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A mostrar mensagens de junho, 2012

A queda dos mitos

Antes de trabalhar neste ramo, pensava que todas as editoras ocupavam grandes espaços nos quais, para além dos escritórios, funcionava uma gráfica que imprimia os livros. Conhecia o edifício da Europa-América, na estrada para Sintra, e aquele monstro ali plantado era a minha única referência, desconhecendo a localização das outras editoras cujos livros comprava. Depois descobri que essas funcionavam quase todas em andares alugados em Lisboa ou no Porto, com mais ou menos divisões assoalhadas, mas geralmente tendo fora da sede o armazém e encomendando a gráficas que não lhes pertenciam o trabalho de impressão. Hoje, com os gigantes LeYa e Porto Editora, as coisas aproximam-se bastante mais desse meu delírio juvenil, pois para juntar muitas editoras são realmente necessárias instalações amplas – e, mesmo assim, quase toda a gente trabalha em open space, reduzindo-se significativamente os metros quadrados que antes compunham gabinetes, fossem estes individuais ou partilhados. Mas também o mito de que o editor era alguém que tinha lido tudo e não poderia ser surpreendido com um autor que tivesse passado debaixo dos olhos do discípulo caiu por terra assim que comecei a trabalhar. Claro que o meu então chefe me levava um bruto avanço em anos e leituras, mas, mesmo assim, talvez por termos tido formações académicas diferentes, desconhecia muitos autores que eu lera furiosamente – e não falo de jovens promissores ou escritores de línguas estranhas e países periféricos. É, por isso, uma grande satisfação para mim falar com os novos autores que publico sobre o que andam a ler, pois não só podemos trocar impressões sobre alegrias e desilusões comuns, mas também me acontece não tão raramente como isso ser convocada para determinado livro que nunca li ou até – o que é mais engraçado – descobrir que andamos a ler o mesmo livro (que eles estarão a ler com a idade certa e eu com anos de atraso). De um caso assim falarei, de resto, um dia destes.

Livros a mais?

Os livros são um problema para quem gosta muito deles e não lhes resiste. Numa crónica publicada no dia 17 de Junho no jornal Público, Miguel Esteves Cardoso contava que estava a mudar de casa e falava do trabalho que representava transportar os livros de um sítio para outro e arrumá-los, um por um, na casa nova. Pareceu-me que, ao olhar as pilhas no chão, pensava que, afinal, talvez tivessem razão aqueles que se renderam aos livros electrónicos e não se importam com o cheirinho do papel, os sublinhados ou o cantinho dobrado para marcar a página onde ficámos. Porém, ao mesmo tempo, percebia-se que não deixará nunca de comprar livros, apesar de ter muitos que certamente ainda não leu. No dia em que se comemorou o aniversário de Eduardo Prado Coelho, li na Casa Fernando Pessoa, numa sessão de homenagem, um texto seu que falava exactamente da sua ideia de biblioteca; e dizia o professor, entre outras coisas, que só se sentia realmente sossegado quando tinha tantos livros por ler quantos os que tinha lido – o que, no seu caso, queria dizer mesmo muitos. Em minha casa, embora haja muitos livros que ainda não lemos, não resistimos a comprar uma parte significativa dos que saem. Guardamos, ainda, livros que sabemos que nunca vamos reler. Serão livros a mais?

