Mensagens

A mostrar mensagens de novembro, 2010

Afinal, havia outra

Imagem

Há uns dias, referi uma agenda perpétua recentemente publicada pela Babel que oferecia um verso por dia a quem quisesse usá-la na secretária ao longo do próximo ano (ou de outro qualquer). Alguém comentou – e muito bem – que o Poemário da Assírio & Alvim, pioneiro nesta matéria, servia os mesmos objectivos e, pouco depois, descobri que, em termos de agendas poéticas, afinal ainda existia outra, editada pela Dom Quixote. Chama-se Todos os Dias Felizes e, em relação às já citadas, tem a vantagem de se poder trazer na carteira, pois é fininha e maleável; além disso, tem espaço para telefones e moradas, umas quantas páginas para nos recordar dos aniversários mais importantes e ainda umas folhas de linhas no fim para escrevermos o que nos der na gana. E, claro, excertos de poemas portugueses. Por isso, se gosta de poesia, tem várias opções para passar o ano bem acompanhado.


 


Uma correcção

Para os que não lêem os comentários: depois do meu post de quinta-feira, que desencadeou muitas reacções de indignação, uma funcionária da Livraria Bertrand esclareceu que podemos ir pôr no livrão livros infantis não comprados naquela cadeia desde que sejam novos. Tenho pena de que o anúncio que mencionei não o dissesse, mas fico obviamente contente que assim seja.

Humor britânico

Dizem que os ilhéus são muito diferentes dos continentais e que possuem características próprias. No caso dos Ingleses, é sabido que o humor constitui, de facto, uma das suas marcas distintivas (há umas semanas, ouvi até Pedro Mexia dizer na rádio que mais nenhum país se atreveria, como fez o Reino Unido, a dar um prémio como o Booker a uma comédia). Uma das séries de livros mais divertidas que encontrei até hoje – e que de modo algum poderia ser escrita senão pelos nossos velhos aliados – chama-se The Bluffer’s Guides e veio parar-me à mão há muito tempo, quando os jornais começavam a vender ou oferecer livros e a editora onde eu então trabalhava cuidou da produção de uma dúzia de títulos (tradução revisão, grafismo, capas, etc.) para esse fim. Não sei se o título que se arranjou na altura para a colecção (O Especialista Instantâneo) vingou, se permaneceu o original, mas ri-me a bandeiras despregadas com a ideia geral e cada um dos volumes. Tratava-se, afinal, de aprendermos o suficiente sobre um assunto de maneira a tornarmo-nos especialistas instantâneos e não fazermos feio num encontro de entendidos. A forma de o ensinar era, porém, hilariante, deixando-nos alegres com a aprendizagem, mais cultos do que antes e, mesmo assim, com a sensação de que tudo aquilo que líamos não passava do mais despudorado conjunto de mentiras... Agora, com as livrarias todas do mundo à distância de um clic nas teclas do computador, pode divertir-se muito com estes guias de temas tão variados como sexo, marketing, economia, filosofia, surf, James Bond, mulheres, Idade Média ou música. E, se nunca foi a Paris, experimente ler o correspondente Bluffer’s Guide e arrote postas de pescada junto dos que se julgam experts na cidade do charme.

Veneza e Varanasi

Uma vez, fui jantar com um amigo a um restaurante entre o Terreiro do Paço e Santa Apolónia que tinha uma particularidade: servia comida indiana e italiana (e não outras). Nunca vira as duas cozinhas associadas em restaurante algum, nem consegui destrinçar por que motivo o proprietário tomara aquela estranha decisão de alimentar os clientes com duas gastronomias tão diferentes. Ignoro se o restaurante ainda lá está, mas o livro de que falarei hoje tem, curiosamente, como cenários a Itália e a Índia. Chama-se Jeff em Veneza, Morte em Varanasi, escreveu-o Geoff Dyer, e li-o há talvez dois anos em inglês, ainda em versão PDF, mas sei que foi entretanto publicado em Portugal. A primeira parte, que decorre em Veneza, é a história de um daqueles encontros desiguais entre um homem e uma mulher: o homem tímido e discreto, nada good looking, para quem a coisa mais improvável do mundo é ter na sua cama durante os dias que dura uma bienal de arte em Veneza uma mulher que toda a gente aspiraria a ter nos braços. Para ele, é a história de amor da sua vida; para ela um intermezzo fogoso mas aparentemente inconsequente. A descrição é arrebatadora e arrasta-nos ao longo das páginas, desejosos de mais. Eppure, depois da despedida italiana, uma cortina atira-nos o homem para a Índia, mais exactamente para a cidade santa de Varanasi, num estado de declínio que não conseguimos atingir (há que esperar até ao final do livro para saber), perguntando-nos mil vezes se a mulher ali aparecerá para o salvar. Mais espiritual e escura, esta segunda parte irá esclarecer-nos sobre as reais consequências da experiência amorosa e o inescapável destino dos protagonistas. Escrito com dois ritmos inteiramente diferentes, tem uma estrutura bastante original e serve de aviso aos que – passe o paradoxo – se atiram, sem rede, para as redes da paixão.


