Mensagens

A mostrar mensagens de setembro, 2019

Forum Fantástico

Decorre na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Lisboa, no bairro de Telheiras, de 11 a 13 de Outubro, o Fórum Fantástico 2019, orientado pelo jornalista e animador João Morales. O programa, de que abaixo deixo o link, inclui lançamentos de livros, mesas-redondas, sessões de autógrafos, projecção de filmes, worskshops vários, jogos literários e outros, exposições e muito mais. Sublinho a conferência O Futuro da Ficção pelo cineasta António-Pedro Vasconcelos, no sábado 12, às 15h45, certamente baseada num livro homónimo de que gosto muito e foi dado à estampa pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. A entrada é livre.


https://forumfantastico.wordpress.com/programa-do-forum-fantastico-2019/


Este já histórico encontro é realizado anualmente pela Epica – Associação Portuguesa do fantástico nas Artes com o apoio da Junta de Freguesia do Lumiar e da BLX – Rede de Bibliotecas de Lisboa e congrega diversas actividades e convidados, em torno do Fantástico, da Fantasia, da Ficção Científica e do Horror.

Crónica e celebração

Imagem

Hoje é dia de crónica. Ela aqui vai:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/14-set-2019/interior/os-deuses-das-moscas-11298602.html


Amanhã, na Fundação Calouste Gulbenkian, celebram-se os 40 anos de vida literária de António Lobo Antunes. Um dia inteirinho dedicado ao escritor pela voz de várias personalidades. Fica o convite para passar um sábado diferente. Se estiver longe, pode acompanhar por aqui:


https://www.youtube.com/watch?v=IVOl-KKIWgo


 


e-card (2).jpg


 

Fingir

Imagem

«Ficção» vem de «fingir», mas, curiosamente, no livro de que hoje vos falo, é sobretudo na pintura que se finge muito. Este romance, Hotel Melancólico, que é a segunda obra da argentina María Gainza e menos fragmentária do que O Nervo Óptico, está quase a pousar nas mesas das livrarias (sábado já deve estar à mostra em alguns sítios) e fala de falsários e falsificações, o que não é estranho se pensarmos que a autora é crítica de arte. A história reza assim: o tio da narradora, farto de a ver sem fazer nada, arranja-lhe emprego num banco para trabalhar com uma avaliadora de obras de arte. E, contra todas as expectativas, o ofício torna-se fascinante, não só pelas incríveis descobertas sobre falsificações, mas sobretudo pelas histórias secretas que a chefe acaba por lhe contar, uma das quais é a do Hotel Melancólico, onde viviam artistas que copiavam quadros para ganharem a vida e por onde passou a misteriosa Negra, que se especializara em falsificar a obra de uma pintora famosa que fazia retratos da alta-sociedade de Buenos Aires. Um belo dia, porém, a chefe estranhamente não aparece para trabalhar e o mais certo é que lhe tenha acontecido algo de grave; mas, se assim for, como continuar a viver sem saber o fim de todas aquelas histórias que ficaram a meio? É uma delícia este livro, onde o que é real parece inventado e vice-versa.


 


9789722068215_hotel_melancolico.jpg


 

Avant la lettre?

Hoje em dia estamos sempre a falar do politicamente correcto, até porque em nome dele se tem chegado a extremos de uma idiotice gritante. Mas lembro-me de que, ainda nos anos 1980, li um livro de crónicas de um historiador americano que apelava já para os perigos da doutrina do politicamente correcto, falando de um grupo feminista que queria mudar o vocábulo «woman» para «womin» só para não ter a partícula «man» lá dentro. Também o grande Julian Barnes, de quem li nestas férias O Papagaio de Flaubert (como é que ainda não o tinha lido é um mistério), escreve nesta obra vencedora de muitos prémios (curiosamente, tanto de ficção como de ensaio, porque se trata de um híbrido literário) muitas passagens que falam do politicamente correcto, entre elas a que cito abaixo:


 


«Hoje evita-se usar a palavra louco. Que disparate. Os poucos psiquiatras por quem tenho respeito falam sempre da loucura das pessoas. Usam as palavras curtas, simples, autênticas. Não digo […] desordem de personalidade […] Digo doida, é isso que digo. Doida tem o som certo, é uma palavra vulgar, uma palavra que nos diz como a loucura pode vir bater-nos à porta como uma camioneta de entrega de encomendas. As coisas horríveis também são vulgares.»


