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A mostrar mensagens de fevereiro, 2018

Chamada para publicação

Uma curadora que recentemente se juntou a uma equipa já consolidada do Prémio Literário Oceanos é Mirna Queiroz, a directora da interessantíssima publicação digital Revista Pessoa e uma querida amiga. Numa das suas newsletters, falava de uma editora nova-iorquina que abriu «chamada para publicação». Dirigida por por Meghan Forbes, a Harlequin Creature acaba de lançar uma plataforma online e pretende publicar todos os meses poesia, ficção ou ensaio (especialmente sobre tradução) traduzido de outras línguas (o contrário de quase todas as editoras de língua inglesa!). A ideia é conseguir inéditos interessantes (entrevistas, artigos, seja o que for), que de outro modo nunca chegariam aos leitores de outros países, e divulgá-los para que alcancem um público mais numeroso (o inglês ajuda muito, como sabemos). Em relação à questão digital, ela também permite a publicação de textos mais longos, o que, numa revista em papel, se torna quase sempre impossível e obriga a cortes que fazem frequentemente o texto perder espessura. Mais: a ideia é pagar as contribuições, por isso, havendo alguém interessado, o link aí vai. Who knows? Agradeçam a Mirna e consultem a sua revista, que vale muito a pena.


 


https://harlequincreature.org/   

Notícias da Folha

Leio num jornal sobre outro jornal da mesma língua, embora não do mesmo país. Falo do simpático Folha de S. Paulo, talvez o mais interessante dos jornais brasileiros de grande tiragem e com uma parte cultural de qualidade respeitável. Pois bem: este jornal fez recentemente um comunicado, explicando que deixará em breve de partilhar notícias no Facebook. Estranho, não é? Bem vistas as coisas, nem tanto: ao que parece, aquela rede social resolveu há pouco tempo alterar determinado algoritmo (ou «o» algoritmo) e, desde o início do ano, passou a dar prioridade às publicações de «amigos» em detrimento dos conteúdos ditos noticiosos provindos de agências e jornais profissionais. Entendendo que essa opção favorece claramente a propagação de notícias falsas (estamos todos fartos de saber que os «amigos» muitas vezes acreditam na primeira coisa que lêem aos «amigos» e toca de espalhar notícias não confirmadas, a que acrescentam a própria indignação, emoção que parece um íman e atrai todo o tipo de parvos), a Folha de S. Paulo prefere retirar-se simplesmente da rede social; para mim é pena, pois gostava de os ler quando, por acaso, dava com eles no meu mural. Mas aceito a decisão e fico de olhos ainda mais abertos para perceber até onde o Facebook deseja que nos leve o seu algoritmo...

Porto febril

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Sim, as Correntes d’Escritas terminaram, mas hoje estou ainda pelo Norte, no Porto, para o lançamento do novo romance de Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis, de que aqui falei recentemente e que trata de uma família em que um dos três filhos contrai tuberculose e, muitos anos mais tarde, das explorações às ruínas do desmantelado Sanatório do Caramulo por uma rapariga que «colecciona» escritores tísicos (Júlio Dinis, Cesário Verde e muitos outros apanhados pela febre das almas sensíveis) . A apresentação do livro ficará a cargo do jornalista e radialista João Gobern (e também comentador de Futebol, mas isso interessará pouco para este contexto), que no passado já escreveu, sobre o romance anterior da autora, Rio do Esquecimento, como este finalista do Prémio LeYa. Se estiver pela Invicta apareça!


 


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Correntes 2018

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E pronto, amanhã lá se inauguram mais umas Correntes d'Escritas que, quando começaram, só tinham um elo ou dois e agora dão voltas e voltas à nossa cabeça (desculpem a metáfora um bocado frouxa com «correntes»). Não perco um destes encontros por nada deste mundo e sempre vou tendo a alegria de todos os anos convidarem autores que publico, sobretudo quando têm livros novinhos em folha para lançar por lá. É o caso, por exemplo, de Isabel Rio Novo, cujo romance A Febre das Almas Sensíveis, finalista do Prémio LeYa, acaba de sair (também haverá lançamento no Porto no dia 26, nos Armazéns do Castelo, ao lado da Livraria Lello, às 18h30). Mas irão igualmente Miguel Real (um repetente) e Paulo M. Morais (um estreante). Além deles, muitos outros autores que não são publicados por mim, portugueses, brasileiros, espanhóis, africanos, latino-americanos, enfim, de Abrãao Vicente a Vítor Quelhas (por ordem alfabética), os convidados são às dezenas, com destaque para o casal espanhol Elvira Lindo + Munõz Molina (um luxo), a conversa inaugural com Luís Fernando Veríssimo, o espectáculo musical e literário de Inácio Loyola Brandão & companhia, e ainda mesas-redondas, lançamentos de livros, sessões de poesia e muito mais. A partir de amanhã e até dia 26, não haverá blogue, lamento. No regresso, contarei tudinho.