 

Armados em bons

Um dia destes, chamou-me a atenção um anúncio de página inteira com um ar pré-natalício publicado num suplemento cultural de um jornal diário. Tratava-se de uma campanha aparentemente a favor das crianças que não têm dinheiro para comprar livros e apelava ao nosso sentido de generosidade, caridade ou dever, propondo-nos que comprássemos um livro para essas crianças e o depositássemos num «livrão» – recipiente donde, em Dezembro, os livros seriam retirados e entregues a crianças de determinada instituição. Assim, à primeira vista, uma ideia louvável, claro; eu até tenho em casa muitos livros infantis repetidos ou dispensáveis que não me importaria de ir pôr no dito livrão – e também não me escusaria a comprar mais um ou dois nesse espírito de missão que se traduz em dar livros a quem quer mas não pode ler. O anúncio era, porém, de uma conhecida cadeia de livrarias portuguesa e, no livrão, afinal só podem colocar-se livrinhos acabados de comprar em qualquer das suas lojas... Sim, leu bem. Um negócio para a respectiva livraria, claro, mas disfarçado de acto beneficente... Sem contar com o custo do anúncio – que não se pode desdenhar em tempos de crise – e, provavelmente, da construção de livrões vários, tudo o mais é lucro limpo e sem osso. Nunca gostei muito dos que se armam em bons...

Alisto-me

Imagem

João Pombeiro – jornalista e editor – acaba de publicar um livro que é uma delícia e nunca se esgota, podendo ser quase infinitamente consultado. Chama-se O Livro das Listas e tem o curioso subtítulo Tudo o que sempre quis saber e não tem medo de perguntar. Alguns dirão que não serve exactamente para nada, mas a verdade é que se perde tanto tempo entre as nossas mãos que, pelo menos, nos afasta de livros maus ou outros trabalhos menos dignos e interessantes. E está cheio de informações divertidas, surpreendentes, originais (algumas listas são elaboradas por colaboradores como João Miguel Tavares, Pedro Vieira, João Tordo ou Salvato Telles de Meneses) e estapafúrdias. Falemos, por exemplo, dos 7 livros para deixar a bebida sem recorrer aos Alcoólicos Anónimos, dos 5 excertos de livros infantis que podiam ter traumatizado centenas de crianças, dos 12 produtos de uma despensa portuguesa de há cinquenta anos, dos 18 insultos para usar no dia-a-dia, dos 13 pedidos impossíveis de satisfazer numa livraria portuguesa, para além, claro, das goleadas deste ou daquele clube, dos carros ou discos mais vendidos em determinado dia ou ano e dos ciclistas que tiveram mais vezes a camisola amarela junto à pele. Mas a melhor lista de todas é, sem dúvida, a das 15 teses de mestrado e doutoramento sobre... o tremoço! A capa do livro, igualmente bem-disposta, mostra-se abaixo.


 





Obrigada, obrigada

Hoje sinto-me um pouco como Amália a agradecer os aplausos depois de um fado. O Horas Extraordinárias fez seis meses e recebi as felicitações de um… Sapo. Mas estas felicitações dadas à «princesa» devem-se mais a quem consulta e lê do que a quem escreve e, por isso, quero agradecer a todos os que, desse lado – comentando ou em silêncio –, me têm feito companhia ao longo deste primeiro semestre e, sobretudo, me têm feito sentir que vale a pena estar na blogosfera. Não sei se estou a exagerar, mas os números parecem-me extraordinários, como convém a um blogue com este nome: houve mais de 100 000 visualizações e, pasme-se, os «leitores» vieram de 73 países. Cerca de 20% dos acessos fez-se de forma directa – o que quer dizer que já há visitas que vêm a esta casa antes de irem a outras – e cerca de 70% dos visitantes chegaram aqui através de blogues e sítios de referência (obrigada, amigos bloguistas). Os novos leitores também não param de aparecer – e mais de metade vem do Brasil, o que me deixa muito feliz, uma vez que me interessa mais o grande espaço lusófono do que o Portugal pequenino. Por tudo, muito obrigada. Espero contar convosco neste segundo semestre que agora começa.