 


Um dia destes volto a este livro notável aqui no blog. Hoje foi só para sublinhar as tolices que por aí andam.

Testamento

Agora, que me vou poder passar a queixar de ser sexagenária (oh, como detesto a palavra), não posso deixar de falar de um livro que foi recentemente reeditado pela Quetzal de um grandíssimo poeta português que acabava de cumprir esses mesmos 60 anos quando o escreveu. Falo de Vasco Graça Moura e do seu testamento – Testamento de VGM, para ser mais precisa – que se republica no quinto aniversário da sua morte e é, como o próprio autor disse oportunamente, «um divertimento muito sério». Citando a editora, trata-se de «um poema autobiográfico» em que Graça Moura, com a elegância e o talento de sempre, «canta os amores, trabalhos, filhos, amigos, inimigos, a cidade natal, o ofício literário, a paixão pela pintura e a sua natureza mais íntima.» Fica aqui um exemplo do que vos espera e a recomendação: leiam-no (ao poema e ao livro).


 


deixo a meus filhos versos cultos


e também prosas às centenas


(os meus dois filhos são adultos


e as minhas filhas são pequenas)


e muito amor: não deixo apenas,


tudo somado, alguns direitos,


e fui bom pai, nunca fiz cenas


e fi-los sãos e escorreitos.

O pão que o diabo amassou

Imagem

Mário Lúcio Sousa, o escritor e músico cabo-verdiano autor dos romances O Novíssimo Testamento e Biografia do Língua, ambos premiados e publicados pela D. Quixote, regressa este mês com O Diabo Foi Meu Padeiro, um belíssimo romance sobre a vida de centenas de presos no campo de concentração do Tarrafal, desde a sua fundação até ao seu encerramento (sendo o Tarrafal também o lugar de criação do autor, que ali viveu até ir para a universidade). Por este campo (e pelas privações, doenças e torturas várias) passam muitos homens (no final, uma lista refere-os a todos) vindos da Metrópole e também de Angola e da Guiné, já depois de o campo ter fechado as portas aos portugueses. A várias vozes, todas elas de Pedros condenados à prisão num ano distinto e com um director distinto, esta é uma obra de ficção que interessa também como documento e que ganhou um belo elogio do escritor António Lobo Antunes, muito aproriado a um livro com «padeiro» no título: «Bom como o pão.» E eu, que adoro pão, adorei publicar este livro.


 


diabopadeiro.jpg


 

Crónica & Pessoa

Hoje é dia de crónica aqui no blog. O link aí vai:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/07-set-2019/interior/vacinados-11272820.html


 


Na editora Tinta-da-China, sai daqui a uma semana, mais coisa menos coisa, uma novela policial de Steffen Dix intitulada O Mistério da Boca do Inferno, que trata da relação do nosso Fernando Pessoa com o ocultista Aleister Crowley. A tradução é de Sofia Rodrigues, com coordenação do especialista na obra de Pessoa, o colombiano Jeronimo Pizarro, que dirige a colecção pessoana naquela editora.

Mais nervos

Temos certamente razões para andar nervosos (o clima, a saúde, as eleições, o estado do mundo...), mas estes nervos de que venho falar hoje são bem bons. É bonito ver que, num país que lê tão poucochinho (estou sempre a falar disto, bem sei, mas é verdade), uma revista de poesia como a Nervo subsiste e está melhor a cada número. Já vai em meia dúzia, e o número 6 sai com poemas de muitos autores portugueses consagrados (José Emílio Nelson ou Luís Quintais, por exemplo), poetas a caminho de o serem (Marta Chaves ou Renata Correia Botelho) e poetas (para mim, pelo menos) desconhecidos (Elsa Alves ou Teresa M. G. Jardim). A eles se juntam os estrangeiros Josep M. Rodriguez, traduzido por André Domingues, e Mordechai Geldman, traduzido por João Paulo Esteves da Silva (sim, o músico que é também poeta e tradutor). Vamos lá então lê-los e ficar ainda mais nervosos.

