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A mostrar mensagens de 2023

Boas festas

Hoje já deve andar tudo a meio gás, a preparar-se para as festas, a fazer as últimas compras, a ver se o bacalhau está de molho há tempo suficiente e se não falta a canela para a aletria e as rabanadas. E eu não fujo à regra, dando os últimos retoques nos livros que vão ter de ir imprimir no final de Dezembro para saírem em Fevereiro. Estamos à beirinha do Natal e, ainda a recuperar de duas cirurgias à coluna, vou aproveitar a semana que vem para ver se me endireito... Por isso, desejo por aqui a todos os Extraordinários umas boas festas: não comam muito, mas, se possível, devorem bons livros. Eu espero ter alguns no sapatinho e certamente falarei deles aqui no blogue mal regresse. As Horas Extraordinárias também tiram férias até Janeiro. Boas entradas a todos e até já!

Portugal-Espanha

Chegou o final do ano e, com ele, vêm evidentemente nos jornais as escolhas dos críticos que elegem os melhores em todas as áreas, e os livros, claro, não são excepção. Porém, como se queixava um dos meus autores um dia destes (e com razão), são quase sempre estrangeiros os livros que os críticos escolhem entre os seus preferidos (e muitos são obras clássicas, nem sequer novidades, apenas novas edições). Já se sabe que há uma certa mania nacional de só prestar atenção e valorizar o que vem de fora, mas realmente custa a entender que a crítica ignore sistematicamente tantos livros bons e portugueses que saíram ao longo do ano. Por mera curiosidade, fui consultar a «Babelia» (suplemento cultural do diário espanhol El País) do fim-de-semana passado e, lá está, a maioria dos livros escolhidos pelos críticos (e são 50!) é de autores espanhóis. Outra coisa curiosa é que um número apreciável de livros traduzidos dessa lista de 50  já tinham saído em Portugal no ano passado, ou seja, somos mais apressados, de novo, em pôr cá fora livros de outras línguas, enquanto aqui ao lado parecem dar mais importância aos escritores da pátria. Pode sempre dizer-se que a Espanha tem mais autores de peso, mas, se relativizarmos, será mesmo verdade? Não será o desinteresse de alguma crítica que acaba também por fazer com que as editoras apostem menos nos autores de ficção nacional e mais na literatura traduzida que já traz o sucesso acoplado? Uma reflexão para os dias que aí vêm.

Dickens mais uma vez

Se perguntarem às gerações mais jovens qual o filme que lhes vem à cabeça assim que pensam em Natal, tenho a certeza de que baterá o record uma coisa muito cómica chamada Sozinho em Casa; porém, no meu tempo, não era assim, e talvez muitos se lembrem de algum dos filmes baseados nessa obra fantástica de Dickens chamada Um Cântico de Natal (A Christmas Carol). Para que conste, entre 1901 e a actualidade foram feitos cerca de trinta filmes, incluindo as versões animadas, uma delas com o Mr Magoo; mas a da minha época, que vi na sala incrivelmente grande do então cinema Monumental (ao Saldanha), chamava-se Scrooge (o nome do protagonista) e tinha como actor principal o inesquecível e várias vezes laureado Albert Finney, que representava como ninguém o papel do avarento, macambúzio, anti-social e anti-Natal, a quem três fantasmas mostram o horror que foi a sua vida (e que pode continuar a ser) por conta da sua obsessão com o dinheiro. Falo disto porque saiu recentemente uma edição deste pequeno romance pela Guerra e Paz, que pode constituir um bom presente para o sapatinho de um leitor jovem que goste de boa literatura. O livro, que tem edições com títulos vários em português (Um Conto de Natal, Um Cântico de Natal...), é uma lição de vida que faz todo o sentido nos tempos que correm, nos quais o vil metal tem um papel demasiado importante na sociedade.

Os guardiães dos livros

Hoje os mais velhos, como eu, queixam-se muito do desaparecimento da figura do livreiro, aquele que sabia claramente o que tinha na loja, a prateleira onde estava qualquer livro, conhecia os clientes e aconselhava-lhes novidades que chegavam de fora, dava sugestões quando uma pessoa perguntava o que haveria de dar a um menino de doze anos pelo aniversário... Hoje há cada vez menos livreiros assim, que lêem muito, que andam a par do que se vai publicando no mundo, que têm esse bichinho de não conseguir deixar de falar do livro que os entretém com os leitores que entram na sua livraria. Não sei se deram por que, na última sexta-feira, publiquei um excerto de um livro que constitui, grosso modo, um diário e as recordações de uma conhecida livreira do Porto, Dina Ferreira, fundadora da mítica Poetria. Ela é «uma das 60 pessoas que fazem do Porto uma cidade melhor», «uma das 400 escolhidas para terem um busto na Livraria Lello» e também uma promotora de eventos poéticos, mãe, avó, tradutora, enfim... muita coisa. O seu livro A Mais Bela Profissão do Mundo merece a leitura de todos os que adoram ler e sobretudo dos que esbarram nas livrarias com algumas criaturas que se vê logo que nunca leram um livro. Um excelente presente de Natal, atrevo-me mesmo a dizer, para dar a um bom leitor. A edição é da Poetria.

Ensinar a escrever

Todos nós fomos naturalmente ensinados na infância a ler e escrever. Mas ensinar alguém a escrever um livro, a escrever uma obra de ficção, a escrever poesia, é realmente possível? Ou, pelo contrário, o talento para isso nasce com a pessoa e não pode ser ensinado? Quando comecei a trabalhar com livros, vi que havia escritores estrangeiros que eram, simultaneamente, professores de Escrita Criativa em universidades. Cá em Portugal ainda não havia nada parecido, mas, com a globalização, lá foram aparecendo cursos e oficinas para todos quantos querem tornar-se escritores, umas vezes ministradas por autores de respeito (Mário de Carvalho já trabalhou a escrita de ficção e até escreveu um bom manual), outras por vedetas da literatura dita comercial. Sei que algumas dicas (uso a palavra como indicações) podem de facto ajudar alguém com talento, mas desorganizado; não acredito que, sem o talento, se chegue lá, por mais cursos e oficinas que se frequentem. Há tempos assisti a um documentário (algo chatinho) sobre o finalista do Booker Prize Percival Everett, professor, entre outras coisas, de Escrita. E ele dizia uma coisa interessante: que, quando ia a uma livraria e comprava uma antologia de contos, percebia logo quais eram os autores que tinham feito oficinas de escrita criativa, porque todas as histórias estavam escritas com as mesmas regras e o mesmo figurino. Será que este tipo de apoio à escrita de ficção acaba por espartilhar o espírito criativo em vez de alargar os horizontes?

Excerto da Quinzena

Saí ontem de casa com uma ideia bastante vaga de como iria decorrer a tarde, disposta a deixar-me conduzir pelos meus passos. Não é bem verdade porque pelo menos tinha dois objectivos: 1) ir até à rua onde está o café que tem quadros do Miguel Ribeiro expostos; 2) ir à Cooperativa Árvore onde estava o corpo sem vida de João Semedo. Há dias vi o Miguel na Poetria a comprar livros de poesia, febrilmente como sempre. Achei-o mais gordo mas com a mesma cor macilenta, os olhos sem luz e a mesma voz de criança tímida. Disse com uma calma desconcertante que tinha um linfoma. Aliás, vinha de mais um tratamento no Hospital que era o que lhe provocava aquele inchaço no rosto. E então prometi-lhe que ia ver os seus quadros, sem ficar com o nome da rua, em frente ao Cemitério do Prado do Repouso [...]. Mas acabei por descobrir tudo: a rua (Ferreira Cardoso), o café (afinal churrasqueira Nova Era), os quadros, a casa (magnífica) onde o Miguel já não mora e, oh surpresa, o próprio Miguel sentado a uma mesa da Nova Era, sozinho, a comer queijo acompanhado de um copo de vinho. Bom vinho, como constatei depois de aceitar o convite para me sentar e brindar com ele «à poesia» como sugeriu. Quando lhe disse que queria ir conhecer o cemitério dispôs-se a acompanhar-me para me mostrar a campa de Eugénio de Andrade, da autoria de Siza Vieira, em mármore liso de aspecto depurado e austero com gardénias plantadas num dos lados e um poema gravado, do próprio Eugénio, que termina com os versos: «A morte não existe / tudo é canto ou chama» [...]


Despedi-me do Miguel e segui para a Árvore, onde me deparei logo com uma bateria de jornalistas no exterior com os equipamentos prontos para a notícia. Lá dentro, muita gente, das artes, do teatro, da política, claro, muitos jovens, um vídeo a passar imagens de muitos dos momentos da vida do João Semedo [...] No modesto «livro de condolências» não resisti a transcrever os dois versos do poema gravado na campa do Eugénio [...]: «A morte não existe / tudo é canto ou chama» [...].


 


Dina Ferreira, A Mais Bela Profissão do Mundo: História de Uma Livraria, seguido de Os Dias de Uma Ex-Livreira à solta, Poetria, 2022

Hoje há Cesariny

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Um dos poemas que sei de cor e gosto de dizer alto (De Profundis Amamus) pertence a Mário Cesariny, de quem, como já todos sabem, estamos este ano a comemorar o centenário do nascimento. As sessões em sua homenagem têm acontecido um pouco por toda a parte, de norte a sul do País, e hoje é a vez de se associar à festa também o Museu do Fado. Levados pela imaginação febril e a boa organização de Aldina Duarte (uma fadista que lê muito e que lê muita poesia), o dia neste museu vai ser então dedicado ao referido poeta e artista plástico, abrindo logo às 10h00 com uma mostra de pintura e desenho de Mário Cesariny pertencente à colecção do realizador Miguel Gonçalves Mendes, autor do filme (Autografia) que será exibido no auditório ao final do dia. Mas pelo meio haverá leituras da obra de Cesariny por vários fadistas (à hora do almoço, para fazermos uma digestão feliz), tais como Aldina Duarte, Francisco Salvação Barreto, Tânia Oleiro ou Ricardo Ribeiro (outro grande leitor de literatura!) e uma conversa entre o já citado realizador e o jornalista e crítico Nuno Pacheco, que é um amigo da poesia e do fado. Um dia em cheio para amantes de Cesariny!


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O primeiro dramaturgo

Hoje é dia de celebrar o nosso primeiro dramaturgo digno desse nome: Gil Vicente. Quando eu andava na escola, este autor era mesmo uma lufada de ar fresco, pois, fechados no cinzentismo do regime, podíamos finalmente largar umas gargalhadas com alguns vocábulos que usualmente não apareciam nos textos («caganeira», por exemplo) ou corar com um «fi de puta» que persistia, apesar de as selectas literárias terem muitos cortes. Porém, a poesia de Gil Vicente vai estar hoje em grande no El Corte Inglés, às 18h30, numa sessão de leituras organizada por José Anjos no âmbito do ciclo Poem(Ar). Ao organizador vão desta vez juntar-se os maravilhosos encenadores Miguel Loureiro e Miguel Sopas e ainda o violinista Francisco Ramos, para interpretarem passagens da obra poética e dramática do nosso Gil Vicente, retiradas por exemplo do Auto da Barca do Purgatório ou do Auto da Barca do Inferno, obras que permanecem actuais porque os defeitos das pessoas não mudam e  continua a haver sacristas por todo o lado, na Igreja, na política e na sociedade em geral. Vamos? É na sala do Âmbito Cultural e só podemos sair de lá bem-dispostos.