Um ano de poesia

Imagem

Há uns meses, pediram-me da Babel uns cinco versos de poemas meus para incluírem numa agenda que publicaram recentemente na sua colecção K4. Quem gosta de poesia pode, pois, orientar o próximo ano por esta agenda tão bonita e maneirinha, que fica bem em qualquer secretária e iluminará quem nela queira registar os seus afazeres com um verso por dia. Chama-se Dou-te Um Verso e tem um design bonito (faz pena escrever nela, mas para o ano há mais, uma vez que se trata de uma agenda intemporal que pode ser vendida eternamente). Inicia-se com um verso de Cesariny e vai por aí fora, citando imensos poetas, dos mais aos menos conhecidos, dos mortos aos vivos, dos consagrados aos mais jovens, até terminar... outra vez com Cesariny. No fim, lista os poetas participantes e oferece calendários até 2013. É baratinha (à roda dos 7,50 Euros) e dá um belíssimo presente de Natal.


 



 

Fugir de nós

Um dos filmes que mais me marcaram foi o belíssimo Na América, de Jim Sheridan, no qual um casal irlandês a quem morreu um filho parte com as duas filhas vivas (excelentes actrizes de palmo e meio) para os Estados Unidos, em busca de uma vida que os redima dessa terrível morte que não teriam podido evitar. Não sei bem porquê – embora, evidentemente, haja pontos de contacto –, mas há um livro que estará para sempre associado na minha mente a esse filme doloroso e magnífico. Chama-se E Então Fomos Embora e foi escrito no dealbar deste século por Michael Kimball, a quem a crítica chamou, sem hesitações, “o sucessor de Faulkner”. Não deixando de ser absolutamente pungente no relato que faz da vida de uma família que atravessa a América com o caixão de um bebé (e o bebé lá dentro, claro) a caminho de um lugar digno para o sepultar, consegue escapar sei lá por que artes ao melodrama e à lamechice tão típicos do cinema americano de grande audiência. Descrevendo uma cidade atrás da outra através dos olhos de duas crianças que assistem ao desmoronamento dos pais e à perda total de bens e força para os conquistar ao longo do percurso, além de constituir um guia de viagem realista do interior dos Estados Unidos (que é, habitualmente, a parte que desconhecemos daquele país), transforma as maiores e mais penosas contrariedades em factos que as crianças, por serem crianças, aceitam com a maior das naturalidades. Na linha de Faulkner e Steinbeck, este é um livro de um autor a quem se deve prestar atenção, desde que os leitores tenham bons estômagos.

Chocolate, um aviso

Imagem

Hoje estarei no lançamento de um livro para o qual participei com um conto. É um livro de contos de mulheres à volta do chocolate para saborear num domingo à tarde – dia em que há tempo para experimentar receitas novas, porque cada conto inclui uma receita. Chama-se Chocolate – Histórias para Ler e Chorar por Mais e tem um design maravilhoso e suculento de Maria Manuel Lacerda. Em algumas livrarias, é vendido numa caixa com forminhas de silicone – coisa para mulher que gosta de pôr a mão na massa, como é bom de ver. Como não sou grande apreciadora de chocolate (gosto, mas quase não consumo), achei graça ser convidada – e aceitei com gosto até pela estranheza; e, como sou péssima cozinheira (o meu primeiro bolo ferveu em vez de cozer no forno), resolvi escrever justamente uma história sobre uma cozinheira exímia e os seus cursos de Culinária. Mas o que quero com este post não é fazer publicidade, mas tão-só avisar as eventuais leitoras de que não devem experimentar nenhuma das receitas da minha protagonista: são coisas inventadas para uma ficção, e não para a realidade, e podem dar mau resultado. A receita final, sim, é verdadeira – e fazia-a quando era criança por ser muito simples; mas, para quem gosta de cozinhar a sério – e de chocolate –, o melhor é ver o que produziram as restantes autoras (Alice Vieira, Catarina Fonseca, Isabel Zambujal, Leonor Xavier e Rita Ferro): em texto e em culinária.


