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A mostrar mensagens de 2018

Crónica e boas festas

Hoje é dia de partilhar a minha mais recente crónica do Diário de Notícias e, assim, aí vai o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/16-dez-2018/interior/natureza-morta-10318220.html


Aproveito para desejar a todos um excelente Natal com muitos livrinhos e, claro, um ano de 2019 tranquilo, com saúde e muitas alegrias. Eu vou fazer umas mini-férias, pois tenho parte da família longe de Lisboa, e por isso só regressarei aqui ao blogue no próximo dia 2 de Janeiro. Divirtam-se e não se empanturrem. E leiam, por favor. Até para o ano.

Livre-se

Acredito que quase todos os Extraordinários tenham problemas de espaço em casa no que toca à arrumação dos livros e, mesmo fazendo das tripas coração, se tenham de livrar de alguns de vez em quando, sob o risco de a casa vir abaixo… (Não estou a brincar: tenho um amigo que teve de alugar uma «box» numa arrecadação porque o senhorio lhe explicou que a casa não suportava o peso das estantes e havia perigo real de derrocada). Eu, nos últimos anos, já me libertei de bastantes livros – títulos repetidos (mesmo em edições diferentes ou de línguas diferentes), temas em que sei que não vou pegar, alguns textos que li e/ou publiquei mas não me parece que venha a revisitar. Ora, uma das plataformas que venceram em 2017 o Orçamento Participativo, e começarão agora a sua actividade, chama-se justamente LIVRAR e permite aos interessados livrarem-se dos livros que têm lá em casa e (já) não lhes interessam e trocá-los por outros (de que outros leitores se livraram pelas mesmas razões ou, por exemplo, porque herdaram dos pais e avós bibliotecas a que não sabem o que hão-de fazer). A troca faz-se no site da plataforma e é gratuita, bastando a cada pessoa registar-se para dar e receber, e o mesmo acontece com as bibliotecas que vejam interesse em renovar os seus stocks e que têm, aliás, preferência sobre os leitores individuais  nos primeiros quinze dias. Assim, se tem livros para pôr à porta de casa ou no caixote do papel e cartão para reciclagem, reconsidere. Pode fazer alguém feliz e ganhar, ainda por cima, umas leituras em troca.

Marguerite e François

Às vezes descobrem-se coisas bem interessantes no Facebook – e foi completamente por acaso que dei com um vídeo belíssimo de meados dos anos 1960, no qual a grande escritora francesa Marguerite Duras entrevista o pequeno François, de 7 ou 8 anos, e este lhe dá respostas fascinantes. Era uma época em que a televisão ganhava terreno aos livros e já se preocupavam os intelectuais com o que poderia acontecer à cultura com o protagonismo alcançado em tão pouco tempo pela «caixa mágica». Mas, quando Duras pergunta a François, que é extremamente sério e expressivo, se ele prefere ler uma história ou ouvi-la na televisão,o rapazinho é categórico: lê-la. E porquê? Justamente porque, ao ler, ele é parte activa, faz parte integrante do projecto, e não sujeito passivo, como acontece quando é meramente um espectador e ouve alguém contar-lhe uma história. Este pequeno François deve ter hoje a minha idade – e deve estar, como eu, a perguntar-se por que raio tanta gente hoje prefere exactamente o contrário, ficar parado, quieto, à espera que os outros lhe dêem tudo feito… Um vídeo extremamente actual: basta substituir a televisão pelas novas tecnologias, e é tudo verdade. Deixo-vos o link:


 


 


http://www.ina.fr/video/CPF07003784

Replicar

Todos falamos com saudade das velhinhas bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, que corriam o País de norte a sul com uma selecção de livros para todas as idades e paravam sobretudo em locais em que o acesso ao livro era difícil e não havia livrarias num raio de quilómetros. Conheço muitos excelentes leitores que se formaram com livros escolhidos nessas bibliotecas – o conhecido romancista José Luís Peixoto, por exemplo, conta sempre como a biblioteca itinerante foi importante para ele durante as suas infância e adolescência passadas em Galveias, no Alentejo. Mas, ao contrário do que poderíamos pensar, a ideia ainda não morreu completamente (passe o paradoxo): depois da tragédia dos incêndios, e em nome do Fundo de Apoio às Populações e à Revitalização das Áreas Afetadas, a Fundação Calouste Gulbenkian entregou ao Município da Sertã uma carrinha completamente adaptada aos serviços de biblioteca que, já no início do próximo ano, começará a visitar cerca de 240 lugares isolados ou cujos habitantes têm mobilidade reduzida, para distribuir livros e revistas, replicando a velhinha ideia que pôs em prática noutros tempos. A carrinha executará também outros serviços, como fazer fotocópias, dar acesso à Internet, preencher formulários, etc. Nunca é demasiado tarde para replicar uma boa ideia. Agradeça-se à Fundação.


 

Uma carta de amor

Talvez os Extraordinários não saibam, mas o mercado editorial no Brasil está num estado absolutamente calamitoso. As coisas já não andavam de feição há imenso tempo, mas as duas principais cadeias de livrarias (Saraiva e Cultura) entraram em falência técnica; e isso  quer dizer que não só muitas das cidades brasileiras ficarão sem uma única livraria (o que é tenebroso), mas também que os editores ficarão com créditos que não sabem se alguma vez vão conseguir receber (e, se conseguirem fazer acordos, de certeza que perderão cerca de 40% das quantias que lhes devem). Assim, também os pequenos editores, que em geral são os mais corajosos e publicam o que se vende menos (poesia, teatro...), entrarão em crise e, muito provavelmente, não se aguentarão. Mas também as editoras maiores, algumas pertencentes a multinacionais, com um respeitável número de funcionários, terão de despedir pessoas em várias áreas e, já se sabe, os assistentes editoriais, por diminuição da produção, são os que primeiro voam... Eu, que já estou  nisto há trinta anos, já vi a mesma situação em Portugal, sobretudo com a falência de grandes distribuidoras nos anos 1990. Mas o Brasil é um país enorme, com a agravante de ter agora um governo que lida mal com a cultura e os intelectuais. É por isso que Luís Schwarcz, o editor da Companhia das Letras, escreve uma carta de amor aos livros que vale a pena ler. Deixo-vos o link e espero que, mesmo não sendo brasileiros, façam o que ele sugere, pede, diz. Por todos nós. E pelos livros.


 


http://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/Cartas-de-amor-aos-livros?fbclid=IwAR1SuVoarvmoaD8ne2XsMa4zS6KywcvqcA800r22Y5dqVDmbSTmGOdxv-dM#.XBEtBLaxWGs.facebook


 

Crónica e poema

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Hojé é dia de partilhar a crónica do último domingo no DN. Aí está o link:


 


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/09-dez-2018/interior/adeus-futuro-letra-morta-10286045.html


 


Clarice Lispector, a muito apreciada escritora brasileira nascida na Ucrânia, teria feito anos (98, acho) no passado dia 10, e até o Google celebrou o seu aniversário colocando a sua carinha no motor de busca. A poetisa portuguesa Adília Lopes, à qual não falta verve, dedicou-lhe um poema que alguém partilhou nesse dia no Facebook e que também vos deixo. Bom fim-de-semana.


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Viva a República

Todos sabemos que por cá a República foi bastante violenta naqueles anos longínquos em que se sucediam primeiros-ministros à velocidade da luz, se punham bombas, faltava o dinheiro, o caos era absurdo. Mesmo assim, o tempo que se seguiu foi bem menos caótico, mas muitas liberdades foram à vida… E é sobre liberdade que hoje vos falo, pois existe uma Escola Básica e Secundária em Lousada que funciona um pouco à maneira de um Parlamento no qual os jovens podem intervir e propor mudar algumas regras instituídas. O projecto – que valeu à dita escola a designação de Amiga da Criança – chama-se República dos Jovens e, entre outras coisas, esta República conseguiu a alteração do estatuto que regia a conduta dos alunos para algo mais próximo do que estes pretendiam. Todos têm voz, estão representados e têm voto na matéria, influenciando muitas vezes as decisões da direcção (que agradece a ajuda, porque há certas coisas que estão mal na escola mas os directores desconhecem por não andarem a brincar no pátio ou a comer no refeitório). Sentindo que confiam neles, os alunos não se armam em parvos pedindo o impossível, conscientes de que quem tudo quer tudo perde, e aprendem a reflectir, pesar situações, negociar, apelar à justiça. E a disciplina aumentou imensamente. Uma bendita República.

Prémio Oceanos

Na sexta-feira passada foi anunciada a vencedora do Prémio Oceanos (antigo PT), a poetisa Marília Garcia, com a obra Câmera Lenta. Li poucas coisas desta autora, e prometo estar atenta aos seus livros daqui por diante. Com ela, estava na final o poeta português Luís Quintais e o moçambicano Luís Carlos Patraquim, que foram distinguidos, respectivamente, com os terceiro e quarto prémios. Em segundo, ficou o único romancista galardoado, Bruno Vieira Amaral, com Hoje Estarás Comigo no Paraíso, romance de que já aqui falei no blogue e recomendo, sendo que o primeiro romance deste autor, As Primeiras Coisas, arrecadou o Prémio Literário José Saramago e o Prémio Fernando Namora e está para sair no Brasil no início de 2019. Agora vão querer de certeza absoluta publicar também o segundo... e a correr. Para o ano há mais.


 


Em tempo: Ontem tive um problema com o computador e por isso só hoje vi a maioria dos comentários do post anterior. Não me importo que comentem, mas importo-me, e muito, quando esses comentários são agressivos e mesmo insultuosos. Não direi isto mais nenhuma vez.

Pobres provérbios

Aqui há tempos alguém me disse que antigamente as pessoas tomavam conta dos animais e que hoje são eles que tomam conta das pessoas. De algumas, pelo menos, que até dizem que quanto mais conhecem as pessoas mais gostam de animais. Por mais que entenda que os animais merecem o nosso maior respeito, há limites (já dizia a minha avó, tudo quanto é demais é erro). Na semana passada, com a história da flatulência carbónica das vacas, os animais estiveram em todas as primeiras páginas dos jornais durante vários dias, e com razão, porque a produção de carne animal consome um quarto da água do planeta. Por outro lado, já deito PAN pelos cabelos com suas ideias estapafúrdias, como a reivindicação de horário de trabalho para os cavalos que puxam as charrettes dos turistas em Sintra... E, como se isso não bastasse, agora é o seu braço activo, a PETA, que quer alterar os provérbios portugueses, não vão os bichinhos ofender-se com certas tiradas ditas pelos humanos. Haja paciência: a proposta é alterar expressões como «pegar o touro pelos cornos» por «pegar a flor pelos espinhos», como se o touro falasse línguas e tivesse um curso de semântica... Além disso, não podemos levar tudo à letra, e no provérbio o touro é apenas um símbolo de outra coisa, não o animal propriamente dito. Senão, vejamos: como li num comentário do Facebook, PAN também é uma onomatopeia para tiros, não seria então melhor o partido dos animais mudar de nome antes de ser acusado de promover o uso das armas e a violência?