Viajar com livros

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A única coisa que pode tornar uma viagem muito melhor são mesmo os livros. Quando vou de férias para uma praia, no Verão, preocupo-me em levar leituras suficientes ou escolher um lugar onde haja, pelo menos, uma livraria decente. Mas partir para um lugar porque se leu um livro ou se gosta de determinado autor e se quer ver por onde ele andou (ou as suas personagens) é ainda mais aliciante. O escritor de ficção portuguesa João Pinto Coelho, autor de romances como Perguntem a Sarah Gross ou Um Tempo a Fingir, resolveu gizar viagens aos cenários de alguns dos seus livros, logo a começar pelo primeiro, cujo enredo passa por Cracóvia e Auschwitz. Pertenci aos primeiros passageiros que seguiram este percurso e afianço que vale a mesmo a pena. No último Verão, falhei a viagem à Toscana, mas já estava com problemas de locomoção, e pelas fotografias de quem foi postadas nas redes sociais fiquei cheia de inveja. E vejo agora que, longe de se cingir a obra própria, o nosso João Pinto Coelho criou uma viagem que, ainda por cima, também inclui poetas, pelo reino de Sua Majestade Carlos III. Hum... cá por mim a ideia parece fantástica e vou estudar datas e percursos. Deixo-vos aqui todas as informações para quem esteja interessado. Sei que já há datas esgotadas, mas imagino que, como nos concertos, se criem novas viagens se os inscritos forem muitos.


«UM COMBOIO NA BRITÂNIA» A Revista (fliphtml5.com)


REVISTA DIGITAL BIBLIOTECA TOSCANA (fliphtml5.com)


https://online.fliphtml5.com/ykzts/wekq/


 


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Bons ventos de Itália

Embora nos anos setenta se lessem em Portugal muitos escritores italianos (e até antes, mas nessa altura era eu uma miúda), parece que na década de noventa se começou a olhar sobretudo para a literatura anglo-saxónica, e tantos autores de qualidade da bela Itália (com a honrosa excepção de Umberto Eco) passaram ao lado da edição portuguesa. Graças a Deus que mais recentemente a coisa mudou, e basta referir Paolo Giordano e o seu incrível A Solidão dos Números Primos ou a tetralogia A Amiga Genial, de Elena Ferrante (que obteve um retumbante sucesso no mundo inteiro e até se tornou série de TV), para mostrar que o erro cometido no passado foi felizmente temporário. E agora aparecem muitos autores italianos mais jovens, alguns estreantes, como o Paolo Cognetti de As Oito Montanhas (agora também um filme), Bernardo Zannoni com o multipremiado As Minhas Estúpidas Intenções (um hino à leitura) e também a muito promissora Beatrice Salvioni com o seu Malnascida, uma estreia auspiciosa passada na Itália de Mussolini que fala da relação entre duas adolescentes com origens muito distintas (uma é a Malnascida) que se tornam amigas e cuja relação acabará por pôr em risco a vida de ambas: o livro, de resto, começa com um cadáver em cima de uma delas... Muito bem contada, esta é uma história de um tempo que, habitualmente, não pertence à pena de autores mais jovens, o que torna a leitura ainda mais fascinante; e foi outro dos livros que uma leitora deste blog que encontrei à porta da FNAC também tinha comprado...

As vendas

Tenho ideia de que, quando comecei a trabalhar na edição, era decididamente mais difícil vender livros fáceis do que a verdadeira literatura. Tinham passado pouco mais de dez anos sobre a Revolução e, por isso, havia ainda muitas marcas de analfabetismo; os menos estudados liam revistas, mas as pessoas que compravam livros regularmente eram regra geral gente informada, culta e exigente. Recordo-me de que, na primeira editora para que trabalhei, uma colecção de policiais, com livros de autores como Ruth Rendell, Chesterton ou Michael Crichton, vendia bastante menos que a colecção de ficção literária (que tinha autores como McEwan, Ishiguro ou Updike e até autores pouco conhecidos como o irlandês Frank Ronan que, hoje esquecido, à época era um autêntico bestseller). Hoje, quanto mais prémios e boas críticas tem um livro que publico, mais espero que ele venda; mas não, na maioria das vezes não acontece. Apesar de ter lido recentemente que Portugal é um dos mercados editoriais em alta com uma subida nas receitas de 6,5%, uma das razões apontadas para esta subida é justamente a importância dos influenciadores no TiKToK, que fazem disparar um livro para os TOP quando os aconselham; porém, os livros que aconselham são geralmente ficção comercial ligeirinha ou biografias de famosos, incluindo a do príncipe Harry. Ou seja, será que Portugal, que nunca recuperou do seu analfabetismo, vai ficar pelos livrinhos que não fazem pensar e vai a caminho de uma outra espécie de analfabetismo? Tudo indica que sim. 


P. S. Hoje, na Biblioteca do Palácio Galveias, em Lisboa, Alberto Manguel falará ao fim da tarde de Italo Calvino. 

Crianças de todo o mundo

Já nem sei porquê, veio ter comigo uma informação curiosa que abaixo partilho, até porque vale muito a pena ver as ilustrações e os mapas. Trata-se de um artigo de um site independente sobre quais são actualmente os livros infanto-juvenis mais populares por país, incluindo alguns países de que já nem lembrávamos a existência. O modelo de investigação (pontuação no Goodreads, por exemplo) vale o que vale e dificilmente corresponderá à verdade em muitos dos países; mas o artigo para mim foi muitíssimo interessante porque, desde logo, mostra factos inescapáveis, sendo o primeiro de todos que, numa enorme mancha do continente africano, não há livros favoritos (ou seja, ou a população infantil maioritariamente não lê, ou não há maneira de recolher a informação, e o espaço é deixado em branco). Mas, se é mais ou menos pacífico reparar que Alice Vieira lidera o TOP em Portugal e o feiticeiro Harry Potter é líder no Reino Unido, é já bastante supreendente ver que, nos países da América Latina, os livros preferidos da garotada são todos muito diferentes, havendo títulos específicos para o Chile, a Argentina, a Costa Rica, a Colômbia, etc. Também engraçado é concluir que, apesar de certamente as escolas recomendarem muitos clássicos (Alice no País das Maravilhas ou alguns livros de Dickens, por exemplo), a pequenada prefere obras contemporâneas, o que pode ter que ver com a circunstância de os autores estarem vivos e se mostrarem nas escolas ou nas televisões e isso ter outro sabor. Por último, para não ser exaustiva (leiam o artigo), é incrível como as crianças de certos países lêem livros de 700 páginas, enquanto noutros não passam das 40... Em época de Natal, em que se oferecem livros às crianças, inspire-se aqui neste link:


https://thetoyzone.com/most-popular-kids-book-from-every-country


 

Autorias

Há uns tempos, li uma notícia que me intrigou: Maria João Lopo de Carvalho iria escrever uma história dos Cinco e Sara Rodi histórias d'As Gémeas, colecções com as quais muitas das pessoas da minha idade e mais novas começaram a ler por prazer, com personagens e enredos criados pela falecida Enid Blyton, sempre com um tom de mistério muito envolvente. É verdade que os herdeiros da autora britânica devem ganhar bem com isto (digo eu) e, portanto, facilmente permitem que, em todo o mundo, outros escritores de livros juvenis se substituam à sua avó, bisavó, tia-avó ou lá qual seja o parentesco. No fundo, acredito que quem conheça bem estas obras em que se comiam sanduíches de pepino e muitas salsichas ao pequeno-almoço e se faziam partidas tremendas no colégio consiga dar-lhe dignos sucessores. Mais estranho para mim é que se contrate em Inglaterra alguém para inventar novas aventuras do grande Hercule Poirot, já que Agatha Christie está junto dos anjinhos, e nem com as penas das asas destes pode já redigir crimes e castigos; mas o investigador belga não pode morrer, pois os fãs exigem mais e mais, pelo que já chegou às livrarias Noite Feliz, assinado pela escritora Sophie Hannah, a quem tiro o chapéu, pois substituir-se à imaginativa Christie deve ser... obra. Leiamos para confirmar se está à altura.

O que ando a ler

Leio com prazer mais um romance russo de uma escritora de quem já aqui dei fé quando me estreei na leitura da sua obra com Sonechka (que era mesmo mesmo literatura russa desde a primeira linha). Ludmila Ulitskaya esteve recentemente em Portugal, no festival Utopia, em Braga, onde deu uma entrevista à jornalista Isabel Lucas em russo (a única língua em que fala) sobre Mentiras de Mulher, o seu mais novo livro traduzido em português e publicado pela Cavalo de Ferro. Este romance é menos obviamente russo, mais internacional, até mais leve, e fala de uma mulher deixada pelo marido, Génia, que passa algumas temporadas com os filhos em casas de veraneio aqui e ali, encontrando invariavelmente em cada uma delas mulheres que a escolhem como confidente, e até uma adolescente que conta histórias incríveis aos seus dois rapazes enquanto brincam dentro de casa por causa do mau tempo. Mas, se estas histórias parecem evidentemente mentiras, resultam muitas vezes verdadeiras, enquanto os desabafos trágicos de algumas confidentes de Génia, e que a fazem chorar e mesmo perder o sono, frequentemente não passam afinal de mentiras em busca de atenção e carinho. Vou ainda a meio, vamos lá ver o que retira a pobre Génia de tudo isso...

Metais

Na mesma semana em que eu deitava uma última olhadela às provas de uma edição revista de Os Dias de Saturno, de Paulo Moreiras (a sair em princípios de 2024), estava a ler em casa um pequeno livro de poemas de José Carlos Barros (nascido em Boticas) intitulado Lítio e publicado numa colecção muito especial que se dedica aos elementos da Tabela Periódica, sob a batuta de João Pedro Azul, que deve ser assim uma espécie de químico-chefe. Foi curioso por variadíssimas razões, sendo a primeira o facto de o romance Os Dias de Saturno ter como tema central justamente a transmutação dos metais em ouro, a alquimia; mas também porque foram quase simultâneas essas duas leituras e as notícias, então vindas à baila, relacionadas com o lítio, sobre o que levou, no fundo, à queda do governo de maioria socialista. Foram metais a mais numa semana, mas, se no caso do romance de Paulo Moreiras esconderei para já o essencial, guardando-o para quando o livro estiver disponível, não resisto a partilhar um poema de Lítio que, sendo sobre lítio, é também sobre um outro metal, mais do nosso encanto. Leiam-no e desfrutem. Bom feriado.


 


De entre os metais


 


O ferro escolho de entre


os metais


em vez da prata,


do lítio, do


ouro,


em memória dos portões


dos pátios, do garfo


e da faca, das aivecas


do arado,


da grade


da varanda,


como exemplo do que está


ao serviço


das causas


e das pessoas


comuns.

Ainda Eduardo Lourenço

Num ano em que há tantos centenários de autores para comemorar (Eugénio de Andrade, Cesariny, Mário Henrique Leiria, Natália Correia... até o italiano Calvino), é fácil deixar alguém para trás. Graças a Deus, isso não aconteceu ao nosso querido Eduardo Lourenço, que merece ser lembrado por todas as razões e mais algumas, até porque era uma pessoa excepcional. Mas é pelo Pessoa (e não pela sua pessoa) que a Casa Fernando Pessoa (desculpem lá as repetições) promove no dia 7 de Dezembro, com a colaboração do investigador Pedro Sepúlveda,  um colóquio dedicado aos «tópicos pessoanos» do ensaísta e estudioso Eduardo Lourenço. A actividade decorre entre as 10h00 e as 18h00, é de entrada livre e conta com a participação de vários investigadores: Carlos Neto, Fernando Cabral Martins, Flávio Penteado, Joana Meirim, João Dionísio, Nuno Amado, Pedro Sepúlveda, Richard Zenith e Vicenzo Russo. As sessões consistem em debates com dois ou três intervenientes e um moderador, e o programa pode ser consultado na página da CFP.

