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A mostrar mensagens de junho, 2014

Equipas

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Já aqui falei recentemente de uma Taça da Literatura organizada por uma universidade, que decorre ao mesmo tempo que se realizam os jogos do Mundial de Futebol. Pois, pelos vistos, houve mais quem se lembrasse deste tipo de paralelismo, entre desporto e literatura. O Grupo Penguin, talvez o maior aglomerado editorial do mundo e seguramente um dos mais ricos, decidiu criar a Penguin Cup, apresentando aos leitores do seu site os «onze» das equipas concorrentes; não de todas as que entram na Copa do Mundo, bem entendido, pois provavelmente não haverá escritores conhecidos suficientes em algumas delas; em todo o caso, de dezasseis nações, que incluem – para não falar dos países de língua inglesa – o Brasil, a Argentina, a França, a Alemanha, o Japão ou Portugal. Não tenho ideia de quem escolheu o nosso onze, mas o que se diz é que ele podia ser inteiramente constituído por Pessoa & heterónimos, só que isso constituiria uma equipa demasiado desassossegada; em vez disso, puseram o dito Fernando como avançado central, enquanto a baliza foi preenchida por Lobo Antunes. À defesa, estão dois mortos, Aquilino e Antero, ladeados por dois vivos, Lídia Jorge e Miguel de Sousa Tavares (o único dos quatro que deve gostar de bola). Num meio-campo mais poético, jogam Camões, Garrett e Mário Cláudio (agradeço a escolha do último, como sua editora). E, de cada lado de Pessoa, Camilo e Saramago candidatam-se a goleadores. E explica-se: «A literatura portuguesa é talvez menos conhecida no estrangeiro, sobretudo nos países anglófonos, do que a dos seus vizinhos europeus, mas tem uma tradição fantástica e produziu obras notáveis e seminais.» Pode ser que ganhemos leitores, já que no futebol deixamos muito a desejar.


 


Electricidade

Bem sei que os leitores deste blogue não são muito dados à poesia – e gostam de passar à frente quando aqui venho elogiar ou publicitar um livro de poemas; mas eu é que não posso deixar de o fazer, sobretudo quando tenho a certeza de que, se se dessem ao trabalho de conferir a minha opinião, muitos dos extraordinários se tornariam fãs do género ou, pelo menos, de algum dos poetas que aqui refiro. Pois hoje é um desses posts que vos ofereço – e não vale passar adiante, não só porque a matéria é preciosa, mas porque não é todos os dias que podemos louvar o aparecimento de uma nova voz. E esta é, de muitas que têm surgido nos últimos anos, realmente especial. Os suplementos literários já lhe dedicaram encómios q.b., mas nunca é demais apresentar Matilde Campilho e o seu Jóquei aqui nas Horas Extraordinárias, até porque cavalga bem, sendo quase uma revolução o pó que levanta nas suas páginas. Completamente diferente de tudo o que li em português (língua que a autora reinventa e mistura tranquilamente com outras sem nada ranger nunca), este livro tem uma electricidade de que ninguém se consegue desligar, está cheio de uma energia que, aparentemente coloquial (e que bem lhe fica esse tu-cá-tu-lá), logo se vê culta e profunda, mas – é bom dizê-lo – sem excesso de peso. Muito brasileiro também – a autora viveu no Brasil uns quantos anos e soube roubar ao português de lá uma graça que reproduz sem imitar. Enfim, uma lufada de ar fresco muito rara nas nossas letras, que é preciso receber de frente, na cara, como estalada que nos acorda para podermos aproveitar o dia que aí vem. E dizem que já esgotou a primeira edição, o que só podem ser boas notícias.

