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A mostrar mensagens de dezembro, 2011

Irmãos na desgraça

Já aqui aludi a um acontecimento dedicado às letras a que recentemente assisti na Cidade da Praia, em Cabo Verde. O convidado especial era, nesta primeira edição da Festa da Palavra, o Ceará, e – para falar com franqueza – não tinha ideia nenhuma de que havia uma afinidade entre este Estado brasileiro específico e o arquipélago, mas parece que é até bastante antiga. Aprendi, aliás, uma enormidade de coisas numa palestra muito interessante proferida por Simone Caputo Gomes, professora universitária em S. Paulo e especialista em literatura cabo-verdiana, sobre a irmandade das duas culturas. É que, tanto no Nordeste brasileiro como em Cabo Verde, a seca é recorrente, e os romances e poemas de ambos os lados do Atlântico (o Ceará é o estado brasileiro mais próximo do arquipélago) reflectem sobre essa circunstância e, pelos vistos, de forma muito obsessiva. Simone quis até citar uma canção cearense que bem podia ter sido escrita por um autor cabo-verdiano para ilustrar as parecenças. Porém, como o jovem que apoiava a sessão no auditório não percebia grande coisa de informática e trocava sistematicamente a peça musical pela música do próprio telemóvel – gerando umas gargalhadas –, a professora cansou-se e cantou ali em directo a canção Asa Branca sem inibição e com aquela graça que os brasileiros têm quando cantam. Foi um sucesso!

A ilha como cenário

Há pequenas pérolas que podem escapar-nos, sobretudo entre tantos calhamaços com capas cheias de relevos e vernizes, mas esta – garanto – seria uma grande perda se não se lesse. A Ilha, de Giani Stuparich, um livro anterior à Segunda Guerra Mundial e publicado agora em Portugal pela Ahab, que vem recuperando clássicos e alguns livros esquecidos ou ignorados pelo nosso mercado, é uma novelinha (ou um conto longo) absolutamente fascinante. Conta a história de um homem doente que pressente a proximidade da morte e desafia o filho a acompanhá-lo à ilha onde nasceu, no Adriático, que quer ver uma última vez. A descrição desses dias é dolorosa e magnífica, não só porque nos custa assistir a uma despedida que é, simultaneamente, uma luta constante contra o tempo, mas também porque, apesar da condição do pai, é o filho quem, pela preocupação excessiva e o pânico de que algo aconteça ao progenitor, parece o doente, e o velho quem, em contacto com os ares da ilha, se torna o mais enérgico dos dois. E, assim, o homem de idade descobrirá a importância de ter deixado descendência, enquanto o mais novo experimentará, fatalmente, a perda anunciada. Numa linguagem bela que me lembrou um pouco Lampedusa, eis um belo livrinho, a que Vila-Matas chamou nada menos do que «perfeito», para um par de horas extraordinárias.

Contradições

Estive há poucos dias em Cabo Verde numa feira do livro – a Festa da Palavra – em representação da Leya e a convite do Ministério da Cultura de Cabo Verde. Era uma feira relativamente pequena numa rua do centro da Cidade da Praia, o chamado Plateau; e, apesar de haver bastantes alunos de escolas secundárias nos colóquios que paralelamente se realizavam na Biblioteca Nacional, a verdade é que no recinto da feira não se via muita gente a comprar (nem mesmo a ver) e a quantidade de títulos disponíveis de livros «locais» era bastante reduzida (havia sobretudo autores considerados clássicos, muitos deles também publicados em Portugal, e livros de ensaio apoiados por organismos oficiais, mas nada de realmente novo). E, porém, 98% da população do arquipélago é alfabetizada, o que podia significar muitos potenciais leitores. Mas não: ou porque os livros são caros, ou porque não há ainda uma cultura da leitura, nem sequer na escola, os cabo-verdianos não compram nem lêem livros com regularidade. Aparentemente uma contradição, esta situação mostra que ter os instrumentos não chega para ser leitor. Porventura, faltam ainda incentivos – como o do preço acessível e a constituição de bibliotecas escolares – e o estímulo que as famílias de não leitores e os professores sem hábitos de leitura ainda não conseguiram dar.

