Mensagens

A mostrar mensagens de julho, 2012

Fechado para férias

Amanhã é dia 1 de Agosto – e tomara que o tempo ajude, pois preciso de sol, de descanso e, sobretudo, de não pensar durante as próximas semanas no trabalho ou na situação do mercado do livro. Conto ler bastante, evidentemente, mas não originais para publicação nem provas tipográficas de livros para publicar. Neste período, sou sincera, aproveito para espreitar o que os meus colegas puseram à venda – e bem assim alguns títulos que me escaparam por qualquer razão (muito provavelmente, falta de tempo) mas que são mais ou menos obrigatórios para todos aqueles que se orgulham de ler todos os dias. Para estas serem, porém, verdadeiras férias, tenho mesmo de fechar a loja – não é, já se vê, a altura ideal para fazer Horas Extraordinárias – e, assim, informo que o blogue fica encerrado até final de Agosto. Em Setembro, se tudo correr bem, regressarei ao ritmo de sempre e prometo trazer muitas sugestões a partir das leituras feitas. Espero que não se esqueçam de regressar também. E, se forem para férias, como eu, umas boas férias! Se ficarem, bom trabalho e boas leituras!

Works in progress

Imagem

Hoje é o meu primeiro dia de férias e, embora Agosto não seja um mês em que se publiquem muitos livros, tive de deixar adiantadas quatro obras que sairão no próximo mês ou nos primeiros dias de Setembro. São quatro livros muito diferentes – e, provavelmente, também para leitores com gostos distintos. O primeiro a ir para as livrarias é Triângulo, de Pedro Garcia Rosado, o terceiro thriller da série «Não Matarás», que desta feita leva o inspector da Judiciária Joel Franco à descoberta dos culpados de um crime a que assistiu na infância. Depois, mais ou menos ao mesmo tempo, serão publicados O Rei do Monte Brasil, de Ana Cristina Silva – um romance que apresenta as duas versões do conflito entre Mouzinho de Albuquerque e Gungunhana – e O Feitiço da Índia, de Miguel Real, sobre o poder encantatório de Goa e das suas mulheres para três portugueses de três épocas marcantes. Por último, já no início de Setembro, ficará disponível o romance do estreante Bruno Margo, com o sugestivo título Sandokan & Bakunine, uma obra francamente original, com uma estrutura que lembra filmes como Magnólia e tem como protagonista um adolescente asmático e apaixonado. Deixo a produção das obras in progress e espero encontrá-las prontas no regresso, quiçá uma ou outra já à venda, já lida, já apreciada. Fiquem atentos.


 


Fascículos

Alguns grandes nomes da literatura, como Charles Dickens, começaram a escrever para jornais folhetins que ficavam interrompidos numa semana e eram retomados na seguinte, suscitando grande curiosidade por parte dos leitores. O hábito dos fascículos perdeu-se (embora Rui Cardoso Martins alimente semanalmente no Público uma destas narrativas), mas eis que, em tempo de crise, o Expresso teve a bela ideia de fornecer aos caderninhos a História de Portugal mais completa que recentemente se publicou num só volume, assinada por Rui Ramos (coordenador), Nuno Gonçalo Monteiro e Bernardo Vasconcelos e Sousa. A obra era cara na edição original – sobretudo em época de dificuldades – e, por isso, é uma boa notícia que o semanário decida agora oferecê-la, até porque os conhecimentos dos portugueses sobre a história do seu país andam um bocado por baixo (como se depreende dos questionários feitos à porta das universidades a alunos finalistas, cujas respostas são de bradar aos céus). Além disso, se um livro volumoso nem sempre torna a leitura confortável, muitos levezinhos e de cerca de cem páginas tornam-se realmente um convite a ler, e não só a consultar. Se, por acaso, ainda não tem esta História de Portugal e é leitor do Expresso, guarde-a aos bochechos.