50 anos a escrever

Não sei se já aqui o disse – creio que sim – mas considero uma verdadeira proeza um escritor completar 50 anos de vida literária e ainda ter tantos planos para romances e outros projectos de escrita na gaveta. É o caso de Mário Cláudio, que se estreou em 1969 com um livro de poesia e, depois disso, nunca mais parou de nos encantar, tendo publicado em quase todos os géneros, do teatro à crónica, do romance à monografia, do conto à poesia, e sido premiado bastas vezes em todos eles. Hoje, no âmbito da Feira do Livro do Porto, vou estar na Invicta a assistir a uma sessão que tem por centro o escritor (já homenageado com uma tília no parque onde a feira se realiza há uns três anos). Conduzida por Nuno Artur Silva, consta da apresentação de um livro de Martinho Soares sobre a obra do escritor (O Essencial sobre Mário Cláudio) feita por Ana Paula Arnault, seguida de uma conversa com o autor do ensaio e o escritor sobre estes cinquenta anos de produção literária, cujo título mais recente é Tríptico da Salvação, leitura de Verão de Marcelo Rebelo de Sousa. O Presidente, de resto, condecorou Mário Cláudio no dia da abertura da Festa do Livro de Belém pelo seu fantástico percurso literário. Amanhã, espero, estarei de volta.

Um género

Embora já exista há bastante tempo, é sobretudo na actualidade que o romance gráfico está a dar que falar, mais ainda por Sabrina (já aqui falei disto) ter sido o primeiro livro do género seleccionado para a final do Man Booker Prize em 2018 (não ganhou mas despertou a atenção de milhões de pessoas no mundo inteiro e já está traduzido cá na terra). Li no The Guardian que, até 1989, era proibido num livro de BD ou afim reproduzirem-se cenas de sexo, porque o género era visto como mais popular e destinado a leitores de todas as idades. Curiosamente, hoje os romances gráficos podem ser mesmo «gráficos» em matéria de sexo, violência sexual, nudez, exploração do corpo (leio no mesmo artigo que é uma reacção ao puritanismo anterior e uma forma de «empoderamento», essa palavra que hoje se usa quiçá demasiado frequentemente). Parece até que o género «romance gráfico» foi essencial para as autoras-mulheres se despirem, metaforicamente falando, e pela primeira vez exporem o seu corpo tal como o vêem e acham que ele é visto por homens e mulheres. Em Portugal, os romances gráficos começaram a multiplicar-se – e ora se trata de obras originalmente escritas e desenhadas para este formato, como Sabrina, ora de adaptações de livros clássicos (Albert Camus, Harper Lee, Anne Frank, etc.). Fiquemos atentos.

Bestiário

Inspirando-me num artigo muito divertido de García Ortega e Pérez Zuñiga na revista Zendra, falo-vos hoje da relação dos animais com os livros e vice-versa. Antes de mais, claro, as traças, os ácaros e os peixinhos-de-prata – esses horrores que devoram livros no pior dos sentidos. Depois falo de um animal fundador – a serpente – que está dentro de todas as Bíblias para mal dos Adões e  Evas deste mundo; não será mesmo assim o único réptil da literatura, se o dragão, tanto no livro de Kazuo Ishiguro O Gigante Enterrado como em Eragon, for um réptil. No que toca a insectos, temos a famosa barata da Metamorfose, de Kafka, as moscas de O Deus das Moscas, de William Golding, ou o bicharoco (já não me lembro do nome) que se infiltra na Arca de Noé em Uma História do Mundo em Dez Capítulos e Meio, de Julian Barnes. Cavalos não faltam, por certo, mas o mais famoso é seguramente o Rocinante de D. Quixote. No mar, os animais mais conhecidos serão a baleia de Moby Dick e o peixe terrível de O Velho e o Mar. Já quanto a animais comuns, lembro-me de repente dos terríveis cães ao serviço dos nazis em Cães Pretos, de Ian McEwan, da cadela de La Perra, de Pilar Quintana, que em breve publicarei, do Cão como Nós, de Manuel Alegre, ou de Buck, de O Apelo da Selva, de Jack London (mas há muitos mais). Existe um burro maravilhoso em Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez, um gato em Kafka à beira mar, de Murakami, montes de gatos em Uma Casa na Escuridão, de José Luís Peixoto, vários gatos naquele livro de Luís Sepúlveda que tem igualmente uma gaivota, e fico-me por aqui, de contrário nunca mais acabaria o post. Bestiário, já agora, é um fantástico livro de Cortázar. Divirtam-se.

