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A mostrar mensagens de março, 2013

Escola-Benetton

Quando escrevia livros juvenis (e quantas viagens ao estrangeiro fiz à conta deles, que tão bem se vendiam nesses tempos...), visitava regularmente escolas para conversar com os leitores de palmo e meio, umas vezes genuinamente interessados e preparados para esse encontro, outras vezes apenas barulhentos e irrequietos, nunca ouvindo as perguntas dos colegas e repetindo-as a cada dois minutos, levando-me a concluir que o professor queria era uma folga durante o tempo em que eu estivesse na escola e nada se dera ao trabalho de preparar com os alunos. Mas foi literalmente uma volta a Portugal e uma viagem em vários tempos, no decurso dos quais iam mudando sobretudo os nomes das crianças que pediam autógrafos no final das apresentações de Carla, Sandra, Igor e Ivan para Marias, Joanas, Pedros e Joões (como quando eu era pequena). Deixei de ir a escolas há bastante tempo, seja porque os meus livros passaram de moda e há outros mais interessantes para os miúdos de agora (desde que leiam, não me queixo), seja porque também disponho de menos tempo. Recentemente, porém, aceitei um convite para estar com duas turmas de alunos em Sesimbra (fui à hora do almoço e antes das cinco já estava de volta ao trabalho) e, ao olhar aquelas carinhas que tinha à frente, senti-me num anúncio da Benetton. Em primeiro lugar, porque havia bastantes crianças orientais (chinesas, por certo, mas também uma japonesa), o que dantes não acontecia. Depois, porque os loiros eram muito mais (e não do Norte de Portugal, mas do Norte da Europa: ucranianos, moldavos, russos). Por fim, porque filhos de africanos nascidos em Portugal também são já em número considerável e com vários matizes. Resultado: gostei. Sempre achei que nas turmas que frequentei em miúda éramos todos demasiado feios e parecidos, e assim sempre se quebra a monotonia!

A Figueira dá figos

O mais recente vencedor do Prémio LeYa – Nuno Camarneiro –, de quem publiquei em 2011 um primeiro romance intitulado No Meu Peito não Cabem Pássaros, é um escritor nascido, como João de Barros, na Figueira da Foz. Quando pus pela primeira vez os olhos na sua biografia, pensei que seria o único escritor contemporâneo figueirense que conhecia, mas logo me desenganei. A verdade é que Afonso Cruz, um outro romancista (e não só) talentosíssimo, de cujos livros já aqui falei (e que venceu recentemente o Prémio da União Europeia para a Literatura com o livro A Boneca de Kokoschka), é igualmente oriundo daquela bela cidade. Há umas semanas, descobri que a escritora e tradutora Maria Manuel Viana (cujo último livro é O Verão de Todos os Silêncios) era, do mesmo modo, uma filha da Figueira da Foz. E bem assim Gonçalo Cadilhe, o escritor de viagens que começou por descrever nos jornais as suas andanças e hoje tem um público fidelíssimo para os seus vários títulos publicados. Esta Figueira dá figos, está visto. E não só na literatura: tanto João Mário Grilo como João César Monteiro são de lá…

Compra-Venda

No mundo inteiro, como dizia o nosso querido Padre Vieira, os peixes grandes comeram os peixes pequenos. Falo, embora não pareça, de edição. Grandes casas editoriais compraram editoras interessantes mais pequenas e somaram-nas a outras, construindo verdadeiros impérios. Mas não só: às vezes a compra partiu de indústrias que nada tinham que ver com os livros – como em França, por exemplo, onde uma empresa originalmente ligada às águas, a Vivendi, se tornou proprietária de muitas editoras, entre as quais a Belfond, as Presses de la Renaissance, a Plon, a Larousse e a Nathan. Diz-se que, quando assim é, o que os novos proprietários desejam é engordar o porco para o vender mais à frente... O problema é que, para poderem recuperar o investimento, sacrificam muitos autores que não vendem assim tão bem e os substituem por sucessos importados, que vendem imenso no ano de lançamento mas uns anos depois já ninguém sabe o que são (quem se recordará daqui por cinco anos de Ronda Byrne e O Segredo?). Só que, para vender o porco gordo, não importa apenas a conta bancária, mas também o relevo dos autores que constam do catálogo – e, com esta dinâmica, o catálogo esvazia-se em três tempos. Fará então sentido deixar de publicar autores que vendem lentamente, mas pingam sempre, e substituí-los por sucessos-relâmpago, descaracterizando as chancelas e tornando os catálogos um imenso vazio? Francamente, acho que não.

