Mensagens

A mostrar mensagens de fevereiro, 2022

Ainda as Correntes

Como é tradição no mais concorrido encontro de escritores em Portugal, a derradeira mesa acontece já em Lisboa, no Instituto Cervantes e, geralmente, reúne escritores espanhóis e de língua portuguesa. Este ano, os temas dos debates eram ainda mais vagos do que sempre, para deixar falar os participantes do que lhes importa, e Manuela Ribeiro escolheu títulos de canções de todos os géneros. Mais logo, portanto, o assunto é, vejam lá, Os Argonautas, canção de Caetano Veloso... e eu nem imagino de que vão falar Elena Medel (a premiada autora de As Maravilhas), Manuel Vilas (o celebrado autor de Ordesa) e Ondjaki (o vencedor do Prémio Literário José Saramago com Os Transparentes), os três escritores convidados para falar numa sessão moderada pelo jornalista João Morales. Mas, como estou curiosa, lá estarei a assistir, decerto esperando boas surpresas. É às 18h30. Venham também. Além de que vão poder ver as belíssimas fotografias de escritores de Daniel Mordzinsky, que ali inaugura uma exposição.

Excerto da Quinzena

Dez anos após a sua morte:


Manolo o Cigano abriu os olhos, observou a luz ténue que se infiltrava pelas frestas da barraca e levantouse procurando não fazer barulho. Não precisava de se vestir porque dormia vestido: o casaco cor de laranja que lhe oferecera no ano anterior Agostinho da Silva, de alcunha Franz o Alemão, domador de leões desdentados do Circo Maravilhas, servialhe ao mesmo tempo de casaco e de pijama. Na luz fraca do alvorecer procurou aos apalpões as sandálias transformadas em chinelos que usava como calcado. Encontrouas e calçouas. Conhecia a barraca de cor, e podia moverse na semiobscuridade respeitando a geografia exacta dos míseros trastes que a mobilavam. Avançou calmamente em direcção a porta e foi entao que o seu pé direito bateu no candeeiro de petróleo que se encontrava no chão. Merda de mulher, disse entredentes Manolo o Cigano. Fora a sua mulher que na noite anterior tinha querido deixar o candeeiro de petróleo junto a enxerga com o pretexto de que o escuro lhe provocava pesadelos e que sonhava com os seus mortos. Com o pavio no mínimo, dizia ela, os fantasmas dos mortos não se atreviam a visitá-la e deixavamna dormir em paz.


Antonio Tabucchi, A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro, tradução de Theresa de Lencastre

A poesia assusta?

Imagem

Um dia destes estive a jantar com um agente literário francês que já não via há uns quinze anos e que veio passar uma semana de férias a Portugal com a família. Entre os muitos assuntos de que falámos à mesa, contou-me que em França houve nos últimos tempos um verdadeiro boom dos livros de poesia e que muita gente jovem parece ter despertado repentinamente para o género, havendo até muitos pequenos editores, cujos proprietários são bastante novos, a lançarem todos os dias poetas desconhecidos. Dissemos-lhe, por brincadeira (ou talvez nem tanto), que talvez isso acontecesse porque o texto poético é quase sempre mais curto do que o texto em prosa e que, com o excesso de horas passadas nas redes sociais, há já muita gente que se habituou ao texto telegráfico e, por preguiça e falta de vontade de pensar, rejeita logo um texto mais longo, passando à frente. Ele rebateu o argumento, dizendo que isso até podia ser verdade, mas que a intensidade e a exigência da poesia também obrigam a um funcionamento mais trabalhoso das sinapses cerebrais, pelo que talvez não fosse essa a razão («os textos não se medem aos palmos»). Então, lembrei-me de um cartoon que encontrei há pouco tempo por aí, e que se referia à luta contra a imbecilidade com... poesia. Ele aqui vai. Tenham um bom dia.


Poetry.jpg


 

Analfabetos para sempre?

