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A mostrar mensagens de junho, 2026

O querido Julian

 Li com satisfação que Julian Barnes foi agraciado com o Prémio Princesa das Astúrias em Espanha. Barnes é um dos meus autores de eleição e leio-o há muitos anos. Alguns dos seus livros que me encheram a alma foram O Sentido do Tempo, A Única Mulher e Nada a Temer, além de O Papagaio de Flaubert, que foi o título que me deu a conhecer o autor. E fiquei sensibilizada com Despedidas, pois não é qualquer escritor que se retira conscientemente do ofício e se despede dos seus leitores, assumindo que, pronto, aquele é mesmo o seu último livro. Um dia destes, um querido jornalista chamado Pedro Justino Alves avisou-me de que no programa Pagina Dos em Espanha alguém tinha recomendado a edição espanhola do meu livro o meu corpo humano, que saiu lá em Maio com a tradução de Verónica Aranda. São apenas uns segundos, claro, mas fiquei contente, não nego; e mais contente fiquei porque a principal entrevista do programa é feita justamente a Julian Barnes, e deixo-vos o link para a ouvirem, pois vale sempre a pena ouvir o escritor britânico. Vejam o programa e digam-me se não faz mesmo falta em Portugal uma coisa destas, um programa descontraído sobre livros, leve mas inteligente, positivo, nada chato, estimulante. Pena que cá os programas de livros sejam muito formais e passem sempre em horários em que já todos dormimos...

https://www.rtve.es/play/videos/pagina-dos/julian-barnes/17113856/

Poesia no metro

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 Estou sem muito tempo para escrever posts, pois tenho a Madalena de férias e o trabalho muito atrasado. Assim, para não perder tempo, hoje conto uma história. A minha colega Cecília Andrade, editora da Dom Quixote, mandou-me uma mensagem a dizer que me tinha encontrado no metro. Como eu raramente ando de metro, fiquei sem perceber bem o que estava ela a dizer, até que vi a imagem que me enviava em anexo: um poema meu que reproduzo abaixo. Eu já não me lembrava de que a Sociedade Portuguesa de Autores me contactara sobre isto e que o Metro de Lisboa pediu aos seus funcionários que escolhessem poemas, espalhando-os pelas estações; assim, os passageiros podem ler poesia de graça (e um poema por dia nem sabe o bem que lhe fazia!). Só fiquei a pensar que, pela temática, talvez a funcionária que escolheu o meu tenha passado por uma experiência triste como aquela por que eu passei quando escrevi este poema (espero que não, Ana Cristina!). Em Roterdão, depois de eu ir a um festival de poesia, também me pediram um verso para estampar numa carrugaem. Que lindo que é ter poesia nos transportes públicos. Obrigada.




O fantasma do luto

 Já aqui falei de vários livros que tratam o luto, alguns dos quais escritos pelos seus autores como uma espécie de terapia. Inesquecíveis, por exemplo, Noites Azuis ou O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion, que se tornaram clássicos e creio que continuarão a ser lidos por todo o sempre. Belíssimo também O Meu Pai Voava, de Tânia Ganho, e a ficção Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de John Safran Foer, ou o pungente E então Fomos Embora, de Michael Kimball, que me lembra um dos meus filmes preferidos, Na América, de Jim Sheridan. Há poucas semanas saiu Fantasmas, o livro de Siri Hustvedt, viúva de Paul Auster, que também recorreu à literatura para fazer o luto do marido e que veio lançar o livro em Portugal durante a Feira do Livro de Lisboa, cidade aonde veio com Paul Auster várias vezes, até porque foi justamente aqui que o escritor fez o seu filme Martin Frost. Siri diz que levou apenas oito meses a escrever Fantasmas, uma colectânea de memórias da sua vida com Paul, na qual fala de tudo, mesmo dos objectos que ganharam dimensão com a partida do marido ou os últimos tempos da doença de Paul, em que ele desistiu dos tratamentos e escolheu não viver mais. Se gostam de Siri e Paul, vale muito a pena.

Marchas

 Quase toda a gente que aqui me segue sabe que eu, além de ser editora e por vezes escritora, também faço letras para fados e canções. Tudo começou há quase vinte anos quando, no lançamento do primeiro livro de João Tordo, recebi um convite de Carlos do Carmo, que conhecia desde criança e era afilhado de casamento dos meus pais, para escrever dois fados. E depois disso nunca mais parei, contando-se entre os intérpretes que cantaram coisas minhas António Zambujo, Aldina Duarte, Camané, Ricardo Ribeiro, Luís Trigacheiro e João Gil (são demasiados para os referir a todos). Algumas destas letras foram sucessos (nomeadamente Flagrante e Visita de Estudo), outras foram repescadas por jovens cantores (Pontas Soltas) mas não contava era ser premiada com a letra de uma marcha popular. Sim, o coordenador da Marcha de Alfama já há três anos que me pede que escreva para o bairro e este ano Alfama ganhou as marchas, sendo que duas letras eram minhas. A vencedora chamava-se Os Santos Devem Estar Loucos, e o coordenador fez o briefing muito bem feito, porque ganhou composição original (letra e música). Falava dos pobres alfamistas que deixaram as suas casas por causa do turismo e que voltam todos os anos para marchar, agora que em Alfama é tudo estrangeiro. Se tiverem curiosidade, divulguei a letra na minha conta do Facebook este sábado. Parabéns, Alfama! E obrigada.

