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A mostrar mensagens de janeiro, 2025

Excerto da Quinzena

Imaginem uma menina de onze anos.


Imaginem-na com uma bandolete vermelha e um par de calças axadrezadas.


É 1985, e a Anna está na escola: sentada na primeira fila, os dedos manchados de tinta, muito atenta enquanto o professor de matemática explica a teoria dos conjuntos.


O homem tem cerca de quarenta anos; está de costas, tem uma mão no bolso e com a outra escreve no quadro: A ⊂ B.


Algum de vocês sabe o que significa aquele símbolo que desenhei entre a letra A e a letra B?, pergunta, virando-se para a turma. Caminha entre as mesas lentamente, chega ao fundo da sala de aulas e volta para trás, aproxima-se do estrado, apoia um pé no degrau, vira-se de novo para olhar para os alunos.


Silêncio.


O professor ostenta um sorriso malicioso, sarcástico: Não sabem porque são burros, ou era a vossa professora da escola primária que era burra?


Imaginem que o homem permanece imóvel por alguns instantes. E que depois recita aborrecido: A é um subconjunto de B, portanto, todos os elementos do conjunto A pertencem ao conjunto B. Dúvidas?


Silêncio.


Bem! Então, qual de vocês é capaz de dar-me um exemplo?


Silêncio.


Quantos de vocês representam o subconjunto “burros” do conjunto “turma”? O professor arregala os olhos.


Imaginem que caminha de novo entre as filas, fixando um a um os alunos, só os rapazes, evita as raparigas, e que, de repente, contudo, para à frente de uma morena e diz-lhe que vá ao quadro. E que, mal ela se levanta, ele inclina a cabeça e observa-a a andar.


 


Michela Marzano, Continuo à espera de Que Me Peçam Desculpa, trad. Sara Peres

Clarice

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Há muitos escritores brasileiros de excepção – desde logo Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado, e tantos outros; mas as mulheres que se celebrizaram por escrever romances no Brasil são menos conhecidas do público em geral – e se calhar não nos vêm logo à cabeça quando pensamos, grosso modo, em ficcionistas do país irmão. Excepto, claro, se se tratar da grande Clarice Lispector. Nascida na Ucrânia, judia, estudou Direito mas trabalhou sobretudo como jornalista e tradutora. Inventou um estilo que não se parece com mais ninguém, mesclando cenas da vida normal e doméstica com uma respiração ofegante e transgressora, com palavras-gritos, com um lado absurdo mas absolutamente humano (desculpem se pareço pretensiosa com estes termos vagos, mas é que ela é muito mais sensação do que racionalidade, pelo menos para mim, que fiquei logo marcada por Perto do Coração Selvagem). Escreveu a biografia desta “pernambucana” o fenomenal Benjamin Moser (está disponível em Portugal) e a óptima notícia é que acabam de sair, com um grafismo espectacular, quatro livros seus de uma vez: o romance que acabei de mencionar e ainda Água Viva, A Paixão Segundo G.H. e Um Sopro de Vida. Leiam-na!


 


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Strout ataca de novo

Já aqui confessei que sou uma verdadeira fã da obra de Elizabeth Strout, a escritora norte-americana que começou a escrever bastante tarde para os parâmetros habituais mas que, em pouco mais de meia dúzia de romances, se firmou como um dos principais nomes da literatura contemporânea. Ainda ontem, numa sessão em que falei de projectos literários que aprecio especialmente, me referi a esta autora que tem duas personagens notáveis que atravessam a sua obra: Olive Kitteridge, uma antiga professora de Matemática implacável com a estupidez humana e sem a menor paciência para a família (há uma série de televisão baseada nos dois livros em que é protagonista (Olive Kitteridge e A Segunda Vida de Olive Kitteridge); e Lucy Barton, que temos a oportundiade de ler, não cronologicamente, em romances que falam da sua infância, do reencontro com a vida pobre do campo quando já se tornou uma escritora conhecida, da procura de uma cunhada desconhecida, do período da COVID com o ex-marido, do reencontro com a mãe num hospital, enfim, sempre a mesma Lucy em várias idades e contextos. Num dos livros da série Lucy Barton, apareceu por acaso alguém que mencionava a Olive, mas agora estou fascinada: o novíssimo Conta-me Tudo, que vou comprar a correr, faz com que ambas, Lucy e Olive, se conheçam. Não posso esperar por mais esta surpresa. Leiam esta autora, que não se vão arrepender.

