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A mostrar mensagens de setembro, 2021

Excerto da Quinzena

(Excepcionalmente hoje, porque amanhã é dia de dizer o que andamos a ler.)


Detesto as boas donas de casa. Se são pobres, esfalfam-se a trabalhar, se são remediadas ou ricas arranjam uma ou mais pessoas para se esfalfarem em seu lugar. De qualquer dos modos são escravas do trabalho ou então da vigilância com outras escravas às suas ordens. A vida a correr lá fora, os maridos e os filhos a correrem com a vida, metidos nela, e as donas de casa a esfregar, a limpar, a dar brilho aos metais. Ou a ver as outras a fazê-lo. Olhe que o pó não está bem limpo. Olhe que a torneira não está bem areada. Isto não pode continuar assim, isto tem de acabar, olá se tem! O que a vida já correu e elas sem a verem. Sem darem por nada. Ficaram sozinhas e não se dão conta. O marido morreu sem nunca ali ter estado, os filhos fugiram para se casar com outras donas de casa que estavam escondidas dentro de raparigas bonitas, alegres e apaixonadas.


Maria Judite de Carvalho, Tanta Gente, Mariana


 

A família indo-portuguesa

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A escritora Raquel Ochoa, de quem já publiquei livros de ficção e não-ficção, estreou-se com um romance que lhe valeu o Prémio Literário Agustina Bessa-Luís e já vai em dez edições... Chama-se A Casa-Comboio e conta a história de quatro gerações de uma família indo-portuguesa, cristãos que residem em Damão e acabam em Lisboa. Honorato, Rudolfo, Baltazar e Clara são os fios que ligam a saga fascinante dos Carcomo ao longo de mais de um século. Habitando uma espécie de «casa-comboio», a sua história é baseada na de uma família verdadeira e a autora visitou a maioria dos locais onde tudo aconteceu. Com uma notável capacidade de efabulação, elogiada na atribuição do prémio por Vasco Graça Moura, que então pertencia ao júri, a autora abre-nos a janela sobre o modus vivendi de tantos indo-portugueses – quer a experiência feliz, quer a traumática, em territórios como Goa, Damão e Diu, outrora sob o domínio da Coroa e do Estado portugueses e hoje bastante esquecidos. Se gosta de romance histórico e tem, como tantos, fascínio por esse país tão especial, não perca.


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Saramago

José Saramago foi, até hoje, o nosso único Prémio Nobel da Literatura e é, por isso, natural que nos orgulhemos dele, ainda que possamos preferir os livros de outros autores ou até achemos que outros escritores portugueses ou de língua portuguesa teriam merecido receber a mesma distinção. Mas isso não menoriza o trabalho de Saramago nem nos deve privar de o celebrar de muitas formas. E é isso, no fundo, que fará a Fundação José Saramago e os seus parceiros nesta iniciativa, incluindo o Plano Nacional de Leitura, começando as comemorações do centenário do escritor exactamente um ano antes de ele se completar, ou seja, no próximo dia 16 de Novembro de 2021. O programa foi recentemente apresentado e não vale a pena estar a descrevê-lo aqui, pois mais fácil será deixar a cada um tempo para a respectiva leitura, já que, num ano, muita coisa acontecerá. Assim, deixo-vos o link para festejarem o escritor nas datas e das formas que melhor entenderem. Mas juntem-se à festa lendo-o e relendo-o, que é o mais importante.


Plano Nacional de Leitura (pnl2027.gov.pt)


 