Um estudo recente apresentado na semana passada na Fundação Calouste Gulbenkian sobre as Práticas Culturais dos Portugueses, baseado em inquéritos realizados pelo Instituto de Ciências Sociais e financiado pela Fundação, fez-me corar de vergonha e preocupar-me muito com o futuro da nação. Nada de que eu não suspeitasse, é verdade, mas mesmo assim os dados são assustadores: 61% dos Portugueses não leram um único livro em 2020 e 27% leram apenas, num ano inteiro, um a cinco livros. (Em Espanha, por exemplo, as pessoas que não leram um único livro são bastante menos: 38%.) Pois bem, José Machado Pais, o investigador que lidera o estudo com Pedro Magalhães e Miguel Lobo Antunes, confessa o desânimo, explicando que o consumo de livros leva ao consumo de outras formas de cultura, pelo que é fulcral o incentivo à leitura desde tenra idade, em casa, na escola e através dos meio de comunicação. Aliás, a maioria dos leitores confessa que a influência das respectivas famílias foi determinante para o acto de ler.Também lêem menos os que são mais velhos (sem escolaridade, provavelmente) e os mais pobres, que são os que consomem, regra geral, menos cultura em todas as suas formas. Os mais jovens estão demasiado ligados à Internet, há muito mais gente a ver TV do que a ouvir rádio (sobretudo em pandemia), só 28% dos Portugueses frequentam museus e os que ouvem música erudita, vão à ópera ou assistem a espectáculos de dança são 6%. Deus meu, aonde vamos parar? Não chegou o analfabetismo imposto da outra senhora? Vamos ser sempre um país analfabeto, com pessoas como aquela Georgina que vive com o Cristiano Ronaldo e não quer livros em casas porque criam pó? O estudo está publicado e vale a pena perceber os números em causa, mas enquanto não lhe chegarem as mãos, aqui está o link do artigo da CNN. Um susto.


https://cnnportugal.iol.pt/inquerito/fundacao-calouste-gulbenkian/61-dos-portugueses-nao-leram-qualquer-livro-em-2020/20220215/620c18e20cf2c7ea0f19618e

Correntes d'Escritas

Amanhã começam mais umas Correntes d'Escritas, desta feita as vigésimas terceiras. Depois de no ano passado o festival ter sido não-presencial e reduzido a algumas actividades transmitidas no Facebook, voltaram as sessões ao vivo, se bem que, para evitar calamidades, com público contadinho e diferentes localizações. Em todo o caso, os convidados são de novo muitos: de Adolfo Luxúria Canibal (dos Mão Morta) a Yara Monteiro (autora angolana radicada em Lisboa), mais de sessenta serão os participantes nestas Correntes, de músicos a escritores, designers, ilustradores, editores e fotógrafos, mas todos ligados, no fundo, às letras. Uns mais jovens, como a crítica e escritora Ana Bárbara Pedrosa, outros veteranos, como Onésimo Teotónio de Almeida, todos têm o seu lugar na festa literária mais concorrida do País, que conta com leituras, mesas-redondas, exposições, filmes e partilha de testemunhos com alunos das escolas. Eu, como sempre, vou andar por lá, por isso não me esperem muito presente aqui no blog esta semana. Se lá puderem passar, óptimo.

Espaços raros e necessários

Imagem

Em Portugal, já há muita gente que vai à biblioteca pública ler jornais, visitar sites, investigar na Internet, compor um CV, comprar coisas em lojas digitais, preencher o IRS, enfim, fazer muita coisa que não é propriamente ler livros. Noutros países, é mais frequente ainda pessoas estarem nas bibliotecas a consultar anúncios de emprego ou a preencher formulários online. O problema é quando se trata de mães e pais que têm filhos pequenos de quem não se podem separar, sobretudo porque as crianças parece que nascem a adorar teclas e dificultam muito a vida aos progenitores quando estes precisam de ver o que está no ecrã ou digitar sem ajuda dos petizes. Mas eis que alguém teve a bela ideia de comprar um mobiliário francamente útil e inovador para facilitar a vida a estas pessoas e, ao mesmo tempo, apresentar a criança desde tenra idade aos livros. São casos raros, claro, mas necessários, e nem parece assim tão complicado reformular uns cantos nas bibliotecas que já existem para agradar a todos. Ora vejam lá se não tenho razão...