Ler na cama

 Não sei se se lembram de que há uns anos espalharam um cartaz por várias cidades europeias que deu que falar. Era uma campanha que visava promover o turismo na Polónia e tinha como chamariz um belo representante do sexo masculino – que ficaria conhecido como «o canalizador polaco». Pois parece que o apelo sexual não serve só para promover as bonitas paisagens e o património das cidades daquele país. Inspirando-se talvez num romance do país vizinho (O Leitor, de Bernard Schlink, no qual a ex-guarda de um campo de concentração, analfabeta, pede ao jovem amante que lhe leia em voz alta), a Polónia lança agora mais uma campanha bastante chamativa: duas raparigas loiras e picantes, seminuas, estão de livro aberto sobre a cama e ameaçam: «Se não leres, não vou para a cama contigo.» (Ver link abaixo.) Portanto, às raparigas que se desloquem à Polónia em busca dos canalizadores giros e robustos, divisam-se umas férias nada intelectuais; enquanto aos rapazes (incluindo os locais) é exigido que leiam qualquer coisita para terem direito a uma noite de sonho. Não é que eu goste muito de ler na cama, mas até para o sexo parece, afinal, que a cultura faz falta. Talvez o Relvas tenha forjado o diploma que se sabe para não perder pitada das loiras...


 


http://libreriamichelena.blogspot.pt/2011/12/si-usted-no-lee-no-me-voy-con-usted-la.html

Chevalier no feminino

Já aqui falei de O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, o último romance que publicou, que fala sobre a experiência de uma família de retornados vindos na ponte aérea que pôs em Portugal em poucos meses meio milhão de pessoas com uma mão à frente e outra atrás. Mas ela é a autora de outros livros notáveis – penso que também já aqui escrevi sobre O Chão dos Pardais – e recebeu o Prémio da União Europeia por Os Meus Sentimentos (para muitos, a sua melhor obra), o que, para um escritor português, é um feito raro. Pois a França decidiu agora atribuir-lhe uma condecoração, a de Chevalier des Arts et des Lettres, de que deve orgulhar-se a escritora e de que devemos orgulhar-nos nós, pois nem sempre a literatura portuguesa consegue atravessar as fronteiras e ser reconhecida no estrangeiro. Parabéns, pois, a Dulce Maria Cardoso, que esperamos continue a criar com a qualidade e o talento a que nos tem habituado.

Ver e ler

Já chegou a Portugal o fenómeno de vendas internacional As Cinquenta Sombras de Grey, de E. L. James (uma mulher está por detrás destas iniciais), que promete subir vertiginosamente aos primeiros lugares dos Top das livrarias. Tanto quanto me disseram, o livro apareceu primeiro na Internet e foi um tal sucesso que uma grande editora americana comprou os direitos e, a partir daí, foi sempre a facturar. Parece que o livro é pornográfico (mas, para muitos americanos, há muita coisa pornográfica que na Europa seria apenas erótica), e a autora, numa entrevista publicada, creio eu, no Expresso, disse que não gostaria que os filhos o lessem (presumo que pela idade, pois de contrário parece-me uma afirmação um bocadinho sonsa e hipócrita). De qualquer modo, interessa-me perceber por que diabo um livro deste tipo se vende às catadupas – será porque o sexo, apesar de estarmos em pleno século XXI, continua a ser um tabu e as fantasias sexuais destas personagens (uma estudante de literatura e um empresário de sucesso, o tal Grey do título) darão ideias a muita gente, especialmente se as suas relações andarem estagnadas a nível físico? Há muitos anos, li num jornal que os homens se excitavam a ver revistas ou filmes pornográficos, enquanto às mulheres isso acontecia através da leitura de cenas de sexo. Serão então as mulheres as grandes compradoras deste livro (e dos outros dois, pois trata-se de uma trilogia)? Talvez pudesse encontrar a resposta lendo eu própria o livro, mas há tantos mais interessantes em lista de espera...

