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A mostrar mensagens de janeiro, 2014

Au travail!

Hoje muitos autores portugueses querem viver exclusivamente do que escrevem (o que, dada a insignificância do nosso mercado, é extremamente difícil se não ganharem prémios chorudos ou forem traduzidos) e cada vez me aparecem mais potenciais escritores que alegam não gostar do que fazem profissionalmente e estar apenas a aguardar uma oportunidade de publicar um livro para deixarem o emprego (do que imediatamente os dissuado). Na minha opinião (que é a de alguém que sempre trabalhou), ter um emprego é, sobretudo nestes tempos, fundamental, não só para equilibrar as finanças, mas porque, entre outras coisas, permite o convívio, a troca de opiniões e a aprendizagem, o que, evidentemente, se se for escritor, só pode contribuir para o enriquecimento da produção literária. E, embora muitos não concordem comigo (até porque ter um horário e acordar cedo não é para toda a gente), houve grandes escritores que nunca se afastaram das suas ocupações e a sua obra não foi beliscada por causa disso (ou foi-o, mas positivamente). Desde logo Kafka, que trabalhava numa companhia de seguros, ou Pessoa, que tinha funções mais ou menos aborrecidas numa empresa de Import-Export (quiçá o facto de terem um trabalho burocrático até ajudou a desenvolver a criatividade). Ou o recente Prémio Nobel da Literatura Tomas Tranströmer, que foi toda a vida psicólogo e trabalhou especialmente com rapazes internados em casas de correcção. O poeta T. S. Eliot era, por sua vez, empregado do Loyd’s Bank e o seu confrade William Carlos Williams médico (tal como Torga, cujo consultório o Manel ainda conheceu quando estudava em Coimbra). Virginia Woolf e o marido eram editores (uma profissão mais ao jeito de um escritor, tal como a de bibliotecário, cargo desempenhado por Borges ao longo de muitos anos). Houve dezenas de escritores que ensinaram em liceus (Vergílio Ferreira foi professor do meu irmão) e universidades (Joaquim Manuel Magalhães foi meu professor) no mundo inteiro e outros que já escreviam em jornais antes de se tornarem escritores de romances, como Baptista Bastos ou Assis Pacheco. Na verdade, o trabalho nunca fez mal a ninguém.

Os críticos

Um amigo partilha comigo um texto sobre Diderot e os críticos. Eu já sabia que Diderot não tinha papas na língua a respeito de quase nada (calhou-me uma história dele num exame de Francês do Secundário que nunca esqueci) e, em relação aos críticos, pelos vistos também não se poupa (nem os poupa), descrevendo-os como «os selvagens que certos viajantes do passado encontraram e que lançavam dardos envenenados» («farpas» seria para ele uma palavra demasiado doce, imagino). Reflectindo sobre os autores, Diderot afirma que o seu papel é bastante vaidoso, o de alguém que se crê capaz de dar lições ao público; mas logo acrescenta que o dos críticos o é ainda mais, na medida em que estes se acham capazes de dar lições àquele que se acha capaz de as dar ao público. E continua no mesmo tom, acusando o crítico de só encontrar virtudes nas obras dos escritores mortos e defeitos nas dos vivos (hum, nisto tem certa razão) e de, apregoando-se rigoroso e profundamente objectivo, não conta senão com a subjectividade do seu gosto e as mais das vezes com uma formação bastante escassa; pelo que afirma que o que um crítico devia ser antes de tudo era um «homem de bem», e não um «juiz, executor, verdugo, legislador, em suma, um ser que se julga superior a toda a gente e ainda por cima impune». Eh lá, esta é mesmo forte.

Paris, não sejas inglesa

A França é um dos países que mais a sério se levam – e que levam a cultura mais a sério. Os membros da Académie Française chamam-se nada mais, nada menos do que «Imortais» e defendem com unhas e dentes a língua de Molière; de tal modo que há uns tempos condenaram publicamente o uso de anglicismos, chumbando, irritados, a palavra «flyer» (que também aqui usamos vulgarmente para dizer «desdobrável»), a expressão «asap» (abreviatura de «as soon as possible», que consideram tudo menos transparente e sem qualquer vantagem em relação a «dès que possible») e o afrancesamento de verbos a partir de palavras inglesas, como, por exemplo, «scorer», que se emprega aparentemente com regularidade no desporto (do inglês «score», marcar pontos). Mas é curiosamente quando a imprensa francesa mais se assemelha aos tablóides ingleses e americanos no desmascarar da vida privada do Presidente que isto acontece. Porque, se a história de Mitterrand e de uma filha ilegítima perfilhada apenas aos dez anos fez as parangonas dos jornais franceses na época do escândalo, houve um longo hiato até as revistas voltarem às histórias pessoais dos seus dirigentes – e fizeram-no com Sarkozy, que se pôs a jeito, mas mesmo então não usaram da agressividade que parecem agora dirigir a Hollande, acusado, entre outras coisas, de manter várias concubinas, uma das quais instalada no Eliseu num luxo pago pelos contribuintes (só porque não se casou, não quer dizer que essa senhora não seja a mulher dele). Enfim, os Imortais zangam-se com a língua inglesa, mas os simples mortais parecem adoptar alguns hábitos dos países anglófonos sem nenhum problema.