As capas

Um dia destes, estava a lembrar-me junto de alguém do ofício como eram feitas as capas quando começámos a trabalhar neste mundo dos livros, e até parecia mentira que tivesse existido um tempo assim tão atrasado. Sem contar com as capas desenhadas por pintores consagrados (mesmo na velhinha colecção Vampiro), e pagas generosamente (segundo me contam), os artistas gráficos não tinham outro remédio senão fazer tudo à mão; e recordo uma colecção de obras de António José Saraiva que seguiam um modelo que tinha letras pretas e uma pequena ilustração sobre um fundo creme, fundo esse que (os leitores não o sabiam) tinha por base uma cartolina com areia da praia lá colada, que era usada em todos os livros da série e guardada num armário para que se não perdesse. Doutras vezes, recortavam-se imagens de revistas (os bancos de imagem, se já existiam, andavam com certeza distraidíssimos...) e colavam-se numa cartolina, com outras, de forma a criar uma composição alusiva à história que o livro contava, que depois se fotografava; mas, em muitos casos, a solução era ir pelo mais simples: escolhia-se uma única cor de fundo e outra para o lettering... e já estava! Hoje, com as exigências do marketing e para se sobressair entre os milhares de livros que se publicam todos os anos, as capas têm mesmo de ser chamativas e, para isso, vistas à lupa, pensadas por todos e discutidas às vezes por quem nem leu nada do livro, mas sabe que aquelas cores vão passar despercebidas numa mesa. E quantas vezes alguém nos pede para acrescentar uma frase bombástica que explique o livro a quem eventualmente precisa de um impulso para o comprar? Enfim, e agora também se tornou comum, tratando-se de autores estrangeiros, quererem aprovar a capa e às vezes exigirem duas ou três semanas para responder. Bem sei que o trabalho é hoje mais cuidado e profissional, mas, caramba, para quê tanta coisa à volta de uma simples capa?

Biografias

Lembro-me de que, quando comecei a trabalhar em edição, os leitores de biografias eram essencialmente masculinos e quase todos os biografados personalidades políticas. A partir dos anos 1980, começaram a aparecer romances biográficos, como os que escreveu, por exemplo, Mário Cláudio sobre Amadeo, Rosa Ramalha e outras figuras, e também biografias, romanceadas ou não, mas sempre de leitura fluente como se de ficção se tratasse. Este género literário ganhou asas e público, e hoje, a par do romance histórico, é dos mais lidos em Portugal, sobretudo quando se dedica à nossa própria História, constituindo um meio lúdico de a conhecer sem o peso de sentirmos estar a regressar à escola. Mas as figuras literárias também não podem ser deixadas de fora e, recentemente, fizeram muito sucesso em Portugal as biografias de Pessoa, por Richard Zenith, a de Agustina (O Poço e a Estrada) pela pena de Isabel Rio Novo, a de José Cardoso Pires (Integrado Marginal), por Bruno Vieira Amaral, e a de Natália Correia (O Dever de Deslumbrar), já com três edições, da autoria de Filipa Martins, que não tem parado de percorrer o País para falar do seu exaustivo retrato de Natália. E houve também quem desse atenção à literatura de outros países, como Cristina Carvalho, que se dedicou a William Buttler Yeats, ou a professora Teresa Montero, que escreveu uma nova biografia de Clarice Lispector (já biografada por Benjamin Moser). Vamos lá ver o que nos reserva este final de ano. Ler e aprender.

Excerto da Quinzena

Escrever é o acto de pensamento mais justo. Obriga à escolha cuidadosa das palavras, a recuperar o pensamento que estava fixado e a fazê-lo voltar a mexer-se. Muitas vezes faz com que terminemos com o resultado contrário ao que tínhamos como certo antes de escrever a primeira palavra. Escrever crónicas obriga a um pensamento constante sobre o que nos rodeia, mas o que nos rodeia nem sempre é companhia aconselhável, e pensar sobre isso pode aumentar – para o bem e para o mal – o que antes não se via. Quando me convidaram para escrever crónicas semanais na revista Sábado (que sai à quinta, já agora), foi essa a minha dúvida: quais seriam as consequências de escolher mais uma maneira de ver de perto as coisas que me aleijam? Para me contrariar, aceitei. Enquanto escrevia dei por mim muitas vezes a pôr em causa o que pensava antes e a pensar sobre o que isso quereria dizer. Não cheguei a conclusão nenhuma, mas ao preparar este livro percebi que as coisas dentro da minha cabeça fazem muito barulho. Ordená-las e escrevê-las é ainda o último reduto de sanidade contra esse ruído. Este livro é uma compilação dessas crónicas que escrevi e que agora vieram para aqui viver todas juntas.


Bruno Nogueira, Aqui Dentro Faz Muito Barulho, com prefácio de Miguel Esteves Cardoso e ilustrações de Juan Cavia

Presentes

Como devem calcular (e eu já aqui disse), recebo centenas de livros todos os anos; a maioria são originais de ficção com vista a uma análise, mas também chegam livros em edição de autor; ou publicados por editoras pequenas, que não têm possibilidade de fazer promoção e marketing, pedindo um comentário; e até romances impressos por essas empresas que cobram aos autores ou os fazem comprar meia tiragem dos seus livros e depois quase não os distribuem. Há de tudo e, regra geral, as pessoas estão interessadas numa opinião, em publicidade, ou querem simplesmente republicar porque estão descontentes. Mais raramente, contudo, chegam livros publicados por editoras sérias, apenas como bons presentes. Quando são de poesia, é mais fácil agradecer a atenção ao autor com a minha leitura, porque para a prosa é mesmo muito difícil ter tempo. E um dia destes aconteceu-me receber um destes bons presentes (o título chamou logo por mim: a poesia vende pouco) de Luís Soares Barbosa (já com vários livros publicados); e, ao afastar a capa, logo na badana, o poema tocou-me de forma tão especial, senti com ele tanta afinidade e comoção, que não resisto a partilhá-lo aqui. Se gostam de poesia, este é um livro que não devem perder.


 


trago os meus mortos à flor da pele.


perigosamente inclinados


para dentro.


 


ocupam em mim todo o silêncio.


 


regra geral, não basta:


é preciso juntar os negativos,


certos quartos em pranto,


uma frase


suspensa.


 


os que me morreram aguardam pacientes.


 


comungamos trivialidades épicas,


suas mãos de outrora dissecam as noites,


cautelosas.

Com Calvino

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A Associazione Socio-Culturale Italiana del Portogallo Dante Alighieri (ASCIPDA), que tem por objectivo divulgar e promover a língua e a cultura italianas, convidou-me para participar de uma das sessões que pretendem celebrar o centenário do nascimento de um dos maiores escritores italianos do século XX, Italo Calvino, autor de livros inequivocamente marcantes como As Cidades Invisíveis ou Se numa Noite de Inverno Um Viajante (e a quem falhou inexplicavelmente o Nobel da Literatura, porque ele, sim, era um inventor de livros). A partir da sua obra póstuma, publicada em Portugal com o título Seis Lições para o Próximo Milénio  (Lições Americanas no original, pois eram textos de conferências que teriam lugar na Universidade de Harvard), a série de encontros Calvino: Caminhos Invisíveis toma como tema cada uma das palavras-chave destas lições (que são, simultaneamente, algumas das principais questões que deveriam mobilizar os escritores do século XXI). A minha palavra é «Visibilidade», mas não pensem que tem que ver com a visibilidade que hoje se exige aos autores, coitados, «obrigados» a mostrar-se em todo o lado para poderem vingar. Não, no contexto da lição de Calvino, a visibilidade é a forma de tornar algo visível dentro da cabeça, de imaginar, de conceber outros mundos que ainda não existem, uma capacidade imprescindível em quem quer ser um criador de literatura. Amanhã estarei no Porto a celebrar o escritor italiano e, numa conversa com o professor Paolo Andreoni, falarei de inspiração, imaginação, Rosa Montero, psicose, Patti Smith (calculem!) e, claro, Dante e Calvino e a criação de mundos. Se estiverem pelo Porto, apareçam por lá . Até porque serão lidos excertos belíssimos da lição de Calvino.


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À mesa

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Em muitas casas portuguesas, e não só, era costume pendurar na sala de jantar uma reprodução de A Última Ceia, de Da Vinci, ou outra obra de arte mais moderna que a evocasse. Em casa dos meus pais (que nem sequer eram casados pela Igreja) havia uma bonita gravura a preto e branco com uma moldura cor de prata trabalhada, mas em muitos outros lares de família que conheci enquanto fui crescendo, multiplicavam-se as versões desta ceia de Jesus com os seus discípulos. Mas alguém alguma vez se lembrou de perguntar o que teriam ceado nessa noite? Pois bem, existe agora um livro que talvez nos levante o véu sobre esta matéria. Chama-se A Mesa de Deus: os Alimentos da Bíblia, assina-o Maria Letícia Monteiro Cavalcanti, jornalista e crítica gastronómica, e nasceu de uma conversa entre a autora e o poeta e cardeal José Tolentino Mendonça, que assina o prefácio. A investigação levou dez anos a ser feita, mas agora podemos ficar a par das refeições e de todos os alimentos presentes no Antigo e no Novo Testamento e, como diz o texto da editora Quetzal, «entrar na Bíblia pela porta da cozinha». A mim está a crescer-me água na boca e nem sequer gosto de livros de receitas. E desse lado, há curiosidade? Não é todos os dias que nos sentamos à mesa com Deus.


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O Brasil em Portugal

Na semana passada foi anunciado mais um vencedor do Prémio LeYa (que é para romances inéditos em língua portuguesa). Nesta edição, concorreram mais de 900 livros vindos de muitos países do mundo, incluindo os Emirados Árabes, denotando que aí vive algum escritor  ou escritora de língua portuguesa; só obras enviadas do Brasil foram mais de 500! E, pela terceira vez em quatro anos (durante o ano da pandemia não se atribuiu o prémio), a obra vencedora foi justamente de um autor brasileiro. Depois de Itamar Vieira Junior (que começou com o Prémio LeYa a sua jornada de sucesso, tendo vendido só no Brasil mais de 700 000 exemplares de Torto Arado, hoje vendido em mais de vinte países), Celso Costa venceu com um romance que evoca a importância da educação intitulado A Arte de Driblar Destinos e, há dias, foi Victor Vidal o autor de Não Há Pássaros Aqui (que terei o prazer de ler pela primeira vez não tarda). Curiosamente, a última edição do Prémio Literário José Saramago contemplou a obra de outro brasileiro, Rafael Gallo, Dor Fantasma; e até o recentíssimo Prémio Armando Baptista-Bastos, instituído pela Junta de Freguesia de Santa Maria Maior em Lisboa e cuja primeira edição aconteceu este ano, foi dado a um jornalista brasileiro residente em Portugal há vários anos, Álvaro Filho, com o livro Disfarça, Que Lá Vem Sartre. É o Brasil a fazer das suas em Portugal!