Excerto da Quinzena

 Castelo de Senigallia, Inverness, Escócia, 1927

 

Lembro-me da primeira vez que o Diabo foi lá a casa.

Podia ter sido Aguarela,

mas não,

fui eu que o vi.

– Um minuto! – avisou a minha irmã, já de olho pregado ao ponteiro do relógio de parede, ávida por me render à janela da mansarda que deitava para o relvado.

Um minuto.

Foi o tempo que bastou para o Diabo se mostrar e me dar a volta ao estômago. Escoltado pelas sombras que deixava sobre a relva, uma por cada archote que alumiava o caminho, atra­vessou a alameda em direção ao castelo no seu andar arras­tado, como se carregasse esse fardo apodrecido das almas que desviava. Já mais próximo, pude ver-lhe o que eu não queria: o rosto incendiado pela troça e o azedume, e os olhos, Ai, os olhos, contraídos, sanguíneos, a chispar com agonia o mal que o glorificava. Secara como uma árvore, adivinhavam-se-lhe os ossos por baixo da capa preta com que se amortalhava, e eu, com a incúria das crianças, fui capaz de acreditar que olhá-lo assim de perto não me iria condenar a uma infância de pavor.

Então o minuto esgotou-se, e Aguarela chamou-me:

– Chuva… – Como não me mexi, puxou-me pela saia. – É a minha vez, Chuva, afasta-te!

Para poupar a minha gémea àquela visão doentia, finquei as mãos na janela e dei tempo a Satanás de alcançar a escada­ria, a uns vinte passos de mim, onde já o aguardavam dois cria­dos de libré. Assim que ele entrou em casa, saí dali a correr e fechei-me no meu quarto, a salvo na fortaleza de lençóis e cobertores, onde melhor abafava os meus terrores infantis.

 

João Pinto Coelho, Aguarela de Paris

No Porto

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 Amanhã vou ao Porto e venho, pois estarei a fazer o lançamento do novo livro de Susana Piedade, uma autora que já foi finalista do Prémio LeYa duas vezes. Trata-se de um romance intitulado Uma Porta de Vidro entre o Céu e o Inferno e trata de vários moradores de uma praceta que, na verdade, mal se conhecem mas partilham alguns traumas sem o saber. Mortes recentes, lutos difíceis, um ataque de violência inesperado... Mas talvez o mais relevante seja o caso da mãe que, tendo dado tudo à filha adolescente (ela, que teve tão pouco na infância), conclui que não bastou, pois um dia descobre o que a rapariga faz quando está sozinha no quarto e não é nada fácil... Mas não se estrague o prazer a quem quer ler esta história dos nossos dias, que será apresentada amanhã pela psicóloga clínica Cláudia Pinheiro na Casa Comum da Reitoria da Universidade do Porto às 18h30. Se está pelo Porto, apareça!



O drama africano

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 Num país nunca nomeado, mas africano de gema, o ditador aquece o lugar por quase quarenta anos, recusando eleições, neutralizando os concorrentes, enriquecendo para lá do aceitável à custa da miséria do seu povo. Ora, se este Presidente nos lembra alguém, é porque o romance Afrocalipse se inspira assumidamente na insanidade, na cleptocracia e no abuso de personagens reais  como Kumba Yalá (Guiné Bissau), José Eduardo dos Santos (Angola), Mobutu (Zaire) ou o terrível Bokassa (República Centro-Africana) que se coroou imperador em 1984, retratando ainda o horror das guerras civis pós-independência e o genocídio do Ruanda, bem como a subserviência do povo, a fome e o desgoverno crasso que infestam muitos países em África e constituem hoje talvez a principal causa do seu atraso. Nesta ficção, porém, as mulheres cansam-se e ajudam a mudar a história. Mas nem é só neste facto que reside a novidade: ela está presente na linguagem inventiva e belíssima com que o autor fala de coisas, afinal, tão feias e também na circunstância de ser o primeiro escritor de África a assacar aos próprios africanos parte importante da responsabilidade pelas desgraças sociais e pelo descalabro dos Direitos Humanos. Este é um livro poético, irónico e cheio de humor, como são sempre as obras de Mário Lúcio Sousa, com pinceladas sobre assuntos muito sérios que interessam a todos os leitores. Quando se se celebram 50 anos de independência das antigas Colónias portuguesas, Afrocalipse corre o risco de se tornar um clássico. O autor estará a falar dele e da sua obra com Bárbara Reis na Feira do Livro de Lisboa hoje às 21h30. Na quinta será o lançamento no Centro Cultural de Cabo Verde às 18h30.