 


P.S. Escrevi este post antes de saber que ia haver separação.

Todos os nomes

Segundo li recentemente, os judeus asquenazes, a maioria dos quais a viver na Europa Central, foram dos últimos europeus a adoptarem apelidos e só o fizeram, entre 1787 e 1844, quando a isso foram oficialmente obrigados (era preciso, entre outras coisas, cobrar-lhes impostos e eles fugiam com o rabo à seringa). E mesmo então alguns dos apelidos escolhidos duravam apenas uma geração (espertos), pois, enquanto os filhos eram do pai, as meninas eram – perdoem-me – filhas da mãe (Moyshe ben Mendel seria, à letra, Moisés filho de Mendel, mas a irmã de Moisés chamar-se-ia, por exemplo, Sara bat rivka, ou seja, Sara filha de Rebeca). Só mais tarde se criaram nomes de família que tiveram continuidade, muitos dos quais construídos ainda com a ligação ao nome próprio do pai por meio das partículas «son» ou «sohn» («filho» em alemão) ou «wich» e «witz» («filho» em polaco e russo). São deste tempo nomes como o do compositor Mendelssohn ou do milionário russo Abramovitch e ainda o de uma professora que tive na Faculdade de Letras, Joana Rabinowitch, que, na origem, sei-o agora, significava «filho do rabino». Mas, como as mulheres judias por vezes suplantavam os homens em importância e prestígio nos negócios, também surgiram apelidos que remetiam para elas, tal como Goldman (como em Goldman Sachs), que era, nem mais nem menos, «o marido da Golda» (as Golda sempre tiveram tendência para sobressair). Os lugares de proveniência foram igualmente um recurso para a formação de nomes de família judeus – e descobri que o Bayer da aspirina quer tão-só dizer «da Baviera». Por outro lado, muitos outros nomes judeus que existem até hoje nasceram da profissão exercida por quem os escolheu – e o nosso querido Einstein da teoria da relatividade deve o seu apelido a um pedreiro (é o que quer dizer a palavra) enquanto (George) Steiner descende inequivocamente de um joalheiro (não faltariam comerciantes de jóias entre os judeus, como calculam). Mas, tal como em toda a parte, e não só entre judeus, os traços físicos também serviram muitas vezes para definir o apelido e, assim, Grossman (como o do escritor Vassili Grossman) era, antes de tudo, um homem grande (gross + mann) e Alfredo Krauss, um cantor lírico que foi muito apreciado em Portugal, teve um antepassado de cabelo encaracolado (ainda hoje krausen é amachucar em alemão).

15 Correntes

Todos os anos trago à baila as Correntes d'Escritas – mas faço-o com toda a justiça porque são de certeza as melhores correntes literárias portuguesas de sempre, o mais feliz e rico encontro de autores de que tenho conhecimento (e aqui abro um parêntese para felicitar os responsáveis por esta aventura sem igual, sobretudo a Manuela Ribeiro e o Francisco Guedes, mas também toda a equipa que os apoia e mal dorme para ter tudo a andar durante aqueles dias). Pois o festival mais interessante e divertido de todos faz em 2014 quinze anos e está a aproximar-se (será já no dia 20 de Fevereiro a sessão de abertura), tendo convidado para esta edição quinze autores que nunca nelas tivessem participado e que foram os mais «votados» por um ror de pessoas que, pelo contrário, já lá estiveram pelo menos uma vez. Fiquei contente porque, entre esses quinze, estão dois autores que publico – Ana Margarida de Carvalho e João Ricardo Pedro, que, estou certa, ficarão fãs das Correntes, como acontece a todos os que lá vão. Quinze são também os autores finalistas do prémio literário que é ali atribuído todos os anos, ora a um romance, ora a um livro de poesia, mas deste assunto falarei mais para diante, pois ainda conto ler um ou outro dos finalistas até lá. Entretanto, fico ansiosamente à espera do dia 20.

