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A mostrar mensagens de julho, 2024

Boas férias

Hoje é o final do mês e as Horas Extraordinárias despedem-se até Setembro. Vem aí Agosto, esse mês meio mole em que a maioria dos leitores deste blogue tira férias, viaja, vai para longe de casa, altera as rotinas, e eu faço o mesmo: descanso, leio, desprecupo-me, fico sem obrigações. Como também o mundo editorial fica meio parado e pouco há que noticiar, não vale a pena desperdiçar tempo e trabalho com o anúncio de umas meras feiras de livro nas praias do País, que em geral só vendem velharias em saldo e mau estado e, com sorte, têm um ou outro autor por lá a autografar. Assim, aproveitarei, isso é mais do que certo, o tempo para ler (clássicos, modernos e livros fora da caixa, seja lá o que isso for) e já comprei alguns no sábado passado, mas ainda aceito uma ou outra sugestão se a quiserem partilhar. Espero que façam o mesmo e que se ilustrem e divirtam com as vossas leituras de Verão e, no regresso, possamos falar delas por aqui. Boas férias a todos e até breve.

No Chile

Conheci, já adulta, pessoas da minha idade ou à roda disso cujos pais tinham andado em fuga, ou na clandestinidade, alguns dos quais tão-pouco usavam o verdadeiro nome. Alguns destes relatos acabaram por tornar-se quase risíveis quando, por exemplo, um controlador do Partido Comunista não sabia que ia controlar o seu próprio namorado... Mas outros eram impressionantes, sobretudo para uma menina que os pais acordaram às tantas da noite, avisando que iriam andar bastantes quilómetros a pé durante a noite e que havia uma coisa estritamente proibida: chorar. Creio que ela nunca mais chorou por nada que não merecesse... Subtracção, de Alia Trabuco Zerán, é um livro sobre três membros desta geração marcada pela clandestinidade no Chile durante o período de Pinochet; é sobre o medo, a prisão dos pais, o trauma e muito mais, sendo que uma das raparigas conseguiu asilo numa embaixada e a outra nunca mais se conseguiu separar da mãe, enquanto o rapaz perdeu o pai e conta (subtrai) mortos a toda a hora. Gostei bastante mais de Limpa, de que aqui já falei também, embora tenha sido este a chegar à final do Man Booker International Prize. Mas, claro, vale a pena ler.

O senhor Rui

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Tanto quanto sei, em tempos a família de Rui Nabeiro terá pedido a José Luís Peixoto, igualmente oriundo do Alentejo, que escrevesse a biografia do empresário; mas o escritor ofereceu-se em vez disso para escrever um romance, no qual «o senhor Rui» é o protagonista, intitulado Almoço de Domingo. Dá-nos uma boa ideia de quem foi o comendador Nabeiro, um homem de extrema humanidade e generosidade, como há poucos, que enriqueceu com o café, mas nunca deixou de apoiar a sua terra e os seus conterrâneos, ajudando sobretudo as crianças e criando um centro educativo em Campo Maior. O fundador da Delta Cafés tem agora um outro livro sobre a sua vida, este infantil, que conta o seu percurso desde miúdo. Chama-se O Avô Rui, foi escrito por Mariana Jones e ilustrado por Joana Gancho, e tem um prefácio de uma neta de Rui Nabeiro, Rita Nabeiro, que fala desta homenagem a um dos portugueses que devia servir de exemplo a todos, adultos e crianças. Se ainda não conhece a vida desta figura que ajudou muita a gente a sonhar, leia-o, pois vale muito a pena.