Biblioteca para crianças.jpg


TMC_Fairfield_Carrel_3qtr-2-1.jpg


 

A preto e branco

A luz é clara e este livro iluminado ganhou o Man Booker International Prize no ano passado. Mas é também um livro negro por causa da temática (já lá vamos). Confesso que fiquei com pena de que o «meu» candidato, o livro de uma georgiana que vou publicar em Março (fiquem atentos!) não tenha arrecadado o prémio, mas, claro, as opiniões do júri são soberanas e desta feita o galardão foi para uma tradução do francês. O autor chama-se David Diop, nasceu em França e cresceu no Senegal, e é senegalês o protagonista do seu De noite Todo o Sangue É Negro (no original, Frère d'âme), que já ganhara em França o Gouncourt des Lycéens e outros prémios. Trata-se de um livro sobre um soldado que, durante a Primeira Guerra Mundial, não consegue salvar o melhor amigo (o seu «mais do que irmão») e tão-pouco o consegue matar quando ele, agozinante, lho pede várias vezes. A partir dessa morte e do seu arrependimento, adquire comportamentos violentos extremos (como o de cortar as mãos aos alemães que mata e trazê-las para a trincheira), acabando por desencadear medo e desconfiança quer nos seus companheiros brancos, quer nos «chocolate», um termo utlizado para nomear os senegaleses que combatem ao lado dos franceses, e ser posto na retaguarda durante uns tempos. A novela tem por vezes a tonalidade de uma oração, apesar do realismo de algumas descrições, e contém em si mesma uma espécie de «eco» permanente, com muitas repetições de expressões, o que me fez pensar que, em termos de tradução para inglês, não representou decerto uma dificuldade por aí além (isto porque o Booker Prize International premeia livros traduzidos). Mas é bonito, sério e vale a pena ler.

Quintas de Leitura

Hoje estarei longe do blogue, no Porto, para participar em mais umas Quintas de Leitura, no Teatro do Campo Alegre. As famosas Quintas não param, e sempre que muda o executivo da Câmara trememos de medo de que alguma luminária se lembre de as extinguir, mas graças a Deus (e aos poetas, diseurs, e ao programador João Gesta- e sua equipa), elas estão aí de pedra e cal. Esta noite a sessão chama-se Não Me Perguntes se as Serpentes Choram e tem uma interessante particularidade, pois centra-se em poemas escolhidos por editores: editores de poesia, mas não só, uma vez que mesmo os editores que não publicam poesia lêem frequentemente poesia e têm os seus poemas preferidos. Foram então eles chamados a escolher «o seu poema», que vai ser lido por actores nesta sessão; e a leitura que será precedida por uma curta conversa entre o jovem editor Rui Couceiro, da Contraponto, e eu, a velhota, pondo no fundo em oposição (ou talvez não) duas gerações de editores. Como sempre, haverá «brindes»: um vídeo do recentemente desaparecido João Paulo Cotrim, um momento musical na abertura (Grutera) e outros a meio das leituras e no fim com Emmy Curl e Paulo Praça. A lista dos poemas escolhidos (mas não lidos, porque há muitos editores) será passada no ecrã. Amanhã regresso a Lisboa.