Erros de palmatória

Leio algures uma lista dos erros mais frequentes em língua portuguesa falada e escrita. Percebo rapidamente tratar-se de uma coisa produzida no Brasil e, como tal, nem tudo bate certo com o que acontece aqui na terrinha (para usar uma palavra que os brasileiros empregam quando se referem a Portugal). No entanto, há erros que são os mesmos cá e lá e descubro com alegria que o rol de asneiras não omite a expressão «Há x anos atrás» (havia de ser à frente?) que ouço amiúde aos apresentadores de televisão e a muita outra gente mais informada que, ainda assim, não lhe consegue fugir. Outra que apreciei ver, porque me está sempre a aparecer nos originais que me chegam de potenciais escritores, é «prefiro ir do que ficar» em lugar de «prefiro ir a ficar», sendo que este «preferir» também aparece vulgarmente na redundante expressão «antes prefiro» quando o prefixo «-pre» já significa antes. «Uma grama» é outra que me leva aos arames na prosa que leio, se, evidentemente, se referir a medida de peso, e não a relva brasileira. Mas há mais, como a sistemática confusão entre «onde» e «aonde», a insistência em usar a terceira pessoa do plural do verbo «haver» em frases como «começa(m) a haver sinais de…» (do piorio) ou desconhecer a diferença entre «ter a haver» e «ter a ver» (na verdade, «ter que ver» é a melhor opção neste último caso). Enfim, escreve-se e fala-se bastante mal português e, mesmo não fazendo parte da lista que referi no início, gostaria de acrescentar que se tornou moda dizer «De todo» em vez «De modo nenhum» (mas é um erro escusado, já que «de todo» quer dizer «totalmente») e empregar erradamente o verbo «chamar» com a preposição «de» («chamou-o de parvo» em lugar de «chamou-lhe parvo»), sendo que este último está seguramente entre os que mais vezes apanho em autores que querem publicar o que escrevem..

O não leitor

Certamente que muitos dos leitores deste blogue gostam de comer, de cozinhar ou simplesmente de assistir a programas televisivos sobre gastronomia e culinária. Esses, se não outros também, conhecem ou já ouviram falar de Jamie Oliver, um jovem e mediático chef britânico. Pois parece que este senhor, apesar de já ter uma vintena de livros publicados (de cozinha, bem entendido), confessou há pouco tempo nunca ter lido um livro... Imperdoável, se não fosse pela circunstância de logo a seguir ter explicado que é disléxico e que, por isso, a leitura para ele se torna verdadeiramente aborrecida. Pegando nesta história, uma revista online norte-americana, a Flavorwire, decidiu criar uma lista de dez títulos que aconselharia a um adulto que nunca tivesse acabado um livro na sua vida, obras com potencial para fazerem dele um leitor. Entre elas, estavam As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, À espera no Centeio, de Salinger, O Hobbit, de Tolkien, O Coração das Trevas, de Joseph Conrad e O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, por exemplo. Nada contra, embora os dois últimos possam ser mais difíceis de lá ferrar o dente. Já mais estranha encontrei a escolha de Hamlet, que não me parece, até pela sua natureza formal, coisa para iniciados. No entanto, o artigo levou-me a pensar que obras sugeriria eu a um principiante nestas coisas da leitura e lembrei-me de O Velho e o Mar, de Hemingway, Cão como Nós, de Manuel Alegre ou O Velho que Lia Romances de Amor, de Luis Sepúlveda, três pequenos livros que poderiam convocar os menos experientes para o prazer de ler e servir para lhes tirar o medo. Haveria muito mais, claro, mas fico-me por aqui, pois já sei que todos vão querer também dar uma opinião.

Leitura biológica

Que ler faz bem à nossa eterna ignorância já todos sabemos – todos os que lemos e gostamos, bem entendido, porque haverá muitos que, por causa de uma má experiência inicial, provavelmente não acreditam nos benefícios da leitura. Que ler faz bem à mente, também parece não haver grandes dúvidas, ajudando tantas vezes a ultrapassar a solidão e os estados depressivos, por exemplo. Mas que a leitura traga benefícios também a nível puramente físico, isso é que pode ser uma surpresa. Efectivamente, uma equipa de cientistas norte-americanos da Universidade de Emory que estudou os efeitos da leitura no cérebro acaba de concluir que ela tem efeitos biológicos – e que, lido um livro estimulante, se verificam alterações no córtex cerebral esquerdo, na área que gere a linguagem, ao longo de pelo menos cinco dias. Ou seja, os neurónios comportam-se como se enganassem a mente, como se estivessem a comandar uma acção que, na verdade, não está a ser realizada senão pelas personagens da obra. Mas, por causa da identificação com estas, basta ao leitor pensar em correr que o seu cérebro se põe a mexer imediatamente, como se o leitor corresse de verdade, e fica assim activo por cinco dias. Uma espécie de exercício físico para o órgão mais importante de todos.

Falta de açúcar

Leio no suplemento «Babelia» do El País uma recensão a um livro de memórias de Bennett Cerf publicado agora em Espanha. Bennett Cerf foi o fundador da Random House, o editor de James Joyce, Truman Capote, Bernard Shaw e William Faulkner, entre muitos outros grandes nomes da literatura em língua inglesa, e viveu uma época especialmente rica em talentos, mas também especialmente difícil, pois já era editor quando chegou o crash de 1929. Trabalhou como um louco; e, porém, quando perguntaram ao seu filho de oito anos o que queria ser quando crescesse, este terá respondido que pensava ser editor como o pai, porque a única coisa que ele fazia era rir e falar o dia inteiro. Cerf riu e falou muito, de certeza absoluta, mas fundou aquela que é hoje a maior editora do globo (que se juntou com a Penguin há uns tempos) e deu a conhecer muitos autores ao mundo. Tal como depois dele o brasileiro Rubem Fonseca, Cerf também tinha os seus mandamentos do editor: 1. Ter boa memória e alguma imaginação; 2. Ter um vasto leque de interesses; 3. Usar de considerável diplomacia; 4. Perceber que a paciência é uma qualidade indispensável; e, por último, 5. Ter sorte. (Isto da sorte tem que se lhe diga.) Entre as histórias contadas no livro que o texto de recensão reproduz, uma pareceu-me especialmente engraçada. Cerf contratou um jovem editor muito competente para trabalhar a parte final de um dos romances de Faulkner e este ficou incrivelmente satisfeito com o trabalho realizado. Mas, quando Cerf lhe perguntou se o dissera ao jovem, Faulkner respondeu apenas: «Quando tenho um cavalo que está a correr bem, não o detenho para lhe dar mais açúcar...»