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Excerto da Quinzena

À noite era um pouco melhor. Podia passar cuidadosamente as mãos pela realidade, alisando-a para a observar com a esperança de, um dia, obter dela uma perspectiva geral, como se examinasse uma tapeçaria inacabada e multicolor cujo padrão oculto e intrincado poderia porventura deslindar, mais cedo ou mais tarde. No silêncio noturno, recordava-se das vozes que ouvira durante o dia e, com um pouco de paciência, desemaranhava-as umas das outras como fios de um novelo. Podia pensar com toda a calma nas palavras, sem temer o aparecimento de novos termos antes que a noite terminasse. Naquela fase da sua vida, a noite só com muita dificuldade apartava os dias, e se abrisse com um sopro um buraco nas trevas – como se desembaciasse uma vidraça coberta de gelo –, a manhã penetraria nos seus olhos muitas horas antes do tempo devido.


Tove Ditlevsen, Os Rostos, tradução de João Reis

Vida e trauma

Hoje fala-se e escreve-se muito sobre identidade sexual e transexualidade. Mas, na maioria das vezes,  o assunto é tratado de forma quase militante, combatendo o preconceito, o discurso do ódio e a violência de género (nada contra, se isso ajudar a corrigir as injustiças, o problema é que por vezes assume uma «gritaria» que tem o efeito contrário). Não é o caso deste livro absolutamente maravilhoso chamado Maus Hábitos, de Alana Portero, que comprei há meses porque a autora estava convidada para vir às Correntes d'Escritas e eu tinha intenção de o ler antes disso. Mas ela acabou por cancelar a viagem e só recentemente peguei no romance. É a história de alguém que, logo aos cinco anos, tem uma noção exacta de que nasceu no corpo errado (um menino que se fecha na casa de banho para se maquilhar às escondidas e que adora sentar-se a ouvir conversas de mulheres sobre roupa e cusquices); e, longe de ser uma obra de agenda política sobre defesa de direitos, linguagem inclusiva, operaçõs de mudança de sexo ou tratamentos hormonais, é toda ela sentimento, carne e sangue, sem filtros, com as palavras todas que magoaram a protagonista enquanto crescia («maricas», por exemplo, aparece em quase todas as páginas) e que a própria usa sem medo nem paninhos quentes. Um livro magnificamente escrito sobre o trauma de não conseguirmos ser quem os outros gostariam que fôssemos e, por outro lado, a dureza de termos de nos esconder, talvez nos piores tugúrios, para podermos ser quem realmente somos nem que seja uma vez por outra. Eu já tinha lido o magnífico As Malditas, de Camila de Souza Viladas, e visto a série Veneno, baseada numa história verídica de uma travesti (é mesmo assim que é descrita no livro, que alega que trans é um eufemismo naquele caso), mas Alana Portero escreveu um livro que não deixa ninguém indiferente cuja acção decorre num bairro problemático dos arredores de Madrid (gente antiquada e bruta, toxicodependentes, rapazes violentos, velhos sozinhos, grupos neonazis...); é mesmo literatura a sério e mostra de forma incrivelmente humana e verosímil o que pode ser realmente o sofrimento de alguém que vive desde sempre uma vida que não lhe pertence. Belíssimo e contudente.

Mais curto e mais longo

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António Tavares, vencedor do Prémio LeYa com o romance O Coro dos Defuntos e finalista deste mesmo prémio com As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia, escreveu ainda mais alguns romances, um maravilhoso livrinho de poesia, teatro e ensaios. Mas Mesmo não Indo, o Tempo Vai é a sua estreia no conto e incrivelmente variada: um homem que vive com um relâmpago dentro dele; uma avó com sangue de galinha; uma rapariga que engraxa esculturas de elefantes africanos de madeira e se surpreende quando o sexo deles muda de tamanho; um manicómio que recorre a métodos pouco ortodoxos para recuperar um doente que fugiu; umas botas militares que mudam inesperadamente de pés; um canário numa gaiola pendurada na varanda de um prédio que irrita sobremaneira um vizinho. Estas são apenas algumas das personagens deste delicioso Mesmo não Indo, o Tempo Vai, um conjunto de histórias admiráveis que decorrem em vários tempos e geografias e que ora nos oferecem magia e surrealismo, ora combinam humor com tragédia ou delicadeza com violência. Verdadeiramente imperdíveis, vêm demonstrar que António Tavares tem igual talento para a ficção mais longa e mais curta.