Pensar palavras

Às vezes dou comigo a pensar em palavras e ando com elas imenso tempo na cabeça. A minha avó nunca dizia «estore», usava a palavra «gelosia», e curiosamente «gelosia» é também o vocábulo italiano para «ciúme»: um ciumento é um «geloso», palavra que se aproxima do «celoso» espanhol, que tem o mesmo significado, por sua vez próxima do termo português «zeloso», que hoje tem pouco que ver com ciumeiras e com as gelosias através das quais podemos espreitar o que andam a fazer as pessoas que nos provocam ciúmes. Será que uma «gelosia» tem realmente que ver com a outra? Confesso que achei graça à imagem da espreitadela, mas não estou certa. Por outro lado, achei um dia destes que também poderiam ser aparentadas as palavras «asilo» e «exílio», uma vez que os exilados pedem muitas vezes asilo nos países para onde fogem ou são enviados, e ao ouvido o som nem é assim muito diferente; mas aqui a etimologia é claramente distinta: enquanto o asilo, na base, quer dizer refúgio, lugar protegido, o exílio está ligado a degredo e banimento e inclui a partícula «exil», que indica desde logo algo exterior, que fica fora. E, pronto, hoje era só isto.

Bolaño poeta

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Hoje sai para os escaparates a obra poética completa de Roberto Bolaño (o último «autor-mito», como diria Eduardo Lourenço, da nossa época, a par de David Foster Wallace, mas muito mais lido internacionalmente). Bolaño escreveu em vários registos, que não raro se misturavam, e os seus romances (Os Detectives Selvagens ou 2666, por exemplo) são a parte da sua obra mais referida e elogiada, o que é curioso, porque o escritor chileno achava que a poesia é que era uma forma de arte superior. Com tradução do jornalista e editor Carlos Vaz Marques (que é um apaixonado de Bolaño) e prefácio de Manuel Villas (autor que se tornou conhecido mundialmente com o romance Ordesa, por cá intitulado Em Tudo Havia Beleza, mas também poeta), a Poesia Completa de Roberto Bolaño é um cuidado volume de capa dura e sobrecapa que ultrapassa as 400 páginas e será um excelente presente de Natal para quem gosta de poesia e de Bolaño (pode ser que mo ofereçam antecipadamente, pois não vou esperar até lá). Segundo o texto da editora Quetzal, que o dá à estampa num acto de amor e coragem, muitos dos poemas de Bolaño «são profundamente autobiográficos e – como a generalidade da sua ficção – estão cheios de poetas e artistas famintos, errantes, em cenas de pugilato, loucos por sexo, magoados, egocêntricos, mergulhados na noite, à beira da penúria, literatos corruptos ou canções que nunca foram escritas. É um mundo interminável, belo e terrível». Como resistir?


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Colégios

A minha geração leu na juventude uma data de livros em que as meninas andavam em colégios internos e ali faziam partidas tremendas às professoras ou choravam que nem Madalenas com saudade dos pais. Era também uma situação comum em raparigas de carne e osso que haviam perdido as mães, cujos pais se tinham separado ou que eram completamente inaptos para as educar, e bem assim em rapazes que se portavam mal e iam de castigo para o colégio interno, geralmente de padres e na província. Num dos estabelecimentos de ensino que eu própria frequentei, com centenas de alunas (na altura, éramos só meninas ou só rapazes), embora quase todas as estudantes fossem externas, havia umas pobres miúdas que viviam no colégio. Vindas de longe, de alguma aldeia perdida no mapa, as freiras davam-lhes a escolaridade, cama e roupa lavada em troca de trabalhos de limpeza e, quem sabe, na esperança de reunirem ao seu rebanho mais umas ovelhas que quisessem um dia ser noviças. Mas há quem tenha frequentado colégios internos para ter uma educação de excelência, como Fleur Jaeggy, a escritora suíça que trabalhou na mítica editora Adelphi, de Roberto Calasso, e acabou sua mulher, além de escritora. O pequeno romance Felizes Anos de Castigo (que é uma obra de culto e acaba de sair em Portugal com tradução de Ana Cláudia Santos) parte provavelmente da sua experiência para nos contar a história de uma rapariga que vive em colégios internos desde os oito anos, colégios esses que recebem ordens da mãe dela, que vive no Brasil (talvez com um segundo marido), e aonde o pai a vai buscar uma ou duas vezes por ano para passarem férias juntos em hotéis, nunca existindo uma casa de família. A chegada de uma aluna nova, Frédérique, sofisticada e inteligente, será uma brecha na monotonia dos seus dias sempre iguais, excepto pelas mortes de progenitores que vão acontecendo e que criam separações e feridas que não saram em muitas colegas. Publicada pela primeira vez em Portugal, uma autora que importa acompanhar.

Pais, novelas e romance

Já há muitos anos que ouço dizer que, na América Latina, o escritor mais vezes indicado ao Nobel é o argentino César Aira. Roberto Bolaño, por exemplo, disse que, quando se começava a ler Aira, nunca mais se conseguia parar. Confesso que nunca tinha lido este autor; tenho a  certeza de que haverá livros dele lá por casa (na biblioteca conjugal), provavelmente na língua original, mas há sempre tantos livros que se nos impõem que um ou outro autor acaba ficando para trás. Felizmente, a Cavalo de Ferro publicou recentemente duas pequenas novelas de César Aira e, caso pudessem passar despercebidas, vestiu-as com uma capa amarela berrante, o que foi bom, pois serviu para me chamar a atenção. (E este é um dos livros que a leitora desta blogue que encontrei um dia à porta da FNAC também comprou.) Li a primeira, chamada A Tília (a seguinte é Aniversário), que é sobretudo uma memória de infância do autor com os pais num bairro pobre da província de Buenos Aires. Porém, apesar de bonita e fluida, como as referências ao peronismo são constantes e eu sempre tive imensa dificuldade em perceber o que era exactamente o peronismo (tão depressa de esquerda como de direita, tão depressa de preocupação social como de violência política), digamos que não foi a obra ideal para começar. Para uma história sobre um pai muito especial (como é o de César Aira nesta novela) prefiro de longe o romance de Hector Abad Faciolince, Somos o Esquecimento Que Seremos, editado inicialmente pela Quetzal e reeditado há pouco pela Alfaguara. Vou agora ler Aniversário para tirar teimas.

As mãos

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Diz-se que os italianos não conseguem falar sem gesticular (por vezes até um pouco exageradamente) e que há pessoas que têm mãos que falam. É verdade, e tem graça olhar para elas, embora eu seja bastante contida nessas movimentações e isso nem esteja especialmente relacionado com contenção ou timidez, mais com tensão e stress. O que não sabia era que também há mãos que cantam, e isto pareceu-me mesmo bonito. Porque os deficientes auditivos comunicam através de Língua Gestual entre eles e com quem a domina, como os tradutores dos noticiários ou as pessoas que traduzem conferências, debates, palestras, congressos, etc., com as mãos; mas a verdade é que não havia tradutores de canções para quem as não pode ouvir, e acabo de ler que o projecto Mãos Que Cantam, em associação com o Museu do Fado, está a construir uma base de dados de fados em Língua Gestual Portuguesa. Ao que entendi, Ricardo Ribeiro e Aldina Duarte foram os primeiros artistas a cantar para estes tradutores, e na foto abaixo aparece a reprodução de uma destas traduções. Fiquei ainda mais impressionada com a maravilha quando descobri que o Papa, quando em Agosto esteve em Portugal, foi brindado por um coro de surdos, que cantam, claro, com as mãos.


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Excerto da Quinzena

– Então, senhora Kayleigh, afinal de contas, que tipo de coisas viu?


As pessoas fazem de conta que é uma pergunta perfeitamente normal, mas que normalidade pode haver numa pergunta para a qual se espera uma resposta horrível? Também não sinto que essas perguntas signifiquem que as pessoas se interessam por mim. Talvez isso não seja estranho, talvez as perguntas não tenham como objetivo o interesse pela outra pessoa, mas a curiosidade sobre as vidas que nós pudemos ter levado [...] mesmo assim, eu noto uma pontinha de fascínio mórbido, uma necessidade que leva a fazer perguntas, mas que nunca ficará totalmente satisfeita.


Vi uma rapariga enterrar em direto uma navalha demasiado romba no braço; foi preciso enterrá-la bem fundo para começar a sangrar. Vi um homem dar pontapés ao seu pastor-alemão com tanta força que o bicho chocou aos latidos contra o frigorífico. Vi miúdos a desafiarem-se mutuamente para ingerir uma dose irresponsável de canela. Li textos de pessoas elogiando as qualidades de Hitler aos vizinhos, colegas e vagos conhecidos, assim sem mais nem menos, à vista de todos, para potenciais companheiros ou patrões lerem. Li a frase «O Hitler devia ter acabado o que começou» escrita como comentário à fotografia de uns imigrantes num barco à deriva.


Tudo isto são exemplos desenxabidos [...] São tudo coisas que apareceram nos jornais, contadas por outros ex-moderadores de conteúdos, o que de resto não significa que eu não as tenha visto: as saudações nazis, os cães violentados…, a rapariga com a navalha é inclusivamente um clássico. Há milhares delas por aí, há uma em cada rua, imagino eu: naquela casa onde à noite a luz da casa de banho está acesa, ali está ela, sentada sozinha no chão duro e frio. Mas isto não é o que as pessoas querem ouvir. Querem que eu descreva algo novo, coisas que elas mesmas nunca teriam coragem de ver, coisas que ultrapassam em muito o seu poder de imaginação […]


Hanna Bervoets, Tivemos de Remover Este Post, tradução de Maria Leonor Raven

Cesariny

No feriado de dia 1 não falhei à tradição e fui ver um morto, mas um morto que, graças  a Deus, ainda continua vivo e de quem se comemora este ano o centenário do nascimento: Mário Cesariny de Vasconcelos. Numa das galerias do Maat (um museu à beira-rio em cuja esplanada um simples café & pastel de nata custa 4,5 euros, mesmo para uma pobre não-turista como eu), depois de atravessarmos os excessos de Joana Vasconcelos com o seu Polvo-Valquíria (que, por acaso, eu tinha visto em Macau em 2015, quando fui à Rota das Letras), está patente até Fevereiro uma exposição dedicada ao poeta surrealista que vale muito a pena ver. Se formos à espera da biografia do escritor, bem podemos apanhar uma desilusão pouco depois de entrarmos, porque pouco se diz sobre isso em matéria de informação escrita. A exposição não é sobre o lado da poesia e da vida, embora, claro, as criações plásticas (pinturas, colagens, etc.) de Cesariny e de alguns dos seus contemporâneos sejam, de facto, às vezes, mais eloquentes do que uma frase sobre a época em que viveu, sobre os seus mestres inspiradores, os colegas de loucura, os vícios e até os epígonos (muitos trabalhos de gente mais nova aparecem como alusão ou homenagem e alguns são mesmo muito bons). A compor tudo, há ainda fotografias de Cesariny em várias épocas e, logo a abrir, a porta verdadeira do seu atelier (incrível!). Apesar do preço do café na esplanada, a vista é maravilhosa, o que é um bónus. Aproveitem um dia bom e vão também.