Livros de bolso

A newsletter da Livraria Bertrand ensina-me várias coisas sobre os livros de bolso que, curiosamente, nunca tiveram um êxito estrondoso em Portugal, talvez porque durante demasiado tempo quem lia eram as elites, e essas preferiam claramente os livros maiores; e depois chegaram muito rapidamente os ebooks para os mais jovens que gostam de ler no telemóvel, ainda mais pequeno do que o livro de bolso. Mas noutros países são um sucesso, como no Reino Unido, por exemplo, em que é vulgaríssimo vermos as pessoas a ler edições de bolso na praia, no metro e nos cafés (até já vi uma pessoa no aeroporto deitar fora a parte já  lida do livro num caixote de lixo para ir mais levezinha para o avião); ou em França, em que, além de editoras que se reuniram em empresas especializadas em livro de bolso, o preço muito mais barato devido às grandes tiragens serviu realmente para fazer leitores entre uma classe que não tinha poder económico para comprar as edições mais caras. Mas conta ainda a mesma newsletter que, durante a Segunda Guerra Mundial, contra os livros queimados pelos nazis, se imprimiu uma colecção inteirinha de livros de bolso que foi distribuída às tropas aliadas de todo o lado (da Normandia às ilhas do Pacífico) lembrando-as dos ideais nobres pelos quais lutavam e servindo de símbolo de resistência, liberdade e democracia.

Demais ou de menos

Por causa de um comentário ao post de sexta-feira passada, que mencionava os dois romances de Cristina Drios que tive o prazer de publicar (Os Olhos de Tirésias e Adoração) e «marcava falta» a esta autora, que já não publica há muito tempo, pensei que realmente temos alguns escritores que bem podiam brindar-nos com romances com maior regularidade. Mas, claro, a Cristina viaja bastante, tem uma profissão que lhe rouba muito tempo e, além disso, é bastante exigente consigo mesma. Por outro lado, conheço autores (meus e de outras editoras) que estão sempre a teclar e a entregar livros novos, sobretudo os que não trabalham e querem viver exclusivamente da escrita, ou então têm trabalhos episódicos, mas não um verdadeiro emprego. Percebo que, se é essa a sua paixão, o façam, mas muitas vezes não deixam que os seus livros respirem o suficiente, nem que os leitores cheguem a desejar mais um livro seu, de tal modo os romances saem colados uns aos outros. Há ainda aqueles que, não conseguindo escrever com a velocidade que gostariam, mal entregam o livro querem que seja lido e publicado (como se os editores não tivessem as suas prioridades) e exprimem a preocupação de serem esquecidos pelo público se não publicam de dois em dois anos. Enfim, há de tudo como na farmácia e, embora se diga que tudo quanto é demais é erro, a verdade é que também pode ser um risco escrever de menos.

A pintura e os escritores

Às vezes, quando participo de actividades em que falo do que são bons livros e da importância do trabalho editorial, vou buscar exemplos para ilustrar algumas situações a declarações de pintores em livros e entrevistas. Sim, pode parecer estranho, mas os pintores têm às vezes sobre a construção da respectiva obra frases e ideias muito mais facilmente perceptíveis do que os escritores, que tendem a complicar um pouco as suas elucubrações sobre a própria arte. Por isso achei mesmo interessante que a nossa Conselheira Cultural em Madrid tenha feito um convite original nesta temporada, virando do avesso esta minha presunção; como vai haver uma exposição grandiosa da pintora Vieira da Silva no Guggenheim de Bilbao, resolveu convidar escritores (leu bem, escritores!) para irem ao museu falar da nossa grande pintora e comentar alguns dos seus quadros. Claro que algumas das pinturas de Vieira da Silva estão ligadas à leitura, aos livros, às bibliotecas. Mas tenho a certeza de que o discurso dos escritores sobre uma arte que não é a deles será bem mais acessível e claro do que se estivessem a falar de literatura. Um excelente exercício para eles e uma excelente ideia para nós.