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Ler e escrever em liberdade

Este ano tivemos um tremendo incidente na zona infantil da Feira do Livro de Lisboa. Uma autora estava a autografar o seu novo livro (e não vou dizer nomes nem títulos aqui porque ainda esta semana vou falar desse livrinho delicioso) quando apareceu um elemento de uma associação de Extrema-Direita a insultá-la, ameaçá-la e impedir que os leitores se aproximassem dela, filmando tudo. A Segurança ocupou-se de expulsar a criatura, mas depois eu soube que não era a primeira vez que aquele tipo de atitude acontecia à jovem autora que nas redes sociais é ameaçada frequentemente. A razão? Escreveu há tempos um livro que se chama, salvo erro, O Pedro Gosta do Afonso. Pronto, esses senhores violentos e botas-de-elástico nunca mais a deixaram sossegada (e parece que há um ex-juiz que faz parte do grupo de autores de ofensas graves) e fazem-lhe ameaças dizendo que sabem onde ela mora... um descalabro que é preciso evitar a todo o custo, pois repete-se contra outros autores, contra bibliotecários e, no fundo, contra todos nós, que gostaríamos de poder escrever e ler em liberdade, passados que estão 50 anos da instauração da democracia. Centenas de pessoas, das mais variadas áreas, desde professores, psicólogos, juristas, bibliotecários, tradutores, escritores, editores, etc., assinaram então um documento em defesa da «liberdade de escrever, de publicar, de ler», que apela  à tomada de medidas de proteção pelas entidades competentes. Diz o comunicado: «O discurso de ódio, violento e discriminatório, proferido por estas organizações, é público e conhecido das autoridades. Muitos destes ataques e ameaças são feitos publicamente, gravados pelos próprios e, depois, orgulhosamente partilhados nas redes sociais.» Devemos todos assinar este documento e exigir que se combata esta insanidade. (Esta gente, na sequência de uma entrevista feita à autora , já deixou à porta na SIC frascos de merda e fardos de palha, entre ofensas e insultos graves e racistas ao director e ao dono da estação.) Eu já  assinei. Se quiser fazê-lo, fará o que é melhor para todos os que gostam de ler.


https://acessocultura.org/2024/07/08/comunicado-pela-liberdade-de-escrever-de-publicar-de-ler/

Um novo Tabucchi antigo

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Sai dentro de dias para os escaparates um livro maravilhoso de Tabucchi que, sendo o seu segundo romance, nunca tinha sido publicado em Portugal. A partir de objectos de família legados de geração em geração e encontrados no sótão da casa paterna, o Capitão Sexto torna-se historiador da sua família. Do primeiro antepassado toscano, nos anos 1850, até ao seu próprio nascimento, reinventa a vida dos antepassados e, através de personagens delirantes (como as duas gémeas grávidas que só têm um filho, a tia-mexilhão, o padrasto que obriga a mulher a comer pescadinhas a toda a hora ou o rapaz que decide não abrir a boca no colégio interno e se desabitua simplesmente de falar), deixa-nos assistir às tribulações de diferentes Sextos através de episódios que contam, afinal, a história da Itália no século XX: a unificação do país, as duas guerras mundiais, o fascismo e os anos da contestação comunista. Este romance incrivelmente imaginativo de um jovem Tabucchi ainda em busca da sua voz literária, combina projecções imaginárias e realidades políticas para nos dar a ler uma narrativa barroca com laivos de lenda que faz brilhar os recursos da ficção. Pouco conhecido do público, O Pequeno Navio conquista os leitores, garanto, desde as primeiras páginas. Não percam. A tradução é de Maria da Piedade Ferreira e foi revista por Maria José de Lancastre, autora da Fotobiografia de Pessoa e viúva do romancista italiano.