A arte de (não) amar

Frederico Lourenço traduziu recentemente a poesia de Horácio para a Quetzal e temos a certeza de que não vai ficar por aqui em matéria de tradução e apresentação de clássicos. Já Carlos Ascenso André se ocupou de A Arte de Amar, de Ovídio, que li, salvo erro, na edição da Cotovia há muito tempo, observando já (e não eram ainda os tempos do Me Too, nem pensar) como algumas das afirmações do mestre sobre as mulheres poderiam irritar e até ofender as feministas mais radicais e as leitoras que não conseguem situar certas obras na época e no contexto em que foram escritas. Disto mesmo falava Mário Cláudio um dia destes no Facebook (citando um excerto de A Arte de Amar especialmente «colorido»), e a filha de um amigo nosso que dá aulas de literatura clássica em Inglaterra contou-nos que, nas primeiras aulas do semestre, é obrigada a descrever exaustivamente aos seus alunos de que tratam certas obras e autores (Ovídio e A Arte de Amar, por exemplo) para que estejam avisados do que aí vem; mas (pior!) esses alunos podem recusar-se, só pela temática anunciada, a estudar certos livros por motivos ideológicos, concluindo o curso universitário sem chegar a ter posto os olhos em autores essenciais. E Ovídio, diz ela, é geralmente o mais banido... É a arte de não amar a literatura...

Amigos dos livros

Só uma pessoa que ama verdadeiramente os livros tem certos gestos de respeito e consideração para com os seus donos. Não estou a falar de não virar os cantos, dobrar a lombada ou até sublinhar um livro emprestado. Falo, sim, de uma história bonita que uma velha amiga, jornalista do Expresso, contou um dia destes no Facebook.  Dizia ela que na véspera lhe haviam entregado um livro que fora da sua mãe antes de ela ter nascido e que a mãe teria emprestado esse livro a uma amiga pouco depois de o ter comprado e lido; ora, a amiga nunca chegou a devolver-lho, certamente por distracção, como tantas vezes acontece, e a coisa ficou esquecida. Mas eis que, tantos anos passados (tanto eu como essa jornalista temos mais de sessenta, por isso façam as contas), vem agora o livro parar às mãos desta minha amiga e do irmão, que são os seus legítimos herdeiros. Não se sabe se o gentleman que teve esse gesto bonito é filho ou sobrinho da pessoa que ficou indevidamente com o livro, porque a mãe da jornalista podia tê-lo emprestado a qualquer uma das irmãs; mas o senhor achou-o no meio de outras coisas enquanto estava a recuperar a casa dos avós e, ao abri-lo, reparou que estava assinado, pelo que resolveu contactar os actuais donos e devolvê-lo. Temos a noção de que, se não gostasse de livros, provavemente não teria valorizado a propriedade daquela brochura envelhecida, deitando-a fora ou não se dando ao trabalho. Porém, alguém que gosta mesmo de livros tem normalmente estas atenções. 

Fábula contemporânea

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Falo-vos hoje de um dos romances de estreia mais marcantes que li até hoje: As Minhas Estúpidas Intenções é a história fascinante de Archy, um macho de fuinha nascido na miséria, mutilado ainda jovem por um acidente e vendido como escravo pela mãe a um raposo usurário chamado Solomon, que resolve ensiná-lo a ler a Bíblia em segredo. Este conhecimento faz de Archy um milagre da zoologia, mas também um ser estranho que acaba por não encaixar em lugar nenhum. À medida que a vida de Archy é transformada pelos livros e pela ideia de Deus, ele começa paradoxalmente a ter saudades da sua velha existência guiada pelo instinto. Mas não pode desaprender o que aprendeu, nem conciliar as suas pulsões mais selvagens com dilemas éticos, ou o seu desejo de transcendência com as suas necessidades animais. Escrever sobre a sua vida e passar a outros o conhecimento é a tentativa de Archy de vingar o destino a que a mãe, afinal, o quis condenar. Vencedor de uma série de prémios no ano da sua publicação, incluindo o prestigiado Campiello, este é um romance excepcional de um autor ainda muito jovem que promete dar que falar.


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Afinidades

Acredito que muitos dos que aqui vêm regularmente tenham afinidades entre si. Ainda que muitas vezes os comentários originem desconfiança, discórdia ou até acesa discussão, é fácil perceber que, como diz o Carlos Tê, é mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa. Vem isto a propósito de uma engraçada história real que se passou na semana em que fui operada. Conheci há uns anos num festival literário uma leitora deste blogue (que em tempos até comentava bastante, mas se deixou disso na sequência de um comentário indelicado de outra pessoa a um seu comentário) e, depois desse primeiro encontro, de vez em quando vemo-nos por acaso num lugar ou noutro. Da última vez, como não podia deixar de ser, foi à porta de uma FNAC que eu frequento bastante por ficar perto do meu local de trabalho, e ela, que vinha a sair, esteve então a mostrar-me os livros que não resistira a comprar. E não é que coincidiam quase exactamente com as minhas compras de uns dias antes nessa mesma livraria? É claro que podemos ter ido ambas atrás de capas bonitas e vistosas, de livros bem expostos, de referências lidas na imprensa, mas eu acredito mais na história das afinidades... Querem saber de que livros falo? Tenham paciência, pois em breve dedicarei a cada um deles um post.

O que ando a ler

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Depois do sublime À espera no Centeio, de Salinger, é preciso muita coragem para escrever um novo romance sobre um adolescente em apuros e com sucessivos problemas escolares. Mas, deste lado do oceano, há quem não se acanhe com o êxito do escritor americano, e Shy, de Max Porter, é a prova disso. Nunca tinha lido nada deste autor, já finalista do Booker Prize uma vez, que escreveu mais uns três livros antes deste; mas a crítica considera-o uma das mais promissoras vozes literárias em língua inglesa e eu posso dizer, por este livro apenas, que há no seu estilo qualquer coisa que vi em Lincoln no Bardo, de George Saunders, talvez na profusão de pessoas que falam à vez (e cada uma representada por um tipo de letra diferente), desde a psicóloga de Shy, que quer desesperadamente ajudá-lo mas não consegue, o narrador externo que acompanha os passos do adolescente na sua fuga de uma espécie de instituição para multi-expulsos chamada «Last Chance» (era mesmo a última oportunidade, depois disto já não haverá nada), a mãe (e é preciso dizer que o padrasto é parte do problema de comportamento de Shy), etc. Pesadelos terríveis, droga, violência, complexo de ejaculação precoce, automutilação, são tudo coisas de que ouviremos falar a propósito de Shy, que de noite caminha com uma mochila às costas cheia de pedras, quiçá evocando os bolsos de Virginia Woolf. Muito curto, muito duro, bastante original.


P. S. Para quem gosta de poesia, logo à tarde a minha multifacetada sobrinha, que também escreve poesia, Rita Pedreira, uma estudante muito diferente do Shy, convida a poetisa Rita Taborda Duarte para leitura de poemas, da qual podem participar todos os presentes com obra própria e alheia. Apareçam! A chuva vai parar.


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Mafra

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Aluguei casa na Ericeira para férias durante uns anos e, nessa altura, ia muitas vezes a Mafra, algumas delas visitar o convento com alguém que ainda não o conhecia, outras almoçar ou fazer compras, sobretudo quando o nevoeiro demorava a levantar. Mas não sabia que Mafra tinha um festival literário que começou ontem e vai até 5 de Novembro. Tem como curador José Fanha (um grande divulgador da cultura que se estreou na TV com um saudoso concurso cultural chamado A Visita da Cornélia, em que participou também Fernando Assis Pacheco) e conta com vários convidados, começando pelo ex-candidato a Presidente da República Sampaio da Nóvoa, mas também Paulo Moreiras, Alberto Santos e Isabel Stillwell (que falarão de história e ficção), Cristina Carvalho, Carlos Fiolhais e André Gago (que se dedicarão ao professor e poeta António Gedeão), e muitos outros autores portugueses, como David Machado, Rita Taborda Duarte, Ana Cristina Silva, Ondjaki ou Álvaro Laborinho Lúcio, que estarão em várias mesas para abordar temas sempre interessantes e ligados à nossa querida leitura. Haverá ainda um concerto de Agir, um encontro de ilustradores e os contadores de histórias que andarão a dar de si pelas várias escolas da zona. É ir, senhores.


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De volta com Ginzburg

Bom dia. Cá estou de volta à nossa sala de leitura, embora, em rigor, não esteja completamente recuperada:  tenho uma costura do tamanho de quinze agrafos coberta por umas fitas que fazem comichão, e ainda tenho algumas dores mas tenho esperança de que, com o tempo, me desapareça o incómodo (afinal, foi esse o objectivo da cirurgia). Mas regresso ao blogue com gosto, mesmo sabendo que rouba tempo e que tenho trabalho atrasado, prometendo algumas histórias e sugestões de livros, como a que vos faço hoje, de conhecerem uma autora que comecei por estudar no Instituto Italiano nos anos oitenta (Natalia Ginzburg) e que está a ser publicada agora em Portugal quase exaustivamente com belas capas, ainda por cima. Eu comecei pelo maravilhoso Léxico Familiar (o mais conhecido livro de Ginzburg, creio), mas podem também espreitar As Pequenas Virtudes, Foi assim ou até o menos interessante (pelo menos para mim) Todos os Nossos Ontens, este com prefácio de Sally Rooney, a conhecida autora de, entre outros, Gente Normal. A obra de Natalia Ginzburg é feita, regra geral, de livros que são romances-documentos-ensaios-memórias-crónicas da vida em Itália durante o nazismo (tudo junto), já que a autora é judia (o seu nome de solteira é, aliás, Levi), viveu o drama do fascismo italiano na pele e esteve presa com o marido, que acabou por ser morto em 1944. Uma autora de mão cheia que importa não esquecer. Amanhã há mais.

Está quase

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Quase, quase a voltar (parece um paradoxo, mas isto não é bem um regresso). Hoje vou tirar os pontos e vamos ver se me dão rédea solta. Tenho estado a trabalhar, mas numa versão mais irregular e vagarosa (alguém mais jovem diria «numa versão soft»). De qualquer forma, quero avisar deste lançamento no próximo sábado. Vá e, se tiver crianças, leve-as também.


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Barnes e etc.

A Quetzal tem vindo a reeditar a obra de Julian Barnes, cujos livros fazem as minhas delícias pela inteligência, o humor e as reflexões sobre a vida e a morte. Alguns deles, que li quando saíram na ASA, aparecem agora com novas capas e quase nunca resisto a espreitá-los de novo ou relê-los. Há uns tempos saiu, por exemplo, Amor & C.ª, a história de um triângulo amoroso que no original se chamava Talking it over, narrada pelos três vértices desse triângulo: Gillian, Oliver e Stuart. Gillian está apaixonada pelo tímido e pacato Stuart, com quem acaba por se casar e que é o melhor amigo do extravagante Oliver. Mas este Oliver, consumado o casamento do seu amigo Stu, percebe que gosta de Gillian e vai obviamente desencaminhá-la... Uns anos mais tarde, Barnes escreveu Amor & Etc., que acaba de ser também reeditado pela Quetzal, em que estas três personagens, já mais velhas e sábias, voltam à carga. E desta vez Gillian está casada com Oliver, que afinal não é flor que se cheire... Stuart, por outro lado, trabalhou e viveu nos Estados Unidos durante muito tempo, ganhou muito dinheiro, voltou a casar-se mas não esqueceu a sua velha amada. De novo, falam os três (e outros), com as suas vozes incrivelmente pessoais e marcantes. Estes dois livros são mesmo bons para ler um a seguir ao outro, muitíssimo sérios e divertidos, como é típico do senhor Barnes, um dos meus autores mais lidos.


P. S. Amanhã vou ser operada à coluna, vou ter de vos deixar por uns dias, mas volto assim que possível. Vão lendo sempre, é o melhor que levamos daqui.