Contos do Nobel

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Gabriel García Márquez escreveu bastante, para gáudio dos leitores que apreciam a sua prosa. Mas, como sempre acontece com os grandes romancistas, os seus contos andavam por aí espalhados em livros e jornais, não tendo nós até agora em Portugal acesso ao todo maravilhoso destas histórias mágicas. Foi uma bela ideia a que teve a Dom Quixote este ano de reunir num só volume – com capa muito bonita, ainda por cima – os contos do escritor colombiano publicados entre 1947 e 1990. Contos Completos é seguramente leitura compensadora para quem já o conhecia e pode desfrutar de uma narrativa por dia – e também para quem quer tomar pela primeira vez contacto com o vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1982, mas prefere apalpar terreno antes de se atrever a um romance. Vamos a isso?


 


 


Malditos russos

Na capa, há uma burqa azul-clara pendurada num gancho numa parede de uma divisão aparentemente vazia. Se não me engano, trata-se de uma embaixada abandonada no Afeganistão, talvez a francesa, e ninguém sabe o que fazia lá aquela vestimenta, a menos que um dos funcionários diplomáticos tivesse um caso secreto com uma afegã. De qualquer modo, a coscuvilhice não é para aqui chamada, mas a burqa é importante porque, em Maldito Seja Dostoiévski, de Atiq Rahimi – o livro que aqui me traz hoje –, há uma mulher misteriosa que o narrador viu de costas vestida de azul-claro num dia muito especial e que reaparece de vez em quando ao longo da narrativa, seja nos sonhos, seja na realidade do terrível quotidiano do pobre Rassul, mas sempre a fugir. E o dia da sua primeira aparição foi especial porquê? Bem, Rassul queria livrar a namorada de uma patroa autoritária que a escravizava, mas, quando já tinha o machado bem a jeito junto do pescoço da velha, lembrou-se de Crime e Castigo, de Dostoiévski – e a coisa saiu-lhe para o torto. Só que, no Afeganistão presente, ler os russos cai mal – e tê-los na «estante» é um problema suplementar para quem já estava metido numa alhada das grandes. Diferente de quase tudo quanto li até hoje e francamente desconcertante, este romance do afegão que escreve em francês e já ganhou o Goncourt é, segundo a crítica, o ponto mais alto da sua carreira.

Autobiografia Política

Quando estava na Temas e Debates, publiquei alguns livros de Mário Soares, embora a sua editora fosse – e ainda é – Guilhermina Gomes, do Círculo de Leitores. Mas acompanhei-o nos lançamentos em várias cidades do País e tive muitas vezes o privilégio de o ouvir relatar episódios da sua vida durante a ditadura. Goste-se dele ou não, é impossível negar que o ex-presidente Soares é o político mais digno desse nome com que Portugal contou nos últimos trinta e tal anos, o mais experiente, mais internacional e mais culto que alguma vez tivemos (e provavelmente viremos a ter). Ora, este senhor octogenário não pára e vem dar mais um contributo importante nesta época de crise com um ensaio «autobiográfico, político e ideológico» que dá pelo título Um Político Assume-se. Testemunho seguramente ímpar de um político militante que se soube adaptar às mudanças na Europa e no Mundo, este é um texto que conta a história do seu envolvimento antes e depois do 25 de Abril e inclui, para quem tenha curiosidade, declarações bem interessantes sobre a sua mais recente derrota nas presidenciais. Algumas fotografias em extra-texto abrilhantam o volume.