Uma questão de economia?

Na minha vida de editora, excluindo as alegrias de publicar textos e autores que estimo, sofro anualmente com a invasão de centenas (sim, centenas) de originais de muitos que querem desesperadamente publicar o que escreveram. O pior é que, a cada ano, aumenta o número de pedidos de apreciação e baixa o nível dos textos recebidos. Não sei porquê, mas creio que a circunstância de bastantes figuras televisivas se terem posto a assinar romances que, se calhar, nem redigiram fez crer a toda a população que também podia escrever uma obra de ficção. E quem, provavelmente, tinha uma ideia ou uma história que parecia boa, e quiçá não havia sido mau aluno a Português, acreditou que isso seria suficiente para fazer obra e, mais grave, para a publicar e partilhar com o público. Ignoro se nas outras artes há tantos aspirantes como na literatura, mas presumo que não, porque esta é, de facto, a arte mais barata de todas (fazer cinema fica caro, de mais a mais sem subsídios, pintar obriga a saber a técnica e comprar tintas e telas, compor música requer, em princípio, um instrumento e, claro, algumas bases). Será então por isso que tantos se atrevem a passar ao papel as suas ideias, convictos de que assim terão um dia lugar em alguma prateleira da eternidade?

Europa/América

Oh como eu gostava, quando era miúda, de ir a Espanha comprar caramelos e, de caminho, trazer tantas coisas que não havia cá em Portugal (jeans da marca Lois, por exemplo). Os países eram diferentes até no que lá se comprava e, com a globalização, perdeu-se também essa surpresa, porque agora as lojas são as mesmíssimas em toda a Europa (pelo menos, poupamos nas compras). E, se falamos de lojas, falemos de livros, pois, à excepção da França, que ainda é um tanto chauvinista e olha, deliciada, para o seu umbigo a cada rentrée, os livros são hoje os mesmos em todo o lado e, com as maravilhas do agenciamento literário e das novas tecnologias, até são publicados simultaneamente no mundo inteiro (foi, por exemplo, o caso de uma biografia ilustrada de Mandela que saiu há uns anos em edição mundial, em variadíssimas línguas, no mesmíssimo dia). Mas nem sempre isso sucedeu, e os autores milionários e campeões de vendas nos EUA (como John Grisham ou Stephen King, que atingiam 6 milhões de exemplares vendidos num mês ou dois) tinham dificuldade em perceber (ou os seus editores e agentes por eles) porque não ultrapassavam aqui em Portugal os 2000 exemplares vendidos, quando lá chegavam, claro, o que nem sempre acontecia (no Brasil, pelo contrário, tinham êxito garantido, que ali era a América que dominava os Top dos livros – e ainda é). Antepassados de Daniel Silva ou Dan Brown – que hoje toda a gente lê e vendem carradas – devem ter-se arrependido de não ter nascido para a escrita duas décadas mais tarde.

Heranças

Quando eu era pequena, os jornais da tarde eram comuns e, embora lá em casa comprassem desde sempre o Diário de Notícias, o meu pai lia num certo dia da semana também o vespertino Diário de Lisboa por causa de uma crónica de Luís de Sttau Monteiro que se chamava «As redacções da Guidinha» e, na forma da redacção de uma menina, ia dando catanada no regime de então. Lembro-me de que o meu pai me lia essas crónicas (e eu ficava quietinha a ouvir, mesmo que não percebesse tudo) e que, muito depois de desaparecerem os vespertinos, já eu muito mais velha, fazia questão de nos ler os textos de Vasco Pulido Valente. Não sei se terá sido por respeito à memória do meu pai, mas a verdade é que, ainda hoje, não consigo passar por cima das crónicas de Pulido Valente. Nem sempre estou de acordo com o que escreve, é um facto, mas admiro-lhe a verve que já quase ninguém tem e, além disso, reconheço-lhe um talento para a escrita que é hoje dificílimo encontrar nos nossos diários e semanários. Percebo que possa irritar meio mundo (provavelmente, esse é um dos seus objectivos), mas gosto daquele sacudir os leitores com as suas opiniões completamente inesperadas (como ser o Papa Francisco uma das piores figuras de 2013, por exemplo) e, até, de uma certa maldadezinha que, se calhar, amachuca num primeiro momento, mas deixa, sei lá porquê, um sorriso ao fim de um bocado («além de meia dúzia de homilias, que até o dr. Soares adorou, não mudou até agora coisa nenhuma»).