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Poesia e música

Não vou falar de resistência, mas sinto um desinteresse maior dos leitores sempre que os meus posts são sobre poesia. Pelos vistos, o género não é o mais apelativo e, pela sua natureza metafórica ou elíptica, chega a menos gente, o que é uma pena. Já o poeta Pedro Homem de Mello, quando Amália cantou fados baseados em vários poemas seus (e roubados sem consentimento), em vez de se enfurecer, agradeceu à diva ter feito chegar a sua poesia ao povo. E é o mesmo que se vai passar agora com o músico e cantor Fernando Tordo que, para aproximar as pessoas dos versos, resolveu musicar e gravar muitos textos de poetas portugueses, dando a explicação: «Chegam melhor às pessoas através da música.» Chegarão? É bem provável; e, com data de saída prevista para Setembro, Fernando Tordo já começou a trabalhar no novo álbum, que será gravado com orquestra. Para já, sabe-se que os poetas escolhidos são Mário de Sá-Carneiro, António Botto, Pedro Homem de Mello, Manuel Alegre, Fernando Pessoa, Luís de Camões, Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena e Carlos de Oliveira, e que estes  serão cantados pelo próprio Tordo e seus convidados (Carolina Deslandes, Agir e Milhanas). O jornalista Nuno Pacheco, do Público, revela que Fernando Tordo, já há muitos anos, fez uma experiência semelhante com vencedores do Nobel da Literatura, cantando Joseph Brodski, Octavio Paz, Saint-John Perse, Eugenio Montale, Wislawa Szymborska, Pablo Neruda, Rabindranath Tagore, Harry Martinson, Derek Walcott, Vicente Aleixandre, Seamus Heaney e José Saramago. Haja quem tente mostrar com é linda a poesia.

(In)confidências

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O diário é seguramente o mais íntimo dos géneros literários. Repositório de confidências – e inconfidências – escritas sob a febre das emoções, partilhá-lo com o público é um acto de coragem, mais ainda quando o seu autor é um intelectual conhecido e reputado e quando as páginas que nos oferece estão cheias de revelações da sua «vida real» por oposição à ficção a que nos habituou. Iniciado em 1958 – tinha Mário Cláudio apenas 16 anos – e interrompido por mais de uma vez até à actualidade, este Diário Incontínuo, que funciona também como um maravilhoso álbum fotográfico, traz-nos relatos de almoços em família, de idas ao supermercado ou de obras em casa, a par de visitas a exposições, leituras de livros, períodos de escrita intensa, viagens, encontros com figuras que marcaram ou marcam ainda a vida nacional. Nestas páginas, desfilarão por isso Agustina ou Lobo Antunes, Carlos Avilez ou Graça Lobo, Eugénio de Andrade ou Vasco Graça Moura, José Rodrigues ou Manoel de Oliveira, Rodrigo Guedes de Carvalho ou Gonçalo M. Tavares; mas não faltam igualmente os amigos certos, ou os relacionamentos – também amorosos – que num dado momento podem ter entrado em confronto, mas cujo afecto verdadeiro acabou tantas vezes por não deixar abalar. Com a beleza dos pequenos instantes com os animais de estimação, com a mágoa que o reconhecimento público, mesmo que desejado, não consegue apagar, esta é uma obra pessoal escrita com toda a frontalidade e, ao mesmo tempo, um documento literário importantíssimo de uma época.


