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A mostrar mensagens de setembro, 2017

As sequelas

No meu tempo, «sequelas» eram efeitos ou consequências (marcas de uma doença, por exemplo), mas hoje o termo é usado a torto e a direito para designar a continuação (o seguimento, a sequência) de uma obra literária ou cinematográfica; e, a reboque, até se inventou o termo «prequela» quando o livro ou filme é sobre um período anterior ao tratado na obra original. Enfim, parece que as prequelas e sequelas estão na moda – e o mais estranho é que, no caso das escritas, até podem ser narradas e compostas por outros autores que não os legítimos, ou seja, os que criaram o enredo principal e as personagens. No entanto, que peso terá a questão do estilo contra o perigo de se interromper a saída e venda de um bom produto?… Veja-se, por exemplo, a série sueca Millenium, que não deixou de ser publicada depois de o autor ter morrido e vai certamente continuar a alimentar filmes suecos e americanos. Veja-se também a ideia de recriar Orgulho e Preconceito com zombies (sim, não estou a brincar) ou contratar um novo escritor para seguir com as aventuras de… Bond, James Bond. Os casos não param: desde Os Crimes do Monograma de Agatha Christie (mas escritos por Sophie Hannah) até ao Peter Pan e ao Drácula de Bram Stoker, passando pela sequência de E Tudo o Vento Levou e as aventuras de Winnie de Pooh, há de tudo, e os herdeiros dos criadores, pelos vistos, nem se importam muito.

De volta

Agora, que o Outono já se instalou, regressam as sessões Ler no Chiado organizadas e conduzidas pela jornalista Anabela Mota Ribeiro na Livraria Bertrand (do Chiado, claro), a mais antiga livraria portuguesa e uma das mais antigas do mundo ainda com actividade. Desta feita, o tema da conversa é pessoa e autor (não escrevi «escritor» porque é muito mais do que isso, e «autor» engloba também a sua actividade nas artes plásticas); mais concretamente, o senhor Almada Negreiros, que ainda recentemente foi objecto de uma exposição retrospectiva na Fundação Calouste Gulbenkian, cuja curadora, Mariana Pinto dos Santos, será, de resto, uma das intervenientes na sessão de hoje (às 18h30, faltou dizer). Além dela, poder-se-á ouvir o especialista em modernismo português Fernando Cabral Martins, professor da Universidade Nova de Lisboa, e ainda a grande actriz Maria do Céu Guerra, que, segundo leio na informação da iniciativa, se estreou justamente com um texto de Almada. Tudo boas razões para chegar mais tarde a casa.

Cemitérios

Na passagem da lista maior para a lista mais pequena (a dos seis finalistas) do Man Booker Prize, caiu curiosamente o livro de Arundhati Roy, O Ministério da Felicidade Suprema (ASA), candidato vinte anos depois de o seu antecessor, o romance-maravilha O Deus das Pequenas Coisas, ter ganho o galardão. O segundo romance da escritora indiana (pelo meio, ela escreveu muitos artigos e ensaios, mas não ficção) é um livro menos susceptível de reunir o consenso dos leitores, embora nele se mantenha esse estilo único da senhora Roy e o desenho de algumas personagens que dificilmente esqueceremos, como a hermafrodita Anjum ou a bela Tilo (que li algures ser uma espécie de alter ego da autora). Existindo muitas mais personagens neste livro do que no anterior, a verdade é que a profusão de nomes indianos (que não descortinamos imediatamente pertencerem a homens ou mulheres) emperra um pouco a leitura; e, se por um lado parece necessário ter já algumas noções sobre a questão de Caxemira para compreender o verdadeiro alcance desta história, por outro lado, aqui e ali também sentimos que existe uma certa pedagogia que torna o enredo um pouco menos fluido. Mesmo assim, ele deve ser lido, até porque tem algumas ideias belíssimas, como a da Casa de Hóspedes construída à roda das lápides de um cemitério num país onde, por acaso, os hindus não enterram os mortos. Também é num cemitério que decorre o polifónico romance de George Saunders, Lincoln no Bardo (Relógio d’Água), onde Abraham Lincoln passa uma noite junto ao túmulo do filho, morto uns dias antes. O autor – até aqui só de contos – foi sobejamente elogiado por esta obra, entre outros, por Zadie Smith, Jonathan Franzen e Thomas Pynchon. E o livro – esse – continua na short list do Man Booker. Os cemitérios estão na moda em literatura.