Aviso

Estas minhas Horas Extraordinárias já fizeram mais de dez anos; e, embora quem comente no blogue sejam quase sempre as mesmas pessoas (que já se instalaram neste salão há muito e nele parecem sentir-se bem), a verdade é que aqueles que o consultam ou lêem e dos quais não sabemos o nome são muitos mais e têm aumentado de número com o tempo (quiçá porque acompanhavam outros blogues que entretanto fecharam). Mas isso tem levado a uma situação um pouco incómoda, que é a de eu ter passado a receber quase todos os dias newsletters de editoras brasileiras e portuguesas e pedidos de morada para envio de exemplares de livros, com vista a uma referência ou crítica aqui no blogue. Ora, para que fique claro, eu falo nas minhas Horas Extraordinárias sobretudo de duas coisas: dos livros que publico e que gostaria muito que os Extraordinários lessem; e dos livros que leio nas minhas «horas extraordinárias», publicados por outras editoras, quando os compro tendo em conta os seus autores, ou o que pessoas e meios de comunicação sobre eles dizem, ou ainda os prémios que eventualmente vencem. Mais nada. Mesmo assim, atenção, nada do que aqui escrevo passa de um comentário pessoal e sempre subjectivo, e que isso não se confunda por favor com crítica literária ou recensão ou algo mais académico. Não me considero, por fim, uma influencer... Saiba por isso quem me lê aqui que já não tenho estantes livres em casa e que, mesmo que me mandem livros, só vou falar deles se os acabar por ler e gostar. Poupem no correio, sobretudo nesse que vem de tão longe. Obrigada na mesma, mas não tenho mais tempo para poder fazer essas leituras.

O preço das coisas maravilhosas

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Qual o peso da família nas nossas vidas, e qual o peso do dinheiro? Que acontece quando uma mãe decide não cuidar da sua filha, e quando uma filha decide não cuidar da sua mãe? Seríamos diferentes se tivéssemos nascido noutro sítio, noutro tempo, noutro corpo? Em As Maravilhas, romance de Elena Medel vencedor do Prémio para Melhor Livro do Ano em 2020 no país vizinho, há duas mulheres: María, que em finais dos anos sessenta deixa a sua vida numa cidade de província para trabalhar em Madrid; e Alicia, que faz o mesmo caminho trinta anos mais tarde, mas por razões diferentes. E há, claro, a mulher que as une e de quem praticamente não se fala: filha de uma e mãe da outra. Este é um romance sobre o dinheiro, ou melhor, sobre como a falta de dinheiro pode determinar uma vida inteira de precariedade e matar todos os sonhos. Mas é também uma história sobre o passado recente da Península Ibérica, desde finais da ditadura até à explosão do feminismo, contada por duas mulheres que tão-pouco podem ir às manifestações lutar pelos seus direitos porque têm, claro, de trabalhar. Saudado por José Luís Peixoto («Entre o que há de melhor na literatura contemporânea») e Valter Hugo Mãe («Aleluia que chegou a Portugal»), As Maravilhas acaba de ser publicado e agora precisa de ser lido.


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Nervosíssimos

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Já aqui falei mais de uma vez de uma revista de poesia chamada Nervo; e, se lhe desejei sorte no arranque, pois a verdade é que agora chegou a hora de lhe dar os parabéns, pois, num país que se diz de poetas, mas no qual as pessoas aparentemente não compram livros de poesia (as tiragens são sempre tão pequenas...), a Nervo, com a energia e a força da sua mentora e poeta, Maria de Fátima Roldão, chegou há poucos dias a uma dúzia de números publicados, o que é obra e obra louvável. Se quisermos ser exaustivos, são quatro anos de poemas, um número publicado previsivelmente a cada quatro meses (mesmo com o raio da pandemia pelo meio!). Foram 152 poetas no total, entre portugueses (117) e estrangeiros (35), estes últimos com traduções incríveis de variadíssimas línguas (hebraico e neerlandês, entre outras). Foram também mais de uma dúzia de artistas plásticos que conceberam trabalhos de grande qualidade para a capa e o interior numa grande sintonia entre palavra e imagem. Venham mais doze, é o que me apetece dizer, e parabéns aos implicados e aos leitores que a compram, lêem e tornam possível. Toca a ler poesia!