 



Cruzes credo

Quando estava na Temas e Debates, logo no início, publiquei na colecção de romances estrangeiros uma fábula que podia ser lida por jovens e adultos com a mesma facilidade e o mesmo interesse. Passava-se num reino imaginário e altamente democrático (utópico, bem vistas as coisas) em que era decidido organizar um torneio de religiões para escolher a que melhor podia servir aquele território. Os participantes eram todos altos representantes do judaísmo, do cristianismo, do islão, do budismo, do hinduísmo e, se a memória me não falha, também um ateu. Tinham de apresentar as grandes vantagens da sua religião em relação a todas as outras e ser confrontados com acusações dos seus concorrentes ou rivais. Intitulava-se O Rei, o Sábio e o Bobo, assinava-o Shafique Keshavjee – um especialista em questões interconfessionais – e dava, em duzentas páginas, informações de base (crenças, livros sagrados, rituais, etc.) sobre as principais religiões do mundo embrulhadas numa história que incluía atentados, raptos e outras peripécias. Narrado como o relato de um concurso, era de leitura fácil e aliciante, ideal para quem quer aprender o que não sabe e só gosta de falar de determinados assuntos com conhecimento de causa. Não digo, como é óbvio, quem ganhava o torneio – estragaria por certo o prazer a quem o quiser ler.

Livros terapêuticos

Tenho uma grande atracção pela psiquiatria e pela psicanálise e muita fé em terapias que curem estados de alma cheios de escuridão sem recurso a químicos. Sei que não servem para toda a gente e que é preciso – como com um livro – que a combinação entre sujeito e objecto (melhor: entre paciente e médico) funcione. No entanto, não consegui deixar de apreciar a sátira a estas práticas numa grande comédia de David Lodge, que teria dado um fantástico filme realizado por Woody Allen se os argumentos dos seus filmes não fossem sempre ou quase sempre do próprio. Numa altura em que andamos todos cabisbaixos com as notícias de um país à beira da bancarrota, faz bem à alma ler um romance inteligente, informado e divertido como Terapia. Inesquecível desde logo a cena em que o protagonista recebe da mulher um pedido de divórcio e chega à conclusão de que nem sequer tinha a noção de que se davam mal; mas mais hilariante é a tentativa de o mesmo capar com uma tesoura de podar o professor de ténis por quem crê que a sua mais-que-tudo está loucamente apaixonada. Para quem gosta de livros bem-dispostos, muitos dos romances de Lodge são aconselháveis, mas alguns talvez excessivamente britânicos. Este, porém, sobre as fraquezas humanas, não podia ser mais universal.

Edições de luxo

No mesmo dia em que a revista Única dedicava um número aos luxos dos mais e menos conhecidos, participei daquilo a que se pode chamar um lançamento de luxo. Tratava-se da apresentação pública de Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares – um livro em verso-prosa que narra a viagem de um português (estranhamente chamado Bloom, como o Bloom do Ulisses) até à Índia, partindo de Lisboa e parando em Londres e Paris, no século XXI. Escrito de certa forma à sombra d’Os Lusíadas, com os mesmos cantos e estrofes e também algumas glosas em versos precisos (para quem conheça bem o poema de Camões a leitura deve ser ainda mais extraordinária), este é um livro que vai dar que falar cá e em toda a parte, hoje e daqui a cem anos. E, embora não o tenha ainda lido (mal lhe pus a mão, para ser sincera), a verdade é que me sinto desde já à vontade para o recomendar. E porquê? Pois bem: não só a apresentação de Vasco Graça Moura foi suficientemente elucidativa e aliciante, mas também – ou sobretudo – a leitura de vários excertos por Pedro Lamares (um grande, grande diseur) mostrou que o texto é absolutamente genial e tem de ser lido com todo o tempo do mundo. Em época de mediania, como aquela em que vivemos, este é um luxo irrecusável – e a ele voltarei neste blogue para confirmar, com toda a certeza, as minhas suspeitas assim que terminar a leitura.