Amabilidade

Uma das vantagens de acompanhar os autores em sessões de lançamento dos seus livros pelo País fora é visitar outras livrarias – algumas bem bonitas e bem fornecidas – e conhecer gente interessante da região. Recentemente, estive com João Ricardo Pedro na Livraria Centésima Página, em Braga, num local maravilhoso, para uma acção dedicada ao romance que escreveu, e fomos ambos brindados, tal como o público presente, por uma abordagem francamente original sobre as mãos (sim, leram bem) em O Teu Rosto Será O Último, feita pelo professor Eduardo Madureira. Mas, além desse já excelente presente, o professor, director de uma colecção de obras dedicadas à cidade de Braga («Braga Cidade Bimilenar», da Fundação Bracara Augusta), ofereceu-nos ainda dois dos seus volumes, pérolas de um bom gosto extraordinário e muito curiosas. O primeiro era um diário gráfico da autoria de Eduardo Salavisa, um roteiro da cidade através de desenhos lindíssimos; o segundo, uma colecção de rótulos das marcas de sabonetes e outros produtos da fábrica Confiança, muitos dos quais ainda me lembro de ver em casa dos meus pais, impressos com uma qualidade que é raro encontrar em livrinhos desta natureza. Uns quinze dias depois, fomos de novo apresentar o livro, desta feita em Leiria, na Arquivo (que é uma livraria excelente e com responsáveis muito interessantes e calorosos) com o João Rebocho Pais (autor de O Intrínseco de Manolo) e recebemos os três outros presentes, entre vinho e T-shirts literárias, produzidos pelos mesmos proprietários da livraria. Não são obviamente estas prendas que importam, mas elas são uma prova da amabilidade daqueles que nos recebem nas suas livrarias. Obrigada a todos os que fazem muito pelos nossos livros e ainda por cima nos mimam desta maneira.

Bibliotecas curiosas

A Madalena, que é uma jovem de pouco mais de 25 anos que trabalha comigo e anda sempre em cima do acontecimento no que toca a novidades editoriais, falou-me há dias de Zoran Živković, um escritor nascido em 1948 no território que é hoje a Sérvia. Como ainda nunca tinha lido nada deste autor, ela emprestou-me um livro de contos publicado pela Cavalo de Ferro em Portugal, que se intitula A Biblioteca e ganhou em 2003 o World Fantasy Award. Não se assustem com a palavra «fantasy» aqueles que (se calhar, como eu) não se sentem minimamente atraídos por um género que associam a mundos de fadas, elfos, brumas ou Atlântidas; aqui o termo tem mais que ver com o irreal e o absurdo do que propriamente com sagas melífluas ou saudosistas de Avalon, e o assunto – as bibliotecas – interessa de certeza aos leitores deste blogue. Pois a verdade é que este livrinho é uma preciosidade e os seus textos, que podem ser lidos num serão, são bastante devedores de Borges ou Kafka – e todos fantásticos, mas numa outra acepção da palavra, desde aquele em que um autor encontra na Internet a sua bibliografia que ainda não escreveu até àquele em que se revê o cenário clássico do Inferno católico, dando-lhe a forma de uma biblioteca na qual os «degredados» terão de ler livros como castigo pelos seus pecados – e, claro, nem pensar em policiais para os criminosos... Numa prosa fresca e intrigas bem apanhadas, a garantia de umas horas bem passadas em bibliotecas de vários tipos. Obrigada, Madalena, fico a dever-lhe mais esta.

Olhar para trás

O Manel é um grande fã de Patrick Modiano, mas eu nunca tinha lido nenhum livro deste autor que uma publicação em França disse ser o melhor escritor francês depois de Proust. Não conheço a literatura francesa assim tão bem – quase todos os anos, pela rentrée, saem mais de 500 novos romances e é difícil estar a par –, mas, depois de ter lido a novela Horizonte, até posso perceber a comparação estabelecida com o autor da Recherche, uma vez que também aqui (e, ao que parece, em toda a obra de Modiano) se trabalha sobre a memória e as memórias, que são, afinal, o que liga (quando liga) as várias pontas de uma história. O mais invulgar é que, neste livro, são as coisas aparentemente secundárias e laterais na vida do homem que recorda – um rosto numa esquina, uma fachada de um prédio, uma estação de metro – que remetem para o que ele não esquece – no caso, Margaret Le Coz, uma rapariga com um drama pendente, que namorou uns tempos com ele, mas de repente teve medo e desapareceu sem deixar rasto. E, embora não fiquemos nunca exactamente a saber se o drama de Margaret se compôs, reconhecemos que há coisas pelas quais vale a pena olhar para trás e, quiçá também, seguir em frente. Um livro curioso.

