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A mostrar mensagens de setembro, 2018

Folio

Começou ontem mais uma edição do Folio, o festival literário mais famoso do Outono, que decorrerá na Vila Literária de Óbidos até ao próximo dia 7 de Outubro e cujo tema é desta feita Ócio. Negócio. A Invenção do Futuro. Como de costume, o festival contará com a presença de variadíssimos autores estrangeiros, como Alan Hollinghurst, Claudia Piñeiro, Cynan Jones, Felipe Benítez Reyes, Gregório Duvivier... e também de muitíssimos portugueses que ali estarão em mesas-redondas e lançamentos de livros (Afonso Reis Cabral, Nuno Camarneiro e João Pinto Coelho, por exemplo, só para puxar a brasa à minha sardinha e pôr o comentador anónimo a reclamar). As exposições não faltarão (ilustração, fotografia, cerâmica...), nem os concertos, que desta vez englobam desde a música clássica (com um recital por Ana Paula Russo) ao fado (Ricardo Ribeiro e Fábia Rebordão) e à pop (Mafalda Veiga e Samuel Úria, por exemplo). Serão comemorados os 20 anos da entrega do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago e vai haver homenagens justíssimas a Eduardo Lourenço e Ribeiro Teles. Organizaram-se boas oficinas de escrita e de matemática, entre muitas outras actividades pensadas para todas as idades. O programa é extenso e pode ser consultado na Internet. Apareça por lá.

Mulheres

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Escrevi anos a fio livros juvenis, muitos dos quais foram adaptados à televisão, mas a partir de uma certa altura fiquei um bocado farta de aventuras para adolescentes; depois disso, penso que só abri a excepção da literatura para adultos para escrever uma biografia de Amália Rodrigues chamada A Minha Primeira Amália (que, por sinal, me deu imenso gozo). Não imaginava por isso que fosse reincidir no género, mas não resisti a aceitar o convite de Filipa Casqueiro, editora da Booksmile, até porque foi ao meu lado que ela começou nos livros e hoje está aí a dar cartas e estou eu aqui a escrever para ela. Pois bem, como parece que as mulheres estão em alta no mundo inteiro, o livro que a Filipa me encomendou e é lançado hoje (e que tive o maior gosto em escrever, sobretudo por tudo o que aprendi na fase de investigação) é sobre mulheres: mulheres portuguesas e extraordinárias. Por decisão minha, preferi seleccionar apenas mulheres que já morreram, para estarem todas em igualdade de circunstâncias; mas no conjunto existem figuras históricas, cientistas, desportistas, aventureiras, políticas e muito mais, de vários séculos até à actualidade. O livro, ilustrado pela talentosíssima Elsa Martins (que apanhou lindamente as figuras sem as pôr com ar de caricaturas) está à venda desde dia 17, mas a apresentação oficial, com apresentação de Isabel Soares (ela própria filha de uma portuguesa extraordinária), ocorrerá mais logo no Colégio Moderno, em Lisboa, às 18h30. Apareçam por lá e levem as vossas crianças, rapazes e raparigas. Estão todos convidados!


 


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Mais Eça

Eça de Queirós foi recentemente objecto de uma infinidade de textos de opinião na imprensa portuguesa pelo facto de o Ministério da Educação ter tornado facultativa a leitura do seu romance Os Maias (e, mais tarde, ter revisto a sua posição). Há quem pense que, de facto, metade dos alunos, viciados em smartphones e leitura rápida, já não conseguem compreender a prosa queirosiana (ou mesmo grande parte do que é literário); e há quem saiba também que muitos professores dão Os Maias apoiados nos manuais e guias do professor que lhes fazem a papa toda, mas que eles próprios, afinal, não os leram quando eram da idade dos seus alunos. Eça, nos 130 anos da publicação da sua obra-prima, vai ser o tema de mais uma sessão do Ler no Chiado, conduzida pela jornalista Anabela Mota Ribeiro (se calhar ainda não refeita das actividades na Feira do Livro do Porto, que ainda agora terminou). É já hoje à tarde, pelas 18h30, na Livraria Bertrand do Chiado, em Lisboa, e contará com a prestimosa colaboração do professor Carlos Reis, que falará decerto das figuras maiores criadas pelo grande mestre: Carlos da Maia e João da Ega, José Fernandes e Jacinto, o conselheiro Acácio, o José Matias, o padre Amaro, Maria Eduarda e tantas outras. Para quem queira aprender sobre Eça sem ser pelos insossos manuais, aconselho esta sessão.