Plágio ou não, eis a questão

Na véspera do lançamento público do romance Rio Homem, de André Gago (AG), foi o autor informado por uma jornalista que o entrevistara na véspera de que Francisco Duarte Mangas (FDM), jornalista e escritor, enviara para a redacção uma nota acusando André Gago de ter, grosso modo, plagiado uma novela que escrevera em 1993 intitulada O Diário de Link, tantas eram as coincidências e semelhanças que encontrara. Conheço, embora superficialmente, Francisco Duarte Mangas, por quem tenho respeito enquanto autor (acho pena, aliás, que nunca tenha tido o reconhecimento que merece) e estima enquanto pessoa. Também por isso a acusação me pareceu estranha: o romance de AG já passara, no Prémio Leya, o crivo de um júri com nomes de respeito (entre eles, Manuel Alegre, Nuno Júdice ou Pepetela), fora objecto de uma crítica por Miguel Real no JL (que o inseriu numa tradição literária portuguesa, enumerando muitos outros autores, mas nunca FDM) e ia ser (já foi) apresentado por Lídia Jorge em sessão pública. Além disso, as razões invocadas para o «plágio» no comunicado eram demasiado gerais, entre elas o facto de a acção decorrer na mesma aldeia em ambos os romances e haver «uma história de amor arrebatadora»… Porém, porque não gosto de me pronunciar sem ter os dados todos, dei a FDM o benefício da dúvida. Subi então à escada em demanda do seu O Diário de Link nas estantes lá de casa, pois o Manel garantiu-me que possuía um exemplar (e porque só tem 85 páginas, na confusão, foi mesmo difícil de encontrar). Li-o e gostei; mas, com toda a franqueza, não encontrei mais semelhanças entre ele e Rio Homem do que as que existiriam entre dois romances passados em Paris com resistentes ou em Coimbra com estudantes... Pontos de contacto, sim, mas os evidentes em autores que se preocupam e escrevem sobre os mesmos assuntos. FDM apresentou, tanto quanto percebi, uma queixa à SPA; AG diz que fez muito bem.

Recitar

António Lobo Antunes é, segundo me dizem, um amante de poesia – um apreciador e um conhecedor. E há uma ou duas semanas, tendo ido autografar exemplares do seu último romance à editora, parece que deu um espectáculo fantástico a quem lá estava para ouvir, recitando de cor imensos poemas portugueses de várias épocas. Há uns dias, quando me encontrei com o escritor Mário Cláudio para agendar a saída do seu próximo romance, ficámos a conversar sobre Yeats e Robert Frost no fim da reunião e, de repente, também ele me recitou ali mesmo, em inglês, do pé para a mão, um poema lindo de Frost sem a mais pequena hesitação. (Podia ter-lhe retribuído com outro, mas fiquei intimidada e não fui capaz.) Era, porém, bonito juntar estes «craques» num lugar qualquer e deixá-los recitar para nós. Tenho a certeza de que fariam mais pelos poemas e os poetas do que algumas (quase todas) livrarias que temos, onde a poesia está sempre escondida ou nem tem existência. Bom serviço à poesia prestam também João Gesta e os seus diseurs nas Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre, no Porto, uma vez por mês, fazendo um trabalho magnífico. Se nunca assistiu e vive na cidade Invicta, não falte da próxima vez.

Um problema de esquerda

O meu «compadre» (como se dizia antigamente) é canhoto (creio que o termo correcto é esquerdino, mas acho que ele não se ofende por eu usar uma palavra, ao que julgo, pejorativa); parece que ainda lhe tentaram ensinar a escrever e comer com a mão direita, mas não deu resultado, e isso não o impediu de adorar fazer riscos e desenhos e ser há muito director gráfico em agências de publicidade. Ainda assim, sempre o ouvi queixar-se das tesouras e das facas de peixe que, pensadas para quem faz tudo com a mão direita, incomodam bastante quem usa a esquerda e, sobretudo, de pouco ou nada servem, porque ficam com as lâminas viradas para o lado em que não há nada para cortar. Sempre me impressionou bastante na infância a forma como os colegas canhotos colocavam a folha de papel sobre a mesa e escreviam – todos torcidos – e, um dia destes, ao ver na televisão um árabe a escrever da direita para a esquerda, pensei que, se calhar, nesses países onde a direcção da escrita é diferente da nossa há mais esquerdinos e os destros são a excepção. Na verdade, também no Japão os livros começam pelo (nosso) fim e a capa está onde nós, por norma, colocamos uma sinopse, críticas e outro material promocional. Será que lá também os canhotos são privilegiados?