Romances da vida

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Aqui há tempos, num festival de escritores, o apresentador de um programa cultural da TV andava a angariar escritores e editores para dizerem, em mais ou menos meio minuto, qualquer coisa de jeito sobre um dos livros da sua vida. Ali à pressa, ocorreu-me em primeiro lugar O Amante, de Marguerite Duras, romance que li à saída da universidade, com o francês muito fresco e um fraquinho pela literatura francesa. Não era o primeiro livro de Duras que lia (estreara-me, efectivamente, com Moderato Cantabile, de que foi feito um filme com Jeanne Moreau, mas não vi), que me fora emprestado por um professor, depois de lhe ter dito que estava a gostar muito de O Silêncio, de Teolinda Gersão. Mas O Amante era uma leitura tão diferente, tão sedutora, tão refinada e com uma maldade tão irresistível que acho que mudou de certa forma a minha maneira de gostar de livros. Depois de um período de carência, o romance de Duras está de novo disponível no mercado português, agora editado pela ASA, na sua colecção Vintage. E, embora conheça alguns leitores que não se conseguiram afeiçoar à escrita da grande senhora francesa, tenho de aconselhar esta maravilha a todos os que ainda não a leram, porque, se gostarem, vão gostar muito, estou certa, e querer navegar em toda a magnífica obra (tantos livros tão bons) que espero venha a ser retomada pela chancela que referi. Até eu, que não costumo ter tempo para reler livros, estou a considerar a possibilidade de o fazer. Uma belíssima história de amor entre um par incompatível, este romance valeu a Duras o Prémio Goncourt, o mais importante galardão literário de França.


 


 


Pessoa apaixonado

Há pouco tempo, publiquei aqui no blogue um post sobre o presumível fim de toda a correspondência publicável (a maioria dos e-mails não o serão, tenho quase a certeza); e parecia de propósito, nesse mesmo dia chegava às minhas mãos o volume que reúne a correspondência trocada entre Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, editada por Manuela Parreira da Silva e publicada recentemente pela Assírio & Alvim, que tem vindo a dar à estampa toda a obra do grande Pessoa. Chama-se Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz e, portanto, tem a respectiva leitura qualquer coisa de acto coscuvilheiro, pois não se trata apenas de literatura, mas de um universo pessoal e literariamente despreocupado (quiçá até um pouco ridículo, já que, segundo o Campos heterónimo, todas as cartas de amor acabam por sê-lo) que nos deixa ver ou, pelo menos, pressentir como era o génio quando gostava de alguém a sério. Acho uma felicidade que as cartas que o «Fernandinho» escreveu a Ofélia tenham sobrevivido e chegado até nós, já que as da própria Ofélia (o «Bebé») estariam, naturalmente, nas várias arcas do poeta de que já ouvimos falar. E, mesmo que esta não seja a primeira edição da correspondência, a verdade é que as cartas de uma e do outro só haviam sido publicadas separadamente, o que estraga completamente a perspectiva do namoro, aqui assegurada pela publicação cronológica das epístolas. Deliciemo-nos, pois, com um Pessoa apaixonado e uma rapariga que confessa, logo a abrir, que só não saiu do escritório onde ambos trabalham (podendo ganhar noutro bastante mais) por causa desse homem que fez de Portugal um país maior.

Do velho se faz novo

Quando comecei este blogue, referi que ele serviria sobretudo para falar do que fosse lendo (as horas extraordinárias são essas); e, se alguma vez me referi ao que eu própria escrevi, acho que foi apenas para contar algum episódio à roda disso, e não para falar dos livros. Contudo, passei o fim-de-semana a ver as provas da minha Poesia Reunida e, como tal, não só me tornei leitora da minha própria obra (juro que já não me lembrava de ter escrito certos textos), como isso me impediu de escrever posts para o blogue, porque o tempo, infelizmente, não dá para tudo. Por isso, hoje os leitores do Horas Extraordinárias terão direito a um post simultaneamente egocêntrico e preguiçoso – mas, acima de tudo, feliz. É que os meus livros de poesia estavam fora de mercado há muito tempo, e ainda acho um milagre que a Quetzal os tenha querido publicar todos juntos! A edição sairá em Setembro (que é o mês em que nasci) e incluirá, além dos três títulos anteriores, um livro inédito chamado A Ideia do Fim. A abrilhantar tudo, um prefácio de Pedro Mexia. E em Setembro volto à carga, ouviram?