Livros, filmes e tabaco

Há muitíssimos anos, escrevi com uma amiga uma colecção de romances juvenis, na qual um adolescente de dezasseis anos fumava às escondidas. Numa cena, a irmã mais nova, toda desportista, criticava-o e prevenia-o do mal que aquilo lhe faria; noutra, ele era apanhado a fumar e repreendido pelo pai, levando como castigo não ir a uma festa onde tencionava pedir namoro à miúda por quem estava apaixonado (azar). Era, quanto a nós duas, uma boa forma de avisar os nossos leitores para os perigos de fumar cedo demais; mas, se a colecção tivesse sido publicada dez anos mais tarde, já não teríamos decerto podido incluir essas cenas, pois os cigarros de repente foram banidos dos livros e dos filmes (até o Lucky Luke deixou de fumar) para não dar (más) ideias aos mais novinhos: não vejo, não sei que existe. Porém, leio num jornal de há dias que essa preocupação foi chão que deu uvas nas séries e nos filmes do último ano: em nome do realismo, da verosimilhança, de uma moda e daquilo a que os mais radicais chamam «inconsciência», o cigarrinho voltou aos ecrãs (faria sentido que grandes fumadores na vida real deixassem de fumar numa biografia cinematográfica?). Diz o artigo que os jovens ficaram de novo mais expostos ao perigo do tabagismo, mas a verdade é que os nossos televisores voltaram a «fumegar». Eu deixei de fumar há sete anos e meio. Não comecei por causa do cinema, mas por ser filha de dois fumadores. Terá a literatura influência numa coisa destas? Quem sabe?

Neo-rural, mítico, mágico

Na hora de fazer balanços e olhar para o ano que findava, muitos dos nossos meios de comunicação, chamados a eleger os melhores livros de ficção publicados em 2024, não passaram por cima de Caruncho, de Layla Martínez (já aqui falei desse pequeno romance ultra-elogiado por autoras de peso como Alana Portero ou Mariana Enríquez), nem de Eu Canto e a Montanha Dança, da escritora catalã Irene Solà, vencedor do Prémio da União Europeia para a a Literatura e, entre outros, do prestigiado Prémio Anagrama em Espanha. Este último só pude lê-lo agora de fio a pavio, embora já o tivesse em fila de espera há uns tempos, mas é tão atípico que me custou entrar nele na altura em que o comprei porque tinha a cabeça demasiado ocupada com problemas para conseguir concentrar-me no seu estilo torrencial. Agora voltei ao início com outra calma; e, não tendo muito que ver com a história de Carunho, muito mais destrinçável, o ambiente rural é o mesmo, e são os mesmos uma certa voracidade no acto de contar e um lado visceral que se parece com a raiva com que por vezes a natureza resolve dar-nos uma tareia. Passado nos Pirenéus, Eu Canto e a Montanha Dança tem vários narradores (pessoas, algumas bruxas, e coisas) e, apresentando as personagens em vários capítulos não claramente sequenciais, é simultaneamente bruto e poético, juntando tradições de literatura rural com episódios que poderiam ter saído de romances do realismo mágico latino-americano. Obra de fôlego, foi traduzida em mais de vinte línguas. A tradução do catalão é de Rita Custódio e Àlex Tarradellas.