Influências

Não sabemos até que ponto um escritor (ou a sua obra) é influente; mas nós, que somos todos leitores fiéis, sabemos que alguns livros fizeram claramente a diferença nas nossas vidas, falaram-nos ao ouvido, magoaram-nos, operaram-nos o cérebro, disseram-nos coisas que nunca mais esquecemos. Este ano, como de há alguns para cá, a revista «Única» do jornal Expresso publicou um número dedicado às 100 pessoas mais influentes de Portugal. Claro que Balsemão não escapou – ao patrão convém agradar – e, pelos vistos, não lhe chegou ganhar um Globo de Ouro na sua própria televisão. Mas adiante: desta feita, os seleccionados nas letras foram – e muito bem – Dulce Maria Cardoso, Valter Hugo Mãe (sobretudo pelo sucesso que atingiu no Brasil no ano passado, autografando mais de 400 exemplares numa tarde) e João Ricardo Pedro, um estreante que se tornou nas televisões um exemplo de perseverança, mas que – para lá da história que o mediatizou – tem um dos melhores primeiros romances há muito publicados em Portugal, O Teu Rosto Será o Último, e um sentido de humor muito especial – como, aliás, sabe quem ouviu o discurso de agradecimento na sessão de entrega do Prémio LeYa (e que foi uma boa «réplica» a Passos Coelho). Não sei se estes três nomes (não falei de Eduardo Lourenço porque, creio, está lá há muitos anos – e é assim mesmo que deve ser) influenciarão realmente os seus leitores; o que sei é que as suas obras podem deixar essa marca que não desaparece com o tempo e fazer deles os grandes escritores do futuro.

Atlas de escritores

O suplemento cultural do jornal Público – o «Ípsilon» – iniciou no último dia 13 de Julho uma secção dedicada aos mapas de escrita de dez autores internacionais, que é uma espécie de volta ao mundo a partir de livros importantes. O primeiro trabalho, assinado por Isabel Lucas (que, creio, será a responsável por cartografar os territórios de todos os outros escritores), era dedicado ao catalão Enrique Vila-Matas (de quem se publicou recentemente Ar de Dylan), cujas deambulações entre Barcelona, Paris e Nova Iorque são, segundo a jornalista, de endoidecer qualquer GPS que se preze. Mas teremos direito nas próximas sextas-feiras a outras geografias bastante atraentes: o Japão de Murakami, o Peru de Vargas Llosa, a Big Apple de Paul Auster, a África do Sul de Coetzee, o Israel de Amos Oz e mesmo a África francófona de Le Clézio. Cada escritor é marcado por lugares próprios e a sua literatura reflecte naturalmente o seu modo de estar em cada um deles. Fiquem por isso atentos a estes excelentes artigos, até porque podemos viajar com grandes escritores sem sair do lugar. Uma bela ideia para estas férias.

Tristeza

Hoje vou falar de um dos melhores livros que li nos últimos tempos (imperdoável não o ter lido antes) e que, se pensar bem, é também um dos livros mais bonitos que li na vida. Chama-se Almas Cinzentas e escreveu-o o francês Phillipe Claudel, tendo com ele arrebatado o Prémio Renaudot (mas merecia todos os outros, que são muitos, em França). E, para além de bonito, é um livro inteligente, com uma particularidade rara, que é a de só sabermos quem é o narrador já a história vai a meio. História triste esta, que parte de uma morte – ainda por cima de uma criança – para contar a vida de uma pequena cidade do Norte de França e dos seus habitantes – o procurador, o juiz, o presidente de Câmara, a professora, o dono do restaurante... – durante a Primeira Guerra Mundial, num cenário quase sempre triste e cinzento, quase sempre frio e miserável, no qual os ricos são sempre os mesmos e os pobres muitos e cheios de medo. Mas há um crime hediondo que é preciso perceber – ainda que alguém já tenha sido condenado por ele à pena capital – e o narrador tem quase a certeza de que o criminoso continua à solta. Por esse crime, perderá ele o pouco que tem, assemelhando-se nisto ao seu adversário, a quem uma jovem e bonita professora chama Tristeza num tom de carinhosa compaixão. Retrato magnífico de um tempo e de um lugar, com personagens muito bem desenhadas, cheias de humanidade, este romance vale cada página que tem; já não é novo e pode ser difícil de encontrar, mas é preciso andar por aí à procura dele porque não há muitos assim, que nos deixem uma pena imensa de chegar à última página.