Fim à vista

Ao longo dos tempos, têm sido publicados muitos livros que incluem a correspondência trocada por famosos ou ilustres, sejam eles políticos ou escritores. Essas cartas permitem normalmente perceber a posteriori tomadas de posição ou decisões que passaram a fazer parte da História (as de Churchill, por exemplo) ou são «tão-só» belíssimas peças literárias que têm ainda o condão de satisfazer a nossa curiosidade sobre a vida pessoal ou as ideias dos seus autores. E, contudo, com o desenvolvimento das novas tecnologias, as pessoas deixaram positivamente de se corresponder, aproveitando as numerosas vantagens do correio electrónico, entre elas a rapidez com que chega ao destino. Mas isso mudou profundamente o uso da linguagem, tornando as nossas actuais mensagens, na generalidade, bastante pobres em estilo e vocabulário e fazendo desaparecer as velhas cartas e postais que trocávamos com a família, os amigos e os namorados. Não creio, enfim, que se possam vir a publicar os e-mails e SMS dos grandes homens e mulheres do mundo em substituição da antiga correspondência. Talvez os romancistas se dediquem então à epistolografia nas suas obras, mas as cartas ficcionadas não terão o mesmo interesse histórico e dificilmente satisfarão a nossa curiosidade relativamente ao carácter e às posições dos «remetentes»... Bem sei que a velocidade a que vivemos hoje nos obriga a um certo pragmatismo, mas tenho pena de que nada fique para a posteridade que valha realmente a pena reler.

Havia e há

Gosto de acompanhar os jovens – não me interpretem mal, estou a falar apenas de escritores e dos seus livros e, além disso, sou casada e gosto. Além disso, o jovem em quem estou a pensar agora é uma mulher, o que tornaria tudo ainda mais improvável, dando-se o caso de eu me sentir atraída, até ver, apenas pelo sexo oposto. Mas adiante: falo de uma jovem autora, nascida em 1982, que se estreou com um livro chamado Diálogos para o Fim do Mundo, vencedor do prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, da Câmara Municipal de Loures, em 2009 e publicado no ano seguinte pela Caminho; que agora reincide com um conjunto de pequenas ficções com o título Havia – a palavra com que começam absolutamente todas as histórias –, cuja capa é bastante original, pois reproduz parte de uma ficção do interior sobre – isso mesmo – a capa de um livro. Joana Bértholo, cuja biografia se inclui no volume como mais uma das muitas histórias, é uma cultora do absurdo e tem inteligência e talento suficientes para compor um leque apreciável de narrativas divertidas e modernas que se lêem de um fôlego e vêm acompanhadas das ilustrações de Daniel Melim, que também assina o posfácio (iniciado por «Havia», como não podia deixar de ser). Embora seja sempre difícil, num livro experimental deste tipo, que todos os textos tenham o mesmo nível, devo confessar que o equilíbrio é muito satisfatório e que a opção de fazer seguir cada uma das ficções de uma espécie de versão condensada e adulterada das mesmas – quantas vezes ainda mais mordaz – enriquece extraordinariamente a leitura. Havia… e há.

Uma casa para Saramago

No passado dia 13 de Junho – dia de Santo António e também de aniversário de Fernando (António) Pessoa – abriu ao público na Casa dos Bicos (onde funciona actualmente a Fundação José Saramago) uma exposição sobre a vida e a obra do único Nobel da Literatura português até ao momento. A exposição já tinha sido mostrada em Espanha, onde o escritor viveu durante muitos anos, podendo ser visitada agora em Lisboa todos os dias úteis entre as 10h00 e as 18h00 e aos sábados entre as 10h00 e as 14h00, sendo a entrada grátis durante todo o mês de Junho (a crise não serve de desculpa desta vez). Inclui muitos livros (quando vemos as edições estrangeiras das obras de Saramago ficamos realmente admirados com as línguas todas em que foi traduzido), muitos manuscritos, muitas fotografias, muitas agendas e outros objectos pessoais, enfim, muitas coisas através das quais se pode contar a vida de um escritor – desde as suas origens no Ribatejo aos dias de militância política e cívica – que, tendo começado mais tarde do que é habitual, nos deu uma obra grande em todos os sentidos. A exposição chama-se «José Saramago: A Semente e os Frutos», é comissariada pelo espanhol Fernando Gómez Aguilera e ocupa todo o primeiro andar da Casa dos Bicos. Dizem que está sempre cheia de visitantes, o que é bom sinal.