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O divino escritor

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No passado dia 14 comemoraram-se 700 anos sobre a morte do grande poeta Dante Alighieri, o autor de A Divina Comédia e, simultaneamente, o primeiro escritor a usar o «italiano» como língua literária. Vasco Graça Moura traduziu o «calhamaço» que está, de resto, publicado na Quetzal; e fê-lo em verso, respeitando a rima, o que ainda é mais difícil. É talvez por isso um pouco difícil de seguir, pois não é exactamente uma tradução, mas uma criação poética a partir do original (e, por vezes, as paráfrases resultam um pouco arrevezadas no intuito de se salvar a métrica e a harmonia musical). Mais clara é uma tradução recente feita em Espanha, embora não em verso, por José-María Micó (que, além de ser um excelente tradutor e poeta, toca muito bem guitarra e acompanha a sua mulher, Marta, que canta). Trata-se de uma tradução quiçá menos «criativa» do que a de Graça Moura, mas fundamental para os que conhecem mal a história daquele período (em Florença, sobretudo), porque inclui anotações preciosas. Ambas as traduções são bilingues e, de certa forma, complementares para quem queira conhecer a Divina Comédia. Já para quem queira conhecer o seu autor, o Dante que é também o narrador e a personagem da Comédia, aquele que visita o Inferno, o Purgatório e o Paraíso guiado por Virgílio, o autor da Eneida, saiu agorinha pela mesma Quetzal uma biografia exaustiva da autoria de Alessandro Barbero intitulada Dante: Uma Vida, que conta de fio a pavio a existência deste homem genial marcado pelo exílio, pela escrita e pelo amor. Não vamos poder perdê-la.


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Para o outro

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Num momento em que «receber o outro» está na ordem do dia, sobretudo pelo que aconteceu com a tomada do poder pelos Talibãs no Afeganistão, destaco um livro dedicado ao Outro, de um escritor italiano, Davide Enia, que resolveu levar a cabo uma tarefa invulgar (testemunhar dezenas de desembarques de migrantes na ilha de Lampedusa) e nos oferece um livro absolutamente imperdível, comovente e humano como poucos sobre a matéria. (Chorei em muitas páginas, e a tradutora, Tânia Ganho, também.) Misto de romance e reportagem, Notas sobre Um Naufrágio fala com todos e de todos: os que atravessaram vários países, e depois o mar, para chegarem à Europa em condições inimagináveis – rapazes feridos e nus, raparigas violadas e grávidas, crianças e adultos que viram morrer familiares durante a travessia; e dos que os ajudam a desembarcar – voluntários, mergulhadores, pessoal médico, a Guarda Costeira… No meio, fica o autor, para contar sem paninhos quentes o que realmente acontece em terra e no mar e como as palavras são manifestamente insuficientes para compreender os paradoxos do presente. Lampedusa é também o lugar onde se reinventa a relação de Davide Enia com o próprio pai, um médico recém-aposentado que o acompanha à ilha por mais de uma vez. Testemunharem juntos o sofrimento público e a tragédia dos migrantes ajuda-os a construir um diálogo privado completamente novo que substitui os silêncios do passado e mitiga a dor de ambos com a doença de um familiar muito próximo. Notas sobre Um Naufrágio é uma obra-prima que trata da  tremenda fragilidade da vida humana. Profundamente actual e necessário. O autor estará no FOLIO em Outubro.


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Vinte anos

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Praticamente ao mesmo tempo que comemoramos os vinte anos de um dos mais tremendos acontecimentos históricos de sempre (sim, refiro-me aos atentados em Nova Iorque do dia 11 de Setembro de 2001) reparo que a Quetzal faz sair uma edição belíssima, comemorativa dos mesmíssimos vinte anos da publicação da estreia literária de José Luís Peixoto, Morreste-me  (cuja primeira edição comercial tive o orgulho de publicar  na Temas e Debates e que teve até uma edição especial com os direitos a favor da Liga Portuguesa contra o Cancro). Aquilo que começou por ser um texto publicado por um rapaz ainda muitíssimo jovem no suplemento DN Jovem (no qual tantos autores deram os primeiros passos na carreira das letras, poetas e ficcionistas) acabaria por transformar-se num livro extremamente falado, lido, comentado e estudado em todo o mundo sobre a morte de um pai amado e próximo, sobre o luto, a ausência e as recordações, sobre a incapacidade de viver sem essa presença marcante e, ao mesmo tempo, sobre como esse diálogo, essa espécie de carta do filho ao pai, acaba por ser a salvação. Se nunca o leram, está na hora. Impossível não sentir empatia e compaixão. Maravilhoso, comovente e realmente incrível quando pensamos que este foi o embrião de tanta coisa.


 


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Excerto da Quinzena

Eu possuo preciosamente um amigo (o seu nome é Jacinto) que nasceu num palácio, com quarenta contos de renda em pingues terras de pão, azeite e gado.


