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A mostrar mensagens de novembro, 2013

Dia do livreiro

Importando a ideia do país vizinho, alguns livreiros independentes juntaram-se e decidiram ter, a partir do ano passado, um dia para festejar a sua profissão e o papel fundamental que desempenham na cadeia que liga um autor a um leitor. Tomando a data do aniversário da morte de José Saramago (que é também a da morte de Fernando Assis Pacheco), escolheram então o 30 de Novembro para Dia da Livraria e do Livreiro e amanhã preparam em todo o País um sem-número de actividades que partem de uma parceria entre o Encontro-Livreiro e a Fundação José Saramago. O cliente será o convidado de honra (mais ainda do que nos restantes dias do ano) – e é de esperar que, em algumas livrarias portuguesas, seja recebido de forma especial e brindado com tertúlias, mesas-redondas e conversas em torno do livro e da leitura. Na Livraria Culsete, em Setúbal – que perdeu recentemente um dos seus fundadores, Manuel Medeiros – a festa celebra-se a partir das quatro da tarde e ali será entregue um diploma a um livreiro de excepção escolhido por subscrição pública. Mas as celebrações ocorrerão um pouco por todo o lado e, portanto, para quem gosta de livros como os leitores deste blogue, o melhor é aproveitar a efeméride e o dia de amanhã, até porque é preciso homenagear aqueles que não se limitam a vender livros e os amam acima de tudo. Mais informações aqui:


http://diadalivrariaedolivreiro.wordpress.com/

Sex symbol infantil

Agora, que o Natal se está a aproximar, somos brindados a toda a hora com a publicidade do Continente, que escolheu como uma das suas bandeiras para atrair meninos aos brinquedos uma fêmea de hipopótamo rosada e gorducha que dá pelo nome de Popota. Não sei quem criou o boneco e o vestiu e despiu de mil maneiras diferentes desde que apareceu, nem quem inventa as coreografias dos complicados bailados em que ela sobressai à frente de um pelotão de dançarinos. Na verdade, não me interessei o suficiente para o descobrir e deixo isso para quem seja mais curioso do que eu. Interessava-me, mesmo assim, que me explicassem por que raio uma figura que se destina a convidar os mais pequeninos a escolherem os seus presentes naquela grande superfície, e não noutra, tem contornos de mulher fatal, lânguida e sexy, usando decotes generosos, rachas nos vestidos até à anca ou mini-saias do tamanho de cintos e toda uma parafernália de adereços que ficariam melhor numa personagem de BD para adultos. A concorrente mais directa da Popota, que também não é grande coisa como desenho e tem um nome que não lembra ao careca (Leopoldina), tem a vantagem de não ser obesa (o que, pedagogicamente, é mais interessante) e fala do «mundo encantado dos brinquedos». Com cara de pássaro, é possível que voe, o que é outra vantagem, e tem qualquer coisa de tia simpática, capaz de contar histórias ao deitar. Mas não sei se as crianças gostam mais dela, se da bucha que se bamboleia no palco e usa cai-cai. Com tanta roupa dourada e prateada à venda nas lojas de criança, talvez seja eu que estou a ficar bota-de-elástico.

Tiro no pé

Partilho as iniciais com Margarida Rebelo Pinto, mas penso que, fora isso, nada temos em comum, menos ainda a opinião sobre o estado geral do País e as medidas deste Governo. Li há muitos anos o seu primeiro livro (a que alguém que conheço chama, de forma divertida, «Não Faço a Mínima Ideia») e não gostei. Recordo uma cena em que roubavam a carteira a uma personagem e esta não lamentava a perda dos documentos nem do dinheiro, mas apenas os trinta contos em maquilhagem que lá trazia. Alguém que escreve isto num romance é, provavelmente, uma pessoa que pode gastar este dinheiro em maquilhagem e que, por isso, não devia ser chamada à televisão para comentar manifestações contra as medidas de austeridade e os cortes nos ordenados e pensões. Mas foi isso que aconteceu – e, como seria de esperar, MRP (não eu, a outra) fez uma triste figura, dizendo que repudiava esse tipo de manifestação, que toda a gente sofria cortes – ela também – e que devíamos deixar trabalhar à vontade quem nos governa. O vídeo da sua participação num telejornal correu, de resto, as redes sociais e tornou-se viral, até porque temos uma certa tendência para rir dos estúpidos. Porém, não foram as declarações da escritora de romances light que me escandalizaram, uma vez que me bastou ler aquele seu livro (Sei lá era o título correcto) para perceber como pensa a sua cabeça. O que me admirou mesmo foi que MRP não tivesse a mais pequena noção de que estava justamente a repudiar com as suas afirmações muitos dos que compram habitualmente os seus livros e lhe dão de comer. Presumo que alguns desses, depois de a terem ouvido, deixarão de o fazer – e então, sim, talvez ela sinta na própria pele os cortes a que não deu importância...