Releituras

Não tenho o hábito de reler o que escrevo depois de estar publicado – excepto, evidentemente, uma meia dúzia de poemas que soam bem em voz alta e repito na maioria das leituras ao vivo. Não sei, porém, como procedem os outros poetas: se se lêem com regularidade, se fazem como eu e acabam por se surpreender quando um dia encontram um texto seu que não se lembravam de ter escrito. Imagino que a tarefa seja, contudo, muito mais complicada para os romancistas. Não estou a ver um ficcionista ler um velho romance seu enquanto escreve um novo, mas, enfim, tudo é possível. Lembram-se de que há uns tempos Philip Roth disse que iria parar de escrever? Pois bem, enquanto não produziu obra literária, esteve a reler todos os romances que escreveu. Quase me apetece dizer: é obra! Num livro recente que colige a sua obra não ficcional – Why Write?, com entrevistas, discursos e artigos –, Roth, depois da releitura de O Complexo de Portnoy (escrito 45 anos antes), confessa que ficou simultaneamente chocado e contente com o que fez; chocado por ter sido na altura tão ousado, feliz por o livro o ter recordado disso mesmo. E, relativamente ao conjunto da obra ficcional, o balanço é afinal positivo: «Depois de acabar de a reler, concluo, fazendo eco das palavras de Joe Louis, um boxeur que é dos meus heróis: ‘Fiz o melhor que podia com o que tinha.’» Uma releitura que, pelos vistos, valeu a pena.

Escritor-Editor

Quando me pedem um depoimento sobre qualquer coisa, não é raro que debaixo do meu nome apareça escrito: Editora e escritora (ou vice versa). Não sou caso único em Portugal (lembro-me, por exemplo, de Francisco José Viegas, mas há outros exemplos); a mesma pessoa escrever e editar livros é, de resto, uma circunstância bastante comum no universo de língua inglesa. A grande escritora Toni Morrison (que ganhou o Nobel da Literatura) trabalhou muitos anos na Random House como editora, primeiro na área escolar e, depois de publicar o seu primeiro romance, no departamento de ficção. A canadiana Margaret Atwood teve a mesma função numa editora do seu país, tendo inclusivamente editado livros de Michael Ondaatje, o autor do famoso O Paciente Inglês. Também David Ebershoff, autor de livros como A Rapariga Dinamarquesa, foi até há bem pouco tempo editor e, ao que dizem, de muitos autores premiados, entre os quais Teju Cole, Joyce Carol Oates e David Mitchell. O mesmo acontece com o romancista Max Porter (não li ainda nada dele) que é, na Granta, o editor de autores como Rebecca Solnit e Han Kang e que diz que «o editor tem de ser parte revisor de provas, parte terapeuta». A lista inclui outros escritores, embora não muito conhecidos entre nós, dos quais destaco Gordon Lish, editor do celebérrimo Raymond Carver, que, segundo leio, tem peças de teatro que seriam uma boa réplica americana a Samuel Beckett e Thomas Bernhard, mas que é mais conhecido pelo seu trabalho na edição. Neste post, «editor» deve ser lido como pronúncia inglesa, pois não corresponde ao que publica, mas ao que lê e corrige o texto e organiza edições.