Títulos

Um bom título é importante, se queremos que leiam os livros que escrevemos – e já me aconteceu chegar um livro muito bom com um mau título (e o autor acabou por mudá-lo); chegar a um livro com um título excelente que não correspondia ao que o livro tinha dentro (e não o publiquei); e até haver um título que foi alterado à última hora porque incluía uma palavra «difícil» que cerca de 70 por cento das pessoas que então trabalhavam na editora não conheciam, e a administração achou melhor não correr riscos... Mas há que reconhecer que temos na nossa terra alguns bons escritores com grande talento para intitular. Entre os meus títulos preferidos, está Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, de António Lobo Antunes, que sempre achei genial, ou Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias sobre o Assunto, de Mário de Carvalho, que sabe nomear um romance na perfeição e também já nos brindou com Um Deus Passeando na Brisa da Tarde. De outra geração é o autor que nos tem habituado a querer ler os seus livros só pelos títulos, José Eduardo Agualusa, que tem um trio perfeito: As Mulheres do Meu Pai, Barroco Tropical e Milagrário Pessoal – e que recentemente fez jus ao seu jeito e inteligência e escreveu Teoria Geral do Esquecimento, que apetece logo ler (assim que possa, fá-lo-ei) mesmo sem se saber de que trata. Mas a arte não é para todos, e tenho pena daqueles que escrevem livros belíssimos e que depois, no título, deitam tudo ou quase tudo a perder. No caso de serem autores reconhecidos, com leitores fiéis, ainda vá que não vá; o problema é quando se estreiam com romances muito fortes em que ninguém pega por causa de um título menos apelativo...

Ser e parecer

No ano passado, apostei em Milan Kundera para o Nobel da Literatura, pois houve movimentações que o faziam supor, das quais fazia parte a edição da sua obra em França na Pléiade, que é só mesmo para os autores especiais de corrida. E numa noite destas li um livro seu muitíssimo curioso – A Identidade. Conta a história de um casal que se ama e que, se não (se) questionasse, poderia ser o casal perfeito. Mas, às tantas, o medo instala-se. O medo do envelhecimento e de deixar de atrair a atenção dos homens (da parte dela, porque o amante é uns anos mais novo); o medo de ter estado enganado sobre ela e de perder a ligação ao mundo (da parte dele, pois Chantal é o elo que o une à vida). As questões do sexo e das fantasias eróticas, a sedução das cartas anónimas de um estranho admirador, os mortos e os vivos de um passado que parecia remoto – mas afinal regressa –, a descoberta de que a pessoa amada não é exactamente quem pensávamos e ainda uma frieza em relação à morte de uma criança, que é, simultaneamente, uma ardência que permite o encontro de ambos, conduzem o par a uma experiência de ruptura e a uma espécie de arrependimento. Mas não será demasiado tarde para recuperar o que já se perdeu? Pouco mais de cem páginas, mas sempre profundas, como é habitual em Kundera. Talvez este ano lhe dêem o Nobel, veremos.

A cultura é chata?

A caminho do emprego, ouço todas as manhãs a TSF. E, nos dias em que me atraso um bocadinho, logo que entro no carro começa o Tubo de Ensaio, de Bruno Nogueira e João Quadros. Nem sempre tem graça, ou a mesma graça, mas já lá ouvi piadas muito boas, entre as quais destaco a ideia de os olhos de Maria José Morgado serem pintados todas as manhãs por Paula Rego (o que achei muito bem visto). Mas é difícil fazer humor todos os dias, embora em Portugal haja qualquer coisa que, apesar da desgraça, nos puxa facilmente para a anedota. E, no Tubo de Ensaio, a propósito do jogo em que Portugal foi eliminado do Euro, Bruno Nogueira disse que os espanhóis tinham um futebol tão, mas tão chato que só devia passar no Câmara Clara da RTP2. Confesso que também não gostei nada do desafio e que, por isso, na altura, me ri com a ideia estapafúrdia. Mas depois, pensando no assunto, ocorreu-me que os programas culturais portugueses talvez pareçam desde sempre, pelo menos aos que não trabalham nas áreas culturais, um pouco chatos – ou porque muito certinhos, com o formato de noticiários, ou porque, em geral, muito sérios, com um entrevistado falando do seu trabalho. Confesso que estas opções podem ser bastante interessantes para quem quer ouvir determinada pessoa que já conhece; mas para um perfeito leigo na matéria serão, efectivamente, a melhor escolha? Lembro-me de que aqui há tempos havia um programa que ensinava as pessoas a corrigirem erros comuns na língua portuguesa, animado por sketches representados por Diogo Infante e outras personalidades mediáticas e baseado numa pseudo-narrativa minimamente coerente e interessante. Não sei se tinha grandes audiências, mas talvez convocasse mais espectadores. Seria possível fazer alguma coisa do género sobre a literatura ou as artes em geral?