Fosse

Desde que o Prémio Nobel da Literatura foi atribuído ao norueguês Jon Fosse (já indicado em várias apostas como o vencedor) leio as mais díspares opiniões sobre o assunto. Confesso que não conheço a sua obra dramática (não li as suas peças que estão publicadas em Portugal e não me lembro agora se assisti a alguma delas encenada por cá) e que ainda só li dois dos seus livros de ficção que a Cavalo de Ferro publicou (Manhã e Noite e Trilogia, sobre os quais aqui escrevi), mas destes gostei imenso. Contudo, lembro-me de que o recomendei a um amigo que é um grande leitor e que ele achou o texto meio infantil e muito repetitivo, não vendo nele nada de assinalável e achando-o até chatinho. Por isso se percebe que, quanto a Fosse, não haja consenso e tão depressa as pessoas se mostrem indignadas, como digam que é uma chatice absoluta, como elogiem muito. Outros vencedores recentes do prémio que também não reuniram muitos leitores à sua volta  foram, por exemplo, Elfriede Jelinek e Patrick Modiano, além, claro dos poetas, mas isso já se sabe.

Bibliotecas

Para nós, que gostamos de ler, existe um certo voyeurismo no acto de bisbilhotar a biblioteca de alguém conhecido, mais ainda se se tratar de um escritor, já que raramente temos oportunidade de conhecer os autores que gostamos de ler. De que escritores têm mais livros? Em que línguas lêem? Têm instrumentos de trabalho, como dicionários, alinhados na estante? Como arrumam os livros, por ordem alfabética? Que temas ou géneros lhes interessam mais? Têm os livros impecáveis ou bastante subinhados e estragados? A cada maluco sua mania, dizia a minha avó, e agora podemos meter o bedelho em algumas bibliotecas de escritores contemporâneos para descobrir quais são essas manias: o jornal The Washington Post resolveu fazer uma série chamada Book Tour, em que John Williams, jornalista, vai visitar algumas bibliotecas privadas e falar com os seus donos. O primeiro artigo, cujo link vos deixo em baixo, foi sobre os livros de Jennifer Egan, publicada em Portugal pela Quetzal, cujo mais recente livro é, se não erro, Uma Casa Feita de Doces. (Tenho, mas ainda não li.) Se forem curiosos, vão acompanhando.


https://www.washingtonpost.com/.../jennifer-egan-home.../

A violência das redes sociais

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Eis um livro incrivelmente oportuno que me deu imenso gozo ler e publicar sobre o lado mais negro das redes sociais. Conta a história da jovem Kayleigh, que está cheia de dívidas e por isso aceita um emprego como moderadora de conteúdos de uma rede social, cujo nome está absolutamente proibida de mencionar. O seu trabalho consiste em decidir, segundo regras muito apertadas e em constante mudança, que textos, vídeos ou fotos devem ser removidos da plataforma –, passando grande parte dos dias a testemunhar o pior de que a humanidade é capaz. Mas Kaleigh ganha bem, é boa no que faz, arranjou amigos na empresa e até se apaixonou por lá, pelo que, pela primeira vez na sua vida, o futuro parece sorrir-lhe. Só que, de repente, um após outro, os colegas começam a entrar em colapso e a despedir-se, quando não a abraçar as mesmas causas que supostamente deviam censurar… Ambientado no universo tremendo das redes sociais, Tivemos de Remover Este Post é uma história poderosa e absolutamente pertinente sobre quem determina hoje a nossa visão do mundo. Explorando o conceito de moralidade e a forma como este se tornou completamente fluido, destaca o poder das grandes empresas tecnológicas e a forma como controlam, directa ou indirectamente, as nossas vidas. Ian McEwan disse deste livro que era «soberbamente equilibrado, psicologicamente astuto e subtil». No país de origem, vendeu 600 000 exemplares. Faz-nos pensar muito enquanto lemos e depois de o terminarmos.


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25 anos

Realmente, parece mentira, mas a partir de certa idade o tempo voa de maneira absolutamente louca e a verdade é que se completam esta semana 25 anos da atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago (!). A data é, aliás, pretexto para um congresso na Livraria Lello, no Porto, em redor do escritor, congresso intitulado «Que Faremos com José Saramago?» que se inicia hoje e vai até à próxima sexta-feira. A organização está a cargo do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa, da Cátedra José Saramago da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e da própria Livraria Lello, com o apoio da Fundação José Saramago. Falarão académicos e especialistas na obra do autor nobelizado, portugueses e estrangeiros, de idades muito diferentes, como Carlos Nogueira, Carlos Reis ou Annabela Rita, mas também o galego Carlos Quiroga e a italiana Maria Luísa Cusati. A viúva do escritor também participará no painel de abertura. No fim, por certo saberemos o que fazer com José Saramago.

Contar histórias

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David Machado é um dos maiores e mais originais escritores infanto-juvenis que Portugal tem, e é sobretudo um autor que não trata as crianças como tolinhas ou imbecis, trocando-lhes frequentemente as voltas com um toque de non-sense e indo ao encontro dos disparates bons que todas fazem, provocando boas gargalhadas. Desta feita, alia-se a um grande senhor da ilustração, João Fazenda, e o resultado é mesmo mágico. Chama-se Esta História e talvez seja tudo menos isso, constituindo um diálogo maravilhoso entre uma pessoa que que contar uma história pura e angélica e cor-de-rosa a uma criança e, do outro lado, a criança que quer ouvir uma história que seja tudo menos isso, preferindo inclusivamente fazer outra coisa a ter de ouvir a narrativa previsivelmente chatinha que se avizinha. Existe uma gravação belíssima de Esta História feita durante a pandemia, ao espelho, pela talentosíssima actriz e contadora de histórias Ana Sofia Paiva, que é um bom complemento para a leitura desta preciosidade.


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Citar e dedicar

Quando publicamos um livro de autor português, temos sempre de perguntar se há epígrafes, dedicatórias e agradecimentos por causa das páginas que é preciso guardar. As epígrafes são cada vez mais comuns, uma espécie de ponto de partida ou explicação apriorística que justifica o que aí vem; mas ficaram de tal maneira na moda que, muitas vezes, sinto que os autores vão à procura de qualquer frase que ilustre o seu texto quando deveria ter sido a frase a desencadear a escrita do livro. Isso faz-me lembrar uma colega de faculdade com quem tive de fazer um trabalho de grupo que, antes de começar, já tinha um número de citações que queria incluir à força no trabalho... Enfim, com as dedicatórias é diferente, e elas geralmente funcionam como agradecimento, homenagem ou uma espécie de presente. Aprendi, porém, com a newsletter da Livraria Bertrand que nem sempre foi assim e que, na época do Império Romano, se dedicava um livro a alguém importante e com poder para o publicar, e não a uma pessoa íntima, e que as dedicatórias eram muitas vezes longos elogios a esse desejado patrono, tornando-se mais curtas apenas no século XVIII. Hoje em dia, costumam ser bastante curtas, e diz a referida newsletter que maioritariamente contemplam membros da família, amigos, namorados e cônjuges. Já os agradecimentos costumam ir para o final e, regra geral, são dirigidos a quem leu, releu, ajudou a fazer, contribuiu com informações e opinou sobre o próprio livro. Curiosamente, são bem recentes em Portugal, pois nos anos setenta e oitenta era muito invulgar os autores agradecerem fosse a quem fosse.

Excerto da Quinzena

Naquele verão ninguém podia imaginar que esse seria o último verão. Eu lia poesia no alpendre. Lia César Simón e Pessoa. O meu sobrinho flutuava numa piscina da ToysRUs. Andávamos sempre todos de t-shirt e fato de banho. Por vezes saíamos para jantar com alguém ou para fazer compras. Encomendávamos paelhas no Bar Levante e íamos buscá-las. Eu tinha os olhos cheios de estrelas. O meu pai ensinou-me a programar os aspersores, a ligar a máquina depuradora de água e a encarar a hora da rega como uma forma de meditação zen. Ajudei-o a cortar a relva e os ramos dos ciprestes.


A minha avó, que morrera no ano anterior, surgia de vez em quando nos corredores com o seu avental com flores, com a sua caixa de costura nova. Ensinava-me a descascar batatas, a enfiar a linha na agulha, a fazer paciências. Ou pedia-me que lhe lesse um poema de Antonio Machado.


Naquele verão, o meu sobrinho comeu arroz pela primeira vez. E o meu irmão e eu demos de comer pela primeira vez a uma criança. Adormeci na espreguiçadeira debaixo da palmeira. Falei ao telefone durante horas junto à piscina. Cruzei-me com velhos amigos dos quais nada sabia há anos, e recordámos episódios da infância. Passaram-se muitas coisas e nenhuma com importância. Nenhuma parecia merecer uma só linha de um livro. Morreu a tartaruga do meu irmão e substituímo-la por outra. Convidei um amigo a subir ao meu quarto aproveitando o facto de todos terem saído. Trocámos confidências e dissemos mentiras no terraço fresco. Escrevi cartas de amor que foram correspondidas. Caíram ninhos e tentámos salvar as crias. A oliveira deu azeitonas. Nada do que nos comove termina. Tudo fica imobilizado, suspenso, como se alguma vez pudéssemos regressar.


 


Lola Mascarell, Nessa altura já cá não estamos, tradução de Rui Elias

Uma coisa leva a outra

Uma das coisas mais bonitas dos livros é que uns levam a outros. Li, por exemplo, o sarcástico e impiedoso Jules Renard por causa de O Papagaio de Flaubert, de Julian Barnes, e também me acontece regularmente um livro de determinado autor que não conhecia fazer com que leia os outros livros que escreveu antes e depois desse. Foi, de resto, o que me aconteceu recentemente com Tudo É Rio, de Carla Madeira, de que já aqui falei; e comprei pouco depois Véspera, da mesma autora, que me atraiu igualmente por ser uma história de gémeos e eu, sei lá porquê, adorar ler sobre gémeos (lembram-se de O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy?). Neste romance, Caim e Abel, filhos de uma mulher extremamente beata e de um homem que gosta de beber, são dois gémeos idênticos que terão destinos bastante diferentes. Enquanto um brilhará em termos académicos e será feliz no amor, o seu irmão depressa se desinteressará da escola, indo trabalhar com o pai na loja de ferragens, tornando-se um tipo macambúzio e agressivo e, pior do que isso, querendo apenas saber da namorada do irmão. Pareceu-me um livro menos cuidado em termos da linguagem do que o que tinha lido e custou-me acreditar numa diferença tão grande entre os dois protagonistas com os mesmos genes, mas já li que há muita gente que gosta mais deste livro do que do outro, portanto, deve ser tudo uma questão de gosto. A autora, que vem ao FOLIO, vai estar na Livraria Déjà Lu na Fortaleza de Cascais no dia 8. Eu não estarei por perto nesse dia, mas a sessão deve ser bem interessante.

O homem que queria ser amado

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Não é todos os dias que se publica um livro recomendado pelo Papa Francisco, e O Homem Que Queria Ser Amado e o Gato Que se Apaixonou por Ele, do filósofo italiano Thomas Leoncini, é um deles. Conta a história de Christian, um importante agente imobiliário que, no dia em que fecha um negócio de milhões, não consegue sentir a satisfação que esperava e se pergunta, pela primeira vez, se o dinheiro e o sucesso estarão mesmo na origem da felicidade. Nessa altura começa a receber umas misteriosas mensagens anónimas que o levam a empreender uma viagem física e espiritual, sempre acompanhado de Joshua, o gato ruivo que lhe apareceu em casa a pedir festas e não o deixa sozinho um só instante. Mergulhado num ambiente natural cheio de paz e beleza, Christian vai tomando contacto com algumas figuras que o farão reflectir sobre a perfeição que ele sempre tentou alcançar, bem como sobre a sua nova vida, calma, despojada e feliz, que um simples gato o ajudou a ter... O romance, que teve o Papa Francisco entre os seus primeiros leitores, é uma obra ideal para os tempos cínicos e velozes que vivemos, em que, para muitos, parece ser importante o que se tem, e não o que se é.