Desde o berço, onde sua mãe, senhora gorda e crédula de Trás-os-Montes, espalhava, para reter as Fadas Benéficas, funcho e âmbar, Jacinto fora sempre mais resistente e são que um pinheiro das dunas. Um lindo rio, murmuroso e transparente, com um leito muito liso de areia muito branca, reflectindo apenas pedaços lustrosos de um céu de Verão ou ramagens sempre verdes e de bom aroma, não ofereceria, àquele que o descesse numa barca cheia de almofadas e de champanhe gelado, mais doçura e facilidades do que a vida oferecia ao meu camarada Jacinto. Não teve sarampo e não teve lombrigas. Nunca padeceu, mesmo na idade em que se lê Balzac e Musset, os tormentos da sensibilidade. Nas suas amizades foi sempre tão feliz como o clássico Orestes. Do amor só experimentara o mel – esse mel que o amor invariavelmente concede a quem o pratica, como as abelhas, com ligeireza e mobilidade. Ambição, sentira somente a de compreender bem as ideias gerais, e a “ponta do seu intelecto” (como diz o velho cronista medieval) não estava ainda romba nem ferrugenta... E todavia, desde os vinte e oito anos, Jacinto já vinha repastando de Shopenhauer, do Eclesiastes, de outros pessimistas menores, e três, quatro vezes por dia, bocejava, com um bocejo cavo e lento, passando os dedos finos sobre as faces, como se nelas só palpasse palidez e ruína. Porquê?


[Que prosa tão boa, caramba!]


Eça de Queiroz, “Civilização” [o conto que deu origem mais tarde ao romance A Cidade e as Serras], in Contos

Clássicos para jovens

Tenho ideia de em pequena ver lá por casa umas edições abreviadas por João de Barros da Ilíada e da Odisseia («contadas às crianças e explicadas ao povo», cito de memória, perdoem-me se não era assim) que em tempos a Sá da Costa publicou; quando Frederico Lourenço começou a ocupar-se das traduções de Homero (que li, claro, na versão «para adultos»), pensei que seria bom uma nova adaptação para os leitores adolescentes e, de facto, mais tarde, tanto a Ilíada como a Odisseia tiveram, na Quetzal, essas versões, organizadas pelo próprio Frederico Lourenço. Aqui há tempos falei da Eneida de Virgílio traduzida pelo professor Carlos Ascenso André (um dos últimos lançamentos da editora Cotovia) e avisam-me agora os editores da Quetzal que deram à estampa, organizada por este mesmo autor, uma adaptação da Eneida para os jovens. São, claro, boas notícias, ao mesmo tempo que descubro que outros clássicos estão a sair com o formato de romances gráficos ou BD, estimulando os mais novos para a leitura de livros que, mais tarde, lhes irão aparecer já só em texto entre as leituras aconselhadas na escola. Vamos lá ver se, com estas edições boas e bonitas, eles começam a interessar-se pelos livros que nunca passam de moda.

Sobrevida

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Em tempos que já lá vão traduzi um livro científico da autoria de Carl Sagan que desmistificava algumas ideias feitas, entre as quais a dos sonhos premonitórios e a das pessoas que estão clinicamente mortas durante um período e, ao voltarem à vida, alegam ter visto Deus ou uma luz (o que o cientista explicava poder tratar-se apenas de uma recordação da saída do útero no momento do nascimento: vir do escuro para a luz ou ver enevoadamente a figura de um médico, o tal Deus). Mas houve quem estivesse numa espécie de morte e desse o seu testemunho disso, como, por exemplo, José Cardoso Pires, em De Profundis, Valsa Lenta, que relata a sua experiência depois de um acidente vascular cerebral. A COVID-19 foi responsável por imensas mortes no ano passado e chegou a muitas pessoas conhecidas. Daniel Sampaio, o conhecido escritor e psiquiatra, foi uma das pessoas que esteve a um passinho da morte, internado longamente no hospital. Salvou-se e escreveu alguns artigos pungentes sobre a experiência; e agora, nesta «sobrevida» em que, graças a Deus, até já pôde ir à Feira do Livro dar autógrafos, oferece-nos o livro COVID 19: Relato de Um Sobrevivente que impressionará certamente pela narrativa em si, mas também pelo seu apego à vida. Obrigada por mais um testemunho importantíssimo sobre o maldito vírus, ideal para oferecer aos negacionistas.