Oceanos

Com a venda da Portugal Telecom, o conhecido prémio literário PT, para obras em língua portuguesa publicadas no Brasil, esteve em risco de acabar, e valeu aos organizadores o Banco Itaú, que se tornou seu patrocinador, renomeando-o como Prémio Oceanos; com a mudança, o galardão deixou também de contemplar apenas livros publicados no Brasil, passando, a partir deste ano, a incluir títulos  publicados em Portugal nas categorias de poesia, romance e conto, tendo, de resto, uma curadora portuguesa (a jornalista Ana Sousa Dias). A primeira selecção está feita e há 51 livros na semifinal. Destes, 19 são de autores portugueses, desde logo os veteranos Lídia Jorge e Mário de Carvalho na categoria de conto. Na poesia, temos nada mais nada menos do que uma dezena de concorrentes de idades muito diferentes, de António Osório a Rui Lage ou Filipa Leal, a mostrar que os nossos poetas de todas as gerações se recomendam. Por fim, são sete os romances seleccionados – e fico muito contente porque publiquei três deles: Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, de Ana Margarida de Carvalho, Um Postal de Detroit, de João Ricardo Pedro, e Rio do Esquecimento, de Isabel Rio Novo. Vão ombrear com livros de Ana Teresa Pereira, Jaime Rocha ou Afonso Cruz e, claro, com muitíssimos romances de escritores brasileiros. Agora, há que esperar e ter esperança.

Censura russa

Dois dias depois de ter visto um interessante documentário sobre as Pussy Riot (não sei se se lembram delas), leio no The Guardian uma história tremenda que mostra bem o estado a que chegou o preconceito e o autoritarismo na Rússia, cem anos passados sobre a Revolução. A inglesa V. E. Schwab é autora de uma trilogia de livros fantásticos, Shades of Magic, com a qual obteve um enorme sucesso no Reino Unido, tendo mais de 50 000 seguidores só no Twitter. Os livros, que contam as aventuras de Kell, um mago que viaja através de quatro versões paralelas da cidade de Londres, são pouco convencionais no seu género, uma vez que incluem, entre outras personagens, um príncipe bissexual e uma carteirista de sexo indefinido (penso que ela se terá inspirado nas 50 Shades (Sombras) of Grey...). Como em muitos outros países, a trilogia foi vendida na Rússia e lá publicada – e a sua autora ficou obviamente contente por a ver traduzida. Porém, depois de os livros terem saído por lá, e através de um leitor russo que conhecia ambas as versões, descobriu que lhe cortaram todas as cenas gay e reescreveram uma boa parte do enredo sem lhe pedirem sequer permissão… Uma lei assinada pelo senhor Putin bane todas as referências a relacionamentos sexuais “não tradicionais” e, como tal, a obra foi censurada… Será que também modificaram Reviver o Passado em Brideshead e outros clássicos? Não me admirava nada...

Especialização

Sempre achei que, para escrever, é preciso ter talento – e que, por mais que os cursos de escrita criativa ajudem alguém a organizar-se e fazer opções mais sensatas e originais, tem de haver qualquer coisa inata em termos de génio e criatividade. Mesmo assim, não nego que partilhar ideias com um especialista ou alguém mais informado sobre literatura é certamente profícuo para quem queira dedicar-se à escrita – e, como tal, não deixo de partilhar neste blogue o anúncio de uma pós-graduação (penso que seja a primeira numa universidade portuguesa) em Escrita de Ficção, que terá lugar na Universidade Lusófona, em Lisboa, com direcção da escritora e jornalista Filipa Melo e colaboração dos Booktailors. Cito o dito anúncio: “O curso propõe aos estudantes um programa exclusivamente focado na escrita de ficção e visa proporcionar-lhes contacto com os principais momentos e conceitos da história da literatura, as técnicas e convenções mais relevantes da criação do texto ficcional e os elementos básicos da ficção.
 
A segunda fase de candidaturas decorre até 23 de setembro, com resultados a 28 do mesmo mês.” Se estiver interessado, pode consultar aqui:


 


https://www.ulusofona.pt/pos-graduacoes/escrita-de-ficcao?utm_source=booktailors&utm_medium=email&utm_campaign=assinatura