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No pátio do Museu

Se pensa que as noites nos museus são apenas dignas de filmes de terror, ou representam privilégios de alguns escritores com o objectivo de relatarem mais tarde a sua experiência em livro, tal como aconteceu a Leïla Slimani em O Perfume das Flores à noite, tire daí a ideia. No Porto, o Museu de História Natural e Ciência da Universidade criou uma programação para as noites do mês de Julho e, se não avisei antes, foi porque o tempo estava péssimo no início do mês e, depois, tirei férias e não voltei ao blogue. Mas ainda faltam muitos dias até final de Julho e as actividades são para todos os gostos: cinema, leituras, música e muito mais. Já na noite de 19 haverá cinema peruano e nas noites de 20 e 21 um espectáculo de dança (Do Clássico ao Contemporâneo) pelo Ballet do Douro. Depois de se falar de Inteligência (artificial?) no dia seguinte, teremos uma lição de história por Joel Cleto a 25, música da Grécia e da Turquia a 26 e Jazz a 27. Entre outras coisas, o chefe Hélio Loureiro falará de queijos franceses e vinhos portugueses no dia 30, mas nada melhor do que cada um escolher o que vai mais com a sua natureza. Para isso, deixo o link:


Noites no Pátio do Museu 2024 – Casa Comum (up.pt)

Construir em grupo

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Segundo Douglas Stuart, autor premiado com o Booker Prize, Como Construir Um Barco é «um daqueles raros livros que nos fazem sentir menos sós. Uma história inspiradora sobre uma comunidade e as pequenas coisas que podem mudar uma vida.» E tem toda a razão. Jamie O’Neill é um rapaz que adora o vermelho, árvores altas, padrões, livros com sobrecapas, gatos, rios e Edgar Allan Poe. Aos 13 anos, há duas coisas em particular que ele quer na vida: construir uma Máquina de Movimento Perpétuo e estabelecer ligação com a sua mãe, Noelle, a jovem nadadora que morreu logo a seguir ao parto. Na sua cabeça, estas duas coisas estão intimamente ligadas e, na nova escola, onde quase tudo é desconhecido, Jamie encontra duas pessoas que talvez sejam capazes de o ajudar e, de certo modo, também de se ajudarem mutuamente. Como Construir Um Barco, de Elaine Feeney – nomeado este ano para o Booker Prize e traduzido por Rui Elias – é a história comovente de como um rapaz e o seu sonho transformam, afinal, várias vidas e unem toda uma comunidade em torno de um projeto magnífico. Escrito com uma imensa ternura e uma linguagem cuidada e bela, o romance aborda as relações familiares e amorosas, bem como o poder da imaginação e a maneira como as nossas maiores aventuras nunca acontecem quando estamos sozinhos. Hoje estará em todas as livrarias portuguesas.


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De volta ao batente

As férias foram boas, apesar de uma chuvinha irritante e de um vento teimoso, sobretudo à noite, em que precisei de vestir aquele casaquinho de malha que me lembra a infância no tempo das marés-vivas; mas cá estou eu de novo, perorando sobre livros, autores e o mundo editorial, depois de ter dado uma entrevista muito longa ao podcast O Poema Ensina a Cair (passe a publicidade, mas a Raquel Marinho merece a atenção), em que também falo bastante de literatura, leitura e mudança, caso estejam interessados em ouvir. Saíram aguns livros enquanto estive fora de que vos quero falar detalhadamente, publicados ou não por mim; mas, como sempre faço quando tiro uns dias seguidos, levei um clássico para reler misturado com os títulos acabadinhos de sair do forno, pelo que é deste mesmo que vos falo hoje. Tem vários títulos nas várias edições disponíveis no mercado (eu comprei-o em 1980 na edição da Perspectivas & Realidades e chamava-se O Triunfo dos Porcos, mas hoje A Quinta dos Animais é talvez o título mais consensual). Continua muitíssimo actual, porque não faltam por aí os populistas que, com pretextos extremamente dóceis e enganadores, acabam por tornar-se iguaizinhos àqueles que derrubam assim que se conseguem sentar nas suas cadeiras. E é muito bom para oferecer a jovens que se sentem atraídos pelos regimes autoritários ou pessoas mal informadas e excessivamente crédulas. Eu diverti-me muito mais a lê-lo desta vez e foi bom ver como certas ovelhas não conseguem mesmo marrar para outro lado e como é sempre melhor saber ler. Enfim... se tiver um filho adolescente ou ainda nunca tiver lido esta maravilhosa fábula de George Orwell, pegue nela agora. Amanhã há mais.