O senhor Lobo Antunes

Se há coisa de que não se pode acusar o escritor António Lobo Antunes é de escolher maus títulos: os seus títulos são sempre um primor, mesmo que frequentemente surripiados a versos de alguns dos seus confrades portugueses e estrangeiros, e o do seu mais recente romance não é excepção: A Última Porta antes da Noite. Vai seguramente correr-lhe bem, já que, nos últimos tempos, lhe têm acontecido coisas bem boas – e há períodos assim, em que parece que tudo se conjuga de forma positiva. Pois então, depois do mais famoso escritor português lá fora – Fernando Pessoa, pois claro –, foi a vez de António Lobo Antunes chegar à prestigiada colecção Pléiade, da editora Gallimard, um privilégio de que mesmo muito poucos podem gabar-se. Está contente o senhor Lobo Antunes, e estamos nós, por ver a França distinguir pela segunda vez um autor português, elevando-o à categoria de escritores como Kundera, Proust, Dickens ou Vargas Llosa, para mencionar apenas alguns. Se toda a gente comenta que Lobo Antunes perdeu a oportunidade de ganhar o Nobel da Literatura quando Saramago lho arrebatou há vinte anos, invalidando que o mesmo fosse para a língua portuguesa por um longo período, pois agora deve estar de papinho cheio.

Qual pátria?

Já aqui disse que, durante as minhas férias, li muitas páginas, mas poucos livros. Talvez tenham pensado que li sobretudo jornais e revistas, mas não: o que quis dizer foi que «papei» um calhamaço de 700 páginas que me ocupou quase duas semanas. Trata-se do aplaudido e multipremiado Pátria, de Fernando Aramburu: um grande romance que todos devem ler para entender da melhor forma possível o que aconteceu no País Basco com a ETA, os que abraçaram a «luta armada», as suas vítimas (não estou a falar apenas de juízes, polícias e políticos, mas de pobres diabos que, por terem meia dúzia de tostões, foram intimados a dar dinheiro para «a causa» e assassinados quando se recusaram a fazê-lo) e os que simplesmente nasceram em Donostia e tiveram de viver diariamente com o medo ao longo de muitos anos. O romance é exemplar, tomando como ponto de partida a história de duas famílias muito chegadas (dois casais e os seus filhos) e aparentemente inseparáveis – as mulheres tomando chá juntas na pastelaria, os homens andando de bicicleta aos domingos ou jogando cartas, as raparigas cúmplices nos momentos difíceis, os miúdos a aprenderem a andar de bicicleta na casa dos outros. O problema é que, numa das famílias, há um filho problemático (o do meio) que se torna etarra ainda adolescente e, na outra, uma morte às mãos dos terroristas… A narrativa começa, curiosamente, pelo fim: no dia em que a ETA anuncia a cessação da luta armada; e, mesmo que se trate de uma óptima notícia, é tarde demais para quase tudo, sobretudo para perdoar – ou talvez não. Um livro maravilhoso que mostra como a política marca as vidas dos cidadãos todos os dias das suas vidas e como, por vezes, a amizade é invencível.

Folga

Caríssimos Extraordinários, hoje não há blogue. Faço anos e tiro folga. Até segunda e bom fim-de-semana.

Incapacidades

O meu pai era um homem muito inteligente (não sou só eu a dizê-lo, isto para que percebam que não se trata de uma filha a elogiar o pai); mas tinha uma extrema dificuldade, por exemplo, em atravessar a rua ou fazer um simples levantamento no Multibanco. Conheci pessoas brilhantes que nunca conseguiram tirar a carta de condução ou preencher os papéis do IRS. Ainda hoje há um senhor que é considerado um dos nossos grandes autores literários que só faz voos que tenham escalas se alguém o acompanhar, pois de outro modo é provável que se engane nas portas e fique em terra. Mesmo mandar um fax, no tempo anterior aos computadores, foi para um intelectual de excepção que todos nós conhecemos, Eduardo Lourenço, uma tarefa complexa (creio que já falei disso aqui no blogue). Existe, enfim, um certo tipo de inteligência que não se articula com o pragmatismo e a vida de todos os dias, e não podemos chamar burro a alguém que não sabe atar os atacadores dos sapatos, porque uma coisa não tem nada que ver com a outra. Um dia destes, tropecei, de resto, numa frase de Natália Correia no mural do Facebook da escritora Filipa Martins que exprime bem o que digo. Partilho por ser belíssima e também porque percebo melhor o meu pai através dela: «Eu sou desastrada, sou uma pessoa débil, uma pessoa falhada, alegremente, conscientemente falhada em muitas coisas. Não sei tratar de nada, na ordem das coisas práticas, não sei assinar um cheque, sou perfeitamente desastrada. Só sei escrever.»