A escritora e o soldado

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Falei-vos há tempos de que, neste ano, iria ter duas boas escritoras na minha lista (mulheres, pois!). O romance da primeira, Cristina Drios, acaba de sair e vale mesmo a pena ser lido. Fala-nos, em dois tempos distintos, de uma escritora cansada do seu casamento que toma a descoberta da fotografia de um avô desconhecido – e fardado – como pretexto para escrever um livro e se afastar da rotina; e da sua personagem, Mateus Mateus, um homem estranho e corpulento, aparentemente insensível, que fez parte do contingente português que combateu em França durante a Primeira Guerra Mundial. Mas, muita atenção, apesar de a História ser cenário, este não é decididamente um romance histórico. Porque o que aqui interessa não é o destino dos combatentes nem as circunstâncias da guerra, mas a densidade psicológica dos intervenientes na narrativa – o avô-soldado, a enfermeira que enviuvou antes de se casar, o médico alemão, o órfão que sabe truques de ilusionismo e faz aparecer ovos para os pudins, o militar albino que serve de cobaia a estranhas experiências freudianas e, obviamente, a própria escritora, que os faz caminhar numa história profundamente original, na qual também ela é várias coisas ao mesmo tempo. Finalista do Prémio LeYa em 2012, Os Olhos de Tirésias é um romance muito maduro para quem só recentemente começou a escrever para os outros, uma obra de análise psicológica com assinalável profundidade e uma boa promessa para o futuro.


 


Blimunda e Eu

Nas últimas Correntes d’Escritas, fui convidada a dissertar sobre um verso de um dos poetas finalistas do Prémio Correntes d’Escritas-Casino da Póvoa, José Agostinho Baptista. O verso era «Desse país arranquei todos os cravos» e usei-o como ponto de partida para um texto sobre as razões cómicas e trágicas que me tornaram leitora e escritora. Muita gente que lá estava (e outros que não estavam) me tem pedido que o publique aqui no blogue, mas as Horas Extraordinárias não são o sítio indicado, quanto a mim, para postar textos assim longos e com objectivos específicos. Eis senão quando a jornalista Sara Figueiredo Costa me pede que a deixe publicar o texto na revista Blimunda, da Fundação José Saramago, num número dedicado às Correntes. Assim, ficou tudo mais fácil e limpo. Até porque a Blimunda tem muito mais que ler para além do meu texto e assim saímos todos beneficiados. O link, para os curiosos, aí vai. O download é grátis.


 


http://www.scribd.com/doc/131230713/Blimunda-N-%C2%BA-10-marco-2013

Dia da Poesia

Hoje é Dia da Poesia em Portugal e, por esse País fora, multiplicam-se as sessões de leitura poética com presença de autores ou dedicadas a poetas já desaparecidos. Dedico também hoje, por isso, o meu post a livros de poesia recentemente postos a circular nas nossas livrarias. O primeiro é uma reedição de O Problema da Habitação, de Ruy Belo, originalmente publicado em 1962 e agora prefaciado pelo também poeta (e professor universitário) Fernando Pinto do Amaral, que o considera um dos mais marcantes do autor, no qual se responde, numa dezena de textos (sete longos e três mais curtos), à interrogação sobre o papel que o homem desempenha neste mundo. O segundo é uma novidade. Trata-se de Fogo, o mais recente livro de poemas de Gastão Cruz, cujo texto inicial aqui reproduzo. Para festejar.