Meias-tintas

Imagem

Há muitos anos, numa aula de Literatura Inglesa na Faculdade de Letras, um certo professor declarou, assim sem mais nem menos, que O Último Tango em Paris era um filme sobre a pintura americana. Estranhei, claro, pois o que ouvira dizer do filme nada tinha que ver com a pintura; mas, como na altura não o tinha visto, achei melhor reduzir-me à minha insignificância. Vi-o mais tarde e, mesmo tendo aquela declaração presente e já sabendo mais sobre a pintura americana e sobre outras coisas nessa altura, a verdade é que (mea culpa) não consegui atingir o statement do meu professor. Contudo, ao terminar há dias a leitura de A Beleza e a Tristeza, do japonês Yasunara Kawabata (ouvi alguns conselhos que me deram aqui no blogue e insisti um pouco mais na cultura nipónica), ficou-me a sensação de que, além do enredo, o romance é de certo modo uma obra sobre a pintura japonesa. Claro que trata de outras coisas, do amor quase sempre – magoado, preterido, ciumento, lésbico e vingativo, estados de alma que, descritos por um japonês que ganhou o Nobel em 1968 e se matou em 1972, têm um sentido quase pictórico, sobretudo na cena em que Keiko, a apaixonada e estranha discípula da pintora Otoko, confessa que tem um mamilo insensível e não permite que ninguém o toque. Não foram das horas mais extraordinárias que passei, mas não se pode querer tudo e aprendi muitas coisas sobre o país do Sol nascente e... a sua pintura.


O actor-autor

Imagem

Amanhã é lançado publicamente Rio Homem, o romance do actor André Gago que publico na Asa, fruto de muitos anos de investigação e finalista do Prémio Leya no ano passado. Ao contrário do que costuma acontecer com livros de gente que aparece na televisão – quase sempre escritos por mãos alheias ou simplesmente mal escritos –, este é um livro bonito e profundo que cruza duas histórias magistrais: a de um jovem galego foragido da Guerra Civil de Espanha que perdeu as suas referências e a da aldeia comunitária que o acolheu – Vilarinho da Furna – e que hoje jaz submersa na albufeira de uma barragem. O link para o booktrailer (onde o autor fala do romance com a belíssima voz do actor) aí vai. O convite para que apareçam no lançamento também.


 





Com ou sem badanas?

Quase sempre se escreve na contracapa de um livro um texto que resuma o seu enredo ou avance o assunto de que trata. Nem todos os livros têm badanas (eu gosto dos que têm porque as uso como marcadores), mas, geralmente, quando estas existem, são, entre outras coisas, usadas para proporcionar aos leitores um cheirinho da vida do autor (e por vezes até um relance da sua cara, mais ou menos bonita, tanto faz). As pessoas são curiosas e gostam de saber pormenores sobre quem escreve. O problema é que, de vez em quando, esbarramos numa badana biográfica totalmente disparatada... E já nem falo do número de filhos ou da raça dos cães (detalhes que os norte-americanos adoram acrescentar), mas de dados distribuídos pelas linhas à má fila, sem o mínimo bom senso. Um dia destes, por exemplo, caíram-me os olhos numa badana que começava logo por dizer que a autora era escritora. Ora, se tínhamos um livro dela na mão (e sei lá quantos mais escreveu ao longo da vida), seria mesmo preciso dizê-lo? (Quase me apetece sugerir que faria mais sentido explicar em certas badanas que quem assina o livro NÃO é um escritor.) E a verdade é que não dizia que “era” escritora, mas que o “fora” – mais estranho ainda, porque depois das datas de nascimento e morte entre parênteses a seguir ao seu nome, já tínhamos certamente concluído, se também não o soubéssemos já, que a senhora partira deste mundo. Não bastando isso, a frase seguinte informava-nos de que tinha sido casada com determinado escritor, como se isso lhe conferisse um estatuto que, solteira, nunca atingiria (e há muita gente entendida que sempre a achou muito melhor do que o marido, ainda por cima). Pois bem, parei de ler ali mesmo. Como o Joaquim Namorado disse ao Manel quando ele era estudante em Coimbra, os escritores são para se ler, não para se conhecer. Badanas para quê?