Paradoxos

Há muitos anos, na primeira editora em que trabalhei (e que era, nesse tempo, uma editora especialmente apostada na divulgação científica), publicou-se numa série dedicada à matemática um livro muito interessante chamado Círculos Viciosos e Infinito: Uma Antologia de Paradoxos. Deveria ter sublinhado círculos (faço-o agora), tantas vezes ouço e leio erradamente a palavra «ciclos» dita e escrita por gente que tinha obrigação de conhecer a expressão «círculo vicioso». Nesse livrinho, em todas ou quase todas as páginas, havia, à laia de cabeçalho, um paradoxo – e aquele que melhor recordo, por ser o mais cómico, era da autoria de um senhor chamado George Moore, creio que filósofo, e dizia: «What are husbands for, but to keep our mistresses?» Bem visto. O paradoxo em geral sempre me interessou – e há coisas também paradoxais na nossa língua, como o facto de «executar» significar «fazer, realizar», mas também poder ser o fim desse fazer e realizar quando se executa alguém. E ainda mais estranho encontro o verbo «sancionar», que serve a um tempo para aprovar e punir, deixando-me sempre confusa quando leio que alguma coisa foi sancionada, ignorante sobre se levou castigo (sanção) ou, pelo contrário, recebeu uma solidária aprovação (sanção). Um dos mais conhecidos paradoxos é o de Epiménides, que terá dito: «Todos os cretenses são mentirosos.» O problema é que Epiménides nascera ele próprio em Creta...

O bom carpinteiro

Ontem prometi que deixaria hoje no blogue um texto que, ainda não sei porquê, a escrita de Pär Lagerkvist em O Anão acabou por me trazer à memória. Trata-se de um poema (vá lá, não se assustem já os que dizem não gostar de poesia) do poeta e editor espanhol Jesús Munárriz sobre esse outro enorme poeta alemão que foi Hölderlin (a admiração do espanhol vê-se, de resto, no nome que escolheu para a sua editora de poesia, Hyperion, justamente o título de uma das mais celebradas obras do seu confrade germânico). Para os que não sabem, Hölderlin nasceu nas margens do rio Neckar (digo-o para melhor entenderem um verso do poema), apaixonou-se loucamente pela mulher de um banqueiro de quem era professor e enlouqueceu depois da morte desta (embora já tivesse dado sinais de loucura muito antes disso). Sem dinheiro nem família, foi então acolhido pela família de Ernst Zimmer, um bom carpinteiro que apreciava verdadeiramente os seus poemas e tratou dele até à morte. É deste Zimmer, aliás, o monólogo que hoje transcrevo (traduzido pelo Manel aquando da vinda de Munárriz a Portugal para um festival de poesia), esperando converter muitos dos Extraordinários à leitura de poesia.


 


Monólogo de Zimmer


 


– Não é, apesar de tudo, um hóspede incómodo.


Apenas uma criança grande. As crianças, já se sabe,


dão por vezes, como ele, desgostos e maçadas.


Mas se está tranquilo é agradável:


conversa, improvisa versos, torna-se loquaz,


ou desfruta da natureza, sorridente.


 


Quando está bom tempo acompanha-me à horta


ou à vinha e, enquanto trabalho, colhe flores


que logo esquece. O sol fá-lo feliz


e abandona-se ao seu calor, sobre a erva,


e vence esse frio que o aperta por dentro.


 


É um homem tranquilo se o deixarem em paz,


mas os miúdos por vezes aborrecem-no


e volta para casa de mau génio, e ninguém sossega:


passeia pelo quarto como fera enjaulada


ou dá-nos cabo do juízo com o piano,


martelando sempre as mesmas teclas.


 


Acontece-lhe, sobretudo com o mau tempo,


com o frio, a chuva, o céu cinzento,


estar dias e dias sem sair do sótão,


sem cortar unhas nem cabelo, nem a barba,


sem se lavar,


encostado aos vidros com olhos ausentes,


perdidos no Neckar,


batendo os pés no chão horas e horas.


 


Mas para quê insistir neste tipo de coisas:


todos nós temos dias maus.


Regra geral, porta-se bem. E faz-me companhia.


Além disso, é fantástico


a gente que conhece. De outros tempos.


Às vezes visitam-no – não muito, é verdade –


e passam por minha casa uns cavalheiros, ou escritores famosos,


ou interessantíssimas senhoras


que o contemplam com respeito


e lhe pedem poemas dedicados.


 


Eu ofereço-lhes vinho, ou água fresca,


ou fruta, quando é Verão,


e eles falam-me dele, de quão importante


podia ter sido, do seu talento


estranhamente desperdiçado, da sua beleza


e da dos seus versos.