Coragem

Quando, ao editar o texto de um romance, sobretudo de um autor que ainda não conheço bem, sugiro alguns cortes, a resistência é normalmente muito grande. Entendo perfeitamente. O investimento em tempo, emoção e trabalho que às vezes se faz num mero parágrafo pode ser tão significativo que é perfeitamente natural que quem o escreveu não queira prescindir dele, mesmo que frequentemente reconheça que não atrasa nem adianta, nem para a economia da história nem em termos puramente estéticos. Conheço, porém, um caso notável de autocrítica e auto-editing (além, claro, de João Ricardo Pedro, o vencedor do Prémio LeYa em 2012, que aproveitou 200 páginas, se tanto, de 800). Um romancista que publico há muitos anos, Miguel Real, que é paralelamente autor de um razoável número de ensaios sobre cultura portuguesa, desempenha também as funções de crítico literário no Jornal de Letras há uma série de anos. Recentemente, foi-lhe entregue para recensear o último livro de Gonçalo M. Tavares, Atlas do Corpo e da Imaginação (ainda não li). E, após a leitura, confessou que deitara fora na manhã em que redigia a crítica meia centena de páginas que tinha escrito para um pequeno volume que planeava intitular Nova Teoria do Corpo por achar que eram completamente redundantes depois do que Tavares acabava de publicar. Um acto de respeito, mas sobretudo de grande coragem, diria eu. E uma lição, enfim, para quem se recusa até a deitar fora uma simples vírgula.

Individual e colectivo

A sociedade moderna, excessivamente tecnológica, torna-nos bichos solitários (no masculino, claro). No Facebook, apanhei há tempos uma fotografia divertida de um bar, na parede do qual o proprietário afixara um pedido para que os clientes largassem os telemóveis e falassem, por favor, uns com os outros. É verdade que muita gente vive completamente escrava destes e de outros aparelhos, talvez para não se sentir muito sozinha, mas ainda assim sozinha porque ignorando por causa disso os que ali estão e podiam fazer-lhe companhia melhor do que as SMS que chegam, irritantemente, a todo o momento e exigem resposta. Com muitos cafés transformados em agências bancárias, desapareceram também as conversas e tertúlias que, nos anos 1960 e 1970, segundo me conta o Manel, juntavam à roda de uma mesa (em Lisboa e no Porto, pelo menos) muita gente que queria falar e discutir assuntos, conhecer escritores e mostrar poemas, levantar a voz contra o poder instituído e planear acções culturais e políticas. Hoje, os cafés têm poucas mesas e, ao que parece, os jovens intelectuais perderam o gosto de se encontrar e trocar impressões, a menos que seja por e-mail. Talvez os blogues tenham substituído esses encontros ao vivo, mas, num período tão mau como o que vivemos, não era descabido que se realizassem de novo tertúlias, até porque delas poderiam sair ideias boas e criativas que nos alegrassem os dias.