Atlas literário

A ideia é boa, embora me pareça que o trabalho seja interminável enquanto os escritores forem escrevendo livros passados em Portugal. Trata-se de um atlas da paisagem portuguesa que consta da literatura (O Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental, em execução), um projecto coordenado pela investigadora Ana Isabel Queiroz que compreende mais de 350 obras de mais de 170 escritores, do século XIX aos nossos dias, e pretende ser um “repositório de excertos literários” de livros escritos por autores do mundo inteiro (portugueses também – ou sobretudo) que incluam referências à paisagem portuguesa, assim permitindo aos leitores uma viagem pela literatura e pelo território ao mesmo tempo. A notícia dá como exemplo uma descrição da Praça do Comércio, em Lisboa, feita nada mais nada menos do que por Hans Christian Andersen, por causa de uma visita que fez à capital portuguesa em 1866; mas o atlas incluirá naturalmente muitos excertos de Viagens na Minha Terra, de Garrett, Portugal Pequenino, de Raul Brandão, Praias de Portugal, de Ramalho Ortigão, A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, Contos da Montanha, de Miguel Torga, ou Novelas do Minho, de Camilo Castelo Branco – e só estou a mencionar o mais óbvio. O mapa deve ser trabalho para muitas mãos e desconheço quando fica pronto, mas lá que vou gostar de lhe meter o nariz, não nego.

Traduzir o paraíso

Quando ainda editava obras de não-ficção, publiquei a certa altura um livro de Bill Gates, no qual se dizia que o mundo tinha mudado mais nos últimos 50 anos do que nos 500 anteriores. Pois bem, o número de traduções desse longuíssimo poema do século XVII chamado Paradise Lost (Paraíso Perdido), de John Milton – considerado um dos melhores livros de todos os tempos (Harold Bloom incluiu-o em O Cânone Ocidental, que também publiquei na Temas e Debates) –, foi, nos últimos 30 anos, muito maior do que nos 300 anos anteriores. A obra (que está dividida em dez livros) tem cerca de 300 traduções em 57 línguas, das mais «normais» (francês, alemão, hebraico ou castelhano) às mais estranhas (tâmil, persa, tonganês, galês e frísio). Estudiosos em todo o mundo reuniram-se para perceber quantas são as versões e porque, em certos países, houve mais de uma, chegando a interessantes conclusões, tais como que a publicação da obra coincide frequentemente com períodos de nacionalismo exacerbado ou de rebelião (e tudo vai estar explicado num livro intitulado Milton in Translation). Publicado originalmente em 1667, o poema sobre a desobediência de Adão ao comer o fruto proibido está disponível em português na editora Livros Cotovia com tradução do poeta Daniel Jonas, mas a obra já tinha tido uma tradução de Fernando da Costa Soares e Raul Mateus da Silva (feita, julgo eu, a partir da versão francesa), que também ainda se encontra à venda pela editora Húmus, e, pelo menos, outra mais antiga, do século XIX, pela pena do doutor António José de Lima Leitão. O pecado original nunca passa de moda.

Possuir

O Manel costuma dizer que, lá em casa, eu sou a leitora e ele o bibliófilo – e talvez tenha razão. Não tenho espírito de coleccionadora e o que amo acima de tudo nos livros é o texto. Claro que não sou indiferente a uma bonita edição de determinado livro ou a uma colecção bem feita obedecendo a um tema ou estratégia. Mas do que gosto mesmo é de ler e não me importaria de alienar parte da minha biblioteca se tivesse, por exemplo, de mudar para uma casa mais pequena e soubesse que não voltaria a ler esses livros. Não sou também, regra geral, agarrada às coisas, que substituo sem grandes desgostos, ou sequer possessiva. Talvez por isso me custe entender porque há malucos que pagam fortunas para possuir uma peúga de John Lennon; talvez por isso me custe ver agora que os herdeiros do meu poeta favorito – o irlandês William Butler Yeats – vão leiloar centenas de cartas de amor (incluindo 130 manuscritas enviadas à primeira namorada), livros, quadros, móveis e objectos pessoais do escritor que venceu o Prémio Nobel da Literatura em 1923. A mim, que o venero, nunca me passaria pela cabeça possuir os seus originais (contentar-me-ia em lê-los), e menos ainda a poltrona onde terá posto o rabo. Mas a Sotheby’s vai de certezinha absoluta facturar – e muito, porque nem todos somos iguais e há quem goste simplesmente de possuir.

