Guionismo

Um dia destes, tive um brevíssimo encontro com o conhecido dono de uma produtora de cinema e televisão; no meio da conversa, ele avançou que em Portugal não se escrevem bons guiões e que conta muitas vezes com profissionais brasileiros, espanhóis e americanos para conseguir um argumento bem construído e realista. Claro que só começámos a produzir séries e novelas há uns dez anos, pelo que é natural que ainda não tenhamos chegado ao nível dos argumentistas de Hollywood; mesmo assim, haverá certamente alguns bons guionistas em Portugal, quiçá subestimados e mal aproveitados. Em todo o caso, a minha experiência com a leitura de guiões é confrangedora. Depois de me terem proposto fazer a adaptação televisiva de uma série juvenil que escrevi nos anos 90, aceitei com a condição de ler os guiões. Comecei por me escandalizar com o número de erros de ortografia, sobretudo porque os actores eram crianças e iriam ficar certamente cheios de dúvidas (lembro-me de que uma das guionistas não sabia a diferença entre “coro” e “couro”, por exemplo); mas o que mais me chocou foi a completa falta de imaginação (como era preciso haver cenas de suspense – que não estavam nos livros –, em todos os episódios as personagens ficavam fechadas num sítio qualquer, nunca variava) e a incapacidade para perceber que a oralidade e a escrita são coisas completamente diferentes: as frases que as crianças tinham de decorar às vezes pareciam saídas de um compêndio. Como se isso não bastasse, numa história que incluía duas gémeas brasileiras, vi-as transformadas em francesas sem saber porquê. Quando perguntei, explicaram-me que no canal que transmitiria a série havia a regra de ninguém falar com sotaque brasileiro, porque as novelas brasileiras passavam no canal rival... Enfim, depois da duríssima revisão de 26 episódios, percebi que, de facto, é preciso abrir os cordões à bolsa e contratar profissionais em vez de pôr a miudagem a ganhar uns cobres e escrever não importa o quê.

Comentários

  1. Mais uma prova de que algo neste país está errado!

    "Haverá certamente alguns bons guionistas em Portugal, quiçá subestimados e mal aproveitados."

    Sem dúvida! Mas agora eu pergunto: como é que esses guionistas subestimados e mal aproveitados chegam a algum lado sem "cunhas", "padrinhos" e outros apêndices do género?

    Entretanto, contratam-se estrangeiros... Têm mais experiência...

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  2. Try me. 30 anos de copy em publicidade e marketing directo. Ou um copy da velha guarda, a escrever sem sibilantes e a saber escrever diálogos colouiais (a letra faltosa está encravada no meu teclado:(( )

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  3. Algumas soluções relativamente simples - Mais séries e diversificadas. Mais cinema que não seja escrito por realizadores e produtores. Mais estudo das séries televisivas e dos filmes de êxito. Melhor articulação entre editores (de ficção portuguesa) e produtores (de televisão cinema). Mais investimento das televisões.

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  4. Erros de ortografia são cada vez mais vulgares pois o ensino é cada vez menos exigente. E creio que os erros não vêm do chamado Português de Telemóvel. Basta ver os erros ortográficos que os estudantes dão na universidade, ou já depois de formados, no trabalho.

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