O mal banal

Assisti há duas semanas a um daqueles filmes que não se esquecem. Por mais que o cinema americano tenha monopolizado os espectadores do mundo inteiro, a verdade é que o cinema europeu ainda dá cartas – e muitos trunfos. Falo dessa maravilha de argumento, realização e interpretação que é Hannah Arendt e que não só me encheu as medidas como me ensinou muita coisa que – ainda bem – desconhecia (sobretudo que Heidegger tinha falta de jeito para as coisas mais pragmáticas da vida). Este filme, que é também sobre o julgamento de Eichmann que Arendt cobriu para a revista New Yorker quando o nazi foi raptado e levado para Israel, e a terá levado a escrever (e com que consequências) sobre a «banalidade do mal», recordou-me certas partes de Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares, e de A Caixa Negra, de Amos Oz, romances escritos muitos anos mais tarde e em contextos distintos, mas nos quais existe também uma maldade que é fruto, no limite, da estupidez de certos pobres de espírito que, quase sem disso se aperceberem, têm o poder de mudar a vida de milhões (para mal). Aconselho, por isso, a leitura destes dois livros admiráveis e, claro, se ainda o conseguirem ver, o filme de Margarethe von Trotta.

Figuras públicas

Uma vez, estava eu em Serralves a visitar uma exposição de Julião Sarmento, veio ter comigo uma senhora com uma filha ainda pequena e perguntou-me, enfim, se eu era eu. Respondi-lhe que sim – e então, coisa mesmo inesperada, ela falou-me em voz muito baixa (estávamos num museu) da minha poesia e de como ela a teria ajudado a ultrapassar um terrível período da sua vida, confessando-me que, depois disso, era finalmente capaz de a ler sem chorar. Fiquei surpreendida: os escritores raramente são figuras públicas; e, apesar de eu ter ido a um programa de TV pouco antes daquele encontro, achei realmente estranho que alguém me reconhecesse e abordasse, sobretudo num local fora do meu contexto, um lugar que nada tinha que ver com livros. Na verdade, se virmos bem as coisas, um actor ou um cantor (mesmo que não tenha um sucesso por aí além) está mais do que habituado a sorrisos na rua e pedidos de autógrafos e certamente não se espanta de ser assim interpelado. Mas o escritor – excepto para um reduzido número de pessoas – é um nome na capa dos livros e pouco mais, e muita gente acha até que é assim que faz sentido, como se fosse crime sair da torre de marfim e aparecer às massas (mas, de facto, os raros que se tornam populares são logo criticados). Curiosa sobre aquela invulgar abordagem, não tardei, porém, a descobrir que não tinham sido os media a fazer nada pela minha fama: afinal, a senhora tinha feito parte de uma comunidade de leitores da Livraria Almedina, em Gaia, onde eu estivera para trocar impressões sobre os meus poemas…

Saramago africano

O Prémio Literário José Saramago foi instituído pela Fundação Círculo de Leitores no ano em que o escritor venceu o Nobel da Literatura. Não sei se sabem, mas foi o Círculo de Leitores que, quando Saramago ainda dava os primeiros passos na escrita, lhe proporcionou as condições necessárias à execução de um projecto moroso e exigente que deu origem ao livro Viagem a Portugal (além de publicar em versão Clube do Livro todas ou quase todas as suas obras). Este prémio, que visa galardoar romances publicados em língua portuguesa de autores com idade não superior a 35 anos, já tinha contemplado portugueses (Paulo José Miranda, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, valter hugo mãe, João Tordo) e duas brasileiras (Adriana Lisboa e Andrea del Fuego), mas este ano foi muito justamente atribuído a Ondjaki, o primeiro africano da lista, com o romance Os Transparentes. Apesar de ter dois autores a concurso, fiquei muito contente com a decisão. Conheço Ondjaki há muitos anos e, além de admirar o seu talento, considero-o uma pessoa às direitas: bem formado, generoso, extremamente afável e, além disso, muito bem-disposto. Só tive pena de que, num jornal, alguém tivesse tido a ideia triste de o comparar a Cavaco Silva só porque, no seu discurso de recepção do prémio, não se referiu a Saramago, preferindo falar da sua Angola, a quem dedicou o galardão. Uma rasteira que, se o conhecessem melhor, não lhe pregariam.