Desinformar

Durante muito tempo, os jornalistas não escreviam ao de leve sobre o que não sabiam – e, se lhes calhava terem de escrever sobre a realidade de um país que não conheciam, investigavam e liam para não dizerem disparates. Mas hoje, postos um pouco de lado os livros, a Wikipédia é muitas vezes a principal fonte de pesquisa de um jovem jornalista – e a Internet, como todos sabemos, apesar de muito útil, está cheia de incorrecções e imprecisões. Daí que, de vez em quando, alguns jornais e televisões (não falo só dos portugueses) nos ofereçam visões completamente redutoras de determinados países. Penso, por exemplo, que a maior parte do público que não lê livros nem sabe de História, influenciada pela narrativa do terrorismo actual veiculada pelos media, imagina a maioria dos países islâmicos como uma espécie de terra de bárbaros entalada no deserto, sem água nem luz e com camelos em vez de automóveis… Chama muito justamente a atenção para este problema o meu colega blogger Ricardo Jorge Pereira em Uso Externo, indignado com o facto de lhe apresentarem tantas vezes o Irão como berço de terroristas e país de selvagens quando o país (ah, a velha Pérsia e a sua longa história) já tinha, por exemplo, uma taxa de literacia que rondava os 80% há dez anos e tem hoje a maior livraria do mundo, que fica em Teerão. Também o fotógrafo Alfredo Cunha descreveu há pouco tempo ao Manel a parte curda do Iraque como incrivelmente organizada e interessante, mas acho que não é essa a ideia que costumam passar-nos. Por isso, vale sempre a pena confirmar e completar dados e não tomar a parte pelo todo. Os livros dão, claro, uma boa ajuda.

Venha o Diabo e escolha

É bom quando uns livros nos levam a outros – e foi isso que me aconteceu recentemente: o livro de Isabel Lucas sobre a América através dos livros – Viagem ao Sonho Americano (de que falarei também aqui um dia destes) – acabou por nos levar (ao Manel primeiro e a mim depois) até um autor que não conhecíamos: Donald Ray Pollock, um homem que foi quase toda a vida operário numa fábrica do Ohio e que de repente tirou um curso de Belas Artes e começou a escrever. A uma colectânea de contos muito aplaudida pela crítica, seguiu-se Sempre o Diabo, o romance que aqui me traz hoje e que é realmente um caso sério de boa literatura. Se gosta dos filmes mais violentos de Tarantino (ou, vá lá, com menos humor), de Natural Born Killers, de Oliver Stone, ou mesmo algum David Lynch mais sórdido (e, porque não?, de algum Cormac McCarthy), então adorará este livro cheio de «feios, porcos e maus», entre os quais um casal de serial killers que dá boleia às suas vítimas nas férias de Verão (as férias são só para isso, de resto), um veterano da Segunda Guerra Mundial que sacrifica animais para salvar a mulher de um cancro, ou a estranha dupla de pregadores Roy-Theodore (um deles deficiente e gay) que testam a sua fé de maneiras bastante estranhas (com aranhas, por exemplo). É difícil encontrar neste livro alguém que seja bom e inteligente, excepto Arvin, por cuja vida tememos até à última página; mas, apesar do permanente pontapé no estômago, este é um romance sobre a vida precária de uma certa América que, no meio da tragédia, consegue passar laivos de uma estranhíssima humanidade. Autor a acompanhar, evidentemente.

Curto e comprido

Nunca acreditei que o livro fosse morrer – e ele esteve já sob ameaça muitas vezes. Mas a verdade é que também nunca estive tão convencida de que ele corre agora sério perigo e será um objecto cada vez mais minoritário para um público cada vez mais diminuto (como a ópera, a dança, a fotografia?). Penso que o seu maior inimigo é o chamado smartphone, de que as pessoas estão absolutamente dependentes nos tempos que correm (crianças e jovens incluídos, o que é grave), no qual a leitura é invariavelmente rápida e não exige nem tempo, nem esforço, nem concentração; mas diz quem sabe (Timothy Snyder, autor de Sobre  a Tirania – 20 Lições para o Século XX, citado por Rui Tavares no jornal Público) que, mesmo para entender um texto curto, precisamos de ter lido livros compridos – e que, para compreender uma carta do século XVIII, por exemplo, é necessário termos lido os livros que então se escreveram. Na obra de Snyder que citei, o autor dá um conselho para o futuro: «Leiam livros.» E Rui Tavares chama atenção para o facto de poder parecer «interesseiro» um livro mandar-nos ler livros. O meu medo é que, não lendo livros que mandem ler livros, as pessoas não leiam livros. Precisaremos de frases curtas a aconselhar a leitura de obras compridas nos smartphones… Como fazê-lo?