Loucura argentina

Imagem

Muitas vezes, quando sai um livro de determinado autor consagrado, compramo-lo imediatamente, mesmo sem ainda termos lido o que foi publicado antes desse. Ora, uma editora na Argentina considerou que, se isso não é um problema para um escritor reconhecido, é-o claramente para um estreante que, se não for lido rapidamente – e objecto de crítica e recensão –, dificilmente terá oportunidade de publicar uma segunda obra. Então, para apressar críticos e leitores – e num acto ligeiramente suicidário –, resolveu imprimir uma antologia de jovens autores latino-americanos com uma tinta especial que, assim que o livro é aberto, desaparece ao fim de dois meses. Ofereceu toda a primeira edição a pessoas que escrevem habitualmente sobre literatura, forçando-as a ler a obra rapidamente – antes que já não seja mesmo possível. A editora chama-se Eterna Cadencia e, ao que parece, a sua estratégia funcionou e não param de chegar pedidos d’«o livro que não pode esperar». A campanha tem um vídeo cujo link vai aí abaixo para o nosso anónimo do costume não pensar que estou apenas a querer ser original:


 


Confissões

Imagem

Não é, nem de perto nem de longe, o meu livro favorito do autor, mas, impelida pelo entusiasmo de alguns leitores deste blogue – mais do que todos, Ana B. e Isabel –, lá me apressei a «ouvir» A Confissão da Leoa, de Mia Couto, um romance baseado em acontecimentos reais que se prendem com o aparecimento de leões numa aldeia moçambicana, onde foram devoradas algumas pessoas. O assunto não é fácil porque o ponto de partida parece até demasiado ficcional para poder dar certo, mas as duas personagens que dão conta do drama – Mariamar e o caçador – são muito bem desenhadas e têm, efectivamente, vidas que valem a pena ser narradas. A primeira é a irmã mais nova da última vítima dos leões e foi proibida de sair de casa, não por causa da proximidade das feras, mas justamente para que o caçador não a leve consigo quando, enfim, conseguir dar cabo delas; o segundo é um homem apaixonado pela mulher do irmão, internado num hospital psiquiátrico desde que disparou contra o pai de ambos, em circunstâncias tão ambíguas que nunca se chegou a saber se foi um acidente. E, com a ajuda deste duo improvável – caçador e presa –, acompanharemos o dia-a-dia numa aldeia atrasada e machista, onde há quem pense que os homens são muito mais perigosos do que os leões, sendo alguns deles capazes, inclusivamente, de os fabricar. Embora a primeira metade do livro me tenha parecido bastante mais conseguida do que a segunda (com algumas coisas mais ou menos previsíveis), este é um bom livro sobre as feras que os homens trazem dentro deles, sobre as superstições e como servem o poder dos homens, sobre as feridas e o desejo da cura.


 


 


O monge faz o hábito?