Provérbios

Como muitas outras coisas da língua portuguesa, os provérbios sempre me interessaram, e há uns tempos recebi com prazer um livro de contos de Margarida Batista intitulado Provérbios Provados, no qual os contos reflectem sobre episódios e situações da condição humana ilustrados por provérbios e adágios às vezes bem antigos, provando que certas histórias continuam a repetir-se em todas as gerações e todos os tempos. Soube também recentemente que há mais pessoas ligadas às letras que são aficionadas de provérbios, como Gonçalo M. Tavares, por exemplo, que agora escreve justamente sobre a matéria de segunda a sexta no Correio da Manhã, jornal em que tem também uma crónica mais longa aos sábados. Fascinado pela cultura popular, o romancista escolhe diariamente um ditado e dá a conhecer a sua origem e significado. "Os pro­vérbios são uma espécie de ensinamento ancestral, urba­no mas também do campo e de todos os lados do Mundo, caracterizados por serem muito rápidos, muito sintéticos e por serem muitas vezes divertidos, outras vezes rimados, com ritmo. E são muitas vezes, também, achados verbais”, diz o autor de livros notáveis como Viagem à Índia, Jerusalém ou o conjunto de livros reunidos sob o título O Bairro. Lá vou eu ter de ir espreitar.

Ainda Estou Aqui

Foi com o propósito da continuidade que na passada sexta-feira transcrevi um excerto do livro do escriotor brasileiro Rubens Paiva intitulado Ainda Estou Aqui, que conta o que aconteceu aos pais em plena ditadura no Brasil, nos anos 1970. O pai, um engenheiro que ajudava as famílias de alguns oposicionistas ao regime, é levado certa tarde de casa pela polícia política para um interrogatório, deixando a mulher e os cinco filhos extremamente preocupados. Pouco depois, é a vez de a mulher e uma das filhas serem também levadas e interrogadas, ficando a mulher presa numa cela absolutamente horrível durante uma série de dias, sem se poder sequer lavar, até que, depois de perceberem que ela não conhecia as actividades do marido, a devolvem a casa à qual, porém, ele não voltou. Terá a partir de então de vender coisas, de sustentar sozinha os filhos, decidindo voltar a estudar e tornando-se uma advogada e defensora dos direitos humanos, nunca desistindo de saber o que foi feito do marido e exigindo uma declaração clara do que lhe aconteceu por parte das autoridades (o que conseguirá já depois dos 60 anos). Sendo o romance muito mais completo do que o filme (com documentos e relatos muito mais detalhados), este estreou há uns dias, e vale também muito a pena, não só pelo desempenho irrepreensível dessa actriz maravilhosa que é Fernanda Torres, filha do monstro sgarado Fernanda Montenegro e autora de pelo menos dois romances publicados em Portugal. Vejam o filme e leiam o livro, publicado pela minha colega Cecília Andrade, na Dom Quixote.

Excerto da Quinzena

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O presidente do Brasil, mãe, você o conhece pessoalmente. Ele já foi em casa duas vezes, quando ainda era líder sindical. Você esteve na fundação do partido dele. Esteve ao seu lado na luta pela Anistia, pelas Diretas, pela redemocratização. Até queriam você como suplente de senador do partido dele. Ele foi em casa numa noite em que tudo estava uma bagunça. Eu jogava War na sala com amigos. Tínhamos fumado maconha. Ríamos alto. Você, no quarto.


A Veroca o trouxe com o Geraldinho. Ele entrou, e gargalhamos, pois estávamos bem chapados. Ele nos cumprimentou, riu também, deve ter sentido o cheiro da rua. Claro que não oferecemos. Ele entrou e foi conversar com você sobre os rumos da política brasileira, que se reorganizava, saía da ditadura. Ficamos nos perguntando se deveríamos ou não oferecer maconha ao metalúrgico líder sindical. Melhor não. Naquela época, eu fumava maconha em casa com os amigos. No quarto, na varanda, nunca na sua frente. Depois de você ter descoberto que eu fumava, depois de ter descoberto que meus amigos fumavam, depois de ter descoberto que seus amigos, e amigos que fez já viúva, fumavam, depois de seus amigos que fumavam terem lhe oferecido, e de você não recusar, por educação, por timidez, e ter dado uns pegas, curiosa… e não ter sentido nada, você viu que não era coisa do demônio. Liberou.