Dias mais belos

Vêm aí dias muito difíceis e felizmente alguém decidiu ajudar-nos a torná-los mais belos e saborosos. Como acontece de há alguns anos a esta parte, vamos ter de novo duas agendas muito especiais. A primeira é o Poemário, que tem um poema por dia para lermos durante o ano de 2012 de autores tão distintos como Herberto, Pessoa, José Agostinho Baptista ou Al Berto. A segunda chama-se Culinário e pretende presentear-nos com receitas para todo o ano (para quem tem falta de imaginação na cozinha é o presente ideal), algumas das quais – calculem! – retiradas do Antigo Testamento. A ideia, de resto, é convidar os leitores a conhecerem melhor as obras de onde foram extraídas. Portanto, para líricos e gulosos, o problema está decididamente resolvido; para os outros, está na hora de deitar fora aquelas agendas cinzentonas e mudar para uma destas, cujas capas são uma obra de arte.

Inspiração para quê?

Numa mesa-redonda reunindo cinco escritores não muito conhecidos de vários países (que a Feira denominou, com outros vinte, «os 25 segredos mais bem guardados da América Latina» – a precisarem de divulgação, em suma), o moderador perguntou se havia alguma coisa neste mundo globalizado que de certa forma influenciava a sua escrita. A chilena e o mexicano falaram de infâncias passadas a ver televisão e referiram-se também à leitura e à Internet, da qual o segundo foi muito crítico, dizendo que gerou dúzias de jornalistas instantâneos que retiraram à escrita informativa o que ela tinha de belo. Por seu turno, o guatemalteco disse não precisar mais do que a realidade do seu país para escrever, contando que, na semana anterior, numa prisão, os guardas tinham andado a jogar à bola com a cabeça de um homem que haviam eles próprios decapitado; a hondurenha – que não consegue publicar o que escreve no seu país – pareceu saber o que isso era, explicando que, em sua casa, referindo-se às pessoas que são mortas todos os dias, já só perguntam: hoje foram quantas? E o jovem equatoriano explicou que, dois dias antes de chegar a Guadalajara, fora à padaria e a rapariga que lhe vendera o pão tinha marcas de uma corda grossa no pescoço; e que, no regresso a casa, construiu um conto na sua cabeça sobre ela. Realmente, com um quotidiano assim, quem precisa de outra inspiração?

Publicidade encapotada

A Notícias Magazine – que é, segundo creio, a revista mais lida em Portugal – apareceu de cara lavada, com novos cronistas, boas reportagens e mais páginas. A diferença pareceu-me francamente para melhor e encontrei nesta sua nova «estreia» mais sumo e mais qualidade. Eis se não quando, ia eu lançada no elogio mudo, apareceu uma entrevista a Margarida Rebelo Pinto fora do desenho e do espírito que vinha apreciando. Torci ligeiramente o nariz, mas pensei cá com os meus botões que, apesar de tudo, uma revista que quer conservar um grande número de leitores não pode armar-se em elitista. Passei as páginas até ao fim e pu-la na pilha dos jornais «vistos» no fim-de-semana, já conformada. Chegou então a vez de o Manel a ler e, bem mais atento do que eu, logo desfez o equívoco: aquelas quatro páginas eram, afinal, publicidade – da editora, suponho – ao novo romance da popular escritora. Fiquei sem saber se era bom ou mau sinal. A palavra «publicidade» estava lá escrita num cantinho, é certo, mas a verdade é que parecia opção da redacção da revista dedicar uma atenção especial ao assunto. No momento em que escrevo este post, desconheço se, em números seguintes, o espaço fica reservado para outro atrevido que queira publicitar um produto de forma assim encapotada; mas achava mais bonito que daqui para a frente os entrevistados fossem uma opção apenas da revista, e não dos anunciantes.