Contos mágicos, poéticos e oportunos

Imagem

Há poucos dias falei aqui de Itamar Vieira Junior e da bola de neve que foi o seu romance que ganhou o Prémio LeYa, Torto Arado, em termos de prémios, traduções e adaptações. Neste fim-de-semana, o autor foi mesmo entrevistado pelo New York Times. E hoje venho dizer-vos que ele regressa aos escaparates com uma coletânea de histórias fascinantes que o confirmam como um grande narrador. Com linguagem poética e estrutura variada e inovadora, as narrativas presentes em Doramar ou a Odisseia são herdeiras da tradição literária brasileira, mas ao mesmo tempo profundamente contemporâneas no tratamento de questões como a destruição da floresta, a exploração dos mais fracos, a construção de muros entre países, as lutas pelos direitos humanos.Tal como sucedia em Torto Arado, as heroínas destas histórias são maioritariamente mulheres obrigadas a lutar contra a adversidade, como, de resto, a Doramar que dá nome ao conjunto; mas também não são esquecidos aqueles que regra geral não têm voz, como os escravos levados de África ou os índios empurrados para fora das suas terras. Este é um livro memorável sobre como as raízes sempre ensombram o futuro. Absolutamente imperdível, reúne textos anteriores e posteriores ao romance que valeu ao autor o Prémio LeYa, o Prémio Jabuti e o Prémio Oceanos.


9789722074162_doramar_ou_a_odisseia.jpg


 

Poetas convidados

Para os leitores deste blogue, que tantas vezes deixam a poesia de lado e preferem os romances, aconselho uma actividade muito interessante que pertence à programação da Casa Fernando Pessoa (o Poeta dos poetas) há já algum tempo mas cuja realização oscila entre o auditório da Casa e o Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria II. Acontece mensalmente, começou por ser virtual por causa da pandemia, e chama-se Clube dos Poetas Vivos. A actriz Teresa Coutinho, que é uma excelente leitora de poesia, conversa com o poeta convidado e reúne actores que lerão textos do próprio. É uma boa maneira de os Extraordinários conhecerem poetas que nunca leram e de tomarem contacto com pormenores do seu processo criativo. Hoje, no teatro, pelas 19h00, será a vez de Manuel A. Domingos ser convidado, ele que é também editor numa pequena editora chamada Medula. No mês que vem, virá a poetisa Beatriz Hierro Lopes e em Abril Carlos Poças Falcão. Tudo nomes a que devemos prestar atenção. Ouvir para ler depois.

Novos romances

Imagem

Amanhã sairá para os escaparates o novo romance de Isabel Rio Novo, Madalena, que é o primeiro livro que lanço este ano. O romance recebeu o Prémio Literário João Gaspar Simões, concedido pela Câmara Municipal da Figueira da Foz, e é um texto notável sobre a doença e os seus efeitos no indivíduo, bem como sobre a família e  o que, em cada um de nós, é construído pelos que vieram antes. Enquanto se submete a tratamentos para um tumor, uma jovem professora ocupa os longos dias a examinar papéis, retratos e cartas dos bisavós, encontrados num velho armário de livros que outrora lhes pertenceu. É assim que vai desvelando a história dos dois, envolta em mistério, na qual a traição, o ciúme e a tragédia são os ingredientes principais. Álvaro Amândio, o bisavô culto e ensimesmado, mas sobretudo Madalena Brízida, a bisavó sedutora, enigmática e talvez cruel, vão ganhando contornos diante da jovem mulher, à medida que ela própria se vai descobrindo, nos seus amores do passado, nos seus sofrimentos recalcados, talvez até nas razões para ser como é. Assinado por uma das grandes vozes da ficção portuguesa contemporânea, aqui está então Madalena, para quem o queira descobrir.


Capa frente.jpg


 

Excerto da Quinzena

O meu irmão teria precisamente nove anos aquando da morte de Jorge VI (eu tinha seis e andava na mesma escola, mas não me lembro nada do discurso de Mr. Ebbets nem dos fumos pretos). O meu abandono final do que restava, ou da possibilidade, de uma religião aconteceu depois, com outra idade. Adolescente, curvado sobre um livro ou uma revista na casa de banho familiar, dizia de mim para mim que Deus não podia certamente existir, pois a ideia de Ele me observar enquanto eu me masturbava era absurda; ainda mais absurda era a noção de que todos os meus antepassados mortos também podiam estar na fila a ver. Eu tinha outros argumentos mais racionais, mas o que acabou com Ele foi esse sentimento poderosamente convincente e também egoísta, é claro. A ideia da avó e do avô a observarem o que eu fazia ter-me-ia desencorajado seriamente.