Vaca turista

Quando eu era pequena, as férias grandes eram muito compridas. Embora o meu pai ficasse em Lisboa a trabalhar e só fosse ter connosco aos fins-de-semana, Agosto inclusive, a família ia em peso para uma casa que se alugava à época (era assim que se dizia) no Estoril (e como parecia longe nesse tempo) onde permanecia entre meados de Junho e meados de Setembro, quando chegavam as marés-vivas e deixava de se ir à praia. Levava-se tudo atrás: as roupas de cama, as toalhas de mesa e banho, as loiças e os talheres, os utensílios de cozinha, os remédios, as mercearias, as roupas, enfim, tudo metido numa camioneta de caixa aberta como se estivéssemos mesmo a mudar de casa e não fôssemos regressar nunca mais à capital. Falo deste assunto, que aparentemente pouco tem que ver com livros, porque me contaram na Argentina uma deliciosa história de que me lembrei recentemente e quero partilhar com os extraordinários leitores deste blogue. Quando Borges e Bioy-Casares, que eram amigos, iam de férias, ao que parece também transportavam positivamente tudo o que se possa imaginar. Mas, sendo o segundo muitíssimo rico, cometia o exagero típico dos aristocratas de não prescindir de absolutamente nenhum luxo. E, por isso, fazia transportar para a casa de Verão determinada vaca, cujo leite era fundamental à mesa do pequeno-almoço…

A fama e o proveito

Hugo Gonçalves, de quem publiquei há uns meses o romance Enquanto Lisboa Arde, o Rio de Janeiro Pega Fogo, vive há dois anos no Brasil, onde é editor, e escreve regularmente para diversas publicações portuguesas desse ponto de vista privilegiado sobre as relações entre portugueses e brasileiros. Recentemente, o Diário de Notícias publicou um excelente artigo da sua autoria sobre a diferença entre o prestígio que tem no Brasil alguma literatura portuguesa e os efeitos práticos pouco significativos desse prestígio, ou seja, o relativo desconhecimento por parte da maioria da população (só uma elite conhece e lê autores portugueses) e as vendas francamente insignificantes. Diz Hugo Gonçalves que «a ideia de lusofonia inspira uma ilusão de proximidade entre países que nem sempre estão tão próximos quanto supomos. A ideia de um mercado lusófono de 250 milhões de pessoas, em quatro continentes, pode estimular a ambição expansionista de bancos, petrolíferas ou hipermercados, mas não inspira delírios de riqueza entre os portugueses cujo ofício é a língua». Uma autora como Dulce Maria Cardoso, por exemplo, que em Portugal vendeu cerca de 18 000 exemplares do romance O Retorno, no Brasil vendeu apenas 2000 (e o país é bem maior)… E o mesmo acontece com muitos outros autores que, apesar de receberem prémios no país irmão e de serem muito queridos lá, não conseguem melhor. É o que se chama ter a fama e não ter o proveito… Para os interessados, junto o link.




http://www.dinheirovivo.pt/Mercados/Artigo/CIECO287356.html?page=0



A vida moderna

Não sei o que aconteceu ao mundo, nem quando foi exactamente que a mudança se operou, mas a verdade é que, sobretudo nas grandes urbes, as pessoas deixaram de ter tempo. Embora os ponteiros do relógio rodem ao mesmo ritmo em todo o lado e desde que há relógios, as pessoas queixam-se cada vez mais de que o tempo não lhes chega para tudo o que têm de fazer desde que acordam até que se metem na cama para dormir. E um estudo encomendado por um grupo editorial britânico – Egmont – referido num interessante artigo publicado no Guardian vem mostrar que esta vida moderna que vivemos a uma velocidade estonteante fez diminuir até níveis que me parecem drásticos o hábito de os pais lerem histórias aos filhos ao deitar (parece que só 2% das famílias resistem) e de os professores primários dedicarem tempo das suas aulas à leitura de livros com os alunos. A falta de bibliotecários nas escolas e a cada vez maior rigidez dos programas são duas das razões apontadas para este decréscimo, mas também o aparecimento dos touch screens de tablets e telemóveis, que as crianças usam de forma intuitiva sem qualquer ajuda e dificilmente trocam por um livro que não podem ainda ler sozinhas – a ponto de os especialistas acharem que dentro em breve as televisões vão ter de substituir os seus ecrãs estáticos por outros sensíveis ao toque. Os autores do estudo acham que os livros infantis digitais são uma boa oportunidade para as crianças, que assim poderão juntar o útil ao agradável, lendo histórias num tablet e podendo inclusivamente escolher entre várias (como fazem com os jogos). Mas não era suposto os pais pararem de se desculpar com a falta de tempo e lerem com elas um bocadinho todas as noites? A vida moderna trouxe-nos coisas óptimas, mas não há aparelho nenhum que substitua um momento de leitura em companhia de quem amamos.