As maravilhas da modernidade

Publiquei no virar do século um livro de Bill Gates onde este declarava que o mundo tinha mudado mais nos últimos cinquenta anos do que nos trezentos anteriores. Talvez seja verdade. Quando comecei na edição, no final dos anos 80, escolhia livros nos catálogos que recolhia nas feiras internacionais, pedia os direitos por carta, às vezes respondiam-me que quem os detinha era um agente, voltava a escrever, mandavam-me finalmente um exemplar e concediam-me dois meses para me pronunciar, após os quais eu desistia ou fazia uma oferta (mais uma vez por carta), que normalmente era aceite três semanas mais tarde. Uf! Nunca um livro saía simultaneamente em todo o mundo, como hoje acontece, mas também raramente havia leilões ou tínhamos de fazer ofertas um ou dois dias após a recepção de um ficheiro em Word ou PDF de determinado romance. Pois é verdade que os tempos mudaram e muita coisa foi facilitada e agilizada. Ainda bem, pois já não conseguiríamos viver sem tudo o que a tecnologia nos trouxe. O Manel não resistiu ao iPod, ao iPhone, ao E-Book e agora também aguarda, ansioso, um iPad que há-de chegar de França nos próximos dias; e eu não escreveria isto nem seria lida sem as maravilhas desta modernidade. Mas, se um dia destes me queixava da memória a seguir aos 50, pois a verdade é que os mais novos também se queixam do mesmo e já ninguém sabe um simples número de telefone de cor, porque a máquina ajuda e não vale a pena exercitar os neurónios em coisa tão comezinha. Por outro lado, com os chats e as redes sociais, tenho ideia de que as pessoas se vêem menos e andam mais sozinhas. Ainda na Gradiva, nos primórdios do vírus da Sida, ajudei a publicar um livro (Vox, de Nicholson Baker), que era uma conversa telefónica sobre sexo entre um homem e uma mulher, respectivamente das costas leste e oeste dos EUA, que usavam as linhas eróticas por constituírem uma forma segura de ter relações sexuais. Acabava bem, porque ambos alcançavam o orgasmo, mas não será um orgasmo melhor em presença do outro? E as centenas de amigos que todos temos no Facebook poderão ajudar-nos quando precisarmos deles?

Desporto em português

Divirto-me há anos a coleccionar «preciosidades» em língua portuguesa, melhor dizendo, calinadas fantásticas que fazem rir até às lágrimas; e troco-as todos os anos na Póvoa de Varzim, nas Correntes d’Escritas, com o Henrique Cayatte, que tem o mesmo passatempo e, embora viva em Lisboa, eu quase só o veja por lá. Tenho uma lista fantástica que juro partilhar aqui à medida que me faltarem ideias para o blogue, mas algumas das melhores saíram da boca de gente ligada ao desporto, cuja linguagem específica está, ela própria, carregada de vocábulos fascinantes como «esférico» para «bola», ou frases inesquecíveis como a que diz que «não se fazem prognósticos antes do jogo». Um dia, depois de ao fim de uma qualquer etapa da Volta a Portugal um jovem ciclista ter vestido a camisola amarela, correram a pôr-lhe o microfone debaixo do nariz; e a primeira coisa que ele soltou cá para fora foi um agradecimento sentido a todos os que tinham trabalhado «em prólogo» da sua vitória. Também o futebolista Jardel, por causa de uma qualquer pergunta incómoda que já não recordo, avançou com um ar muito sério que aquilo era «uma faca de dois legumes». E, depois de ter elogiado cem vezes uma determinada égua num concurso hípico e de a ter visto falhar logo o primeiro obstáculo, o senhor que cobria o acontecimento não arranjou nada melhor para dizer do que «era humanamente impossível ao cavalo» saltar aquela altura...

PUB

Imagem

O João Tordo vai orientar um workshop de escrita de romance. Se se interessar por estas coisas, aí vai a informação.


 