Ler canções

Gosto de separar poemas de letras, porque as letras, para se acomodarem ao espartilho da música e serem cabalmente entendidas no tempo que o intérprete leva a brindar-nos com a canção (depois, já não vale), acabam por enfermar de uma simplicidade (ou de um simplismo) que nada tem que ver com a poesia (tantas vezes cheia de nós e laços para desatar). Contudo, existem autores de letras que são escritores fenomenais, sabendo não só meter as palavras na música, mas também dar ao conjunto uma profundidade e uma grandeza que só os maiores poetas às vezes atingem. Considero Chico Buarque um deles – mas há mais – e o tema deste post surgiu num domingo extremamente bem passado, que começou com um sushi de qualidade numa esplanada lisboeta à hora de almoço e terminou num jantar regado a canções do génio brasileiro, que ando a coleccionar em CD vendidos com o jornal Público a preço amigo, porque não tinha tudo e os discos em vinil ficaram, provavelmente, em casa da minha mãe – se é que eram meus, e não de um dos meus irmãos. E, depois de ouvir quase tudo, nem é assim tão estranho que Chico Buarque se tenha posto a escrever romances (acho que já aqui falei sobre Leite Derramado; senão, tenho gosto em fazê-lo) porque já era escritor antes disso. Basta ouvir Meus Caros Amigos com toda a atenção para perceber que as letras são uma literatura pegada, sendo a música um poema igual ou melhor. Olhos nos Olhos é uma das minhas preferidas deste cantautor. Aos domingos, depois de tanto livro, também sabe bem ler canções.

Viver, viver

Todos conhecemos pessoas que apetece abanar, lentas e permanentemente adormecidas; mas também já estivemos certamente com o oposto, gente que não se cala um segundo, que nos está sempre a interromper e a puxar pela roupa, que não pára de ter ideias e acaba por se tornar cansativa. A personagem do livro de que hoje falarei, Joana, se fosse uma pessoa de carne e osso das nossas relações, estou certa de que nos fascinaria terrivelmente tanto pela sua franqueza como pelo seu mistério, mas daria cabo de nós de alguma maneira, pelo menos como vai dando cabo de si e de todos ao longo da narrativa. Estou a falar da protagonista de Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector – um magistral romance da brasileira que nasceu na Ucrânia, mas sempre considerou o Brasil a sua pátria, escrito quando pouco passava dos vinte anos e de uma maturidade literária que merece o adjectivo deste blogue: extraordinária! A obra de Clarice é de uma vivacidade estonteante, mas esta Joana de coração selvagem é um bicho de sensações que não lhe fica atrás nem nos deixa descansar um só instante durante a leitura. Criança hiperactiva e hiper-pensante, adolescente rebelde, imaginativa e por vezes maquiavélica, adulta fascinante e ao mesmo tempo capaz do pior com os que dela se aproximam, Joana, se não pensar ou sentir um mísero segundo, é a criatura mais infeliz do universo – e o seu amor por Otávio, que poderia ser perfeito (e parecia mesmo perfeito), acaba por ser uma distracção que a afasta dessa pulsão de permanentemente ser ela própria, mesmo quando não sabe bem quem é. Com parágrafos que queríamos saber de cor, com repetições que emprestam um ritmo quase alucinante ao texto, com ideias belíssimas (e bastante vanguardistas se tivermos em conta que Lispector nasceu em 1920), este é um livro sobre a maravilha e o horror que pode ser viver, viver cada minuto da vida sem desperdiçar nada de nada. Altamente recomendável.