Fado da saudade

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Há pessoas que, embora não tendo sido propriamente íntimas, conhecemos relativamente bem; e, porque já morreram (e demasiado cedo), de vez em quando sentimos saudade delas. Além das saudades, fazem-nos falta (a nós, pessoalmente, e ao País). Falo, por exemplo, do ecléctico Eduardo Prado Coelho (nunca mais houve outro intelectual assim tão versátil e aberto a escrever nos nossos jornais, e ele fazia-o TODOS os dias) e do poeta Vasco Graça Moura (VGM), o maior lutador contra o Acordo Ortográfico que tivemos em Portugal, um grande poeta e um enormíssimo contador de anedotas. Fiquei, aliás, bastante feliz quando soube recentemente que a Quetzal acaba de publicar um livro de inéditos de VGM que parece mesmo feito a pensar em mim. Chama-se A Puxar ao Sentimento e é uma compilação de letras para fado (Trinta e Um Fadinhos de Autor, reza o subtítulo). Cristina Branco, Kátia Guerreiro, Mísia, Patrícia Costa e outras fadistas já cantaram letras do grande poeta que estão publicadas num livrinho chamado Letras do Fado Vulgar; vamos ver agora quem se atira a este livrinho e empresta a sua voz aos textos. Eu vou lê-lo, isso é mais do que certo, excelente forma de recordar VGM quatro anos passados da sua morte (já?!).


 


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Pão de Açúcar

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Em Fevereiro de 2006, os Bombeiros Sapadores do Porto resgataram do fosso de um prédio abandonado um corpo com marcas de agressões e nu da cintura para baixo. A vítima, que estava doente e se refugiara naquela cave, fora espancada ao longo de vários dias por um grupo de adolescentes, alguns dos quais tinham apenas doze anos. Inicialmente, tinha sido descoberta por um deles numa espécie de barraca por causa de uma bicicleta velha; e a relação até podia ter sido pacífica, mesmo que a atracção às vezes e transformasse em repulsa – mas que vale um tesouro que não pode ser mostrado? Esta é a história que serve de base ao segundo romance de Afonso Reis Cabral, o mais novo vencedor do Prémio LeYa desde sempre (venceu-o em 2014 com O Meu Irmão e não teve pressa de voltar a publicar, o que é um bom sinal). Pão de Açúcar (que é também o nome por que ficou conhecido o local da tragédia porque para ali fora projectado um grande supermercado), romance vertiginoso sobre um caso que abalou o País, é uma combinação magistral de factos e ficção, com personagens reais e imaginárias meticulosamente desenhadas, e sai hoje para as livrarias. Merece, sem dúvida, ser lido de fio a pavio.


 


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Traficar com estilo

Há notícias que até parecem anedotas, e esta li-a recentemente no Jornal de Notícias. Sei como a ortografia deve ser estimada e respeitada; mas, com tudo o que vejo por aí, mesmo por parte de quem quer ser escritor, nunca me passaria pela cabeça que se conseguissem confiscar quatro toneladas de marijuana por causa de um erro ortográfico. A verdade, porém, é essa. Tudo aconteceu no Brasil, na zona de São Paulo, e a droga vinha escondida entre embalagens de peitos de frango congelados num camião que se dirigia a Vila Velha (Espírito Santo). Numa operação stop, o camião foi interceptado, mas, ao que parecia, a documentação da carga estava em ordem e poderia seguir. O problema foi que a guia de transporte mencionava «dorço de frango»  (pelos vistos, é «dorso» que lá chamam ao nosso «peito») e o erro alertou as autoridades que, em poucos minutos, descobriram que a papelada era forjada e encontraram 3920 quilos de erva no meio das embalagens. O condutor, de 31 anos, foi imediatamente preso e a droga confiscada. Ainda há polícias rodoviários que sabem ortografia, que sorte. Uma boa primária faz muita falta... Até para traficar, claro.