Novas modas

Conheço um centro de exames clínicos no qual, enquanto esperamos, nos sentam em cadeiras mais ou menos confortáveis diante de um televisor pendurado na parede, sem som, que passa ininterruptamente imagens de modelos cruzando a passerelle (a Fashion TV, se não erro). No fim da apresentação das colecções, o estilista vem juntar-se às suas meninas para os aplausos e, regra geral, veste de preto da cabeça aos pés e o mais discretamente possível (Armani, por exemplo), parecendo que, afinal – e apesar do que acabámos de ver –, não liga à moda, nem sequer à que ele próprio concebe. Um dia destes, numa reunião, depois de o director comercial me ter dito que dois dos nossos vendedores tinham gostado muito de um livro que publiquei em Maio, tentei convencê-lo de que, se os outros o lessem, o mais certo era gostarem também e, assim entusiasmados, lutarem seguramente mais e melhor por esse livro junto dos clientes. Explicou-me que, fora aqueles dois, mais nenhum lhe tinha alguma vez falado de um livro... E, como eu me mostrasse um pouco surpreendida, confessou-me que não percebia o espanto, pois escândalo era haver editores que não liam. Bem, custou-me reconhecer, mas é verdade: não é preciso gostar de ler para publicar a história da universitária que se tornou garota de programa, da actriz que ia fazendo explodir o prédio por ter ligado os quatro bicos de gás do fogão sabe-se lá para quê (não li o livro), ou até da adolescente que traficou droga e perdeu a mãe enquanto estava na prisão. Como os estilistas todos vestidos de preto, haverá editores para quem as páginas serão sempre brancas. Uma nova moda, enfim.

Os livros dos outros

Todos os autores, ou quase todos, gostam de celebrar a publicação dos seus livros num lançamento público, geralmente numa livraria, com a presença de alguém conhecido que fala da obra. Mas nestas coisas não há modelos e nunca se sabe o que pode sair da cartola dos oradores convidados. Já vi de tudo – e o pior foi quando a pessoa que apresentava o livro disse mal dele com o autor ali mesmo ao lado: honesto, talvez, mas não era precisa tanta sinceridade. Também já assisti a lançamentos em que o orador era um escritor muito conhecido e só falou da própria obra – um pouco egocêntrico, diria eu, sobretudo porque parecia mesmo que não tinha lido o romance que vinha apresentar. Quando o apresentador é pessoa famosa, muita gente não vai ao lançamento senão por causa disso, mas, em alguns casos, o escritor sozinho faria melhor. Uma vez, por exemplo, convidei um publicitário muito badalado para apresentar o romance de um autor escocês cuja acção decorria no mundo da publicidade e deve ter sido a apresentação mais rápida da história: o publicitário limitou-se a dizer qualquer coisa como: «Então aqui está x, que escreveu o romance y, a quem vou já passar a palavra.» Pensou que «apresentar» era «fazer as apresentações»… Até tive de ler um excerto para ocupar o tempo. E, por falar em ler excertos, agora já se vai substituindo a apresentação clássica por uma leitura, às vezes feita por um actor, parecendo que assim o livro se apresenta melhor a si próprio. É de certeza mais interessante do que contar a história toda e estragar o prazer aos leitores que assistem à sessão (também já me aconteceu). Enfim, tenho um autor que odeia lançamentos porque diz que não gosta que falem dele. Está, pelo menos, mais protegido destes amargos de boca.