O último Llosa

Raramente sabemos qual será o último romance de um autor, até porque nos dias que correm as pessoas têm vidas mais longas e grande parte delas ainda com boas cabeças, pelo que por vezes a morte surpreende-as a meio de um  projecto. Contudo, tal como alguns artistas se despedem do palco numa cerimónia planeada, também há escritores que avisam que, depois de um certo romance, não escreverão mais nenhum. Foi o caso de Mario Vargas Llosa, o peruano vencedor do Nobel da Literatura, que se deixou de ficções e declarou que Dedico-lhe o Meu Silêncio (cuja tradução portuguesa sai para as livrarias amanhã) é mesmo o seu último romance, já que agora quer escrever um ensaio sobre Jean-Paul Sartre, o filósofo que foi um mestre para ele durante a juventude. Resta-nos, pois, ler esta derradeira ficção dedicada à música crioula, contada alternadamente por duas vozes e com uma personagem surripiada das Travessuras de Uma Menina Má. Até porque não vai haver mais...


Também não haverá mais blogue até dia 15 de Julho, pois amanhã vou de férias, esperando que o clima não me traia e possa ler muitos livrinhos à beira-mar. Até lá, façam o mesmo: leiam.

Bolsa em Madrid

Tem algum projecto na gaveta que gostaria de desenvolver? Um mês a trabalhar longe do ambiente habitual e da rotina ajudaria? Estar sem trabalhar um tempo, mas ter a garantia de que isso não implica passar fome é mesmo aquilo de que precisava? Pois bem: a nossa Embaixada em Madrid, conduzida pela excelente Conselheira Cultural Patrícia Severino (que já antes desenvolveu um trabalho semelhante em Berlim), tem uma residência literária para oferecer a um(a) escritor(a) que apresente uma boa candidatura. Se acha que o seu projecto literário tem pés para andar, esta pode ser uma boa oportunidade. Deixe-se tentar! As informações estão todas aqui em baixo e o prazo para se candidatar vai até meados deste mês.


IV Bolsa de Residência Literária em Madrid – Cultura Portugal España (culturaportugal-espana.es)

O que ando a ler

Por ocasião da entrega do Prémio LeYa 2023 a Victor Vidal, autor de Não Há Pássaros Aqui, no próximo dia 3, será organizada na residência do Embaixador do Brasil uma conversa entre o vencedor e outro autor brasileiro premiado e moderada pelo jornalista e escritor João Gabriel de Lima, que conheci por ter sido finalista do Prémio Saramago com o belíssimo O Burlador de Sevilha no mesmo ano que José Luís Peixoto o venceria com Nenhum Olhar. É de Stênio Gardel que leio A Palavra Que Resta, vencedor do National Award nos EUA na categoria de livros traduzidos, até para poder acompanhar a conversa a cem por cento, e enquanto estou sempre a pensar como é que a tradutora deu conta do recado, pois a linguagem é poética e terna, mas muito típica de uma camada rural brasileira, obrigando, até para os portugueses, a algumas notas de rodapé. Dois rapazes apaixonam-se, mas o meio onde vivem é hostil e bruto, e os pais, quando sabem, além da tareia da praxe, proibem-nos de se voltarem a ver. Percebemos então que na família de um deles, na geração anterior, houve uma história feia que começou do mesmo modo mas acabou em morte. Mesmo assim, Raimundo não quer deixar de se encontrar com Cícero, ainda que para isso tenham de fugir dali; mas de Cícero recebe apenas uma carta, a palavra que resta? Só que Raimundo não sabe ler, e a carta é, porém, demasiado pessoal para se poder mostrar... Num pequenino romance com ecos do Grande Sertão: Veredas, embora, claro, menos ambicioso, muita ternura e também muita dureza numa história que ainda não sei como acabará, mas recomendo pela sua prosa bonita e pelo início com a professora Ana, que não vou contar.