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Maravilha das maravilhas

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Não é toda a gente que tem jeito para as rimas, sobretudo quando se trata de poesia para crianças, quantas vezes sem pilhéria nenhuma e moralista em excesso. Mas há excepções, evidentemente, e lembro-me de uma vez ter lido uma versão infantil de uma peça de Gil Vicente escrita em verso por Rosa Lobato de Faria que era muito boa. Quem também tem um talento danado para as rimas giras, cómicas, inesperadas, «desgovernadas», desconcertantes e nada melosas é David Machado (que, já agora, foi nomeado semifinalista do Prémio Oceanos há cerca de duas semanas com o romance A Educação dos Gafanhotos). Depois de uma colaboração com a Visão Júnior online (em que ouvíamos o poema e víamos uma mão ilustrá-lo em directo) e de algumas leituras num programa de rádio, saiu agorinha mesmo este mimo de livro, O Meu Cavalo Indomável: Rimas Desgovernadas para Crianças Animadas, uma maravilha das maravilhas com desenhos de Ricardo Ladeira. Arrisco-me a dizer que os adultos também vão gostar bastante! Deixo um exemplo só para abrir o apetite:


 


A tartaruga


 


No quarto da Inês, havia uma gaiola


E, dentro da gaiola, estava uma tartaruga.


De manhã, a Inês saiu para a escola


E a tartaruga aproveitou e pôs-se em fuga.


Durante horas, caminhou, sonhando ser livre,


As patas em brasa, já quase morta.


E quando a Inês chegou a casa, encontrou-a...


no meio do quarto entre a gaiola e a porta.


 


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Mães e filhas

O tema da relação entre mães e filhas tem sido abundantemente tratado na literatura A nobelizada austríaca Elfriede Jelinek escreveu um romance, A Pianista, que deu origem a um filme extremamente dramático com Isabelle Hupert, mas há um monte de livros sobre o assunto, como Um Amor Incómodo, de Elena Ferrante, Swing Time, de Zadie Smith, Até ao Fim do Mundo, de Maria Semple, Beloved, de Toni Morrison, Assim Era a Solidão, Juan José Millás, Noites Azuis, de Joan Didion, Paula, de Isabel Allende ou Uma Barragem contra o Pacífico, de Marguerite Duras, só para dar alguns exemplos. E a prova de que se trata de uma questão realmente inesgotável é o belíssimo O Meu Nome É Lucy Barton, de Elizabeth Strout, autora que já venceu o Pulitzer e é das mais aplaudidas e conceituadas romancistas norte-americanas contemporâneas. Filha da pobreza extrema, gozada na escola, mal vestida, mal lavada e maltratada, Lucy tem a sorte de, ao contrário dos irmãos, adorar ler e de os livros a levarem um dia para muito longe de casa, geográfica e socialmente falando. Mas a família lida mal com o facto de ela ser e estar melhor do que eles, e o afastamento acaba por durar anos, até ao dia em que Lucy entra no hospital para uma cirurgia que se adivinhava fácil, mas apanha uma bactéria que a deixa à morte. Então, acorda numa bela manhã e vê a mãe sentada na cadeira do quarto a velá-la... Mas como terá chegado a um hospital de Nova Iorque alguém praticamente analfabeto que nunca saíra do seu buraco sujo no Illinois? Eis o que vamos descobrir em O Meu Nome É Lucy Barton. Um romance a não perder, uma escritora a acompanhar. A tradução é de Rita Canas Mendes para a Alfaguara.