O escritor dormiu aqui

Parece que, apesar da crise, os hotéis de Paris não se queixam muito. Mas, como 2013 está a ser um ano não tão bom como os anteriores, houve quem se lembrasse de explorar a ideia dos hotéis literários para atrair novos hóspedes. Assim, o hotel Le Marcel (assim chamado por causa de Proust) anuncia que o espírito do escritor está por todo o lado nas cores e no mobiliário e tem quartos com nomes de algumas personagens da Recherche, entre as quais Swann, Guermantes, Saint-Loup (e, claro, a Madeleine que, molhada no chá, desencadeia as recordações). Nas redondezas, também o hotel Les Plumes presta tributo à literatura com citações de vários autores gravadas no vidro das cabinas do duche; e, no mesmo bairro, outro hotel convida hóspedes para um determinado quarto, afirmando que foi nele que Oscar Wilde passou a última noite. O conceito parece resultar, porque a procura aumentou e já há quem queira dormir especificamente no quarto Kafka ou Shakespeare do Pavillon des Lettres, o primeiro dos estabelecimentos hoteleiros parisienses a apresentar-se como literário. Mesmo assim, a maior parte dos turistas está mais interessada numa boa relação qualidade-preço e muitos dos mais jovens nem sequer ouviram falar de Proust quando escolhem o Le Marcel. De qualquer maneira, ficam a saber.

Apanhados

Uma das coisas que aprendi pouco depois de ter chegado ao mundo da edição é que muita gente ligada aos livros tem vergonha de dizer que não leu determinadas obras, como se fosse um crime indesculpável, preferindo mentir a assumir a «ignorância». Contaram-me um dia destes uma história deliciosa a respeito destes bluffs, que é mesmo digna de um programa de «Apanhados». Augusto Monterroso, o renomado escritor guatemalteco que ganhou, entre outros, o Prémio Príncipe das Astúrias e o Prémio Juan Rulfo, escreveu aquele que se diz ser o mais curto conto da história da literatura, «El dinosaurio», composto apenas de uma frase: «Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.» O conto foi muito falado e estudado em universidades por todo o mundo, e importa dizê-lo para explicar que Monterroso ficou também conhecido em certos círculos como o autor daquele conto mínimo. Ora, uma vez, tendo o escritor participado de um encontro literário, aproximou-se dele uma senhora dizendo que gostava muito do que ele escrevia. Ao perguntar-lhe o que lera ela da sua obra, estranhou Monterroso que a senhora lhe respondesse imediatamente, e sem hesitações, «El dinosaurio». O guatemalteco não se deixou, porém, abalar e resolveu insistir: «E o que achou?» Aí, ao que parece, a senhora terá respondido: «Sabe? Ainda vou a meio.» Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo…

Vender

Quando vamos a um restaurante e perguntamos a quem nos atende como é o Bife à Casa ou o Bacalhau à Moda do Chef que vêm na ementa, estamos sinceramente à espera de que nos saibam responder – e é normalmente o que acontece. As etiquetas da roupa também ajudam as vendedoras das boutiques a dizer-nos se podemos lavar na máquina determinado vestido se, pelo contrário, aquela fazenda exige uma limpeza a seco. Enfim, quem está a vender ou interessado em que o cliente consuma tem, habitualmente, conhecimento da mercadoria, seja ela qual for. Porém, como é possível a uma equipa comercial conhecer os se calhar mais de cinquenta livros que todos os meses tem de promover junto dos clientes? Mesmo que queira «cheirar» cada um deles, será que umas linhas são suficientes para falar com toda a propriedade daquele «produto»? E que dizer dos empregados de uma livraria que recebe todos os dias novidades (há uns anos eram mais de trinta por dia)? Terão alguma vez tempo para perceber as diferenças entre estilos e autores para adequarem a exposição de todos os livros que têm na loja ao seu público-alvo? Por outro lado, se fosse eu a vender os livros que publico, e que conheço melhor do que a maioria das pessoas, à excepção do autor, teria melhores resultados na venda e na colocação desses títulos, sem qualquer experiência de comercialização? Temos sempre a sensação de que não se faz tudo e que muitos livros bons morrem na praia e não encontram os seus leitores potenciais. Haverá, porém, uma receita para que assim não seja?