 


P.S. Para quem esteja no Porto, no dia 24, sábado, às 17h00, haverá uma sessão do Porto de Encontro dedicada à minha poesia. Se puderem, apareçam.


 


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Um novo programa de rádio

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Desde quarta-feira passada, temos na Rádio Renascença um novo programa de livros intitulado A Biblioteca de... cujos autores são a jornalista e escritora Filipa Martins (que acaba de publicar o romance Na Memória dos Rouxinóis na Quetzal) e o editor e especialista em comunicação Rui Couceiro, que já trabalhou em rádio oito anos. Unidos pelo amor aos livros, os dois juntaram-se neste projecto que acontece uma vez por semana, às quartas, pelas 23h00, e dura apenas quinze minutos (mas podia durar outros quinze, porque é bastante bom de ouvir e, mal começa, já quase acabou). Com esta duração, não ouviremos muito sobre a biblioteca dos convidados, é certo, mas a novidade, efectivamente, está em pedir a esses convidados que leiam  pequenos excertos do seu livro preferido (um dos preferidos, vá lá, porque para quem lê muito não é possível eleger só um). No programa de estreia, ouvimos o sempre interessante e querido professor Eduardo Lourenço, que escolheu O Vermelho e o Negro, de Stendhal; e já se perfilam para as sessões seguintes, Aldina Duarte, Rui Veloso e Rita Rato. A música que identifica o programa é de Rodrigo Leão. Vamos ouvir?


 


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Pensamento emocional

«O dia não corre melhor se, antes de sairmos de casa, alguém nos disser umas palavras simpáticas?» Era assim que começava uma pequenina coluna do jornal Público a propósito de um encontro sobre «pensamento emocional» e a importância de trabalhar as emoções com os alunos, especialmente se oriundos de meios desfavorecidos e violentos, antes de tentar o evidentemente difícil sucesso escolar. Os professores de algumas escolas reuniram-se para trocarem ideias sobre a matéria, e uma das intervenientes – professora num agrupamento em TEIP (ou seja, Território Educativo de Intervenção Prioritária – as coisas que eu aprendo) – explica que trabalha com pessoas excepcionais e que numa escola problemática o campeão de kickboxing, filho de uma cigana e de um negro, Miguel Reis, dá aulas à miudagem e ensina a trabalhar as emoções de forma física (provavelmente, a libertar a agressividade desportivamente, e não em cima do colega do lado). Não conheço os resultados práticos deste trabalho, mas parece-me que, se as pessoas estiverem de facto mais contentes consigo mesmas, terão mais sucesso, na escola e no trabalho. Não devia era ser preciso debater isto, mas, enfim, sabemos como os problemas de indisciplina se têm multiplicado nas escolas e, por isso, não deve ser fácil aos professores e auxiliares educativos andarem a fazer elogios a alunos  que, provavelmente, preferiam ver pelas costas. Mesmo assim, é bom termos isto sempre presente: uma palavrinha simpática para o outro todos os dias vai fazer dele uma pessoa melhor. E de nós também.