Do que somos capazes

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Em 1980, por toda a Coreia do Sul, os estudantes revoltaram-se contra o fecho de universidades e a falta de liberdade de expressão. Porém, na região de Gwangju, a repressão foi tão violenta que a população acabou por se juntar ao protesto, dando origem a um dos piores massacres na história do país. Os mortos e desaparecidos ainda estão, de resto, por contabilizar.  Como lidar com a morte de alguém quando o seu corpo não aparece? Atos Humanos, o novo romance de Han Kang, é a história de Dong-ho, um rapaz que não resistiu a seguir o melhor amigo até à manifestação, mas, quando ouviu os tiros, largou-lhe a mão, procurando-o agora entre os cadáveres de uma morgue improvisada. E é também a história dos que cruzaram o caminho de Dong-ho antes e depois dessa noite infame – os que caíram por terra desarmados e os que foram levados para a prisão e torturados; os que sobreviveram ao terror mas nunca mais conseguiram falar do assunto e os que, tantos anos passados, sabem, tal como Han Kang, que a história pode repetir-se a qualquer momento e que é preciso lembrar os atos brutais de que os humanos são capazes. Este é um romance universal e moderno sobre a batalha que os fracos travam contra os fortes na luta pela justiça. Comovente e traumático, confirma Han Kang como uma enorme escritora.


 


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FIC

Vá ao FIC e fique no FIC, que vale muito a pena! Desculpem estar armada em publicitária mas antes de ir de férias devia ter-me lembrado de avisar que este ano o festival cultural de Cascais tinha outra vez convidados de peso, entre eles Paul Auster ou Arundhati Roy, cujos livros novos saíram em Portugal há relativamente pouco tempo (ainda vai a tempo de ouvir Paul Auster, no dia 10!). Na altura em que ambos disseram que sim ao convite que a Câmara de Cascais lhes fez, nenhum dos dois sabia que eram concorrentes, pois só mais tarde foi anunciada a lista dos candidatos ao Man Booker Prize deste ano e ambos estão entre os escolhidos (respectivamente, com os romances 4 3 2 1 e O Ministério da Felicidade Suprema). Mas, além deste par, o FIC recebe Rosa Montero e Selva Almada, duas autoras que escrevem em castelhano mas de gerações e países distintos (Espanha e Argentina), bem como Hélia Correia, Nuno Júdice, Manuel Alegre, José Tolentino Mendonça e muitos mais. Além de literatura, há música – e Salvador Sobral estará no Casino para interpretar os poemas ingleses de Alexander Search. Vamos lá?

Epístolas

Quando era jovem, escrevia muitas cartas. Cartas de amor, claro, sobretudo se me encontrava a passar férias com a família longe do namorado; mas também cartas aos amigos durante o Verão e cartas aos colegas que tinham ido viver para outros países (o que era comum na minha geração). Tinha especial cuidado com o que escrevia, fazia um rascunho e depois passava a limpo, e fazia os possíveis por que essas cartas fossem, se quiserem, algo literárias, e não meia dúzia de frases banais só para dizer «olá» e «saudades» (para isso existiam os postais ilustrados, que também, julgo eu, já pouco se mandam). A emergência do digital matou, no fundo, a correspondência (o meio não favoreceu este cuidado de que falei, antes uma rapidez de escrita e leitura que não se coaduna com a atenção e o tempo que a velha correspondência exigia); como dizia um dia destes a reitora da Universade Católica Portuguesa numa entrevista, «a ausência de pegada mediática torna o indivíduo invisível» e, por isso, a literatura epistolar tende a desaparecer nas próximas décadas, o que é uma pena. Porém, ainda se vão encontrando boas surpresas – e durante a última Festa Literária de Paraty (a famosa FLIP) foi lançada a compilação de uma troca de cartas entre Saramago e Jorge Amado com o belo título Com o Mar por Meio; segundo dizem, uma «curta mas tocante troca de inconfidências» entre dois grandes escritores do século XX. A publicação é da Companhia das Letras. Valha-nos este tipo de lançamentos.