Os Maias

Dirão que há nisto um lado preguiçoso, porque assim faço um post sem ter de pensar muito... Não deixa de ser verdade, mas quantos trabalhos académicos não vivem de citações e referências? Pois a verdade é que hoje acho interessante citar, mesmo que me acusem de estar a puxar a brasa à minha sardinha por ser nada mais nada menos do que a editora do autor que cito, Afonso Reis Cabral. Mas o assunto é actual e importa a todos, tem ainda que ver com a leitura de Os Maias, que entrou, saiu e voltou a entrar no programa de ensino como obra obrigatória, que muitos professores dizem que os alunos deste tempo já não compreendem, que muitos professores não leram quando tinham a idade deles (não nos iludamos), cujo título é muito referido no Dia Mundial do Livro como releitura quando os jornalistas perguntam aos políticos o que andam a ler (e provando que não estão a ler coisa nenhuma a maioria das vezes) e que é simplesmente um dos romances mais incríveis e geniais da língua portuguesa. A revista Visão publicou uma carta aos alunos que não querem ler Os Maias daquele que é, além de um jovem romancista muitíssimo talentoso, um descendente do próprio Eça. Ei-la aqui em baixo. Leiam-na. E até amanhã.


 


http://visao.sapo.pt/actualidade/cultura/2018-12-06-Carta-ao-aluno-que-nao-le-Os-Maias?fbclid=IwAR0JGteyj4VmBM9LsCGR0pWZfYf3SQjMfhJgYOI4aPR2ruvB_ZfR8Y98GnA


 


 


 

Crónica e sessão

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Hoje é dia de pôr o link da última crónica e ele aí vai:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/02-dez-2018/interior/adeus-futuro-os-nao-livros-10258386.html?target=conteudo_fechado


Às 18h30, na FNAC de Cascais, teremos uma sessão à roda de Os Fios, o aplaudido romance de estreia de Sandra Catarino. Marta Ramos apresenta. Segue-se sessão de autógrafos. Apareçam!


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Livros para grandes e pequenos

Muita gente estranhou que, no mês passado, ao escolher alguns dos livros portugueses que considero importantes saídos já neste século, tivesse seleccionado um infantil e outro juvenil. O primeiro era O Meu Avô, de Catarina Sobral, uma preciosidade de que tive conhecimento por mero acaso (num blogue de livros lidos em voz alta, da responsabilidade de Rita Pimenta, do jornal Público); é maravilhoso, não só porque retrata admiravelmente e com muito humor a vida de um reformado português que sabe aproveitar o tempo livre, mas também porque tem ilustrações que piscam o olho à grande arte, como a cena do piquenique, que é nada mais nada menos do que um remake do Déjeuner sur l’herbe, de Renoir. Ao juvenil, Irmão Lobo, de Carla Maia de Almeida e António Jorge Gonçalves, já aqui dediquei um post inteirinho e continuarei a recomendá-lo a toda a gente, adultos incluídos, pois é uma jóia rara, que fala de coisas muito sérias, como a derrocada de uma família por causa do desemprego. E, aproveitando o balanço, quero dizer que, se tem crianças na família – ou a quem oferecer presentes de Natal –, está por aí mais um livro que vale muito a pena. Ganhou o Prémio Lusofonia Matilde Rosa Araújo e chama-se Julião, o Melro-Poeta. Ora, há duas boas razões para o recomendar: a primeira é que a sua autora, Sofia Fraga, trabalhou comigo e é minha amiga (risos) e gostei muito da sua estreia na literatura (A Tartaruga Celeste e o Menino Que Chorava Música, de que já aqui falei); a segunda é que este livro está cheiinho de poemas do tal melro Julião, que tem tudo para ser o vencedor de um concurso de poesia, e é muito bom que haja livros que fomentem a leitura de poesia (está bem, sou parte interessada, e daí?). E agora já sabem: toca a comprar livros aos miúdos em vez de telemóveis, tablets e outras tralhas do tipo.


 


P. S. Mais logo, pelas 21h30, Nuno Camarneiro estará na biblioteca da Figueira da Foz para falar do seu último romance, O Fogo Será a Tua Casa. Se estiver por perto, apareça.

Pequena grande obra

Não sei se sabem, mas o escritor francês Olivier Rolin, autor de muitos romances já traduzidos para português (e falei aqui no blogue de alguns deles), está em Portugal a fazer uma residência literária, encontrando-se hospedado num hotel em Cascais a escrever um livro; e, de vez em quando, vai dar umas aulas e umas entrevistas, janta com editores e autores, dá o seu testemunho literário em universidades e outras sessões. Curiosamente, na mesma altura em que está por cá, sai na Miniatura (uma colecção de «grandes obras em pequenos volumes» da editora Livros do Brasil) um dos seus títulos de que mais gostei: Porto-Sudão. Trata-se de um curto romance que faz todo o sentido reeditar em 2018, passados que estão 50 anos sobre o Maio de 68, porque a revolução estudantil é uma peça importantíssima neste livro; é nela que dois rapazes, que partilham sonhos de um mundo melhor, se conhecem e tornam amigos, separando-se depois e seguindo caminhos muito diferentes (um aburguesado, o outro auto-exilado na cidade de Porto-Sudão, à beira do Mar Vermelho). Vinte cinco anos depois dessa separação, o que está longe recebe a notícia do suicídio do outro e volta a Paris para saber porquê. E mais não digo. Leiam, leiam, que vale muito a pena.


 

O que ando a ler

Vamos lá então a saber o que cada um anda a ler, com uns dias de atraso em relação aos outros meses, mas sempre a tempo. Eu, liberta das leituras sobre fado e igualmente despachada da masterclass que fui dar a Guadalajara, respiro fundo e, em casa, leio então apenas o que me apetece. Comecei por um romance do recém-desaparecido V. S. Naipaul, homem que era proverbialmente antipático mas um grande escritor, a quem atribuíram o Nobel da Literatura logo no início deste século. Trata-se de Uma Vida pela metade – e, embora, eu ainda vá a meio (para acompanhar o título), posso dizer que conta a história de Willie Somerset Chandran, um jovem indiano que deve o seu nome ao escritor britânico autor de O Fio da Navalha que, neste romance, teria tido como inspiração o pai de Willie, brâmane que abandonou a universidade e a sua casta para casar com uma rapariga miserável de quem nem sequer gostava como medida contra o establishment e a política vigente. O herdeiro tem-lhe raiva, além de vergonha da mãe, e está apostado em recuperar a linhagem perdida (se for possível) ou, pelo menos, uma certa posição. Na parte em que vou, Willie estuda em Londres com uma bolsa, conseguiu fazer amigos influentes e acaba de conseguir editor para um livro de contos, além de dormir com a namorada do melhor amigo. Veremos o que acontece a partir daqui.

Crónica e regresso

Sim, a Feira de Guadalajara correu muito bem, pelo menos até eu regressar, pois ficou ainda muita gente por lá a dar um ar da sua graça. Gostei particularmente de ir falar a uma escola de futuros chefs – a gastronomia está a dar cartas em todo o mundo e os meninos de 14 anos já sabem cozinhar – que fizeram montes de perguntas sobre poesia e comentários bem interessantes. Um dia destes faço o balanço da participação portuguesa, hoje ainda estou a ambientar-me e a recuperar do jet lag.


Aí vai a crónica que costumo mandar à sexta:


 


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/25-nov-2018/interior/adeus-futuro-revelacoes-10222216.html


 


Amanhã falo-vos do que ando a ler, igualmente com um dia de atraso. No fim desta semana, juro, tudo se comporá.

Crónica e ausência

Hoje é dia de crónica e aqui vos deixo o link, como de costume:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/18-nov-2018/interior/dispensar-o-real-10182045.html


Esta tarde parto para Guadalajara – a Feira do Livro mais importante da América Latina é dedicada este ano a Portugal. Fui convidada para, entre outras coisas, participar numa conferência sobre poesia e fado com Rui Vieira Nery, dizer poemas no Salão de Poesia, ir a uma escola, dizer umas palavrinhas na apresentação de uma revista mexicana sobre literatura portuguesa e lançar uma antologia recém-publicada na Colômbia. Assim, só voltará a haver blogue no dia 3 de Dezembro – e nesse dia colocarei o link da crónica anterior, que deixarei entregue no jornal. Fiquem bem.

Eça como nunca o viu

Eça nunca deixa de ser actual – não só porque continuará a ser lido pelas novas gerações, apesar das ameaças de tirarem Os Maias do programa de ensino, mas também porque fala muitas vezes como se vivesse neste nosso século, certeiro como poucos. Porém, há coisas do grande escritor que muitos de nós nunca vimos, até porque existe um homem de carne e osso por detrás da assinatura na capa de um livro (e, se nunca fomos a Tormes, teremos visto ainda menos). Pois bem: a Fundação Calouste Gulbenkian inaugura já no próximo dia 29 uma exposição chamada Eça e Os Maias. Tudo o que tenho no saco que, segundo anunciam, não é sobre literatura, mas se traduz numa belíssima viagem ao tempo do escritor através de fotografias, caricaturas, desenhos, objectos pessoais (alguns deles trazidos de Tormes, segundo me constou), edições estrangeiras daquele que é um dos maiores romances da literatura portuguesa (Os Maias), ilustrações de outras obras do mestre e até a pintura de Paula Rego sobre O Crime do Padre Amaro. Enfim, teremos Eça como nunca o vimos e, ao que dizem, numa mostra cheia de ironia que lhe vai ficar bem. Além disso, o evento será apimentado com uns jantares queirosianos pela mão do chef Miguel Castro Silva e umas conversas sobre vários assuntos. O programa poderá ser consultado no site da Fundação.


 

Falar para quem não ouve

O mais recente romance a vencer o Prémio LeYa (Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, que publicaremos em Fevereiro de 2019) tem como protagonistas duas irmãs, Belonísia e Bibiana, uma das quais não fala. Mas não por ser surda, pelo que não é preciso usar com ela linguagem gestual. No entanto, é justamente a linguagem gestual que aqui me traz hoje, pois recebi a boa notícia de que vai estar online o primeiro dicionário de linguagem gestual e, portanto, todos nós – leigos na matéria – vamos poder aprender a comunicar com quem não ouve. A façanha deve-se agora à Infopédia, que apresentará a tradução para linguagem gestual de mais de 5000 palavras. Tanto quanto percebi pelo artigo do jornal, aparecerá um pequeno vídeo em que um falante de linguagem gestual dirá a palavra que queremos saber e exemplificará com gestos para que possamos imitá-lo. O dicionário é assinado por Ana Bela Baltazar, que é psicóloga e intérprete de linguagem gestual portuguesa e autora do mesmo diconário na versão em papel, saída para o mercado em 2010 (mas eu não conhecia). Este é o 29º dicionário da Infopédia.

O senhor Pires

Quem conheceu Cardoso Pires gostava dele – e eu tenho pena de só ter estado com o escritor meia dúzia de vezes, uma das quais com a desvantagem de ele ter acabado de torcer ou partir um pé durante a Feira do Livro de Frankfurt e, portanto, pouco disposto a ser simpático. Um ano depois, morreria – e contam-se este ano vinte anos sobre a sua morte, tendo havido uma homenagem no Palácio Galveias em Lisboa; esta foi coroada por uma exposição de fotografias suas ao longo de quarenta anos sempre pela mão do talentoso Eduardo Gageiro, que falou sobre a sua relação com o romancista (próxima mas não íntima, tratavam-se por você) à TSF na semana passada, num programa em que as filhas de Cardoso Pires também intervinham e relatavam episódios da vida com o pai. Pois a Hemeroteca compensa esta ausência de vinte anos com um arquivo digital  de cerca de 1500 documentos, o Dossier Digital José Cardoso Pires, que promete ser da máxima utilidade para os estudiosos do autor de O Delfim, Balada da Praia dos Cães ou Dinossauro Excelentíssimo. O arquivo está divido em separadores, tornando assim mais fácil a consulta – e vai ser possível saber até a informação mais comezinha, como a altura de Cardoso Pires ou quanto pagou de impostos em determinado ano. Sobre o grande senhor, Bruno Vieira Amaral escreveu uma biografia que deve estar para ser publicada um destes dias.