 


Há dias em que em ti talvez não pense


a morte mata um pouco a memória dos vivos


é todavia claro e fotográfico o teu rosto


caído não na terra mas no fogo


e se houver dia em que não pense em ti


estarei contigo dentro do vazio

Granta

A Granta é uma reputadíssima revista britânica que, desde 1983 e uma vez em cada década, lança um número especial dedicado aos autores que constituem as verdadeiras promessas literárias do futuro. Muitos dos escritores anglo-saxónicos que hoje são consagrados apareceram nestes números especiais quando ainda ninguém sabia as boas surpresas que nos reservavam (o primeiro que me ocorre, da primeiríssima leva, é Martin Amis). Em 2003, por exemplo, lembro-me de que Alan Hollinghurst estava entre as promessas da Granta – e, como ele, Monica Ali e David Mitchell. O número de 2013 está quase a chegar (suponho que em 15 de Abril) e será seguramente um bom termómetro da nova literatura britânica. Saíram também números dedicados aos romancistas com menos de 40 anos nos EUA – e Jonathan Safran Foer, que já aqui mencionei a propósito de dois romances (Está Tudo Iluminado e Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, ambos adaptados ao cinema) foi um dos escolhidos; depois foi a vez da literatura de língua espanhola e da literatura brasileira. Mas, além dos números especiais, a revista sai regularmente com um tema específico, à volta do qual se publicam textos de ficção e não-ficção de autores de vários países. E tudo leva a crer que em breve teremos a nossa própria Granta, dirigida pelo jornalista Carlos Vaz Marques e publicada pela Tinta-da-China, pois o anúncio já foi feito por ambos. Se quiser, pode desde já tornar-se assinante. A Granta portuguesa até já tem uma página no Facebook.

Autopublicar

Em Portugal, ainda não é significativo o número de autores que se autopublicam e, sobretudo, ainda não é de modo nenhum mensurável o sucesso que alcançam com os respectivos livros. Às vezes, há textos que se destacam em blogues e as editoras tradicionais contactam os seus autores com vista à publicação de um livro em papel, mas, na generalidade, nenhum editor (e faço aqui o meu mea culpa) está suficientemente atento aos livros autopublicados digitalmente e anda à procura de autores nesse espaço infindo que é a Internet (falta de hábito e falta de tempo, diria eu). Noutros países, porém, essa prática é comum (nos países anglo-saxónicos, sobretudo) e as fatídicas 50 Sombras de Grey são apenas um de muitos exemplos de obras autopublicadas, e posteriormente descobertas por grandes editoras, que atingiram níveis de sucesso incalculáveis. Pensava que todos os escritores que se autopublicam queriam, no fundo, chegar um dia a ser publicados por uma chancela de renome. Leio, porém, num site de notícias sobre edição digital que nem todos procuram o reconhecimento que uma editora consolidada lhes pode oferecer, uma vez que se sentem confortáveis por controlar em tempo real as vendas dos seus livros e receber, se for o caso diariamente, os proveitos delas decorrentes. Têm igualmente a ideia de que, sendo os únicos proprietários dos direitos, estão livres de baixar o preço quando bem o entenderem se, por exemplo, verificarem que a obra não está a ser comprada – o que, de modo nenhum, poderiam fazer se a editora tivesse fixado ela própria um preço (menos ainda se nesse país houvesse a lei do preço fixo). Julguei que era importante para os escritores o reconhecimento do interesse e da qualidade dos seus livros por alguém reputado; mas, pelos vistos, neste mundo de números em que vivemos, o dinheiro conta mais...