Crónica e oficinas de escrita

Hoje é dia de crónica, e o link aqui vai:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/27-jul-2019/interior/o-fim-da-correspondencia-11150192.html


 


Chegou também o regresso das Sessões Ícone na Escola de Escritas EC.ON, na Travessa do Possolo, em Lisboa. No dia 7, esteve presente a romancista Alexandra Lucas Coelho e ainda este mês, no dia 21, o poeta Miguel Martins é o escritor convidado. Mas, até ao fim do ano, vão participar Valter Hugo Mãe, Andreia C. Faria, José Rui Teixeira, Joana Bértholo, Marta Bernardes, Sérgio Godinho, Rodrigo Guedes de Carvalho, enfim, consulte a página e inscreva-se:


http://escritacriativaonline.net/


 

Amiga dos livros

No mesmo ano em que uma sondagem do semanário Expresso revelava que 43% dos portugueses não liam um único livro há seis meses, leio que na Finlândia as pessoas são bastante mais amigas da leitura e que são vendidos por ano no país cerca de 20 milhões de livros, o que indica aproximadamente 4 livros por pessoa, incluindo as crianças. Um em seis finlandeses entre os 15 e os 79 anos compra em média 10 livros por ano; e não se pode dizer que as novas tecnologias tenham afectado estes bons hábitos, pois em 1995 os números eram significativamente mais baixos. Há também muita gente (40% da população) que requisita livros nas bibliotecas regularmente (pelo menos, duas vezes por mês). As bibliotecas são mais de 800 (entre centrais e filiais), sem contar com as itinerantes (150), que circulam pelo país com cerca de 4000 títulos, representam 10% dos empréstimos totais de livros e chegam a percorrer 50 000 quilómetros num ano. O que é ainda melhor é que as bibliotecas adquirem todos os anos grandes quantidades de livros novos, investindo cerca de 300 euros por cidadão (!!!) em livros, revistas, jornais e outros materiais. Caramba, que paraíso.

A arte do romance

Já aqui anunciei, creio que em finais de Junho, a saída do novo romance de José Luís Peixoto, Autobiografia. Para começar, é bastante intrigante chamar a um romance Autobiografia; e talvez seja ainda um maior atrevimento meter dentro de uma Autobiografia o autor de romances José Saramago (sim, o nosso Nobel da Literatura) e um autor mais jovem que tem com ele uma relação formal e reverente, a quem é encomendada uma biografia do grande escritor (biografia que ele tentará transformar numa obra de cariz ficcional, como, de resto, é o próprio romance que estamos a ler). Podíamos também pensar, já agora, que o romance que estamos a ler é autobiográfico (afinal, José Luís Peixoto recebeu o Prémio Literário José Saramago das mãos do próprio Saramago) e que o protagonista, que devia escrever a biografia de Saramago, mas nunca o faz, é o próprio autor desta Autobiografia (que, por acaso, é um romance). Contudo, parece-me que não há aqui exactamente um espelho: como publiquei os seus primeiros livros e conheci JLP nessa altura mais de perto, há no romance (perdão, na Autobiografia) rotinas que não podiam estar mais longe das que relembro; mas, com o avançar do tempo, tudo é possível, claro (algumas coisas, sinceramente, espero que sejam só ficção). Como o Extraordinário Artur já referiu no dia 1, também tem graça encontrar nomes de personagens dos romances de Saramago (e um senhorio amoroso chamado Bartolomeu de Gusmão é engraçadíssimo). Porém, o que para já posso dizer sobre este livro é que ele não tem nada que ver com os livros de ficção de JLP que li (e foram todos) e que é um curioso exercício literário, algo muito mais experimental do que é costume (mesmo que a criança neste livro, filho da Lídia que Artur referiu, também esteja «em ruínas»). Só lendo.

Festa com jantar

Imagem

Na próxima sexta começa mais uma Festa do Livro da Amadora, que se prolonga até domingo à noite. Este ano o tema que dá mote ao certame é a biografia, o que faz, aliás, todo o sentido num ano em que a produção portuguesa alimentou o género com obras que já se sabia iriam dar que falar sobre a vida de escritores como Sophia, Cesariny ou Agustina, e a ficção se deixou, de algum modo, contaminar pela biografia, com livros «híbridos» como os de Paulo M. Morais ou José Luís Peixoto. Alguns dos autores dos mencioandos livros (e muitos outros) vão estar na Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos em conversas sobre tudo o que tem que ver com «bio», vida; haverá também oficinas, música, uma livraria, e a festa termina com um jantar literário no domingo às 20h30, aberto ao público, para o qual fui convidada juntamente com o jornalista Carlos Vaz Marques para dizer também alguma coisa sobre a vida, mesmo que me tenham ensinado que não se fala enquanto se come. Se algum dos Extraordinários quiser aparecer por lá, é muito bem-vindo, os dados vão abaixo:


Inscrição prévia em bibliotecas@cm-amadora.pt ou 214369054 até 13 de Setembro. Preço: 10 euros.