Cafés e restaurantes literários

Muitas bibliotecas portuguesas deram o nome de «Café Literário» a actividades que visam o encontro do público leitor com um ou mais escritores, independentemente de na ocasião servirem café ou coisa que o valha. Esse título é sobretudo uma alusão ao facto de, ao longo dos tempos, os escritores terem passado muitíssimo tempo a escrever em cafés (ou a beber, ou a conversar) e estes se terem tornado, por causa disso, lugares míticos e até turísticos. Não há ninguém que adore livros que falhe em Paris o Les Deux Magots ou o Café de Flore em Saint-Germain, cafés frequentadíssimos por escritores (Sartre e Simone De Beauvoir, entre outros). E, em Madrid, os autores contemporâneos continuam a marcar encontros com os seus editores no Café Gijón, onde os empregados têm o costume de fingir que não vêem os clientes... Hemingway, por seu turno, gostava muito do Floridita ou da Bodeguita del Medio em La Havana; e em Sampetersburgo, reza a lenda que foi num café da conhecida Avenida Nevsky que Pushkin travou o seu último duelo. Na cidade de Praga, o Grand Café Praha era, supostamente, local da preferência de Kafka e, em Lisboa, o desaparecido Monumental foi local de tertúlia e frequentaram-no muitos escritores (de Carlos de Oliveira a Luiz Pacheco). Já no meu tempo de faculdade, Abelaira, o autor de Cidade das Flores escrevia no Caleidoscópio. Não sei se hoje os mais jovens escritores ainda gostam de cafés, mas alguns dos que mencionei fazem parte dos roteiros turísticos de algumas cidades do mundo.


P. S. Hoje vou estar na Feira do Livro de Lisboa às 18h30 no pavilhão da Quetzal a autografar o meu livro de crónicas, Adeus, Futuro. Apareçam.

Perdido e redescoberto

Toda a gente concorda que os horrores de Auschwitz e o Holocausto se tornaram um moda literária, fazendo com que se tenham vendido milhares de livros, sobretudo nos últimos anos, dedicados ao tema; e que essa circunstância levou a que se escrevesse todo o tipo de produtos melosos, xaroposos, perigosos e pouco rigorosos sobre um assunto que mereceria ser tratado com total respeito (graças a Deus, há muitas excepções). Mas este romance de que hoje vos falo, editado pela Cavalo de Ferro, deve ser lido por todas as razões, incluindo porque a prosa do seu autor, Ulrich Alexander Boschwitz, tem ressonâncias de Robert Walser e Knut Hamsun, e também porque ele sabe do que fala, pois foi um judeu contemporâneo do nazismo (morreu num navio no qual tentava fugir mas que foi torpedeado por um submarino alemão perto dos Açores). O romance, cujo manuscrito tinha sido enviado à mãe, acabou por ser discretamente publicado em inglês nos anos 1940 com pseudónimo, mas só recentemente foi redescoberto na Biblioteca Nacional Alemã e dado à estampa na sua versão definitiva. O Passageiro de que o título fala é um judeu que consegue por milagre escapar à Noite de Cristal (chegam a ir buscá-lo a sua casa, mas confundem um homem que o visitava com ele, permitindo-lhe fugir) e que, sem saber para onde se virar, deixa tudo para trás (a família e os negócios) e resolve apanhar comboios sucessivos e viajar sem destino preciso, numa aventura que tem muito de Kafka e, segundo o Figaro, mas não achei assim tanto, de Chaplin. A tradução é de Paulo Rêgo e este não é só mais um livro sobre Auschwtiz.

Livros apaixonantes

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Como sabem, não sou exactamente uma editora de literatura infantil, embora, na minha vida paralela, tenha escrito e co-escrito mais de quarenta livros entre infantis e juvenis e aprecie bastante o género. Recebi, porém, a proposta de um ilustrador da Corunha muito talentoso (David Pintor) para fazer em Portugal um dos seus muitos títulos, desta feita A Grande Aventura de Nara, um livro que dedica à sua filha e no qual ela é a protagonista, representando todas as crianças e ao mesmo tempo a criança específica que estiver a folhear o livro. E, pronto, apaixonei-me como uma garota por este objecto incrível onde também a mim me apeteceu ser Nara, porque aqui podemos mesmo ser nós a construir a história que quisermos e nos vier à cabeça. É que, apesar de haver uma sequência mais ou menos lógica de ilustrações, desde que se agarra um balão e se voa, a verdade é que não há uma única palavra ao longo de todo o livro, e é estranho dizê-lo, mas não faz lá falta nenhuma. Se agarrarem o livro e o forem folheando, perceberão; e talvez também se apaixonem por esta aventura, fazendo-a vossa ou de uma criança conhecida. O autor estará a autografar na Feira do Livro de Lisboa no próximo dia 11 de Setembro, às 16h00, na companhia de David Machado e Madalena Moniz, que também são autores do excelente Viagem ao Centro do Escuro. Vamos ver se as crianças lêem qualquer coisinha?