Menores maiores

Um dia destes, fui a uma escola secundária falar com adolescentes sobre poesia e criação literária em geral. Fizeram-me perguntas bem interessantes, deram opiniões muito curiosas e, no seu todo, a sessão foi mais produtiva do que muitas em que participei para leitores adultos. Nem sempre corre assim tão bem, mas, em regra, as crianças e os adolescentes ainda não perderam uma certa vergonha de se expor e costumam ser mais sinceros. Um dia destes, divertimo-nos bastante com uma colega que trabalha na área infantil da Oficina do Livro e que recebe vários e-mails de miúdos. Uma menina de 11 anos andava a ler As Mulherzinhas e, ao terminar o primeiro capítulo, escreveu a dizer que tinha encontrado uma gralha, que a seguir identificava, indicando a página e a linha respectivas, e corrigia. Um rapazinho ainda mais novo, de 8 anos, mandou uma longa mensagem a explicar que se tinha posto a ler um livro de Miguel Sousa Tavares (já não me lembro qual) e, porque estava a gostar muito, queria agradecer à «iditora» que o tinha publicado, avisando que, quando se encontrasse mais adiantado na leitura, daria uma opinião detalhada. Fantástico. Quando eu escrevia livros juvenis, recebia muitas cartas de leitores – algumas com críticas completamente justificadas e o elenco das gralhas que depois se corrigiam nas edições seguintes. Valham-nos estes pequenos intelectuais, que serão provavelmente os leitores de amanhã, se tivermos a sorte de não se perderem pelo caminho com outros objectos lúdicos ou, claro, vícios piores.

Incompreensão inteligente

Lembro-me, na idade do armanço, de ir ao cinema Quarteto e ao Estúdio 444 ver filmes difíceis (sobretudo de línguas esquisitas) e, em muitos casos, não perceber patavina, mas achar mesmo assim que tinha valido a pena, pela beleza, pela imagem, por me fazer pensar. Mais tarde, um amigo que foi comigo ver Os Livros de Próspero, de Peter Greenaway, saiu a dizer que não tinha pescado nada, mas que as imagens eram tão belas que, naquele caso, buscar um sentido para o filme era completamente secundário. Um dia destes contaram-me uma história muito bonita que tem algo que ver com este tipo de «incompreensão». O escritor Vitorino Nemésio tinha, no início dos anos 1970, um programa de televisão chamado Se bem me lembro, no qual divagava sobre, basicamente, o que lhe apetecia (alguns dos leitores deste blogue devem lembrar-se, outros não terão nenhuma ideia de como era, mas vale a pena procurar no YouTube). Ora, parece que ia um dia Nemésio na rua e uma mulher se aproximou dele para lhe dizer que não perdia um só dos seus programas; e, no entanto, acrescentou: «Claro que não percebo nada, mas gosto muito.» Esta história foi-me contada por António Manuel Baptista, o físico que também tinha na época um programa televisivo chamado Física Moderna, e a quem aconteceu o mesmo num mercado alentejano: as peixeiras vieram todas cumprimentá-lo e disseram que saíam da praça a correr para irem assistir ao seu programa; não percebiam nada, mas isso não tinha importância, porque ouvi-lo era maravilhoso.

50 anos de poesia

Vasco Graça Moura escreve poesia há meio século, razão para se dizer: é obra... Apesar de saber que tem muitos livros publicados (romances também), não pensei já fosse há tanto tempo que publicava e fui surpreendida pela efeméride no caderno «Actual», do Expresso, no sábado 26 de Maio, no qual o escritor (e grande tradutor de poesia, de Dante a Rilke e Shakespeare) dava uma entrevista ao jornalista Valdemar Cruz. Às tantas, Vasco Graça Moura dizia que via sobretudo na escrita poética um «exercício técnico, uma aplicação de capacidades oficinais». A discussão sobre se a poesia resulta de um trabalho de ourives ou de mais qualquer coisa inexplicável é muito antiga, mas, no caso de Vasco Graça Moura, tenho de confessar que nunca vi ninguém tão dotado para a produção poética no imediato. Uma vez, numa viagem de avião que fiz com ele e outros poetas até Madrid, vi-o traduzir (com rima e métrica) dois sonetos de Petrarca (que ficaram quase tão bons como os originais); e nessa cidade espanhola, depois de um jantar em casa do escritor João de Melo, que era o Conselheiro Cultural português na época, o poeta que comemora o seu 50.º aniversário este ano fez um soneto ali em menos de nada sobre o jantar e o anfitrião que não ficava nada a dever a muita da poesia publicada em Portugal. Mas essa facilidade para compor tem de ser uma capacidade rara, não pode ser só oficina...