O HOMEM QUE QUERIA SER AMADO E O GATO QUE SE APAIX


 

O que ando a ler

Já tinha comprado este livro há bastante tempo, mas, por causa das arrumações das estantes que o Manel fez recentemente, foi parar à prateleira e, perdendo-o de vista, esqueci-me dele por uns tempos. Foi só quando fiz um fim-de-semana de descanso para festejar os meus anos, que já são muitos, que o levei comigo. Chama-se Temporada de Furacões, escreveu-o a mexicana Fernanda Melchor e, entre outras distinções, foi finalista do National Book Award para ficção traduzida e do Man Booker International Prize no ano em que saiu nos Estados Unidos e em Inglaterra. É para quem tenha estômago, devo dizer, porque bem podia chamar-se «Feios, Porcos e Maus», já que, além da mãe beata de uma das personagens (o jovem Brando, que é tudo menos isso), não há ali realmente ninguém bom e que se recomende. Vivemos no romance o México do interior, paupérrimo, cheio de narcotráfico, onde todos se drogam com coca, comprimidos e marijuana, onde bebem, se prostituem, agridem, batem, vão à bruxa, tratam mal com a língua e com as mãos, desconsideram os mais velhos, enfim, é mesmo tudo feio, sujo e terrível. A história começa com um grupo de miúdos que encontram um cadáver num canal de rega e, a partir dali, vamos conhecer as várias versões do que aconteceu, sendo que nenhuma delas é boa, aviso, e todas metem sexo, loucura e morte. O livro é muito bom, apesar de não ser fácil de ler porque tem longos parágrafos e fica quase impossível interromper a leitura sem ser no final dos capítulos. Devedora de Rulfo, mas com voz própria, Melchor é um nome a reter.

Contra o veneno

Faz agora vinte anos que conheci Fernando Ribeiro, dos Moonspell. Eu era então editora de José Luís Peixoto, um grande fã da banda que fora interpelado pelo vocalista para elaborar um pequeno livro de contos baseado no álbum The Antidote. O escritor havia sido recentemente galardoado com o Prémio Literário José Saramago, estava mesmo nas bocas do mundo (o lançamento do seu livro Uma Casa na Escuridão tinha tido Eduardo Prado Coelho como apresentador e casa cheia num grande auditório); e a colectânea de contos era, segundo me recordo, escura e gótica mas incrivelmente bonita e com a característica cadência musical do autor. Lembro-me de que, no lançamento do álbum, tive de levar uns tampões para os ouvidos (o Coliseu estava ao rubro, mas não era o meu tipo de música, confesso...); porém, antes disso, foi mesmo muito bom trabalhar com o Fernando Ribeiro que, além de se ter mostrado um grande leitor, era também alguém surpreendentemente com os pés na terra e de uma organização irrepreensível. Agora, comemorando o vigésimo aniversário de Antídoto, o livro volta às livrarias numa edição de luxo, com fotografias de Maria Peixoto Martins, capa dura e sobrecapa. E, não há muito tempo, pude partilhar uma mesa com Fernando Ribeiro numa escola e confirmar que continua a ser uma pessoa muito especial e também um excelente comunicador.


 

Romances gráficos

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Chamam-lhes «novelas gráficas», talvez influenciados por nuestros hermanos, pois em Espanha a palavra romance não está associada a um livro, mas ao relacionamento romântico, e a palavra escolhida para definir uma ficção romanesca lá é mesmo novela (como o inglês novel). Mas, seja romance ou novela, o género está claramente na moda, combinando um enredo profundo com um bom desenho, ou seja, não sendo o que a BD foi em tempos para os leitores preguiçosos (livro de quadradinhos), mas fazendo subir o nível literário (até já houve um romance gráfico finalista do Booker Prize). Encontrei vários romances gráficos de uma autora argentina chamada Agustina Guerrero numa livraria de Cádiz no ano passado e apaixonei-me por eles. Resolvi então comprar dois títulos, e o primeiro sai agora em Portugal. Chama-se A Viagem e trata realmente de uma viagem ao Japão de duas amigas íntimas e do que encontram de completamente diferente na cultura japonesa. Mas é sobretudo um livro sobre a amizade entre duas mulheres de trinta anos e sobre as suas ansiedades, alegrias e neuras (uma quer ter filhos e não consegue engravidar, a outra fez um aborto e está muito marcada pela decisão). Se ainda não aderiu ao género, esta é uma boa obra para começar.


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O nosso Eça

Como seria mais do que justo (imperioso mesmo, dado os que já lá estavam...), hoje seria o dia em que os restos mortais do grande escritor português Eça de Queiroz iriam finalmente para o Panteão Nacional, o que não aconteceu por causa de uma providência cautelar promovida por um ex-autarca de Baião, que não quer que o corpo saia de lá (acha que chama gente ao local) e que conseguiu ser apoiado por seis dos vinte e dois bisnetos do escritor. Mas Eça é daqueles que não morre, por isso é tão importante que continuemos a lê-lo, a relê-lo e a aprender com ele, independentemente do lugar onde estiverem os seus ossos. A Fundação com o seu nome, cujo presidente é um trineto de Eça (o escritor Afonso Reis Cabral), tem, de resto, feito um excelente trabalho neste sentido; e até tinha um programa para o último fim-de-semana na famosa casa de Tormes (a de A Cidade e as Serras) que foi cancelado por causa da polémica, mas cujas actividades incluíam realizar a entrega do Prémio Eça de Queiroz (para um romance de um autor com menos de 40 anos, neste caso A História de Roma, de Joana Bértholo), promover visitas guiadas à casa e mostrar um arquivo seleccionado do escritor, com peças e documentos raros, bem como alguns objectos pessoais que habitualmente não são exibidos publicamente. Agora vamos ter de esperar, e com o tempo que a nossa Justiça costuma levar, Eça continuará no pequeno cemitério em que está mais uns tempitos.

O Regresso de Han Kang

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A autora sul-coreana Han Kang, que venceu (com a sua tradutora) o International Man Booker Prize com A Vegetariana e da qual publicámos mais tarde Atos Humanos (o meu favorito) e O Livro Branco, está de volta aos escaparates com a história de um professor de Grego que está a perder a visão e de uma aluna sua que está a perder a voz. Ambos descobrem, porém, que existe uma dor ainda mais funda a uni-los: numa questão de meses, ela perdeu a mãe e a batalha pela custódia do filho; já ele ganhou o medo de perder a autonomia e o incómodo de, por ter crescido entre a Coreia do Sul e a Alemanha, estar sempre dividido entre duas culturas e duas línguas tão diferentes. Lições de Grego (assim se chama o romance) fala de um homem e de uma mulher comuns que se conhecem num momento de angústia privada – a perspectiva da cegueira dele encontra-se com o silêncio dela. Mas são justamente estes handicaps que os atraem um para o outro, levando-os a encontrar uma saída da escuridão para a luz, do silêncio para a expressão. Muito bom, como sempre.


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Influenciar

Levamos os dias a ouvir falar dos «influencers» ou «influenciadores» e do que pesam na economia de certas empresas. Contaram-me que há um casal lindo já não sei de que país (talvez da Austrália) que é pago chorudamente para andar a passear por tudo quanto é hotel de luxo no mundo inteiro e partilhar as fotografias em piscinas e praias de sonho, fazendo os elogios ao serviço e à localização. Literalmente, vivem de tirar férias todo o ano, o que cá para mim também deve ser bastante cansativo, mas já correram mundo e aparecem sempre lindos e em sítios convidativos, conseguindo que muitos dos que os vêem e lêem lhes sigam as pisadas (tendo dinheiro, claro) e dando muito a ganhar às tais cadeias de hotéis. Nos livros, a coisa não é muito diferente; e, no tempo em que o nosso Presidente era comentador televisivo, os livreiros diziam que às segundas-feiras se notava o movimento de saída de certos títulos que tinham sido referidos por ele na véspera, mesmo que ao de leve. Um dos autores que publico foi recentemente referido muito elogiosamente em três canais de TV na mesma semana por três comentadores (e não pela rama, devo dizer, eles tinham lido o livro) e, uns dias depois, não é que tivemos de reimprimir o romance em causa? Mas, curiosamente, nem as críticas nos jornais nem os programas de livros na TV ajudam muito, estes últimos porque passam a horas impossíveis e porque quem os apresenta não é, obviamente, um influenciador...

Excerto da Quinzena

Mas o melhor era o banho ao fim da tarde, quando o Sol descia e ficava enorme e cada vez mais encarnado, e o mar estava primeiro verde e depois verde mais escuro, e a seguir azul, e depois anil e depois quase preto. E a água estava quente, quente, e havia cardumes de peixes muito pequeninos nadando entre as algas avermelhadas.


E dava gosto mergulhar e dar beliscões nas pernas das mulheres, para que gritassem. E depois que o papá e o tio Arturo e o marido da titi Josefina nos pusessem às cavalitas e nos deixassem atirar-nos dos seus ombros para a água. E depois que um de nós fosse agarrado por dois adultos pelas pernas e os braços e que eles nos atirassem ao ar e dissessem «Cai na água como um gato», e as mulheres, com o traseiro inchado como um balão debaixo do fato de banho em forma de pêra, dissessem: «Não façam disparates com as crianças». E então os homens diziam-nos «Vamos pregar-lhes um susto» e nós corríamos atrás da mãe e das tias e das outras senhoras e elas saíam da água aos gritos e fugiam pela praia fora até que as apanhávamos e as levávamos agarradas até à beira-mar e ali elas sentavam-se na areia cheias de medo e a tia Honorina quase chorava, dizendo ao marido «Não, não, por amor de Deus, Arturín». E nós partíamo-nos a rir quando dizia «Arturín», e chamávamos «Arturín» ao tio Arturo pelo menos durante uma hora, até que nos cansávamos. Mas depois dávamos todos as mãos (e as mãos das mulheres tremiam) e entrávamos juntos a correr na água e atirávamo-nos de cabeça, mas as senhoras não, sentavam-se e ficavam onde a água não passava de três dedos, rindo como galinhas chocas.


Julián Ayesta, Helena ou o Mar do Verão

Morrer com os livros

Há uns dias falei de destruir livros em biblioteas e livrarias, e hoje o livro de que falarei vem a propósito. Diz-se que o autor checo Bohumil Hrabal afirmou ter vivido apenas para escrever Uma Solidão demasiado Ruidosa, romance que se tornou obra de culto para todos os que acreditam que os livros não vão morrer nunca, apesar de muitos os terem, ao longo do tempo, condenado à morte, sobretudo ditadores e líderes religiosos para quem o que traziam escrito podia ser uma ameaça ao seu poder. Mas nem a Inquisição nem a Censura fascista ou comunista foi capaz de matar a memória, e a palavra escrita e, até ver, os livros importantes continuam a ser escritos e lidos contra a barbárie e a arrogância da ignorância. Hanta, o protagonista deste romance de Bohumil, prensa livros e papel há trinta e cinco anos e, não resistindo a ler uma frase aqui e outra ali, acabou por tornar-se um homem extremamente culto que, entre a miséria e muitas canecas de cerveja, cita Hegel e Lao-Tsé. De há muito para cá, numa cave infecta e cheia de ratos (que também vão parar à prensa de vez em quando), separa das enormes pilhas de papel os livros que o mandam destruir e tem, por isso, toneladas de obras literárias no seu quarto de dormir, o que ninguém sabe e poderia perturbar realmente a sua paz. Mas eis que chega a grande prensa tecnicamente desenvolvida (que, na verdade, dispensará o seu trabalho manual), bem como os rapazes e raparigas com fardas coloridas e cursos superiores que são os novos prensadores a mando da nação... Que será do pobre Hanta e dos seus livros? Com um final inesquecível, este romance (que foi censurado na sua época, ensina que o riso silencioso dos livros se ouve sempre, mesmo entre as engrenagens de uma prensa).