 


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Homenagem

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Este ano comemora-se o centenário do nascimento da escritora Maria Judite de Carvalho, que foi uma grande romancista e cronista, além de se ter dedicado também à poesia e às artes plásticas. Chamou-lhe Agustina «a flor discreta da nossa literatura». Autora de um dos mais extraordinários longos contos (ou novelas), o célebre Tanta Gente, Mariana e de uma obra vasta, não teve em vida o reconhecimento que merecia, quiçá por ser casada com Urbano Tavares Rodrigues e não haver espaço para dois escritores na mesma casa; quiçá apenas por ter vivido numa época que dava geralmente pouca atenção às mulheres intelectuais. Porém, para comemorar o centenário está finalmente a fazer-se justiça, seja republicando a Almedina a sua obra completa em volumes belíssimos, cujas capas são quadros da própria autora, seja através de um livro de homenagem poética à escritora, prefaciado por Alice Vieira (que foi sua amiga pessoal), posfaciado por Rosa Azevedo, organizado por Lília Tavares e Carlos Campos e com a participação de nada menos do que 123 autores; alguns talvez sejam desconhecidos do grande público, mas outros são decididamente conceituados, como Ana Luísa Amaral, Margarida Vale de Gato, Inês Lourenço, Fernando Pinto do Amaral, Maria Teresa Horta, Nuno Júdice ou Rita Taborda Duarte, e constam ainda do rol a filha de Maria Judite de Carvalho (Isabel Fraga) e uma das netas (Inês Fraga). O número de autores que participam evidencia o reconhecimento desta autora. O lançamento da antologia, com o título Água Silêncio Sede, terá lugar na Feira do Livro de Lisboa, no Auditório Nascente, no próximo dia 9 às 17h00, seguindo-se, no Pavilhão da Poética (B96), uma sessão de autógrafos com os autores presentes. No dia seguinte, Inês Fraga conversará com a professora Paula Morão no Auditório Poente sobre Maria Judite Carvalho, numa iniciativa da editora Almedina, às 19h00.


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O francês americano

Não costumo ser maria-vai-com-as-outras, mas respeito a opinião literária de uma dúzia de pessoas e vi que algumas delas se entusiasmaram muito com a leitura de um romance francês, o que, nos tempos que correm, é coisa rara. Está certo que o livro tinha ganho (não me apanham a escrever «ganhado», lamento) o Prémio Goncourt, o mais importante galardão gaulês, em 2020, mas assim mesmo havia ali uma unanimidade no elogio que me suscitou curiosidade. Fui, pois, comprar Anomalia, de Hervé Le Tellier, para degustar nas férias. E é talvez o menos francês e o mais americano de todos os romances de autores franceses que li na vida, pois tem efectivamente um ritmo trepidante e a meio se transforma num thriller que é simultaneamente científico, paranormal, psciológico, social, mas muito literário também. Gostei mais da parte até à surpresa desconcertante (sem querer abrir muito o jogo, esta está ligada a uma hipótese de sermos meras «simulações»), em que nos são apresentados em capítulos autónomos muitos dos passageiros que iam em determinado voo intercontinental e apanharam o susto da vida deles com uma tempestade de granizo que rachou até o pára-brisas do avião. Mas na segunda concordo que o autor tem raro talento para nos agarrar e arrastar pelas suas páginas, é muito informado (matemático, jornalista, linguista, editor...) e escreve um romance a pensar em todo o mundo. Actualíssimo, distrai bastante. Traduziu-o Tânia Ganho e saiu na Presença.

Excerto da Quinzena

«Alguns minutos depois, Gudmund desceu à sala envergando o seu trajo de núpcias. Estava pálido, ardiam-lhe os olhos num brilho ansioso, mas nunca ninguém o vira tão belo. Os traços do rosto estavam como iluminados por uma luz interior, parecendo a quem o via um ser feito de alma e de vontade, e não de carne e de sangue.