Pessoa em Madrid

Parece que o grande Fernando nunca terá ido a Madrid, mas Madrid agora tem Fernando e muito mais para mostrar. Trata-se de uma exposição no Museu Reina Sofía intitulada  Pessoa. Toda a Arte É Uma Forma de Literatura, título, de resto, arrancado a um dos heterónimos do mestre, desta feita o meu preferido, Álvaro de Campos. Sabe-se que os espanhóis (pelo menos, os mais cultos) conhecem a poesia de Pessoa, mas não estarão tão familiarizados com os artistas seus contemporâneos, alguns dos quais amigos próximos do escritor ou figuras presentes nas tertúlias do Martinho da Arcada e da Brasileira. Ao que sei, a exposição recebe os visitantes à entrada com o famoso retrato de Pessoa por Almada Negreiros, que também é autor de quadros sobre os três heterónimos mais conhecidos. E não faltará o grandíssimo artista Amadeo de Souza-Cardoso, ou as obras de António Carneiro, Abel Manta, Eduardo Viana, Mário Eloy, Júlio, Santa-Rita Pintor e, bem entendido, o casal Delaunay. Tudo combinado com os desenhos e as cartas de Teixeira de Pascoes, as outras cartas (astrais) do próprio Pessoa, fotografias do poeta e capas das famosas revistas para as quais escreveu que, por vezes, são outras obras de arte. O Museu espera, naturalmente, um público maioritariamente espanhol, mas parece-me que não faltarão portugueses para a visitar, assim o tempo e as finanças permitam.

A arte da vida

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Sinto-me sempre feliz quando mergulho num livro de um jovem autor e descubro nele coisas que, apesar de séculos de escrita, cheiram a novo. Desta vez passou-se com a argentina María Gainza, cujo O Nervo Ótico, muito elogiado por Vila-Matas, está desde ontem à venda. María Gainza é, na origem, crítica de arte e, quando escreve no seu romance sobre as vidas incríveis de El Greco, Courbet, Fujjita ou Toulouse-Lautrec, sobre o banquete que Picasso ofereceu em honra de Henri Rousseau entre a admiração e a troça, ou sobre as misteriosas razões por que Rothko se recusou a entregar ao luxuoso Four Seasons uma encomenda milionária, está também a falar do hospital em que o marido fez quimioterapia e onde uma prostituta andava de quarto em quarto, da decadência da sua própria família em Buenos Aires, do desaparecimento precoce de uma amiga, do desconforto da gravidez ou até do pânico de voar. Como num museu – lugar que, aliás, frequenta regularmente à maneira de uma sala de primeiros-socorros –, a sua vida tem obviamente obras-primas, mas também pequenos quadros escondidos em corredores escuros e estreitos. E, no entanto, todos eles importam. O Nervo Ótico é um livro de olhares: olhares dirigidos a pinturas e a quem as contempla. Singular e inclassificável, celebra o detalhe e inaugura um género literário no qual confluem, de forma absolutamente perfeita, a história da arte e a crónica íntima, num tom que oscila entre a comédia social e a ironia trágica. Traduzido por grandes editoras em todo o mundo, esta pequena obra de estreia, tão depressa ousada como subtil, apresenta-nos sem qualquer dúvida uma grande escritora contemporânea.


 


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Almas sensíveis

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Portugal, primeira metade do século XX. Entre os males que assolam um país isolado e retrógrado, a tuberculose ressalta como uma das principais causas de morte. Ainda sem recursos farmacológicos para a combater, os médicos recomendam o internamento em sanatórios instalados em zonas de altitude. Na serra do Caramulo, outrora uma região pobre e agreste, cresce uma estância sofisticada. É para lá que irá o jovem Armando, uma das personagens centrais deste livro que, com a sua família, atravessará o enredo de A Febre das Almas Sensíveis, o novo romance de Isabel Rio Novo, acabadinho de sair. Mas dele faz também parte uma rapariga que investiga escritores que sofreram de tuberculose  – Soares de Passos, Júlio Dinis, António Nobre...  – e um misterioso manuscrito encontrado nas ruínas do Caramulo. Combinando o registo histórico e a toada fantástica que produziram a magia de Rio do Esquecimento, neste seu novo romance, mais uma vez finalista do Prémio LeYa, Isabel Rio Novo recupera a memória de uma doença que marcou a sociedade de uma época e o nosso imaginário romântico.