Eu conto-lhes as diabruras que me faz


e alegram-se ou ficam tristes, depende,


e ao despedirem-se deixam algumas moedas


para lhe comprar doces, de que tanto gosta.


 


Quando partem, a sua cara muda


e fica a pensar, ensimesmado,


e está assim vários dias, dando-lhe voltas,


ruminando, e é então


que o observo sem que dê conta


e penso de novo: não está louco,


apenas faz o que quer,


livre, em paz.


 


De repente, uma coisa qualquer,


um pardal, um melro, uma insignificância,


levam-no de volta ao seu olhar de criança grande,


e sorri de novo, quem sabe a que fantasmas,


e a mim desconcerta-me, porque o vejo perdido


e sinto-me como ele.


 


Dela nunca fala. Se a nomeiam


na sua presença ou lhe perguntam


por aquela senhora,


finge não se recordar, ou responde-lhes


que lhe deu nove filhos,


todos de altos destinos: papa, rei...


Depois, sozinho, quando ninguém o vê,


sobe à sua torre e chora. Já o ouvi


através da porta. E partiu-se-me a alma.


 


Enfim, senhores, parece-me que agora


já falei demasiado


e estou a cansar-vos.


Como lhes disse, não é um hóspede incómodo


e sinto-me orgulhoso de o ter nesta casa


de humilde carpinteiro.


Voltem pois quando quiserem,


ele foi correctíssimo convosco


e não se aborreceu com a visita.


Tive muito prazer em conhecê-los.


Adeus, senhores.


                            Zimmer.


                                        Um vosso criado.

Vinte e seis polegadas

Publicou-o a Antígona e intitula-se O Anão. O seu autor – Pär Lagerkvist – é sueco, ganhou o Nobel da Literatura em 1951 e morreu no ano dos nossos saudosos Cravos. Nunca tinha lido nada deste senhor (lacunas é o que mais tenho em matéria de leituras) e gostei deste pequeno romance na primeira pessoa, escrito à laia de diário ou crónica por Piccolino, um anão da Corte – aliás, o único anão de um príncipe italiano da Renascença (pois, não suportando a concorrência, Piccolino matou, sem dó nem piedade, o seu congénere Josaphat, depois de levar o príncipe a vender todos os outros). Cínico e cruel, pródigo em relatar intrigas palacianas – as histórias da princesa e das suas infidelidades, dos cavalheiros bajuladores e dos seus oportunismos, das guerras e dos seus difíceis desfechos –, Piccolino não deixa ninguém imune à sua crítica e muito menos intacto, nem sequer esse príncipe que admira mais do que todos (apesar de o achar um hipócrita), ou o mestre Bernardo, o sábio filósofo e cientista que tem inegáveis ressonâncias de Leonardo (esse mesmo, Da Vinci). A prosa de Lagerkvist é despojada, não se parece muito com a dos outros autores nórdicos que tenho lido e, ainda que algo seca, resulta extremamente eficaz e equilibrada e fez-me lembrar, curiosamente, o tom de um monólogo que amanhã trarei para este blogue por crer que vale muito a pena ser conhecido. Como O Anão, evidentemente, que deve ser lido por todos, impressionáveis ou não, sem quaisquer reservas e, estou certa, com grande proveito.

Énorme coup de coeur!

Imagem

Aqui há tempos referi neste blogue que um livreiro de Toulouse escrevera uma carta entusiástica ao editor francês de O Teu Rosto Será o Último (La main de Joseph Castorp, na versão francesa); e o título que escolhi hoje para o post é, nada mais nada menos, o do assunto do e-mail que trazia essa carta. A pedido dos extraordinários leitores, transcrevo então partes (e não traduzo porque são mais bonitas em francês) dessa mensagem: «C’est pour moi de meilleur livre de cette rentrée [...] Ce roman époustouflant est [...] d’ores et déjà un futur classique de la littérature mondiale, à ranger auprès des très grands! Je suis ébloui par la construction serrée et subtile, l’équilibre qui s’en dégage, et par la faculté d’imagination, de conteur de cet auteur (...) On rencontre si peu d’artistes écrivains, voilà une vraie découverte!» O entusiasmo, porém, não se limitou ao livreiro francês. A crítica também aplaudiu naquele país o romance... e de que maneira! O Le Monde, a propósito dele, falou de uma intriga borgesiana encenada por um Buñuel moderno; o Libération referiu que o escritor fazia com que o leitor perdesse o norte de uma forma que era mesmo só dele; o L’Humanité avançou que o livro era brilhante e confirmava a vitalidade da literatura lusófona, enquanto Le Point assegurava que João Ricardo Pedro era um desses autores que se quer imediatamente acompanhar. Por fim, o La République usava como título da recensão a afirmação de que nem toda a boa literatura traduzida em França é anglo-saxónica... O romance galardoado com o Prémio LeYa em 2011 já foi publicado também em Espanha e na Holanda e tem edições agendadas para 2014 em Itália, na Alemanha e na China. Espero que se apaixonem por ele em todo o lado.