Na sala tudo tomara um ar solene. A mãe vestira-se de preto e trazia nos ombros- o seu belo xaile de seda, embora não fosse assistir ao casamento. Todos os criados tinham também envergado os seus mais vistosos trajos. Folhas frescas de bétula guarneciam a chaminé e pratos variados e suculentos cobriam a mesa, revestida de uma alva toalha.


Terminado o almoço, a mãe Ingeborg leu um salmo e alguns versículos da Bíblia. Depois, dirgindo-se a Gudmund, agradeceu-lhe o ter sido sempre bom filho, desejou-lhe felicidades para o futuro e deu-lhe a bênção. Sabia falar bem e Gudmund comoveu-se. Os olhos velaram-se-lhe mais de uma vez, mas conseguiu vencer a vontade de chorar. O pai pronunciou também algumas palavras.


– Bastante duro vai ser para nós perder-te – disse ele.»


 


Selma Lagerlöf, «A rapariga do Brejo Grande», in O Livro das Lendas,


tradução de Pepita de Leão, Livros do Brasil

O cego iluminado

Num domingo à tarde do mês passado, fui para casa da minha mãe, como acontece com frequência, fazer-lhe companhia durante a tarde. Mas, apesar de ela ser uma grande conversadora, o calor amoleceu-a nesse dia e passou grande parte da minha visita a dormir a sesta. Como eu não ia preparada para isso, acabei por ir à estante da sala à procura de algo que ler em poucas horas e saiu-me ao caminho o excelente Cândido, de Voltaire, que provoca sempre umas boas risadas e nos faz reflectir sobre o mundo, sobretudo o de hoje. Cândido, como o nome indica, é mesmo um ingénuo que cai nas esparrelas iluminadas do falso filósofo Pangloss, por quem é educado na casa de um barão junto com a filha deste, a menina Cunegundes, que ele ama loucamente. Expulso do palácio com um pontapé no traseiro pelo pai da rapariga quando sabe dos contactos físicos (inocentes ainda), iniciará então um caminho de aventuras e desventuras – com viagens a toda a parte (incluindo Portugal, onde assiste aos efeitos do terramoto de 1755) –, durante o qual assistirá ou saberá dos horrores acontecidos (ou talvez não) a Pangloss, ao barão, à menina Cunegundes e a muitos amigos que vai fazendo ao longo do tempo e que o vão orientando para o pior e para o melhor. No fim, nesta deliciosa sátira contra a intolerância e o fanatismo, Cândido concluirá, sem grandes filosofias, que «quem não trabuca não manduca», coisa que continua a ser verdade nos nossos dias (os clássicos são intemporais), excepto para os grandes ladrões que por aí há. Viva o génio de François-Marie Arouet, aka Voltaire, e da tradutora belíssima, Maria Archer. Foi uma tarde muito bem passada.

De volta (e o que ando a ler)

Caríssimos Extraordinários, espero que tenham tido umas férias repousantes e, sobretudo, com muitas e compensadoras leituras. Eu desforrei-me até poder, embora, com o calor, a idade e a descompressão, também tenha começado a cabecear depois de almoço e a cair numa espécie de torpor impeditivo de ler. Mas a vida é assim, não se pode ter tudo. Neste momento, em que (não se esqueçam) decorrem já as Feiras do Livro de Lisboa e do Porto, locais muitíssimo interessantes para os amigos deste blogue, tenho em mãos um «calhamaço» de um escritor holandês radicado em Itália, Iljia Leonard Pfeijffer, que é simultaneamente a história de um amor (o do narrador, que tem o mesmo nome do escritor, com a jovem aristocrata italiana Clio) e uma reflexão sobre o  turismo de massas, o passado glorioso da Europa e o seu declínio no século XXI. Indo para um hotel decadente (o Grand Hotel Europa) escrever o seu livro (este livro, presumo) com o objectivo de lamber as feridas e fazer o luto da sua relação, o texto vai alternando uma parte mais romanesca com outra mais política e densa e ainda com a vida no hotel (o bagageiro jovem é um migrante chegado num barco de refugiados) e a busca do último quadro de Caravaggio por Clio, que é historiadora de arte. Na Holanda, Grand Hotel Europa vendeu loucuras. A tradução é de Maria Leonor Raven e trata-se de uma edição da Livros do Brasil.