Julian Barnes, Nada a temer, tradução de Helena Cardoso

Café Literário

Agora, que o vírus se vai acalmando ligeiramente, seja em número de casos, seja em intensidade, regressam algumas actividades presenciais que estiveram muito tempo interrompidas, ainda que, claro, com a obrigatoriedade de ter em dia o certificado de vacinação da COVID. Vejo com agrado que hoje, por exemplo, no Teatro do Campo Alegre, voltou o Café Literário no Foyer, o primeiro do ano de 2022, ao fim da tarde. E que belos participantes temos para falar da poesia! Dois divulgadores que não param há anos de nos mostrar o que se anda a escrever por esse País fora: Raquel Marinho, a responsável por «O Poema Ensina a Cair», com milhares de seguidores (tantos que até já lhe roubaram o domínio uma vez); e João Gesta, o programador das famosas Quintas de Leitura há mais de vinte anos. Pegando num verso de António Ramos Rosa, «Tudo dizer em evidências brancas», os dois vão falar dos seus respectivos destinos e motivações, da vida e do amor à poesia, ajudados por muitos cúmplices que a dizem como ninguém: António Domingos, Carlota Castro, Cristiana Sabino, Graça Ribeiro e outros. O público do Porto está cheio de sorte.

Lídia Jorge nos EUA

Uma vez, há muitos anos, a educadíssima Lídia Jorge fez-me um telefonema só para perguntar se eu via inconveniente em que chamasse a um seu romance O Vento Assobiando nas Gruas, porque eu tinha publicado um livro de poesia intitulado O Canto do Vento nos Ciprestes e alguém teria encontrado ali alguma ressonância. Fiquei parvinha de todo, pois quem era eu ao pé da grande Lídia Jorge (e, além disso, não havia mesmo confusão possível entre as duas coisas)? Soube que o romance objecto da nossa conversa acaba de sair nos Estados Unidos, não só em versão em papel, mas também em audiolivro, com a voz da actriz Cassandra Campbell. E fico feliz, porque é sempre tão difícil a literatura portuguesa chegar a países de língua inglesa que é especialmente gratificante que isso aconteça justamente com Lídia Jorge, não apenas pela qualidade do romance propriamente dito (que ganhou, entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela da APE), mas porque a escritora é das poucas que em Portugal levantam a voz contra a falta de políticas culturais e os tempos difíceis que vivemos em todo o mundo em termos de liberdade de expressão, além de, evidentemente, ser uma pessoa que pensa no Outro e é extremamente educada. Parabéns!

Más contas ou mau português

A escritora Margaret Atwood, a quem perguntaram se era feminista, respondeu que sim, que se não fosse ela a defender os próprios direitos, quem o faria? Concordo completamente com esta visão, a de as mulheres quererem ter os mesmíssimos direitos dos homens, mas infelizmente há um radicalismo impossível de aturar nos tempos que correm (do tipo: bom ou mau, homem é para liquidar). Um dia destes, um jornal trazia uma notícia sobre os números do ano passado da violência doméstica e aparecia em título: «A violência doméstica fez em 2021 23 mortes: 16 mulheres e duas crianças.» Ora, como até sei fazer contas, aqueles dois pontos irritaram-me, porque 16 + 2 não é igual a 23. Os que faltam são, obviamente, homens; e, só por serem homens, não estão no título. Presumo (mas, reparem, a notícia nunca o diz) que estes homens não mencionados sejam, na sua maioria, os perpetradores que matam as mulheres e depois se suicidam. Mesmo assim, não deixam de ser mortes, pois não? Ou se diz que a violência doméstica fez 18 vítimas (e até podemos aceitar a exclusão dos homens autores dos crimes e vítimas de si próprios), ou se fala em mortes e tem de se incluir os mortos todos, independentemente do sexo. Ou então, tiram-se os dois pontos, põe-se ponto final e escreve-se uma segunda frase a dizer «Destas [mortes], 16 são de mulheres e duas de crianças.» Até pode ter havido alguma mulher que matou o respectivo companheiro, nunca se sabe, mas eu tenho a secreta suspeita de que esta desvalorização imediata do masculino é deliberada e pertence ao ar do tempo. Ora, isso não serve a ninguém.