Uma vida nos livros

Leio no blogue de um amigo espanhol editor e escritor, Adolfo García Ortega, uma história belíssima de uma chilena, Susi Armendáriz, que, vivendo perto do Cabo Horn, apenas conseguiu ver o seu farol aos noventa anos, pois desde pequena que praticamente não saía da aldeia onde nascera. Aos dezoito anos, foi para casa de uma senhora rica e cega ler-lhe diariamente romances, onde ficou até aos trinta e quatro, altura em que a patroa morreu. Mas poucas semanas depois ofereceram-lhe um novo emprego como leitora noutra casa próxima. Desta feita, a senhora não era tão rica, mas estava também cega, e foi com ela que passou os quinze anos seguintes, lendo continuamente. Aos sessenta e sete anos, Susi fizera da leitura em voz alta a sua única profissão e, quando a nova patroa morreu, conseguiu outros trabalhos do mesmo tipo até ser ela própria muito velhinha. Nos últimos tempos em que trabalhou, já nem sequer lia, repetindo à sua maneira as histórias que conhecia desde a juventude. Quando praticamente cegou, contava a si mesma essas histórias, como se fossem recordações da própria vida, acabando por confundir a realidade com a ficção: sem ter saído da sua aldeia, acreditava que já estivera em muitos locais que serviam de cenário aos romances que lera e que protagonizara muitos dos episódios ali contados. Quando, aos noventa anos, a levaram finalmente a ver o farol do Cabo Horn, essa foi a sua última recordação.

Ser feliz

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Daqui por uns dias comemora-se o Dia Mundial da Felicidade – e é por isso uma boa altura para ler o novo ensaio de Miguel Real, escrito no seguimento de Nova Teoria do Mal, que foi publicado no ano passado e acendeu a polémica. Nova Teoria da Felicidade não é menos controverso, tendo em conta que aponta mais uma vez o dedo a uma classe política enriquecida à custa de benesses e subsídios, que manda os jovens emigrarem e acentua diariamente as desigualdades sociais, chamando «piegas» aos Portugueses. Miguel Real, num estudo filosófico sobre a felicidade – isso que todos buscamos incansavelmente –, reflecte sobre o poder, o desejo, a necessidade e o prazer em cerca de centena e meia de páginas e acusa uma classe dirigente de chicos-espertos, oportunistas e carreiristas de impedir a realização pessoal dos outros e, consequentemente, a possibilidade de esses serem felizes. Revisitando os filósofos antigos e as suas teorias, esta é também uma obra sobre o presente e, por isso, ainda mais imperdível e oportuna.





Narrativa em suspenso

Há muitos anos, ainda na Temas e Debates, publiquei um autor das Bermudas, cujo romance – Se Ninguém Falar das Coisas Maravilhosas – fora finalista do Booker e arrebatara dois prémios importantes. O escritor chamava-se Jon McGregor e construía uma narrativa em permanente suspensão que, desde as primeiras páginas, nos avisava de uma ocorrência que só no desfecho se esclarecia. É assim também o romance que tenho agora em mãos – O Dia de Amanhã, de Ignacio Martínez de Pisón (de quem já li outras obras, entre as quais Maria Bonita, uma pequena maravilha). Neste, falam muitas vozes e todas elas sobre a mesma personagem controversa – Justo Gil, um pobretanas ambicioso muito ligado à mãe, que sobe na vida de formas supostamente ínvias e trama, claro, muita gente. E digo «supostamente» porque são suposições o que os relatos sempre nos oferecem, pistas, avisos, venham eles do tipo que deu a mão a Justo quando ele chegou a Barcelona com uma mão à frente e outra atrás, da rapariga que foi sua sócia num pequeno negócio e ele deixou cheia de dívidas ou mesmo da colega de trabalho que tem um fraquinho inconfessado por ele mas os olhos bem abertos às suas manigâncias. Brilhante retrato de uma figura através de olhares alheios, esta é também uma história da Espanha nos anos 1960 e 1970, mais atraente porque, entre Franco e Salazar, as semelhanças são, apesar de tudo, bastantes e não conseguiremos deixar de nos rever em muita coisa. A tradução – muito boa – é de Maria Manuel Viana.