Guadalajara

Aqui há uns anos – se não me engano, em 2013 – a mexicana Feira do Livro de Guadalajara, que então fazia 25 anos e tinha como convidada de honra a Alemanha, convidou-me para lá ir (com tudo pago) e traçou-me um programa fantástico, intelectual e social, do qual, se bem se lembram os que lêem este blogue há muito tempo, fez parte uma mesa redonda inaugural com Vargas Llosa e Herta Müller (um luxo). Na altura, tive uma reunião em que, de forma delicada, me pediram que fizesse lobby para que Portugal pudesse ser o convidado de honra da feira dois anos mais tarde, mas, infelizmente, era mesmo um dos piores períodos da crise, com a Troika e o FMI a chupar-nos até ao tutano, e o pouco que disse elogiando a feira (sem fazer favor nenhum, porque é um magnífico certame à roda da literatura) não serviu de grande coisa (quando não há dinheiro não há vícios). Porém, os tempos estão melhores agora – e em 2018 Portugal vai ser finalmente o convidado de honra da Feira do Livro de Guadalajara. Portugal e o México já assinaram o convénio em finais de Julho na belíssima biblioteca do Palácio da Ajuda (se puderem, visitem-na porque vale a pena), o director da feira, Raúl Padilla, esteve em Portugal, e Manuela Júdice, secretária-geral da Casa da América Latina, será a comissária responsável pelo programa e respectivos convidados. Fico contente com a iniciativa e espero sinceramente que deste acontecimento possa surgir um estreitamento das relações entre as literaturas portuguesa e mexicana.

Sempre a subir

Livro sensação da última Feira do Livro de Frankfurt, o romance do italiano Paolo Cognetti intitulado As Oito Montanhas acabou por ser vendido rapidamente para mais de trinta países, incluindo Portugal. É uma história de amizade improvável entre Bruno, um rapaz da montanha que guarda rebanhos para um tio bruto (como, de resto, o pai, a mãe e os primos, todos brutos como a rocha), e Pietro, um menino da cidade, filho único, com um pai de personalidade bastante difícil que venera as montanhas e teima em subi-las todos os verões, arrastando para isso mulher e filho. Com personagens muito bem desenhadas, nunca a duas dimensões (e como seria fácil tender para a caricatura num ambiente atrasado como o que nos é dado ver na aldeia de Grana, onde se passa a história), este romance é mesmo sempre a subir, como uma montanha que é preciso ir escalando até se perceber por que motivo certas pessoas são como são (o pai de Pietro, por exemplo, ou mesmo Bruno, que desce uma única vez à cidade grande para ver como é). Hino à amizade, mas nada óbvio no tratamento do tema e tudo menos lamechas, é uma obra com qualquer coisa de clássico que, acredito, veio para ficar.


 

Regresso

Olá, espero que tenham tido umas boas férias. As minhas passaram, como sempre, a voar (e, claro, manchadas com tantas tragédias, atentados e catástrofes naturais); mas está na hora de voltar ao trabalho e enfrentar a rentrée, por isso cá estamos. Hoje seria o dia de vos dizer o que ando a ler, bem sei, mas poderei deixar isso para amanhã, porque prefiro dizer-vos o que ando a ver. Ou, na verdade, o que devem ir ver os leitores do Horas Extraordinárias. Trata-se de um filme de Joaquim Leitão, produzido por Tino Navarro e baseado no romance Índice Médio de Felicidade, de David Machado, que ganhou o Prémio da União Europeia para a Literatura em 2015 e foi já traduzido para várias línguas, incluindo o inglês. David Machado é, de resto, um dos autores do guião (nestas coisas, é sempre bom saber que o autor não deixou o barco à deriva), trabalho em que teve também a companhia de Tiago R. Santos, um reputado guionista português e também autor de um romance. Assim, tenham ou não lido o livro, sugiro que vão ver o filme um dia destes. Deixo-vos o link do trailer para aguçar o apetite. Até amanhã.


 


https://www.youtube.com/watch?v=pCAooqwEMfI