FestaLivro_Evento_dia15_20h30.jpg


 


 

Portugal ao correr da pe(r)na

Imagem

Se nunca atravessou o País de norte a sul – a pé, quero eu dizer –, pode fazê-lo agora por interposta pessoa e, além disso, guardando o encanto da literatura. Afonso Reis Cabral – um dos mais jovens romancistas portugueses, vencedor do Prémio LeYa com O Meu Irmão e autor também do romance Pão de Açúcar, sobre o homicídio da transexual Gisberta – saiu da sua «zona de conforto» e pôs-se a caminho de um livro de não-ficção sem o saber. O sonho era percorrer Portugal a pé pela mítica Estrada Nacional 2, o que fez com coragem e um par de ténis milagrosos, ora debaixo de chuva, ora debaixo de um sol ardente, ao longo de 24 dias; no fim de cada um, escrevia no Facebook o resumo da sua jornada, mas o resultado era muito mais do que um simples relato, porque estamos a falar de um Escritor com E maiúsculo; e, por isso, a sua bonita prosa foi convidando mais e mais leitores (muitos deles preocupadíssimos com as caminhadas diárias de 40 quilómetros e assustados enquanto o texto não aparecia, prevendo alguma tragédia) e desencadeando não raro cerca de 500 comentários ou mais. Nos dias derradeiros, quando Afonso se aproximava da meta, os seus leitores manifestavam já saudades daqueles textos e pena de que a viagem estivesse no fim. Por isso, não se podia deixar morrer ali a aventura. Agora, que tudo acabou (e bem), Leva-me Contigo – Portugal a Pé pela EN2 está aí, revisto, refeito, aumentado e ilustrado: é um livro que atesta a solidariedade dos portugueses (que deixaram almoços pagos a um rapaz que nem conheciam, lhe ofereceram iogurtes, lhe deram dormida, o acompanharam em alguns troços) e que vale muito a pena ler por todas as razões e mais algumas, incluindo porque pode lá estar a sua voz. Experimente e verá.


 


9789722068178_leva_me_contigo.jpg


 

Crónica e fabulário

Aqui vai a crónica, porque hoje é sexta-feira:


 


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/20-jul-2019/interior/o-corpo-de-cristo--11126796.html


 


Especialmente para quem gosta dos surrealistas, recomendo a leitura de um livrinho de Graciano Seixas, aliás, Côta Seixas, ilustrado por Tiago Seixas, intitulado Fabulário Amoral de Fauna & Flora, em que há ovelhas negras e de outras cores, uma pulga raptada por um cão num orfanato, anjos da Guarda e carapaus de corrida. Foi publicado pelas Edições Sem Nome e está à venda, por exemplo, na Leituria, na Poesia Incompleta e na Férin em Lisboa e, no Porto, na Poetria ou na Flâneur. Um exemplo:


 


O Sol para a Lua:


– A luar?


– Sim... e tu?


– Solzinho, muito solzinho. E tu?


– Tenho fases.


 

Sempre Lorca

A revelação do El País em 2012 da que seria provavelmente a última carta escrita por García Lorca, juntamente com um poema de amor inédito, teve uma enorme repercussão internacional. Trata-se de uma carta ao estudante de dezanove anos Juan Ramírez de Lucas, que em Julho de 1936, altura em que carta foi escrita, seria o namorado com quem Lorca planeava fugir para o México, sabendo porém que o rapaz não era maior de idade e precisaria de autorização do pai para deixar Espanha. É a última carta que Juan terá recebido do amante, antes de este ter sido fuzilado em Agosto de 1936 «por rojo y maricón», como refere o El País; e o que é mais engraçado: nem ao homem ao lado de quem viveu mais de trinta anos contou Juan desse seu relacionamento de juventude com Lorca, o que é incrível numa altura em que toda a gente quer reconhecimento público e as luzes da ribalta à sua volta. Sabe-se agora que, antes de morrer, Juan Ramírez deixou alguns documentos com a irmã, dizendo que gostaria de que um dia vissem a luz. Ela terá talvez partilhado a carta com o jornal, não sei. Fiquemos, então, à espera de que a família de Lorca (metade dela avessa à exposição, metade dela com vontade de partilhar tudo) se decida a mostrar-nos mais uns inéditos do grande senhor da poesia espanhola. (Esta história foi relembrada no último 18 de Agosto, data da morte do escritor, mas, apesar de a descoberta já ter uns anitos, vale sempre a pena falar dela.)