Retrato de época

Sou muito pouco televisiva e, em minha casa, quando a caixinha está acesa, é normalmente a Sport TV que impera... Não me importo muito, porque o ruído de fundo do futebol não me perturba por aí além e posso ler um livro ao mesmo tempo que o Manel vê os jogos e, de vez em quando, já nervoso, dá uns pontapés no ar. Havia, porém, uma série que gostava muito de ver aqui há um ou dois anos. Chamava-se Conta-me como Foi e fora escrita, entre outras pessoas, por uma guionista que muito admiro (e de quem sou amiga, convém que se diga) – Helena Amaral –, tendo como consultora outra Helena (esta Matos), que fez ali um trabalho excepcional de reconstituição de época. Provavelmente, essa pesquisa foi o princípio de uma investigação mais demorada para um livro que acaba de sair – Os Filhos do Zip-Zip –, centrado no Portugal dos anos 70 do século passado. Quem se lembra do Zip-Zip, um programa que mudou a forma de ver televisão em Portugal, conduzido por Carlos Cruz, Fialho Gouveia e Raul Solnado, sabe que estou a falar de uma aventura televisiva que mobilizou milhares de espectadores ao longo do período em que foi emitido, tanto pelo divertimento como pelo lado polémico e transgressor. Este livro parte, pois, dele para nos oferecer um relato das mudanças que então se verificaram no País, desde a ida de muitas famílias para os arredores, as tertúlias nos cafés, o aparecimento dos primeiros supermercados, as músicas, os anúncios e os brinquedos como o Lego. A minha geração agradece a lembrança. Ainda não li, mas já o tenho em casa.

Generosidade

Estivemos privados ao longo de séculos de traduções de muitos clássicos gregos (e latinos) e só há relativamente pouco tempo pudemos dispor de um trabalho sério, rigoroso e, ainda por cima, belo das obras de Homero, que são donde vem toda a literatura ocidental. Considero de uma enorme generosidade que um autor de prosa e poesia que podia dedicar a vida às próprias obras – o dotado e reputado Frederico Lourenço – se tenha atirado de cabeça e coração à enormíssima tarefa de traduzir, entre outras coisas, A Ilíada e A Odisseia e de nos oferecer essas suas traduções competentes e luminosas. Provavelmente, se não fosse a sua mão milagrosa, eu nunca teria lido estes dois livros fundadores em língua portuguesa; e, embora um número respeitável de tradutores se tenha dedicado a Ovídio, Catulo, Séneca e  muitos outros autores clássicos, a verdade é que poucos entre eles eram também escritores. Tenho um grande respeito por esta mão capaz de maravilhas e o post de hoje serve para lhe agradecer o acto generoso de partilha com os leitores portugueses, certamente mais ignorantes sem o seu trabalho.

Formiguinhas

No último dia das Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim, tive o gosto de ir ao palco receber um prémio de Design de Obra para Livro Escolar. O livro premiado – Mãos à Obra, da disciplina de Educação Tecnológica – é editado pela LeYa, mas infelizmente nenhum dos meus colegas das edições escolares, incluindo o director gráfico, Luís Alegre, podia deslocar-se à sessão de entrega, e fiquei orgulhosa por terem delegado em mim a incumbência. Admiro muito o que se faz hoje na edição de manuais (quando eu estudava, os livros eram tão feios e frios que nem apetecia estudar) e não raro observo como os seus editores são autênticas formiguinhas, tentando cumprir os prazos que, se falham, podem deitar a perder o trabalho de um ano inteiro. Dantes, tanto quanto sei, os autores de manuais estavam dispensados de dar aulas, mas agora têm de cuidar dos alunos e dos livros ao mesmo tempo, o que não deve ser nada fácil. Isso provoca naturalmente um stress danado também em quem os publica, pois há datas específicas para apresentação dos novos livros aos docentes e, se os autores se atrasam, é fácil que outros editores consigam chegar-se à frente e ver os seus livros adoptados. Já aqui referi que tenho uma grande admiração pelos colegas que trabalham na área escolar e reafirmo-o. Esta é a época em que vejo as formiguinhas saírem da toca, sempre rodeadas de provas e papelada, sempre em reuniões com professores, sempre de portáteis abertos exibindo páginas que ainda não são as finais. Têm pouco tempo para tanto… Nem os meninos imaginam, ao abrir os livros na sala de aula, o trabalho que tudo aquilo dá.