Chover no molhado

Desculpem chover no molhado, mas tenho esperança de que, debaixo do molhado, haja uma pedra (e água mole em pedra dura tanto dá até que fura). Não aguento mais crianças e adolescentes agarrados a um telemóvel sem trocar um olhar com as pessoas que lhes fazem perguntas ou falam com eles. Passei o Verão a assistir a cenas deste tipo: pais que estão à mesa a querer saber o que querem os filhos comer, e filhos a responder olhando para o estupor do ecrã; grupos de crianças que, em vez de brincarem umas com as outras e irem ao banho, estão mergulhadas num qualquer interminável jogo; rapazes que já tinham idade para ter juízo (16, 17 anos) a quem os pais perguntam com jeitinho, como se tivessem de pedir licença, se eles poderiam desviar só um minutinho os olhos do telefone e tomar atenção. Aquilo é uma droga, convençam-se. É uma dependência. Se alguém que tenha filhos pequenos me está a ler, por favor, doseie o uso dos aparelhos nas mãos da criançada.  Nos EUA, a Direcção-Geral de Saúde afirma que já só 33% das crianças e adolescentes são fisicamente activos (não se mexem, daí a obesidade gritante) e que passam em média sete horas e meia diante de um ecrã (sete horas e meia significa a maior parte do dia útil). Pior: diz que existem no cérebro das pessoas umas sinapses que não estão a ser usadas neste tipo de leitura (em papel, sim) e que «if you don't use, it, you loose it»; por isso, se isto não parar, em duas gerações a humanidade será incapaz de ler livros... Por favor, façam como eu, chovam no molhado. Sejam contra o uso exagerado destes aparelhos e contra a dependência dos mesmos.

Boas recordações

«Felizmente, existem os livros. Podemos esquecê-los numa prateleira ou num baú, deixá-los entregues ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhes pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca, o momento que sempre chega, aquele dia em que nos perguntamos, Onde estará aquele livro que ensinava a cozer os barros.» A frase, absolutamente maravilhosa, é de José Saramago e pertence ao romance A Caverna, o primeiro que o escritor publicou depois de vencer o Nobel da Literatura, há vinte anos; foi recentemente partilhada por um jovem escritor no Facebook que me deu a ideia de a partilhar também. Além de tudo, fez-me lembrar os anos em que eu fazia a Feira do Livro de Lisboa dentro do stand, atrás do balcão, e numa bela tarde uma senhora, que quase de certeza nunca entrava em livrarias por se sentir intimidada, chegou ali ao parque, viu aquelas casinhas, tomou coragem, aproximou-se e disse, a olhar para mim: «Ó menina, tem algum livro que ensine como se deitam os canários?» Eram outros tempos. Boas recordações.

Salinger

Quase toda a gente conhece J. D. Salinger pelo seu famosíssimo romance À espera no Centeio e também por, apesar do seu sucesso, se ter retirado cedo do mundo da escrita. Um dia destes, tirei um livrinho dele da estante, publicado há muitos anos pela velhinha Quetzal, e li Carpinteiros, Levantem ao Alto o Pau de Bandeira, seguido de Seymour, Uma Introdução, duas pequenas novelas publicadas originalmente na revista New Yorker e só em 1963 saídas em livro. Trata-se de histórias da família Glass (de que há outras) contadas por um dos membros (Buddy, que se diz ser um alter ego do escritor) sobre o seu irmão mais velho, Seymour. A primeira decorre em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, quando Buddy está de licença para assistir ao casamento do irmão com a jovem e apaixonada Muriel, mas Seymour não aparece (há indícios de que é, de resto, algo desequilibrado pela leitura de excertos do seu diário e pelas estranhas atitudes relativamente à noiva e não só); a segunda fala do suicídio do mesmo Seymour já em 1948 (os índicos comprovam-se) e constitui uma espécie de apresentação da personagem feita por Buddy. Salinger influenciou gerações de escritores americanos, mas estas duas peças são mesmo diferentes de tudo o que li até hoje, e nem consigo dizer se gostei muito, achei-as estranhas, é um facto, mas isso não é necessariamente bom nem mau.  