Dilemas

Todos temos, como vimos há dias, pouco tempo (e vontade?) para ler jornais. Mesmo assim, há jornais que são para nós uma referência – e há muito que tomei The Guardian como uma delas. Subscrevo, de resto, algumas das suas newsletters (assim, fico a par de coisas em que, possivelmente, não repararia) – uma das quais é a que respeita às suas muitas masterclasses, esperando um dia ter tempo, dinheiro e loucura suficientes para me meter num avião e ir assistir a uma lição dada por um daqueles craques que eu adoro (escritores, jornalistas, actores – há muito por onde escolher). Na sexta, de resto, recebi uma mensagem da secção de masterclasses, e o assunto era : «O que oferecer a alguém que tem tudo?» Por um segundo, pensei que só mesmo o meu jornal de eleição para conseguir organizar uma masterclass sobre isso (quase pensei apanhar o avião para resolver o próximo Natal em termos de presentes); mas, ainda estava a clicar sobre o link quando percebi que o que eles queriam era que eu oferecesse a alguém a quem não sei o que dar uma masterclass das deles. Ou seja, que eu oferecesse conhecimento. É uma boa ideia, claro que é, e não fosse ter de juntar também a passagem aérea já tinha prenda para muitos amigos…

Crónica e site

Hoje é dia de crónica e, como tal, aqui vai o link da última:


 


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/11-nov-2018/interior/adeus-futuro-o-fim-da-intimidade-10149511.html


 


Acrescento que há na Net um excelente site para visitar, o do escritor e tradutor Frederico Lourenço, e não só porque é fundamental consultá-lo para conhecer melhor como trabalha este grande conhecedor dos clássicos, mas também porque, numa secção chamada «Apontamentos», tem inéditos, e os seus textos são sempre bons, mesmo os pequenos apontamentos pessoais que publica no Facebook. Vão, por favor, espreitar:


 


http://fredericolourenco.booktailors.com/


 

Nas ruas de Lisboa

Sabem quem vai andar pelas ruas de Lisboa entre amanhã e o final do mês? Basta pensar um pouco, porque acontece todos os anos: Pessoa e Saramago! Sim, vêm aí os Dias do Desassossego e haverá actividades diariamente, ou quase, até dia 30. A Fundação Saramago recebe logo no dia da inauguração um espectáculo musical às cinco da tarde (El Sur) e, em Campo de Ourique, vai haver muito que fazer no dia seguinte, desde uma oficina de silêncio para crianças da parte da manhã, na Casa Fernando Pessoa, pela mão de Marina Palácio (de quem já falei aqui no blogue), até uma leitura de poemas espirituais do Oriente e do Ocidente, seleccionados por João Barrento, na Igreja de Santa Isabel, às 16h30. Mas a oferta é, como sempre, variada: mesas-redondas, leituras, teatro, passeios, música, debates e até uma «leitura-concerto» sobre o Pessoa prosador no dia 24 (mas nessa altura estarei a caminho de Guadalajara, no México, para a Feira do Livro). Na rua do Patrocínio haverá ainda arte por Opiemme, a quem chamam «poeta da arte urbana». Enfim, já merecíamos algum desassossego.


 


P. S. Hoje, na Livraria Arquivo, em Leiria, apresentamos o romance Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral. Se estiver por perto, dê lá um saltinho.

Cem anos de Sophia

Martim Sousa Tavares, neto de Sophia de Mello Breyner Andresen, cujo centenário se comemora em 2019, foi convidado para ser o curador da Galeria de Biodiversidade – Centro Ciência Viva,com sede na Casa Andresen, em pleno Jardim Botânico do Porto, lugar onde a poetisa viveu durante a infância e que é referido várias vezes na sua obra. Confessando que a avó era bastante avessa a homenagens, Martim Sousa Tavares (músico e maestro que gosta de descomplicar a música erudita, filho do conhecido jornalista e da não menos conhecida jornalista Laurinda Alves) vai centrar a sua intervenção nos apoios à criação, forma de celebrar a vida da escritora através de obras que dialoguem com a sua e de algum modo a interpretem. «Haverá exposições inéditas de fotografia e pintura, teatro, contos em música, concertos, literatura e pensamento, num esforço de convocar o melhor da criatividade actual para esta efeméride», diz o jovem curador. Ficamos, naturalmente, a aguardar datas e programas com muita curiosidade.

Defender a verdade

Hoje a maioria das pessoas já não compra jornais, o que não quer dizer que não os leia na Internet (não estou a falar de assinatura). Eu compro. Gosto do jornal em papel com as páginas todas a estalar e de o folhear de trás para a frente, hábito que julgo ter ganho há anos com a leitura da crónica de Eduardo Prado Coelho na última página do Público – e que agora aplico a todos os outros diários e semanários que costumamos comprar lá em casa (embora leia as revistas do princípio para o fim). Quando vejo uma notícia num jornal impresso, tendo a acreditar nela – o que já não me acontece, por exemplo, se a vir divulgada numa rede social (a morte de um actor ou escritor, um acidente, etc., tantas vezes seguida de um comentário a dizer que é treta). Em tempo de fake news usadas em campanhas políticas contra os adversários (há quem receba um ordenado para espalhar boatos desagradáveis e acusações graves), temos de ter cada vez mais sentido crítico e desconfiança em relação ao que lemos por aí – e, por isso, os jornais tradicionais continuam a ser uma espécie de porto seguro, sobretudo enquanto ainda lá trabalharem profissionais da verdade. Mas, para garantirmos que mantêm alguma isenção e não se deixam influenciar, que têm jornalistas a sério que não se vendem por tuta e meia, precisamos urgentemente de fazer com que se vendam mais, ou seja, precisamos de os comprar. Eu compro um todos os dias e três ao fim-de-semana. Compre também um jornal de vez em quando.

Listas

Para não perdermos o hábito das listas – que, pelos vistos, são sempre boas sugestões para este ou aquele leitor, descubro uma longa lista de mais de 100 livros bons numa revista brasileira, de resto encabeçada por uma fantástica frase de Umberto Eco: «O mundo está cheio de livros que ninguém lê.» Pois, é isso mesmo, e a Revista Prosa Verso e Arte resolve conjugar autores clássicos e contemporâneos que acha que um dia vão ser clássicos, desde O Nome da Rosa, do próprio Eco, O Estrangeiro, de Camus, 1984, de Orwell, O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, O Principezinho, de Saint-Exupéry, ou Os Irmãos Karamazov, de Dostoievsky – isto para falar apenas dos títulos que ocupam os primeiros lugares (não sei se por serem os mais votados, se a ordem é arbitrária). Mas lá pelo meio há coisas se calhar mais inesperadas, como As Flores do Mal, de Baudelaire, e A Tarde de Um Fauno, de Mallarmé (que, quanto a mim, já são livros algo exigentes e pressupõem o gosto pelo género e hábitos de leitura mais firmados), ou mesmo Diante da Dor dos Outros, de Susan Sontag, autora que raramente vemos nestas listas. No entanto, se quiser perder uns minutos a ganhar ideias para as próximas leituras ou a ver quantos destes já «papou», aqui fica o link:


https://www.revistaprosaversoearte.com/160-livros-essenciais-da-literatura-mundial-quais-voce-ja-leu/

Crónica e surpresa

Hoje é dia de partilhar a crónica de domingo passado. Aí vai o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/04-nov-2018/interior/adeus-futuro-copy-paste-10114554.html


 


Para acrescentar qualquer coisa antes de irem para fim-de-semana, descobri que hoje, no Museu de Imprensa da Madeira, em Câmara de Lobos, Alberto João Jardim lança o seu... preparem-se... romance! Romance? É que fiquei mesmo surpreendida. Chama-se diz «Não!» (a minúscula é do autor), e uma cinta amarela berrante avisa-nos de que se trata de «Uma ficção sobre as mudanças na sociedade portuguesa neste século XXI». Pela contracapa, as personagens são estudantes que, nos anos 1970, vieram tirar os seus cursos para o continente, onde travaram conhecimento, e que, quarenta anos depois, são homens e mulheres de sucesso, actores da política nacional, integrando ou pelo menos acompanhando de perto um novo partido regenerador que pretende alterar os poderes instalados e ganhar as eleições para governar em 2020. Enfim, não decidi ainda se vou ler.

A pontuação de um Nobel

No mês passado, a propósito das longas e variadas comemorações dos vinte anos da entrega do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago, contaram-me uma história deliciosa. Tendo-se Saramago tornado muito mais conhecido em todo o mundo depois de receber o galardão, o que é natural, acordou, pelos vistos, o desejo de ser lido por muitos emigrantes portugueses em vários países, subitamente orgulhosos de verem um seu conterrâneo assim distinguido. Um desses emigrantes, vindo de férias a Portugal, lá comprou antes de regressar ao país de adopção um exemplar de um dos romances do escritor. Porém, pouco depois de iniciar a leitura, sentiu-se defraudado e, pondo o pé em terra, enviou imediatamente à editora uma reclamação. Dizia que o exemplar que lhe coubera em sorte era ilegível porque a pontuação estava toda errada e era frequentemente omissa; e que de certeza muitos outros leitores já tinham dado pela calamidade, pelo que por certo a editora tinha maneira de substituir os exemplares defeituosos por outros que tivessem as vírgulas no sítio. Afinal, o leitor não tinha culpa nenhuma do sucedido e, não tencionando voltar a Portugal antes do mês de Agosto do ano seguinte, era mais do que justo que lhe enviassem por correio, sem custos, um exemplar «legível»…

O meu gosto

A pedido de várias pessoas, quase todas visitantes deste blogue, venho partilhar a lista dos dez livros que escolhi para o programa de sábado passado, O Gosto dos Outros, na categoria "Os 10 Livros mais Importantes da Literatura Portuguesa do Século XXI" (e da qual só um título coincidia com a lista do meu interlocutor, Rui Zink, que deve estar disponível na Net). Porém, tenho de dizer antes de mais que, quando aceitei o convite para esta sessão, percebi que se tratava de obras de autores estreados neste século (o que para mim seria muito mais fácil) e, quando vi que me tinha enganado, fiquei aflita... Assim, a minha lista não é de certeza dos 10 livros mais importantes, porque em dezoito anos haverá certamente muitos que não li mais importantes do que os que li; além disso, nos tempos livres, leio mais livros estrangeiros do que portugueses e menos ensaio do que ficção. Tentei, mesmo assim, listar livros para todas as idades e de vários géneros (esqueci-me do teatro, pois foi) e coisas de que ainda me lembrava bem, uma vez que, ao ir para velha, tenho tendência a esquecer rapidamente o que li uma semana antes, mas a lembrar-me bem do que li há muitos anos. Finalmente, para que não dissessem que estava a puxar a brasa à minha sardinha ou criar zangas com autores, decidi não incluir um único escritor que publiquei (à excepção de Pacheco Pereira, de quem de facto fui editora, mas no século passado, por isso não conta). Tomem lá, para o que der e vier:


 


O Meu Avô – Catarina Sobral


Um livro infantil edificante, e não estupidificante, como tantos.