Blues café

Estamos sempre a tempo de apanhar o comboio do passado – e eu estou apostada em fazer ainda algumas viagens que deveria ter empreendido há muitos anos. A Feira do Livro ajuda-me normalmente a recuperar o tempo perdido com os seus saldos, e este ano não foi excepção. Por uns míseros euritos – já não sei se dois, se três –, comprei essa pequena maravilha que faltava às minhas leituras (sim, é uma vergonha, e nem tenho desculpa, pois foi um dos livros de juventude do Manel) chamada A Balada do Café Triste, de Carson McCullers, escrito em 1951 (a tradução é de José Guardado Moreira, embora o escritor José Rodrigues Miguéis tenha traduzido outros livros da autora) e considerado por Tennessee Williams uma das obras-primas da literatura em língua inglesa. As personagens tinham tudo para dar errado – uma estrábica, um corcunda e um ex-presidiário – mas a verdade é que ficam ao nosso lado todo o tempo como amigos que não queremos deixar e dos quais nos vamos apiedando à vez (ou com os quais nos vamos irritando). E, como se estivéssemos dentro do café (que abre as suas portas por acaso e as fecha para sempre depois de um combate desigual), vamos prestando atenção a todos os que por lá se sentam bebendo o whisky que Miss Amelia destila (a muitos as mulheres não os deixam beber em casa) e acompanhando, com respeito e alguma mágoa, a vida desta rapariga rica do Sul que esteve casada apenas dez dias e se apaixonou uns anos mais tarde por uma criatura bastante atípica. Mas não é a história que importa, é uma maneira de escrever brilhante, com apartes inesperados, interpelações curiosas ao leitor e descrições belíssimas. Tristes, como o café, ficamos por ser tão pequenino, tão rápido de ler.

Os novos jornalistas

Conheço alguns jornalistas que escrevem e falam bem e sou até admiradora da prosa e da inteligência de alguns. Também sei de outros que, não sendo brilhantes, fazem apesar de tudo o seu trabalho competentemente – e trabalham muito, a avaliar pela quantidade de páginas que nos oferecem semanalmente. E, porém, na mesma semana em que tive conhecimento dessa notícia dramática que é o despedimento de cerca de 60 jornalistas – entre profissionais do Diário de Notícias, TSF, Jornal de Notícias e O Jogo, alguns muito bons –, tomo contacto com histórias de outros que são de bradar aos céus. Alguém publicou, por exemplo, a notícia, com fotografia e tudo, de que Maria João Avillez iria receber a mais alta condecoração do Estado a título póstumo. Ora, certamente a confundiram com a irmã, Maria José Nogueira Pinto, pois Maria João está vivíssima da costa. Desagradável, claro, matar alguém antes de tempo e assustar os amigos... Numa conversa com o Manel, fico a saber que um jornalista de uma revista de grande tiragem lhe telefonou por causa de um artigo sobre Herberto Helder que tinha de escrever e que, quando o Manel lhe explicou que o poeta não dá entrevistas e já não sai praticamente de casa, perguntou onde arranja ele então inspiração para os poemas... Não contente com isso, acaba a conversa a perguntar se Herberto cozinha bem, uma vez que passa tanto tempo em casa (em casa só se cozinha, está visto). Não deve ter ideia nenhuma da idade do poeta, nem de quem é, nem do que escreve, mas a verdade é que foi a ele que pediram o artigo, o que parece ainda mais estranho. E não é tudo: também me contam que, por causa dos itens do orçamento de Estado chumbados pelo Tribunal Constitucional, uma jovem jornalista disse na redacção onde está a estagiar que a Constituição é realmente um livro muito chato, que detestou ler porque tem partes que não se percebem. Há mais, claro, mas fico por aqui para não cansar. Em vez destes estagiários tontos sem editores que os encaminhem e ensinem, devíamos ter alguns dos jornalistas que todos os anos são despedidos. Não me parece que os jornais sobrevivam com estes miúdos, mas dizem-nos que é justamente para poderem sobreviver que despedem quem despedem...

Americanos intranquilos

Aqui há uns tempos, alguém quis retirar As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, dos programas de ensino nos EUA, alegando que tinha passagens racistas e ignorando completamente a época em que o livro fora escrito. A guerra, tanto quanto sei, foi perdida, mas deixou lastro... Leio, um pouco abespinhada, que os estudantes de várias universidades norte-americanas (do Michigan à Califórnia) se juntaram para pedir aos professores de Literatura que certas obras venham acompanhadas de uma espécie de advertência (como as bolinhas vermelhas ao canto nos programas televisivos que podem afectar pessoas mais sensíveis) para a eventualidade de ficarem perturbados ao longo da leitura. Alguns alegaram sofrer de stress pós-traumático ao ler obras com cenas de violência sexual, racismo, o Vietname e misoginia (raparigas que foram violadas na infância, veteranos de guerra e negros marginalizados estão entre os que reclamam um aviso sobre o que vão ler). Alguns professores ficaram irritados, dizendo que os alunos deviam confiar no seu bom-senso e que, além disso, provocar faz parte da sua função e aceitar desafios torna-se fundamental para crescer intelectualmente. Um docente de sociologia achou até ridículo que os alunos fossem poupados às coisas que os chocam ou magoam, defendendo que, sem enfrentarem os seus fantasmas, nunca mais se libertarão deles. Harold Bloom diz que toda a literatura é «trauma» e que as reivindicações não devem ser levadas a sério. Mas os estudantes estão a unir-se, Estado a Estado, para exigir os avisos. A questão está, pois, longe de estar resolvida.