Situacionismo

Algumas publicações, nomeadamente o Jornal de Letras (mas também um artigo de Eduardo Pitta na revista Ler) têm dedicado várias páginas inquirindo escritores sobre a situação actual e querendo saber como vai ela influenciar as suas obras. Sendo os escritores, antes de mais, cidadãos como toda a gente, é natural que a sua vida se veja afectada pela crise e pelo desinteresse a que este governo tem votado as artes e as letras – e isso os leve a manifestações de repúdio e a concentrações de intelectuais (como aconteceu nas Correntes d’Escritas mais recentemente), nas quais exprimam as suas opiniões, por assim dizer, políticas. Mas isso não tem necessariamente de acontecer nas suas obras, que podem não reflectir nada do que se está a passar sem que, por isso, os achemos uns cobardes ou alheados. Quando comecei a trabalhar na edição, pude, com muito gosto, enquanto assistente editorial, acompanhar a publicação de algumas obras do saudoso António José Saraiva – e foi numa delas que li que é ao escrever que o escritor cumpre a sua obrigação para com a vida. O resto é cidadania – e é nela que não se pode demitir das suas obrigações.

O feitiço dos prémios

No dia 25 de Fevereiro, fiz um post sobre a sessão dos prémios anuais da Sociedade Portuguesa de Autores, vulgo SPA, que teve transmissão directa pela RTP. Eu tinha dois autores a concurso na categoria de ficção e fiquei felicíssima com a vitória de Miguel Real, pois já fora nomeado doutra vez, mas preterido. Senti-me contente por ele e por mim, acreditem, até porque o romance que leva o galardão, O Feitiço da Índia, foi um dos que mais gozo me deu publicar no ano que passou. Conta a história de três homens de três gerações numa Índia que trazemos no coração e na memória – homens que se deixaram encantar por um país de gente simultaneamente exótica e simples e, claro, pelas suas mulheres (todas chamadas Rhema). Porém, desde os Descobrimentos até aos anos 1970, há muitas aventuras e surpresas que o enredo reserva – algumas bastante cómicas, outras realmente estranhas e inesperadas; e, com a ironia a que nos habituou, Miguel Real oferece-nos o retrato fascinante de Goa e da costa do Malabar em épocas profundamente marcantes da sua história. O escritor prepara agora um romance sobre Macau. Estou desejosa de saber o que aí vem…

A maldição dos Cobra

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Já aqui falei certamente dos livros de autores portugueses que iria lançar em 2013 e chegou a hora de me alongar um pouco mais sobre Os Demónios de Álvaro Cobra, o romance que, em 2012, ganhou – com toda a justiça – o Prémio Literário Cidade de Almada. Escreveu-o Carlos Campaniço, um autor nascido alentejano que, morando actualmente no Algarve, nada perdeu das suas raízes, colocando como cenário do romance uma aldeia chamada Medinas que tem muito do nosso Alentejo. Em Medinas vive o protagonista, Álvaro Cobra, um lavrador que tão depressa é tido por santo como por demónio, homem corpulento que atrai fenómenos sobrenaturais, entende os animais e ouve a terra girar sobre si própria. Com ele na mesma casa moram uma bisavó velhíssima e aparentemente eterna, uma mãe com mãos de dois tamanhos distintos (que faz com elas coisas diferentes e ao mesmo tempo), uma irmã acometida de febres que às vezes incendeiam os lençóis e um filho que será o protagonista de uma funesta história de amor. Porém, para além desta família curiosa, a extensa galeria de personagens inclui judeus, árabes e cristãos às turras, uma dona de um bordel ambulante e muitas outras ainda mais deliciosas que lembram o realismo mágico latino-americano mas são, simultaneamente, completamente portuguesas. A ler, absolutamente.