Écran grande

A Internet e a venda de DVD de filmes recentes veio mudar os hábitos dos portugueses em relação ao cinema. Há hoje imensa gente que não se importa de ver filmes no monitor de um computador, mesmo portátil, e quem já nem frequente as salas de cinema com o argumento de que o DVD do filme fica disponível pouco depois e pode ser visto no televisor lá de casa, sem cheiro a pipoca, à hora que se quiser e até com um chichi pelo meio, com recurso ao botão de Pausa. Mas conheci ao longo da minha vida imensa gente que dizia que ver filmes na televisão era completamente diferente de os ver no écran grande, de preferência às escuras, nas filas da frente, com som a sério e sem interrupções. E não estou a falar desses maluquinhos do cinema que sabem tudo de cor e só frequentam a Cinemateca e as salas que passam filmes independentes. Estou a falar de apreciadores da sétima arte que acham que a tela de grande dimensão faz parte do espectáculo. Pois bem, os defensores do livro em papel (os que recusam a ideia de ler um romance num dispositivo digital, porque precisam do cheiro da tinta e de virar as páginas a sério, e não virtualmente) lembram-me os cinéfilos que não se rendem aos pequenos écrans. Embora saibam que as árvores fazem muita falta para respirarmos, não se convencem com esses pequenos aparelhos que nos dispensam de andar com uma carga às costas (basta ver o peso dos livros escolares nas mochilas dos estudantes) e querem mexer, sublinhar com marcadores, dobrar o cantinho da página e folhear à vontade. Talvez o livro impresso seja o seu écran grande.

Os leitores mais velhos

Penso muitas vezes que, se ainda tiver direito a reforma (o que é cada vez menos certo), terei imenso tempo para ler todos os livros que, por qualquer razão, ficaram quietos na estante ou interrompidos sem esperança de serem retomados. Mas a verdade é que também pode acontecer querer essa disponibilidade para outras coisas, eventualmente farta de não fazer outra coisa senão ler. O pai de uma amiga do Manel, que era um leitor voraz com uma biblioteca de fazer inveja a qualquer (leitor) mortal, quando se reformou acabou por tornar-se um espectador assíduo de telenovelas e perder a paciência para a leitura (que, já se sabe, exige muito mais de uma pessoa). O escritor António Alçada Baptista escreveu uma vez uma crónica sobre o assunto, dizendo que guardara os clássicos que não lera para a velhice, mas que, velho, não tinha vontade de os ler. Tenho esperança de, nisso, sair à minha mãe: é que todas as semanas tenho de lhe levar um livro diferente; e não só ela o papa rapidamente, como ainda se dá ao luxo de o criticar – e me criticar – se lhe levo um romance com menos sumo. Como já tem quase 88 anos, pode ser que eu lhe siga as pisadas...

Química para poetas

Parece que o poeta romântico Samuel Taylor Coleridge – autor, com Wordsworth, das famosas Lyrical Ballads (1798) – era bastante crítico das ciências, com as quais tinha uma relação tudo menos pacífica. E, porém, conta-se que foi com enorme surpresa que o viram assistir na universidade às aulas de Humphry Davy, um conceituadíssimo professor catedrático de Química. E não só foi estranha para todos a sua presença assídua no anfiteatro, como ninguém queria acreditar quando o viram tomar notas furiosamente, enchendo aproximadamente 60 páginas de um caderno enquanto o professor falava. Alguém mais corajoso terá então ido ter com ele para saber o que fazia ali um homem que, afinal, não parecia apreciar por aí além os cientistas. Mas Coleridge não se deixou abater com a interpelação e explicou que o seu objectivo era, simplesmente, aumentar o número de metáforas na sua obra.