Sem palavras

A poesia é, quanto a mim, muito mais do que as palavras que contém. Se quisesse ser apressada – e agora dá-me jeito sê-lo – diria que, comparada com a prosa, a poesia diz normalmente mais com menos. Claro que nem toda a poesia é assim e nem toda a prosa é assado, mas há uma cadência e uma musicalidade na poesia que, uma vez por outra, quase nos dispensam de ler ou ouvir as palavras que se deitam nos seus versos. Pode parecer estranho, bem sei, mas refiro-me a uma experiência única que vivi em Liège, num festival de poesia, na companhia do poeta José Tolentino de Mendonça (tenho, por isso, testemunhas). Estávamos já um bocado entediados com tanto discurso (era no tempo da guerra na Bósnia e toda a gente politizara as suas intervenções) e só nos apetecia sair do auditório e ir dar uma vista de olhos às livrarias (o conselheiro cultural, contudo, achou que não devíamos). Eis se não quando sobe ao palco um poeta da Eritreia – alto, magro, bonito, com modos de bailarino e gestos largos – e começa a ler um dos seus longos poemas. Mesmo sem percebermos uma palavra do que estava a dizer, o espectáculo foi tão mágico e electrizante que sentimos que o essencial daquele poema tinha passado para nós e para todos os que o ouviam. O feitiço da poesia na voz de um feiticeiro africano. Nas sessões de lançamento de romances, quando alguém se lembra de ler um capítulo em voz alta, quase sempre o público desliga ao fim de uns minutos. Porque será?

Uma questão de pronúncia

Um dia destes, falei aqui de uma espécie de abismo que se criou entre o português de Portugal e o português do Brasil numa situação que vivi no Rio de Janeiro. Todos os países lusófonos têm (e ainda bem) particularidades – e uma delas é a pronúncia (o Manel, que esteve dois anos em Angola nos anos 70, diz que distingue perfeitamente um angolano de qualquer outro africano lusófono quando ele abre a boca para dizer seja o que for). Contudo, esta «pronúncia» ou «maneira de falar» pode dar resultados bastante divertidos. Fui em 1995 a São Tomé e Príncipe fazer uma comunicação sobre autobiografias e descobri, nessa semana, coisas belíssimas (a expressão «leve-leve» para «molenga», por exemplo) e outras curiosas (a uma pergunta do tipo «Já arrumou a sua mala?», a resposta é apenas «Ainda» se houver roupa por arrumar, quando nós diríamos «Ainda não»; disseram-me que o «não» se omite porque, no tempo do império, os negros nunca podiam dizer «não» aos patrões brancos – calculem! – e o hábito foi ficando). Mas houve um noticiário a que assisti uma noite no restaurante do hotel quase hilariante. A data era justamente 25 de Abril, e o jornalista, enquanto mostravam imagens de festa em Lisboa – creio que junto à Fonte Luminosa –, relatava que, naquele mesmo dia, em Portugal, se comemorava a revolução dos... escravos. À mesa só havia portugueses e acabámos todos a perguntar-nos se não havia naquela notícia um fundo de razão...

Guionismo

Um dia destes, tive um brevíssimo encontro com o conhecido dono de uma produtora de cinema e televisão; no meio da conversa, ele avançou que em Portugal não se escrevem bons guiões e que conta muitas vezes com profissionais brasileiros, espanhóis e americanos para conseguir um argumento bem construído e realista. Claro que só começámos a produzir séries e novelas há uns dez anos, pelo que é natural que ainda não tenhamos chegado ao nível dos argumentistas de Hollywood; mesmo assim, haverá certamente alguns bons guionistas em Portugal, quiçá subestimados e mal aproveitados. Em todo o caso, a minha experiência com a leitura de guiões é confrangedora. Depois de me terem proposto fazer a adaptação televisiva de uma série juvenil que escrevi nos anos 90, aceitei com a condição de ler os guiões. Comecei por me escandalizar com o número de erros de ortografia, sobretudo porque os actores eram crianças e iriam ficar certamente cheios de dúvidas (lembro-me de que uma das guionistas não sabia a diferença entre “coro” e “couro”, por exemplo); mas o que mais me chocou foi a completa falta de imaginação (como era preciso haver cenas de suspense – que não estavam nos livros –, em todos os episódios as personagens ficavam fechadas num sítio qualquer, nunca variava) e a incapacidade para perceber que a oralidade e a escrita são coisas completamente diferentes: as frases que as crianças tinham de decorar às vezes pareciam saídas de um compêndio. Como se isso não bastasse, numa história que incluía duas gémeas brasileiras, vi-as transformadas em francesas sem saber porquê. Quando perguntei, explicaram-me que no canal que transmitiria a série havia a regra de ninguém falar com sotaque brasileiro, porque as novelas brasileiras passavam no canal rival... Enfim, depois da duríssima revisão de 26 episódios, percebi que, de facto, é preciso abrir os cordões à bolsa e contratar profissionais em vez de pôr a miudagem a ganhar uns cobres e escrever não importa o quê.