Pais autoritários

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A Feira do Livro de Guadalajara, embora com três dias reservados a negócios, um país convidado (neste ano, a Alemanha), os stands das editoras, o Centro de Agentes e uma área internacional, não se assemelha muito à Feira de Frankfurt; é, acima de tudo, um festival literário – e neste ano tinha cerca de 150 escritores em actividade permanente, encontrando-se com os leitores, os alunos das escolas, apresentando livros, fazendo sessões de autógrafos e conferências. Com as salas sempre cheias, lembrou-me – embora a dimensão fosse outra – as nossas queridas Correntes d’Escritas, nas quais é preciso chegar cedo para não se ficar sentado nos degraus duros ou mesmo fora da sala. Em Guadalajara, uma das sessões mais aguardadas (e com o auditório a abarrotar) era uma conversa com dois Prémios Nobel da Literatura – Herta Müller e Vargas Llosa – conduzida por Juan Cruz. Quando este perguntou ao escritor peruano se se lembrava quando e porque começara a escrever, este foi categórico. Os pais haviam-se separado logo a seguir ao seu nascimento e tivera uma infância felicíssima junto da mãe e dos avós maternos. Inesperadamente, o pai e a mãe reconciliaram-se quando tinha onze anos e isso veio perturbar dramaticamente o seu equilíbrio emocional, até porque – frisou – o pai era um homem muito autoritário. Para fugir a esse jugo, Vargas Llosa começou a ler furiosamente, vivendo vidas diferentes da sua – e isso levou-o naturalmente à escrita. Quase me apetece dizer: Bendito pai autoritário...


 



Um termómetro com graça

Já aqui contei algumas histórias divertidas passadas em livrarias e geradas por equívocos ou ignorância de quem estava a vender. Umas aconteceram comigo, a outras assisti enquanto cliente que aguarda a sua vez. E, mesmo que, no fundo, o desconhecimento gritante de coisas básicas seja uma coisa muito triste, a verdade é que não conseguimos deixar de rir – ou, pelo menos, sorrir – com certos dislates e confusões que testemunhamos. Vem isto a propósito de um blogue que me aconselhou a minha amiga Aldina Duarte chamado A Livreira Anarquista. Nele, além de posts fotográficos de extremo bom gosto, que não raro representam mulheres a ler em cenários de todo o tipo (e com os quais a autora do blogue se identifica sempre com uma tirada cheia de bom humor), uma livreira inteligente e culta narra episódios vividos na livraria onde trabalha quase sempre hilariantes. Porque quem passa o dia a vender livros encontra obviamente de tudo, e muitos dos que vão comprar demonstram que o seu nível de conhecimentos precisava mesmo de subir (com leituras de qualidade, de preferência). Entre muitos exemplos, cito apenas o caso de uma senhora que pede Os Maias, de Elsa de Queirós, e o de uma mãe que pede uma gramática para o seu pimpolho, mas que, quando a livreira lhe pergunta para que ano a quer, responde que, claro, para 2012... Embora rir da desgraça alheia não seja propriamente bonito, este blogue, para quem estiver interessado em espreitar, pode ser um bom termómetro (como aquela reportagem que saiu recentemente na revista Sábado sobre estudantes universitários) para aferir o estado da cultura nacional. Pode chegar lá através da barra aqui ao lado.

Um prémio para os animais

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A sessão inaugural da Feira do Livro de Guadalajara incluía a atribuição de um prémio à obra de um escritor de línguas românicas (Lobo Antunes foi o feliz contemplado em 2008, mas tenho ideia de que não o foi receber) no valor de 150 000 dólares. Desta feita, o sortudo era o colombiano Fernando Vallejo, que é claramente um autor controverso e uma pessoa com aquela frontalidade incómoda que nem todos aguentam (o seu discurso foi tudo menos plácido, sobretudo no que tocou à Igreja, que se percebeu ser um seu inimigo figadal). O programa impresso que nos entregaram à entrada oferecia uma biografia mais ou menos extensa do escritor, destacando o seu amor aos animais e a sua militância na luta pelos direitos destes. A fotografia, por assim dizer, oficial do catálogo exibia-o com um gato ao colo e, referindo-se a um certo cardeal mexicano, Fernando Vallejo disse que lhe falava porque tem muito respeito pelos animais e ele é um verdadeiro pavão... Conheço várias pessoas que não comem carne porque estão contra os métodos usados na criação, transporte e abate dos animais que a fornecem. Trabalhei até com uma pessoa que chorava mais quando ouvia histórias de cães e gatos abandonados do que quando se falava dos abusos praticados em crianças (aí, o sua expressão era de asco, não de comoção). Mas nunca tinha ouvido um escritor recusar «em directo» tanto dinheiro. Fernando Vallejo, quando tomou a palavra para fazer os seus agradecimentos, anunciou imediatamente que o valor do prémio seria dividido por duas sociedades protectoras dos animais. Depois soube que, quando uns anos antes ganhou o prémio Rómulo Gallegos, ofereceu os 100 000 dólares a uma outra organização que trabalha na defesa dos direitos dos animais. É mesmo precisa paixão e coragem para se fazer uma coisa destas.