 


Irmão Lobo – Carla Maia de Almeida e António Jorge Gonçalves


Um livro juvenil que os adultos adorarão ler


 


Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa – Antônio Houaiss (org.)


O melhor instrumento para amantes da língua portuguesa


 


O Futuro da Ficção – António-Pedro Vasconcelos


Um pequeno ensaio negro mas luminoso


 


Álvaro Cunhal: Uma Biografia Política – José Pacheco Pereira


Uma biografia essencial


 


A Morte sem Mestre – Herberto Helder


A despedida de um poeta


 


Uma Viagem à Índia – Gonçalo M. Tavares


O diálogo com os clássicos


 


O Retorno – Dulce Maria Cardoso (escolhido também pelo Rui Zink)


O livro que põe o dedo na ferida


 


As Primeiras Coisas – Bruno Vieira Amaral


O nascimento de um escritor


 


Adoecer – Hélia Correia


A consolidação de uma grande escritora


 


 


 

O stress da liberdade

Uma amiga francesa mandou-me um link sobre um livro francês que defende a criação de novos vocábulos em substituição da adopção de palavras estrangeiras, baseando-se na afirmação de Wittgenstein de que «os limites da minha linguagem significam os limites do meu próprio mundo». Uma dessas palavras que, pelos vistos, faz falta à língua francesa (e à portuguesa) é Freizeitstress, palavra alemã que quer dizer à letra «stress do tempo livre» e traduz a angústia do homem do século XXI, «devastado entre procrastinação, sede de viver e medo de agir». O autor do livro, Laurent Nunez, explica porquê: antes de 1914, um camponês ou operário francês vivia 500 000 horas, trabalhando 200 000 e dormindo outras 200 000; restavam-lhe 100 000 para tudo o resto; hoje, a esperança de vida em França é de 700 000 horas. Dedicam-se 30 000 ao estudo, 70 000 ao trabalho e dorme-se menos duas horas por dia do que antes da Primeira Guerra Mundial. Temos, pois, 400 000 horas para tudo o resto – e é tanto que não sabem as pessoas o que fazer dele, pensando erradamente que não têm tempo para nada… Laurent Nunez conclui que talvez não gostemos assim muito de liberdade. Mesmo quando não temos uma palavra para dizer o que sentimos, ao contrário dos alemães.

Leituras

Esqueci-me na sexta e, portanto, hoje é dia de cada um dizer o que anda a ler (eu, por razões profissionais – uma conferência sobre poesia e fado que farei em Guadalajara mais para o final do mês –, ando a ler livros sobre fado, nos últimos dias capítulos de Pensar Amália, de Rui Vieira Nery), mas, como já despachei a coisa, aproveito para publicitar um livro que é obra de gente Extraordinária: Contos do Portugal Profundo e Uma História Brasileira. Deixem-me explicar: a Cristina Torrão (julgo que foi ela) andou a desafiar aqui os visitantes deste humilde blogue, presumo que sobretudo os que já escreveram e publicaram livros, para contribuírem com um conto e se montar uma colectânea assinada pelos Extraordinários. Mais tarde, o Pedro Sande perguntou-me se eu não poderia juntar-me ao grupo e respondi afirmativamente (a anfitriã podia lá faltar…), oferecendo uma coisa escrita há vários anos que não chegou ao papel. Ainda não vi o «bicho» senão em fotografia nas redes sociais* (e não prometo lê-lo nos tempos mais próximos porque estou com trabalho até ao tutano), mas posso desde já adiantar que os participantes, além dos dois nomes já referidos, foram, por ordem alfabética, António Breda Carvalho, António Luiz Pacheco, Cláudia da Silva Tomazi, João J. A. Madeira, José Cipriano Catarino e Luís Alves Milheiro. Cito a organizadora (com novo acordo ortográfico e tudo): «Esta coletânea variada, com lugar para a ironia, a diversão, a tristeza, o desencanto e até a filosofia, está à venda na Amazon:


 


https://www.amazon.co.uk/dp/1727085205


 


https://www.amazon.es/gp/offer-listing/1727085205/ref=tmm_pap_new_olp_sr?ie=UTF8&condition=new&qid=&sr=


 


É só encomendar e receber o livro em casa!» Por que esperam?


 


* Afinal, tenho-o desde sábado, oferecido pelo Pedro Sande, mas quando escrevi este post ainda não lhe tinha posto a mão.

Crónica e o gosto dos outros

Hoje é dia de crónica e, portanto, aqui vos deixo o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/28-out-2018/interior/adeus-futuro-a-irmandade-da-solidao-10085084.html


Amanhã vai ser dia de O Gosto dos Outros na Fundação Calouste Gulbenkian, um programa de debates criado por Nuno Artur Silva e concebido para durar um dia inteiro, em que podemos andar de sala em sala a ouvir falar de coisas muito interessantes (e algumas bem divertidas) como «As 10 melhores Músicas Para Dançar, Os 10 Acontecimentos Culturais Portugueses Mais Relevantes Do Século XXI, Os 10 Melhores Poemas Que Ninguém Conhece ou As 10 Cenas Mais Extraordinárias Do Cinema De Sempre». Eu vou estar logo às 14h30 a falar dos 10 Melhores Livros Portugueses deste nosso século na companhia de Rui Zink e Aurélio Gomes. Entrada livre (mas é preciso reservar). O programa completo vai abaixo:


https://gulbenkian.pt/evento/o-gosto-dos-outros/


 


 

Pensar palavras

Ando o dia inteiro de roda de palavras, e um dia destes, ao ler um e-mail de um agente espanhol, olhei para a palavra castelhana «enlace» (que, no contexto, seria aquilo a que chamamos link, adoptando a palavra inglesa, mas que é «ligação, enlace») e perguntei-me porque seria que o «desenlace» de um romance se chama «desenlace», se é o momento em que todas as pontas se atam, e não aquele em que se desatam ou desligam… Não tendo chegado a nenhuma conclusão (a verdade é que também não dei uma importância desmedida ao assunto), encontrei pouco depois num texto os verbos «fincar» e «vincar» separados por meia dúzia de linhas e logo me pareceu que, quer porque as palavras fossem demasiado parecidas (a única diferença está na consoante inicial, surda num caso, sonora no outro) quer porque as acções carregassem ambas uma certa dose de força imprimida (para enterrar/cravar, para marcar/fazer o vinco), ambas deveriam ter a mesma origem. Mas não: ao que parece, «fincar» está mais ligado a «ficar» (ficar com muita força?); e de «vincar», enfim, pouco se sabe, o Houaiss diz que a palavra «vinco» tem origem obscura, embora já existisse no século XIII. Nada feito, às vezes o que parece não é.

Magazine

Recebi há poucos dias o Magazine, uma nova revista (ou jornal, não sei bem defini-lo), produzida pelo El Corte Inglés, que inclui a programação de actividades do bimestre Novembro-Dezembro no seu espaço cultural (Âmbito Cultural, como lhe chamam). A publicação vai no seu segundo número e existe desde que se fizeram obras no sétimo andar do El Corte Inglés de Lisboa e se criaram salas novas que, ao que parece, servirão melhor quem ali quer fazer lançamentos, por exemplo, mas que também são muito úteis para um sem-número de cursos e actividades que, ao ler a revista, concluo valerem muito a pena. Se já estivesse reformada, digo-vos que iria a muitas destas sessões (aprender até morrer), entre as quais os workshops de História do Cinema e de História da Ciência (António-Pedro Vasconcelos e Carlos Fiolhais são os mestres) e mesmo à Evocação de Herberto Helder por Diana Pimentel (mas nessa data estou a ir para a Feira do Livro de Guadalajara, infelizmente, e não poderei ir). Já passaria melhor sem a sessão de doces conventuais (não sirvo para os comer, menos ainda para os cozinhar) ou a lição de António Valdemar sobre o Natal na cultura portuguesa (mas apenas porque o Natal me deixa sempre de rastos psicologicamente). De qualquer modo, aconselho os Extraordinários a consultarem o Magazine (quiçá podem recolhê-lo na loja ou ver a versão digital no site do ECI) e, podendo, a frequentar alguns dos cursos propostos (todos gratuitos!) para Lisboa e Gaia.

Vida moderna

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Quando leio esta expressão, seja num site, num jornal ou mesmo num livro, a primeira imagem que me vem à cabeça é a do senhor Hulot perdido na confusão do repuxo eléctrico de uma casa nova-rica, num filme de Jacques Tati, confundindo uma pedra com um nenúfar e metendo a pata no laguinho. E a seguir vem-me à lembrança Tempos Modernos, filme de Chaplin, com o cómico Charlot enredado nos tapetes rolantes de uma linha de montagem, fazendo-nos rir até às lágrimas. Quem diz, porém, que os portugueses riem mais da tragédia do que da felicidade é Maria Filomena Mónica num livro sobre as mudanças a que foi assistindo em Portugal ao longo da sua vida e que também dá pelo título de Vida Moderna. Política, sexualidade, educação, burocracia, televisões – todos estes temas foram tratados pela socióloga e investigadora em artigos vários publicados entre 1985 e 1996, escritos na primeira pessoa e agora reunidos e arrumados por Vasco Rosa num volume que retrata esses anos e mostra bem como são os portugueses. Virá depois um segundo volume? Veremos. Para já, é isto. Uma edição da Quetzal.


 


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Crónica e Lello

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Hoje é dia de crónica e aqui vai o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/21-out-2018/interior/adeus-futuro-um-classico-10021861.html


 


Para quem estiver pelo Porto, a Livraria Lello escolhe-me como autora por um mês; e, além de expor muito bem os meus livrinhos, organiza amanhã à noite uma conversa em que estará também a fadista Patrícia Costa e o jornalista cultural Nuno Pacheco. Na ocasião, será estreado o Fado da Lello, escrito expressamente para a mais linda livraria do mundo, com letra minha e música e interpretação de Patrícia Costa. No domingo de manhã estarei de novo na Lello com crianças e uma «fada» que contará a história de Amália Rodrigues a partir da biografia que escrevi. A ideia de tudo isto é da professora Maria Bochicchio. Apareçam!


 


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Papel para sempre

Em 2008, um estudo que envolveu mais de mil editores de todo o mundo, «os maiores gurus da feira de Frankfurt», como refere o jornal El Pais, concluiu que, precisamente dez anos depois, o livro electrónico destronaria o livro em papel e este acabaria por morrer. Mas, afinal, a Feira do Livro de Frankfurt de 2018 fechou há uma semana e estava cheiinha de livros em papel. E não como relíquias, mas como o centro do próprio negócio. O vaticínio era falso e precipitado e, depois de um início bastante optimista do e-book, veio um inesperado retrocesso: o negócio do livro electrónico nunca ultrapassa 10% do mercado (na Alemanha, 8%, e é dos países onde se vendem mais livros desse tipo). Apesar de ter várias vantagens (podemos levar connosco 500 livros electrónicos para uma viagem – e isso explica porque grande parte dos e-books de literatura são comprados sobretudo nos meses de férias), os leitores ainda acham que o livro digial pouco mais é do que uma reprodução do livro em papel, e a falta de novidade conduziu certamente à diminuição de compras, além de que, por exemplo, uma boa percentagem de compradores de e-books em Inglaterra (entre os 18 e os 34 anos), quando gostam muito de um livro que leram no e-reader, vão comprá-lo a seguir em papel. Não sei o que vaticinaram há trinta anos os gurus da Feira de Frankfurt sobre os audiolivros. Esses continuam cá, também sem grande expressão, embora em certos países se vendam muito a pessoas que fazem longas viagens de carro entre a casa e o emprego e preferem ouvir um livro a ouvir rádio.