Lugar para Dois (ou mais)

Imagem

Publiquei no Verão de 2020 um romance que tinha sido finalista do Prémio LeYa no ano anterior, chamado Lugar para Dois e assinado pelo escritor e músico Miguel Jesus (também conhecido por Miguel Gizzas). Era um texto muito bonito sobre um homem que se exila no meio do mato, em Moçambique, nos anos sessenta, na sequência de uma tragédia familiar; e que acaba por se tornar uma espécie de pai (que não quer ser) de uma menina que um dia desaparece e de um rapaz que viu o que se passou. Este romance tinha, nas suas páginas, uma espécie de bónus: uma canção por cada capítulo, escrita e composta pelo autor, que podia ser ouvida no telemóvel através da leitura de um código inscrito na página onde estava escrita a letra. Era suposto haver, porém, ainda mais bónus: a história ser tornada um cine-concerto; mas a pandemia trocou as voltas a Miguel e ficou tudo adiado... Saiu o CD com todas as canções, mas só amanhã, passado mais de um ano, vamos finalmente ter direito a ouvir as canções pela boca do escritor e ver o pequeno filme no cinema São Jorge, em Lisboa, numa ante-estreia dos espectáculos já agendados por esse país fora. Miguel Jesus vai também estar no dia 10 a falar deste seu livro na Biblioteca da Figueira da Foz, depois do jantar, na minha companhia. Apareçam, leiam, oiçam.


cartaz_10FEV.png


 

Boas notícias

Quando Itamar Vieira Junior recebeu o Prémio LeYa pelo romance Torto Arado, nenhum de nós suspeitava de que isso viraria a sua vida para sempre. Enquanto o livro vendia timidamente em Portugal, como acontece geralmente com a literatura brasileira, arrebatava no Brasil os principais prémios literários, Jabuti e Oceanos, era elogiado pela crítica e, mais do que isso, aparecia nas mãos de cantores famosos ou mesmo nas sugestões de políticos como Lula da Silva. Por aí chegou mais longe, e os editores de outros países começaram a pedir o livro e a querer comprar os direitos, estando Torto Arado vendido neste momento  em dezasseis línguas, incluindo o chinês, o inglês e o catalão. Depois, vieram os pedidos de adaptação cinematográfica e teatral, não apenas para o Brasil, mas para espectáculos na Europa, como o que em breve estreará pela mão de Christiane Jatahy, que na segunda-feira passada ganhou o Leão de Ouro na Bienal de Veneza pelo seu trabalho no teatro, que alia o político ao poético. Foi uma felicidade saber que esta carioca que é uma «observadora impiedosa da crueldade do mundo» tem nas suas mãos um livro como Torto Arado. E ainda há-de vir aí o filme ou a série, esperemos para ver, que fará chegar o romance ainda a mais público. Caramba, nunca o júri do Prémio LeYa, ao votar em 2018, tinha ideia desta fantástica bola de neve.