 


Ofendido

As literaturas têm, normalmente, marcas de nacionalidade, mas há sempre casos de romances que se aproximam mais da literatura de outros países do que do país em que foram escritos. É este o caso das obras de Gonçalo M. Tavares, por exemplo, que a crítica diz terem um cheirinho a Europa Central – e o mesmo acontece com A Ofensa, de Ricardo Menéndez-Salmón que, sendo espanhol, também recorda numa certa secura as obras de Tavares e de autores alemães, húngaros ou polacos. Kurt, o protagonista, seria o herdeiro do negócio de alfaiataria da família se a guerra não tivesse eclodido (falo da Segunda Guerra Mundial), levando-o para longe de casa e de uma namorada que não voltará a ver, porque é judia – e, aos judeus, sabemos o que aconteceu nessa época. Muito contido e brilhantemente escrito, este é um romance sobre como pode a visão do horror afectar o corpo de um soldado que, de repente, deixa de entender a própria língua e a vê como idioma hostil e ininteligível. Excelente para umas horas livres (é um texto curto), deixa-nos a pensar durante muito tempo.

Teimosia

Quando eu era pequena, chamavam muitas vezes aos teimosos cabeçudos – mas às vezes é bom ser-se teimoso, por exemplo, para fazer com que os nossos jovens leiam sem a desculpa de que os livros não lhes chegam às mãos. Assim pensam Rui Andrade e Raquel Salgueiro, dois cabeçudos que criaram uma livraria itinerante dentro de uma carrinha, inspirados nas velhinhas bibliotecas que a Gulbenkian pôs a andar por esse país fora nos anos 70 e que tantos leitores fizeram em localidades que não tinham como chegar aos livros. A iniciativa chama-se justamente Cabeçudos e esteve na semana passada na Azambuja com a companhia das editoras Planeta Tangerina e Orfeu Negro, que têm títulos belíssimos, incluindo o recentemente premiado Achimpa, de Catarina Sobral. Mas haverá muitas outras paragens noutras datas, com a cumplicidade de escritores, ilustradores, contadores de histórias e outros, em escolas, bibliotecas e outros locais, públicos e privados. O Plano Nacional de Leitura aplaude e apoia. Nós também. A teimosia, nestas coisas, dá sempre bons resultados.

O que ando a ler

Sabia que era um dos livros favoritos de um dos meus autores, mas ainda não tivera possibilidade de lhe pegar sequer por falta de tempo. E, numa noite destas, para descansar de uns escritos que me estavam a fazer fumar demais, subi ao escadote e fui retirá-lo da estante do Manel (que, de resto, o publicou). Falo de Os Soldados de Salamina, de Javier Cercas, um notável romance sobre um jornalista que, depois de várias tentativas frustradas, desiste da literatura, mas acaba por encontrar um dia um excelente tema para regressar à escrita: a história de Sánchez Mazas, um dos fundadores da Falange – intelectual com vários romances publicados – que escapou a um fuzilamento durante a guerra de Espanha (mostrava os buracos da metralha nas calças) e viveu vários dias escondido num bosque onde um soldado inimigo lhe poupou a vida e várias pessoas do campo o ajudaram a sobreviver. Chegou a ministro de Franco, mas depressa se desinteressou da política (o fascismo que idealizara era bastante diferente do praticado pelo Generalíssimo) e a sua vida merece, de facto, ser conhecida, pois, entre outras coisas, é uma belíssima aventura literária. Cercas, entre o relato e a ficção, é um mestre a narrá-la. Ainda não sei aonde acaba a história, mas já tenho a certeza de que o meu autor tem muito bom gosto.