Conhecer Torga

Um dos primeiros autores que li com paixão, ainda na adolescência, foi Miguel Torga – que, segundo se diz, foi o primeiro candidato sério ao Prémio Nobel da Literatura (português, entenda-se). Lembro-me até hoje de muitos dos seus contos lidos ainda nos anos 1970, quer de Os Bichos, quer de Contos da Montanha ou Novos Contos da Montanha. A Dom Quixote está há cerca de vinte anos a publicar a sua obra (além dos contos, os diários, a poesia, o teatro e os ensaios) e recentemente deu à estampa uma nova edição da fotobiografia do mestre escrita pela sua filha, Clara Rocha, professora na Universidade Nova de Lisboa e ensaísta. Miguel Torga – Fotobiografia tem prefácio de Manuel Alegre e está organizada cronologicamente, incluindo mais de cem fotografias do autor e muitos outros documentos, entre manuscritos e cartas, páginas do dossier da PIDE sobre Torga e outras imagens, algumas de lugares que amou profundamente, como Sabrosa, onde hoje há um museu que lhe é dedicado com um projecto arquitectónico maravilhoso de Souto Moura. Para conhecer Torga dentro e fora dos livros.


 

O autor português

Uma equipa de investigadores do ISCSP-Lisboa, coordenada pelo académico Paulo Castro Seixas, apresentará hoje às 18h00, no Auditório Frederico de Freitas (na Sociedade Portuguesa de Autores, que fez a encomenda), um estudo de duas centenas de páginas que tenta traçar o perfil do autor português. Este Perfil do Autor Português contém, ao que se anuncia, dados fundamentais para sabermos quem são os nossos criadores (imagino que o «autor» aqui seja num sentido mais lato e inclua pintores, compositores, fotógrafos...), o que fazem na vida além de criar, quais os graus de formação académica que possuem, como estão geograficamente distribuídos pelo País, como é a proporção homens/mulheres e muitas outras coisas que, lendo o estudo, se apurarão. Além de José Jorge Letria, presidente da SPA, que abrirá a sessão como anfitrião, e do já mencionado coordenador do estudo, falará o professor Manuel Meirinho, presidente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Fico curiosa com os resultados desta investigação, e esperançosa de que ela seja um bom instrumento quer para a SPA, quer para todas as entidades que trabalham com a cultura, desde as autarquias ao próprio ministério.

90 anos

O grande historiador António Borges Coelho (estive quase a entrar num filme dos anos 1980 por causa dele), que foi catedrático na Faculdade de Letras de Lisboa (e professor de um dos meus irmãos), faz noventa anos – e a Caminho, que está a publicar a sua História de Portugal, já com seis volumes publicados (o último Da Restauração ao Ouro do Brasil), vai fazer-lhe esta semana uma homenagem completamente merecida na Livraria Buchholz. Essa homenagem terá a participação de grandes personalidades da História, num ciclo de palestras que vai acontecer diariamente às 18h00. Hoje é o dia de Cláudio Torres, director do núcleo arqueológico de Mértola. Amanhã teremos Silvestre Lacerda, actualmente a dirigir a Torre do Tombo; na quarta será a vez de Vítor Serrão, da área da História de Arte; na quinta, Manuel Loff, da Faculdade de Letras do Porto, que também escreve no jornal Público. E, por fim, na sexta, fará a conferência Hermenegildo Fernandes, da Faculdade de Letras de Lisboa. Um festim para quem possa ir a todas, sobretudo porque a vida deste senhor tem muito que se lhe diga, tendo ele sido um lutador contra o regime de Salazar e estado preso muitos anos. Ah, e saiu a 6ª edição de Raízes da Expansão Portuguesa.

Crónica e poesia

Hoje é dia de crónica do DN e deixo aqui o link.


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/14-out-2018/interior/ola-e-adeus-9985177.html


 


Entretanto, se estiverem por Olhão, venham assistir ao Poesia a Sul, que decorre entre hoje e 28 de Outubro, com organização de Fernando Cabrita e o patrocínio da Câmara Municipal. O programa é realmente impressionante, com muitos poetas portugueses (eu também vou), entre os quais destaco Maria Teresa Horta e Teresa Rita Lopes, e muitíssimos poetas estrangeiros, vindos da Grécia, de Porto Rico, de Espanha, do Vietname, de Marrocos, dos EUA, da Irlanda... E haverá também música, apresentações de livros e revistas, homenagens e colóquios. Aproveite.

Solidariedade

A Biblioteca Municipal da Figueira da Foz organiza desde há vários anos, uma vez por mês, uma sessão de encontro dos munícipes com um escritor numa quinta à noite. Muitos dos meus autores já foram convidados para esta actividade e uma vez por outra acompanho-os e lá vou cumprimentar os amigos figueirenses. Numa delas, levei quatro vencedores do Prémio LeYa (João Ricardo Pedro, Nuno Camarneiro, Gabriela Ruivo Trindade e Afonso Reis Cabral) e mal sabíamos que o então vereador da Câmara Municipal da Figueira que  moderava a sessão, António Tavares, seria o vencedor do prémio nesse ano (o livro intitulava-se O Coro dos Defuntos).Geralmente chove, mas isso não é problema porque nos recebem  com um jantarinho de filetes de polvo num restaurante maravilhoso e, mais tarde, já depois da sessão, antes do regresso a Lisboa, com um chazinho de limonete e petit-fours. Pois hoje é quinta-feira e deveria decorrer mais uma 5ª de leitura, dedicada desta feita a Nuno Camarneiro e ao seu último romance, O Fogo Será a Tua Casa, no qual um grupo de pessoas é sequestrado no Médio Oriente e feito refém de radicais islâmicos. Mas, infelizmente, Leslie não deixou. O restaurante, soube há poucos dias, ficou seriamente destruído, o palco do auditório está inundado, à volta do Centro de Artes e Espectáculos caíram árvores, partiram-se vidros, enfim, foi uma calamidade que obriga o Presidente da Câmara a cancelar esta sessão para tratar de coisas mais importantes. Daqui envio aos figueirenses a minha solidariedade, esperando que tudo se recomponha o mais brevemente possível.


 


 

Classificações

«Deixaria os seus filhos (e filhas, porque as raparigas lêem tanto como os rapazes) ler este livro? Deixá-lo-ia à mão, pousado em qualquer lado, à vista, lá em casa? Acharia bem que a sua mulher – e até os seus criados – o lessem?» Pois bem, desde já confesso que traduzi do inglês um pouco a correr, mas o importante é que percebam o que está em causa; a frase foi partilhada um dia destes pela jornalista e escritora Isabel Lucas no seu mural do Facebook a propósito da indignação pública perante a classificação para maiores de 18 anos de uma parte da exposição do fotógrafo americano Robert Mapplethorpe na Fundação de Serralves (facto que, aparentemente, acabou por levar à demissão o respectivo comissário). No entanto, até que a história seja bem contada (há muita coisa por esclarecer), queria dizer-vos que a frase que aqui reproduzo hoje integra um requerimento apresentado em 1960 para que fosse retirado do mercado um romance considerado então altamente escandaloso: O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence. Eu tinha então apenas um ano e muitos dos Extraordinários não tinham sequer nascido. Mas em todas as épocas há polémicas (quase sempre quando o sexo se mostra, escrito, pintado, fotografado…). Dizia ainda a jornalista Isabel Lucas que o exemplar do romance de Lawrence anotado com as passagens escaldantes que serviu de base à acusação vai a leilão. Espero que quem licite por ele e o adquira nos mostre um dia o que em 1960 era assim tão chocante. Por certo, ainda nos vamos todos rir.

Nobel

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Há uns dias fez vinte anos da atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago e houve celebrações em todo o País (um congresso dedicado à sua obra em Coimbra, uma ida do Primeiro-Ministro e da família à Azinhaga, onde nasceu o escritor, leituras de Pedro Lamares no local onde as cinzas de Saramago foram depositadas e o lançamento do Último Caderno de Lanzarote e de um livro de Ricardo Viel, O País Levantado em Alegria, sobre esses dias loucos). Também em Lanzarote se encontraram os primeiros-ministros de Portugal e Espanha; saíram numerosos artigos nos jornais, a TV pediu testemunhos a escritores e editores, enfim, Saramago fez o pleno vinte anos depois, ao mesmo tempo que quem não ganhou o Nobel da Literatura desvalorizava esse prémio numa entrevista, quando é difícil acreditar que não o tenha desejado muitas vezes. Contaram-me que no país aqui ao lado fizeram uma maldade a um escritor que estava sempre à espera de receber o Nobel e ficava impossível de aturar por aqueles dias. Então, uns amigos pediram a uns suecos que estudavam em Espanha para lhe telefonarem na véspera do anúncio do Nobel, perguntando, com o seu sotaque nórdico, se aquele era mesmo o número de telefone do escritor-tal. O homem parece que ficava numa pilha de nervos até saber que, mais uma vez, o prémio não fora para ele. Uma boa partida para pregar a… muitos escritores por todo o mundo.


 


Hoje há lançamento em Lisboa de Pão de Açúcar, o novo romance de Afonso Reis Cabral. Aqui fica o convite.


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Personae na Internet

Quando escrevia regularmente livros de ficção juvenil era convidada muitas vezes para ir às escolas falar com os alunos do quinto e sexto anos sobre o meu método de escrita, as histórias que inventava, como tinha começado a escrever, porque decidira criar aquelas personagens e enredos, enfim, um sem-número de assuntos ligados ao ofício do escritor ou a algum livro em particuar que o professor estivesse a trabalhar com a turma. Lembro-me de que frequentemente os miúdos perguntavam aonde ia eu buscar aquelas ideias ou histórias; e eu respondia que, na maioria das vezes, as ia buscar à «massa cinzenta» (mas deixei de o fazer porque grande parte dos alunos já nem conhecia a expressão). No entanto, explicava-lhes que para se ser escritor é preciso ter imaginação e pôr a cabeça a trabalhar, mesmo que nos possamos sempre inspirar em pessoas reais e coisas que aconteceram. Mas agora, pelos vistos, os escritores têm muito aonde buscar inspiração (e não deixa de ser na realidade). Leio no suplemento literário do El país de há uma semana e tal um artigo sobre jovens romancistas espanhóis bastante interessante. Nele, uma das autoras confessa passar bastante tempo no Instagram para recolher ideias para as suas personagens e, o que é mais curioso, ter-se metido num Chat durante vários dias para as tornar mais credíveis... E esta, hein?