Egoísta

Temos poucas publicações periódicas tão bonitas e cuidadas como a revista Egoísta, publicada há quase quinze anos, editada por Patrícia Reis e dirigida por Mário Assis Ferreira, da Estoril-Sol. É uma revista geralmente temática, com textos em poesia e/ou prosa e muitas páginas dedicadas à arte, com desenhos, pinturas e fotografias originais de grande qualidade ou reproduções de grandes artistas. Embora tenham vindo a diminuir os seus números (uma revista de produção cara tem um preço normalmente caro e a crise obriga a contenção), a qualidade tem-se mantido sempre e agora foi (não é a primeira vez, aliás) recompensada. O seu número de Natal, o 51.º, inteiramente dedicado à Poesia, venceu o Grande Prémio de Design da Papies, Revista do Papel, publicação mensal da Pixelpower dedicada à comunicação gráfica. As 126 páginas da edição galardoada foram animadas por grandes fotógrafos nacionais e estrangeiros (Alfredo Cunha ou Annie Leibovitz, por exemplo) e contaram, entre outros autores, com as colaborações de muitos poetas portugueses (o saudoso Vasco Graça Moura é um deles) e estrangeiros. Parabéns, Egoísta!

Leitura e desenvolvimento

Quando fui pela primeira vez a Buenos Aires, fiquei completamente rendida ao respeito que os porteños têm pelos livros. As livrarias eram lindas e estavam, muitas delas, abertas até à meia-noite. Havia livros à venda por todo o lado, imensos a preço de saldo, o que facilitava a compra, mesmo em tempos de crise; e viam-se muitas crianças a ler nos jardins e adultos com livros debaixo do braço. Ao contrário de outras cidades latino-americanas, ainda de certa forma terceiro-mundistas (no Brasil também, está claro), Buenos Aires respira civilização e cultura e fiquei a saber que, na Argentina, a alfabetização generalizada começou ainda no século XIX (saber ler torna-nos, claro, mais civilizados). Também a Noruega passou de país extremamente atrasado e pobre para um dos que têm actualmente melhor nível de vida (efectivamente, um dos mais ricos de todo o mundo). E não se tratou apenas do petróleo. As pessoas – sobretudo as mulheres – foram todas ensinadas a ler há muito tempo; em dada altura, nem podiam casar-se as iletradas – por não poderem ler a Bíblia em família (a religião tinha muito peso) e porque se considerou que, não sabendo ler as bulas dos remédios, poriam em risco a saúde dos filhos... Uma lição a tirar daqui: leitura e desenvolvimento andam de mãos dadas.

Colossos unem-se

Até aqui, ouvimos falar de concentração editorial (cá começou mais tarde, mas aconteceu, e a LeYa ou o grupo Porto Editora são os gigantes que foram adquirindo as outras editoras) e de concentração no retalho (as cadeias de livrarias que tornaram o mercado outra coisa, não necessariamente melhor, mas uma coisa que veio para ficar e não vale a pena chorar sobre o leite derramado). Mas eis que de repente cai a notícia de que duas das mais importantes agências literárias em todo o mundo se fundem, criando uma só que assim ficará claramente com todos os autores internacionais mais interessantes e ao mesmo tempo mais vendáveis. A agência literária de Barcelona, Carmen Balcells, que negoceia os direitos de Vargas Llosa, García Márquez, Cortázar ou Neruda – além de, claro, o nosso Lobo Antunes –, era de há muito dirigida por essa Carmen que lhe dá nome e que, segundo se diz, não tinha sucessor; o senhor Wylie – conhecido no meio como «o chacal» – e agente de Bolaño, Martin Amis, Jorge Amado, Borges, Nabokov ou Roth, entre muitos outros vivos e mortos –, dizia admirar desde sempre a senhora espanhola. Vai daí juntaram os trapinhos, e agora será ainda mais difícil vencê-los – a menos que se comecem também a unir as agências por esse mundo fora para enfrentar o monstro. É esperar para ver.