Livros Difíceis

Os nossos jornalistas da área da Cultura gostam de apanhar os políticos, especialmente os que desempenham funções governamentais, em falso. Lembro-me de que um dia perguntaram a Santana Lopes, quando era Secretário de Estado da Cultura, se lera Proust e de ele ter respondido com uma evasiva que lhe saiu muito mal, afirmando que lera mas já não se lembrava de quase nada. Proust é tido como autor difícil – e é quase sempre Em busca do Tempo Perdido que os jornalistas vão buscar para tramar os entrevistados. Mas há um outro livro dos ditos difíceis que também anda na boca de toda a gente quando se trata de entalar alguém (confesso que também nunca o consegui ler de fio a pavio). Trata-se de Ulisses, de James Joyce, e há muito boa gente que acha que o autor deveria ter ganho o Prémio Nobel da Literatura por causa dele. Para espantar os papões, Gonçalo M. Tavares falará hoje mesmo dessa obra maior da literatura na Casa Fernando Pessoa, às 18h30. Quiçá não desfaz alguns mitos sobre a sua extrema dificuldade e nos convence a tomar coragem para lhe pegar pela primeira ou segunda vez...

Obra de estreia

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No meu local de trabalho, sempre que «preciso» de ir fumar um cigarrinho, atravesso um longo corredor, no qual se dispõem à minha direita as mesas dos responsáveis pela comunicação e promoção dos livros de todas as chancelas do grupo. Os livros amontoam-se ali como em mais nenhum lado, já que é necessário enviar a jornalistas um bom número de exemplares para garantir que saem notícias e críticas acerca deles. Mas as capas das obras de Philip Roth saltam à vista entre todas as outras, pelo grafismo particular, do extraordinário Rui Garrido, e pelas cores vivas e contrastantes. E foi assim, de passagem a caminho do vício, que um dia destes descobri que a Dom Quixote acabara de publicar o livro de estreia do escritor norte-americano, intitulado Goodbye, Columbus, um pequeno romance sobre um amor de Verão, publicado originalmente em 1959, que o catapultou imediatamente para o lugar dos grandes, granjeando-lhe prémios e uma reputação que nunca mais lhe fugiria. Em Portugal, a edição junta à novela cinco contos do autor (que eu saiba, nunca publicados) e conta com a tradução sempre excelente de Francisco Agarez (desta vez não podia esquecer-me de o referir, pois é um grande tradutor). Mais um que não é possível deixar de ler.


 


 


O que ando a ler

Resolvi fazer a vontade ao leitor deste blogue, ASeverino, e fazer um post neste primeiro dia útil do mês de Junho sobre o que ando a ler. Pois bem, o último livro que terminei chama-se Furacão, foi escrito por Laurent Gaudé, que já ganhou o prémio Goncourt, e é uma homenagem fascinante aos que sofreram os efeitos do Katrina em New Orleans. É, pois, um livro sobre os negros na América (os brancos puseram-se a andar antes da catástrofe ou tinham casas resistentes) e, se quisemos, também um livro sobre a divisão de classes, o racismo e a escravatura. Conta a história de uma velha de cem anos que cheira a tempestade assim que acorda; de um homem que trabalhou numa plataforma de petróleo e viu o melhor amigo ser queimado vivo (nunca mais pregou olho); de uma mulher desencantada com um filho de seis anos que não comunica; de um grupo de prisioneiros que ficam sozinhos numa cadeia onde a água entra aos borbotões; e, finalmente, de um padre que interpreta a tragédia como um sinal de Deus e acaba mal. Belíssimas as vidas de todos eles – e bem assim as descrições da chuva e dos remoinhos de vento que levam tudo pelos ares, destroem as moradas dos pobres, fazem transbordar os rios, entopem os esgotos, arruínam os diques e espalham pelo cemitério crocodilos que se misturam com os animais do Zoo e os mortos. Um romance a várias vozes comovente e em defesa dos fracos, que recomendo vivamente, mesmo aos leitores que têm por hábito desconfiar da literatura francesa.