As mulheres dos escritores

As mulheres dos escritores não têm uma fama por aí além – e, se passam a viúvas, a coisa tende a piorar. Ouço esta tirada muitas vezes e sei quase sempre em quem estão a pensar os que a dizem. Claro que há histórias reais de viúvas que se apropriaram das palavras escritas pelos maridos em guardanapos de papel e tentaram ganhar dinheiro com elas; de outras que nunca mais largaram as editoras com exigências; de uma ou duas que bateram o pé e não deixaram tirar o acento grave nos advérbios acabados em «mente» porque era assim que os falecidos tinham escrito no tempo deles; e ainda das que inventavam que eram as musas dos escritores quando o mundo inteiro sabia que o casal dormia há anos em quartos separados. Sim, acredito nestas excepções, mas quantas mulheres e viúvas haverá das quais nunca saberemos a existência – discretas, recatadas, silenciosas? E quantas serão pessoas normalíssimas, que não correspondem minimamente ao figurino de «mulher de escritor» do nosso imaginário? O Manel conta que conheceu a mulher de um escritor que levava o tricô para as conferências do marido e fazia malha enquanto o ouvia; e outra que se levantava a meio da noite, acordada pelo telefone, e se metia no carro para ir buscar o marido que, de tanto beber, não conseguia voltar para casa sozinho... Conheci uma senhora – lindíssima, por sinal – que era escritora e mulher de escritor. Pois o pior que os jornalistas podiam fazer-lhe era falar-lhe do marido...

Comentários

  1. Ah, pois, que falta faz a bisbilhotice institucional!... Eu também fico muito impressionado quando vejo certos homens públicos (escritores e outros, incluindo candidatos a Chefe de Estado) a brandirem as suas mulheres quando sei que a realidade é, ou já foi (e tudo pode ter sido perdoado...), outra. Não é que seja essencial, claro, saber-se que um dado autor anda pelos bares e pelas camas de algumas das suas admiradoras (que não leitoras, necessariamente) enquanto a mulher o espera (ou não) em casa. E de admiradores também. E isto anos a fio. Mas o não se saber permite a exibição de muitas virtudes públicas quando parte da população mais informada sabe que são de maior monta os vícios privados (e semi-públicos). E a hipocrisia é uma coisa tão feia...

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  2. Eu protesto contra o facto de, talvez, 70 a 80% dos escritores serem homens. Penso que terá a ver com a falta de tempo. Qual é a mulher que se pode dar ao luxo de se isolar horas a fio num escritório, alheada da vida familiar? Infelizmente, ainda se acha mais natural proporcionar condições dessas aos homens...

    Espero, um dia, ver um post deste género, intitulado: "os maridos das escritoras";)

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  3. Muito bem, curioso comentário e com enorme validade facial.

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  4. Sou daqueles que separam a obra do homem ou mulher que a produziu. E, sobretudo, da mulher ou do homem com quem vive ou viveu. Mais: um grande artista pode nem sequer ter história (Homero, Camões, Shakespeare, Pessoa...) Como escreveu O. Wilde, "Os únicos artistas que eu conheci e que se mostraram encantadores como pessoas, são todos maus artistas. Os bons artistas existem unicamente naquilo que fazem, pelo que são completamente desinteressantes como pessoas."

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  5. «Conheci uma senhora – lindíssima, por sinal – que era escritora e mulher de escritor. Pois o pior que os jornalistas podiam fazer-lhe era falar-lhe do marido...»
    Lindíssima e uma grande escritora

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    1. Leonor, se a pergunta se dirige a mim; «Tanta Gente, Mariana», edição de bolso da Arcádia que conservo com carinho

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    2. Também pensei que se estivesse a referir a Maria Judite de Carvalho, que foi casada com Urbano Tavares Rodrigues

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  6. o título também podia ser "os homens dos escritores"...

    que também se apropriam da "obra", acho que não fazem é tricot, pelo menos em público.

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  7. E ainda há aquelas que, mais ou menos discretamente, estão sempre presentes nas entrelinhas dos seus maridos. Lembro-me do exemplo actual de Pilar del Rio e de Regina Kasprzykowsky, muito na sombra mas também muito importante na vida e obra de Vergílio Ferreira.

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