O poder da palavra

Não sei se sabem que Dulce Maria Cardoso é, desde há algum tempo, cronista da Visão; mas, se não sabiam, ide já a correr lê-la, porque as suas crónicas são deliciosas! Vejam lá que, numa das últimas, a escritora contava que, em miúda, desobedecendo à família e mentindo a pais e irmã, correu destemida para o mar da praia de S. Jorge, em Luanda, não sabendo nadar; e quase se afogava não fosse ter aparecido um tropa que a salvou das ondas que a arrastavam para longe, trazendo-a para o areal, onde ela se fartou de vomitar água salgada. O texto é muito vivo, e nele Dulce Maria Cardoso lamentava ter perdido o rasto do dito tropa, que durante algum tempo ainda convivera com a família agradecida em Luanda, mas de quem nada sabia desde 1975, quando voltara para Portugal na Ponte Aérea, facto que, de resto, inspiraria o seu romance O Retorno; não se lembrava sequer do seu nome, achando isso terrivelmente injusto para alguém responsável por lhe ter salvado a vida... Só que a palavra tem um poder incrível e às vezes chega muito longe. O «tropa» infelizmente já não está vivo, mas está vivíssima da costa uma sobrinha sua, que vive na Madeira e se lembra de o tio contar a história de uma menina chamada Dulce Maria que resgatara dos mares de Luanda... E, 47 anos depois, a história desta descoberta também acabou escrita na revista Visão, e Dulce Maria Cardoso já nunca mais se vai esquecer do nome do seu salvador.

Muito por onde escolher

No regresso de férias, recebo a revista Magazine do El Corte Inglés. Os cursos variados que se anunciam neste número, tanto para as instalações de Lisboa como para as de Gaia, não cessam de me surpreender – e a verdade é que, se trabalhasse mais perto do local onde são ministrados, não haveria de falhar uns quantos, até porque as inscrições são gratuitas. Falo, por exemplo, de um ciclo de conferências a cargo de Bagão Félix (um político e economista que estimo muito – e que percebe imenso de árvores) sobre a Emergência da Ética (de 9 de Outubro a 6 de Novembro) ou de uma sessão que promete sobre o poeta Daniel Faria, conduzida por José Anjos, Cláudia R. Sampaio, que farão leituras, e João Morais a acompanhá-los musicalmente (2 de Outubro). Mas há muito mais por onde escolher – do cinema à música, da história à escrita criativa, da filosofia ao vinho… e até ao amor (um psicólogo falará disso). Se não recebeu a revista, pode consultar a página do Âmbito Cultural do El Corte Inglés e ver o que lhe interessa. Antes que se acabem as vagas.

Bem-vindos

Ora, mais uma vez bem-vindos (se é que ainda aí estão) ao Horas Extraordinárias depois de umas férias que espero tenham sido muito boas (as minhas, passadas a saltitar de um lugar para o outro, foram óptimas). Hoje é dia de dizer o que ando a ler, mas prefiro falar de um romance que li nestas férias – História de Uma Família Decente, de Rosa Ventrella –, obra que é para os leitores que apreciam sagas familiares e histórias bem contadas e cinematográficas, e que eu diria ser muito indicado para todos os amantes de A Amiga Genial, de Elena Ferrante (seja lá ela quem for). O enredo centra-se numa história de amor entre dois amigos de infância num bairro difícil e violento de Bari e pode ser visto, por um lado, como uma espécie de Romeu e Julieta contemporâneo com um final muito diferente (eu não disse feliz, reparem), mas também como um relato das condições de vida dos moradores de um bairro de pescadores da Itália do século XX. Lê-se num ápice e já foi comprado por uma produtora de cinema. Daqui só se pode esperar um belo filme, com actores belos – italianos, bem entendido. Fluente, sem gorduras, uma leitura sem espinhas.