Liberdade de expressão

Há uns dias, o Facebook enchia-se de partilhas de um vídeo com a canção de Chico Buarque Com Açúcar, com Afecto, cantada por Nara Leão, Maria Bethânia e tantas outras grandes vozes do Brasil, quando não pelo próprio Chico, claro, a solo ou em dueto. Foi, aliás, esta enorme figura a responsável pela partilha em massa da canção ao declarar que não voltaria a cantá-la (e provocando o efeito contrário). E porquê? Porque os grupos radicais feministas, sobretudo um deles, chamado WOKE, acham que se trata de uma canção que apela ao machismo e à submissão das mulheres e não pára de se manifestar publicamente contra o cantor, que certamente perdeu a paciência e prefere poupar-se a isso. Não sabem, porém, esses grupos  que foi a própria Nara Leão quem pediu a Chico aquela canção do doce predilecto que aguarda o marido infiel em casa, e não sabem também que escamotear é a melhor maneira de fazer com que o erro perdure. Paradoxalmente, querem liberdade e esquecem-se da liberdade de expressão... Sobre este assunto, aliás, saiu um muitíssimo interessante pequeno ensaio, Todos os Lugares São de Fala, de Paulo Nogueira, que é um manifesto pela liberdade de expressão num tempo em que as redes sociais estão cheias de polícias, em que começámos a censurar os nossos textos quase sem dar por isso, em que umas luminárias quaisquer decidiram que um escritor heterossexual não pode escrever um romance com um protagonista gay e uma poestisa branca não pode traduzir os textos de uma negra. Leiam-no e dêem-no a ler. E ponham a tocar a canção de Chico Buarque, não podemos deixar que nos calem, ainda por cima, sem açúcar e sem afecto.

Saber e ignorância

Imagem

Lembro-me de na juventude ter vergonha do que não sabia e de, com a idade, ter a sensação de que, quanto mais lia e consultava, mais noção tinha do que me faltava saber. Porém, de há uns anos para cá desvalorizou-se o conhecimento, e há até quem se orgulhe arrogantemente de ser ignorante. Já aqui contei, creio, que Richard Zimler disse uma vez num festival literário que, na maioria dos Estados dos Estados Unidos (desculpem a frase coxa), «intelectual» é um insulto. Bem, é claro que é cómodo para um preguiçoso contentinho com a sua vacuidade (estou a pensar em certos americanos que vemos em filmes) dizer que a cultura não serve para nada; mas também é um facto que muitos governantes em muitos países prefeririam decerto ter só ignorantes como «súbditos», pois desse modo ser-lhes-ia muito mais fácil dominar a população e fazer a seu gosto. Felizmente que a cultura e o saber ainda são valorizados em certos sítios, sobretudo naqueles que contribuem decisivamente para que o nosso conhecimento aumente, como por exemplo, as bibliotecas. Nelas,  o alimento deve ser intelectual e espiritual e a aquisição de conhecimentos claramente vista como algo que contribui para o crescimento individual. Daí que não resista a partilhar esta imagem que encontrei no Facebook (perdoem não traduzir). Uma pérola.


272676558_10224394278235972_302068960264018339_n.j


 

O que ando a ler

Já me tinham falado várias vezes de uma jovem escritora irlandesa, Sally Rooney, creio que sobretudo a propósito de um romance chamado Gente Normal, a partir do qual fizeram uma série televisiva de grande sucesso que, por acaso, até vi e achei interessante, na medida em que de uma história em que se passa muito pouca coisa se consegue criar uma cumplicidade electrizante com o espectador. Não querendo ir a esse livro enquanto não me esquecer do que vi (na minha idade, as coisas evaporam-se rapidamente e assim leio esse romance mais virginalmente), escolhi um outro da mesma autora chamado Conversas entre Amigos que, para ser completamente sincera, ao princípio me pareceu bastante banal, mas, lá está, ao fim de umas cinquenta páginas começou a densificar-se e, sobretudo nesta segunda parte que estou a terminar, a tornar-se muito mais aliciante (vem aí dor e mais dor, quase de certeza...). O título não engana e o romance trata das relações de um grupo de amigos (sobretudo duas raparigas na casa dos vinte, universitárias, e um casal um pouco mais velho e bem na vida) que parecem muito permissivos e abertos até ao dia em que uma paixão de uma das raparigas, a narradora, pelo marido da amiga mais velha vem chocalhar um pouco as ligações entre todos. É uma aprendizagem também sobre como as novas gerações olham para os relacionamentos amorosos e os casamentos, sobre a mentira, a traição, o amor, o ciúme e a inteligência como forma de atracção. Espreite-se, espreite-se.