Xadrez

Não sou jogadora de xadrez – na verdade, não sou jogadora de nada e sempre irritei os meus adversários por não prestar atenção suficiente às cartas nem ter como objectivo ganhar a todo o custo. Isso, porém, não me impede de ler e adorar um livrinho de Stefan Zweig, ao que parece o último que escreveu antes de se suicidar, que se chama justamente Novela de Xadrez – e, sim, tem que ver com o jogo de tabuleiro mais célebre do mundo mas não requer que conheçamos as regras em profundidade. Num navio de recreio com destino à Argentina, segue nada mais nada menos do que o campeão do mundo desta modalidade que, ao contrário do que seria de esperar, é uma criatura bruta, malcriada e até bastante bronca em tudo (excepto no xadrez). A sua presença arrogante a bordo acaba por levar a que um grupo de passageiros educados se defronte com ele (narrador incluído) numa partida de xadrez, mas apenas para experimentar uma rápida derrota; porém, num jogo de desforra, uma estranha figura aproxima-se e dá palpites certeiros que conduzem a um empate. Ora, quem é este homem que consegue empatar com o campeão do mundo e, segundo diz, já não via um tabuleiro de xadrez há vinte e cinco anos? A revelação que ouviremos da sua própria boca é, de facto, a melhor coisa desta novela – e prende-se com o nazismo e a tentativa de não enlouquecer. Mais não se pode contar.

Mudança de agulha

Este foi um ano diferente para a literatura. Quando o Man Booker International Prize, atribuído a escritores de língua inglesa de dois em dois anos, foi entregue à norte-americana Lydia Davis, isso foi o sinal de que alguma coisa tinha mudado. Lydia Davis, de quem ouvi falar pela primeira vez no fim do século passado pela boca de um jovem autor que então publicava e que fizera uma residência literária em Nova Iorque, na qual tomara contacto com a obra desta autora, escreve contos: contos que estão agora coligidos num grosso volume traduzido em português pela Relógio d’Água e que, frequentemente, não ultrapassam as duas páginas, podendo, aliás, ter apenas meia dúzia de linhas. Uma decisão assim corajosa abriu naturalmente caminho à suspeita de que o Nobel deste ano pudesse contemplar um ou uma contista; e, nas apostas feitas no Facebook em vários murais, o jornalista do Expresso José Mário Silva pôs todas as suas fichas no nome de Alice Munro e ganhou a jogada: a canadiana arrecadaria efectivamente, já depois dos 80 anos, o maior e mais prestigiado galardão literário de todos os tempos. Assim, com tão boas notícias para a história curta (estou, obviamente, a traduzir apressadamente short story), vamos lá ver se também aqui em Portugal começamos a abrir as portas aos livros de contos, que têm sido tratados ao longo do tempo, ou pelo menos desde Borges e Carver, como coisa de menor importância.

Poetas para todos

Para os extraordinários leitores deste blogue, que tantas vezes se queixam de que conhecem mal a poesia portuguesa, há agora uma forma de emendarem a mão. Na Faculdade de Letras de Lisboa, António Carlos Cortez, poeta e professor, vai dar um curso livre de poesia contemporânea – De Pessoa aos anos 60: Questões de Linguagem Poética – em horário pós-laboral (às terças, 18h30-20h00) entre 19 de Novembro e 6 de Maio. A entrada é livre e o preço bastante baixo, uma vez que, por estes seis meses de aprendizagem, os interessados pagam apenas 100 euros, o que equivale a 20 euros por mês, uma bagatela. Ao longo do curso serão lidos e estudados ritmos, construções, experiências vanguardistas e muito mais aspectos que «mapearam esses trinta anos de evolução poética em Portugal» (palavras do orientador). Entre os poetas, constam Pessoa (lá estão eles a sobrevalorizá-lo…), Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, Nemésio, Eugénio de Andrade, Sophia, Ramos Rosa e muitos outros menos conhecidos do público em geral, como, por exemplo, Armando Silva Carvalho. O programa completo no link abaixo. Para mais informações contacte o Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias pelo e-mail clepul@gmail.com ou pelo telefone 217920044.