 

O terceiro Nervo

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Num país como o nosso é muito difícil os projectos culturais com poucos meios vingarem, mas a verdade é que a revista Nervo está aí com o seu terceiro número para provar que com muito trabalho e empenho tudo se consegue. Com o propósito de «divulgar a poesia contemporânea, nos seus diferentes estilos e linguagens, e partilhar a actualíssima visão do mundo dos nossos poetas», este terceiro Nervo apresenta textos de alguns nomes bastante conhecidos como Helder Moura Pereira, Carlos Bessa e Manuel Gusmão, ou mesmo Maria Quintans e Manuel Halpern (entre outros). E dá lugar aos estrangeiros Alessandra Racca (Itália), Amosse Mucavele (Moçambique), Hussein Habasch (Síria) e Pablo García Casado (Espanha) com as traduções de André Domingues (língua espanhola), Francesco Selva (língua italiana) e Isilda Ribeiro (língua inglesa). O design de todo este número, incluindo a magnífica capa, é da autoria do artista plástico Daniel Garcia. Para quem queira participar no próximo número (já para 2019), os contactos da revista são:


nervo.colectivodepoesia@gmail.com


 


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Ligações

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Numa noite de lobos em que todos rezam a Santa Bárbara e os mais velhos recordam uma tragédia antiga, chega misteriosamente à aldeia um estrangeiro e a sua filha Maddalena. Nessa mesma noite, a criada do solar vem chamar a parteira para que acuda à sua senhora, e Celeste nascerá pouco depois, ignorando que a solidão rodeará grande parte da sua vida. No Fundo do Lugar, onde a água da chuva irrompe em ondas pelas casas mais pobres, é a vez de Samuel – o que desenha bichos no chão dos quintais e imita o canto das aves – temer, como sempre, pela vida da mãe. Maddalena, Celeste e Samuel são os lados desiguais do triângulo donde brotam os fios desta história, contada por três mulheres que se assemelham a fiandeiras do tempo: Antónia, a viúva que tricota camisolas e mantas, acrescentando dias à vida de cada um; Violeta, a que apara nas mãos os filhos da terra e guarda segredos tristes numa gaveta; e Emília, a que ouve em sonhos o afiar de facas e calcula os caminhos que a morte escolhe percorrer. Os Fios, romance de estreia de Sandra Catarino, lindo e imperdível, combina a crueza do meio rural com um lirismo inesperado que torna esta narrativa mágica e poderosamente empática. Acaba de sair e recomenda-se.


 


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No Porto

Hoje começa a Feira do Livro do Porto e a verdade é que parece bastante mais rica em termos de programação do que foi a de Lisboa (o que certamente se deve a Anabela Mota Ribeiro e José Eduardo Agualusa, convidados para organizar as actividades e moderar algumas conversas). Celebrando o 50.º aniversário do Maio de 68 e outras revoluções e revoltas, o certame durará até dia 23 e terá muitos convidados de peso, também estrangeiros, entre eles Leila Slimani e Daniel Cohn-Bendit, que conversará com Rui Tavares sobre as manifestações estudantis que viveu pessoalmente em Paris. Haverá debates, leituras de poesia, música e até uma residência literária para o autor brasileiro Bernardo Carvalho, que resultará na produção de um conto. Poderemos ouvir, entre outros, Mia Couto, Mário de Carvalho, João Pinto Coelho, Filipa Martins, Francisco José Viegas, Ana Margarida de Carvalho, João Luís Barreto Guimarães, compondo-se neste festival um verdadeiro curso de literatura, que tomará de empréstimo o título de um livro de Italo Calvino (Porquê Ler os Clássicos?) e abordará esta forma de arte maravilhosa desde a Grécia antiga até Fernando Pessoa, passando por Dante, Shakespeare e outros nomes que não morrem. Se estiver pelo Porto e arredores, não perca, vai valer a pena.

Grandes novidades

O Nobel da Literatura para Bob Dylan foi uma decisão francamente inesperada – muito saudada por uns, muito criticada por outros. É bem possível que essa decisão tenha sido, de resto, o princípio das dissensões no comité Nobel que redundaram em despedimentos e adiamentos. E agora o Man Booker Prize deu um passo igualmente inovador ao introduzir na lista de candidatos a um dos mais importantes prémios para uma obra de ficção em língua inglesa a novela gráfica Sabrina, da autoria do norte-americano Nick Drnaso, autor que já tinha sido bastante elogiado com a sua obra de estreia – Beverly – e, com este segundo livro, chegou definitivamente «ao céu». Tanto quanto percebi, a história tem que ver com o desaparecimento de uma rapariga na sequência de ter combinado com a sua irmã Sandra um fim-de-semana no Lago Michigan; e – entre outras coisas – fala de teorias da conspiração, verdade e mentira, ausência, medo, manipulação tecnológica e redes sociais (na era Trump). Parece-me que pode ser uma obra muito interessante, que recebeu o louvor de numerosos jornais e revistas e americanos e está a ser igualmente bem recebida pela crítica britânica, que a classifica como uma mistura de Don DeLillo com Jim Jarmusch e reconhece a literatura atrás de uma história com palavras e desenhos. É a primeira vez que um cartoonista entra na lista do Man Booker Prize e, mesmo que não passe à shorlist, já entrou para a história.