 


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Cérebros afins

Gosto de ter afinidades com outras pessoas e sinto que ter os mesmos interesses facilita a empatia e favorece a amizade. Mas tenho também amigos que pensam de maneira completamente diferente de mim – em termos políticos, por exemplo – sem que isso afecte a nossa relação, e a maioria dos meus amigos mais próximos não trabalha sequer na minha área de actividade, bem pelo contrário, embora quase todos gostem de ler. Sobre isto de os amigos terem coisas parecidas e diferentes de nós, leio um artigo super-interessante no Público a propósito de um estudo científico publicado na revista Nature Communications, que revela que os amigos reagem ao mundo de forma muito semelhante e que isso se vê nos respectivos cérebros. Uau! A amostra foi recolhida numa universidade em que os estudantes disseram quem eram os seus amigos e foram postos numa sala a ver vídeos de política, ciência, música e muito mais. As reacções dos cérebros eram vigiadas através de ressonâncias magnéticas funcionais e, tratando-se de amigos, eram exactamente as mesmas (o artigo diz «excepcionalmente similares»). Segundo a revista, estes resultados permitem prever se duas pessoas são amigas e ter uma noção da distância social entre elas. E esta, hein?

3 em 14

Vêm aí as Correntes d’Escritas – mais para diante, com o programa definitivo na mão, falarei delas com detalhe – e, como todos os anos, os finalistas do prémio literário promovido por este encontro de escritores com o apoio do Casino da Póvoa já foram anunciados. No presente ano a modalidade é ficção e engloba a produção literária de dois anos (ou seja, as balizas têm muito campo de discussão pelo meio). Não sei o que vai acontecer porque são catorze finalistas (penso que costumam ser menos) e combinam livros já premiados (A Resistência, de Julián Fuks, por exemplo, que ganhou o Prémio Literário José Saramago há uns meses; ou Karen, de Ana Teresa Pereira, que venceu o Oceanos) com obras de estreia (Esse Cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida), autores consagrados (Juan Marsé) com livros pouco conhecidos (A Brecha, do açoriano João Pedro Porto, por exemplo). Verifico, no entanto, que tenho três livros nos catorze: além do já referido Esse Cabelo, o romance Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, de Ana Margarida de Carvalho, e Um Postal de Detroit, de João Ricardo Pedro. Agora é esperar.

Ler ou ouvir

O semanário Expresso lançou recentemente uma colecção de livros com inéditos de autores que, na maioria, podemos considerar a geração mais nova mas já «confirmada» da literatura portuguesa (e depois há também alguns craques a fazer-lhes companhia). Cada livro tem dois «contos», e já foram publicados os pares Afonso Cruz/João Tordo e Clara Ferreira Alves/Bruno Vieira Amaral, a estes seguindo-se as duplas Patrícia Reis/Maria Teresa Horta, Afonso Reis Cabral/Isabela Figueiredo, Nuno Camarneiro/Isabel Rio Novo e, por fim, Nuno Júdice/Matilde Campilho. São absolutamente gratuitos para quem comprar o jornal e muito manuseáveis, o ideal para quando esperamos pela consulta do dentista ou só temos um restinho de noite (o meu caso) depois de jantarmos, lavarmos a loiça e irmos espreitar o Facebook (cada vez menos interessante) ou acabarmos uma coisa que deixámos a meio na véspera. O mais original é podermos igualmente ouvir estes contos contados por vozes bonitas (Rita Redshoes ou Bento Rodrigues): na capa de cada exemplar existe um código e basta ir à página do Expresso, inscrever esse código e seguir as instruções. (Pode levar-se a tábua de engomar para perto do computador, se for preciso.) É uma boa forma de ficarmos com uma panorâmica do que se anda a escrever em 2018. Boas leituras!

A arder

Fahrenheit 451 é um livro de Ray Bradbury publicado nos anos 1950 que deu depois origem a um filme de François Truffaut  com a fantástica Julie Christie. Trata-se de uma distopia ambientada num mundo onde os livros são proibidos e os bombeiros obrigados a queimá-los (451 graus Fahrenheit é a temperatura a que os livros ardem.) Pois bem, apesar de se tratar de uma obra clássica, que nunca deixou de ser reimpressa e reeditada em todo o mundo, nada faria prever que alguém se lembrasse da maluqueira de criar uma edição especial na qual, para ler, é preciso deitar fogo às suas páginas… Foi, porém, esta iniciativa que levou a cabo o Laboratório Charles Nypel, com sede na Holanda, em colaboração com uma empresa de design gráfico. Ao que parece, os criadores partilharam inclusivamente um vídeo no Instragram explicando a sua ideia e mostrando a função «incendiária»; nos comentários, confessam que planeiam multiplicar a produção deste objecto experimental… Será que o vão pôr à venda? Bem, leiam Bradbury, mas não se queimem.