 


https://www.wetransfer.com/downloads/46b262a2e7c35bff79607bc52135845320131031110207/33b26ddffd43e474a16433181d23434820131031110207/426360


 


 

Ora toma!

No ano de 1997, em que Portugal foi o país convidado da Feira Internacional do Livro de Frankfurt, trabalhei no escritório que organizou a programação do acontecimento. E lembro-me muito bem de que, ao elaborar a lista dos autores que se deslocariam àquele certame para leituras e mesas-redondas, a direcção e o comissário da literatura (havia outros comissários para as artes visuais e performativas, pois estavam previstos espectáculos e exposições por toda a cidade a par das sessões literárias) decidiram – e bem – incluir autores estrangeiros lusófilos (como o pessoano Antonio Tabucchi) e lusófonos, tendo a comitiva integrado Mia Couto, Germano Almeida e João Ubaldo Ribeiro, entre outros, representantes de pleno direito da literatura em língua portuguesa. Este ano, o Brasil foi, pela segunda vez, o convidado de honra da Feira de Frankfurt, e foram muitos os escritores brasileiros presentes na Alemanha. Portugueses na comitiva não havia. Nada contra. O discurso de abertura, na voz de um autor de peso – Luiz Ruffato, cuja vida lembra um pouco a de Lula da Silva, porquanto foi também um operário de origem extremamente humilde –, foi, de resto, bastante crítico do colonizador branco, que terá dizimado as tribos de índios e estuprado as escravas vindas de África, produzindo uma população mestiça que continua até hoje na base da pirâmide social. Razão para dizer: Ora toma, que já almoçaste... O discurso sobre a desigualdade naquela que é hoje a sétima economia mundial prossegue, apontando o dedo a muita gente – e vale a pena lê-lo, até pela peça literária que é. Deixo-vos, pois, o link.




http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,leia-a-integra-do-discurso-de-luiz-ruffato-na-abertura-da-feira-do-livro-de-frankfurt,1083463,0.htm



O que ando a ler

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Um autor russo é um autor russo é um autor russo. Abri o mais recente romance de Vassili Grossman publicado em Portugal – Tudo Passa – e, de repente, estava lá Tólstoi, Dostoiévski, Turgueniev e muitos outros, porque os russos têm uma espécie de denominador comum que os irmana literariamente, não importa quantos anos separem efectivamente as suas obras. Tudo Passa é um livro absolutamente terrível sobre um homem – Ivan Grigórievitch, muito provavelmente um alter-ego do autor – que passa trinta anos num Gulag da Sibéria, donde sai após a morte de Estaline para descobrir que, afinal, nada se alterou. Vemo-lo chegar de comboio do campo de trabalhos forçados, onde acreditou que a noiva teria morrido por ter subitamente deixado de lhe escrever, e apreender junto de um primo que, afinal, ela se casou com outro homem. Mas a esta revelação dura e inesperada vão somar-se dúzias de outras não menos chocantes, que se prendem sobretudo com a facilidade com que todos se tornaram informadores, denunciantes, egoístas, medrosos e escravos no período mais negro da história da União Soviética, prejudicando pais, filhos e cônjuges para salvarem a pele, numa cegueira absolutamente cruel. Afastando-se dos que pensava seus amigos, Ivan instalar-se-á na casa de uma mulher – Anna Sergueévna – e apaixonar-se-á estranhamente por essa ex-activista do terror durante a Grande Fome da Ucrânia, cujas memórias – a parte deste livro que mais me impressionou – são a confissão de um extermínio planeado pelo Estado Soviético que ceifou a vida a milhões de camponeses. Com muitos pontos de contacto com a obra de Herta Müller que referi ontem no meu post, este romance estava ainda a ser trabalhado por Grossman quando este morreu, em 1964, num hospital de Moscovo, convencido de que, pela crueza do que contava, nunca viria a ser publicado. Um grande livro para se valorizar a liberdade.