Crónica e lançamento

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Hoje é sexta e, como tal, dia de partilhar a crónica do Diário de Notícias do passado domingo:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/07-out-2018/interior/o-bicho-homem-9950369.html


 


Mas, além disso, estão todos convidados para mais logo irem ao lançamento do romance Os Fios, de Sandra Catarino, cujo convite vai abaixo.


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Um novo dicionário

Para quem gosta, como eu, da nossa língua, é sempre de saudar a chegada ao mercado de um novo dicionário, mesmo quando o novo nem é assim tão novo. Esquisito? Deixem-me explicar. Tendo por base o Dicionário Verbo da Língua Portuguesa que, por desaparecimento desta editora, já não se encontrava disponível, a Texto pegou na sua última edição, que foi completamente revista e aperfeiçoada, e integrou desde logo cerca de 3000 novas unidades lexicais. Mas não só: esta nova edição inclui uma função de gramática e prontuário, a conjugação verbal alargada, definições objectivas com exemplos e paráfrases, frequentemente seguidas de sinónimos..., enfim, é um instrumento fundamental para quem aprende e ensina português (é o único dicionário elaborado com o apoio do Ministério da Educação), mas é também um excelente dicionário para as pessoas que trabalham «com» a língua: tradutores, editores, escritores e por aí fora. Além disso, tem um formato fácil de manusear e uma capa verde alface que se vê bem no meio de todos os outros. Bem-vindo, Dicionário da Língua Portuguesa – Léxico, Gramática e Prontuário, da autoria de Aldina Vaza e Emília Amor.


 


 


 


 

Coisas que já não há

Li num destes sábados um artigo belíssimo, no suplemento «Babelia» do jornal El País, sobre os 50 anos da editora espanhola Tusquets (e os 80 de Beatriz de Moura, sua proprietária) e o anúncio da oferta do seu espólio à Biblioteca Nacional de Espanha. Um espólio destes, reparem, não é de deitar fora: contém correspondência manuscrita com García Márquez, Vargas Llosa ou Milan Kundera, entre outros, com mimos, cumplicidades, zangas e reclamações. Fundada por Beatriz de Moura e Toni López Lamadrid, a Tusquets foi das editoras mais importantes do país vizinho. Começou no tempo em que as editoras emprestavam dinheiro aos autores quando eles estavam nas lonas e em que os escritores-estrelas, quando as editoras passavam por dificuldades e lhes pediam ajuda, sacavam da cartola «um presente que te fará rica», como aconteceu com o famoso autor de Cem Anos de Solidão num momento de aflição da Tusquets, dando-lhe para publicação Relato de Um Náufrago (e a capa do original manuscrito pertence ao conjunto de documentos que vão ser oferecidos à biblioteca), reportagem que fora publicada em fascículos num jornal colombiano dirigido por Álvaro Mutis. Quando Beatriz perguntou se tinha de pagar alguma coisa ao jornal, Gabo respondeu que não, que trataria disso... Imagino como é importante conservar a memória destas relações num momento em que já não existem editoras deste modelo (provavelmente, também os autores serão hoje muito diferentes) e se perde facilmente o registo de testemunhos (tudo é digital) que desaparecerão para sempre quando desaparecerem as pessoas.

No Porto com Gisberta

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Sobre Gisberta, a transexual brasileira assassinada por um grupo de adolescentes institucionalizados há uma dúzia de anos na cidade do Porto, escreveu e compôs Pedro Abrunhosa uma bonita balada que depois foi também cantada por Maria Bethânia. Fizeram-se, além disso, documentários. Escreveram-se artigos. Irá estrear (em Novembro, no Teatro Sá da Bandeira no Porto e, em Dezembro, no Tivoli em Lisboa) uma peça escrita por Luís Lobianco do colectivo Porta dos Fundos que teve um enorme sucesso no Brasil. Enfim, a tragédia pelos vistos gerou arte e é também disso que falaremos hoje à tarde na Invicta, mais precisamente no Café do Rivoli, quando fizermos o lançamento do mais recente romance de Afonso Reis Cabral, Pão de Açúcar, que explora sob a forma de ficção as causas e os efeitos deste acontecimento tanto em relação aos criminosos como à vítima. Fugindo um pouco ao modelo tradicional das sessões de apresentação de livros, celebra-se a saída deste com uma conversa em que participarão o autor e Pedro Abrunhosa e que será moderada pelo jornalista Valdemar Cruz, do semanário Expresso. Apareça!


 


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Amigos e coisas boas

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Tenho amizades firmes de há muitos anos (algumas há mais de quarenta) e sempre achei que fazer amigos depois de certa idade não era fácil, se bem que, mal conheci a fadista Aldina Duarte, senti uma empatia especial e ficámos amigas num instante. Pensei, mesmo assim, que era um caso excepcional. Porém, há cerca de um ano, conheci um poeta espanhol, agora professor do Instituto Cervantes em Lisboa, de seu nome Juan Vicente Piqueras (leiam-no!), e  de repente parecia que ele nos conhecia, ao Manel e a mim, desde sempre, de tal modo eram grandes as afinidades e a intimidade se estabeleceu num ápice. O Juanvi foi também professor em Roma, onde morou muitos anos, e sabe que eu aprendi italiano e que ainda consigo lê-lo, apesar de ser cada vez mais difícil; vai daí ofereceu-me pelos anos uma preciosidade de que tenho de falar aqui: um livro maravilhoso de Dino Buzzati, chamado I miracoli di Val Morel, que, não bastando ser escrito pelo fabuloso autor italiano, é também ilustrado por ele! Tem por base um caderninho de ex-votos muito antigo que Buzzati encontrou na biblioteca do pai quando era jovem e que descrevia os variados milagres realizados por Santa Rita de Cássia na região. Reproduzindo-os um por um (salvação para monstros marinhos, gatos vulcânicos, raparigas raptadas, homens enfeitiçados por um sorriso e muito mais) e juntando-lhes ilustrações incríveis (o prefácio de Lorenzo Viganò fala destes dotes de Buzzati), este livrinho é mesmo uma delícia que me podia ter sido oferecida por uma pessoa que me conhecesse há muitos anos, mas inesperado vindo de alguém que é recente na minha vida. Há, por isso, milagres além dos de Val Morel. Um bocadinho de livro para abrir o apetite:


 


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Aproveitamento

Dantes, as pessoas eram mais aproveitadinhas: do resto da carne assada do jantar faziam fatias recheadas com picado ou croquetes para o dia seguinte. Deixem-me fazer algo parecido. Não sei se deram conta (tenho quase a certeza de que não), mas no domingo passado comecei a colaborar como cronista do Diário de Notícias. É uma crónica semanal que me sai do pêlo, como se costuma dizer, sobretudo com tanta coisa que eu já tenho para fazer (este blogue é uma delas). Por isso, tomei a decisão de, às sextas, em vez de publicar aqui um post novinho em folha, vir pôr o link da crónica que saiu no domingo imediatamente anterior. Não vai ter que ver sempre com livros ou edição; não será sempre um assunto novo para os Extraordinários que me acompanham há já oito anos; incluirá recordações da minha infância e preocupações relativamente aos tempos que se avizinham. Chama-se Adeus, futuro e terá um subtítulo que, esse, sim, mudará todas as semanas. Quem não a quiser ler tem bom remédio. E, como amanhã é dia de descanso, começo já hoje a «linkar». Até segunda!


 


https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/maria-do-rosario-pedreira/interior/poesia-e-cifroes-9929251.html


 

Escritores ingleses e restaurantes indianos

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Um dia destes, no Facebook, a tradutora Tânia Ganho estava a mostrar a maravilhosa capa do mais recente romance de Alan Hollinghurst (reproduzo-a abaixo, uma vez que o livro é publicado pela minha colega Carmen Serrano), de que foi a tradutora. E lembrei-me de que jantei com o Manel e esse mesmo Alan Hollinghurst há muitos anos (quando saiu A Linha da Beleza) num restaurante indiano que ficava perto de Santa Apolónia (não juro, mas tenho ideia de que o autor inglês era vegetariano). Entre outras coisas, recordo-me de ele ter adorado aqueles brincos que acendem e apagam na orelha de um indiano que vendia flores e coisas desnecessárias (que não comprámos). O Manel disse-me pouco depois que outro escritor britânico que também publicou, Jonathan Coe, lhe contou que, um dia, a operadora de telefone que usava lhe deu a hipótese de não pagar as chamadas para os três números que ele mais ligava (era uma campanha); Coe julgava que o que estava no topo dos seus telefonemas era o da mãe, mas a operadora verificou que não, que era o do restaurante indiano com serviço de entrega ao domicílio que havia ao virar da esquina. Imagino que os escritores portugueses sejam mais do género de comer comidinha caseira… mas, com tanta motorizada pela cidade, talvez recorram ao Uber Eats. Alan Hollinghurst vem a Portugal, a Óbidos, para o lançamento do novo romance.


 


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Envelhecer

Fiz anos há pouco tempo, como sabem (não escrevi post nesse dia), e não sei se é pela proximidade dos 60 mas a verdade é que fiquei um bocado deprimida. Disse sempre que guardaria alguns destinos de viagem para a velhice (os mais próximos em termos geográficos) e, nova ainda, aproveitei para ir a locais distantes (alguns a trinta horas de avião, incluindo escalas). Mas com os livros fiz o contrário – e deixei algumas coisas de peso que requerem tempo, descanso, maturidade e paciência para a reforma ou, enfim, um pouco antes dela. Ora, percebi que isso não vai acontecer. Estava a arrumar alguns livros no fim-de-semana quando descobri que, relativamente a dois autores de que gosto particularmente (Roth e McEwan), só me lembro bem dos livros que li há mais tempo; e os que li há menos tempo é quase como se não tivesse lido, fizeram-se um apagão… Confundi Humilhação com Todo o Mundo, por exemplo; e, ao ver que o britânico escreveu o guião para o filme A Balada de Adam Henry (que estreou há pouco), tentei lembrar-me do enredo do romance e só via uma juíza em crise de casamento mas já não me lembrava do rapaz que era testemunha de Jeová (tive de ir à Wook para refrescar a memória). Tenho a impressão de que, se é para esquecer em três tempos, vai ser frustrante ler as obras-primas que planeei, mesmo que durante a leitura me dêem muito gozo, e se calhar é melhor não lhes tocar. Que chatice.


 


P.S. De ontem até dia 7 decorre a Escritaria em Penafiel, desta vez dedicada ao escritor angolano Pepetela. Se estiver por essas bandas, vale muito a pena.

O que ando a ler

Por acaso, já acabei, mas é dele que falo agora porque se apresenta a oportunidade e depois sei lá se não me esqueço. Em primeiro lugar – há que dizê-lo –, é preciso louvar a autora pela coragem de publicar um romance quando é crítica literária há tantos anos (telhados de vidro, portanto). Ana Cristina Leonardo, uma senhora da minha idade (com um humor verrinoso que quase sempre lhe fica bem), escreveu O Centro do Mundo, uma peça literária bastante diferente dos romances ditos clássicos; a história debruça-se sobre o espião Boris Skossyreff, apátrida, cheio de dívidas e pretenso rei de Andorra, que passa por Olhão (lugar que figura na capa do romance e é a terra natal da autora) nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, em busca de um barco que o leve a Marrocos; é em Olhão que conhece um médico e intelectual que, com várias outras vozes, acabará por ajudar a contar a história da sua passagem por Portugal muitos anos mais tarde. Esta história, cujos episódios se estendem à guerra civil de Espanha e ao nazismo, terminarão com o magro Skossyreff esfomeado num gulag na Sibéria (aqui são belíssimas as descrições, para mim as melhores do livro, juntamente com as das primeiras páginas). A autora interpela-nos, provocadoramente, ao longo da narrativa, inclusive para nos cultivar (há notas de rodapé para quem quiser aprender). Uma interessante estreia na ficção para adultos.