Marcelo Rubens Paiva, Ainda Estou Aqui


 


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História de Portugal

Às quintas-feiras jantamos geralmente num restaurante com uns amigos que eram só do Manel mas agora também são meus. O elemento masculino do casal é um apaixonado pela História e, como conversamos sempre muito sobre o passado do mundo, eu aprendo muitíssimas coisas com ele; acrescento-as aos meus parcos conhecimentos de algumas personagens, adquiridos frequentemente na escola há décadas e desenvolvidos irregularmente ao logo do tempo com outras leituras. É certamente com o objectivo de ilustrar outros portugueses como eu que Lourenço Pereira Coutinho, doutorado em História, vai dar um curso no El Corte Inglés a partir de hoje, em cinco sessões, sempre às 18h30, sobre Personagens da História de Portugal e a Sua Época, em que abordará as figuras de Afonso Henriques, do Infante D. Henrique, do Padre António Vieira, do Marquês de Pombal e, sim, de Eça de Queiroz, que recentemente deu origem a polémicas (até aqui no blogue) mas é alguém que soube pensar o nosso país como poucos. Eu, infelizmente, não posso ir porque à mesma hora estarei a dar um curso sobre livros, mas quem possa e se interesse vá. Aprender não custa nada e sabe mesmo bem!

Elegia vencedora

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Numa manhã gelada de dezembro, Kyungha recebe uma mensagem da sua amiga Inseon – internada num hospital de Seul na sequência de um ferimento grave – pedindo-lhe que a visite urgentemente. Quando Kyungha chega à enfermaria, Inseon conta-lhe que veio de avião da ilha de Jeju para ser tratada urgentemente e implora-lhe que vá a sua casa dar de comer e beber ao seu periquito, que de contrário morrerá. Uma tempestade de neve fustiga a ilha à chegada de Kyungha e muitos dos autocarros foram cancelados ou sofreram atrasos. Kyungha não sabe se chegará a tempo de salvar a ave – nem mesmo se sobreviverá ao frio tremendo daquela noite; e não sabe também a vertigem que a aguarda em casa da amiga, onde uma história há muito sepultada acabará por revelar-se, documentando um terrível massacre ocorrido muitos anos antes em Jeju. Despedidas Impossíveis, o mais recente romance de Hang Kang, vencedora do Prémio Nobel da Literatura em 2024, é um hino à amizade e um poderoso manifesto contra o esquecimento. Como um longo sonho de inverno, estas páginas belíssimas iluminam uma memória traumática, enterrada ao longo de décadas, que ainda hoje ecoa no peito de muitas famílias coreanas. Saiu ontem, com tradução de Maria do Carmo Figueira e Ana Saragoça. Ganhou o Médicis para ficção estrangeira em França, ex-aequo com Misericórdia, de Lídia Jorge.