 

Aulas gravadas

Leio tanta coisa em tanto sítio que depois perco o norte e já não consigo recuperar as fontes. No entanto, a referência nem é muito importante para o caso. A história tinha que ver com alunos de todo o mundo, mas especialmente de países em que o sacrifício financeiro para tirarem um bom curso é maior, que puseram um processo a uma universidade americana porque, depois de terem pago um valor altíssimo para frequentarem aulas de professores bons e famosos, descobriram que o que a universidade lhes dava não eram aulas ao vivo com esses craques, mas meras gravações. Um escândalo, segundo eles, porque desta forma não podem de modo nenhum interagir com o professor, são meros receptores de conteúdos... e, para isso, tinham ficado nos seus países a assistir pelo computador. Têm razão, evidentemente, e espero que ganhem o processo que instauraram pois, com uma mera gravação, a universidade pode estar a ganhar todos os anos propinas de muitos alunos que vão ao engano. Isto suscitou-me, porém, uma outra questão: o meu irmão mais velho é formado em Direito e teve professores que, embora em aulas presenciais, nada mais faziam do que ler as suas sebentas, iguaizinhas há anos. A minha sobrinha mais velha, que tirou o mesmo curso, passou pelo mesmo e até me contou que havia à venda gravações dessas aulas em pens, porque eram todos os anos iguais. E que ninguém abria o bico para interpelar o professor, que tinha como objectivo apenas despejar a matéria da sua sebenta. Fará assim tanta diferença, em alguns casos, tratar-se de uma aula filmada e gravada? Talvez não. Mas é um abuso trocar uma pessoa por um filme.

Morrer só

Na minha família, uma avó e uma tia morreram sós e foram encontradas já sem vida. Penso sempre que deve ser terrível para alguém sair do mundo sem o conforto de uma outra mão ou uma palavra calorosa de alguém próximo; mas talvez seja lirismo da minha parte. Num livro que já deve ter perto de cinquenta anos (A Morte de Um Apicultor, do sueco Lars Gustafsson), o protagonista, ao sentir as primeiras bicadas da morte, escolhe ficar só; na verdade, ao receber a carta do hospital com o resultado dos exames laboratoriais (não tem telefone, mas vive no campo e nos anos setenta isso era mais ou menos comum), rasga-a e prefere ficar a recuperar ou piorar da sua doença a saber o que tem e tratar-se num centro de saúde onde (lá como cá) as pessoas têm de ir de madrugada para serem atendidas. Vivendo com a eterna dúvida, faz a vida que sempre fez desde que se reformou (era professor primário mas, lá como cá, as escolas fecham e os meninos são mandados de autocarro para a única escola que resiste, a muitos quilómetros dali), que é cuidar das colmeias e recordar o passado: da infância bastante pobre (este homem sempre viveu com os mínimos) aos últimos anos do casamento, passando pelos tempos da universidade e os namoros inconsequentes. Um retrato impiedoso de um país que parece muito o que não é num romance magistral há muito publicado em Portugal numa colecção que fez as minhas delícias, a Pequenos Prazeres da ASA.


 

A poesia que não enerva

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Bem sei que são mais neste blogue os leitores de romance do que os de poesia, mas não desisto de publicitar a saída de de mais um número da revista Nervo, uma revista de poesia que não se verga às dificuldades e está aí viva e de boa saúde para revelar o talento poético de portugueses e estrangeiros. Neste seu n.º 19, lançado no passado dia 2 de Setembro e desta feita ilustrado pela pintora Sofia Areal, as novidades são muitas, desde logo um texto de Carlos Braga sobre o centenário do nascimento da grande poetisa Natália Correia, bem como um texto do poeta e romancista Frederico Pedreira sobre Dylan Thomas, incluindo poemas do autor galês traduzidos pelo seu punho. Mas há mais: textos de Carlos Luís Bessa, Rui S.Magalhães e Regina Guimarães, por exemplo, a par de poemas do brasileiro Iacyr Anderson Freitas ou da polaca Krystyna Dabrowska. Por isso, entre romances ou entre ensaios, atreva-se à poesia e comece, porque não?, pela Nervo, dirigida por Maria de Fátima Roldão.


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O Monte do Silêncio

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Francisco Camacho estreou-se com o incrível Niassa, premiado com o P.E.N. Revelação, e uns anos mais tarde escreveu A Última Canção da Noite. Esteve muito tempo sem publicar, mas agora volta em força com um livro que tem tudo para dar uma bela série de televisão. Chama-se O Monte do Silêncio, passa-se num monte alentejano, e é contado por Diogo, um dos sobrinhos do dono, um rapaz desmemoriado que consome drogas para compensar traumas de infância, alimentados por uma família cheia de segredos. Mas, num Verão em que tudo parecia pacificar-se, Nora, uma afilhada do tio que entrou para a família já adolescente, é encontrada morta; e, ao que parece, alguém viu Diogo no local do crime... Passado entre os anos 80 e os dias de hoje, com um contraste de ambientes que ilustram um país profundamente desigual, este romance é simultaneamente uma sátira sobre uma certa elite portuguesa, uma reflexão acerca do peso da família na construção da nossa identidade e um thriller psicológico com um enredo sinuoso que prende o leitor até à última página. O lançamento é logo à noite, no Teatro A Barraca, às 21h30. Quem apresenta é João Tordo e Pedro Boucherie Mendes.


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Grandes bibliotecários

Todas as pessoas que adoram livros ficam sideradas quando passam ao pé de caixotes de lixo na rua e vêem pilhas de livros que alguém deitou fora como se fossem meras caixas de papel ou cartão. Pior ainda é quando se fala de guilhotinar livros das editoras porque o stock é enorme e as vendas foram fracas... É verdade que os custos de armazenagem são altíssimos, mas oferecer livros a instituições implica o pagamento do IVA correspondente, pelo que a dada altura a única solução é mesmo cortar aos bocados (ai!). Mas isto não se passa apenas em Portugal, e li no mural de uma bibliotecária portuguesa a história de um grupo de colegas suas estrangeiras que se arrepiaram quando souberam que cerca de 2000 livros que não tinham sido requisitados uma única vez ao longo do último ano na sua biblioteca iriam ser... destruídos. Chocadas com aquele procedimento, resolveram então tentar evitar a calamidade e inventaram uns quantos leitores-fantasmas, criando cartões de leitura falsos nos quais eram registadas as requisições de muitos desses livros condenados à guilhotina. Pelos vistos, salvaram uma data de volumes, que continuam lá para quem os queira ler um dia. Contrariedades que desenvolvem o engenho.

Um Nobel da literatura mal conhecido

Li há muitos anos alguma poesia de Rabindranath Tagore, um Prémio Nobel da Literatura oriundo da Índia,  nascido em 1861. Não conhecia, porém, nada da sua prosa (lamento, mas é verdade), talvez também porque ela não abunde em tradução portuguesa e, quando visitamos as livrarias, somos sobretudo chamados por livros vertidos para a nossa língua e livros actuais. Tratando-se de um escritor importante, devemos, pois, agradecer que a E-Primatur (que tem vindo a recuperar alguns clássicos fora de circulação, e não só) tenha recentemente dado à estampa A Casa e o Mundo, publicado originalmente em 1916 e considerado então extremamente inovador pela forma como toma como centro da narrativa uma mulher, cujo marido (um marajá) a ama e ilustra para mal dos seus pecados, pois logo aparece um revolucionário algo interesseiro que a arranca do seu sossego palaciano. Mas é também um livro sobre a dificuldade de um país mudar, se libertar do opressor, se autonomizar, fazer as escolhas certas, ter, em suma, a sua identidade – com todos os erros crassos inerentes às tentativas de alcançar o progresso. Muitíssimo interessante em termos históricos e políticos, às vezes algo rocambolesco e gracioso nos seus volte-face, original na pluralidade de vozes, de vez em quando fez-me recordar, no tom, Hermann Hesse e os seus livros indianos. A Casa e o Mundo foi considerado um dos dez livros asiáticos mais importantes de sempre. A edição portuguesa tem uma capa belíssima.

Bolaño e os contos

Na revista que a Livraria Bertrand me envia regularmente por email (obrigadíssima!), descobrem-se factos e recomendações bem interessantes; de uma destas últimas vezes encontrei ali um resumo de um artigo sobre o escritor chileno Roberto Bolaño sobre alguns conselhos que este romancista, contista e poeta (como gostava de considerar-se, embora para nós seja sobretudo um ficcionista) terá dado sobre a escrita de contos. Além de dizer que quem quisesse dedicar-se ao género não poderia falhar de forma alguma a leitura de contos de uns quantos autores (entre os quais estão, obviamente, Cortázar, Rulfo, Tchekhov, Borges, Bioy Casares, Francisco Umbral, Camilo José Cela e Raymond Carver), Bolaño defendia que não se escrevesse apenas um conto, mas mais de um conto ao mesmo tempo, alegando que, de contrário, se ficaria a escrever o mesmo conto até morrer. Chega mesmo a recomendar no seu artigo, a quem tenha energia para tal, que escreva cinco ou seis contos de uma assentada (e, se tiver pedalada, dez ou doze!). O autor de Detectives Selvagens e 2666, que morreu demasiado jovem (aos 50 anos) e decerto com ainda tanto para dar, era o mais promissor escritor latino-americano da sua geração e é dos mais lidos em Portugal. Mas é também, curiosamente, um admirador confesso de Edgar Allan Poe, cujos contos, segundo ele, quase bastariam como material de leitura para quem quisesse ler uma panóplia variadíssima de contos.

De braços abertos

Já aqui vos falei de um livro de Claire Keegan, a escritora irlandesa que chegou à final do Booker Prize com Pequenas Coisa como Estas, um pequenino romance magistral que me evocou a cinematografia de Frank Capra por uma certa bondade que não é comum. E agora temos disponível em português uma mini-novela (a autora, pelos vistos, é de textos concisos) intitulada Acolher que uma vez mais não deve ser perdida de forma alguma. É um texto belíssimo sobre uma menina – filha de uma família numerosa na qual há sempre bebés no colo e na barriga da mãe (como, aliás, sucedeu na vida da própria autora) – que, num certo Verão, é levada para casa de uma família de acolhimento. E, enquanto vão passando os dias no meio de um amor que ela nunca sentiu dos próprios progenitores, sempre ocupados com os filhos mais novos e o trabalho, nós vamos descobrir um segredo triste que, claro, uma vizinha conta imediatamente à miúda, ou não se passasse tudo num meio extremamente pequeno em todos os sentidos. A cena final faz chorar (não vale ler antes!) e, apesar de não ter muito mais de 60 páginas, é realmente um livro enorme em muitos sentidos. Uma autora a reter, sem dúvida alguma.