Folio

Começou ontem mais uma edição do Folio, o festival literário mais famoso do Outono, que decorrerá na Vila Literária de Óbidos até ao próximo dia 7 de Outubro e cujo tema é desta feita Ócio. Negócio. A Invenção do Futuro. Como de costume, o festival contará com a presença de variadíssimos autores estrangeiros, como Alan Hollinghurst, Claudia Piñeiro, Cynan Jones, Felipe Benítez Reyes, Gregório Duvivier... e também de muitíssimos portugueses que ali estarão em mesas-redondas e lançamentos de livros (Afonso Reis Cabral, Nuno Camarneiro e João Pinto Coelho, por exemplo, só para puxar a brasa à minha sardinha e pôr o comentador anónimo a reclamar). As exposições não faltarão (ilustração, fotografia, cerâmica...), nem os concertos, que desta vez englobam desde a música clássica (com um recital por Ana Paula Russo) ao fado (Ricardo Ribeiro e Fábia Rebordão) e à pop (Mafalda Veiga e Samuel Úria, por exemplo). Serão comemorados os 20 anos da entrega do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago e vai haver homenagens justíssimas a Eduardo Lourenço e Ribeiro Teles. Organizaram-se boas oficinas de escrita e de matemática, entre muitas outras actividades pensadas para todas as idades. O programa é extenso e pode ser consultado na Internet. Apareça por lá.

Mulheres

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Escrevi anos a fio livros juvenis, muitos dos quais foram adaptados à televisão, mas a partir de uma certa altura fiquei um bocado farta de aventuras para adolescentes; depois disso, penso que só abri a excepção da literatura para adultos para escrever uma biografia de Amália Rodrigues chamada A Minha Primeira Amália (que, por sinal, me deu imenso gozo). Não imaginava por isso que fosse reincidir no género, mas não resisti a aceitar o convite de Filipa Casqueiro, editora da Booksmile, até porque foi ao meu lado que ela começou nos livros e hoje está aí a dar cartas e estou eu aqui a escrever para ela. Pois bem, como parece que as mulheres estão em alta no mundo inteiro, o livro que a Filipa me encomendou e é lançado hoje (e que tive o maior gosto em escrever, sobretudo por tudo o que aprendi na fase de investigação) é sobre mulheres: mulheres portuguesas e extraordinárias. Por decisão minha, preferi seleccionar apenas mulheres que já morreram, para estarem todas em igualdade de circunstâncias; mas no conjunto existem figuras históricas, cientistas, desportistas, aventureiras, políticas e muito mais, de vários séculos até à actualidade. O livro, ilustrado pela talentosíssima Elsa Martins (que apanhou lindamente as figuras sem as pôr com ar de caricaturas) está à venda desde dia 17, mas a apresentação oficial, com apresentação de Isabel Soares (ela própria filha de uma portuguesa extraordinária), ocorrerá mais logo no Colégio Moderno, em Lisboa, às 18h30. Apareçam por lá e levem as vossas crianças, rapazes e raparigas. Estão todos convidados!


 


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Mais Eça

Eça de Queirós foi recentemente objecto de uma infinidade de textos de opinião na imprensa portuguesa pelo facto de o Ministério da Educação ter tornado facultativa a leitura do seu romance Os Maias (e, mais tarde, ter revisto a sua posição). Há quem pense que, de facto, metade dos alunos, viciados em smartphones e leitura rápida, já não conseguem compreender a prosa queirosiana (ou mesmo grande parte do que é literário); e há quem saiba também que muitos professores dão Os Maias apoiados nos manuais e guias do professor que lhes fazem a papa toda, mas que eles próprios, afinal, não os leram quando eram da idade dos seus alunos. Eça, nos 130 anos da publicação da sua obra-prima, vai ser o tema de mais uma sessão do Ler no Chiado, conduzida pela jornalista Anabela Mota Ribeiro (se calhar ainda não refeita das actividades na Feira do Livro do Porto, que ainda agora terminou). É já hoje à tarde, pelas 18h30, na Livraria Bertrand do Chiado, em Lisboa, e contará com a prestimosa colaboração do professor Carlos Reis, que falará decerto das figuras maiores criadas pelo grande mestre: Carlos da Maia e João da Ega, José Fernandes e Jacinto, o conselheiro Acácio, o José Matias, o padre Amaro, Maria Eduarda e tantas outras. Para quem queira aprender sobre Eça sem ser pelos insossos manuais, aconselho esta sessão.

O senhor Lobo Antunes

Se há coisa de que não se pode acusar o escritor António Lobo Antunes é de escolher maus títulos: os seus títulos são sempre um primor, mesmo que frequentemente surripiados a versos de alguns dos seus confrades portugueses e estrangeiros, e o do seu mais recente romance não é excepção: A Última Porta antes da Noite. Vai seguramente correr-lhe bem, já que, nos últimos tempos, lhe têm acontecido coisas bem boas – e há períodos assim, em que parece que tudo se conjuga de forma positiva. Pois então, depois do mais famoso escritor português lá fora – Fernando Pessoa, pois claro –, foi a vez de António Lobo Antunes chegar à prestigiada colecção Pléiade, da editora Gallimard, um privilégio de que mesmo muito poucos podem gabar-se. Está contente o senhor Lobo Antunes, e estamos nós, por ver a França distinguir pela segunda vez um autor português, elevando-o à categoria de escritores como Kundera, Proust, Dickens ou Vargas Llosa, para mencionar apenas alguns. Se toda a gente comenta que Lobo Antunes perdeu a oportunidade de ganhar o Nobel da Literatura quando Saramago lho arrebatou há vinte anos, invalidando que o mesmo fosse para a língua portuguesa por um longo período, pois agora deve estar de papinho cheio.

Qual pátria?

Já aqui disse que, durante as minhas férias, li muitas páginas, mas poucos livros. Talvez tenham pensado que li sobretudo jornais e revistas, mas não: o que quis dizer foi que «papei» um calhamaço de 700 páginas que me ocupou quase duas semanas. Trata-se do aplaudido e multipremiado Pátria, de Fernando Aramburu: um grande romance que todos devem ler para entender da melhor forma possível o que aconteceu no País Basco com a ETA, os que abraçaram a «luta armada», as suas vítimas (não estou a falar apenas de juízes, polícias e políticos, mas de pobres diabos que, por terem meia dúzia de tostões, foram intimados a dar dinheiro para «a causa» e assassinados quando se recusaram a fazê-lo) e os que simplesmente nasceram em Donostia e tiveram de viver diariamente com o medo ao longo de muitos anos. O romance é exemplar, tomando como ponto de partida a história de duas famílias muito chegadas (dois casais e os seus filhos) e aparentemente inseparáveis – as mulheres tomando chá juntas na pastelaria, os homens andando de bicicleta aos domingos ou jogando cartas, as raparigas cúmplices nos momentos difíceis, os miúdos a aprenderem a andar de bicicleta na casa dos outros. O problema é que, numa das famílias, há um filho problemático (o do meio) que se torna etarra ainda adolescente e, na outra, uma morte às mãos dos terroristas… A narrativa começa, curiosamente, pelo fim: no dia em que a ETA anuncia a cessação da luta armada; e, mesmo que se trate de uma óptima notícia, é tarde demais para quase tudo, sobretudo para perdoar – ou talvez não. Um livro maravilhoso que mostra como a política marca as vidas dos cidadãos todos os dias das suas vidas e como, por vezes, a amizade é invencível.

Folga

Caríssimos Extraordinários, hoje não há blogue. Faço anos e tiro folga. Até segunda e bom fim-de-semana.

Incapacidades

O meu pai era um homem muito inteligente (não sou só eu a dizê-lo, isto para que percebam que não se trata de uma filha a elogiar o pai); mas tinha uma extrema dificuldade, por exemplo, em atravessar a rua ou fazer um simples levantamento no Multibanco. Conheci pessoas brilhantes que nunca conseguiram tirar a carta de condução ou preencher os papéis do IRS. Ainda hoje há um senhor que é considerado um dos nossos grandes autores literários que só faz voos que tenham escalas se alguém o acompanhar, pois de outro modo é provável que se engane nas portas e fique em terra. Mesmo mandar um fax, no tempo anterior aos computadores, foi para um intelectual de excepção que todos nós conhecemos, Eduardo Lourenço, uma tarefa complexa (creio que já falei disso aqui no blogue). Existe, enfim, um certo tipo de inteligência que não se articula com o pragmatismo e a vida de todos os dias, e não podemos chamar burro a alguém que não sabe atar os atacadores dos sapatos, porque uma coisa não tem nada que ver com a outra. Um dia destes, tropecei, de resto, numa frase de Natália Correia no mural do Facebook da escritora Filipa Martins que exprime bem o que digo. Partilho por ser belíssima e também porque percebo melhor o meu pai através dela: «Eu sou desastrada, sou uma pessoa débil, uma pessoa falhada, alegremente, conscientemente falhada em muitas coisas. Não sei tratar de nada, na ordem das coisas práticas, não sei assinar um cheque, sou perfeitamente desastrada. Só sei escrever.»

Fado da saudade

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Há pessoas que, embora não tendo sido propriamente íntimas, conhecemos relativamente bem; e, porque já morreram (e demasiado cedo), de vez em quando sentimos saudade delas. Além das saudades, fazem-nos falta (a nós, pessoalmente, e ao País). Falo, por exemplo, do ecléctico Eduardo Prado Coelho (nunca mais houve outro intelectual assim tão versátil e aberto a escrever nos nossos jornais, e ele fazia-o TODOS os dias) e do poeta Vasco Graça Moura (VGM), o maior lutador contra o Acordo Ortográfico que tivemos em Portugal, um grande poeta e um enormíssimo contador de anedotas. Fiquei, aliás, bastante feliz quando soube recentemente que a Quetzal acaba de publicar um livro de inéditos de VGM que parece mesmo feito a pensar em mim. Chama-se A Puxar ao Sentimento e é uma compilação de letras para fado (Trinta e Um Fadinhos de Autor, reza o subtítulo). Cristina Branco, Kátia Guerreiro, Mísia, Patrícia Costa e outras fadistas já cantaram letras do grande poeta que estão publicadas num livrinho chamado Letras do Fado Vulgar; vamos ver agora quem se atira a este livrinho e empresta a sua voz aos textos. Eu vou lê-lo, isso é mais do que certo, excelente forma de recordar VGM quatro anos passados da sua morte (já?!).


