual era impossível escrevê-la.


Essas descobertas triviais tinham sido para ela tão emocionantes e chocantes que quando, mais de trinta anos depois, o terapeuta lhe perguntou qual era a sua memória mais viva, o que lhe veio à mente foi nada mais nada menos do que a luz do sol que batia no quintal naquele dia. O calor crescente nas suas costas e na nuca. As letras que ela tinha escrevinhado na terra com um pau. A promessa maravilhosa dos fonemas, que se tinham combinado de uma forma tão ténue.


Depois de entrar para a escola primária, começou a ano­tar vocabulário na parte de trás do seu diário. Sem propósito nem contexto, apenas uma lista de palavras que a impres­sionaram; entre elas, a que considerava mais valiosa era 숲. Na página, este monossílabo parecia um antigo pagode: ㅍ, as fundações, ㅜ, a estrutura principal, ㅅ, a parte de cima. Gostava da sensação de o pronunciar: ㅅ–ㅜ–ㅍ, s–oo–p, a sensação de, primeiro, franzir os lábios e, depois, soltar o ar lentamente. E, por fim, os lábios a fecharem-se. Uma palavra terminada em silêncio. Fascinada por esta palavra em que pronúncia, significado e forma se entrelaçavam por entre a quietude, escreveu: 숲. 숲. Florestas.


E, no entanto, apesar de a mãe a recordar como sendo «mesmo muito inteligente», ela foi uma criança que passou pela primária e pelo resto do ensino básico sem atrair a aten­ção de ninguém. Não arranjava problemas nem tinha notas impressionantes. Sim, tinha algumas amigas, mas fora da escola não se dava com ninguém. O único tempo que pas­sava à frente do espelho era quando estava a lavar a cara; não era excitável como as outras miúdas da escola e, prati­camente, nunca foi incomodada por vagos desejos român­ticos. Quando as aulas acabavam, ia para a biblioteca local e lia um livro que não estivesse relacionado com a matéria das aulas, levava depois alguns livros para casa, aninhava-se debaixo do cobertor e adormecia a ler. A única pessoa que sabia que a sua vida estava violentamente dividida em duas era ela própria. As palavras que anotava na parte de trás do diário contorciam-se por vontade própria, formando frases estranhas. De vez em quando, essas palavras metiam-se no seu sono como espetos, fazendo-a acordar assustada várias vezes por noite. Dormia cada vez menos, era cada vez mais dominada por estímulos sensoriais e, por vezes, uma dor inexplicável queimava-lhe o plexo solar como se fosse um ferro de marcar.


A coisa mais dolorosa era a forma horrivelmente distinta como as palavras soavam quando abria a boca e as empurrava para fora, uma a uma. Mesmo a frase mais despropositada continha completude e incompletude, verdade e mentira, beleza e fealdade, com a fria claridade do gelo. Brancas, saindo como fio de aranha da sua língua e pela sua mão, essas frases eram vergonhosas. Queria vomitar. Queria gritar.


Han Kang, Lições de Grego, trad. Maria do Carmo Figueira