Memórias Coloniais

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 Já aqui vos falei dos livros de Isabela Figueiredo, cuja obra tem tido um grande impacto nos leitores e que já está, de resto, traduzida em vários países. O seu romance mais conhecido, A Gorda, foi adaptado recentemente ao teatro por Maria Rueff e creio que estará ainda em cena, por isso, quem possa vá! Um Cão no meio do Caminho teve igualmente várias edições e cruza duas pessoas que aparentemente têm pouco em comum por via da sua solidão. Conheci a autora há bastantes anos (foi o saudoso Eduardo Pitta que me falou dela) através de um magnífico livro chamado Caderno de Memórias Coloniais e soube há pouco tempo que esta pérola acaba de ter uma versão em BD (não lhe vou chamar «romance gráfico» porque não se trata de um romance), comemorando o décimo aniversário da primeira edição da Caminho, pois a anterior, da Angelus Novus, era mais breve e Isabela Figueiredo reviu-a e aumentou-a. O lançamento contou com a apresentação de Alice Geirinhas na presença da autora e da ilustradora Júlia Barata, mas infelizmente não pude estar presente. A capa promete e tenho a certeza de que vou pôr-lhe os olhos em cima mal possa. Vale mesmo a pena.




Na Feira

 Este fim-de-semana na Feira vai ser um fartote, porque tenho lá para lançamentos e autógrafos muitíssimos autores. No sábado, além de Tiago Salazar, que larga o tuk-tuk por umas horitas para assinar livros, e da vencedora do Prémio LeYa 2025, Carla Pais, juntam-se três escritores vindos do Porto: Isabel Rio Novo, Paulo M. Morais e Susana Piedade, que acaba de lançar o romance Uma Porta de Vidro entre o Céu e o Inferno, que recomendo, sobretudo a quem se interesse pelos problemas dos adolescentes. No domingo, as origens dos autores são mais variadas porque Sara Duarte Brandão vem do Porto, Carlos Campaniço de Olhão (embora seja alentejano), Mário Lúcio Sousa de Cabo Verde, enquanto Luísa Sobral, João Pinto Coelho e Nuno Duarte já estão em Lisboa ou nas imediações da capital. O lançamento do novo livro da Luísa, de crónicas, chamado Da Minha Janela, será, de resto, apresentado domingo às 18h30 no auditório da Praça LeYa. Estão todos convidados! Apareçam por lá.

Na Figueira

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Quando o escritor António Tavares (de quem recentemente publiquei o belíssimo A Arte Pendular do Baloiço, leiam-no) era autarca na Câmara da Figueira da Foz (se não me engano, vice-presidente e vereador da Cultura), eu ia lá muitas vezes com os autores que publico participar nas 5.as de Leitura, sempre numa quinta à noite, na Biblioteca Municipal. Depois veio a pandemia, e quebrou-se o ritmo; mas hoje vou voltar a assistir a este encontro sempre muito concorrido e rever bastantes caras conhecidas. A sessão tem desta feita apresentação e moderação da crítica Teresa Carvalho. A convidada especial é Carla Pais, a vencedora do Prémio LeYa 2025, que vive em França e veio a Portugal justamente para a cerimónia de entrega do galardão e apresentação do romance A Sombra das Árvores no Inverno em várias localidades: Lisboa, Leiria, Maia e... Figueira da Foz, claro. Portanto, se hoje à noite está sem programa e vive por perto, aproveite para ouvir a conversa que, tendo em conta o tema do livro, promete ser boa e sensível.


 

O que ando a ler

 É curioso, mas eu, que leio pouca literatura africana, passei a semana passada a ler dois livros moçambicanos. Um deles era trabalho (e extenso) e deixo a divulgação para quando estiver mais perto da publicação, porque é uma pedrada no charco e vale mesmo a pena que lhe prestem a atenção na altura certa. O outro (ainda não o terminei) é de um jovem chamado Eduardo Quive e foi recentemente apresentado em Lisboa pela romancista e também comentadora Ana Bárbara Pedrosa, com quem troca cartas-crónicas, entre Lisboa e Maputo, no jornal digital A Mensagem de Lisboa. O romance começa com uma tentativa de suicídio, mas não se assustem, porque o choque é sobretudo perceber como quem salta da janela fica vivo e como quem assiste e sabe o que aconteceu fica culpado por não ter evitado o pulo: o narrador, Eurípedes, que está a contar-nos a história ao mesmo tempo que a narra à sua terapeuta; e a irmã mais velha, Anchia, a artista muito aplaudida, que padece de uma condição rara, é albina, o que levou o pai a abandonar a mãe assim que ela nasceu. A prosa de Quive neste A Cor da Tua Sombra é mesmo bonita e há alguns segredos latentes que estou a ver se descubro ao passar das páginas e se relacionam com Anchia e Sheila, a rapariga que queria morrer; mas fico contente que Moçambique se me mostre literariamente duas vezes na mesma semana, porque tenho de me pôr em dia com a literatura desta terra. Parabéns a este autor ainda jovem que promete!