Taça da literatura

Vem aí o Mundial de Futebol, a Copa do Mundo, como lhe chamam alguns; e muitas pessoas andarão naturalmente arredadas das leituras, de tal modo o desporto-rei manda mesmo, inclusive nos leitores regulares. Mas a Universidade de Rochester, nomeadamente o seu departamento de literatura internacional, resolveu acompanhar a festa da bola com uma Taça da Literatura; e, à medida que os jogos se realizarem, fará também ela desafios entre dois livros para ver qual deles tem capacidade de ganhar. Não se trata de livros difíceis, mas de obras de todo o mundo que, publicadas originalmente já neste século – de autores em princípio mais jovens, portanto –, sejam legíveis, divertidas e interessantes. As equipas terão de defender, cada uma, «a sua dama» com argumentos sólidos, suficientemente bons para destronar a dama do outro lado; e os livros em competição vêm de muitos países, da Costa do Marfim à Rússia, do Uruguai aos Estados Unidos. Portugal também colabora, e as recomendações não vieram apenas de dentro da universidade, mas de todas as pessoas que as quiseram fazer nesta aldeia global. Mais para diante, logo saberemos se, com «tendinoses» ou sem elas, Portugal tem alguma hipótese de golear.

Mérito próprio

Gosto muito do que faço, mas também sei que um editor sofre muito ao longo da vida com o seu trabalho. Os prazeres equilibram os desgostos e as decepções, mas não as fazem certamente desaparecer. Muitos dos editores que conheço – e que têm uma importância enorme na carreira de determinados escritores – são profundamente desconhecidos do público, que nunca lhes dará o devido valor. Pensem só nos excelentes editores que terão incentivado e apoiado grandes escritores, alguns vencedores do Prémio Nobel, ainda na juventude e talvez cheios de inseguranças? Alguém sabe quem foram? Nos últimos anos, sobretudo pelo modo como circula a informação, já se conhecem alguns nomes, mas, mesmo assim, eu – que sou do meio – não consigo citar mais de seis ou sete. Por isso fiquei tão contente ao saber da justa homenagem feita ao meu colega Zeferino Coelho, da Caminho, editor há 45 anos. Zangada também, porque a homenagem calhou num dia em que tive de ir ao Porto para um lançamento e só lhe pude dar um abraço em diferido. No entanto, estava lá quem interessava: os seus autores, uns mais velhos do que ele (o professor Borges Coelho, por exemplo) e outros mais novos (Gonçalo M. Tavares). A Câmara Municipal de Lisboa condecorou-o com a Medalha de Mérito Cultural. E ele merece-a.

Elogio à leitura

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Já muitos leitores deste blogue leram o primeiro livro de João Rebocho Pais – O Intrínseco de Manolo – e até publicaram opiniões (boas) a seu respeito. Pois o autor volta agora à carga com um novo romance que é justamente um elogio aos livros e, nem que fosse só por isso, já merecia ser lido. A história é de novo terna e divertida: o protagonista deste Dizem Que Sebastião é um workaholic que descobre um belo dia ter perdido os amigos na voragem do trabalho; e, inspirado pelos casais que vê da janela do seu gabinete regressando a casa, decide convidar uma colega para um jantar romântico. Mas, como nada sabe além de estratégias de venda e mapas Excel, leva um arraso tão grande da rapariga que o seu coração acaba por ficar, também fisicamente, abalado; e, forçado a um período de repouso, aproveita-o – e muito bem – para se cultivar. Porém, se deixou os amigos pelo caminho, a quem pode pedir conselhos sobre leituras e mulheres? Lisboa está cheia de estátuas de escritores – e são esses que na verdade mais o ajudam, dando origem a conversas por vezes hilariantes. E, ao final de um ano, Sebastião – dizem – é um outro homem. Uma homenagem belíssima ao livro e à literatura portuguesa, este romance será também de grande inspiração para os leitores jovens.


 


Partida ao meio

A Casa Fernando Pessoa meteu-me numa camisa de doze varas, mas agora já não há como recuar. Amanhã, pelas 17h30, participarei numa conversa no âmbito do Congresso de Fernando Pessoa – e, diga-se de passagem, irei dividida ao meio. Trata-se de juntar a uma mesma mesa uma espécie de gente a dobrar, ou seja, intervenientes que, além da escrita, têm uma segunda actividade ligada aos livros que afecta (ou não) a sua produção literária. Editores, tradutores, antologiadores, serão prejudicados como escritores por fazerem o que fazem no dia-a-dia? A matéria onde metem a mão no quotidiano ajuda-os a alargar os horizontes da sua obra ou, pelo contrário, castra-a ainda mais? O tempo (que não têm) é um problema para os seus escritos, tantas vezes dentro da cabeça mas impossibilitados de serem passados a letra de forma? Como convivem na mesma pessoa as duas personagens? Bom, as minhas respostas dou-as lá, e se quiserem sabê-las é ir, meus senhores.