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Livros a arder

Quando pensamos em livros na fogueira pensamos naturalmente na Inquisição e no seu Index, ou em sistemas políticos repressores e ditatoriais, nos quais há sempre centenas de livros proibidos e queimados. Mas, desta feita, os livros na fogueira, os livros ardidos, nada têm que ver com censuras e proibições, mas com os horrorosos incêndios da Califórnia. Sim, é verdade, algumas editoras e livrarias nos arredores de Los Angeles foram apanhadas pelo fogo e, já se sabe, o papel arde depressa e bem; os fogos prejudicaram os proprietários, os autores, os leitores, as bibliotecas de alguns famosos, a cultura em geral... Os donos e o pessoal da  Book Soup e da Vroman's, uma livraia e uma editora, respectivamente, segundo um artigo publicado na Publisher's Weekly, foram convidados a afastar-se dos respectivos estabelecimentos e ficaram sem notícias do que aconteceu com eles, mas não esperam já nada de bom. Um ou outro livreiro sabe que a sua loja foi salva pelos bombeiros, mas mesmo assim foi obrigado a mantê-la fechada por vários dias e, não podendo vender livros por esse período, terá outro tipo de prejuízos. Em Pasadena, Santa Mónica, Riverside, Carmel e outros locais da Califórnia, o fogo chegou à porta de muitas casas e devorou livros nas estantes; e, nas livrarias, há muita gente sem saber como recuperar do susto e dos danos (e como vai conseguir pôr tudo de pé depois do rescaldo). Solidarizemo-nos, pois, com os nossos pares californianos, amantes da leitura como nós. O que lhes vale é nos EUA haver uma Book Charitable Foundation para ajudar, enquanto Trump não acaba com ela.

Os parentes do monstro

Há muitos anos, alimentava eu uma colecção de ficção estrangeira na Temas e Debates com umas capas lindas de morrer do designer António Rochinha Diogo (que também evocavam o génio de pintores de várias épocas), publiquei um romance chamado O Dia em Que Hitler Foi Lá a Casa, de Rodney Hall, cujo protagonista fictício recebia a visita do tirano quando era pequeno, sem ter a mais pequena ideia daquilo que Hitler um dia se tornaria. Agora, a Casa das Letras publica, porém, algo mais suculento, porque não ficcional mas verdadeiro, sobre os parentes de Hitler que lhe terão sobrevivido e que moraram ou moram ainda nos Estados Unidos. O livro chama-se A Família de Hitler e tem por subtítulo À Descoberta da Genealogia Secreta do Ditador Nazi. Foi escrito pelo jornalista britânico David Garner, que dirigiu a revista Newsweek e investigou durante muitos anos a vida dos sobrinhos e irmãos do Führer, parentes que, regra geral, tiveram vidas completamente sóbrias, discretas e muito decentes e esconderam, aliás, do mundo inteiro (menos de David Garner, suponho) o seu apelido, trocando-o por outro, não querendo ter nada que ver com o monstro que foi Adolf. Sai amanhã para as livrarias e veremos que surpresas nos guarda.

Eça a mexer

Eça de Queiroz foi para o Panteão esta semana, onde poderá ter interessantíssimas conversas com Sophia (digo eu), apesar de para já estar sozinho numa sala. A cerimónia da trasladação dos seus restos mortais foi muito bonita, com leituras e peças musicais muitas vezes evocadas nos seus livros; e, apesar de Eça estar agora em Lisboa, a sua Fundação, em Baião (ou deveria dizer «Tormes»?), continua a trabalhar na associação do nome do grande romancista do século XIX a belos projectos contemporâneos, tais como um prémio literário bienal de 10.000 euros atribuído a uma ficção escrita por um autor que tenha até 40 anos; ou uma bolsa de criação literária com um «ordenado» associado e estadia na localidade da casa do autor de A Cidade e as Serras (na qual certa noite ele comeu o tão famoso arroz de favas que ainda por se lá cozinha no restaurante). O prémio literário mencionado, que já foi dado a autores como Joana Bértholo ou Frederico Pedreira, tem o apoio da Fundação Millenium/BCP e, em 2025, terá como jurados Ana Luísa Vilela, Bruno Vieira Amaral, Carlos Reis, Isabel Lucas e Luísa Mellid-Franco. Já as bolsas de criação literária contemplam vários escritores e géneros no presente ano: poetas como Rita Taborda Duarte, jornalistas como Inês Bernardo ou Susana Moreira Marques, cronistas e ensaístas como Nelson Nunes. A Fundação Eça de Queiroz sempre a mexer!