 

Orações

Quando visitei o cemitério judeu em Praga, lugar belíssimo, fiquei intrigada com todos aqueles papelinhos dobrados e pousados sobre as pedras tumulares, como se fossem recados dos vivos para os mortos. Em Macau, num santuário, também vi as várias orações deixadas numa espécie de oratórios bastante coloridos onde ardiam pauzinhos de incenso. Sinto que uma oração é coisa privada e íntima, pelo que nunca me ocorreria desdobrar esses papelinhos para ver o que tinham escrito, mesmo que falasse as línguas dos seus autores. Lembrei-me de tudo isto a propósito de uma notícia curiosa lida no Público: a de que, no manto da imagem de Nossa Senhora da Soledad, da Basílica de Mafra, que estava em restauro, foram descobertos documentos manuscritos dobrados em quatro e cosidos à zona dos bordados, de forma que, de fora, não se desconfiava de nada. Presume-se que serão de meados do século XIX e já se pôs a hipótese (mera hipótese, sublinhe-se) de que se trate de pedidos feitos a  Nossa Senhora da Soledad por várias pessoas, uma vez que são sete (um número invulgarmente grande) e, aparentemente, escritos por «mãos diferentes». Os documentos não foram ainda lidos (até porque o manto continua em restauro e não se pode arrancar a papelada de qualquer maneira) e é provável, claro, que nunca venhamos a saber o seu conteúdo. (Talvez os especialistas sejam os únicos a poder devassar a intimidade.) Espero, evidentemente, que os pedidos tenham sido atendidos.

Histórias que fazem bem

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Descubro no meio do lixo todo que leio todos os dias (somos invadidos por ele e às vezes nem o podemos deter, porque aparece em cima do que estamos a consultar e obriga-nos a esperar x minutos para nos livrarmos dele) uma notícia muito bonita – ainda que, curiosamente, tenha também que ver com... lixo. É verdade: em Ancara, na Turquia, abriu em Setembro uma biblioteca pública formada quase exclusivamente por livros abandonados e deitados fora, que foram sendo recolhidos por homens do lixo. A ideia inicial era serem trocados entre eles e as respectivas famílias, o que aconteceu durante os primeiros meses, mas o número de livros foi crescendo e, a certa altura, já eram os habitantes da cidade que lhes vinham entregar livros e revistas que já não queriam. O projecto atingiu, assim, tais proporções que teve de dar origem a uma biblioteca física, e a autarquia apoiou a sua instalação numa fábrica de tijolos igualmente abandonada. A nova biblioteca já tem cerca de 6000 títulos! Haja esperança. Bom fim-de-semana. A ler, claro.


 


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De Israel

Na sua última edição, o Man Booker International Prize foi para o escritor israelita David Grossman, com o romance Um Cavalo Entra num Bar, título suficientemente estranho para chamar logo a nossa atenção. A frase resulta ser o princípio de uma anedota, já que o protagonista (um dos protagonistas) deste livro é um artista de stand-up comedy passado dos 50 anos, a cuja exibição assistimos «em directo» enquanto lemos – e, céus!, garanto-vos que David Grossman tem um manancial de truques e graças para nos fazer rir, tal como a personagem ao seu público. Não, porém, a todo: porque o narrador deste romance, um juiz que privou com o comediante num certo período da adolescência, está a assistir ao espectáculo a pedido do próprio artista, mas são mais as vezes que reflecte e se preocupa do que aquelas em que lhe acha genuinamente graça. Tirando algumas piadas demasiado «judias» (ui, algumas de um humor negro terrível) ou «locais», mais difíceis de perceber por quem não é do contexto, faço a vénia a um escritor que consegue transpor para as páginas de um livro, como se estivesse de pé, ao microfone, um show incómodo que põe o dedo em muitas feridas. Quanto ao resto, ainda vou a meio e não sei o que ainda virá aí para cima do juiz… Nem ele, para já. A tradução, directamente do hebraico, é de Lúcia Liba Mucznik.