Postalinhos

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A minha mãe, quando os netos vão de viagem (e os meus sobrinhos empreendem muitas vezes viagens longas e para sítios distantes, ou para fazerem voluntariado, ou simplesmente para se divertirem), pede-lhes que lhe mandem um postal, postal esse que habitualmente chega a Portugal depois deles, já que os correios nessas paragens (e cá também!) são bastante maus. Já pouca gente envia cartas e postais (manda dizer por SMS que chegou bem, ou telefona, e está o assunto arrumado). Mas é pena, porque um postal é uma coisa mais personalizada e há histórias de postais deliciosas. A nossa Alice Vieira, que recebe quase uma centena de cartas e postais no dia dos seus anos dos seus leitores de várias épocas, pedia aos filhos, quando eles eram pequenos e iam a qualquer lado sem ela, que lhe mandassem um postal, tal como a minha mãe. E, no Facebook, conta que traz sempre com ela um postal que lhe mandou o filho quando foi a um torneio de xadrez em Coimbra, tinha oito ou nove anos. Uma maravilha, não é?


 


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De luto

Durante as férias do blogue (e as dos Extraordinários, na maioria dos casos), morreu V. S. Naipaul, vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 2001 (cem anos depois do primeiro premiado) e considerado um dos maiores escritores britânicos contemporâneos. Nascido em 1932 em Trinidad e Tobago, no Caribe, o autor de Uma Casa para Mr. Biswas, A Curva do Rio (traduzidos em Portugal e publicados inicialmente pelas Publicações Dom Quixote e mais recentemente pela Quetzal) e muitos outros títulos de ficção e não ficção, tinha, ao que se sabe, um feitio impossível e, quando esteve em Óbidos, fez a vida negra ao seu entrevistador, o jornalista José Mário Silva, como este próprio contou a quem não assistiu a essa penosa sessão. Uma das editoras de Naipaul (no fundo, a que o publicou durante mais tempo) diz que ele foi de longe o autor com quem mais lhe custou trabalhar e que, quando Naipaul mudou de editora, ela nunca mais o voltou a ver, apesar das insistências da mulher do escritor; aliás, como revela num artigo do The Guardian, acrescenta, a esse respeito, que «um bom autor não tem de ser boa pessoa» e que, apesar de ele não ser nem de longe um dos autores mais vendáveis do catálogo, a verdade é que os seus livros eram admiráveis. E, a terminar, explica que o grande Naipaul hoje não teria provavelmente a possibilidade de fazer carreira nas letras porque «os editores não podem simplesmente publicar autores que não se vendem»… Tudo certo, mas quem serão então os nobelizados daqui a uns anos? De luto por Naipaul.

Bem-vindos

Ora então cá estamos (se bem que com pouca vontade, pois a seguir a umas férias relativamente longas nunca me apetece muito trabalhar). E, como é princípio do mês, digo já o que ando a ler e, nos dias que aí vêm, falarei também do que li nestas férias (muitas páginas, mas poucos livros). Agora tenho em mãos a obra originalíssima de um autor de que gosto particularmente – o multifacetado Geoff Dyer, que escreveu também uma maravilha chamada Jeff em Veneza, Morte em Varanasi, romance de que falei aqui no blogue há muito tempo. Neste momento, o livro que me ocupa chama-se Areias Brancas e é um livro de viagens, mas não de viagens no sentido puramente geográfico – embora, claro, se façam deslocações –, antes de viagens para visitar obras de arte em grande escala ou repetir a experiência de algum artista ou escritor desaparecido num local específico. (Até ao momento, apreciei muito o primeiro capítulo, sobre a Polinésia e Gauguin, e o flop do autor e da mulher – de quem Dyer não usa o nome verdadeiro, fazendo dela personagem – na vã procura de uma aurora boreal.) O narrador, que cita profusamente D. H. Lawrence e lhe segue passos e ideias, é profundamente irónico num sentido muito British que estou a adorar. E, já agora, a tradução, publicada pela Quetzal, é de João Tordo.