Uma casa Para Sempre

A casa onde viveu o escritor Vergílio Ferreira, na aldeia de Melo, perto de Gouveia, abriu para residências artísticas temporárias, e os curadores serão Adélia Carvalho (se não conhece os seus livros e projectos, ainda vai muito a tempo, para alguma coisa serve a Internet) e Valter Hugo Mãe (o romancista vencedor do Prémio Literário José Saramago com o Remorso de Baltazar Serapião), que já estão a aceitar inscrições. Como sei que me lêem vários autores de livros, mas também cantores e artistas de outras áreas, divulgo já que se iriam sentir lá muito bem a trabalhar, já que a casa foi amplamente remodelada e remobilada, tem aquecimento, dois quartos, cozinha, casa de banho e, bastante importante como inspiração, uma vista soberba para a serra! Quem for escolhido para estas residências ocupará o segundo andar, em ambiente bem sossegado, e poderá ali conceber, adiantar ou terminar algum projecto artístico, bem como participar em actividades nas redondezas. O rés-do-chão e o primeiro andar estão abertos ao público, para visitas à casa do grande Vergílio, cuja entrada é gratuita. Tente-se a apresentar um projecto aos curadores, porque não?

O escritor que sabia fazer rir

Fiquei cheia de pena quando, na semana passada, li sobre a morte do escritor britânico David Lodge. Era um homem muito simpático (e também bastante surdo) que cheguei a conhecer em Lisboa; mas o que me liga a ele são os seus romances, muitos dos quais publiquei na primeira editora onde trabalhei, há um ror de anos, começando, se não me engano, por Um Almoço nunca É de Graça. Mas o meu preferido foi, sem dúvida, Terapia, com o protagonista a ler Kierkegaard para ver se atinava consigo próprio (a mulher pedira-lhe o divórcio e ele nem dera por que havia algo de errado com o casamento), e a ir de fim-de-semana com uma nova conquista para as Canárias, onde se tornou intimidante ir à casa de banho e ficar com um cocó entalado (chorei a rir com a cena que quase acabou com o romance). Também recordo vivamente Notícias do Paraíso, sobre pacotes de férias que acenam com o Paraíso e são um fracasso completo, até porque passara pela mesma experiência num longínquo arquipélago em que, no final do terceiro dia, já não havia nada que ver e, ainda por cima, era noite às cinco da tarde (eu tinha ido no nosso Verão...). Professor e romancista de excepção, Lodge honrou realmente o proverbial humor britânico e vale muito a pena lê-lo. Há muitos livros traduzidos em português.

Há bens que vêm por mal

Neste Natal, como de costume, passei várias horas com adolescentes e gente nova e reparei que são mesmo meninos-excepções os que não vivem a olhar para o ecrã do telemóvel e a digitar mensagens a toda a hora, quando não a ver vídeos que mostram uns aos outros constantemente. O digital tomou conta do tempo das crianças e jovens que, por vezes, estando ao lado uns dos outros, comunicam através do telemóvel. Mas esta coisa que nos trouxe tantas vantagens (no meu ramo de actividade foi incrível poder apagar e reescrever um texto sem mudar de folha e, se necessário, recuperar até versões anteriores de um texto gravadas num ficheiro antigo) tem afinal estado a deixar muita gente para trás. Isso mesmo dizia o jornal Público num artigo recente, baseado no boletim estatístico da Comissão para a Igualdade de Género, no qual se explicava que, apesar de alguns desenvolvimentos, o digital está a deixar as mulheres cada vez mais para trás (deixo o link abaixo); e, do mesmo modo, os mais velhos que não conseguiram «informatizar-se» (sobretudo fora dos grandes centros) e que estão a ser claramente prejudicados pela transição digital na área da saúde (ponho também o link deste alerta para quem queira ler). Além de tudo quanto tenho andado a pregar sobre o facto de a digitalização ser responsável por um decréscimo da leitura e da linguagem, agora mais estas. Mas como é que uma coisa que nos facilita tanto a vida pode complicá-la tanto ao mesmo tempo?