Aproximar os autores dos leitores

Na minha adolescência, lia-se muito Dickens (quiçá por influência do cinema, pois todos os anos estava em cartaz Oliver Twist ou Scrooge); e, se hoje tivesse de escolher autores que têm tudo para fazer leitores, não hesitaria em referir Dickens, entre muitos outros. Mas, se vou a uma livraria portuguesa, tenho muita dificuldade em encontrar as obras do escritor disponíveis – e, se estava convencida de que o problema era nacional, descobri recentemente que os próprios britânicos se queixam do mesmo. Ao que parece, os jovens leitores ingleses andam desligados de alguns autores clássicos, como Jane Austen, as irmãs Brontë ou Oscar Wilde (e Dickens, claro), que não vêem como «gente real e que viveu, de facto, neste mundo». Por isso, a British Library resolveu tentar aproximá-los destes tesouros literários que correm o risco de cair no esquecimento, descarregando online cerca de 1200 manuscritos originais, primeiras edições, cartas e ilustrações feitas pelo punho de autores centrais na história da literatura, tornando-os acessíveis aos jovens para quem, hoje, só o digital conta. Vale tudo para fazer leitores.

Livros proibidos

Mais ou menos em frente da primeira editora em que trabalhei, existia (e creio que existe ainda) uma livraria chamada Ler. O seu proprietário, Luís Alves (o filho é hoje dono da editora Bizâncio) foi um importantíssimo livreiro antes do 25 de Abril, pois disponibilizava livros proibidos a certos leitores da oposição, correndo obviamente grandes riscos. Também o fundador da Livraria Barata fazia, ao que sei, o mesmo na sua primeira loja, ainda pequenina, onde eu comprei muitos dos meus livros escolares. José Ribeiro teve papel semelhante (e foi preso por causa disso) naquele que hoje se chama o Espaço Ulmeiro, na Avenida do Uruguai, em Lisboa, e a importância das suas actividades clandestinas é referida no livro Uma Outra Voz, de Gabriela Ruivo Trindade, que ganhou, como vos disse sexta passada, a mais recente edição do Prémio LeYa. Por causa disso, a premiada e o livreiro resolveram organizar hoje uma sessão nesse espaço, recordando os perigos de um passado de censura e contando as histórias e episódios reais que inspiraram a narrativa de Uma Outra Voz. Lá estaremos depois do jantar, prontos para falar e ouvir. Se quiser, acompanhe-nos.

Na Feira

Pouco mais de mês e meio sobre a saída de Uma Outra Voz, um romance que se desenvolve à volta de uma família e de um «patriarca» sem filhos na cidade de Estremoz – abarcando um século da história portuguesa e alguns dos seus principais episódios, da implantação da República ao 25 de Abril –, Gabriela Ruivo Trindade, a autora, que reside em Londres há cerca de dez anos, regressa à capital portuguesa para receber o Prémio LeYa; desta feita, a sessão vai ter lugar na Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII, e contará com o discurso do presidente do júri, Manuel Alegre, sobre a obra, mas também com a presença de Paes do Amaral, que entregará o galardão. Em pleno certame comemorativo do livro e da leitura, a Praça LeYa está «engalanada» para este acontecimento, que se realiza, para variar, de portas abertas. Vamos lá ver se os pregões que por vezes invadem o parque – farturas, queijadas de Sintra e gelados – nos vão deixar ouvir os discursos e se a enchente nos permite chegar até ao palco. No dia 12, aproveitando a sua permanência em Portugal, Gabriela Ruivo Trindade estará na Biblioteca José Saramago, em Loures, às 15h00, com Ana Margarida de Carvalho (autora de Que Importa a Fúria do Mar) para falarem das respectivas obras. Se quiser aparecer, não hesite.

Porto-Lisboa

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Hoje, enquanto os extraordinários leitores deste blogue estiverem a ler este meu post, eu estarei em viagem para o Porto, preparando-me para a primeira apresentação pública de Retrato de Rapaz, de Mário Cláudio, de que já aqui falei há cerca de duas semanas. O orador convidado é, desta feita, o brilhantíssimo Alexandre Quintanilha e, durante a sessão, que se realizará na Faculdade de Belas Artes da Invicta, será mostrado o único desenho de Leonardo da Vinci que existe em Portugal e é propriedade do museu daquela faculdade.