Todos conhecem a história do ovo de Colombo – mas ninguém sabe responder se o ovo existiu antes ou depois da galinha. Ora, um dia destes, pensando no Prémio Literário José Saramago por causa da publicação de um novo livro do seu primeiro vencedor – As Filhas, de Paulo José Miranda (que lerei e comentarei oportunamente, assim o tempo mo permita) –, surgiu-me uma questão que se aparenta à do ovo de Colombo. Constatando que este último autor não teve, apesar do galardão, o mesmo destaque dos seus sucessores, perguntei-me porquê, se era evidentemente um bom livro (Natureza Morta) aquele que lhe mereceu a distinção. Com efeito, depois de terem recebido o prémio em causa, os outros autores «abençoados» saltaram para um patamar de visibilidade completamente diferente do que tinham e, regra geral, os seus livros começaram a ser referidos como o que de melhor estava a ser escrito em termos de literatura portuguesa (José Luís Peixoto, valter hugo mãe, Gonçalo M. Tavares, João Tordo). Pareceu-me, pois, relativamente injusto que Paulo José Miranda tenha sido a excepção portuguesa (porque, com os autores brasileiros, é mais fácil perceber porquê) e então ocorreu-me que, se o Prémio Saramago fez muito pelos seus autores, é também possível que os seus vencedores (alguns, pelo menos) tenham feito bastante pelo prémio. Senão, vejamos: José Luís Peixoto (o primeiro autor a conseguir um êxito estrondoso depois de o ter ganho), assim que saiu o seu romance Nenhum Olhar, recebeu elogios de todos os críticos importantes (entre eles, Prado Coelho) e a sua presença em escolas e bibliotecas foi assídua, como então não se usava; o livro chegou a ser finalista do prémio da APE nesse ano (feito raro com um romance de estreia), pelo que, para ele, o Prémio pode ter sido apenas o empurrãozinho que faltava. Também Gonçalo M. Tavares já tinha recebido um outro prémio de relevo quando, no ano seguinte a Peixoto, recebeu o Saramago por Jerusalém (mais tarde igualmente galardoado com o Prémio PT no Brasil), consolidando-se como um dos maiores escritores portugueses actuais. E, a partir destas duas vitórias, o prémio ganhou claramente importância e passou a contribuir claramente, em termos de vendas e visibilidade, para o sucesso dos autores distinguidos – o mesmo acontecendo quiçá a Paulo José Miranda se tivesse concorrido depois, e não antes, de Peixoto e Tavares. Será que, neste caso, o monge também fez o hábito?

Metáfora da mestiçagem

Imagem

Recentemente, publiquei um livro que é uma delícia e cuja leitura, antes de falar de coisas mais profundas, dispõe bem – o que, numa época em que andamos um bocado zangados com o mundo, não deixa de ser importante mencionar. Trata-se de O Legado de Nhô Filili, de Luís Urgais, um romance que, podendo denominar-se «histórico» por se referir a um episódio histórico de relevo – a abolição da escravatura em Portugal –, vai claramente além de um relato dos factos que podem ser conhecidos através de ensaios ou manuais, construindo uma ficção primorosa à roda de um casal bastante improvável (e da sua descendência): o branco João Bento Rodrigues, funcionário régio nascido na ilha do Fogo de família minhota (conhecido como Nhô Filili) e a guineense Maguika, uma escrava negra como o carvão, trazida por negreiros para Cabo Verde já depois da proibição do tráfico. Mas não se pense que é a história de amor, como nas telenovelas, que aqui importa (embora seja de uma ternura extraordinária e suscite uma inegável empatia por parte do leitor), pois o romance atravessa quase um século de história e traz-nos, de mão beijada, ao embrião dos primeiros movimentos pela independência das Colónias, bem como à história da mestiçagem cultural e biológica e à questão do racismo, protagonizada não só pela elite branca da cidade da Praia (escandalizada com o casamento misto), mas, de forma bastante mais inovadora, pelos mulatos emergentes e interesseiros (e, note-se, nem sempre bastardos). Uma série de histórias e lendas locais, excelentemente articulada com a intriga do romance, fazem dele uma leitura de grande prazer.


 


O sentido artístico

Para escrever um livro decente, sabemo-lo bem, não é preciso ser um artista. Há por aí muitos títulos no mercado – e não estou a falar só, ou principalmente, de estudos e ensaios – que, por muito «correctos» que se apresentem ao leitor, não podem considerar-se exactamente objectos artísticos, mas são obviamente legíveis; enquanto outros, nem que seja por ruptura ou descontinuidade, inauguram novos caminhos literários que se aparentam, de certa forma, com as vanguardas na música e na pintura. Pergunto-me, aliás, se os seus autores, ao contrário de todas as outras pessoas que escrevem e publicam, não terão uma espécie de sentido artístico inato que acabou por se desenvolver na escrita, mas que, se as circunstâncias e a formação tivessem sido outras, bem poderia ter «degenerado» em outras formas artísticas igualmente interessantes. Digo isto ao descobrir que vários autores que publiquei (e outros que gostaria de ter publicado), muito embora se tenham tornado conhecidos através dos seus livros, se dedicam (ou dedicaram) – ainda que por vezes «domesticamente» – às artes plásticas, ao vídeo e ao cinema, ao canto, a um instrumento musical, à representação teatral. E fico a pensar que, se calhar, a arte já estava toda dentro deles antes de escreverem a primeira linha e que, não saindo por esse poro, sairia por outro qualquer, destacando-os, de qualquer modo, entre os seus pares. Afonso Cruz, por exemplo, de que acabam de sair duas obras – Jesus Cristo Bebia Cerveja e Enciclopédia de História Universal: Recolha de Alexandria –, é um desses casos: fez filmes de animação, é músico e ilustrador. Mas há mais, na vida de Afonso Cruz e na de outros escritores-artistas.