 


Mártires à tardinha

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Hoje à tarde realiza-se o lançamento público do último romance de João Tordo, cuja história inclui uma investigação do próprio autor (no livro levada a cabo pelo narrador) sobre as inconsistências e divergências relativas à história de Catarina Eufémia nos vários textos ensaísticos e ficcionais que sobre ela se escreveram. Mas esse, digamos assim, é apenas o ponto de partida para se reflectir sobre a crise que assola a Europa, o jornalismo alinhado e o jornalismo displicente, a apropriação política dos mártires, o papel dos mitos e o comportamento de uma certa juventude perdida. A apresentação será feita por José Pacheco Pereira às 18h30, no Museu da Electricidade (Av. de Brasília, Central Tejo, Lisboa). Não falte.


 


O quê?

Os livros em vários volumes são raros, excepto se estivermos a falar de histórias de vampiros ou quejandos, cujos autores e editores costumam aproveitar o sucesso do primeiro para explorar o filão até à náusea. Mas falo de literatura – e as trilogias e tetralogias contam-se pelos dedos (vá lá, das duas mãos). De qualquer modo, os japoneses são sempre uma surpresa (para mim, pelo menos) e o famoso Murakami, o mais internacional de todos, atreveu-se à obra de fôlego que, em Portugal, tem já o primeiro volume publicado, mas verá os restantes dois saírem para as livrarias em 2012 com tradução de Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso. O título é, no mínimo, estranho, 1Q84, qualquer coisa reminiscente do 1984 de Orwell, mas com o seu Q de enigmático. E a história gira em torno de Aomame e Tengo, dois professores que, afinal, não são só o que parecem e que, talvez por isso mesmo, o destino reúna num mundo que também só aparentemente é normal e no qual tudo acaba por ser questionado, incluindo a religião, a condição feminina e a corrupção – um mundo com um ponto de interrogação que busca, se não a nossa resposta, pelo menos, a nossa leitura.

Beleza

Embora haja uma leitora deste blogue que descobriu que os meus posts sobre poesia são os que menos comentários têm, nem por isso posso deixar de falar do tema, sobretudo tratando-se de alguém que merece ser lido e apreciado por todos. Por ocasião do recente congresso dedicado a Ruy Belo, a Assírio & Alvim pôs na rua nada menos do que três títulos: Homem de Palavra(s), saído pela primeira vez nos Cadernos de Poesia da Dom Quixote em 1970, ainda no tempo de Snu Abecassis; uma antologia de textos escolhidos por um outro grande poeta – Manuel Gusmão – que dá pelo nome de Na Margem da Alegria; e ainda um belíssimo álbum de Duarte Belo, filho de Ruy, que reúne fotografias de manuscritos, objectos, jornais onde saíram textos do poeta, máquinas de escrever que este usou e até capas de livros – e cujo título é O Núcleo da Claridade. Uma boa maneira (ou três) de conhecermos melhor o escritor ou de travarmos finalmente conhecimento com ele.