 



 


Amanhã, o lançamento será em Lisboa na Livraria Barata – e prevê-se outra bela apresentação pela escritora que não gosta de sol, mas adora a Grécia, Hélia Correia. A novela, um belo relato da relação entre Da Vinci e um seu discípulo ao longo de vinte e cinco anos, merece apresentadores como estes. E merece ser lida, evidentemente.


 


Olá, palavras

Todos os dias ouço alguém queixar-se de que, sobretudo por causa do recurso a uma linguagem simplificada utilizada em e-mails e SMS, os nossos jovens têm um léxico cada vez mais reduzido. É também possível que não andem a ler livros sérios, desses em que se aprende um monte de palavras novas a que se chega por dedução ou consultando o dicionário sem preguiça. Mas existe um projecto de dimensão educativa e comunitária que visa aumentar o vocabulário dos mais novos e celebrar a palavra. É da responsabilidade da Escola Superior de Educação Jean Piaget, na cidade de Almada, e a ideia é convidar ilustradores e autores de literatura infanto-juvenil para contarem, durante hora e meia aos domingos de manhã, histórias às crianças da comunidade e, de caminho, conversarem com elas sobre palavras. Chama-se Olá, Palavra e teve como convidada da primeira sessão Catarina Sobral. Outros se seguirão.

Lê-se? Lê-se

De há muitos anos a esta parte ouço meio mundo dizer que não se lê em Portugal. Admito que existem outros países com índices de leitura muito mais elevados, sobretudo na infância e na adolescência, mas, como se costuma dizer, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Leio, de resto, uma notícia no jornal Público sobre as quebras do mercado de entretenimento durante a crise e, ao que parece, foram os livros que melhor a aguentaram – caindo 1% no ano de 2013, enquanto o resto do sector (música, filmes, videojogos) encolheu cerca de 12%. Bem sei que as pessoas são hoje muito hábeis a rapinar da Internet filmes, músicas e jogos gratuitamente e que, de certa forma, os livros ainda estão, digamos assim, algo armadilhados, o que pode viciar os dados; além disso, entre os que gostam de ler, só 6% se habituaram já ao formato digital... Mesmo assim, a notícia diz-nos que um terço dos portugueses já lê regularmente e que o tempo médio dedicado à leitura é de cinco horas semanais. Comparado com o tempo gasto a ver televisão, talvez seja pouco, mas, se pensarmos bem, são resultados francamente melhores do que tínhamos há dez anos (sem crise) e mostram que cada vez mais gente compra livros. Que livros, não sei, e talvez seja melhor não saber para não ficar triste. Mas lá que se lê, lê.

O que ando a ler

Bem, para variar dos romances (mas nem tanto), dei comigo a ler um livro que me foi oferecido pelo autor, com dedicatória e tudo, e que, como é óbvio, ele sabia que me iria interessar (e muito). Chama-se O Futuro da Ficção e assina-o António-Pedro Vasconcelos que, além de cineasta, é um homem que lê muito, que acompanha os novos ficcionistas (apresentou o primeiro romance de João Tordo, por exemplo) e que pode falar da ficção em todas as suas formas – de Homero a John Ford – porque tem uma cultura muito sólida e abrangente e, desse modo, é capaz de relacionar períodos, escolas, formas artísticas… O seu ensaio, apesar de ter como título «O Futuro...», é, de resto, bastante retrospectivo e ensina-nos que os grandes períodos artísticos foram, ao longo dos séculos, extremamente curtos (o maior de todos durou cem anos, se tanto, mas os tempos geniais na música, na pintura ou na literatura foram, regra geral, bastante mais reduzidos; isto para dizer que é normal haver vazios criativos mais ou menos longos, em que nada que valha realmente a pena registar aparece (e faz bem as contas, de forma que é fácil dar-lhe razão). O problema é que, segundo APV, existe uma crise na criatividade mundial desde os anos 1980 – e a globalização não tem ajudado a corrigir a situação. O futuro? Bem, ou a situação trágica em que o mundo se encontra se tornará ainda mais trágica e desencadeará naturalmente um boom de imaginação (tem sido sempre assim, como o livro explica); ou vamos viver menos em pânico, mas provavelmente sem que nenhuma arte possa ser digna desse nome durante muito tempo (tanto como o vazio entre o fim do Império Romano e o Renascimento). Venha o Diabo e escolha... Leiam o livro, é muito mais do que aqui digo, claro. E aprendam como eu. E assustem-se também.