Ça bouge

Nas últimas férias grandes, reparei que muitos estrangeiros que escolheram as praias do Algarve levavam com eles um e-reader, quase sempre um Kindle, poupando-se ao peso dos livros que iam na minha pasta – e que, por me deslocar de carro, pude levar comigo. Porém, eram ainda muito poucos os portugueses que se serviam desses dispositivos para ler, talvez porque a crise instalada não desse para mais do que o hotel, a gasolina e as refeições (que este ano, sem subsídios, muitos já não poderão pagar). No final do ano passado, pedi, por curiosidade, os números de vendas de ebooks de um dos autores que publico, parecendo-me que, pelas suas características, seria dos que teriam mais leitores com e-readers. Surpreendi-me com a parca meia dúzia de exemplares vendidos e, até há pouco, rendi-me à evidência de que ainda estávamos um bocado atrasados ou falidos para podermos concorrer com suecos e holandeses (os estrangeiros de que atrás falei) nesta matéria. Contudo, há dias chegou-me uma informação sobre as vendas do romance vencedor do Prémio LeYa e, ao contrário do que pensava, neste caso os ebooks ultrapassavam os 120, quase todos na versão para iPad. Será que também em Portugal as coisas estão decididamente a mexer e as pessoas não resistiram, apesar de andarem mais apertadas de dinheiro, ao gadget da Apple, mas pouparam no preço do livro, que é mais barato na versão electrónica?

O que ando a ler

Hoje é dia de dizer o que andamos a ler (não me esqueci) – e a verdade é que gostava de ter lido mais livros publicados, mas, nos últimos tempos, tenho-me dedicado sobretudo à leitura de provas e de originais de autores portugueses. No entanto, nas míseras horas que sobraram na semana passada, tive a sorte de pôr os olhos numa maravilha alemã, provando que, apesar do actual preconceito europeu, há bem mais nesse país do que a senhora Merkel, a equipa de futebol que tinha as pernas mais compridas do Euro (e, claro, a nossa comentadora Cristina Torrão). Por exemplo, um escritor maior da literatura mundial, W. G. Sebald, já falecido, cuja obra de estreia (aos 44 anos) se chama Do Natural Um Poema Elementar e acaba de ser traduzida por Telma Costa e publicada pela Quetzal. E nem se atrevam a ter medo da palavra «poema» porque, garanto, o texto se lê com a fluência da prosa – pelo menos, da prosa de Sebald, autor de livros bastante atípicos e bons como Austerlitz ou Os Anéis de Saturno. Dividido em três partes – que correspondem a três personagens (Grünewald, um pintor do século XVI; Steller, um cientista do século XVIII que parte na expedição de Bering, o que deu o nome ao estreito; e o próprio autor) – este longo poema é, entre outras coisas, um hino à natureza (bela a cena em que o pintor ensina o filho no atelier, mas também nos campos verdes; belíssima a descrição do eclipse do Sol em 1502 ou a visita de Sebald com a filha a um moinho, fugindo da cidade; maravilhosa a passagem em que alguém tem a ideia louca, mas imaginativa, de domesticar baleias como animais de carga). Além disso, é um texto que merece ser lido com a ajuda de histórias de arte e atlas, pois, apesar de pequeno, está cheio de referências que engrandecem, ilustram e nos tornam mais cultos e melhores. Aconselho-o vivamente a todos os que adoram literatura e não têm medo dela.