 


P.S. Já eu tinha escrito este post quando o meu amigo Luís Castro Mendes me enviou a fotografia que está aí em baixo, tirada em Estrasburgo. Outro livreiro entusiasmado!


 


 


Escrever à mão

Quando era miúda e tinha de estudar, precisava absolutamente de ter um bloco à mão para fazer apontamentos do que ia lendo a fim de decorar e sistematizar a informação; julgo, aliás, que as famosas cábulas já ensinavam muito a quem as fazia, porque copiar para um papel ajuda claramente a reter e a organizar os conhecimentos. Alguns antropólogos defendem que a escrita à mão ajuda a desenvolver o pensamento lógico, a capacidade de abstracção e a objectividade. Mas eis que uma amiga, Maria Manuel Viana, partilha no Facebook uma péssima notícia divulgada no Le Magazine Littéraire, na qual a maioria dos Estados norte-americanos (penso que 45) se prepara para tornar a escrita à mão facultativa nas escolas. A decisão baseia-se aparentemente na circunstância de as pessoas usarem hoje apenas os teclados dos telemóveis e dos computadores para mandarem recados e escreverem textos curtos. Tendo sido realizado um inquérito, a conclusão foi a de que a maioria das pessoas interrogadas estava havia mais de seis meses sem escrever um único texto pelo próprio punho... Ora, os franceses, que até costumam ser bastante tradicionais em termos de educação, não foram tão longe como os norte-americanos, mas também resolveram simplificar a aprendizagem da escrita na escola, anulando maiúscula/minúscula e adoptando apenas um cursivo muito simples semelhante aos caracteres presentes nos teclados actuais, crendo que deste modo as crianças aprenderão mais rapidamente a escrever. Ai, pobre João de Deus, se fosse vivo havia de ter um enfarte... Como dizia a minha amiga no Facebook, será que se esqueceram de que a escrita é o suporte da nossa herança cultural?

Juventude rebelde

Eis um livro que, para mim, que já passei dos cinquenta e tive uma adolescência mais ou menos pacata, foi bastante desconcertante. Trata-se da estreia na ficção de um guionista experiente (trabalha habitualmente com o realizador António-Pedro Vasconcelos) e li-o como um romance a que faltavam bastantes pontas, mas também já me disseram que é um livro de contos atados por um fio mais ou menos invisível. Seja o que for, debruça-se essencialmente sobre o tema da adolescência e do princípio da idade adulta e cita o filme Magnólia em epígrafe, quiçá para nos preparar para uma teia de estranhas e inexplicáveis coincidências. Chama-se Tiago R. Santos o autor deste A Velocidade dos Objectos Metálicos (um belo título) e nasceu na mesma época em que viram pela primeira vez a luz as suas personagens, ou seja, a seguir à Revolução ou pouco depois dela (imagino, por isso, que saiba do que fala). Mas no livro encontramo-las – às personagens – com catorze anos ou lá perto (algumas crescem à medida que as páginas avançam, mas a maioria da acção decorre nos anos 1990), com situações familiares distintas mas cabeças parecidas, zangadas na generalidade com o mundo, como é próprio nestas idades, mas – sejamos francos – algumas vezes com razão. Os seus hábitos fazem pensar numa geração que começou a beber e a fumar ganzas ou a tomar outras drogas muito cedo, que pode ser muito violenta e muito física, que vive com as emoções fechadas em punhos que gostam de esmurrar, nem que seja para fugir de outros socos – os de um pai, por exemplo, que parece viciado neles. Uma geração que nas carteiras da escola já trata o sexo por tu e, de um ano lectivo para outro, confere se as maminhas das colegas cresceram durante o Verão, mas pode nem se lembrar dos nomes delas. Apesar de se cruzarem em vários capítulos, e ao de leve, os destinos destes jovens, que são apresentados curiosamente pelo número que tinham na escola, são mais as histórias individuais que importam e acabam por justificar ou ajudar a perceber porque determinados adultos são, afinal, como são. A ideia de que o céu é uma festa que está a acontecer a milhares de anos-luz e de que o brilho das supostas estrelas é tão-só o que vemos através da alcatifa esburacada pelos morrões dos cigarros dessa festa é bastante original. E há outras assim, igualmente desconcertantes.

Ler sentado

Imagem

Só nos primeiros três meses de 2013 a cidade de Londres teve mais de três milhões de turistas. E não é que não houvesse já uma imensidão de coisas para ver e visitar na capital inglesa, mas a ideia não deixa de ter piada: em alguns jardins, vão ser colocados em 2014, lá para a Primavera, os chamados book benches, bancos em forma de livro aberto com as capas de algumas das obras mais emblemáticas em língua inglesa pintadas nas costas, como – só para dar um exemplo – o mundialmente famoso Peter Pan. A iniciativa partiu de uma empresa sem fins lucrativos que se preocupa com a diminuição dos índices de leitura no Reino Unido e espera, assim, incentivar alguns jovens a procurar determinada obra entre as representadas nestes cinquenta a setenta bancos coloridos que vão ornamentar os parques de Londres. Os bancos serão patrocinados por grandes empresas de vários sectores, incluindo editoras de livros infantis, como a gigante Walker Books. E as crianças poderão sentar-se neles a ler ali os livros que eles mostram ou outro qualquer. A imagem, pelo menos, promete.