Coragem

Sim, vai ser precisa coragem, porque estamos a falar de 850 páginas de letra miudinha. Mas dizem que Vida e Destino, de Vassili Grossman, traduzido por Nina e Filipe Guerra, é uma espécie de segunda Guerra e Paz (ainda só o farejei). O tempo da acção é, porém, o da Segunda Guerra Mundial, e a narrativa dos horrores a que a alma humana consegue chegar não se fica pela Alemanha – o país normalmente evocado nas ficções sobre o tema –, estendendo-se desta feita também à Sibéria (quase apetece dizer que um mal nunca vem só) para criticar o anti-semitismo do regime estalinista. No centro deste romance épico – que o KGB confiscou em 1961 e fez desaparecer durante vinte anos, tendo sido publicado em 1980 na Suíça e só em 1988 na pátria do escritor – está uma família da classe média que a vida e o destino dispersou entre o país em que hoje manda a senhora Merkel e a o país em que hoje manda Putin. Mas as personagens são muitíssimas e, entre elas, não faltam os responsáveis pelo Inferno, Hitler e Estaline. É a primeira vez que a tradução do original russo é publicada em Portugal e exige bom estômago e bons olhos.

Carta no baralho

Quando há muitos anos, ainda na Temas e Debates, publiquei aquele que era o segundo romance de Michel Houellebecq, intitulado As Partículas Elementares, houve muita gente que achou que eu perdera a cabeça. O livro era bastante polémico, evidentemente, e o autor tinha fama de ser uma carta fora do baralho, politicamente incorrecto, racista e bêbado. O seu romance seguinte – que já não publiquei, embora por razões que nada têm que ver com o facto de me terem chamado a atenção –, chegou a ser considerado ofensivo e até reaccionário. Previa-se, assim, que o escritor fosse perder a glória aos poucos, mas o que sucedeu foi justamente o contrário e ele acabou por conseguir que a crítica o aplaudisse e a Academia o premiasse nada mais nada menos do que com o famoso Goncourt. O romance galardoado saiu recentemente em Portugal e tem por título O Mapa e o Território. Desde logo, merece ser lido por contar com a tradução do poeta Pedro Tamen, mas é um retrato muito lúcido da sociedade contemporânea através da história de um homem que curiosamente também pintava retratos – entre eles, um do próprio autor – e da forma como ajudou um comissário da Polícia a esclarecer um crime terrível. Parece que Houellebecq entrou finalmente no baralho.

Falar em círculo

Vila-Matas é um dos mais interessantes autores espanhóis e falei não há muito tempo neste blogue do seu romance Dublinesca. É de certa forma à roda deste romance que gira o seu mais recente livrinho – chamo-lhe assim porque é mesmo pequeno – que não ouso classificar, pois, tendo aparência de ensaio (prefaciado e tudo), deita ficção por todos os poros. De qualquer modo, tem o título sério Perder Teorias e conta a história de um escritor (Vila-Matas, quem mais?) que, convidado para um festival de escritores em França, é depositado no hotel por um taxista português e nele permanece todo o tempo que devia estar no dito festival por ninguém aparecer para o orientar e ele não ter ânimo para se desenrascar sozinho. Aborrecido com essa ausência – mas nem tanto –, resolve então escrever uma nova teoria do romance, pensando sobretudo no seu próximo livro, que não é senão aquele Dublinesca de que aqui falei, saído, por acaso (ou não) antes deste – e não só em Portugal, em Espanha também. Regressado a Barcelona depois de não ter participado em festival nenhum, o romancista descobrirá, porém, a teoria bastante inútil (embora estejamos a lê-la e, como tal, provavelmente não o seja). Circular e delirante, este divertimento muito sério é um dos seis primeiros livros publicados pela novíssima Teodolito.

De volta

Cheguei ontem, bastante aparvalhada com a diferença horária e com a correria para apanhar os aviões todos, pois as escalas foram muito curtas. A mala só virá hoje, mais lenta do que eu - e mais pesada. Segunda volto à «vida» e haverá post, embora ainda não sobre Guadalajara, pois deixei alguns textos escritos antes de partir e só agora me porei a escrever sobre a feira mexicana. Agradeço a todos os comentários, desejos de boa viagem e fidelidade. Aproveitem o fim-de-semana para ler!