Edições de luxo
No mesmo dia em que a revista Única dedicava um número aos luxos dos mais e menos conhecidos, participei daquilo a que se pode chamar um lançamento de luxo. Tratava-se da apresentação pública de Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares – um livro em verso-prosa que narra a viagem de um português (estranhamente chamado Bloom, como o Bloom do Ulisses) até à Índia, partindo de Lisboa e parando em Londres e Paris, no século XXI. Escrito de certa forma à sombra d’Os Lusíadas, com os mesmos cantos e estrofes e também algumas glosas em versos precisos (para quem conheça bem o poema de Camões a leitura deve ser ainda mais extraordinária), este é um livro que vai dar que falar cá e em toda a parte, hoje e daqui a cem anos. E, embora não o tenha ainda lido (mal lhe pus a mão, para ser sincera), a verdade é que me sinto desde já à vontade para o recomendar. E porquê? Pois bem: não só a apresentação de Vasco Graça Moura foi suficientemente elucidativa e aliciante, mas também – ou sobretudo – a leitura de vários excertos por Pedro Lamares (um grande, grande diseur) mostrou que o texto é absolutamente genial e tem de ser lido com todo o tempo do mundo. Em época de mediania, como aquela em que vivemos, este é um luxo irrecusável – e a ele voltarei neste blogue para confirmar, com toda a certeza, as minhas suspeitas assim que terminar a leitura.
E também há o Harold, Harold Bloom:)
ResponderEliminarAinda não o li o livro mas li a óptima entrevista dada a Pedro Mexia no Y. O nome Bloom dado à personagem parece ser exactamente o mesmo tipo de mecanismo que levou Joyce a chamar Ulysses ao seu livro. Só que neste caso a coisa é mais complexa, temos um livro que usa alguma da estrutura e temática dos Lusíadas e uma referência ao Ulysses do Joyce que fez o mesmo com a Odisseia.
ResponderEliminarDo conteúdo não sei (ainda) mas a premissa parece interessante.
Pelo-me por edições de luxo! Concordo que esta é uma delas. Já a tenho mas ainda não me aventurei, como se precisasse de ir primeiro à revisão, como os carros antigamente, antes de irmos à terra. Folheia-a como se roubasse alguma coisa, calculo que senti o mesmo que o Ali Babá quando espreitou a gruta dos ladrões, com receio que alguém me visse e me tirasse aquele baú cheio de palavras, tantas. Lendo ao acaso e de raspão senti-me no cume duma montanha, mas sei que me falta o caminho até lá chegar e, como em todas as viagens, o percurso é sempre o melhor.
ResponderEliminarpois "luxuriei-me" no navio deste novo argonauta este fim-de-semana - e comprei uma cópia de camarote - mas ainda não embarquei.
ResponderEliminartenho estado a namorar as velas e a olhar para a âncora com algum receio...
(manias de marinheiro supersticioso sempre a aguardar uma maré mais favorável)
Viva! Acabei por "tropeçar" neste louvável blog sobre leitura e, sem querer fazer dele um espaço de promoção própria, gostava de aproveitar para deixar o convite a descobrir o meu recente trabalho "Os Bárbaros" (http://www.fnac.pt/Os-Barbaros-Humberto-Oliveira/a320310) ou até, quem sabe, outras das minhas obras cujo lançamento se encontra para breve. Agradecido,
ResponderEliminarHumberto Oliveira (Jimmy David).
www.wix.com/jimmydavid/wixjimmy
Seria muito bom ter todo o tempo do mundo para ler este e muitos outros livros. Há-de chegar a vez deste também. Entretanto fico a aguardar que nos confirme as suas boas suspeitas.
ResponderEliminarBoa leitura.
Receber um "grande, grande" elogio num blog com esta "pinta" já é de sobra razão de alegria e reforça o sentimento de que continua a valer muito a pena este ofício que amo: Ler em voz alta, ou "dizer" poesia. Recebê-lo de uma das minhas poetas preferidas, torna a dita alegria num arrepio feliz. De facto, querida Maria do Rosário Pedreira, dizer texto é tão mais fácil e mais prazeroso quanto melhor é o texto. E aí, sem dúvida, esta "Viagem à Índia" foi dos tais que deram um gozo especial, primeiro a descobrir e depois a dizer, a partilhar. De resto, continuo a ler "As raparigas amam muito", "Mãe, eu quero ir-me embora", "saio da cama pela fenda do lençol", etc..., nas minhas sessões de "O Fraseador" e do "Coincidência", pelas escolas, bibliotecas e teatros. Ou seja, nos projectos em que escolho o que quero ler. Onde leio os "meus" poetas. A Rosário é uma das "minhas" poetas. O Gonçalo também. É uma honra poder-vos ler. Ser ouvido por vocês, um privilégio. Identificarem-se com essa leitura é o melhor elogio e estímulo que posso receber. Continuemos a levar poesia às pessoas, cada um com as ferramentas que tem. Bem Hajam.
ResponderEliminarMuito obrigada, Pedro. Desculpe só hoje responder, mas estive doente e nem vi o meu próprio blog. Um beijinho.
Eliminarentretanto, estando o vento de feição, iniciei a viagem na companhia do sr. bloom e - numa pausa ao fim do terceiro canto - creio já poder afirmar que é mesmo um daqueles livros sobre o qual se irão escrever teses daqui a alguns anos...
ResponderEliminaraconselho-o a todos os percebem que há algo comum em "os lusíadas", no "ulisses" de joyce e na "odisseia" e aos que ainda gostam de livros, de viagens, de ironia e dessa coisa vagamente indefinível que é "ser português".
a maré chama-me, volto para o canto quarto.
(boa viagem)