 


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Pão de Açúcar

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Em Fevereiro de 2006, os Bombeiros Sapadores do Porto resgataram do fosso de um prédio abandonado um corpo com marcas de agressões e nu da cintura para baixo. A vítima, que estava doente e se refugiara naquela cave, fora espancada ao longo de vários dias por um grupo de adolescentes, alguns dos quais tinham apenas doze anos. Inicialmente, tinha sido descoberta por um deles numa espécie de barraca por causa de uma bicicleta velha; e a relação até podia ter sido pacífica, mesmo que a atracção às vezes e transformasse em repulsa – mas que vale um tesouro que não pode ser mostrado? Esta é a história que serve de base ao segundo romance de Afonso Reis Cabral, o mais novo vencedor do Prémio LeYa desde sempre (venceu-o em 2014 com O Meu Irmão e não teve pressa de voltar a publicar, o que é um bom sinal). Pão de Açúcar (que é também o nome por que ficou conhecido o local da tragédia porque para ali fora projectado um grande supermercado), romance vertiginoso sobre um caso que abalou o País, é uma combinação magistral de factos e ficção, com personagens reais e imaginárias meticulosamente desenhadas, e sai hoje para as livrarias. Merece, sem dúvida, ser lido de fio a pavio.


 


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Traficar com estilo

Há notícias que até parecem anedotas, e esta li-a recentemente no Jornal de Notícias. Sei como a ortografia deve ser estimada e respeitada; mas, com tudo o que vejo por aí, mesmo por parte de quem quer ser escritor, nunca me passaria pela cabeça que se conseguissem confiscar quatro toneladas de marijuana por causa de um erro ortográfico. A verdade, porém, é essa. Tudo aconteceu no Brasil, na zona de São Paulo, e a droga vinha escondida entre embalagens de peitos de frango congelados num camião que se dirigia a Vila Velha (Espírito Santo). Numa operação stop, o camião foi interceptado, mas, ao que parecia, a documentação da carga estava em ordem e poderia seguir. O problema foi que a guia de transporte mencionava «dorço de frango»  (pelos vistos, é «dorso» que lá chamam ao nosso «peito») e o erro alertou as autoridades que, em poucos minutos, descobriram que a papelada era forjada e encontraram 3920 quilos de erva no meio das embalagens. O condutor, de 31 anos, foi imediatamente preso e a droga confiscada. Ainda há polícias rodoviários que sabem ortografia, que sorte. Uma boa primária faz muita falta... Até para traficar, claro.

Chover no molhado

Desculpem chover no molhado, mas tenho esperança de que, debaixo do molhado, haja uma pedra (e água mole em pedra dura tanto dá até que fura). Não aguento mais crianças e adolescentes agarrados a um telemóvel sem trocar um olhar com as pessoas que lhes fazem perguntas ou falam com eles. Passei o Verão a assistir a cenas deste tipo: pais que estão à mesa a querer saber o que querem os filhos comer, e filhos a responder olhando para o estupor do ecrã; grupos de crianças que, em vez de brincarem umas com as outras e irem ao banho, estão mergulhadas num qualquer interminável jogo; rapazes que já tinham idade para ter juízo (16, 17 anos) a quem os pais perguntam com jeitinho, como se tivessem de pedir licença, se eles poderiam desviar só um minutinho os olhos do telefone e tomar atenção. Aquilo é uma droga, convençam-se. É uma dependência. Se alguém que tenha filhos pequenos me está a ler, por favor, doseie o uso dos aparelhos nas mãos da criançada.  Nos EUA, a Direcção-Geral de Saúde afirma que já só 33% das crianças e adolescentes são fisicamente activos (não se mexem, daí a obesidade gritante) e que passam em média sete horas e meia diante de um ecrã (sete horas e meia significa a maior parte do dia útil). Pior: diz que existem no cérebro das pessoas umas sinapses que não estão a ser usadas neste tipo de leitura (em papel, sim) e que «if you don't use, it, you loose it»; por isso, se isto não parar, em duas gerações a humanidade será incapaz de ler livros... Por favor, façam como eu, chovam no molhado. Sejam contra o uso exagerado destes aparelhos e contra a dependência dos mesmos.

Boas recordações

«Felizmente, existem os livros. Podemos esquecê-los numa prateleira ou num baú, deixá-los entregues ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhes pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca, o momento que sempre chega, aquele dia em que nos perguntamos, Onde estará aquele livro que ensinava a cozer os barros.» A frase, absolutamente maravilhosa, é de José Saramago e pertence ao romance A Caverna, o primeiro que o escritor publicou depois de vencer o Nobel da Literatura, há vinte anos; foi recentemente partilhada por um jovem escritor no Facebook que me deu a ideia de a partilhar também. Além de tudo, fez-me lembrar os anos em que eu fazia a Feira do Livro de Lisboa dentro do stand, atrás do balcão, e numa bela tarde uma senhora, que quase de certeza nunca entrava em livrarias por se sentir intimidada, chegou ali ao parque, viu aquelas casinhas, tomou coragem, aproximou-se e disse, a olhar para mim: «Ó menina, tem algum livro que ensine como se deitam os canários?» Eram outros tempos. Boas recordações.

Salinger

Quase toda a gente conhece J. D. Salinger pelo seu famosíssimo romance À espera no Centeio e também por, apesar do seu sucesso, se ter retirado cedo do mundo da escrita. Um dia destes, tirei um livrinho dele da estante, publicado há muitos anos pela velhinha Quetzal, e li Carpinteiros, Levantem ao Alto o Pau de Bandeira, seguido de Seymour, Uma Introdução, duas pequenas novelas publicadas originalmente na revista New Yorker e só em 1963 saídas em livro. Trata-se de histórias da família Glass (de que há outras) contadas por um dos membros (Buddy, que se diz ser um alter ego do escritor) sobre o seu irmão mais velho, Seymour. A primeira decorre em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, quando Buddy está de licença para assistir ao casamento do irmão com a jovem e apaixonada Muriel, mas Seymour não aparece (há indícios de que é, de resto, algo desequilibrado pela leitura de excertos do seu diário e pelas estranhas atitudes relativamente à noiva e não só); a segunda fala do suicídio do mesmo Seymour já em 1948 (os índicos comprovam-se) e constitui uma espécie de apresentação da personagem feita por Buddy. Salinger influenciou gerações de escritores americanos, mas estas duas peças são mesmo diferentes de tudo o que li até hoje, e nem consigo dizer se gostei muito, achei-as estranhas, é um facto, mas isso não é necessariamente bom nem mau.  


 

O terceiro Nervo

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Num país como o nosso é muito difícil os projectos culturais com poucos meios vingarem, mas a verdade é que a revista Nervo está aí com o seu terceiro número para provar que com muito trabalho e empenho tudo se consegue. Com o propósito de «divulgar a poesia contemporânea, nos seus diferentes estilos e linguagens, e partilhar a actualíssima visão do mundo dos nossos poetas», este terceiro Nervo apresenta textos de alguns nomes bastante conhecidos como Helder Moura Pereira, Carlos Bessa e Manuel Gusmão, ou mesmo Maria Quintans e Manuel Halpern (entre outros). E dá lugar aos estrangeiros Alessandra Racca (Itália), Amosse Mucavele (Moçambique), Hussein Habasch (Síria) e Pablo García Casado (Espanha) com as traduções de André Domingues (língua espanhola), Francesco Selva (língua italiana) e Isilda Ribeiro (língua inglesa). O design de todo este número, incluindo a magnífica capa, é da autoria do artista plástico Daniel Garcia. Para quem queira participar no próximo número (já para 2019), os contactos da revista são:


nervo.colectivodepoesia@gmail.com


 


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Ligações

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Numa noite de lobos em que todos rezam a Santa Bárbara e os mais velhos recordam uma tragédia antiga, chega misteriosamente à aldeia um estrangeiro e a sua filha Maddalena. Nessa mesma noite, a criada do solar vem chamar a parteira para que acuda à sua senhora, e Celeste nascerá pouco depois, ignorando que a solidão rodeará grande parte da sua vida. No Fundo do Lugar, onde a água da chuva irrompe em ondas pelas casas mais pobres, é a vez de Samuel – o que desenha bichos no chão dos quintais e imita o canto das aves – temer, como sempre, pela vida da mãe. Maddalena, Celeste e Samuel são os lados desiguais do triângulo donde brotam os fios desta história, contada por três mulheres que se assemelham a fiandeiras do tempo: Antónia, a viúva que tricota camisolas e mantas, acrescentando dias à vida de cada um; Violeta, a que apara nas mãos os filhos da terra e guarda segredos tristes numa gaveta; e Emília, a que ouve em sonhos o afiar de facas e calcula os caminhos que a morte escolhe percorrer. Os Fios, romance de estreia de Sandra Catarino, lindo e imperdível, combina a crueza do meio rural com um lirismo inesperado que torna esta narrativa mágica e poderosamente empática. Acaba de sair e recomenda-se.


 


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No Porto

Hoje começa a Feira do Livro do Porto e a verdade é que parece bastante mais rica em termos de programação do que foi a de Lisboa (o que certamente se deve a Anabela Mota Ribeiro e José Eduardo Agualusa, convidados para organizar as actividades e moderar algumas conversas). Celebrando o 50.º aniversário do Maio de 68 e outras revoluções e revoltas, o certame durará até dia 23 e terá muitos convidados de peso, também estrangeiros, entre eles Leila Slimani e Daniel Cohn-Bendit, que conversará com Rui Tavares sobre as manifestações estudantis que viveu pessoalmente em Paris. Haverá debates, leituras de poesia, música e até uma residência literária para o autor brasileiro Bernardo Carvalho, que resultará na produção de um conto. Poderemos ouvir, entre outros, Mia Couto, Mário de Carvalho, João Pinto Coelho, Filipa Martins, Francisco José Viegas, Ana Margarida de Carvalho, João Luís Barreto Guimarães, compondo-se neste festival um verdadeiro curso de literatura, que tomará de empréstimo o título de um livro de Italo Calvino (Porquê Ler os Clássicos?) e abordará esta forma de arte maravilhosa desde a Grécia antiga até Fernando Pessoa, passando por Dante, Shakespeare e outros nomes que não morrem. Se estiver pelo Porto e arredores, não perca, vai valer a pena.

Grandes novidades

O Nobel da Literatura para Bob Dylan foi uma decisão francamente inesperada – muito saudada por uns, muito criticada por outros. É bem possível que essa decisão tenha sido, de resto, o princípio das dissensões no comité Nobel que redundaram em despedimentos e adiamentos. E agora o Man Booker Prize deu um passo igualmente inovador ao introduzir na lista de candidatos a um dos mais importantes prémios para uma obra de ficção em língua inglesa a novela gráfica Sabrina, da autoria do norte-americano Nick Drnaso, autor que já tinha sido bastante elogiado com a sua obra de estreia – Beverly – e, com este segundo livro, chegou definitivamente «ao céu». Tanto quanto percebi, a história tem que ver com o desaparecimento de uma rapariga na sequência de ter combinado com a sua irmã Sandra um fim-de-semana no Lago Michigan; e – entre outras coisas – fala de teorias da conspiração, verdade e mentira, ausência, medo, manipulação tecnológica e redes sociais (na era Trump). Parece-me que pode ser uma obra muito interessante, que recebeu o louvor de numerosos jornais e revistas e americanos e está a ser igualmente bem recebida pela crítica britânica, que a classifica como uma mistura de Don DeLillo com Jim Jarmusch e reconhece a literatura atrás de uma história com palavras e desenhos. É a primeira vez que um cartoonista entra na lista do Man Booker Prize e, mesmo que não passe à shorlist, já entrou para a história.