https://www.publico.pt/2024/12/27/sociedade/noticia/digitalizacao-sociedade-deixar-mulheres-tras-2116911


https://cnnportugal.iol.pt/idosos/transicao-digital/estudo-alerta-que-transicao-digital-na-saude-esta-a-deixar-idosos-para-tras/20240228/65dee0cad34e8d13c9b83b54


 

Estar enervado é bom

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É verdadeiro o título deste post: chegou a primeira revista Nervo de 2025 e isso só pode ser bom sinal! A Nervo, uma revista de poesia dirigida por Maria de Fátima Roldão (ela própria poetisa) vai já no seu 23º número e não pára de nos revelar belos poemas de autores portugueses e estrangeiros (estes últimos geralmente traduzidos por congéneres portugueses). Desta feita, brinda-nos com textos de Andreia C. Faria, Frederico Pedreira (também romancista) e Renata Correia Botelho, bem como António Vieira, Jorge Aguiar de Oliveira, Rui S. Magalhães ou Bernardo Maria Salgado, que traduz também o poeta espanhol Jose Mateos. Regressam  as traduções do músico e poeta João Paulo Esteves da Silva (neste número os poemas são de Rami Saari, israelita); e haverá, entre outros textos, um testemunho sobre o poeta José-Alberto Marques, que morreu recentemente, em Setembro de 2024. A imagem da nova Nervo está a cargo de Fernando Aguiar e pela capa vê-se logo que é bonita. Não se enerve com a minha insistência e leia poesia!


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Excerto da Quinzena

Custódio Braz afundava-se neste mar tormentoso e sombrio de cogitações quando sentiu que lhe afagavam o miolo da fraldiqueira e lhe esbulhavam as parcas moedas encafuadas. Foi como quem lhe chegasse urtigas às nalgas, que logo se alvoroçou e armou um aranzel de porfias e doestos, causando embaraço ao Aurélio das vistas, que ficou com o capítulo atrapalhado e o discurso fora do trilho.


O larápio, como lebre a fugir ao furão que lhe entrara na lura, escamugira-se da barraca em menos de um credo com o fruto da rapina enchouriçado nas mãos; a cuspinhar cobras e lagartos por entre os bigodes, Custódio também se desembestou no meio das pessoas a tentar deitar as unhas ao rato lascarim: o Trombeta não gostava que lhe bulissem com os pintos, ficava cego, adoudado, com as tripas cruzadas de tanta raiva.


 


Paulo Moreiras, O Ouro dos Corcundas (nova edição revista, a sair este mês)

O que ando a ler

Ora sejam bem-vindos ao blogue em 2025. Espero que tenham lido bastante durante estes tempos natalícios e recarregado baterias para o ano que agora começa. Eu levei para férias um livro que tinha comprado uns meses antes mas ainda não começara por causa de uma coisa chata: tem a letra demasiado pequena. Só no fim deste ano mandei fazer os óculos novos e então, sim, atrevi-me a lê-lo. Chama-se Canção do Profeta, escreveu-o Paul Lynch e ganhou o Man Booker Prize em 2023. É um romance distópico, que decorre numa Irlanda onde o poder é detido por uma estrutura que, sob o pretexto da segurança, desata a prender toda a gente que levante a voz e esteja contra alguma das suas acções. Larry, sindicalista, é preso logo no princípio do livro, e a sua mulher, com quatro filhos a cargo (um ainda bebé e o mais velho adolescente) anda desesperadamente a tentar tomar conta de tudo quando não só no emprego o seu chefe é substituído e o novo a põe claramente na prateleira, mas também o governo chama o filho mais velho para cumprir o serviço militar antes mesmo de terminar a escola secundária (e ele se recusa a fazê-lo). E mais não conto, mas é um livro com um toque orwelliano que põe questões muitíssimo actuais (e também assustadoras) que, se calhar, nem estão assim tão longe dos horizontes da nossa Europa. Leiam-no. A tradução é de Marta Mendonça.