 


Privacidade

Aqui há quinze dias, Edward Snowden dizia numa entrevista que as crianças que nascerem este ano já não terão qualquer possibilidade de saber o que é a privacidade. Escrevi neste blogue há cerca de um mês um post sobre escritores que se sentiam espiados nos EUA, mas, com as actuais práticas da Agência Nacional de Segurança norte-americana, há muitos outros que se queixam de que os cidadãos, escritores e não só, estão todos a ser tratados como potenciais suspeitos e que isso é inaceitável. É por essa razão que mais de 500 autores de todo o mundo, entre os quais alguns laureados com o Prémio Nobel da Literatura (Pamuk, Günter Grass e Coetzee, por exemplo), pedem uma reforma urgente das práticas de vigilância governamental e exigem às Nações Unidas uma declaração universal sobre privacidade na Internet. A carta tem por base revelações feitas a partir de documentos obtidos por Snowden, que põem em causa, segundo os escritores, a presunção de inocência, quando a democracia, dizem, deveria ter justamente como pilar a integridade inviolável do indivíduo. «Uma pessoa sob vigilância deixa de ser livre; uma sociedade sob vigilância deixa de ser uma democracia», lê-se no documento assinado por autores de 81 países, incluindo o escritor e jornalista português Pedro Rosa Mendes, que já foi vítima de censura encapotada e afastado por declarações proferidas num programa da rádio estatal. O britânico Ian McEwan diz que o Estado escolhe sempre a segurança em detrimento da liberdade e que as novas tecnologias trouxeram formas de vigilância que espantariam o próprio George Orwell, o sublime criador de 1984. E, com outros escritores, declara que, nas suas páginas, ambientes e comunicações pessoais, todos os seres humanos têm o direito de não ser observados nem incomodados, direito que tem vindo a ser esvaziado em nome da vigilância em larga escala. Vamos ver se as Nações Unidas lhes dão ouvidos.

Ler por telefone

Já se sabe que meio mundo ou mais depende da tecnologia para sobreviver e que os jovens morrem se não têm o telemóvel ali à mão. Pois foi certamente a pensar neles que a rede de Bibliotecas Municipais de Lisboa (BLX) criou recentemente uma aplicação para tablets e smartphones designada Cartão BLX que permite requisitar livros através de um simples telemóvel, bem como consultar os horários das várias bibliotecas da rede, saber os dias e locais de paragem da biblioteca itinerante e ainda fazer o ponto de situação dos pedidos, requisições e datas de devolução do que foi emprestado. A aplicação, desenvolvida pela empresa Innovagency, pode ser descarregada gratuitamente (vá lá) e constitui, ao que parece, o primeiro cartão digital de um serviço público em Portugal. Oxalá a modernice leve mais gente a ler, isso é que é importante.

2014: O que ando a ler

Ora então sejam muito bem-vindos a este vosso blogue em 2014 (desejo, aliás, a todos os Extraordinários um bom ano, pelo menos em leituras). Para não quebrar a regra, falarei hoje do calhamaço que me ocupou grande parte das férias, o romance da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie intitulado  Americanah, que conta, ao longo de setecentas páginas, as histórias paralelas de Ifemelu e Obinze, uma rapariga e um rapaz nigerianos que se apaixonaram no fim da adolescência e são, em tudo, o par perfeito. Num período de grande agitação em Lagos, com manifestações e greves sucessivas na Universidade, Ifemelu decide, com a ajuda de uma tia emigrada, tentar a sua sorte com uma bolsa de estudos nos EUA, onde se sente, pela primeira vez na vida, uma negra (as páginas sobre o que fazer aos cabelos para arranjar um emprego decente são especialmente curiosas e divertidas). Obinze, embora mais tarde, parte também do seu país para Londres, onde começa por limpar retretes e acaba deportado por causa de um casamento de conveniência que o ajudaria a obter a residência. Americanah é, pois, um livro sobre os emigrantes africanos nos EUA e na Europa, lugares onde parecia que os sonhos dos dois jovens facilmente se concretizariam, mas, afinal, tudo é mais difícil do que na terra atrasada donde vieram. E é também um romance sobre afinidades, identidade, política e amor, pois quinze anos de separação não bastam ao casal de namorados para se esquecerem um do outro e entenderem qual o lugar onde realmente podem ser negros e felizes, apesar de o regresso à pátria trazer um outro olhar, muito mais crítico e simultaneamente mais comodista sobre os costumes de uma África ainda muito crua. A América não sai lá muito bem do retrato, nem a Nigéria, mas, nestas questões, nem podia ser de outra maneira. São muitas páginas, bem sei, mas lêem-se de um fôlego.